segunda-feira, 13 de abril de 2015

Trafaria 1900, cliché Faustino António Martins

Em torno do selo e das colecções por si motivadas produziu-se vasta bibliografia. Começavam, de imediato, as publicações especializadas relacionadas com os selos, dedicadas aos seus coleccionadores.

Selo de D. Carlos I, 25 reis de 1895,
desenho e gravura de Louis-Eugène Mouchon.
Imagem: Delcampe

Álbuns e catálogos foram as primeiras, mas produzidos fora das fronteiras nacionais. Foi preciso esperar pelo ano de 1887, para aparecer a primeira publicação periódica portuguesa, O Philatelista, Orgão do Centro Philatelico Portuguez, propriedade de Faustino A. Martins, publicada em Lisboa, com irregularidade, em 4 séries, até Abril de 1896. (1)

O Philatelista, revista mensal, 1887.
Imagem: Os selos Coroa da Guiné

Supomos ser curioso citar aqui, para ilustrar esta época, o que se escrevia em 1894, no número 3 da série III, de "O PHILATELISTA". Esta revista, dirigida pelo conhecido comerciante português Faustino Martins, criou a partir deste número de sua publicação, uma interessante secção intitulada "Galeria Philatelica".

Nela aparece o "retrato" do coleccionador em foco, e uma breve descrição da sua colecção. Para abrir essa Galeria, com vista a "incitar à imitação", é o próprio Faustino António Martins o número 1 dos quadros que a irão ornamentar.

A ele se refere o articulista a certo passo, nestes termos: "A sua colecção conte cerca de 14.000 variedades, além de mais de 3000 das emissões continentais e coloniais de Portugal, que constituem a mais rica colecção de selos portugueses que temos visto e que certamente existe...". (2)

Faustino António Martins ou F. A . Martins (como assina na maioria dos seus bilhetes postais) foi grande filatelista, director e proprietário do Filatelista (publicação mensal dedicada aos coleccionadores de selos e órgão do centro Filatélico Português).

Torre do Bugio na barra de Lisboa (segundo uma gravura de J. pedrozo), ed. Martins/Martins & Silva, 458.
Imagem: Delcampe

Foi proprietário de um estabelecimento comercial, posteriormente especializado na compra e venda de selos, estabelecimento esse, situado na Praça Luís de Camões Nº35 Lisboa, fundado em 1867, existindo ainda em 1894, como vimos em exemplares da revista.

Faustino António Martins aderiu e torno-se editor e comerciante de cartofilia em 1900, alias muito associada á filatelia. Esta importante casa editora sofreu varias modificações no seu nome: Faustino A. Martins / F.A. Martins / ed. Martins / Martins / ou Martins & Silva entre outras variantes. Usou monogramas de que conhecemos FAM e MS.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O prestigio adquirido pelo seu estabelecimento foi enorme , atendendo á grande qualidade e variedade de exemplares. Iniciou actividade editorial sob a sigla F.A.Martins a partir de 1900, Edição Martins a 1902 e Martins e Silva provavelmente em 1903.

Como outros editores de B.P.I.'s F.A.Martins emitiu juntamente com alguns comerciantes, em regime de parceria e por encomenda.

A sua produção retratou a vida publica e oficial da época, bem como aspectos do território, do povoamento e da sociedade, das actividades económicas e culturais, das paisagens e costumes de quase todo o país.

Como muitos outros editores cedeu clichés ou direitos de uso, por acordo ou venda, a colegas, sobretudo, das cidade e vilas da província, teve a colaboração dos melhores fotógrafos de Lisboa,  do Porto e de Coimbra, bem como de outros pontos da província e usou clichés cedidos por outros editores.

Trafaria — Vista geral, ed. J. Quirino Rocha, 01, década de 1900.
Imagem: Delcampe - Oliveira

Todos os seus postais são numerados por ordem crescente em árabes.

Trafaria — Vista parcial, ed. J. Quirino Rocha, 07, década de 1900.
Imagem: Delcampe - Oliveira

Conhecem-se-lhe a colecção "Portugal" e as sub colecções: "Lisboa", "Collection portugaise" "Collecção Portugueza" "Collecção Relvas", "Lisboa Typos das ruas" e colecções de Costumes entre outras. (3)

Trafaria — Vista geral, ed. Martins/Martins & Silva, 1201, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Faustino Martins foi um comerciante de filatelia com estabelecimento na Praça Luis de Camões, nº 35 em Lisboa que dizia em 1888 ao referir-se ao seu negócio: "... do nosso estabelecimento, sem dúvida hoje o primeiro da Europa na especialidade do comércio e pelo enorme depósito de muitos milhões de selos que possuimos de todo os países do globo". (4)


(1) Em Torno do Selo Postal Português
(2) A Evolução das Coleções Clássicas
(3) Nazaré em Postal Ilustrado
(4) Os selos Coroa da Guiné

sábado, 11 de abril de 2015

Nossa Senhora do Cabo

Nossa Senhora do Cabo (do Espichel) — famoso santuário da Extremadora, ao S. do Tejo, na freguesia de Santa Maria do Castello da villa e concelho de Cezimbra, commarca d'Almada.

Sesimbra, Cabo Espichel, vista aérea.
Imagem: Delcampe

Fica o templo, no Cabo do Espichel, a que os romanos chamavam Promontório Barbarico [...]

Sobre um rochedo do Cabo, se vé uma ermidinha, denominada Miradouro, que, segundo a lenda, memora o sitio onde appareceu a Senhora, por isso, chamada do Cabo.

