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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Persistência da memória

Estamos a 24 de setembro de 1831. É noite. A lua em todo o seu esplendor illumina a praia do Caramujo, que se estende por detrás da longa fileira das casas que formam a povoação.

Persistência da memória, Salvador Dali 1931.
Imagem: WikiArt

Da esquerda o quadro vae terminar no agudo Pontal de Cacilhas.

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Da direita vê-se a meio da praia a pequena ponte que dá facil desembarque para os armazens de vinhos;

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

mais além ainda a praia e os rochedos, depois o terreno encurva-se, e apresenta a vista, como um alvo lançol, o estabelecimento de Valle de Zebro, e mais em distancia as casinhas do Barreiro, como outros tantos pontos esbranquiçados sobre o fundo escuro do horisonte.

Memória, René Magritte, 1948.
Imagem: WikiArt

A noite está serena. O silencio é apenas interrompido pelo ruido das vagas, que magestosamente se desenrolam na areia.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Quem áquella hora e com aquelle luar escutasse o rouco marulho do patrio Tejo, facilmente imaginaria a voz de um velho acalentando uma creança.

A desintegração da persistência da memória, Salvador Dali, 1954.
Imagem: WikiArt

Mais perto percebe-se que ao rumor das aguas se reune o vozear baixo e entrecortado, que sae de um pequeno grupo de pessoas sentadas á porta do pateo da tanoaria de Jeronymo.


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Bugio

Forte ou Torre de S. Lourenço, ou Bugio.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

[...] se possível for havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meio da cabeça onde rebenta o mar dos Cachopos, que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual podendo ser seria coisa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ela pode fazer dano alguma hora.

E estes tais baluartes haviam de ser rasos e baixos e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido muito delgado e forte que é muito mais seguro.

Digo do embasamento ou do pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz os quais baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desenho ainda que a forma seja pequena por não caber num livro maior. (1)

O projecto [de Francisco de Holanda] acabou por ser esquecido, e só em 1579, com a iminência de um ataque da armada castelhana a Lisboa, essa hipótese voltou a ser considerada, construindo-se então um forte de madeira no areal junto à Trafaria, que não teve relevância alguma na defesa da capital em 1580 [...]

Projecto para plataforma em madeira para o Bugio, Tibúrcio Spanochi, 1594.
Imagem: arquipélagos

Em Dezembro 1589 o monarca [Filipe II (de Espanha)]contratou o italiano Frei Vicêncio Casale para que traçasse a planta do forte da Cabeça Seca.

Descripção da boqua do Tejo, Vincenzo Casale, 1590.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

No final de Janeiro de 1590 o arquitecto apresentava a Filipe II o projecto, que contemplava as obras de engenharia necessárias à implantação da fortaleza no ilhéu de areia fronteiro a São Julião da Barra e apresentava ao rei duas planimetrias distintas, uma estrelada, outra circular. 

Esta última foi a escolhida, por apresentar maior solidez face ao impacto do mar e maior facilidade de mobilização da artilharia. (2)

Torre do Bugio, ed. Postalfoto, 167.
Imagem: Delcampe

Mediante o falecimento de Casale em Lisboa (1593), foram nomeados para dirigir as obras dois discípulos seus, Tibúrcio Spannochi e Anton Coll, sob a justificativa de que ambos eram conhecedores do "modo de fabricar y manejar los instrumentos" e para que a "traça començada" não fosse alterada [...]

A partir de 1598 a direção da obra foi assumida pelo engenheiro militar e arquiteto cremonense Leonardo Torriani, nomeado Engenheiro-mor do Reino, e como encarregado dela, Gaspar Rodrigues (Gaspar Roiz). A partir de então o projeto entrou numa nova fase, dadas as alterações que Torriani lhe introduziu, ampliando-a.

Em 1601 estava finalizada a colocação das pedras das bases [...]

Descrição e plantas da costa dos castelos e fortalezas..., Felippe Tersio, 1617.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Em planta datada de 1693 já se encontra figurada uma torre encimada por um farol. O relatório de inspeção efetuada em 1751 ao farol, mostra que o mesmo operava com azeite, no período de outubro a março, e que se encontrava em razoáveis condições.

Alçado e corte do Forte de S Lourenço da Cabeça Seca,
Mateus do Couto, desenho aguarelado, 1693.
Imagem: Fortalezas.org

Esta estrutura, destruída pelo terramoto de 1755, foi reedificada como um dos seis faróis erguidos na costa portuguesa para auxílio à navegação, conforme determinação de um Alvará do Marquês de Pombal datado de 1758.

