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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (1.ª parte)

O empenho de tornar conhecidas as belezas das cidade e de outras povoações estimulou, após a descoberta da arte tipográfica e da gravura em madeira, e seguidamente em cobre, no século XVI, os artistas desenhadores e gravadores a ilustrarem os livros descritivos dessas terras, com estampas representando vistas panorâmicas e trechos arquitectónicos de cidades, povoações e edifícios, tomando assim mais atraente e interessantes os textos descritivos.

Vista de Lisboa e fantasia da margem sul do Tejo, Martin Engelbrecht segundo Friedrich Bernhard Werner, 1750.
Imagem: akg images

Portugal não ficou esquecido nessas publicações, tanto mais que os olhos da Europa estavam então fixados neste povo, que alargava os âmbitos do velho mundo com as suas descobertas e conquistas.

Portugalia (detalhe), Nuremberg Chronicle, Hartmann Schedel, 1493.
Imagem: World Digital Library

Era então a cidade de Lisboa muito mais pequena do que hoje a conhecemos. Já no século XVI ela tinha transposto a cinta de muralhas com que a havia cingido, de 1373 a 75, el-rei D. Fernando, e havia-se alargado ate à Esperança, para o ocidente, até Santa Clara, para o oriente, pelos montes da Graça, da Penha de França e de Sant'Ana, para o norte, e bem assim ao longo duma faixa marginal do Tejo, desde Alcântara até Xabregas.

Foi porém depois do terramoto do 1.º de Novembro de 1755, e ainda mais durante o século XIX, que a cidade ampliou consideravelmente o seu âmbito do lado da terra, de forma que neste trabalho consideraremos "cidade de Lisboa" toda a região que constitui actualmente (1946) o município de Lisboa, que se estende desde as antigas portas de Algés até Olivais, ao longo da linha marginal do Tejo, e desde este rio até Benfica, Lumiar e Charneca para o norte, compreendendo portanto as antigas povoações de Belém, Alcântara, Ajuda, Benfica, Carnide, Campo Grande, Lumiar, Ameixoeira, Charneca, Encarnação, Chelas, Olivais e Xabregas.

A mais antiga representação iconográfica de Lisboa conhecida consta dum selo de cera da Câmara de Lisboa, do tempo de D. Afonso IV, pendente dum documento da era 1390 (A.D. 1352), que existiu no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em que se vê a cidade representada esquematicamente com as muralhas e torres da cerca moura.

Esta vista só é conhecida pela cópia que dela se fez para acompanhar o tomo IV (1788) da "História Genealógica da Casa Real Portuguesa", por António Caetano de Sousa.

Selo de cera do tempo de D. Afonso IV, 1352 (A.D.),
reprodução gráfica.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois desta, as primeiras representações iconográficas da cidade foram feitas nalguns portulanos em pergaminho, dos séculos XV e XVI, que se guardam em bibliotecas e museus estrangeiros, e que têm sido reproduzidas e publicadas em épocas recentes.

Portulano de Jorge de Aguiar (detalhe), 1492.
Imagem: Gafanha da Nazaré

São todas vistas esquemáticas em que figuram edifícios convencionais, e que tinham por fim, como os desenhos, mostrar o seu respectivo local nos ditos mapas geográficos.

Da mesma época se conserva uma vista esquemática da cidade numas tapeçarias conhecidas por "Tapeçarias da tomada de Tunis" [tapeçarias ditas de Pastrana], que se guardam em Espanha.

É dos princípios do 2.° quartel do século XVI (1529) um quadro a óleo, sobre tábuas, que contém, como episódio de assunto religioso, o desembarque em Lisboa dos Santos Mártires (Veríssimo, Máxima e Júlia), a vista mais antiga dum edifício de Lisboa, o palácio real da Ribeira propriedade dum particular [do Museu Carlos Machado].

Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia, Desembarque em Lisboa, Garcia Fernandes.
Imagem: Museu Carlos Machado

Como pequenos trechos de edifícios de Lisboa, em pintura a óleo, há os portais das igrejas da Madre de Deus, num quadro (1509) que representa a chegada a este convento, das relíquias de Santa Auta, e da Sé, num painel que contém a representação de Santo António intercedendo para livrar o seu pai, da forca (2.a metade do século XVI). Estão ambos estes quadros em museus de Lisboa.

Mestre do Retábulo de Santa Auta, Chegada das Relíquias de Santa Auta (detalhe),
Cristovão de Figueiredo?, c. 1520, MNAA.
Imagem: do Porto e não só...

Afora as mencionadas, não se conhecem outras pinturas a óleo, com motivos da cidade, até aos princípios do século XVII.

O desenho em papel mais antigo que se conserva com assunto referente a Lisboa é o da batalha da ponte de Alcântara, 1580, que deve ter sido feito pouco depois do acontecimento que comemora. Está emoldurado num gabinete da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Batalha de Alcântara, 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Do princípio do século XVI datam as mais antigas vistas panorâmicas da cidade, que se conhecem já com um certo cunho artístico e característico de exactidão. Consistem elas em duas iluminuras em pergaminho, quase idênticas, guardadas em museus, que felizmente têm resistido ao estrago do tempo e à incúria dos homens.

A primeira dessas vistas panorâmicas encontra-se na "Chronica de D. Affonso Henriques", por Duarte Galvão (1505), códice manuscrito que pertenceu ao Conde de Castro Guimarães, mandado editar pelo mesmo conde em 1917, e deixado em testamento à Misericórdia de Cascais. Está no Museu Conde Castro de Guimarães, em Cascais.

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Imagem: Wikipédia

A segunda pertence a uma "História Genealógica da Casa Real de Portugal", iluminada por Simão Beninc [Simon Bening] (entre 1580 e l584), e que, tendo sido encontrada ou comprada em Portugal em 1842, foi adquirida depois pelo British Museum de Londres, onde se guarda.

Vista panorâmica de Lisboa, História Genealógica da Casa Real de Portugal, Simon Bening, entre 1580 e l584.
Imagem: British Museum

Acha-se reproduzida integralmente em fototipias, num album com o título "Ahnenreihen aus dem Stammbaum des Portugiesischen Königshauses", editado em Stuttgart por Julius Hoffmann, s/d..

Tanto a segunda como a primeira destas vistas têm sido reproduzidas modernamente em varias obras, e foram publicadas, em grande escala, num artigo do autor, inserto em Arqueologia e História (vol. V, 1928. pág. 101), acompanhadas dum texto descritivo.

Depois destas, a primeira vista panorâmica de Lisboa consta do livro "Da Fabrica que falece ha Çidade de Lysboa", por frãcisco dolãda [Da fábrica que falece à cidade de Lisboa, Francisco de Hollanda] (1571), estampa IV, desenho em papel. Este livro guarda-se na Biblioteca da Ajuda, e era pouco conhecido quando em 1879 foi publicado o texto, e depois, em 1929, o texto com as estampas.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

São numerosos os livros que até ao fim do século XVIII se publicaram no estrangeiro, ilustrados com vistas de cidades, de edifícios, e de trechos pitorescos de paisagens.

Mas, pelo que respeita ao nosso país, pode dizer-se que quase nada nele se fez a tal respeito, sendo por isso devida a estrangeiros, e não a nacionais, a divulgação da vista panorâmica e as de alguns edifícios da nossa capital sendo tais documentos gráficos os únicos que nos permitem ter conhecimento de algumas cousas desses remotos tempos, hoje desaparecidas. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Bugio

Forte ou Torre de S. Lourenço, ou Bugio.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

[...] se possível for havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meio da cabeça onde rebenta o mar dos Cachopos, que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual podendo ser seria coisa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ela pode fazer dano alguma hora.

E estes tais baluartes haviam de ser rasos e baixos e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido muito delgado e forte que é muito mais seguro.