Outros, porem, affirmam que a Senhora foi achada na praia, inferior ao dito rochedo, e que apparecéra sobre uma jumentínha, que subira pela rocha, deixando n'ella impressos os vestígios das suas pegadas — que o tempo fez desapparecer, mas que os mordomos da Senhora fizeram de novo gravar. 

Chegando a este sitio vem com admiracao sobir a Sra pela rocha,
painel de azulejos do interior da Ermida da Memória.
Imagem: O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar e o modo de os dar-a-ver

Diz-se que uns velhos de Caparíca, que vinham a estes sitios cortar lenha, foram os primeiros que acharam a santa imagem da Virgem, e por isso, foi o povo de Caparica o primeiro que festejou a Senhora do Cabo, hindo todos os annos com o seu cirio, em Romaria á Senhora, no primeiro domingo de maio.

A fama dos milagres obrados pela Senhora do Cabo, em breve se propagou por estas redondezas e as offértas e esmolas, foram em tanta quantidade, que, próximo á ermidinha (edicola) primitiva, se construiu o sumptuoso templo que hoje alli admiram.

Não se destruiu a ermidinha, e juncto a ella foi construida (1671) uma fortaleza, para proteger os povos d'estes sítios, das invasões inopinadas dos castelhanos, sendo regente, o infante D. Pedro, depois rei, D. Pedro II, do nome.

Ignora-se o anno em que a Senhora appareceu, só se sabe que foi no principio do reinado de D. João I.

Em 18 de novembro de 1428, Diogo Mendes de Vasconcellos, senhor do terreno em que estavam as ermidas da Senhora, fez disto doação aos frades dominicos de Bemfica, por escriptura publica, lavrada nas notas de Affonso Martins, tabellião publico da villa de Cezimbra.

Era o doador, cavalleiro e commendador de Coimbra e Ourique.

N'esta escriptura se dá ao sitio da ermida, a denominação de "Santa Maria da Pedra de Múa" [...]

A imagem da Senhora do Cabo (a que appareceu no século XIV) é de bôa esculptura, mas tem apenas um palmo d'altura, e está em uma ambula de crystal dentro de um sacrário.

Imagem de N. Sr.a da Pedra Mua.

São muitos os cirios que de varias partes concorrem ao santuário da Senhora do Cabo.

Os giros principiaram em 1430. Os de Caparica, vão todos os annos festejar a Senhora, no primeiro domingo de maio.

À memória do amigo , José Alves Martins (Papo-Seco), o organizador do último "Círio" que saiu da Costa de Caparica para o Cabo Espichel [...]

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: Costa da Caparica no Facebook

O "Círio" tinha muita grandiosidade, e chegou a ter como juiz monarcas, e quando desembarcava em Porto Brandão ou Banática, as populações acorriam a receber os visitantes com
foguetes e música enquanto os sinos repicavam.

À frente, homens cavalgando, cavalos brancos, e vestidos com trajes romanos que anos depois. passou a ser três garotos que cantavam as "loas" (quadras alusivas ao acto) acompanhados pela música. 

Atrás do carro com os filarmónicos a seguir a berlinda (que se encontra no Museu dos Coches em Lisboa) com
a Imagem. acompanhada por carros de todo o feitio e tamanho, repletos de pessoas. e grande cavalgada com que fechava o cortejo.

O Círio de Nazaré em Belém do Pará, revista Puraqué, 1878.
Imagem: Biblioteca do Círio

Era assim, antigamente, o "Círio do Cabo", e a propósito dele, o britânico Beckford, descrevia o regresso do Marquês de Marialva, no "Cirio" em 3 de Junho de 1787, dizendo cheio de pasmo: "Vinham acompanhados o Marquez de Marialva e o filho D. josé duma multidão de músicos, poetas, toureiros, lacaios, macacos, anões e crianças de ambos os sexos fantasiosamente vestidas".

O inglês que nunca tinha visto um espectáculo daquela grandeza dizia ainda que os criados conduziam gaiolas com pássaros, lanternas, cabazes com frutos e grinaldas de flores.

Seguiam alegres e saltando com grande alegria dos garotos. os quais com as suas vestes, mais pareciam habitantes do Céu do que da Terra, levando casinhas presas aos ombros.

Diz ainda o escritor: "Alguns destes "anjinhos" de teatro eram extremamente formosos e tinham o cabelo garridamente disposto em anéis".

Todo este cortejo quando vinha da margem norte desembarcava em Porto Brandão ou Banática como iá dissemos anteriormente era na capela do lugar que ouviam a primeira missa.

No concelho de Almada, só a freguesia de Caparica fazia o Círio, mas sem a imagem.

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: ed. desc.

Mas o cortejo tinha o mesmo aparato dos de Lisboa, e contavam os velhos, que num círio, do Porto Brandão, num ano saiu, um barco catraio dos que faziam as carreiras entre Belém - Porto Brandão, em cima de uma galera puxada por seis animais, levando dentro a fílarmónica da Sociedade Marítima da localidade. (4)

O regresso da filarmónica da extinta Sociedade Marítima do Porto Brandão, integrada no círio do Cabo Espichel.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

in Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Alem dos cirios comprehendídos no giro vão todos os annos mais os seguintes, que não entram no giro — Lisboa, no 3.° domingo depois do Espirito Santo — Seixal e Arrentella, na 2.a oitava do Espirito Santo — Almada, no domingo da Trindade — Palmella, a 15 d'agosto — Azeitão e Cezimbra, no 1° domingo de setembro. 