O castelo do Bugio ficou tão inundado pela água que a guarnição disparou vários tiros em sinal de socorro e foi obrigada a retirar-se para a parte superior da torre.

Segundo o meu melhor cálculo, a água subiu cerca de dezasseis pés em cerca de cinco minutos e baixou no tempo por três vezes, e às duas a maré voltou ao seu curso natural.


in Lx_Risk

O novo farol entrou em funcionamento em 1775.

Torre do Bugio na Barra de Lisboa, João Pedroso, gravura
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando da eclosão da Guerra Peninsular (1808-1814), já estava ocupada pelas tropas napoleônicas (1807). O coronel Vincent, comandante da Engenharia das tropas de Jean-Andoche Junot, considerava o Bugio uma fortificação inadequada à defesa marítima de Lisboa, "(…) um fraco obstáculo contra o inimigo que, com vento favorável, tentasse forçar a passagem da barra".

Portuguese Shipping in the Mouth of the Tagus, S. Clegg, 1840.
Imagem: BBC Your Paintings

Essa visão foi confirmada quando, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828–1834), o Bugio foi alvo do fogo da artilharia da esquadra francesa que, sob o comando do almirante Albin Roussin, forçou a barra do Tejo [...] (3)

Na margem norte ainda se fez fogo sobre os franceses, mas na margem sul, a única reacção activa conhecida é a da Torre de S. Lourenço [Bugio]. (4)

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo


(1) Souza, Maria Luiza Zanatta de, Um novo olhar sobre "Da fábrica que falece à cidade de Lisboa" ( Francisco de Hollanda 1571), São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2011.
(2) Património Cultural
(3) Fortalezas.org

 (4) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
O forçamento da barra do Tejo

quarta-feira, 4 de março de 2015

O forçamento da barra do Tejo

O forçamento da barra do Tejo pela esquadra comandada por Roussin (1781 - 1854), ocorrido em 11 de julho de 1831, em pleno período de lutas entre liberais e miguelistas, veio revelar que o Tejo estava longe de ser invulnerável, mesmo se bem defendido, e que a defesa marítima era muito precária.

Expedição do Tejo, desenho Pierre-Julien Gilbert, gravura Chavane, 1837.

Embora o ataque fosse esperado e os miguelistas tivessem promovido apressadamente o reforço das guarnições, que principiou alguns dias antes da entrada da esquadra, a oposição das fortalezas foi fraca e ineficaz.

La flotte française force l'entrée du Tage, Horace Vernet, c. 1840.
Imagem: Joconde

Na margem norte ainda se fez fogo sobre os franceses, mas na margem sul, a única reacção activa conhecida é a da Torre de S. Lourenço [Bugio]. (1)

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

Junto da Torre de Belém, baluarte simbólico da entrada do Porto de Lisboa, o Almirante Roussin dá ordem de "alto fogo" para poupar a emblemática fortificação histórica, que arria a bandeira em sinal de rendição [...]

A frota francesa frente à Torre de Belém, Auguste Mayer.
Imagem Wikipédia

Às 17.00 horas, a rendição estava consumada. Dia 14 de Julho de 1831, uma convenção protocolar era assinada a bordo do "Suffren", por imposição dos franceses [...] (2)

Granier, Henri, Histoires des marins français... (detalhe).
Imagem: Amazon


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Revista da Armada,  O forçamento do tejo em 1831 na iconografia marítima francesa, maio 2011

Leitura relacionada:
Lecomte, Jules, Expédition du Tage, La France maritime

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (1/18), índice



O

CARAMUJO

ROMANCE HISTÓRICO ORIGINAL


POR

ANTÓNIO AVELINO AMARO DA SILVA

_____

LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
RUA DOS CALAFATES, 110
1863


ÍNDICE


O Caramujo, romance histórico original,
António Avelino Amaro da Silva,
Lisboa, Typographia Universal
1863.



(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (2/18), prólogo


PRÓLOGO



Ó cidades que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda. (1)

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O relato das revoluções liberais na literatura documenta-se pela primeira vez com a publicação em 1845 de Julia e Luiza, Romance Histórico que Comprehende o Tempo do Dominio de Dom Miguel, de Francisco Pedro Celestino Soares. 

Depois desta novela vem à luz O Caramujo, de António Avelino Amaro da Silva, publicada em 1863, que focaliza a sua atenção no pensamento absolutista, como Flor de Myosótis, Romance Original (1886), de Alberto Pimentel.

