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terça-feira, 14 de novembro de 2017

O sr. Moreira da fábrica de conservas A. Leão & Cia., Sucessores de Lino & Cia.

Fernando Moreira García era efetivamente galego, nascido em 1855 em Mañufe (Gondomar, Espanha), de família humilde, tendo que estudar para emigrar e conseguir trabalho em Portugal, como fazia grande parte dos jovens galegos da sua época.

Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Lda. Sucessores de "A. Leão & Cia. e Lino & C.
Detalhe de cartaz P. Ross & Deichsel.

Passaram-se muitos anos até que chegasse, por volta dos finais da década de 1880, a ser um dos donos da fábrica A. Leão & Cia., Sucessores de Lino & Cia., a princípio localizada na Rua do Poço dos Negros e depois trasladada ao Ginjal.

Praia das Lavadeiras, Ginjal, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal

Tinha dois sócios, sendo pelo menos um deles português, já que um estrangeiro näo podia, como tal, ser dono de uma empresa naquele país. Vivia ao lado da fábrica. 

Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Lda. Sucessores de "A. Leão & Cia. e Lino & C.
Detalhe de cartaz P. Ross & Deichsel.

Logo que começou a ter mais dinheiro, Fernando Moreira investiu em terras na sua aldeia natal, comprando em 1890 ou 92 e em nome de seus pais a finca Seidones, com mais de 40.000m2, onde anos mais tarde seu único genro, Francisco Casás Fajo, casado com sua filha Rosa Moreira Pérez, construiu sua casa, ainda hoje na família. 

Entre as antiguidades que se encontravam ali haviam dois calendários de papel, tridimensionais, da primeira década do século XX, época áurea da Fábrica, e um álbum onde estão coladas as belíssimas etiquetas dos seus produtos, muitas com impressão especial dourada e em relevo, que eram exportados ao Brasil e à Inglaterra, embarcados no cais da própria fábrica.

Fim de Tarde no Ginjal, Luis Alves Milheiro, 2015.
Imagem: Casario do Ginjal

No final e antes de morrer, no período conturbado entre uma revolta que houve em Portugal e a guerra civil española, Fernando Moreira García já tinha vários sócios na fábrica, de onde um deles chegou a roubar documentos da caixa-forte. 

Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Lda. Sucessores de "A. Leão & Cia. e Lino & C.
Detalhe de cartaz P. Ross & Deichsel.

Depois, na ausência dos herdeiros, um barco atracou no cais particular dos Moreira, levando móveis e outros bens da residência e da própria fábrica. (1)


(1) Mina Marx, novembro de 2017

Artigo relacionado:
A praia das lavadeiras no Ginjal

Mais informação:
Can the Can (A. Leão & Cª, Almada)
Can the Can (Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Almada)
Can the Can (Empresas conserveiras em Almada)

Leitura recomendada:
Elisabete Gonçalves (coord.), Memórias do Ginjal, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2000

Informação relacionada:
UTL Repository
O Espaço e as Memórias: Os Armazéns do Ginjal

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A condessa d'Alfasina

Nos dias da regência de D. Fernando (1853-1855), F. C. era um rapaz alto, bem posto, moreno, ou antes azeitonado dos climas d'Africa, onde passara alguns annos. Olhos castanhos de boa luz, sobrancelhas espessas e moço sobretudo distincto. Quando, já velho, entrava na camara dos pares e cumprimentava o presidente, ninguém o fazia com mais senhoril e natural elegância.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

A condessa D... namorou-se perdidamente d'elle. A condessa D... era a tentação feita mulher. Ainda ha por ahi, senão muitos, pelo menos alguns velhos, como eu, que a conheceram. 

Estou a vêl-a!... Pupilla negra, nadando no crystal da esclerotica. Pestanas recurvas cerrando-se, ás vezes, com voluptuosidade de sonho sensual, para em seguida, entreabrindo-se, partir a seta faiscante, pérfida, mortal e divina!

Os arcos das sobrancelhas estreitos, porém pronunciados. Nariz delicado; as azas a palpitar, aurindo ás correntes vivas dos dias vernos dos vinte e cinco a vinte e seis annos.  Lábios carnudos, um pouco desunidos no meio, como o botão vermelho, e entremostrando apenas as preciosas pérolas. N'uma das faces, próximo ao canto da bôcca, um pequeno lunar. Colorido forte, supremo encanto das morenas, em ondas, se a commoção era violenta. 

Delgada e flexivel como o vime. Cingindo-se no amante appetecido teria a lubricidade venenosa da serpente e a ternura solicita das heras. Pagã e mystica. Aphrodite e Santa Philomena dos bosques. Invulnerável á dedicação constante e apaixonada, como se Cupido lhe houvesse inoculado o antídoto do amor ideal no sangue impetuoso. Hysterica; a hysterica na sensualidade é de tal modo ardente e requintada que não chega nunca a realisar as ambições desenfreadas dos seus nervos.