Ao principio todas as romarias eram annuaes, e cada uma tinha uma grande tocha (cirio) que accendla durante a sua festa.

É por isso que a estas romarias se dá o nome de cirios.

São 26 os cirios que entram no giro: — Alcabideche, Carnaxide, Tojalinho, Penaferrim, Bellas, Loures, Carníde, Barcarena, Louza, Santo Antão do Tojal, Oeiras, Bemfica, Rana, S. João das Lampas, Monte Lavar, Rio de Mouro, Belém, Cascaes, Odivellas, S. Martinho de Cintra, Almargem do Bispo, Santo Estevam das Gallés, Egreja Nova, Terrugem, Fanhões, e Santa Maria e S. Miguel de Cintra.

Foi instituída a confraria da Senhora do Cabo, pouco depois da construcção do novo templo, mas os seus estatutos só foram approvados em 1672. (Pelo capitulo 2° d'estes estatutos eram excluídos da irmandade o homem que tenha raça de judeu ou de outra infesta nação, e os mulatos. Esta exclusão era imposta em quasi todas as irmandades, até ao fim do século XVIII.)

Também n'este compromisso se determina que, no sabbado posterior á Ascenção, haja na egreja do Cabo, officio de nove lições de canto e orgam, missa cantada e sermão. De tarde procissão e vésperas, e no domingo de manhan, outra procissão, antes da missa.

O capellão da Senhora do Cabo, não pôde intervir nas romarias dos cirios, por lhe ser prohibiáo pelos estatutos.

As freguezias do giro, andam á "compita", a ver qual fará a festa com mais estrondo e magnificência.

Antes de 1710 o arraial estava cercado de casas para abrigo dos romeiros, mas sem ordem nem alinhamento; mas n'esse anno, se deu o risco para o novo arraial, e em 1715, se constrairam hospedarias com dous pavimentos.

O arraial é quadrilongo, com 140 metros de comprido, pelo N., e 100 peio S. com 44 de largo. É aberto pelo E., e fecbado a O. pelo templo. Ao N. e S., estão as hospedarias e mais accommodações, lado com uma arcada geral, onde estão as lojas, podendo chegar-se por baixo d'ella à egreja, ao abrigo do sol e da chuva. Do lado do S. é a residência do capellão.

Do lado do N. ha 63 arcos e 11 escadas de pedra, 21 sobrados, com 46 janellas de frente, e 22 lojas, cada uma com sua janella.

Do lado do S. ha 47 arcos, 9 escadas, 18 sobrados, com 36 janellas, e 18 lojas, cada uma com sua janella.

Cada sobrado e loja, tem uma cosinha, com sua fornalha, uma grande meza, dous bancos e nm cabide.

O senhor d'este terreno (o já referido Diogo Mendes de Vasconcellos) foi o fundador da ermida primitiva, concorrendo para isso o povo de Caparica.


Templo da Senhora do Cabo

Em 1490 se lançou a primeira pedra n'este ediflcio, á custa dos habitantes do termo de Lisboa, e das esmolas e offertas dos fieis. Tendo-o os temporaes damnificado muito, a casa do infantado, padroeira da egreja, desde a extincçâo do ducado d'Aveiro mandou demolir a antiga ermida, e construir o grandioso templo que hoje alli se admira, concluindo-se as obras em 1707. Nos dias 7, 8 e 9 de julho d'este anno, se fez a trasladação com grande pompa, assistindo o infante D. Francisco filho de D. Pedro II, que então era o senhor da casa do infantado. Só nas festas da trasladação, gastou o infante réis 1:660$000.

[Os bens do duque d'Aveiro e seus cumplices, lhes foram tirados, formando-se com elles a casa do infantado, a favor do infante D. Pedro (depois, D. Pedro II) e dos mais Infantes filhos segundos dos nossos reis.]

É um templo magestoso, tendo na frontaria, trez portas e trez janellas que dão luz ao côro. Sobre a cimalha está a estatua da Senhora, feita de mármore branco, dentro de nm formoso nicho.

Tem duas torres, sendo a do N. para o relógio (hoje arruinado.) A do S. tem dous sinos. Á entrada da porta ha um guarda-vento, de bella madeira do Brasil, de boa esculptura. No coro ha am óptimo orgam. As paredes interiores da egreja, são revestidas de mármore branco e preto (extrahido das pedreiras da Arrábida) até à cimalha real.

Tem seis tribanas, e entre ellas, quadros representando scenas da vida da Senhora. O tecto é de abobada, tendo no centro o quadro da Assumpção da Senhora; obra de Lourenço da Canha (pae do famoso José Anastácio da Canha) pintado em 1740. Ao N. (também no tecto) estão pintadas as armas de Portugal, e ao S. as da cidade de Lisboa.

Tem altar-mór, e dez lateraes, sendo estes últimos, feitos á custa de differentes cirios. Em 20 de maio de 1780, houve aqui um desacato. Um monge, natural da Catalunha, roubou a pixide, com as sagradas formas, mas o próprio sacrílego confessou o crime e restituiu a pixide, que foi reposta no seu logar. Em 1770 foi todo o templo restaurado, por ordem de D. José I.


Foi então construida a grande janella da capella mór, fronteira á tribnna real.

As paredes interiores são revestidas de formosos azulejos, e n'elles pintados os emblemas Quasi palma, quasi oliva.

A imagem da Senhora está dentro do sacrário, em um relicário de prata sobre-doirada que foi dado pelo cirio de Lisboa, em 1680.

