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sábado, 26 de dezembro de 2015

Embrechados (4 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Embrechados no Seminário de Almada, antigo Convento de S. Paulo.
Imagem: Alexandra Lopes

Agora um drama verdadeiro. 

Nos fins do seculo XVI e principio do XVII, passa-se em Almada o mysterioso e pungente episodio sobre o qual Garrett architectou o mais bello poema em prosa da nossa litteratura, a mais poetica definição da alma portugueza, ao mesmo tempo apaixonada e cavalheirosa, repassada de mysticismo e vibrante de amor, accessivel a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada pela fatalidade do destino, energica na resolução do supremo sacrifício.

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun, Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

E porque os personagens existiram, e porque viveram. e se amaram, e os dois principaes se separaram ao cabo de uma união feliz, para irem acabar a existencia distanciados nas cellas dos seus conventos, o "Frei Luiz de Sousa" tem além do prestigio de symbolisar o genio d'uma nação, o interesse que despertam as scenas vividas.

Quem não conhece o drama de Garrett não é portuguez. Inutil portanto recordal-o.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Que ha de realidade n'essa obra? O episodio fundamental é verdadeiro. Verdadeiros os principaes personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha da mais artistica e delicada das versões sobre os motivos de separação, a psychologia das figuras, e o sopro de genio que anima o drama.

Pelos annos de 1575 residia em Almada e tinha ali propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Magdalena de Vilhena.

Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com elle dez annos até á partida para Alcacer Kibir.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Andrada, Miguel Leitão de, Miscellanea, 1689.
Imagem: Wikipédia

Ficaram tres filhos, D. Luiz, que veiu a morrer em Tanger, n'uma escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de Vilhena e D. Joanna de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta ultima com D. Lopo de Almeida, dos quaes nasceu uma filha que acompanhou sua avó para o convento quando a elle se re recolheu. D. João de Portugal desappareceu na batalha. Os documentos officiaes deramn'o como morto.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Machado, Diogo Barbosa, Memórias para a História de Portugal, 1751.
Imagem: Wikipédia

D. Magdalena, conta-se, espaçara por alguns annos o segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não ser na realidade viuva. 

Afinal as razões que lhe deram os proprios parentes do primeiro marido convenceram o seu coração, já de ha muito dominado pelo encanto do brilhante cavalleiro Manuel de Sousa. Casaram entre 1584 e 1586. 

Elle tinha todas as qualidades que seduzem as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longiqua. As coisas banaes passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que nos embala quando lêmos periodos da Historia de S. Domingos e Vida do Arcebispo. 

Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma branca a la moda, e na imaginação tremulava-lhe a pluma ligeira d'uma phantasia romanesca.

Generoso, valente e poeta, captivou a linda e opulenta viuva. Alguns auctores teem avançado que essa riqueza tinha em grande parte resolvido o cavalleiro de 30 annos a desposar uma viuva mais velha do que elle. 

Entretanto essa hypothese é destituida de fundamento pela rasão de que uma grande parte da fortuna e toda a que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que d'elle tinham ficado. 

E Manuel era rico, e cavalleiro, e namorado!... Em que repugna que elle se deixasse apaixonar pela bella e seductora viuva, que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que elle?

Tiveram uma filha — a Maria do drama de Garrett, a que alguns escriptores chamam D. Anna de Noronha.

Em Lisboa viviam os conjuges a S. Roque, na freguezia do Loreto. Mas a sua residencia predilecta era Almada, onde, segundo affirma Barbosa Machado, Manuel commandava um corpo de setecentos infantes e cem cavallos.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A casa que habitavam n'esta villa era na rua Direita, como se vê d'uma escriptura publicada pelo erudito escriptor sr. Sousa Viterbo, na sua memoria apresentada a Academia Real das Sciencias. 

Qual ella fosse torna-se difficil averiguar. Não só porque o incendio, cavalheirosamente ateiado pelo proprio Manuel, a teria destruido, e as confrontações indicadas na escriptura nada elucidam, como por não haver indicio na rua Direita de reedificação nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.

Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais importante onde se veem uns bellos azulejos, permitte á imaginação conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protogonistas do drama. 

E certo que elles habitavam n'aquella rua e que já então Manuel de Sousa Coutinho cultivava as lettras em prosa e em verso, quando no anno de 1599 a peste grassava em Lisboa.

Resolveram os governadores do Reino, em nome de D. Filippe, virem estabelecer-se em Almada, e para palacio do governo escolheram a casa em que D. Magdalena e Manuel residiam. 

Foi então que o fogoso cavalleiro e ardente patriota respondeu á importuna intimação, incendiando a sua casa, episodio com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama "Illumino a minha casa", diz Manuel de Sousa "para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos."

O facto é verdadeiro. Elle proprio o narra no prologo que em latim escreveu ás obras de Jayme Falcão: "In fumum et cineres abïere". 

E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos govemadores do Reino, influisse para a sua resolução em se expatriar. Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento protector de D. Pedro e D. João de Borja, e d'ahi seguiu para a America.

Neste ponto se affastou da realidade Garrett, no seu drama, que faz succeder immediatamente ao incendio de Almada a catastrophe que decidiu os dois esposos a tomarem o habito. Entre um e outro facto mediaram perto de 13 annos.

Foi em 1600 que elle partiu para a America, em 1604 que d'ali regressou, e em 1613 que se realisou o divorcio.

O que motivou a sua volta a Portugal? Qual foi a causa da separação? 

Diz o bispo de Vizeu, D. Francisco Alexandre Lobo, e confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente á patria a noticia da morte de sua filha.

