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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Homens de água e luz

Suplemento ao jornal A Pátria publicado em 8 de outubro de 1922.
Imagem: Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

Em 1923, a Câmara instalou um gerador de electricidade junto da Fonte da Pipa e fez, com a energia produzida, a elevação da água até um depósito situado no antigo baldio da vila, o Campo de São Paulo.


Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Depois, a água era conduzida, pela força da gravidade, até um chafariz construído no Largo do Catita. 

Chafariz do largo José Alaíz, inaugurado em 1922.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Simultaneamente foram feitas as ligações domiciliárias às famílias mais abastadas.

Em 1930 foram construídos mais dois chafarizes nas principais artérias. 

O sistema, no entanto, era ineficaz, pois as constantes avarias do gerador impediam um abastecimento contínuo.

O depósito donde a água era elevada levava cerca de vinte e quatro horas a encher. 

Todos os anos, ao registarem-se as primeiras vagas de calor, a água faltava.

Chafariz da Praça do Brasil, inaugurado em 1922.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia de Almada

Desde as primeiras horas da madrugada, filas compactas de homens, mulheres e crianças, servindo-se de toda a espécie de vasilhas, esperavam o momento de adquirir alguns litros do tão indispensável líquido.

Chafariz do Largo do Catita, inaugurado em 1922.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia de Almada

A instalação do gerador, em 1923, permitira a criação de uma pequena rede de iluminação pública. 

Os candeeiros a petróleo foram retirados das esquinas, sendo instaladas 25 lâmpadas em Almada e 15 em Cacilhas. 

A iluminação, porém, manteve-se com fraca intensidade e o fornecimento de energia sofria muitas interrupções devido, principalmente, a constantes avarias do gerador. (1)

Chafariz da Praça Velha, inaugurado em 1922.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia de Almada

Alfredo Simões Pimenta (1881 -1964), depois da implantação da República veio residir para Almada, onde se popularizou como militante do Partido Democrático e inspector escolar.

Figura controversa, seria em breve o cidadão mais discutido do concelho.

Empreendedor, criou em Almada uma Escola Primária Superior cujo curso, de três anos, dava equivalência ao quinto ano dos liceus. Isto no início dos anos vinte, o que representava algo de importante sob o prisma educativo neste pobre e abondonado concelho.

Como presidente da Câmara Municipal de Almada, realizou melhoramentos espectaculares, tais como: um chafariz, no centro da vila, tendo quatro torneiras a jorrar água, e ainda a almejada electrificação.

Tradições de S. João em torno do Chafariz, Júlio Diniz, década de 1970.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Um motor de água e uma geradora, colocados na Fonte da Pipa, operavam este prodigioso progresso, em 1922.

[...] quando da inauguração do chafariz da vila na então Praça do Brasil (que fora antes o Largo do Catita e, hoje, se chama Largo José Alaíz), ele, presidente da edilidade, caprichou por transportar para casa o primeiro barril de água, às costas.

E, ao executá-lo, o povo quiz igualmente transportar o presidente aos ombros até à sua residência, que se situava na Avenida Heliodoro Salgado.

Por esse tempo pôs também um barco na travessia do Tejo, a Finalmarina*, o primeiro cacilheiro movido a óleo, para facilitar estes transportes.

Tréa anos depois, foi aberto ao público um lavadoiro, na Boca de Vento, muito bem apetrechado, mesmo mui luxuoso para a época, pois até tinha dois espelhos bisautés para as lavadeiras fazerem a toilette (oh, espanto dos espantos naqueles loucos anos vinte), mas que carecia, por vezes, de água para as barrelas... (2) 

Largo da Boca do Vento, José Artur Leitão Bárcia, antes de 1945.
Burros de aguadeiros a caminho da Fonte da Pipa frente ao edifício do departamento de Administração Geral e Finanças da Câmara de Almada.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa


(1) Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.

(2) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

* Finalmarina foi a draga envolvida no naufrágio do "Tonecas" em 1938. Seria, tavez, esse o cacilheiro movido a diesel referido no texto.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Déjà vu

Da lazarenta Cacilhas à piscosa Sesimbra são seis léguas por uma estrada atravessada de barrancos, que o tráfego do peixe arruinou. (1)

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Imagem: Delcampe

Se ao menos Brandão tivesse visto Cacilhas com as cores que Monet deu a outros lugares,

Honfleur, Farol do hospício, Honfleur, Oscar-Claude Monet, 1864
Imagem: WikiPaintings

recriados, acrescentados de singeleza,

Cacilhas, Charles Chusseau-Flaviens, c. 1900/1919
Imagem: George Eastman House

como se fossem pela primeira vez descobertos,

Honfleur, Arrastando o barco para terra, Oscar-Claude Monet, 1864
Imagem: WikiPaintings

serenos lugares de passeio, tornados limpos, frequentáveis, sociais...