Tem a Senhora muitas jóias, entre ellas, um ramo de jasmins, de brilhantes, com as folhas de esmeraldas — duas corôas d'ouro, cravejadas de brilhantes: ambas estas jóias, dadas por D. José I. — Tem mais, um ramo de brilhantes e nm manto bordado a ouro, dados por D. Maria I — um manto branco, bordado a ouro, também dado por D. José I — um manto azul, bordado a ouro dado pela rainha D. Carlota Joaquina, mnlber de D. João VI — e, finalmente, um rico manto, dado em 1809, por José Anionio Queiroga e sua mulher. Alem d'estes, outros muitos objectos de muito valor, ainda que inferiores aos mencionados.

Tem o templo duas sachrístias com serventia para a capella-mór, e ambas muito aceiadas.

O templo não preciza de armação, porque os mármores que o revestem, valem mais do que os melhores cortinados.

O throno illumina-se com 60 luzes. Ha dez lustres, de seis luzes cada um: cada altar tem seis castiçaes; e o altar-mór, seis tocheiros — de maneira que nos dias de festa ha duzentas luzes no templo.

A ermida da Memoria, em que já fallei, está próxima e ao N. da egreja. Tem um adro quadrado e o interior da ermida, é lageado de pedra. O tecto é de abobada.

Ermida da Memória.
Imagem: ed. desc.

Em frente da porta, ao E., tem, perto do chão, uma pedra lavrada e apainelada, com esta inscripcão:

CONSTA POR TRADIÇÃO SER ESTE O PROPRIO LUGAR ONDE A MILAGROSA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO CABO APPARECIA, E SE MANIFESTOU AOS VENTUROSOS VELHOS HE CAPARICA E ALCABIDECHE: MOTIVO PORQUE SE FEZ AQUI ESTA ERMIDA, EM QUE PRIMEIUO FOI VENERADA, ATÉ QUE SE TRASLADOU A OUTRA MAIOR, E D'ESTA, Á MAGNIFICA EGREJA EM QUE HOJE EXISTE, NO ANNO DE 1707.

Sobre esta pedra, ha um painel, representando, do alto, sobre nuvens Nossa Senhora com o menino nos braços, e em baixo, os velhos, reclinados, em acção de dormir.

N. S.ra DO CABO
Virgem Maria defendei dos perigos aos que na
vegaó sobre Augoas do Mar

A ermidinha é interiormente ornada com dez quadros, em azulejo, representando a historia do apparecimento de Nossa Senhora do Cabo; tendo cada quadro uma inscripção explicativa.

Do adro d'esta ermida se descobre um magnifico panorama, tanto para terra, como para o mar.

No fundo do rochedo, por este lado, ha uma enseada, onde já tem chegado botes e canoas, com romeiros de Oeiras, Paço d'Arcos e outros logares; mas é muito perigosa.

Próximo à ermida, do lado do O. existem, as ruínas do antigo forte da Senhora do Cabo, principiado em 1672, na regência do infante D. Pedro, depois, D. Pedro II. — Foi construído quando se augmenuram as fortificações das barras do Tejo e do Sado.

Tinha as armas de Portugal, sobre o arco da poria, e por cima d'ella, a casa da guarda. Era defendido por cinco peças de calibre 24.

Ainda em 1800 existia este forte, em bom estado, porem, o tempo, o mar, e o abandono o toem arruinado, e apenas d'eile hoje restam as ruinas.

Fora do arraial, e alem das casas que ficam descriptas, ha outras edificações, que são dependências da casa da Senhora — são — a casa do fôrpo — a casa da lenha — a casa da opera (que fui construida pelo cirio de Lisboa); teve nma ordem de camarotes, mas hoje tem uma galeria geral. A caixa é espaçosa. Teve bom cenario e vestuário, mas hoje tudo está gasto e velho.

Na casa da fabrica do cirio saloio, fronteira á sacristia da egreja, ha grandes armários, onde se guardam vários objectos de copa e cosinha, e de serviço da mesa, para serviço do cirio que entra e do que sáe. Há também uma casa para os pregadores e mais padres que concorrem à festa; e um grande armazém onde se guarda a berlinda, e o carro triumphal.

São notáveis, a casa da agua, e o pharol. Antes de subir à casa da água, ha uma alameda, com cinco ruas, orladas d'arvores, e no fim d'ellas, duas mezas de pedra, com assentos em volta, também de pedra. É n'esta alameda que os romeiros passam grande parte do tempo, em banquetes, danças e descantes [...] (1)

Nossa Senhora do Cabo — No cabo de Espichel (Promontório Barbarico).

Sobre a apparição da imagem veja-se o livro: "Memoria da prodigiosa imagem da Senhora do Cabo; descripção dn triumfo com que os Festeiros, e mais Povo de Benfica, a conduzirão à sua Parrochia em 1810, para a festejarem em 1817," etc, por Frei Cláudio da Conceição — Lisboa, na Impressão Regia. Anno 1817.

O templo é uma fabrica magestosa, com trez portas e duas torres. Ao norte, e perto do templo, está a ermida da Memoria, em cujo sitio é tradição que Nossa Senhora appareceu.

A imagem tem o Menino nos braços. O manto foi bordado pela rainha D. Maria I. A ermida doou-a Diogo Mendes de Vasconcellos, em 1428, aos dominicanos de Bemfica que a habitaram e por fim a abandonaram em razão da aspereza do clima.