En 1868 aparece o célebre Mário, Episódios das Lutas Civis Portuguezas de 1820 - 1834 (1868), de A. Silva Gaio, uma síntese da implantação do liberalismo em Portugal desdea revolução liberal vintista à Guerra Civil. 

Na década de 70 editam-se A Família Albergaria (Entre 1824 -1834), Romance Histórico Original (1874), de Guiomar Torresão e A Infâmia de Frei Quintino (Romance duma Família) (1878), de Faustino da Fonseca. 

O mesmo publicará em princípios do século XX Os Bravos do Mindello, Romance Histórico (1906) (2).

(n. do e.) O livro de António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, publicado em 1863, transporta-nos aos acontecimentos das Campanhas da Liberdade de 1831 a 1833. Em face da cultura e mentalidades da época, esperemos, pois, aí encontrar os estéreotipos e preconceitos sociais próprios do seu tempo.

O Caramujo, a partir de 1 de janeiro de 1911, foi também publicado em folhetins no jornal O Correio do Sul, folha semanal anticlerical e defensora dos interesses do concelho de Almada, de António Baptista Ferreira.


(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

(2) Magallanes o el noveno círculo

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (3/18), notas biográficas

António Avelino Amaro da Silva (c. 1821 – 1889)



Proprietário, engenheiro civil, agrimensor, piloto de navios.

Fazenda Flores do Paraízo, Nicolau Facchineti, 1875.
Imagem: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal.
Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro.
Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...]

in Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

Filho de António Silva (1801 - 1879), natural de Adão Lobo, Cadaval, e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, casados em 1821, ou mesmo em 1820. Deste casamento teriam nascido catorze filhos.

António Avelino Amaro da Silva poderá ter sido o primeiro filho do casal, tendo, por isso, o nome igual ao do pai, como era costume nesse tempo.

Conhecem-se-lhe quatro irmãos: Francisco Emygdio da Silva (1823 - 1887), primeiro taquígrafo da camara dos deputados; Christiano Gerardo da Silva, professor de música e artista (em 1908, proprietário, idoso, encontrava-se doente); Pedro de Alcântara e Maria da Gloria, estes ultimos gémeos, nascidos na freguesia da Encarnação, em Lisboa.

Entre 1831 e 1833 decorre a ação de O Caramujo.

Segundo D. Francisco de Melo e Noronha e José Carlos de Melo, António Avelino Amaro da Silva, foi testemunha ocular da batalha e da vitória ocorridas em 23 de julho de 1833.

António da Silva, seu pai, recebe a medalha das Campanhas da Liberdade, instituída em 1861, com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, pelo que existe a clara possibilidade deste ter participado nos acontecimentos relatados no romance, assim como, na descrição dos lugares e caraterização dos personagens.

António Avelino Amaro da Silva entra para a Escola Naútica (Academia Politécnica do Porto) em 1844.

Em 19 de março de 1847, aspirante de 3.a classe a guarda marinha, é promovido a guarda marinha  [O Progressosta n.° 135, 1847]  e, com o curso de piloto, permanece na Armada até 1855.

Chega ao Rio de Janeiro, como passageiro, no bergantim Clara [Bremen], proveniente de Santa Helena, após 12 dias de viagem.
[Correio Mercantil, 19 de julho de 1852]

De 1855 a 1859 publicita a sua actividade de agrimensor no Almanak Administrativo, mercantil e Industrial do Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

Em 1859 casa com D. Delfina Amelia de Aquino Silva (1840 - 1872), filha de Joaquim Rodrigues de Aquino, tenente, e de Mariana Osória Leite, então já falecida.
Valença

Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:

Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.

Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.

in Correio Mercantil, 7 de fevereiro de 1859

Instala-se na residência do sogro, na fazenda de Montacavallo, margens do Rio Preto, Santa Theresa de Valença, a região maior produtora mundial de café, nesse tempo.
Monta Cavalo e Mont’Alverne, criadas por Tomás Alves de Aquino, que viera do Turvo ou do Campo, como chamava a faixa do terreno além do Boqueirão. Tomás Alves deixou os seguintes filhos: Manoel Tomás, Joaquim Rodrigues de Aquino, Francisco de Assis Alves, Anastácio Rodrigues de Aquino, Dona Mariana, esposa de Joaquim de Paula e Souza e finalmente a esposa do Coronel Francisco de Assis Vieira, chefe do Partido Liberal até a queda do Império. Manoel Tomás Alves e Joaquim Rodrigues de Aquino tornaram-se proprietários das duas Fazendas comprando as partes dos outros herdeiros [...]

in Porto da Flores, Perfeitura de Belmiro Braga
Em 1862, noticia a liquidação de uns escravos de orfãos em que tem parte [Correio Mercantil, 25 de março de 1862].