Nu feminino reclinado, Amélie, daguerreótipo, Félix-Jacques Moulin, c.1852-1853.
Imagem: Wikipedia

Ai do homem que lhe cae nos braços! F. C. foi, entre tantos, o único que a volúvel condessa D... amou longamente; mas não podendo, coitada, resistir ao seu temperamento, veiu a trahil-o com D. Fernando.

Uma noite, no Paço das Necessidades, pouco antes de romper a alvorada, despediu-se caridosamente do rei.

Á Pampulha metteu-se n'um bote, atravessou o Tejo, veiu aqui para Alfasina, que me fica a dois passos, e, n'uma casa situada n'um ponto de vista deslumbrador, consorciou-se com alguém, que não sei se ainda vive.

Caparica, miradouro de Alfazina, 2014.
Imagem: Coysas, Loysas, Tralhas Velhas...

F. C, ao tempo, era já casado, estava longe das verduras da mocidade, e, sabendo da ultima cartada que jogara a sua antiga amante, sorriu-se com motejador contentamento. D. Fernando acudiu a Shakespeare para definir, despeitado, o caracter da condessa:

D. Fernando II e sua segunda esposa, Elise Hensler, condessa d'Edla.
Imagem: Wikipédia

— "Pérfida como a onda!" (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907

terça-feira, 29 de março de 2016

O Almadense

Um jornal chamado  "O Almadense" [semanario litterario e recreativo, 1855-1856, red. Nicolau de Brito e Eduardo Tavares] que se publicou por mais de dois annos, e que mereceu n'um artigo de Tavares as honras de se referir a elle o sr. Antonio Rodrigues Sampaio, n'um artigo da "Revolução de Setembro" que n'essa epocha dava as cartas em tudo, politica, letras e noticias.

O Almadense, domingo 2 de dezembro de 1855.
Imagem: Casario do Ginjal

O escriptorio de "O Almadense"  uma lojasita em Almada [Cacilhas], que Eduardo Tavares tinha alugado por uma nobre ostentação jornalistica, era situado no largo, junto da igreja, e servia para os redactores dormirem pelo tempo das festas do S. João e dos cyrios da Atalaia; no resto do anno estava fechada, e nunca houve exemplo de ir um assignante perturbar o silencio d'aquella moradia.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

No vapor é que se tratava tudo, e no caes. nosso distribuidor era um burriqueiro; quando elle tinha mais que fazer, distribuiamos nós a folha por aquella rua de Cacilhas adiante, Nìcolau de Brito pelas casas da direita, eu pelas da esquerda, Roussado pelo melo da rua às pessoas que vinbam ou iam.

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Eduardo Tavares, de lista de assignantes na mão, ia-nos indicando os numeros das portas onde deviamos bater, e o nome a quem era destinado o periodico.

Foi uma grande publicação. Só o que ali se moeu a camara de Almada por causa de um boi que entrara no cemiterio, por ver a porta aberta, e fora tasquinhando na relva que encontrou por aquelle campo dos mortos!

Almada (Portugal), Vista geral, ed. Martins/Martins & Silva, 30, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Vimos n'isto um desacato horroroso; e Tavares, que já n'esse tempo se destinava à politica, deu aquella respeitavel camara as primicias da sua austeridade e intransigencia, que mais tarde no parlamento se téem feito sentir de vez em quando. (1)


(1) Júlio César Machado, Cláudio Lisboa, Empreza Editora Carvalho & C.a, 1852

Biografia de Eduardo Tavares

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Convento Dominicano de São Paulo de Almada

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra". (1)

O Seminário de São Paulo de Almada foi fundado como seminário do Patriarcado de Lisboa no ano de 1935, mas já antes a casa contava com um rico historial, de grande relevo na vida de Portugal e de toda a zona circundante de Lisboa.

Assim, a vida desta belíssima casa começa no já longínquo ano de 1569, com a fundação do Convento Dominicano de São Paulo de Almada por Frei Francisco Foreiro, insígne teólogo que se distinguiu no Concílio de Trento, e então Provincial da sua Ordem no nosso país, que nele viria a falecer e ser sepultado em 1581, onde ainda hoje se encontra.

Em 1755, o Convento sofre grandes danos, e só a Igreja é restaurada quase de imediato, motivo pelo qual passa a sede da paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo, cuja igreja havia caído com o sismo.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Dez anos depois, e porque as condições nunca mais foram as mesmas desde aquele catalismo, os Frades Pregadores abandonam o Convento de São Paulo. Começa aqui o rol das muitas tribulações e mãos pelas quais o Convento passou.

Em 1775, os Dominicanos vendem a quinta a um industrial francês, François Palyart (1726 - 1816), e a casa conventual, em 1776 aparece já na posse das Ordens Militares, que por sua vez, e ainda no mesmo ano, a tornam a vender, desta feita ao mesmo francês que já tinha comprado a quinta.