Depois passou a administração para a camara de Cezimbra, começando então o cyrio do termo de Lisboa, chamado dos saloios. Um dos duques de Aveiro pediu licença para ir casar ali; desde esse tempo ficou a ermida isenta de direitos parochiaes. (2)

A SAíDA DO CYRIO

PRIMEIRO ANJO

Mãe de Deus! Virgem Santíssima!
Rosa Mystica da aurora,
Estrella da madrugada,
Da terra e dos ceus Senhora!

Porto Brandão, capela da Nossa Senhora do Bom Sucesso, inaugurada em 1864.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

Da egreja do nosso Monte,
Vamos, piedosos romeiros,
Levar-te ao Cabo, onde guias,
Alta noite, os marinheiros!

Que tu dás, Virgem Maria! —
Entre sorrisos e flores  —
Esperança aos desgraçados,
E perdão aos peccadores!

SEGUNDO ANJO

Um dia, sobre uma cruz,
Beijaste teu filho morto!
Conheces todas as dores,
Para todas tens conforto!

A mãe que vê nos seus braços
Um filhinho moribundo,
Se não se apéga ao teu manto,
Quem lhe ha de valer no mundo?!

Agora, mais do que nunca.
Necessita Portugal,
Que lhe protejas seus filhos,
Padroeira celestial !

Portugal, onde tens sempre
Teus floridos sanctuarios!
Portugal, ameaçado
Pelos herejes corsários!

CORO DOS ANJOS

Romeiros, avante, avante!
Na piedosa romaria.
Levamos por companheira
A Virsem Santa Maria!

Charneca de Caparica, Quinta da Regateira, local de passagem do círio, c. 1900.
Imagem: João Gabriel Isidoro

CHEGADA AO CABO

PRIMEIRO ANJO

Ó mar das aguas sem termo,
Do constante labutar!...
Só tu és fanal, Senhora,
De todo este vasto mar!

Só tu, com teu manto azul,
Morenita, morenita,
Sorrindo, as ondas acalmas!
Bemdita sejas, bemdita!

Nasce do lado do norte
Sempre o musgo no pinheiro!
Também dás norte, na terra,
Ao perdido forasteiro!

PARTIDA DO CABO

CORO DOS ANJOS

Adeus, Senhora do Cabo!
Fica-te agora em teu ermo,
Vigiando os navegantes,
Por essas aguas sem termo!

Adeus, adeus! Voltaremos
Outra vez em romaria,
Nós, teus filhos, teus escravos,
Ó Virgem Santa Maria ! (3)

in Bulhão Pato, Raimundo António de, Nossa Senhora do Cabo, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.


(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,
(2) Pimentel, Alberto, História do Culto da Nossa Senhora em Portugal, 1899, Guimarães, Libânio & C., Lisboa

Informação relacionada:
O Occidente
Wikipédia
Santuário de Nossa Senhora do Cabo
A Senhora do Cabo, História e Culto
Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel
O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar ...
Os mistérios do santuário de Nossa Senhora de mua

quinta-feira, 26 de março de 2015

Almaraz

Nome com que se designa a orla esquerda do rio Tejo, em frente a Lisboa. (1)

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Reflectindo-se nas aguas tranquillas do mais vasto e magestoso porto do mundo, banhada pela mansa corrente do seu aurífero Tejo, reclinando-se docemente sobre terrenos de leve pendor, onde aqui e ali brotam macissos de virente vegetação, sob um ceu de pureza inegualavel, e com um clima ameno e vivificante, a cidade de Lisboa revê-se nos terrenos fronteiros de alem-Tejo, semeados de povoações, de fabricas, de matas e de vinhedos, e que descem até a margem do rio por vertentes rápidas, ou por escarpas abruptas.

Baixa e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela base d'esses terrenos e banhadas pelas aguas do Tejo estendem-se as edificações, quasi ininterrompidamente, formando grupos, ou povoações, que tomam os nomes de Cacilhas, Ginjal, Arrábida, S. Lourenço, Affonsina [sic] e Banatica, até a Trafaria.

Baixa e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em cima, Almada, a velha Cetobrica dos romanos, com as muralhas do seu castello e as torres das suas igrejas recorta pittorescamente o horizonte, reflectindo os raios afogueados do sol poente nas vidraças das casas, como se estivessem illuminadas em festa, ou ardendo em chammas [...]

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869.
Imagem: amazon

Na margem do S. ha ainda os seguintes pontos, que servem aos navegantes para a sua derrota:

Plano do porto de Lisboa e das costas adjacentes (detalhe), 1804.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Torrão — pequeno logar que fica mais a W. da margem S. do Tejo.

Calhaus do mar — grupo de pedras que existe próximo do areal da Trafaria.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Trafaria — povoação das mais importantes do S. do Tejo, com grande accumulação de casas de pescadores, facilmente reconhecível.

Trafaria, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Lazareto — edifício de grandes dimensões assente no cimo da montanha e descendo pela vertente, com diversos corpos em amphitheatro.

Torre velha — fronteira á torre de Belém, e a W. do Porto Brandão — logar bem reconhecido, pela grande quantidade de casas que fícam adjacentes áquella margem.

Banatica — logar que bem se distingue pelas pedreiras em exploração, cortando o terreno em talude muito áspero, e ao qual ficam próximas as marcas do limite W. da milha maritima.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Alfanzina — pequeno porto a montante da Banatica.

Porto de S. Lourenço — fica ao N. do logar denominado Palença, e onde está installada uma grande fabrica de cerâmica.