No mesmo ano, legitimou-se a fim de obter o passaporte [Correio Mercantil, 12 de abril de 1862].

Em 1863 publica o romance histórico O Caramujo.

Em 1865 faz público que regressou da sua viagem á Europa, e que continuará com os seus trabalhos de medições de terras no Brasil, onde os exercia desde 1852.

Regressa ao Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1871, no paquete inglês Magellan [Diário do Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1871].

A 7 de março volta a partir para Lisboa, no paquete francês Sindh, por motivos alheios à sua vontade [Diário do Rio de Janeiro, 8 de março de 1871].

Ainda no mesmo ano, 1871, propõe ao governo de Portugal, para Lisboa, um caminho-de-ferro americano de tração animal.

A sua esposa falece em Lisboa a 1 de abril de 1872.

Falecimento em Lisboa; Lê-se no Dário de Notícias de Lisboa em data de 2 do corrente: "Faleceu hontem ás 11 horas e 43 minutos da manhã, a Sra. D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva, esposa do nosso amigo o Sr. António Avelino Amaro da Silva, proprietário e engenheiro civil. Era natural da provincia do Rio de Janeiro, onde conta muitos e abastados parentes. Contava 32 annos de idade. O seu funeral verifica-se hoje pelo meio dia. O inconsolavel esposo não faz especiais convites."

in Diário do Rio de Janeiro, 21 de abril de 1872

Em 24 de abril é rezada na igreja da Candelária, uma missa por D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva [Diário do Rio de Janeiro, 24 de abril de 1872].

Tendo sido offerecida pelo directores da Companhia Economia a sua chacara das Larangeiras pareceu á commissão benefico alvitre o de estabelecer nella casa de convalescença. Foram encarregados desse trabalho os dignos membros da commissão dos hospitaes commendador Miguel Couto dos Santos, Caetano Pinheiro e o Sr. António Avelino Amaro da Silva, dignissimo gerente daquella companhia, que infelizmente enfermou logo após os primeiros trabalhos de seu cargo. [...]
No dia 1 de fevereiro fomos privados dos valiosos serviços do nosso companheiro o Sr. António Avelino Amaro da Silva, que, tendo trabalhado e dirigido os trabalhos de limpeza e reparos da casa (o que fez com a mais energica e boa vontade) debaixo de chuva constante cahiu doente e foi obrigado a retirar-se. Desde então tem sofrido constantemente a ponto de não ter podido até hoje voltar ás suas occupações civis [...]

in Diário do Rio de Janeiro 14 de setembro de 1873

Parte para Lisboa, na companhia da filha, em 29 de outubro no paquete inglês Araucania [Diário do Rio de Janeiro 30 de outubro de 1873].
Distinção honorifica — A Sociedade 1° de Dezembro de 1640 [posteriormente Sociedade Histórica da Independência de Portugal], de Lisboa, conferiu ao Sr. António Avelino Amaro da Silva o diploma e medalha de ouro de socio honorario da mesma sociedade pelo importante donativo que fez á comissão representativa daquela sociedade nesta mesma Côrte. O Sr. Avelino é um dos bons cidadãos portugueses que entre nós teem residido não só pela sua honradez como pela estima em que teem os brasileiros, do que muito folgamos em dar testemunho proprio pelo conhecimento intimo que temos do seu excellente caracter.

in Diário do Rio de Janeiro 19 de dezembro de 1873

Distinção honorifica — Sr. redactor, lemos a noticia que V. deu no seu numero de hoje, de haver sido condecorado o sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, pelo serviço prestado na concessão feita de algumas acções da companhia que S. S. Era gerente, á Sociedade 1° de Dezembro de 1640. Não é nosso fim reprovar essa distinção, nem entrar na analyse se ella foi bem ou mal merecida; o que nos cumpre protestar é contra a boa intenção com que aquelle senhor fez esse donativo. Quem sabe o modo arrogante com que este senhor tratou aos dignos directores da companhia que havia confiado ao Sr. Avelino a gerencia dos seus negocios, a ponto de aggredir aum delles em pleno publico, apellidando-os com a grosseira expressão — gallegos — e outras de igual jaez, certamente terá comprehendidoque nem o patriotismo, nem o amor á Sociedade Primeiro de Dezembro de 1640 levaram o Sr. Avelino a semelhante acto. Quem insulta em publico os seus compatriotas, homens distinctos, cheios de serviços e de reconhecida posição social, chamando-os por um nome que aqui só é conhecido por injurioso, certamente que não merecia semelhante distincção. É neccessario não confundir patriotismo com fanfarronadas filhas do despeito.