A igreja e uma das alas do convento ficaram para a paróquia.

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com o decreto de extinção das Ordens Religiosas de 1834, os bens dessas instituições passam a fazer parte do património estatal, mas isso em nada afecta a Igreja de São Paulo, que era paroquial e não de ordem religiosa.

Mas no ano seguinte, perde esse carácter, pois a paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo foi definitivamente incorporada na de Santiago de Almada, ficando a igreja entregue aos cuidados de uma das suas irmandades, a do Rosário.

Segue-se uma fase extremamente confusa, com vendas e contravendas, falências e casos mal esclarecidos.

Chegamos, entretanto, a 1855 com uma situação no mínimo caricata: a quinta e a casa eram de um proprietário, mas o corredor da Sacristia era de outro.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, desenho de Nogueira da Silva, gravura de Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

E assim se foi caminhando, com tudo a ameaçar derrocada total. A irmandade da Assunção, para não deixar que a igreja se danificasse, fez restauros em 1897.

[...] reproduziremos uma noticia que vem avivar-nos a saudosa lembrança de Liberato Telles, ha pouco fallecido. 

Este distinctissimo conductor de obras publicas, ultimamente agraciado com a promoção ao honroso cargo de conductor principal, organizara uma monographia interessante, como outras que elle deu à estampa, ácerca do edificio e egreja do antigo convento de S Paulo, em Almada, cujas obras de restauração foram, durante bastante tempo, dirigidas por aquclle illustre e benemerito funccionario.

Esta memoria, porém, infelizmente ficou manuscripta, e foi pelo auctor offerecida e enderessada ao conselho superior dos monumentos nacionaes, acompanhada de um magnifico album contendo photographias das fachadas, planta e corte do edificio, onde repousam entre outras, as ossadas de fr. Francisco Foreiro, qualificador do Santo Officio, e confessar de D. Joäo lll, que alli falleceu em 1581, e de D. Alvaro Abranches da Camara, um dos mais valorosos campeões da independencia, em 1640, e heroe das luctas com os hollandezes no Brazil. 

Armas Abranches, segundo a lápide da sepultura da Igreja de São Paulo em Almada.
Imagem: TRAVESSA DOS CONJURADOS

O fallecido Liberato Telles, cujo dedicado amor pelas cousas nacionaes e pelos assumptos artisticos e archeologicos era bem conhecido, pedia que o antigo convento de S. Paulo, theatro do pungente drama da vida de fr. Luiz de Sousa, fosse considerado monumento nacional.

Este magestoso templo que se achava já bastante arruinado, está sendo actualmente reparado por um troço de operários sob a direcção do illustre conductòr de obras publicas, sr. Liberato Telles de Castro e Silva.

Estas reparações foram mandadas fazer pelo governo, para o que muito contribuiu o nosso amigo e conterrâneo sr. Antonio Dionizio Parada.

ver artigo relacionado:  Almada em 1897

Ainda ha pouco, um dos nossos mais illustres investigadores, que tantos e tão relevantes serviços tem prestado à historia da arte nacional, o sr. dr. Sousa Viterbo, chamara sobre este ediñcio antiquissimo as attenções dos estudiosos, na sua interessantisstma Memoria, publicada na collecção das Memorias da Academia Real das Sciencias, intitulada: D. Manuel de Sousa Coutinho (fr. Luiz de Sousa) e sua mulher D. Magdalena Tavares de Vilhena (op. de 60 pg. — 1902).

ver artigo relacionado:  Liberato Teles


Em 1913 está danificada grandemente, tendo sido as imagens atiradas pela ravina ou queimadas. Alguma coisa escapou, mas nada ficou incólume.

Popular "Tio" Resgate explicando a Bíblia no adro da egreja do extincto convento de S. Paulo em Almada, 1911.
Imagem: Illustração Portugueza, Hemeroteca Digital

Em 1934, o Patriarcado de Lisboa adquire a Quinta e o Convento, por intermédio do Cónego José Falcão, para instalação do Seminário Menor, sendo este inaugurado no ano seguinte, a 20 de Outubro de 1935, pelo então Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, com 41 seminaristas.

O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira ao inaugurar o novo seminário de S Paulo, 1935.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O seu primeiro Reitor foi Monsenhor Francisco Félix, e o primeiro Vice-Reitor, o Padre António de Campos, mais tarde ordenado Bispo.

Por o espaço ser relativamente exíguo para o que se necessitava, logo em 1936 começam obras de ampliação, que foram terminadas e inauguradas em 1938.