Portinho da Arrábida — a nascente do qual, e na quebrada da montanha, ficam as duas marcas de alvenaria, que dão o limite E. da milha maritima. E com estas marcas e com as da Banatica que se vão acertar os relógios e experimentar o andamento dos navios. A milha official é dada pelo enfiamento dos dois grupos de marcas.

Torre de S. Paulo — na villa de Almada, a W. da povoação e em ponto elevado, uma das marcas mais importantes da margem sul do Tejo.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pontal de Cacilhas — ponta SE. da povoação d'este nome, e limite N. da enseada chamada da Cova da Piedade. (2)

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] arribas da margem sul do Tejo desde Cacilhas à Trafaria. A denominação de Almaraz foi corrente entre a gente de rio e mar até principios do nosso século [XX] mas hoje restringe-se praticamente à quinta desse nome em Cacilhas. (3)


(1) Dicionário Priberam da Língua Portugues
(2) Loureiro, Adolfo, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906
(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigo relacionado:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal


Informação relacionada:
Jornal Público, edição de 2 de julho de 2006

Lamas, Pedro Calé da Cunha, Os taludes da margem sul do Tejo - evolução geomorfológica e mecanismos de rotura, Lisboa, Universidade Nova, 1998, 21.71 MB.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Os Faroleiros, filme de Raul de Caldevilla, 1922

Fundada em 1919, no Porto, por Raul de Caldevilla (1877-1951), pioneiro da publicidade moderna portuguesa e que já realizara um dos mais antigos filmes publicitários portugueses (Um Chá nas Nuvens , 1917), a Caldevilla Film talvez tenha sido a produtora que levou este rumo mais longe.

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla, 1922.
Imagem: Vimeo

A empresa foi responsável pela produção de uma série intitulada A Pátria Portuguesa (1921-1922), constituída por filmes sobre várias localidades e regiões portuguesas (como Sintra ou a Serra da Estrela) e ainda uma outra série sobre as mais importantes estâncias termais do país.

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla, 1922.
Imagem: Vimeo

A popularidade deste tipo de filmes relacionava-se com a possibilidade de mostrar aos espectadores (urbanos) um país (rural) largamente desconhecido e, em muitos casos, de difícil acesso. O cinema permitiria, deste modo, uma “viagem imóvel” do espectador, tradição com origem nos filmes de viagem e nos travelogues ingleses e franceses do início do século, mas empregue neste período não só com a intenção de explorar o pitoresco, mas também de fomentar um sentimento de pertença a (mas também de posse de) um território, fortalecendo assim os laços identitários de uma comunidade. (1)

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla, 1922.
Imagem: Vimeo

Em 1919, Raul de Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial de A Rosa do Adro, dirigido por Georges Pallu para a Invicta Film, anunciado sob o lema "Romance Português — Filme Português — Cenas Portuguesas — Actores Portugueses".

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla, 1922.
Imagem: CINE-PT CINEMA PORTUGUËS

Três anos depois, com mais altas ambições, a Caldevilla Film contratou o francês Maurice Mariaud — que trabalhava para a Gaumont com a incumbência de dirigir Os Faroleiros (1922), um "drama-documentário", de que também foi argumentista e intérprete. (2)

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla, 1922.
Imagem: CINE-PT CINEMA PORTUGUËS

O vislumbre de Raul de Caldevilla está patente no respectivo folheto de divulgação: "O cinematógrafo moderno tem se distanciado muito, nos temas escolhidos e nos fracassos, da técnica de há vinte anos. Já hoje dificilmente se suportam e vão sendo postos de parte no estrangeiro esses longos filmes em séries de enredo complicado e por vezes falhos de verosimilhança. 
Os Faroleiros, o filme de 1922
Elenco Equipa técnica
Abegaída de Almeida Rosa Argumento Maurice Mariaud
Augusto Machado Cabo do Mar Decoração Maurice Mariaud
Casimiro Tristão Pai de Rosa Distribuição Castello Lopes
Castro Neves António Gaspar Fotografia Victor Morin
Maria Sampaio Maria Ana Produção Caldevilla Film
Maurice Mariaud João Vidal Produtor Executivo Raul de Caldevilla
Sebastião Ribeiro Taberneiro Realização Maurice Mariaud
Sofia Santos Mãe de António

in CINE-PT CINEMA PORTUGUËS

O público de hoje, talvez por motivo da vida intensa que leva e lhe proporciona certos lazeres, escolhe de preferência películas de não muito longa metragem".


A rodagem [de exteriores] teve lugar na [Costa da] Caparica [...] (3)

Acompanhamento musical sugerido


(ou, se não gostar, Official Faithless Channel)



(1) Arquivo Municipal de Lisboa Videoteca Publicações
(2) Instituto Camões
(3) Truca 

Informação relacionada:

Cinemateca Portuguesa
amordeperdição 

domingo, 22 de março de 2015

Cacilhas 1946, cliché Mário Novais

Mário Novais (1899 – 1967)

Membro de uma reconhecida família de fotógrafos portugueses com actividade em Lisboa desde o último quartel do século XIX, filho do retratista Júlio Novais (1867 - 1925), sobrinho de António Novais (1855 - 1940) e irmão de Horácio Novais (1910 - 1988).

Cacilhas, largo do Costa Pinto, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Inicia a sua actividade profissional, no início da década de 1920, como retratista na "Fotografia Vasquez". Participa no I Salão dos Independentes (1930).