Digo do embasamento ou do pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz os quais baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desenho ainda que a forma seja pequena por não caber num livro maior. (1)

O projecto [de Francisco de Holanda] acabou por ser esquecido, e só em 1579, com a iminência de um ataque da armada castelhana a Lisboa, essa hipótese voltou a ser considerada, construindo-se então um forte de madeira no areal junto à Trafaria, que não teve relevância alguma na defesa da capital em 1580 [...]

Projecto para plataforma em madeira para o Bugio, Tibúrcio Spanochi, 1594.
Imagem: arquipélagos

Em Dezembro 1589 o monarca [Filipe II (de Espanha)]contratou o italiano Frei Vicêncio Casale para que traçasse a planta do forte da Cabeça Seca.

Descripção da boqua do Tejo, Vincenzo Casale, 1590.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

No final de Janeiro de 1590 o arquitecto apresentava a Filipe II o projecto, que contemplava as obras de engenharia necessárias à implantação da fortaleza no ilhéu de areia fronteiro a São Julião da Barra e apresentava ao rei duas planimetrias distintas, uma estrelada, outra circular. 

Esta última foi a escolhida, por apresentar maior solidez face ao impacto do mar e maior facilidade de mobilização da artilharia. (2)

Torre do Bugio, ed. Postalfoto, 167.
Imagem: Delcampe

Mediante o falecimento de Casale em Lisboa (1593), foram nomeados para dirigir as obras dois discípulos seus, Tibúrcio Spannochi e Anton Coll, sob a justificativa de que ambos eram conhecedores do "modo de fabricar y manejar los instrumentos" e para que a "traça començada" não fosse alterada [...]

A partir de 1598 a direção da obra foi assumida pelo engenheiro militar e arquiteto cremonense Leonardo Torriani, nomeado Engenheiro-mor do Reino, e como encarregado dela, Gaspar Rodrigues (Gaspar Roiz). A partir de então o projeto entrou numa nova fase, dadas as alterações que Torriani lhe introduziu, ampliando-a.

Em 1601 estava finalizada a colocação das pedras das bases [...]

Descrição e plantas da costa dos castelos e fortalezas..., Felippe Tersio, 1617.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Em planta datada de 1693 já se encontra figurada uma torre encimada por um farol. O relatório de inspeção efetuada em 1751 ao farol, mostra que o mesmo operava com azeite, no período de outubro a março, e que se encontrava em razoáveis condições.

Alçado e corte do Forte de S Lourenço da Cabeça Seca,
Mateus do Couto, desenho aguarelado, 1693.
Imagem: Fortalezas.org

Esta estrutura, destruída pelo terramoto de 1755, foi reedificada como um dos seis faróis erguidos na costa portuguesa para auxílio à navegação, conforme determinação de um Alvará do Marquês de Pombal datado de 1758.

O castelo do Bugio ficou tão inundado pela água que a guarnição disparou vários tiros em sinal de socorro e foi obrigada a retirar-se para a parte superior da torre.

Segundo o meu melhor cálculo, a água subiu cerca de dezasseis pés em cerca de cinco minutos e baixou no tempo por três vezes, e às duas a maré voltou ao seu curso natural.


in Lx_Risk

O novo farol entrou em funcionamento em 1775.

Torre do Bugio na Barra de Lisboa, João Pedroso, gravura
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando da eclosão da Guerra Peninsular (1808-1814), já estava ocupada pelas tropas napoleônicas (1807). O coronel Vincent, comandante da Engenharia das tropas de Jean-Andoche Junot, considerava o Bugio uma fortificação inadequada à defesa marítima de Lisboa, "(…) um fraco obstáculo contra o inimigo que, com vento favorável, tentasse forçar a passagem da barra".