Outros affirmam que viria por saber que os governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que saudades da familia e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham repatriado.

N'esta hypothese, sua filha ainda viveria; e a sua morte, mais tarde, teria grande influencia na resolução de os paes se recolherem ao convento.

A mysteriosa causa do divorcio, interessante problema de psychologia, que tanto preoccupa aos escriptores que d'elle teem tratado, está ainda hoje para resolver. 

Seria a morte da filha unica? 

Não ha uma data que nos possa guiar. Não nenhuma citação que nos elucide. Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo um phenomeno de suggestão, que teria actuado no espirito dos dois, levando-os a esta especie de duplo suicidio?

É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa de Vimioso se tinham separado, para professarem, ella no convento do Sacramento em Alcantara, que instituira, e elle no de S. Paulo, em Almada.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A coincidencia de serem os mesmos conven que Manuel de Sousa e D. Magdalena vieram a professar, a amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa Coutinho, a inclinação ao mysticismo da alma de D. Magdalena de Vilhena, creada e educada por uma mãe excessiváthente devota, n'uma epocha de profundas crenças religiosas, e supersticiosos terrores, que facilmente levariam o seu animo a procurar abrigo contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso instituira e onde se escolhera, tudo teria influido no espirito dos dois esposos, já ambos no começo do inverno da vida, a procurarem no claustro paz e tranquillidade.

A apparição do peregrino, facto que aos eruditos repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para explicar a subita resolução do divorcio.

Tirou-o Garrett da narrativa de Frei Antonio da Encarnação, que, por ser contemporaneo dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saldo de probabilidades.

Conta elle que em 1613, estando D. Magdalena de Vilhena em Almada, lhe apparecera um peregrino que vinha da Terra Santa, trazendo novas de um portuguez que ha muitos annos vivia em Jerusalem, e que escapara aos desastres de Alcacer Kibir. 

E dando os signaes certos de D. João de Portugal, o primeiro marido, accrescentou que fôra elle quem ali o mandára.

Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão presenceára.

Elle então dizem que respondera: "Até agora, senhora, vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste comigo; porque fio de vós que não casarieis outra vez se não tivesseis por certa a morte do vosso primeiro marido. O que convém mais é fugir para o sagrado da religião."

A este episodio, narrado por Frei Antonio da Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Vizeu, o sr. Sousa Viterbo e outros, que se teem occupado do caso, e attribuem ainvenção ao espirito de messianismo sebastico que inflammava as imaginações n'essa epocha.

E a phantasia popular, que esperava ver apparecer o "Desejado" e cria que elle não perecera, facilmente daria como explicação á repentina deliberação dos dois conjuges, a chegada d'um mensageiro que trazia novas do cavalleiro de Alcacer Kibir.

Não havendo provas que invalidem esta versão, e havendo em seu favor o testemunho de um contemporaneo, porque regeital-o? E porque não fundiremos na alma dos dois heroes d'essa historia os tres motivos de anniquillamento moral?

A morte d'uma filha. é a maior dôr humana. E essa dôr ter-lhes-hia quebrado as energias vitaes. 

A apparição do peregrino mensageiro do D. João de Portugal, ou elle proprio, como alvitra Garrett, seria para as suas almas a catastrophe determinante do refugio na casa de Deus.

E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos, ter-lhes-hia indicado o caminho. Por isso n'esse mesmo anno de 1613, deixando Almada, entraram, ella no convento de Alcantara, levando comsigo uma netasinha de sete annos, que a seguiu na clausura, elle no convento dos dominicanos de Bemfica, ondeveiu a escrever as mais harmoniosas paginas da harmoniosa lingua portugueza.

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra".

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Conta elle depois que por ser de tal modo formoso o panorama de Lisboa que da villa de Almada se disfructa escolheu D. Filippe II esta villa para gozar da vista da cidade, antes de n'ella entrar.

Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de Lisboa de luminarias, e tão deslumbrante era o espectaculo, que Frei Luiz de Sousa accrescenta que: "estando assim ardendo sem damno, toda, ficou devendo mais ás sombras nocturnas que ao resplendor do sol".
Aqui faz a viva memória do já morto Manoel de Sousa Coutinho,
cavalleiro portuguez, como se vivo fora.

Não morreu às mãos de nenhum castelhano,
senão à do amor que tudo pôde.

Caminhante, procura saber-lhe a vida,
e lhe invejarás a morte.


in Branco, Camilo Castelo, Mosaico e silva de curiosidades historicas, literarias e biographicas, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão.
Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

Annos depois, diz-se, esteve ali também o Duque de Bragança, mas com o intuito de ás occultas vir entender-se com os conjurados que em 1640 o acclamaram Rei com o nome de D. João IV. (1)

(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Plano de Urbanização da Costa da Caparica

Integrado no Plano Geral de Urbanização do Concelho de Almada, de cuja elaboração foram encarregados os arquitectos urbanistas de Gröer e Faria da Costa, estudou este último o arranjo urbanístico do agrupamento Costa da Caparíca-Trafaria-Cova do Vapor, que, embora de características distintas, ficarão articuladas entre si e constituirão um todo que se completa.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

O trabalho do arquitecto Faria da Costa é um estudo sério da urbanização daquela zona, em que se consideram todos os aspectos do problema. Começou o autor por examinar as características das populações de cada uma daquelas povoações, a fim de poder determinar as suas necessidades.

Verificado o facto de que, na Trafaria, predomina a população fixa ao passo que na Costa da Caparíca e na Cova do Vapor é a população flutuante de fim da semana que tem maior importância, logo seguida pela população flutuante estival, que na Costa sobe a 70% o e na Cova do Vapor anda por 250%, o arquitecto faz uma série de considerações sobre cada um daqueles núcleos urbanos.