Seminário de Almada, Pavilhão novo 01
Imagem: Delcampe, Oliveira

Cumpridas que foram, em 1960, as Bodas de Prata do Seminário, este preparava-se para atravessar o Concílio Vaticano II. No fim deste, em 1965, surgiu uma novidade: o Patriarcado de Lisboa iria criar três zonas pastorais — Santarém, Oeste e Setúbal — com vista à sua elevação a Diocese.

O Seminário de Almada ficou assim plenamente integrado na Zona pastoral de Setúbal.

Os acontecimentos, no entanto, não tomaram um rumo linear:

Seminário de Almada, Um dormitório
Imagem: Delcampe, Oliveira

nas conversações e nas reuniões havidas no seio da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a criação e os limites das novas dioceses, o Cardeal Cerejeira opôs-se a que o Santuário do Cristo-Rei e o Seminário de Almada fossem integrados no território da nova Diocese de Setúbal. 

Seminário de Almada, Vista geral 01
Imagem: Delcampe, Oliveira

A votação então havida foi inconclusiva, com a diferença de um voto a separar os bispos secundantes desta opinião e os seus opositores, para quem tudo o que estava abaixo da linha do Tejo no território do Patriarcado devia fazer parte da nova Diocese de Setúbal.

Vista do Seminário de Almada, Mário Novais, 1946
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

E assim, a 16 de Outubro de 1975, pela Bula Studentes Nos, do Papa Paulo VI, era criada a Diocese de Setúbal, sem o Seminário de Almada e o Santuário de Cristo-Rei.

No entanto, mercê das insistências do Cónego João Alves, antigo Vice-Reitor do Seminário, que viria a ser Bispo de Coimbra e Presidente da Conferência Episcopal, a Bula trazia a clausula de que as duas instituições só ficariam em administração do Patriarcado "enquanto não se pode providenciar doutro modo". [...] (2)

O interior de um dos pátios do novo seminário de S. Paulo, 1935.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo


(1) Sabugosa, Conde de, Almada pelo conde de SabugosaSerões: revista mensal ilustrada, n° 2, Lisboa, 1905.
Fonte: Hemeroteca Digital 

(2) Seminário Maior de São Paulo.

Artigos relacionados: 
Manuel de Sousa Coutinho
 

terça-feira, 17 de junho de 2014

H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal

Vista dos Jardins e Palácio do Conde Burnay e do Tejo (detalhe), Francesco Rocchini, finais do século. XIX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Ha no destricto desta Freguesia dous pórtos de mar, hum he о da Fonte da Pipa, com seu Forte para a banda do Poente, com huma praya como a deu a natureza sem artificio algum, frequentado de muitas embarcações, especialmente lanchas, que a ella vem fazer aguadas, e pode admittir até dezoito désta casta de embarcações.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

O outro porto he o do Cubal, com huma praya mais espaçosa, que a do primeiro, assim no comprimento, como na largura, tambem sem artificio, frequentado de varias embarcações, como são; bateiras, e fragatas, e as que o frequentão todos os dias fao dezasseis, e tem capacidade para admittir até cincoenta embarcações, como barcos de Cassilhas, que em muitas occasioens do anno vem amarrar nella, pela causa de ser abrigado das tormentas dos Nordestes, e Lestes, que por aqui correm com grande violencia. (1)

Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

1852 — Os caldeireiros Hugh Parry e George Oakley chegam a Lisboa para trabalhar no Arsenal de Marinha.

1855 — Hugh Parry e George Oakley estabelecem-se por conta própria em Lisboa na Boa Vista. Nasce a H. Parry & Son.

1860 — [início da década de] Estabelecimento da Parry no Ginjal, no Cubal. Lançamento à água do Alcântara, vapor para transporte de passageiros, seguir-se-iam o Progresso o Lisbonense e o Belém — usavam como meio de propulsão rodas laterais, mediam cerca de 30 metros de comprimento, o casxo era em ferro e tinham uma lotação de cerca de 200 passageiros. 

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal

A sua construção era de tal forma resistente que estiveram ao serviço no Tejo mais de 30 anos.

1864 — Lançamento à água do Belém, o primeiro barco construído no estaleiro da Parry no Ginjal.

Navio a vapor Belém, o primeiro lançado ao mar em 1864
Imagem: Restos de Colecção

1866 — Associa-se à Parry Francis Churchill Cannell, genro de Hugh Parry.

1869 — Lançamento do Vapor n° 1 da Alfândega de Lisboa tendo como meio de propulsão a hélice.
[...] ahí por Fevereiro de 1874, [...] Começava n'essa ocasião o assentamento da linha de Carris de Ferro Americanos, do Terreiro do Paço ao Conde Barão, e existia, não havia muito, a carreira de vapores de rodas para Alcântara e Belém, de cuja opulenta frota fazia parte o roncador e cuspinhento vapor Progresso, com seu simbólico titulo de arrojado meio de transporte, e no qual tantas vezes embarquei.
in Prólogo do auto da Lisboa Velha, Affonso Lopes Vieira.
1876 — Morre Hugh Parry. Francis Cannell assume a gerência da empresa.