Portuguese Shipping in the Mouth of the Tagus, S. Clegg, 1840.
Imagem: BBC Your Paintings

Essa visão foi confirmada quando, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828–1834), o Bugio foi alvo do fogo da artilharia da esquadra francesa que, sob o comando do almirante Albin Roussin, forçou a barra do Tejo [...] (3)

Na margem norte ainda se fez fogo sobre os franceses, mas na margem sul, a única reacção activa conhecida é a da Torre de S. Lourenço [Bugio]. (4)

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo


(1) Souza, Maria Luiza Zanatta de, Um novo olhar sobre "Da fábrica que falece à cidade de Lisboa" ( Francisco de Hollanda 1571), São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2011.
(2) Património Cultural
(3) Fortalezas.org

 (4) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
O forçamento da barra do Tejo

domingo, 30 de novembro de 2014

Torre Velha por dom António

E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua cava com tanta e tam grossa artelharia que defendia o porto.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642, reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

E assi outra torre e baluarte de Caparica defronte de Belem em que estava muita e grande artelharia, e tinha ordenado de fazer hüa forte fortaleza onde ora está ha fermosa torre de Belem que el-rey Dom Manoel que santa gloria aja mandou fazer, pera que a fortaleza de hüa parte e a torre da outra tolhessem a entrada do rio.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

A qual fortaleza eu per seu mandado debuxey e com elle ordeney aa sua vontade; e ele tinha ja dada a capitania della a Alvoro da Cunha seu estribeiro-mor e pessoa de que muito confiava; e porque el-rey logo faleceo nam ouve tempo pera se fazer.

Torre Velha em 1767, Conde dos Arcos.
Imagem: Caparica através dos séculos

E a sua nao grande que foy a mayor, mais forte e mais armada que se nunca vio, mays a fez pera guarda do rio que pera navegar.

Que posta sobre ancora no meo do rio ella soo o defendera, quanto mays a fortalleza e torre, porque era a mayor e mais forte e armada nao que se nunca vio. (1)

Lisbona citta principale nel regno di Portogallo fu presa dall'armatta con l'esercito del re catolico all ultimo d'agosto l'anno 1580, Mario Cartaro.
Imagem: Universität Salzburg

Retrato do sitio e ordem da batalha dada entre o senhor dom António, nomeado rei de Portugal, e o duque de Alba, tenente e capitão general do rei católico dom Filipe II, diante de Lisboa por mar e por terra, num mesmo dia, 25 de agosto de 1580.

Batalha de Alcântara, 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Palmela 5 leguas de lisboa; Almada; Armada de dom António; galeras de sua magestade; Torre Velha que estava por dom António;

Batalha de Alcântara (detalhe), 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

rio Tejo; naus de sua magestade;

Entrada no estuário do Tejo da armada espanhola comandada por D. Alvaro de Bazan, sala de Portugal, palácio de El Viso del Marqués.
Imagem: Barcos, mar y arte

Lisboa; castelo; arrabal de Santa Catarina; portugueses; moinho; italianos; italianos; Burgo; Santo Amaro; quinta; Belém; Torre de Belém; S. Bento; 

portugueses que fogem; portugueses que fogem; ponte de Alcântara; italianos e ; alemães; alojamiento do exército de sua magestade; 

campo de dom António; tendas de dom António; portugueses; ribeira de Alcântara; 

D. António Prior do Crato.
Carta de Jodocus Hondius (detalhe), London, 1592.
Imagem: Map History

artilharia de sua magestade; espanhois; artilharia de sua magestade; quintas; 

portugueses de dom António; portugueses;

duque de Alba; alemães; cavalaria de sua magestade; Sancho de Avila; arcabuzeiros espanhois que vão acometer cavallos ligeiros; o prior don Fernando; arcabuzeiros a cavalo e ginetes (2)

O ano da batalha maldita.
Animação: Expresso


(1) Resende, Garcia de, Vida e feytos d'el-rey Dom João II, Liuro das obras de Garcia de Resende, Lisboa, Luis Rodrigues, 1545
(2) Biblioteca Nacional de Portugal

Leitura relacionada:
Coral, Carlos Jokubauskas, O último Avis: D. Antônio, o antonismo e a crise dinástica portuguesa (1540-1640), 2010, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo.
Castelo Branco, Camilo, D. Luiz de Portugal neto do Prior do Crato, 1896, Chardron — Lello, Porto.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 30 — 32.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 37 — 39.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 52 — 55.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 59 — 61.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 74 — 76.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 91 — 93.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 107 — 109.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 138 — 141.

sábado, 6 de setembro de 2014

Torre e Fonte Santa

No reinado de D. João III foi donatário de uma propriedade chamada "Torre d'el Rei" o fidalgo D. João da Silva de Meneses.