Costa da Caparica, familia na praia e pescador.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Quanto à Cova do Vapor, acentuando que a sua existência não assenta noutras razões que não sejam uma espécie de moda — a do camping — sugere que não se vá mais além do que criar um acesso cómodo, que ficará assegurado com o estabelecimento da rede de grandes artérias propostas para a região, um abas-tecimento de água potável reduzido à sua expressão mais simples — a de um curto número de fontanários — e uma cabine telefónica.

No que se refere à Trafaria, tem-se em atenção que é apenas o ponto de passagem para a Costa da Caparica e que só uma reorganização completa da vida da povoação, pela sua articulação com aquela praia, poderia animar. A realização de uma obra de abrigo dará, por sua vez, novas condições à população da Trafaria, que poderá vir a ser um centro de trabalho activo.

Trafaria, Aspecto da Praia e bicha para as Camionetas da Caparica, ed. Passaporte, 06.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Faria da Costa considera, no seu estudo, a Trafaria como uma zona de habitação operária e artesanal, onde a população flutuante, praticamente, não conta, ao passo que a Costa da Caparíca, embora integrada no mesmo todo, será, principalmente, uma zona de habitação e recreio da população flutuante, cabendo-lhe também a sua população fixa.

Computando em 25.000 o número ideal de habitantes para um aglomerado com as características do núcleo constituído pelas duas povoações, salienta que uma tal população, dado o nível económico— predomínio de veraneantes — dará já vida a toda e qualquer iniciativa privada de interesse geral, permitindo, por isso, as condições de auto-abastecimento que se traduzem na comodidade e conforto que os pequenos aglomerados de baixo nível económico não podem ter.

Trafaria, Bairro dos pobres, Comissão Municipal de Turismo, ed. Neogravura.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Por outro lado, uma população de 25.000 habitantes daquele nível, com uma fraca densidade, reune as vantagens dos grandes centros, já possível e completo apetrechamento urbano, sem os inconvenientes das densas e fatigantes capitais.

Depois de analisar a conveniente distribuição populacional na Costa da Caparíca e na Trafaria, o autor explica que o problema da primeira consiste em alojar 10.831 habitantes, dos quais 3.250 de população fixa e 7.500 de população flutuante.

A população fixa distribuir-se-á pelos bairros piscatórios, pelas casas de habitação colectiva das zonas comerciais e, ainda, pelas moradias da classe média e abastada.

A população flutuante ficará distribuída pelas novas moradias, pelos blocos sobre a avenida marginal, pela extensão linear prevista e pelos hoteis, pensões, colónias de férias, etc., que o plano de urbanização prevê.

Um exemplo de desordem urbana

Entrando, em seguida, própriamente no estudo do problema da urbanização da Costa da Caparica, o arquitecto Faria da Costa afirma que se trata do exemplo mais frizante da desordem urbana do nosso país.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

"Este caso diz — pode considerar-se um fenómeno típico dos aglomerados cujo desenvolvimento se fez ràpidamente, sem plano pré-estabelecido, agravado pela falta de controle por parte do município e por uma ausência absoluta de espírito colectivo que levam ao abandono dos deveres de cada um para com a sociedade de que faz parte."

"Na Costa da Caparíca tudo se esqueceu, desde a mais elementar regra de construção à mais simplória medida de higiene, tudo se autorizando, com desprezo completo das disposições do Código Administrativo."

Faz o autor notar que, se ao Município cabem responsabilidades graves, elas não são menores para os seus munícipes, isto porque considera que a função de um município não é mais do que a de coordenar a iniciativa e o trabalho de toda população de um aglomerado em que cabe a esta o dever de defender aquilo que é seu património.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Enumerando, depois, as deficiencías da povoação, começa por dizer que não existe rede de esgotos de qualquer natureza. O sistema geralmente adoptado é o do poço negro, aberto nas areias, alcançando o nível aquífero que, em grandes zonas, se encontra, apenas, a 1m50 abaixo da surerfície do terreno, inquinando-se com criminoso despreso pela saúde pública.

Tambem não existe colecta de lixos, os quais são despejados em buracos abertos nas areias, que so se tapam quando cheios. Falta, igualmente, uma rede de abastecimento de águas.

Este é feito por meio de buracos cómodamente abertos nas areias, junto dos esgotos, resultando, como é óbvio, águas de forte inquinação. Os arruamentos são caóticos, sem pavimentos capazes, na sua maioria. No que diz respeito à utilização dos terrenos, encontra-se, vulgarmente, uma percentagem de utilização à volta de 70, 80 e 90%.

A distância a manter do terreno do vizinho, no caso de haver janelas, chega a ter menos de 50 centímetros. A ânsia do negócio do arrendamento no Verão e a grande procura de alojamento por aqueles que necessitam de retemperar um pouco a saúde, levou certos proprietários a improvisar as habitações mais inverosímeis e em condições de higiene e promiscuidade inacreditáveis.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Os prédios, qualquer que seja o número dos seus andares, são construídos com blocos de betão do tipo 40x20x20 aplicados de forma a dar o maior rendimento.

Em conclusão, o arquitecto salienta que, se é certo que o Município não exigiu dos munícipes o cumprimento das mais elementares regras de higiene nem defendeu a colectividade de uma especulação desenfreada de mela duzia de negociantes de terrenos, não deixa também de ser verdade que não tem havido a mais leve reacção dos que vão para a Costa da Caparica, dos quais fazem parte, na época estival, nomes de primeiro plano em todas as camadas sociais.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Só à existência de excepcionais factores climáticos, o autor atribuí a facilidade com que a população da Costa da Caparica, resiste aos efeitos das péssimas condições que oferecia a povoação.