in Diário do Rio de Janeiro 20 de dezembro de 1873

Em 1874, protesto de Antonio Avelino Amaro da Silva da Companhia Economia de lavanderia do Rio de Janeiro contra a accusação que lhe faz o relatorio da directoria de 31 de Julho de 1874 e analyse do mesmo relatorio [Biblioteca Nacional de Portugal].
A camara municipal desta cidade concedeu a auctorização ao sr. Antonio Avelino Amaro da Silva para estabelecer uma linha de caminho de ferro americano a partir do largo de Andaluz, pelas terras de Valle de Pereiro, rua do Salitre até ao Rato.

in Diário Illustrado, ed. 17 de novembro de 1874
Em julho de 1875 é noticiado e publicitado o falecimento de sua mãe.
Falleceu a Exma. senhora D. Joanna Francisca da Costa e Silva, esposa do sr. Antonio da Silva, um dos veteranos da liberdade, e mãe dos nossos amigos os srs. Francisco Emygdio da Silva, antigo sub-chefe da repartirão tachigraphica da camara dos srs. deputados, André [António] Avelino Amaro da Silva, engenheiro, e Christiano Gerardo da Silva, distinto musico. Tinha 75 annos de idade.

Senhora muita respeitavel, estremecia seu marido e seus filhos e era por elles adorada. Poucas vezes se terá visto mais amor maternal, poucas vezes terá havido mais dedicação filial.

Compartimos a dôr dos nossas amigos.

Acerca do enterro do finada, publicamos n seguinto convite :


Antonio da Silva, e seus filhos Francisco Emygdio da Silva, Antonio Avelino Amaro da Silva, e Christiano Gerardo da Silva, participam aos seus parentes e relações, que acaba de fallecer sua chorada esposa e mãe, a sr.a D. Joanna Francisca da Costa e Silva que se ha de sepultar hoje 24 pelas 11 horas da manhã, saindo o feretro da rua de S. Filippe Nery n.° 26, 2.° andar [residência de Innocencio Francisco da Silva, autor do Dicionnario Bibliographico Português, conforme atesta ainda hoje a placa apensa no edifício].

in Diario Illustrado, ed. de 24 de julho de 1875
Em Portugal, porém, onde effectivamente a palavra partidos é uma denominação completamente arbitraria, onde essa palavra não significa mais do que a reunião de um certo numero de homens, ligados não pelas mesmas idéas mas pelos mesmos interesses, comprehende-se que haja quem aspire vêr reunidos em uma mesma vereação os homens mais illustrados na certeza de que logo que se acharem debaixo do mesmo tecto, verão que há entre elles a mais completa uniformidade de principios e de opiniões. [...]
É evidente que o governo favorece a listas do Srs. Rosa Araujo, Visconde da Azarujinha, etc. apoiando assim a reeleição da camara transacta. A lista que lhes faz guerra é composta dos seguintes cavalheiros: Conde de Paraty, Luiz Manoel da Costa, Francisco Simões Carneiro, Joaquim António de Oliveira Namorado, José Elias Garcia, Antonio Ignacio da Fonseca, Manoel Gomes da Silva, Antonio Moura Borges, Zeferino Pedroso, Gomes da Silva, José Isidoro Vianna, Antonio Avelino Amaro da Silva e José Carlos Nunes [...]

in Diário do Rio de Janeiro, ed. 20 de novembro de 1875
Aproxima-se o dia para a eleição da vereação municipal que ha de gerir os negocios do municipio de Lisboa no proximo biennio e de dia a dia se activam os trabalhos preparatorios [...]
A segunda [lista] é composta dos seguintes cavallheiros: Conde de Paraty, par do reino, proprietario e grão-mestre do Grande Oriente Luzitano Unido; Joaquim Namorado, facultativo; José Izidoro Vianna, idem; Zophimo Pedroso Gomes da Silva, idem; Elias Garcia, lente da escoma do exercito e redactor da “Democracia”; José Carlos Nunes, negociante; Luiz Manoel da Costa, idem; Antonio Moura Borges, capitalista e negociante; Francisco Simões Carneiro, idem; Manoel Gomes da Silva, idem; Antonio Avelino Amaro da Silva, proprietario e engrenheiro; e Antonio Ignacio da Fonseca, cambista [...]