Admitimos que esta torre d'el Rei seja aquela que existiu no lugar dito da Torre ou sua proximidade imediata. 

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), detalhe, Francisco de Holanda, 1571.
Na imagem a Torre d'el Rei (Torre, Torre de Caparica) sobre a arriba, acima da Torre Velha, frente à torre de Belém
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

Porque nada mais há no Concelho ou no seu antigo termo, com o nome de torre (no singular) remontando ao Século XVI, admitiremos que esta Torre d'el Rei é aquela que os topónimos Torre e Torrinha e a gravura do Século XVI indicam.

O sítio da Torre é aquele ocupado pelo Largo da Torre, no cruzamento da estrada Monte da Caparica — Trafaria com a estrada Fonte Santa — Casas Velhas e onde termina a antiga azinhaga Torre — Fonte Santa, hoje Rua Carvalho Araújo.

Torre de Caparica, casa onde residiu Bulhão Pato, construção de finais do século XIX.
Imagem: ed. desc.

0 nome do sitio provém da existencia de uma torre medieval que nos aparece em gravuras dos Séculos XVI e XVII.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

A sua funçao era provavelmente a de atalaia. A torre abateu em consequência do terramoto de 1755.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Segundo o Conde dos Arcos a Quinta da Torre, aquela que se situava a sul do Largo, era totalmente limitada por caminhos públicos que a separavam das vizinhas Quintas, da Torrinha, Outeiro, Possolos e Formiga.

Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

[Torrinha] Quinta entre o lugar da Torre e Costas do Cão. Um dos seus proprietários, João António Gonçalves (1835-1906), foi vice-presidente da Câmara Municipal de Almada.Informação relacionada: ISSUU - Al-Madan Online 14 by Al-Madan

A Quinta do Outeiro, fica na encosta de Pera sobre o Vale de Marinhos, a poente do cemitério da freguesia de Caparica.


[Possolos] Quinta entre o Rafael e a Caneira, às Casas Velhas.
A Quinta de Possolos pertenceu a D. Álvaro Abranches da Câmara e aos descendentes, Condes de Valadares.
No século XIX era propriedade de Rafael Alves da Cunha que foi em Almada presidente da vereação.

A Quinta da Formiga situa-se entre o Monte de Caparica e as Casas Velhas, do lado norte da actual rua Alfredo da Cunha.
Tem entrada por um portão do século XVIII e uma casa ampla a que se ligavam adega e lagares antigos e curiosos.
Em 1833 a quinta pertencia a Miguel Martinho Manuel Ricaldes da Silva Azevedo que era Tenente da 1.a Companhia do Batalhão Nacional da Vila de Almada e seu termo.
Era pois um liberal, embora fosse afilhado de D. Miguel [...]

Do lado Norte do Largo da Torre o novo proprietário da Quinta que está entre a Rua Carvalho Araújo e a Rua dos Trabalhadores Rurais colocou na fachada uma inscrição chamando-lhe "Quinta da Torre”, nome que nunca teve.

O Conde dos Arcos, D. José de Alarcão, proprietário então da verdadeira e única Quinta da Torre, mandou apor nesta uns azulejos com a inscrição "Quinta da Torre, 1570".

D. José Manuel de Noronha e Brito de Meneses de Alarcão, 12° Conde dos Arcos.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

[Fonte Santa] Pequeno aglomerado urbano a meio caminho entre o Largo da Torre e o Porto Brandão, cujo centro é o Largo Carlos da Maia na confluência da azinhaga que vem da Cruz da Granja.