A concepção do projecto

Ao expor a concepção do seu projecto, Faria da Costa começa por afirmar que um plano de urbanização deve, funda-mentalmente, determinar os limites definitivos do aglomerado e prever, para essas dimensões, todo o seu apetrechamento urbano.

Ao pretender resolver o problema da urbanização da Costa da Caparica, em função deste critério, admitiu, por isso, que, uma vez atingidos os limites pre-vistos, o excedente da população irá ocupar aglomerados satélites que se estenderão ao longo da praia, para sul.

Assim, no tempo, o imenso areal da Costa da Caparica será povoado por distintos núcleos urbanos. Como é natural, é o aglomerado existente aquele que, completo, constituirá o primeiro e mais importante núcleo urbano.

Tendo sempre presente um verdadeiro sentido das realidades, o arquitecto estudou o seu plano de forma a não fazer depender de expropriações das propriedades urbanas existentes qualquer dos problemas que se propôs resolver.

Deste modo, qualquer parcela do plano pode realizar-se com inteira independência do existente, deixando-se ao tempo o reajustamento sempre necessário quando se projecta novo sobre velho e, com mais forte razão, quando esse velho é aquilo que se vê na Costa da Caparica.

A análise do Plano de Urbanização da Costa da Caparica mostra que, se juntarmos aos 225 hectares urbanizados, os espaços livres que teríamos de considerar e representariam uma área aproximada de 40 hectares, ou seja, um total de 265 hectares, a densidade média para tecla a povoação seria de 60 habitantes por hectare.

Por outro lado, vemos também que os bairros operaríos previstos, cuja capacidade é de cerca de 2.000 habitantes, ocupam uma area de 15,5 hectares. Por seu turno, as novas moradias destinadas às classes médias e abastadas alcançam o número de 650.

Tomando em conta estes elementos, as areas medidas nas plantas e as populações atrás previstas, constrói o arquitecto o seguinte quadro, que traduz as diferentes densidades de habitantes por hectare nas várias zonas que constituem a futura Costa da Caparica:

Zona operária 15,5
hect.
125
h ha.
Zona de habitação colectiva 24,0
"
200
"
Zona de moradias 78,0
"
60
"
Zona central existente 14,0
"
130
"
Extensão linear 25,0
"
60
"
Extensão satélite 25,0
"
60
"

O aglomerado actual, designado Costa da Caparica, é constituido por três grupos distintos de habitações ligeiramente separados.

O primeiro é constituído pela velha povoação de pescadores. O segundo é o da Quinta de Santo António e o terceiro é formado pelo Bairro do Convento.

Costa da Caparica, uma moradia no Bairro do Convento.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Estes dois últimos, apesar de recentes, revelam uma absoluta falta de consciência na sua disposição e aproveitamento.

Em função destes três agrupamentos, o arquitecto Faria da Costa traçou a clássica "croisée" Norte-Sul-Nascente-Poente.

A primeira é constituída pela estrada da Trafaria, ampliada no seu perfil, com mais uma faixa de rolagem e alargada nos seus passeios (fig. 3).

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 3), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

A segunda é formada por um desvio da estrada de Cacílhas, que vem cruzar-se com a primeira e o seu prolongamento para poente constitui o principal acesso à praia.

É no cruzamento destas duas artérias que o autor projectou o novo bairro comercial.



Todas as restantes artérias têm apenas unia função de circulação local. Admite, no entanto, como excepções, a avenida marginal, de características especiais, junto da qual ficarão localizados edifícios de interesse público, tais como, casino, restaurantes, hoteis, piscina, etc., e os acessos do aglomerado à mata e à praia, feitos, no geral, por arruamentos de tipo de alamedas arborizadas.

Foi tendo presente a existência da Mata Nacional que o arquitecto desenvolveu parte do aglomerado ao longo dela, com a vantagem não só da sua máxima como também do encurtamento da distância que o separa de Lisboa, o que implicitamente estabelece uma mais ampla conjugação da Costa da Caparíca com a Trafaria.

No topo da artéria Norte-Sul, fica localizada a gare rodoviária, com a dupla finalidade de evitar a tendência natural para a prolongar indefenidamente e de fixar nesta zona a população de domingo, para o que contribuirá ainda a concentração nesta zona de restaurantes a preços populares e de cabines para banhos a preços acessíveis.

Como a zona terrestre imediata pertence ao Estado e as condições do solo são idênticas ás da actual Mata Nacional, é de preconizar a arborização do local.

Nesta mesma zona fixou o arquitecto o bairro dos pescadores e os seus acessos ao mar, bem como, localizados mais a Sudeste, o bairro operário e a zona artesanal Estes dois bairros ficarão assim separados do restante aglomerado pelo núcleo desportivo, situado na melhor posição.

Prevê ainda o plano diferentes grupos escolares, um núcleo comercial, além do actual, no Bairro de Santo António e outro na Praça da Gare Rodoviária. Propõe-se também a deslocação do cemitério para fora do núcleo urbano.

Quinta de Santo Antonio e Costa de Caparica (detalhe), ed. desc.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Partindo da existência de um amplo terreno, com esplendida localização do lado do oceano e, tendo ainda em conta que a praia é constituída por um extenso areal, que torna incómodo o acesso ao mar, o autor projectou uma nova zona habitacional ao longo da avenida marginal, reduzindo a faixa da praia a pouco mais de 100 metros.