in O Liberal do Pará, ed. 7 de dezembro de 1875

Em 1876, Brito Aranha, confirma a presença de Antonio Avelino Amaro da Silva no funeral de Inocêncio Francisco da Silva, ambos pertenceram à loja maçónica 5 de novembro, mais tarde Loja Elias Garcia. No mesmo acontecimento é notada também a presença de António de Silva, seu pai [Silva, Innocencio Francisco da, Aranha, Brito, Dicionnario Bibliographico Português, Estudos..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1883].

Em 15 de março de 1877, regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua filha, no paquete inglês Sorata [Diário do Rio de Janeiro, ed. 16 de março de 1877].

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, Cotopaxi, 4,022 Tons, 1873.
Imagem: Picture Gallery of Steamers

No mesmo ano regressou a Lisboa, acompanhado pela filha, no paquete Cotopaxi, em 8 de julho.

Em 1879 falece o seu pai, António Silva, com 79 anos.

Em 20 de dezembro de 1887 falece o seu irmão, Francisco Emygdio da Silva, com 64 anos [Diário Illustrado, ed. 21 de dezembro de 1887].

Em 1889, António Avelino Amaro da Silva, falece na sua casa, em Carnide.
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil. O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846. Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal.

in Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889


Referências:

Biblioteca Nacional de Portugal
Biblioteca Nacional Digital Brasil
Projeto Compartilhar


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (4/18), o veterano da bandeira


FOLHETIM
O VETERANO DA BANDEIRA

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

domingo, 14 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (5/18), introducção


INTRODUCÇÃO



Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

Quem sae da quinta dos Frades, na Outra-Banda, e segue a estrada para o norte, vae ter a um lindo valle, a que chamam Cova da Piedade, ficando-lhe da esquerda, na correnteza das casas, aquella onde está a aula de instrucção primaria, e a taberna da tia Libania, e da direita a capella real de Nossa Senhora da Piedade, fundada em 1762, e que deu o nome ao valle e á povoação que n'elle existe.

Era este o caminho que n'uma manhã de março de 1831 seguia o contra-mestre de navios mercantes, Joaquim de Jesus, por alcunha Espanta-maridos, montado n'um jumento de aluguel, d'aquelles que a toda a hora se encontram na praia de Cacilhas, e seguido de um rapazinho de pé descalço.

A alcunha foi-lhe posta por ter salvado uma pobre mulher, que o marido queria deitar da janella abaixo. Gritava ella que lhe acudissem, e toda a gente em alaridos, sem o brutal marido desistir, até que os brados e a expressiva mimica de Joaquim de Jesus lhe fizeram largar a presa.

Já se vê que o epitheto não era devido a motivos desfavoraveis para o contra-mestre.

Chegou Espanta-maridos á porta da tia Libania, e tendo-se apeado, saudou-a como antigo conhecimento, e tratou de reparar as forças com uma boa porção de conserva de cenouras, pão, queijo e vinho.

Em quanto se entretinha d'este modo, viu passar ao longe um joven official do 4 de infanteria, montado n'um dos taes burros de aluguel.

[Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

— Olá, tia Libania! Conhece vocemecê o parceiro (Espanta-maridos a todos chamava parceiros), que vae montado n'aquelle gafanhoto?
— Conheço, respondeu a Libania, limpando o balcão. É o sr. Narciso Gomes, que vae para casa de Antão Diniz, onde está a minha Felizarda a servir.
— E como se vae dando por lá a pequerrucha? Nem mais ella se lembrou do rapazola que a levava a passear ao Caramujo, e lhe dava figos, e lhe pôz ao pescoço uma cruzinha de prata. A proposito, que faria vocemecê da cruzinha de prata que eu dei á pequena?
— Pergunte-lh'o a ella, que nunca mais a tirou do pescoço, e já lá vão bons dez annos.
— Ora essa diz Espanta-maridos, repotreando-se no banco, e encostando-se ao balcão.

A conversação foi interrompida de fóra por uma voz bem conhecida dos dois, que cantarolava:

Os brejeiros do Caramujo
Não fazem senão dançar.