O nome aparece com frequencia no plural "Fontes Santas", entre os Séculos XV e XVIII. o que denuncia a existência de mais que uma fonte e não apenas aquela que abastecia o fontenário público que parece ser construção do século XVIII e foi reconstruído pela Câmara Municipal em 1874.

Na encosta que margina a azinhaga para a Cruz da Granja captou-se água em fins do Século XIX para abastecer o lazareto obra do famoso engenheiro almadense Liberato Teles.

Todo o vale desde a Quinta da Torre ao Porto Brandão era abundante de água.

Junto ao Largo da Torre existe um antigo poço e frente à ermida de S. Tomás de Aquino descobriram-se duas cisternas quando se libertou a ermida, que se encontrava soterrada até ao nivel da verga da porta.

A ermida e obra atribuida ao Século XVI e tem portal e alguns elementos que se podem considerar manuelinos mas o facto de ser constituida por dois pequenos corpos semelhantes a morábitos e as cisternas parecerem ser construção árabe faz-nos suspeitar que sejam mais antigos os seus fundamentos.

Fonte Santa, Ermida de S Tomas de Aquino, 2003.
Imagem: Almada, Toponímia e História

A ermida pertenceu aos Condes dos Arcos que naturalmente lhe introduziram os elementos manuelinos.

Fonte Santa, Ermida de S Tomas de Aquino, década de 1970.
Imagem: Divagando sobre Caparica

Quando se pôs a descoberto a fachada e se escavou o adro fronteiro, das cisternas libertou-se água em grande abundância sendo necessário encaminha-la por uma vala para um esgoto de águas pluviais.

Deve salientar-se que entre o Largo Carlos da Maia e o Porto Brandão fica a Quinta da Azenha, assim chamada por nela certamente ter funcionado um engenho desse tipo.

A Ermida de São Tomás de Aquino foi classificada de interesse concelhio em 1996.O pedido de classificação datava de 1982, mas atravessara um confuso processo burocrático.(1)


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigo relacionado: Ermida de S. Tomás de Aquino

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa

Da Fortaleza de Belém e S. Gião e baluartes

Capítulo IIII

Com o mesmo cuidado e providência que a cidade de Lisboa deve ser fortalecida de novo castelo e de muros e torres e portas e baluartes e de bastiães, ao modo das fortalezas modernas, que hoje se costumam por toda a cristandade.

E se possível for cercada toda de novo e forte muro, inda que os velhos que lhe fez el rei D. Fernando, sejam a seu modo honestamente fortes pela boa argamassa e entulhos que tem (que foi a melhor obra que nenhum rei fez hoje em Lisboa depois das igrejas).


Assim mesmo deve ser fortalecida, acabada e reparada a fortaleza de Belém e a de S. Gião [Julião], pois que tem tanto custado sem estar bem acabada.

E isto com alguns baluartes fortes que lhe respondam da outra banda da Trafaria e da área da Adiça.


Um defronte da torre de Belém: onde está a Torre Velha.

E o outro defronte de Santa Catarina de Ribamar que é a mais segura Fortaleza de Lisboa ali onde acabam os montes de Almada e começa a área da ponta da Trafaria ou Cachopos.


Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

Ou se possíver for havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meio da cabeça onde rebenta o mar dos Cachopos, que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual podendo ser seria coisa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ela pode fazer dano alguma hora.

E estes tais baluartes haviam de ser rasos e baixos e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido muito delgado e forte que é muito mais seguro.


Digo do embasamento ou do pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz os quais baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desenho ainda que a forma seja pequena por não caber num livro maior. (1)

Lembrança do bastião dos Cachopos, Op. Cit..
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo


(1) Souza, Maria Luiza Zanatta de, Um novo olhar sobre "Da fábrica que falece à cidade de Lisboa" ( Francisco de Hollanda 1571), São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2011.