Nessa nova zona coloca uma série de blocos de habitações colectivas, do tipo de apartamentos, com poucas divisões, donde uma grande percentagem da população pode gozar a vista do mar, o que hoje não acontece com grande parte do aglomerado urbano, escondido a cota baixa, por detrás das dunas. Estes blocos, que disporiam de garagens colectivas, ficariam perpendiculares à avenida marginal, para terem melhor orientação e evitar uma autêntica muralha que separaria toda a povoação da praia.

Do lado da avenida, seriam os blocos limitados por uma galeria de um só piso, para utilização comercial. Admitindo que estes blocos atinjam a altura de 7 pisos, o arquitecto concebeu-os como verdadeiros hoteis, sem pensão, o que representa uma inovação no nosso meio, perfeitamente de acordo com as características do progresso da vida moderna.

Valorizando a praia, pelo encurtamento da incómoda faixa de areia e pela construção de balneários, duches, cabines e piscinas, o autor do projecto considera também a mata, verdadeiro complemento urbano que muito contribui para essa valorização.

Tirando o melhor partido desse belo elemento natural, o arquitecto considera igualmente a existência de um futuro apetrechamento urbano que transforme a mata num confortável centro de diversões, quer com pequenos campos de jogos, quer com os mais variados pavilhões de chá, restaurantes, etc., construídos em regime de concessão temporária, pois em caso algum é de admitir a alienação deste bem público.

Os acessos e a circulação

A Costa da Caparica ficará ligada por via ordinária a três pontos da margem esquerda do Tejo Cacilhas, Trafaria e Cova do Vapor onde acedem as carreiras fluviais vindas da capital. As obras projectadas pela Administração Geral do Porto de Lisboa para Cacílhas e Trafaría — docas de abrigo — e os melhoramentos a introduzir na ponte-cais da Cova do Vapor resolverão o actual grave problema de acostagens nestes três pontos, o que em muito virá aumentar a atracção que a Costa da Caparíca exerce sobre a população de Lisboa.

O arquitecto apresenta um esquema das grandes artérias, (fig. 2) em que indica as estradas existentes, as melhoradas e as que se projecta e que virão a permitir á população desembarcada uma fácil circulação em toda a região.

Plano de Urbanização do Concelho de Almada  (fig. 2),
Esquema da grandes artérias, 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

A circulação principal é constituída por um sistema de grandes artérias que, servindo a região e a Costa da Caparica, lhe asseguram uma ligação fácil á capi-tal. A rêde da circulação principal é formada pelas seguintes artérias:

1.° — Marginal Sul do Tejo, de Cacilhas à Trafaria — Estrada Nacional n.° 11 do Plano Rodoviário — prolongada até à Cova do Vapor.

2.° — Prolongamento do troço Norte-Sul da Estrada da Trafaría — Estrada Nacional n.° 377-1.° — para ambos os lados, até encontrar, a Norte, a Marginal Sul do Tejo e, a Sul, a projectada Praça da Gare Rodoviária.

3.° Via Nascente-Poente, que, partindo da Estrada Cacilhas-Costa da Caparíca na altura do cemitério dessa última povoação, cruza perpendicularmente a via Norte-Sul.

Costa da Caparica, Praia do Sol, Vista Parcial, ed. desc.
Imagem: Delcampe

4.° — Marginal Atlântica, que, partindo da Cova do Vapor, segue para Sul, ao longo da praia e entesta com a via Nascente-Poente.

O prolongamento para Sul desta Marginal Atlântica forma a grande Alameda Marginal, que, inflectindo para Nascente, se liga na Praça da Gare Rodoviária k via Norte-Sul.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Além destas artérias, que servirão a Costa da Caparica, prevê-se na região uma via de acesso á Lagoa de Albufeira. Desta via partirão os ramais que servirão os futuros aglomerados satélites.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 4), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

Todas estas artérias têm perfis transversais tipos de características especiais, adequados às funções que desempenham e às zonas que atravessam. Nelas as, faixas de rolagem e os passeios variam consoante as necessidades particulares ai cada um dos seus troços (figs. 3, 4 e 5).

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 4), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

No que respeita á circulação interior, que o arquitecto considera, práticamente, no seu todo, subsidiária do sistema de grande circulação que atrás se descreve, a solução é mais económica, pois destinando-se quáse apenas a servir o tráfego, local, as larguras das faixas de rolagem podem ser menores.

Espaços livres

À Mata Nacional, só por si, garante não só uma boa utilização do espaço livre, como faz descer a percentagem de habitante-hectare, muito abaixo daquele que se reputa óptimo.

Todavia, por se tratar de um aglomerado de características próprias, onde a vida ao ar livre é fundamental, foram criadas alamedas, passeios e jardins de bairros, numa distribuição de espaços livres que evitam grandes deslocamentos.

Numa simples vista sobre o Plano das zonas (fig. 6) verifica-se quanto a percentagem e distribuição dos espaços livres são boas, pelo que o arquitecto entende desnecessária qualquer operação de verificação de percentagens, pois ela ultrapassa, de largo, os 60m2 por habitante.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 6), Faria da Costa, 1947.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Escolas e edifícios públicos

A experiência mostra que, no geral, os municípios não possuem locais bem situados para construir edifícios publicos, nomeadamente escolas, porque não souberam reservar, antecipadamente, os terrenos necessários.

Foí tendo em vista esta experiência que o arquitecto Faria da Costa estabeleceu no seu plano zonas especiais para tal efeito.