1890 — Ultimatum inglês.

1893 — Promessa de venda do estaleiro do Sampaio na Praia da Lapa em Cacilhas à firma H. Parry & Son pela importância de 90.000$000 réis.

1895 — Lançamento à água das lanchas canhoneiras Diogo Cão e Pedro de Annaya, encomenda da Subscrição Nacional em consequência do Ultimatum inglês. Também no mesmo ano foi construída a lancha canhoneira Honório Barreto.

1898 — Lançamento à água da canhoneira Chaimite.

Estaleiro no Ginjal, H. Parry & Son.
Imagem: Restos de Colecção

1899 — Concretização da venda do estaleiro do Sampaio de Cacilhas à H. Parry & Son.

1903 — Lançamento à água da canhoneira Tete.

Lancha canhoneira Tete.
Imagem: graptolite

1904 — Lançamento à água da lancha canhoneira Sena.

1938 — Fim do contrato de arrendamento do estaleiro da Parry no Ginjal e transferência de todos os serviços para Cacilhas. (2)

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Na praia do Cubal [Cubalinho], naturalmente inclinada, estavam montadas as carreiras de construção, em madeira.

A murallha do cais era aí interrompida por uma ponte que se elevava quando havia lançamentos 

Estaleiro de construções navaes, H. Parry & Son, Cubal, Ginjal, 1890
Imagem: Museu de Marinha

"Quando a gente passava havia um sítio onde se metiam lá os batelões. Levantava-se aquela madeira para o batelão entrar, depois pousava-se a tábua. Era da Parry." (3)


(1) Cardoso, Luís, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.

(2) Luzia, Angela, Esteves, Joana, Santos, Maria José E., A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs.

(3) Gonçalves (coord.), Elisabete, Memórias do Ginjal, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2000, 88 págs.

sábado, 31 de maio de 2014

O rei moço

Por 1858 D. Pedro V frequentava muito a casa de Alexandre Herculano [...]

Alexandre Herculano (1810-1877)
Imagem: Wikimedia Commons

D. Pedro V perguntava — usamos do termo, vulgar nas nossas províncias — a miude a casa da Ajuda. A voz de Stentor do creado acudia, cá de dentro, bradando: — Quem é?

A um submisso: — Faz favor — abria estrepitosamente, dava com El-Rei, e ficava varado!

D. Pedro V perguntava:

— O sr. Herculano está?

O creado, mudo, curvava-se até ao chão, n'uma vénia affirmativa. O monarcha seguia pelo corredor, levantava o fecho e dizia:

— Dá licença? Seja Deus n'esta casa.

Herculano recebia-o como estava; ás vezes, em trajo frasqueiro. Também lh'o censuraram. Queriam, provavelmente, que dissesse ao principe:

— Espere Vossa Magestade, que eu vou pôr casaca e lenço branco.

Não tinha esse mau gosto. D. Pedro V entrava. A conversação prolongava-se. Umas vezes tratavam de coisas graves, e outras de mais espairecidas, anecdotas politicas do dia, lettras, artes. El-Rei recitava versos, que lhe haviam agradado e tomara de cór, com a sua memoria bragantina.

De tudo tínhamos nós noticia depois, porque D. Pedro ficava só com Alexandre Herculano.

D. Pedro V estava então na adolescência. Parece-me agora vel-o. Sempre com a sua farda e a sua espada, como hoje trazem os militares. Alto, distinctissimo, sereno, parecia envolvel-o um nimbo refulgente de bondade! As pupillas nadando no esmalte das scleroticas. Cútis finissima, na transparência da pelle contavam-se-lhe as veias azuladas. Cabello loiro acendrado, caindo em natural desalinho sobre a testa e as fontes. Bocca graciosamente recortada, e vermelha. O beiço inferior um pouco grosso, mas não belfo, como o dos Braganças. A sua expressão habitual era meditativa. Quando sorria, a primavera ridente da mocidade varria as nuvens, que, não raro, toldavam o coração do principe.

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

D. Pedro V vinha dos esplendores do Paço. O piso suave das alcatifas, a curvatura dos fâmulos — grandes e pequenos, o ambiente morno das lisonjas, ainda dos mais honestos, todos os thuribulos, cujo incenso vicia o ar e entontece a cabeça, haviam de exercer no Rei a sua acção mórbida. Advertido, pela lição dos livros, caracter recto e razão solida, fugia d'elles? Talvez.