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Em 1933, monta o seu próprio estúdio, o "Estúdio Novaes", em actividade durante 50 anos, tendo ficado ligado à temática de foto-reportagem, fotografia publicitária, comercial e industrial e ainda à fotografia de obras de arte e arquitectura (área em que se especializou), trabalhando com diversos organismos estatais e instituições particulares.

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

É responsável pela produção das mais importantes coberturas fotográficas de manifestações culturais e artísticas em Portugal e no estrangeiro. Integra o grupo de artistas seleccionados por António Ferro para a elaboração dos álbuns fotográficos Portugal 1934 e Portugal 1940.

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Participa na Exposição Internacional de Paris (1937) com a introdução no circuito expositivo de ampliações de imagens de arquitectura e edição de uma série de postais, intitulada "Coutumes Portugais", representação dos usos e costumes de um povo individualizado em cada um dos rostos captados, na Exposição Internacional de Nova Iorque (1939) e na Exposição de Arte Portuguesa (Londres, 1955).

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Colaborou em diversos periódicos, como a Ilustração Portuguesa, para a qual, na década de 1920, faz a cobertura de acontecimentos políticos, culturais, comerciais e desportivos e como a revista Panorama, já nos anos de 1940.

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Colabora na publicação Vida e Arte do Povo Português, realizada no âmbito das Comemorações dos Centenários, da autoria de Francisco Lage e Luís Chaves.

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O Museu de Arte Popular reúne um valioso espólio documental com obras de sua autoria, expostas nas diversas exposições organizadas pelo S.P.N./S.N.I. (1)

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O espólio de Mário Novais, retratista e mais tarde excelente fotógrafo de arquitectura e obras de arte, foi em 1985 adquirido pela Fundação Gulbenkian e confiado ao seu Arquivo de Arte. (2)

Cacilhas, cacilheiro, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Como refere Luis Pavão, responsável pelo tratamento e arquivo da colecção, esta chegou ao Arquivo de Arte da Fundação, e aí permaneceu durante dois anos, tendo sido abertas apenas algumas caixas com o intuito de inspecção.

Nessas inspecções detectou-se a presença de negativos em nitrato de celulose, material altamente inflamável. Conscientes então do perigo que esta quantidade de material fechado numa sala sem climatização poderia causar, levaram a Fundação, no início de 1990, a por em marcha todo um processo de tratamento.

Mário Novais, por António Sena da Silva, 1960.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

A digitalização da colecção, que agora podemos consultar via computador, foi logo pensada de início, e se à época o modo digital era quase uma ficção, hoje é o sistema adoptado e vulgarizado nos arquivos. (3)


(1) Museu de Arte Popular
(2) Alexandre Pomar
(3) SAISDEPRATA-E-PIXELS

Informação adicional:
Wikipédia
Estúdo Mário Novais no Flickr

quinta-feira, 19 de março de 2015

2 de fevereiro de 1926

O GOVERNO
CONTA DOMINAR
O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO
DURANTE ESTA NOITE

Cacilhas, movimento de dois de Fevereiro de 1926, major Faria Leal.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O sr. Governador Civil declarou-nos, ás 18,30,  que até agora não há suspensão de garantias.
Aconselhamos a população amanter calma, e a recolher cedo a casa, embora não haja intimação para isso.
O Governo conta dominar os elementos revolucionarios de Almada durante a noite. (1)

Movimento de dois de Fevereiro em Almada, forças de infantaria 16 e GNR após o desembarque em Cacilhas, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O CASO DE ONTEM

Por muito habituados que todos estejamos a aventuras sem consistência nem finalidade, a que mereça a pena sacrificara tranquilidade pública, não deixamos de nos confessar surpresos com o movimento de ontem.
É mais um caso de sentimentalidade politica.
Em boa verdade, descontentes que todos estejamos com a marcha dos negócios públicos e o descontentamento não vem do agora, não vemos, sinceramente, imparcialmente, conscientemente, razão para se pretender levar a cabo um golpe de Estado contra a actual situação politica.
Um estrangeiro que entre nós vivesse para estudar a nossa psicologia politica e social não seria capaz de compreender o movimento de ontem. Nós proprios, um pouco mais familiarizados com o caracter politico e partidario da nossa gente, não encontramos explicação directa.
lndirectamente, como dizemos, o acontecimento, tão lamentável, fundamenta-se em razões platónicas de sentimetalismo.

Cacilhas, largo do Costa Pinto, forças da GNR preparando-se para o ataque aos revoltosos, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Mas esse sentimentalismo de revolta não tem raízes na alma popular. Não significa isto que o pais reconheça como perfeito o estado actual de coisas.
Mas as revoluções estäo desacreditadas, e muito mais o estão os movimentos isolados, sem preparação séria, sem ambiente, sem condições de qualquer sorte.
São aventuras, símpáticas a alguns, mas antipáticas ai grande maioria da Nação.
Este governo, que está constituído em condições normais, não será melhor do que os antecedentes, segundo o pensamento dos seus adversários.
Mas não é peor do que os outros, e antes oferece garantias — as garantias possíveis n nossa indisciplinada sociedade-de realizar uma obra lenta e serena de reconstrução. Os seus componentes são honrados, patriotas, decididos a uma obra de purificação.
As divergências politicas, de resto, repetimo-lo, resolvem-se dentro da legalidade.
E os republícanos não devem nunca afastar-se deste campo, por maiores que sejam, e mais fundas, e mais patrióticas, as suas incompatibilidades pessoais e partidárias.