Assim, as escolas previstas pelo Plano dos Centenários foram localizadas no Bairro dos Pescadores, pois é aí a localização que mais convem ao núcleo actual da população fixa. No futuro, elas servirão também o Bairro Operário projectado.

Além daquelas escolas, foram previstas outras, porque o autor do projecto admite a possibilidade de, no futuro, uma grande parte da população flutuante se fixar na Costa da Caparíca, por largos períodos, já por motivos de saúde, já de ordem económica.

Costa da Caparica, Esplanada do Café Costa Nova, ed. Passaporte, 78.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Além do espaço destinado a escolas, previu também o arquitecto uma zona de edifícios públicos, junto ao mercado, a zona de reserva, quer no Bairro de Santo António, quer na Avenida n.° 1.

Gare rodoviária

Dada a posição particular do aglomerado urbano, o transporte colectivo ter-restre terá de ser resolvido pela camionagem.

Assim, utilizando as redes das grandes artérias como linhas de circulação de autocarros, toda a população será cbmodamente servida e os percursos má-ximos que terá de percorrer até á. linha das carreiras está muito águem dos 500 metros admitidos.

Dado que a população flutuante dos domingos é igual á soma das populações fixa e estival e que, por motivos óbvios, as suas horas de ponto são mais acentuadas, foi especialmente em função desta população que o arquitecto localizou a Gare Rodoviária, muito embora se reconheça que as outras populações em nada são prejudicadas, antes pelo contrário.

À Gare Rodoviária dá sobre uma ampla praça com largas placas de estacionamento para passageiros que aguardam embarque.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Se o transporte por via aérea um dia for realidade ou se se fizer sentir essa necessidade, aliás provável, a ela será dada ampla satisfação, visto que para Sul da Gare Rodoviária existem amplas planícies, fàcilmente adaptáveis a aeródromos.

Outros aspectos do plano

O plano de Faria da Costa considera ainda a criação de centros de diversão, piscina e praia infantil, centro de desportos, colonias de férias e hoteis populares.

O centro de diversões foi localizado sobre a grande alameda que dá para a praia e junto á praça da confluência das grandes artérias — Marginal e via Nascente-Poente vinda de Cacilhas.

O autor previu este centro como o grande ponto de concentração da população de todo o aglomerado e dos turistas atraídos pela admirável praia da Costa da Caparica.

É neste centro que ficam localizados casino, hotéis, restaurantes, cafés, bars, piscina, grandes estabelecimentos, etc.

A localização e o partido adoptado obedecem á preocupação de defender o centro de diversões dos ventos Norte que, no Verão, são os que mais incomodam. A construção de zonas reentrantes e a construção dos blocos no sentido Nascente-Poente têm essa finalidade.

Como entende que a praia, com todas as suas qualidades, estaria incompleta se não existissem uma piscina e uma praia infantil, já porque ali se poderá exercer á vontade a prática e a aprendizagem da natação, já porque servirá para festas náuticas, o arquitecto Faria da Costa contou igualmente com esses elementos.

O centro de desportos, considerado como um dos pontos essenciais do plano de urbanização, compreende campo de foot-ball, pistas de atletismo, rínk de patinagem e campos de tennis.

Foram ainda previstas, fora deste centro, locais para campos de "tennis'', os quais, com os existentes, completam urna boa rede. No que respeita a colónias de férias, diz o arquitecto Faria da. Costa que se traia de uma iniciativa do maior interesse, desde que obedeça a um critério diferente daquele que se seguiu até esta altura.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica, planta de utilização do solo (fig. 7), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

Enquanto estudava o Plano de Urbanização da Costa da Caparica, sustou a realização de muitas pretensões para a construção de colonias de férias, porque sistemáticamente elas se localizavam na Mata Nacional.

Ora, o autor entende que, em caso algum, se deve consentir na alienação de parcelas na mata para esse fim, constituindo zonas privilegiadas para uns e que a todos preconiza que essas colónias de férias se instalem na periferia da mata, isto é, ao longo da extensão linear.

Como situação, esta é maravilhosa, pois entre a praia e a mata ela reune em sí os dois principais elementos naturais, que são a razão de ser da Costa da Caparica.

Vejamos, finalmente, como resolveu o arquitecto o problema dos hoteis populares.

Ao localizá-los, teve em vista criar a reserva para. uma iniciativa que, entre nós, não tem ainda uma expressão verdadeira.

Num país como o nosso, com um tão baixo nível de vida, — áparte um pequeno número de bafejados pela sorte, que podem dispor de hoteis de criados agaloados e diárias incomportáveis para a maioria — á classe média só restam as pensões, que, na verdade, são baratas, em relação ao nível da grande maioria, mas que não possuem as indispensáveis condições de conforto e higiene.

Na praia da Costa da Caparica, uma família que ali vai passar o dia.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Entende o arquitecto que seria fácil, uma vez que se reservem terrenos bem localizados e que só a esse fim se destinem — de modo a evitar especulações — construir simples pavilhões, claros e arejados, sómente com quartos, caiados e servidos por uma galeria que os ligaria a um pavilhão central, onde seriam os serviços, salas de jantar, "hall", etc.

Extensão linear

A marginal Atlântica, criada para um melhor acesso a toda a zona da praia, que se estende desde a Caparíca actual até à Cova do Vapor, teve também em mira criar uma zona de habitações onde seriam localizadas não só as colónias de férias, como tambem construções particulares e hoteis.

A faixa de utilização, assim criada, teria não só a vantagem de ter vista do mar — qualidade que grande parte do aglomerado não possuí, por estar ou atrás da mata ou atrás das dunas como ainda a de criar um fundo de receita que ultrapassará certamente o custo da própria estrada.