A pé e só, saía das Necessidades. Entrava no zambujal da Tapada, então bravia, como a caça de pello e de penna, que abundava por aquelles covões e chapadas. Os moinhos, tão pittorescos, uns agrupados, outros, aqui e além, pelos cimos flexuosos da serra, viravam as aspas brancas ao norte largo, girando, girando, para moer o trigo, que havia de alimentar o povo. Esses moinhos tinham servido de fortalezas para sacudir o despotismo, e firmar na cabeça de sua mãe a coroa liberal, que elle herdara. E o príncipe passava, aspirando a aragem acre e salubre. Vinha visitar o homem, que, traçando os annaes da pátria, desenhara a figura de seus avós. O Rei identificava-se com a natureza e tornava-se humano. Os copados zambujeiros, ramalhando, varriam-lhe do espirito os bálsamos palacianos. Só, e distante do sólio como rei, sentia-se maior como homem! N'aquella hora breve, solitária e folgada, vivia séculos na historia! O pensamento, ás vezes, é fardo acabrunhador, como disse o malfadado Millevoye. É preciso sacudil-o [...]

Acertava, ou talvez fosse propositadamente, vir o rei n 'alguns sabbados. As quatro, em ponto, levantava-se para sair. Sabia que n'esses dias, a essa hora, Herculano contava, á mesa, com os seus amigos. Seguindo pelo corredor, reparando na porta da casa de jantar, e fitando em Herculano um olhar significativo, disse-lhe, uma vez:

— Este officio de rei tem coisas bem desagradáveis!

Naturalmente os seus desejos seriam entrar, elle, moço, intelligente, amante das lettras, e tomar parte na convivência de rapazes que, na maioria, eram a flor dos talentos de Portugal!

Correu tempo. D. Pedro V casou. O noivado foi breve, porém luminoso, porque se amavam e entendiam aquellas duas almas!

Um dia veio a nuvem, súbita e temerosa!

Se a purpura se conservava sobre os hombros, o lucto da viuvez cobriu-lhe o coração até á morte! Nem os negócios públicos, nem o Curso Superior, que fundara com tanto gosto, lhe tiravam do peito aquella nódoa!

Rainha D. Estefânia, Karl Ferdinand Sohn, 1860.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Para distrahir os irmãos, fez a viagem ao Alemtejo. Viagem fatal!

N'um dia de inverno — tenebroso dia — o bronze, ululante nas torres dos templos da cidade, e o canhão, ribombando nas fortalezas, annunciaram a morte do Rei á cidade consternada! A dor foi sincera e violenta, a ponto de romper em tumultos!

"Ao despotismo da morte respondeu a anarchia da dor!" disse José Estevão.

O préstito fúnebre, sem apparatos nem pompas, foi o mais tocante e imponente que se tem dado em Portugal. Nem uma carruagem! Das Necessidades a S. Vicente, duas renques de povo, firmes e circumspectas, como se fossem alas de militares disciplinados!

A morte de D. Pedro V tomou proporções de catastrophe nacional. O povo tinha a intuição do poder intellectual, do saber, da rectidão de caracter e da bondade do príncipe. Amava o e respeitava-o; sabia que no throno estava o seu amigo e protector.

Os políticos — politicos de todas as cores não andavam de boa avença com elle. A um óbice que o monarcha lhes puzesse, murmuravam, quando nos jornaes não declaravam:

— Governo pessoal, governo pessoal!

Os politicos pelam-se por elle, mas quando o rei se torna instrumento passivo dos seus desígnios e ambições. D. Pedro V não era para isso. Estava alli um homem. Como supremo magistrado do paiz, conhecia as suas obrigações; não exorbitava d'ellas, porém não admittia que lh'as invadissem. Tinha o sentimento da justiça e da moralidade em grau elevado, e via o caminho que isto ia levando. Não concedia nada, que fosse além do legitimo, nem pedia coisa alguma aos ministros. Que os reis também pedem!

Esta rigidez não se amoldava aos meneios e voltas da politica. A morte, ás vezes, é resgatadora de infelizes. Elle, cora o seu caracter, contra a onda das coisas, n'esta terra que havia de ser, senão um desgraçado! Morreu a tempo. Não poude ver as lagrimas que provocou a sua morte; mas sabia que era amado.

Para os que o conheceram, a figura de D. Pedro V tem o que quer que seja de phantastico. A sua belleza, o seu valor á cabeceira dos pobresinhos moribundos; o dia das núpcias; o véu da noiva e os botões da laranjeira, envoltos já nos crepes e nos goivos do sepulcro; a Rainha morta; elle, no Paço, com os irmãos, e a morte a pairar em roda dos Infantes! o Príncipe herdeiro, coração bondoso, intelligencia viva, porém tão juvenil ainda, tão inexperiente dos homens, das coisas, da politica, por esses mares fora; o paiz; o futuro; as primeiras arremettidas da febre, com que se teve ainda de pé; as visões, prologo da agonia; aquella figura apollinea, refulgente, envolta n'uma nuvem densa; o baquear na terra!...

[...] uma das referências unanimemente mencionada pelos autores, é a provável data da construção do Palácio Real do Alfeite, em 1758, por D. Pedro III, filho de D. João V e marido de D. Maria I.