Cacilhas, rua Cândido dos Reis, forças da GNR assestando uma metralhadora, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O governo dominou a situação. Que a aventura de ontem, que algumas vítimas causou, estragos materiais e péssimo ambiente moral, sirva de lição — quantas vezes temos escrito isto! — é o nosso desejo, e certamente o de toda a Nação.

Uma granada dos revoltosos cortou ao meio o pau de bandeira da Cadeia de Almada.
Na Outra Banda, não caiu nenhuma granada atirada de Lisboa, parece que em virtude dos propósitos da artilharia do Castelo.

Auto-retrato (detalhe), 1929.
Imagem: Tamara de Lempicka
Uma senhora estrangeira, ontem, à noite no Avenida Palace:
— E ganham os revolucionários?
— Não minha senhora, não têm probabilidades.
— Pobre familias deles, que vão ficar presos por toda a vida!
Ninguem retorquiu nada.


O CHEFE DO DISTRITO
FALA
AO DIÁRIO DE LISBOA

 
Ás 16 horas, o sr. dr. Barbosa Viana entre no seu gabinete do governo civil.
Pouco depois, chega o sr. dr. Crispiniano da Fonseca.
O sr. dr. Barbosa Viana recebe-nos:
— Há duas noites que não sei o que é dormir!
— Como teve v. exa. conhecimento da revolução?
— Pela polícia de informação. Imediatamente avisei os ministros da Marinha e da Guerra.
— Soube logo no dia 1, do plano dos revolucionários?
— Tinha apenas vagas informações. Ontem, de manhã, é que soube que eles haviam ido sublevar as forças que se encontravam em Vendas Novas.
— Tinham possibilidades do vencer?
— Não há nenhum movimento revolucionário que tenha possibilidade do triunfar. desde que as autoridades constitucionais tomem logo providências enérgicas e adoptem uma acção decisiva.

Almada, o acampamento dos revoltosos após a rendição às tropas sitiantes, revista Ilustração n.° 4, 16 de fevereiro de 1926.
Imagem: Hemeroteca Digital

Continuando:
— As revoluções são sempre iniciadas por meia duzia de audaciosos. e so os deixarem tomar posições à vontade e ganhar terreno podem vencer.
— Diz-se que a Marinha se recusou a combater os revoltosos?
— Creio que tal não se deu. O quo posso afirmar, com enorme satisfação, é que o Exército e a Guarda procederam com a maxima disciplina, não se poupando a sacrifícios para a manutenção da ordem. (2)

Os revolucionários presos, conduzidos, entre a escolta, para o Porto Brandão.
Imagem: Hemeroteca Digital

GOVERNE!

Agora o Governo que Governe.
O incidente passou e, feitas as declarações necessárias no Parlamento, o acontecimento deixa o rescaldo para os jornaes, e o resto será com a justiça.

Os revoltosos de Almada, dirigindo-se para o Porto Brandão a fim de embarcarem para o navio onde ficarão detidos.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Simpatias, antipatias, ódios, se os ha, lamentações, aplausos e críticas — deve a eles ser o Governo alheio.
E é, com certeza.
Não suponha o sr. Antonio Maria da Silva que só são seus amigos e confiantes da sua obra aqueles que o incensam. Não creia o sr. presidente do Ministerio que são mais patriotas e mais republicanos os que andam cerca dos seus gabinetes. A posição de independência de um jornal, como de um individuo, não lhes arrebata o sentimento de justiça.

Dr. Lacerda de Almeida e Martins Júnior, chefes dos revoltosos posando para O Século em Porto Brandão, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Com a sua experiencia, honradez, decisão e prudência reconhecidas, continue o sr. Antonio Maria da Silva imprimir ao seu Governo uma orientação de trabalho ponderado e constante. Alguns dos seus colaboradores bem merecem por sua inteligência e boa vontade.
 Há muito que fazer. Preparar a proposta da questão dos Tabacos. É uma questio aberta do Governo — disse-nos o sr. ministro das Finanças. Mas tem que haver uma base. Ela que surja.
Qualquer solução nos interessa, desde que ela seja a mais favoravel e ao interesse do Estado. O Monopólio é antipático. A Regie — pela qual não quebramos lanças — tem defensores, entre os quais o próprio ministro das Finanças, e muitos adversários. O regime de liberdade e concorrência parece preferível. O governo que se habilite, sondando a opinião pública autorizada.

Porto Brandão, movimento de 2 de Fevereiro, os revoltosos subindo para bordo do Pêro de Alenquer, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A obra de reconstrução financeira e económica deve merecer a este governo atenção "imediata". O "deficit", se não é relativamente grande, tem de ser combatido.
Não pode este governo considerar-se desapoiado. Adversários todos os governos os têm. Alguns honram. Para deante!

Diário de Lisboa, 5 de fevereiro de 1926.
Imagem: Fundação Mário Soares

Para o caso da ordem publica — da qual é preciso não fazer espantalho — tem o ministro do Interior os seus delegados indicados.
Estas palavras escrevemo-las com simplicidade, sem afectação nem reservados intuitos.
Por pouco que valha o apoio de um jornal modesto corno o nosso, não trocamos a sinceridade dos nossos escritos por mercê alguma da terra.

Diário de Lisboa, 8 de fevereiro de 1926.
Imagem: Fundação Mário Soares

Governe o governo do sr. Antonio Maria Silva! (3)


(1) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 2 de fevereiro de 1926
(2) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 3 de fevereiro de 1926
(3) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 4 de fevereiro de 1926