É óbvio que a ligação entre a praia e a mata não deixará manter-se, devendo prever-se frequentes e amplas passagens para peões, de ligação entre elas e, principalmente, na direcção de veredas, a criar dentro da mata.

Execução do plano

O plano de urbanização da Costa da Caparíca implica a execução de obras de grande vulto, tais como a defesa da margem e a terraplanagem das dunas, cuja realização deve competir ao Estado, única entidade com as condições técnicas e financeiras necessárias a podê-las executar.

Estas obras de custo elevado serão, porém, compensadoras, dado o alto preço porque o município poderá vender os terrenos assim conquistados e pagando ao Estado o custo das obras realizadas.

O arquitecto estudou cuidadosamente todos os aspectos da execução do plano da urbanização, por forma a torná-lo viável e a evitar todas as dificuldades capazes de obstarem à sua realização.

Assim, estudou a execução das avenidas, tendo em conta as cotas do terreno, dedicou também atenção ao problema dos esgotos que considera difícil, devido ao baixo nível de toda a zona da Costa da Caparíca.

No entanto, qualquer que seja o processo que venha a adoptar-se, ele deverá levar os produtos de esgotos para sul, os quais, depois de elevados e tratados, deverão ser utilizados como fertilizante na criação de hortas necessárias ao abastecimento da Costa da Caparíca, no Verão.

Não esqueceu igualmente o abastecimento de águas, que considera, em parte, já resolvido com a execução do projecto do abastecimento ao concelho de Almada.

Quanto ao fornecimento de energia e luz eléctrica, trata-se de um problema corrente, que está enquadrado no plano geral em estudo para todo o concelho.

Observa, ainda, o arquitecto que a zona da Costa da Caparíca está sujeita a servidão militar, moldada nas concepções guerreiras dos fins do século passado, o que representa um grande entrave, mais de ordem moral que material, no desenvolvimento normal da povoação. 

João Guilherme Faria da Costa (1906-1971).
Imagem: Picasa

Acha o autor indispensável que a servidão, a manter-se, seja revista pelas entidades competentes, crente como está de que, na época da aviação e da bomba atómica, as preocupações que levaram a estabelecer aquela servidão, em grande parte desapareceram.


(1) Plano de Urbanização da Costa da Caparica, revista Arquitectura, março de 1947

Artigos relacionados:
Costa da Caparica — urbanismos
Trafaria e Cova do Vapor em 1946


Mais informação:
João Guilherme Faria da Costa
Jornal Arquitectos, 227, abril-junho 2007

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um lugar ao sol

A primeira colónia balnear da FNAT [inaugurada a 31 de Julho de 1938] é, assim, instalada na Mata da Caparica, com a designação "Um Lugar ao Sol" [...]

Costa da Caparica, FNAT, Colónia de férias Um Lugar ao Sol.
Imagem: Delcampe

A diferença mais significativa entre "Um Lugar ao Sol" e as restantes colónias balneares, está no facto de esta ter sido construída de raiz para o efeito, pensada como uma "cidade de férias", enquanto as restantes resultariam da adaptação de edifícios já existentes àquela função [...]

Introduzindo o conceito de "Turismo de massas" em Portugal, ou, neste contexto específico, talvez mais "para as massas", a filosofia de "Um lugar ao Sol" do Estado Novo nada tinha a ver com a visão futurista de Cassiano Branco para a Praia Atlântico, apresentada cinco anos antes, embora ambas anunciassem, pioneiramente, a conquista de direitos sociais que só com a regulamentação das férias pagas, em 1937, se vieram a concretizar, e timidamente [...]

Costa da Caparica, Jardim da FNAT, ed. Passaporte, 46, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Em 1934, os Sindicatos Nacionais dos Bancários, Escritórios, Seguros, Balcão e Música apresentam à Comissão do Centro de Estudos Corporativos da União Nacional, presidida pelo engenheiro Higino de Matos Queiroz, a proposta conjunta da criação de uma "Colónia de Férias e Repouso" para o usufruto dos seus filiados.

A iniciativa é bem recebida pelas entidades oficiais e assumida pelos Serviços de Acção Social do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), organismo integrado na Presidência do Conselho de Ministros e a funcionar sob a supervisão do Subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social.

Para a concretização desta obra é pedida à Direcção Geral da Fazenda Pública a cedência de terrenos do Estado na Mata da Caparica, área classificada em regime florestal e abrangida pela zona de servidão militar das Baterias de Alpena e Raposeira [...]

Costa da Caparica, Bairro de Santo António e Foz do Tejo, ed. Passaporte, 2, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

A escolha da melhor implantação para o estabelecimento deste equipamento levanta alguma polémica. A Direcção Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas defende uma outra localização que não no interior da Mata, argumentando que "no interesse da população [e da própria instituição que se vai fundar] tão meritória obra pode ser realizada sem prejuízo da massa de pinhal existente" [...]

É na sequência deste pedido de cedência de terrenos que é criada a FNAT, a 13 de Junho de 1935, instituição à qual é feita a cessão da parcela escolhida e "que a princípio se destinava [apenas] a manter e dirigir" a Colónia de Férias, mas, logo, vê a sua acção estendida a “um campo mais largo, capaz de abranger todos os trabalhadores portugueses e promover o aproveitamento do seu tempo livre" [...]

Costa da Caparica, Colónia de Férias da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O jornal O Século [ed. 13 Julho 1938] visita as instalações, ainda antes da obra concluída, para nos dar conta da disposição geral do conjunto:

"Separados, existem dois dormitórios para solteiros, outros tantos para casados, e um para raparigas.