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

ou, que poderia também encontrá-la em movimentos, mais ou menos, equivalentes, os macchiaioli italianos,

Piazzetta di Settignano, Telemaco Signorini, c. 1880
Imagem: Wikipédia

descobriria que as sombras também têm cor,

Chafariz de Cacilhas, Artur Leitão Bárcia, fotografia anterior a 1945
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

e que ela não se define nas vistas, nem nos objectos,

Port en Bessin, Le Castel, Paul Signac, 1884
Imagem: Normandy Impressionist Festival 2013

nem nos naturalistas portugueses,

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



nem com aromas, nem em poemas, nem noutras artes que exprimem palavras e pensamentos,

Sarner, Eric, (argumento), Prado, Miguelanxo, (desenhos), Carta de Lisboa, Meribérica/Líber, 1998
Imagem: Casario do Ginjal

mesmo que um fim da tarde seja a impressão do sol nascente.

A primeira exposição impressionista teve lugar em Paris, em abril de 1874, no estúdio do fotógrafo Nadar.

As obras aí expostos, como a "Impressão, sol nascente" de Jean-Claude Monet, não teriam sido aceites no Salão de Paris promovido anualmente pela Academia das Belas Artes.

Foi depois da crítica, depreciativa e jocosa, "A exibição dos impressionistas", assinada por Louis Leroy no Le Charivari, que o movimento começou a afirmar-se.

Impressão, sol nascente, Oscar-Claude Monet, óleo s/ tela, 1872
Imagem: Wikipédia


(1) Brandão, Raul, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Caparica, 1923

Do outro o mar azul metendo-se, num jorro enorme, pela ampla barra de Lisboa, deslumbrante e majestosa. De onde isto é esplêndido é acolá do alto do convento dos Capuchos. (1)

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

Da horrível Trafaria à Caparica gastam-se dezoito minutos num carrinho pela estrada através do pinheiral plantado há pouco. 

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112
Imagem: Delcampe

Os pinheiros são mansos, anainhos e inocentes: — os pinheiros novos são como bichos novos e têm o mesmo encanto. 

Ao lado esquerdo desdobra-se o grande morro vermelho a esboroar, e ao outro lado o terreno extenso e plano rasgado de valas encharcadas. De repente uma curva, algumas casotas cobertas de colmo — Caparica. 

Cabanas junto ao mar, Falcão Trigoso, óleo sobre madeira, 1925
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Primitivamente isto foi um grupo de barracas que os pescadores aqui ergueram neste esplêndido sítio de pesca, à boca da barra, a dois passos do grande consumidor. Têm um ar ainda mais humilde que os palheiros de Mira ou Costa Nova. 

Quatro tábuas e um tecto de colmo negro com remendos deitados cada ano: alguns reluzem e conservam ainda as espigas debulhadas do painço.

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

No imenso areal o barco da duna, sempre o mesmo barco, maior ou mais pequeno, próprio para a arrebentação, de proa e popa erguidas para o céu. 

Praia do Sol, Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n
Imagem: Delcampe

Trabalham seis companhas em catorze barcos. Já trabalharam oito. Cada barco emprega vinte e um homens, contando dez que ficam em terra. 

Costa da Caparica, Entrando no mar, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins
Imagem: Delcampe

Usam quatro remos: um grande de cada lado e dois pequenos, servindo os maiores para aguentar o barco quando as águas puxam e se vai ao mar a risco. 

A cada remo grande agarram-se três homens e dois aos mais pequenos. O espadilheiro guia o barco com outro remo – a espadilha. Quando há muito peixe fazem-se três lanços cada dia, e trabalha-se todo o ano se o mar deixa. A rede é a de arrasto para a terra.

O barco sai ao mar deixando um cabo nas mãos dos dez homens que ficam no areal, e vai-o largando pouco e pouco — cinquenta e tantas cordas de dezoito braças cada uma. 

Quando o arrais acha que se deve largar a rede, diz: — Em nome da Senhora da Conceição, rede ao mar! – E larga-se o calão, em seguida o alar, depois o saco, e por fim o outro alar e o calão, trazendo-se a corda para a terra. Abica, salta a tripulação e com os homens de terra arrastam a rede. 

Apanha-se sardinha, carapau, e às vezes, em lanços de sorte, e quando menos se espera, a corvina, alguma raia, pargo e linguado. 

Costa da Caparica, Pescadores arrastando o seu barco, ed. Passaporte, 371
Imagem: Delcampe

Uma grande extensão de areal, só areia e mar, barcos como crescentes encalhados e alguns pescadores remendando as redes. 

Costa da Caparica, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n
Imagem: Delcampe

Nem um penedo. Areia e céu, mar e céu. Dum lado o formidável paredão vermelho, a pique, desmaiando pouco e pouco, até entrar pelo mar dentro todo roxo, no cabo Espichel. 

Assombro de luz e cor. Amplidão. As casotas da Caparica aos pés, o mar ilimitado em frente, ao fundo e à direita a linha recortada da serra de Sintra com as casinhas de Cascais e Oeiras no primeiro plano esparsas num verde-amarelado... 

E luz? E o prodígio da luz?... A gente está tão afeita à luz que não repara nela e trata como uma coisa conhecida e velha este azul que nos envolve e penetra e que desaba em torrentes sobre as águas verdes desmaiadas e sobre as terras amarelas e vermelhas até ao cabo Espichel... 

Mas fecho os olhos – abro os olhos... Imensa vida azul – jorros sobre jorros magnéticos. Todo o azul estremece e vem até mim em constante vibração.

Costa da Caparica, ed. desc.

Quem sai da obscuridade para a luz é que repara e estaca de assombro diante deste ser, tão vivo que estonteia... (2)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Raul Brandão, idem