Real quinta e residência do Alfeite, 1851.
Imagem: António Silva Tullio, A Semana.

Já no decorrer do século XIX, o Palácio Real do Alfeite foi, novamente, objecto de uma intervenção de remodelação e restauro, merecedora de registo pela sua magnitude, extensão e visão, transformando um edifício humilde, rudimentar, sem  ornatos, num imóvel arquitectónicamente equilibrado, esteticamente agradável, simples mas de linguagem imponente.

Esta intervenção esteve a cargo do arquitecto da Casa Real Joaquim Possidónio da Silva, realizada por ordem de D. Pedro V, e define exteriormente a actual configuração do palácio.

D. Pedro V (n. 1837 m. 1861), de seu nome completo Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio de Bragança, Bourbon e Saxe Coburgo Gotha, cognominado O Esperançoso, O Bem-Amado ou O Muito Amado, foi Rei de
Portugal de 1853 a 1861.

"Em 1857, D. Pedro V fez grandes melhoramentos na quinta e mandou construir um novo palácio, mais confortável e de traça mais elegante – que ainda se mantém – para substituir o antigo".
in Mendes, José Agostinho de Sousa, A Quinta do Alfeite, Revista da Armada, 135, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 1982.


Almada, Palácio Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

"No local do palácio sempre ali existiu um edifício com uma ponte de cais e acesso, que foi reformulado em 1837, com melhores condições para albergar a Família Real, mas as instalações que hoje conhecemos resultam da transformação mandada fazer por D. Pedro V, em 1857, de acordo com um desenho do arquitecto Possidónio da Silva".

in Matos, Semedo de, 150 Anos da chegada a Portugal da Rainha Dona Estefânia, Revista da Armada, 422, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 2008.

Almada,  Praia do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 19, década de 1900
Imagem: Delcampe

"[…] D. Pedro V fez importantes obras na quinta do Alfeite e construiu um novo palácio. As salas são elegantes e bem mobiladas, a escadaria magnífica, as pinturas dos tectos são deveras artísticas e a quinta tem bellezas naturaes, existindo […] por vezes Suas Magestades vão de visita ao Alfeite, repousam alguns momentos no palácio, merendam na quinta, embarcando depois no magnifico cães junto do palácio".

in O Paço Real do Alfeite, Illustração Portugueza, Empreza do Jornal O Século, Lisboa, Outubro 1905.

Almada,  Largo da Quinta Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 17, década de 1900
Imagem: Delcampe

[…] Sua Magestade El-Rei o Senhor D. Pedro V acaba de mandar construir n’aquella quinta uma nova residência, mais confortável e elegante do que o antigo real casarão, escoltado de pontales, que lá havia. È architecto da obra, o da casa real, Joaquim Possidónio Narciso da Silva” [...]

in Alfeite, Archivo Pitoresco, vol. I, Typ. de Castro Irmão, Lisboa, 1858.

"A aristocracia desse tempo era pouco instruída, de mentalidade antiquada, muito arreigada às suas prerrogativas e ambições pessoas e ignorante do progresso realizado além fronteiras com o advento da nova era industrial. D. Pedro V dotado de viva inteligência e de notável formação moral e intelectual era muito estudioso, metódico e possuidor de invulgares qualidades de trabalho" […]
in Revista de Marinha, 390, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 1950.

"D’entre as quintas mais notáveis do termo d’Almada, faremos unicamente menção das duas que pertencem á família real: a do Alfeite, que é da coroa, com jardim e grande matta abundante de caça, e agora aformoseada com un lindo palácio de campo, no gosto inglez, mandado edificar por el-rei o Senhor D. Pedro V […]"

in Barbosa, Inácio de Vilhena, As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza que teem Brasão d’Armas, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1860.


Bibliografia: Pereira, Susana Maria Lopes Quaresma e, O palácio real do Alfeite: da fundação à contemporaneidade, século XVIII-XX: percursos e funcionalidades, 2009, Universidade de Lisboa.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

E pelas mesmas ruas, por onde elle passava, a cavallo, todos os dias, adolescente e confiado no porvir, o saimento muito vagaroso, por entre o povo todo de negro, n'uma tarde fria, húmida, sinistra, pela via dolorosa ; longa . . . longa .. . que não tinha fim!...

E n'este turbilhão de bailada allemã, que, ainda hoje, nós vemos passar D. Pedro V! [...]

Alexandre Herculano, Rebello da Silva, Sant'Anna e Vasconcellos, e eu, seguimos das Necessidades até S. Vicente.

Funeral de D. Pedro V, novembro 1861.
The Illustrated London News, gravura do esquisso de P. Anstell, 1862.
Imagem: Real Arquivo Digital no Facebook

Caia a noite, quando o Rei, no seu grande esquife, todo coberto de crepes, entrou o âmbito da egreja.