Costa da Caparica, alunas do Centro Católico Português no pinhal, 1938.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Mais afastado, foi construído o pavilhão que se destina ao pessoal e onde se instalou também a lavandaria e armazem.

Cada quarto tem quatro camas dispostas como nos beliches de bordo. Só os que se destinam aos (...) casados possuem apenas uma cama, além de outra de menores dimensões para os filhos. Nos refeitórios existem duches, lavabos e retretes privativas. (...)

A área total da colónia é de cento e oitenta mil metros quadrados. Ali se pensa, em breve, construir uma secção para crianças, dotada de uma piscina com água do mar."

Interessante é que, em apenas três anos, a superfície de pinhal ocupada pela instalação da Colónia de Férias tinha aumentado de cerca de 40.000 metros quadrados para 180.000, mais que quadruplicando a área cedida no "Têrmo de Cessão" de 19 de Agosto de 1935 [...]

Costa da Caparica, FNAT - Um lugar ao Sol, Vista aérea, ed. Neogravura.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Após a inauguração oficial da Colónia da Costa da Caparica, um outro artigo deste jornal fazia referência ao facto de os autores do projecto, "embora respeitando fielmente a tradição arquitectónica das construções portuguesas [, terem aproveitado] muitos ensinamentos colhidos na visita que fizeram no ano passado, às colónias de férias oficiais, italianas e alemãs".

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais, 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Acrescentava, ainda, que em todo o conjunto se podiam reconhecer as feições de uma obra que Salazar desejava "simples, despretenciosa, agradável, higiénica e confortável" [...]

Costa da Caparica, Colónia de Férias da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O sino da FNAT é o alarme que faz levantar da cama os preguiçosos às 8 horas da manhã, às 9 horas toca a sineta para o pequeno almoço, às 10 horas vai-se até à praia privativa da FNAT, onde o banheiro é conhecido pelo Tarzan.

António Gonçalves Ribeiro, Tarzan da Costa.
Imagem: Notícias da Gandaia

Por volta das 12 e 30, os colonos (...) regressam e cada um dirige-se para os seus aposentos onde um duche fresco dessalga o corpo. Entretanto ouve-se a sineta, convidando (...) ao almoço.

Costa da Caparica, Entrada ao refeitório da FNAT, ed. Passaporte, 45, década de 1960.
Imagem: Delcampe

À tarde dorme-se a sesta, joga-se uma partida de pingue-pongue, ou uma bilharada. Os mais idosos (...) passam a tarde jogando o loto.

E até às 17 horas pouco movimento se nota na Colónia.

Costa da Caparica, FNAT, Salão de Jogos 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Por volta das 18 horas os colonos mais novos jogam voleibol e patinam.

Cerca das 20 horas a sineta faz-se ouvir novamente — São horas de jantar. Depois, o Bar e as salas de diversão enchem-se de pessoas e, por vezes, faz-se um Pé de Dança.

A partir das 23 horas o silêncio reina em absoluto [...]

Pela publicação celebrativa dos Dez Anos de Alegria no Trabalho ficamos a saber que, em 1945, o complexo da colónia "Um Lugar ao Sol" era constituído por 29 edifícios. Número que, em comparação com os 7 pavilhões inicialmente construídos, testemunhava o sucesso da iniciativa junto dos Sindicatos Nacionais.

Um ano depois, na presença do Presidente da República, o General António Oscar de Fragoso Carmona, são inauguradas as novas instalações da Cozinha e do Refeitório, assim como novas unidades de alojamento, passando a Colónia a contar com 30 pavilhões, aumentando a sua capacidade para cerca de 1.000 veraneantes por turno.

Vinte anos depois da criação da FNAT, em 1954, eram já 38 os pavilhões existentes, que permitiam receber, em simultâneo, 1.555 pessoas, obrigando a uma nova ampliação do refeitório e ao complemento da oferta de serviços facilitados dentro do espaço da Colónia. Entre eles, a construção de um Parque de Campismo, em 1953 [...]

Cada "Pavilhão Familiar para Casais com Filhos" era composto por onze quartos e por instalações sanitárias colectivas, distribuídos a partir de um corredor central ao qual se acedia, de um dos extremos do volume, através de um pequeno pátio com pérgolas.

Costa da Caparica, Colónia de férias da FNAT Pavilhão n° 1, ed. Passaporte, 100, década de 1960.
Imagem: Delcampe

A área dos quartos era reduzida, cerca de 10 m2, considerando que neles dormiam um casal com dois filhos, estes instalados em beliches, e que em cada quarto havia, ainda, uma pequena área com retrete e lavabo.

Na selecção dos pedidos de inscrição na Colónia de Férias, a que tinham acesso apenas os trabalhadores "que se situavam em categorias profissionais inferiores à de chefe de secção", eram considerados prioritários os beneficiários da FNAT que se fizessem acompanhar do maior número de filhos e os que auferissem de menores rendimentos; os que tivessem indicação médica expressa, comprovada pelos serviços da Fundação, da "necessidade absoluta de uma estadia à beira mar"; os sócios mais antigos; quem residisse o mais afastado do litoral; e quem menos vezes tivesse utilizado a colónia balnear.

Festa na colónia de férias Um Lugar ao Sol.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Qualquer dúvida seria resolvida por sorteio. (1)


(1) Lobo, Susana Luísa Mexia, Arquitectura e Turismo: Planos e Projectos. As Cenografias do Lazer na Costa Portuguesa. Da 1.ª República à Democracia, Coimbra, Faculdade de Ciências e Tecnologia, 2013

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