— Oh! exclama Espanta-maridos, dando um pulo para a porta. Ou tenho pela proa o meu mestre João Chrysostomo, ou é o diabo por elle.

Ouviu-se outra vez o mesmo estribilho, e appareceu na direcção da taberna a gorda figura do sr. João Chrysostomo, trigueiro, baixo, de barba grisalha, e todo vestido de preto, traje que nunca largava.

— Com licença, disse elle ao entrar a porta, toda tomada pelo contra-mestre.
— Com licença o quê? Pois tão velho estou eu, ou o sr. João Chrysostomo tão esquecido, que já se não lembra do seu discípulo Joaquim de Jesus, por alcunha Espanta-maridos?

Chrysostomo olha fixamente Espanta-maridos e exclama:

— Pois é o senhor... Pois és tu aquelle endiabrado marinheiro, que eu ensinei a ler em pequeno, e que se foi d'aqui sem mais se saber d'elIe! Dá ca esse abraço...

E o velho abraçou o contra-mestre tão apertadamente, que este gritou:

— Basta, sr. João Chrysostomo! Obrigado! Vocemecê é sempre o mesmo bom homem de outro tempo. Mas como está acabado!
— São mais dez annos, meu Joaquim. É tu tambem já não és a creança que eu aturei, estás um rapazão… grandes barbas, grande corpanzil... um homemzarräo.

N'este momento foi a taberna invadida por uma turba-multa de tanoeiros do Caramujo, o sacristão da capella, e outros rapazes, que tendo sabido da chegada de Espanta-maridos, o procuravam para lhe darem as boas vindas.

Depois de muitos abraços e muita conversação, tudo acompanhado de boas pingas, foi pouco a pouco ficando a taberna deserta, havendo-se ajustado todos para á tardinha irem ao Pragal e Almada; e sendo horas de aula, tambem Chrysostomo se foi a ensinar os seus discípulos, ficando sós a tia Libania e o contra-mestre.

Largo e Mercado, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

— Ó tia Libania! Como estes rapazes são meus amigos! Ha tanto tempo que me não vêem, e não se esqueceram de mim. Olhe que me pareceram um seculo os annos que andei lá por fóra. Vocemecê não sabe a tristeza que se apodera de nós quando de noite, em tempo sereno, estamos de quarto. Então é um passar e repassar pela imaginação de tudo o que nos ficou em terra, que se nos parte o coração de saudade, e damos ao diabo a vida do mar.
Mas dizia vocemecê que a Felizarda conservava a cruzinha de prata?
— E lá a tem comsigo em casa de Antão Diniz, onde se da muito bem com a familia. É boa gente aquella de Diniz… Bom velho… A mulher, D. Francisca, é uma santa senhora. E a filha… Se você a visse… a filha vae-se tomando um peixe. Borda, toca piano, e já os rapazes lhe arrastam a aza.

— Mas ainda deve de ser muito pequena?
— Qual! Tem os seus dezeseis annos, e é mocetona. Lá anda o Luiz Franco á roça, a fazer-lhe versos, a passear com ella… Talvez elle a abiche... E olhe que a pequena peza… tem riqueza… e não é nenhuma riqueza de figos...

— É bem rica, é. Mas esse Luiz Franco… não me recordo d'elle.
— É o Franco do Pragal, que está cirurgião ajudante no regimento do sr. Gomes. Cura por ahi todo o mundo, e nunca pede dinheiro. E quando lhe levam de presente alguma gallinha, leitão, ou cabrito, quasi que vae ás do cabo. Outro dia foi elle ver uma mulher aqui ao lado, e deixou-lhe um cruzado novo para os remedios.
— Ah! bem me lembro… aquelle estudantinho… Já se 'vê, é cá dos nossos. Eu sempre embirrei com cirurgiões; mas aposto que elle não e nenhum empanturrado, fallando de papo?
— Pelo contrario, falla com todos, brinca com os rapazes, toca viola franceza, dança, e olhe que apesar de tudo ninguem lhe falta ao respeito.

— Bem, bem. Não é como o cirurgião de bordo de uma corveta onde estive, que logo pela manhã parece que engulia pau de vassoura, e nunca mais o vomitava todo o dia. Tinha um forte estomago… Ás vezes engulia elle sua chufa d'aquelIas que fazem chegar a côr ao rosto, mas não lhe faziam mossa. O maldito, quando dava alguma coisa n'um marinheiro, o que sabia era mandal-o sentar e dizer-lhe: "Não é nada. Esteja com a cabeça baixa que a coisa passa." Mas uma vez fiz-lhe bater um moitão de encontro á cachola, e quando gritou, disse-lhe logo: "Não é nada, sr. doutor. Se v. s. tivesse a cabeça baixa, a coisa passava." E até o commandante se riu...
— Isto está muito mudado, disse a Libania, desde a sua partida. Morreram os paes do Franco, morreu a filha mais velha do tanoeiro Jeronymo...