Foi a primeira vez que vi Alexandre Herculano chorar como uma creança! [...] (1) 


Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay

D. Pedro V nasceu a 16 de setembro de 1837.

Ascendeu ao trono em 1853, tinha 16 anos.

Casou em 1858 com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, que faleceria no ano seguinte.

Em 1855 presidiu à inauguração do primeiro telégrafo eléctrico no país.

Inaugurou o caminho de ferro entre Lisboa e Carregado em 1856.

Criou e subsidiou o Curso Superior de Letras em 1859.

Fundou hospitais e outras instituições, entre os quais, correspondendo a um pedido de sua esposa entretanto falecida, o Hospital de Dona Estefânia.

Em 3 de setembro 1861, inaugurou os trabalhos de construção do Palácio de Cristal do Porto.

D. Pedro V faleceu a 11 de novembro de 1861, tinha 24 anos.

O Palácio de Cristal do Porto foi destruído em 1951.

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. II, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa.

Leitura adicional:
Vilhena
, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Vol. I, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.
Vilhena, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Vol. II, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.
Vilhena, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Suplemento I e II, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Construção naval tradicional no lugar da Mutela

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Alfeite, D. Carlos de Bragança, aguarela, 1891
Imagem: Museu Municipal de Coimbra, colecção Telo de Morais

Desconhecem-se por quanto tempo estas instalações se mantiveram na posse da família após a morte de António José Sampaio, tendo como certo que desde finais do século XIX, João Gomes Silvestre, conhecido por “João Marcela”, natural de Ovar, surge como proprietário do estaleiro da Mutela, partilhando a sua direcção com o irmão Bernardino Gomes Silvestre.

Em 1917, ainda na posse dos mesmos industriais, o estaleiro mantinha as mesmas confrontações do aforamento primitivo, apenas acrescido da serventia, para arrecadação de ferramentas, de um moinho de maré que era propriedade dos herdeiros dos Condes de Mesquitela, e se encontrava desactivado.

Estaleiros da Mutela, Carlos Pinto Ramos, aguarela, 1931
Imagem: Museu José Malhoa

Vista geral da Mutela, Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O estaleiro dos “Silvestres” funcionou até 1947, ano em que teve lugar um processo de expropriações, tendo por objectivo a abertura do troço da Estrada Nacional n° 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Com este estaleiro naval desapareceram muitos outros que se situavam nas imediações, como os de Manuel Caetano, Américo Cravidão, Francisco Cavaco, João Fialho, Joaquim Maria da Silva, ou Pedro Lopes e Serafim Matos, transferindo-se alguns para o concelho do Seixal enquanto outros simplesmente deram por terminada a sua actividade. (1)

Zona dos estaleiros da Mutela em 1941, Vitalino António
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

  1. Estaleiro e oficina do Peres
  2. Estaleiro do Pinhal, Zé dos ovos, Chico de Sezimbra
  3. Zona da represa para os toros de madeira estarem na água
  4. Muralha da Luíza da água
  5. Cais da fábrica Ramos (cortiça)
  6. Cais do Martins (vinhos)
  7. Cantinho da lapa onde os esgotos descarregavam na praia
  8. Fábrica da farinha
  9. Clínica António Elvas
  10. Estaleiro do João Marcelo (herdeiros), Manuel Lino, Cravidão (sócios)
  11. Moinho de maré (pertença da sociedade Manuel Lino) onde eram guardados os apetrechos náuticos
  12. Ferraria do João Vieira (João Ferreiro)
  13. Estaleiro da sociedade Manuel Caetano, Lázaro, Américo Cravidão
  14. Ferraria do Chouffer em brasa
  15. Zona de encalhe das embarcações para ficar em cima dos picadeiros (para raspar fundos e aplicar bréu)
  16. Estação de toros de madeira de Zé Cravidão (fornecimento dos estaleiros)
  17. Cavalariça do André
  18. Residência (barraca do Manel Preto) empregado do forno de cal
  19. Esplanada do liberdade
  20. Estaleiro do Chico Cavaco
  21. Estaleiro do Fialho (irmão do Chico Cavaco)
  22. Ferraria do Fialho
  23. Cais da fábrica Cabruja & Cabruja Lda. (cortiça)
  24. Estaleiro do Joaquim Picadeiro
  25. Estaleiro da sociedade Pedro, Serafim e Fernando
  26. Largo da Mutela
  27. Serração do Cereja (anteriormente Santo Amaro, Manuel Febrero)
  28. Taberna do Adelino Baeta
  29. Taberna da Emília da Praia 



(1) Grupo parlamentar do PCP, Deputados do, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005, 19 págs.




Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.


O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira. Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.

O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.

O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…

Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.

Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.

João Pinto Ramalhadeiro (*)


(*) Artigos do jornal João Semana Fragateiros de Ovar