— Oh coitada! exclamou Espanta-maridos. Ella tambem estava phtisica… Mas quem é esse Botelho?
— Ah você não conhece diz a tia Libania. O sr. Augusto dos Santos Botelho é lá de Lisboa. O pae era empregado na secretaria da guerra; veio aqui tomar ares e morreu, e a mãe pouco depois. O filho ficou no emprego do pae. É visita do sr. Antão Diniz, assim como o sr. Gomes, que ainda agora passou para o Caramujo. O sr. Gomes foi da marinha de guerra, depois passou para a tropa de terra. É filho da sra. D. Rosa, de Mutella, viuva de um official, antigo companheiro do sr. Diniz, e que morreu no Brazil.
— Conheço, diz Espanta-maridos. Foi elle quem me levou para bordo. Fizemos ambos uma viagem aos Açores, e depois nunca mais o lobriguei. Mudou de vida e fez bem, que não é boa a do mar. Heide ver se lhe fallo logo.

— Mas esse Botelho é algum figurão?
— O sr. Botelho, continuou a tia Libania, vive em grande luxo e gasta muito. Não se sabe d'onde lhe vem tanto dinheiro, porque tem ordenado pequeno, e o pae não lhe deixou nada. Eu não gosto muito do tal sr. Botelho. Tem uns ares de quem faz pouco caso da gente pobre, e a minha Felizarda embirra com elle, mais com o sr. Gomes, que ora está muito alegre, ora é um cabisbaixo e um semsaborão. Não é assim o sr. Franco; é outro homem, um bello moço.

Entrada do Jardim, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

E n'estas conversações se foi passando o tempo, desenferrujando a lingua a tia Libania, contando a Espanta-maridos a vida das pessoas do seu conhecimento, que ella mui hem sabia, até que appareceu novamente João Chrysostomo.

— Ó Joaquim, disse elle, entrando na taberna, cá está o teu velho professor. Acabo de impor os rapazes. Disse-lhes que tinha chegado um antigo discipulo, que não via ha annos. Custou-me hoje a tel-os quietos. Estiveram sempre a badalar sobre o collegio que a sra. infanta vae estabelecer em Almada.

— Qual d'ellas? diz Espanta-maridos.
— A sra. D. Maria d'Assumpção, respondeu João Chrysostomo. D. Francisca, que foi aia da infanta, metteu-lhe isto na cabeça, a infanta approvou, e estão já tratando de comprar a casa.
O collegio é para internos e externos. Internos hão de ser os orphãos de pae e mãe até á edade de 7 annos, e em passando d`esta edade vão para a casa pia de Lisboa. E os externos serão pequenos pobres, desde os 4 annos até aos 7. E admitte até 100 creanças. Deus abençõe a sra. infanta e a familia de Antão Diniz por tal lembrança. Olhe, tia Libania, se já existisse o collegio não estavam as suas pequenas a fazer uma algazarra que ninguem se entende.

Effectivamente as sobrinhas da Libania cantarolavam á porta:

Quando o rei chegou á barra,
Nova moda se inventou:
Quanto mais a fome aperta,
Mais se canta "O rei chegou."

Era a lettra da canção que amofinava João Chrysostomo.

A tia Libania deu grandes gargalhadas e disse:

— O sr. João Chrysostomo é boa pessoa, tem só o defeito de não ser do nosso systema.
— Ah sr. professor! Pois vocemecê gosta das cores azul e encarnada! observou Espanta-maridos com o tom mais amavel que sabia tomar.
— Mau! Diz Chrysostomo zangado. Quem lhe manda cá metter o seu bedelho, tia Libania! Tambem você tem systema! Era melhor que fosse ensinar o Padre Nosso a suas sobrinhas.

E saiu da taberna precipitadamente, sem attender ás desculpas de Espanta-maridos, e ralhando com as pequenas.

— É muito aferrado ao arrocho, disse a Libania. Mas todos o estimam, porque é muito serviçal. Faz todo o bem que póde, e nunca faz mal a ninguem.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.