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sábado, 4 de março de 2023

Almada Atlético Clube (1946)

a caminho de transformar-se em grande instituição

A vila de Almada procura, mercê de um esforço admirável, apoiado na dedicação e entusiasmo dos seus habitantes, impor-se não só na vida social como também na prática do desporto.

Banquete de homenagem ao Almada Atletico Club
(campeão nacional da II divisão na época 1946-1947).
Delcampe Bosspostcard

O inicio desse novo aspecto no desporto local principiou com a fusão dos dois clubes locais: o União Desportivo de Almada e o Pedreirense Futebol Clube.

Coroada de êxíto essa iniciativa, o aparecimento do Almada Atlético Clube marcou desde logo um programa valioso, não só em benefício do desporto e dos desportistas locais, como também do desporto nacional, pois que, dada a importância do projecto, o desporto português receberá um excelente reforço.

Estivemos em Almada e na sede do clube ouvimos alentamente a exposição que nos fizeram o seu presidente, sr. João Louro, acompanhado pelos srs. Valentim Henriques, secretário. Jeremias Barros, secretário adjunto, e Alfredo Cáceres Alves, capitão do grupo de futebol.

Frente à antiga sede do Almada Atlético Clube.
A Banda da Incrível ao Longo do Tempo vol. I. ign 1.° centenario, 1 de outubro de 1948.
InfoGestNet

— O Almada Allético Clube cumpre a ideia que foi a base da iniciativa da fusão dos dois clubes almadenses.

Pensámos que poderia surgir um clube grande, capaz de divulgar os bons princípios do desporto e interessar o povo de Almada pela cultura física e até cultural.

António Henriques, director desportivo do Almada Atlético Clube 1949/1950.
InfoGestNet


Verificamos hoje que assim é. E não devem estar arrependidos o sr. Direclor Geral de Desportos, que apadrinhou com interesse a fusão. e a Federação Portuguesa de Futebol, que nos tem acompanhado com as suas boas palavras de incitamento e o valioso auxílio de 50 contos, com que pudemos entrar na posse do nosso magnifico campo de desportos. Temos cumprido. Muito mais queremos e havemos de fazer.

Associativamente, como se encontra o Allélico de Almada?

Bem. Quando existiam dois clubes, as duas massas associativaa perfaziam um total de 500 sócios. O Atlético de Almada regista já 1.200 sócios e esperamos que dentro em pouco, com uma campanha que vamos iniciar, se chegue aos 3.000.

Quais os projectos?

A instalação da nossa sede, em edifício que esperamos brevemente alugar. Procuramos que a nossa casa desportiva tenha conforto e ambiente acolhedor. Nessa sede, além de todas as instalações para os sócios, poderemos montar um amplo ginásio.

Almada Atlético Clube (sede)  c. 2014.

Ao mesmo tempo continuaremos as obras do nosso campo de desportos.

Procuramos dotar Almada com um estádio!

O nosso terreno presta-se à maravilha para esse efeito. Siuado em local privilegiado, com linda vista e terrenos desafogados, o campo de jogos do Atlético de Almada receberá, logo que a época de futebol termine, obras para tal necessárias. Prolongaremos as bancadas, há pouco inauguradas, que chegarão até a circundar as balizas. Construiremos uma pista para atletismo, balnearios, posto médico e outras instalações subterrâneas e procederemos ao arrelvamento do campo.

Se todos nos ajudarem e se o auxílio das entidades desportivas vier, como esperamos, colaborar nesta nossa obra, Almada, na época de 1946-47, terá o seu estádio! Todos estes projectos estão já traçados no papel prontos a serem submetidos ás entidades oficiais que superintendem nestes assuntos.

Campo de jogos do Almada Atlético Clube no Pragal.
InfoGestNet

Depois, há a valorização dos nossos «teams» de futebol e o alargamento da nossa aclividade desportiva.

Qual é presentemente essa actividade?

Além do futebol, praticamos atletismo, modalidade em que conquistámos já vários recordes, nacionais e regionais; andebol, com duas categorias, e estão prestes a iniciar a sua aclividade as secções de basquetebol e de voleibol.

Neste momento, o Almada Atlético Clube tem ainda uma outra ambição: ingressar na 1.a divisão da A. F. de Setubal. Havemos de conseguir.

Como vê disseram-nos os dirigentes almadenses ao terminarem as suas in formações estamos animados dos maiores desejos de cumprir uma bela missão, a bem do desporto e de Almada.

As entidades dirigentes do desporto deram-nos um impulso. Nós procuramos corresponder, valorizando esse apoio.

Almada Atlético Clube (emblema).
Wikipédia


Como se depreende destas informações o Almada Atlético Clube está lançado no bom caminho. Há entusiasmo acertado, uma vontade forte de trabalhar e um desejo ainda maior de, no mais curto espaço de tempo, fazer surgir em Almada um grande clube de desporto. Por enquanto nada há que faça supor o contrário... (1)


(1) O Almada Atlético Clube a caminho de transformar-se em grande instituição, Stadium n° 167, 13 de fevereiro de 1946

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
Stadium n° 89, 16 de agosto de 1944

Artigos relacionados:
Almada Atlético Clube (1944)
Pedreirense Foot-Ball Club
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...
Grupo Desportivo da Casa dos Pescadores da Costa de Caparica

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Almada Atlético Clube (1944)

Apôs a fusão Pedreirense-União Almadense
O ALMADA ATLETICO CLUBE
Será em breve uma honrosa manifestação do desporto Almadense


A vila da Almada, anichada no alto dos montes da Outra Banda, desfruta de situaçãp previlegiada. Debruçada, sobre o Tejo, olhando desafogadamente Lisboa inteira, Almada bem merece as carinhosas dedicações que se lhe tem devotado, procurando engrandecê-la ajudando-a no aspecto de renovação e melhoramentos que a cada passo se encontram por toda a Vila.

Almada Atlético Clube (emblema).
Wikipédia


Terra de laboriosa, que tem orgulho naquele rincão arejado, onde de toda janela se espreita o lindo rio e os olhos se inundam da paisagem campesina. Almada vai tomar posição de relevo no desporto. Disto nos convencemos quando nestes últimos ditas lá estivemos, inquirindo ao certo o que significava a fusão dos dois antigos clubes de Almada, o Pedreirense Futebol Clube e o União Sport Clube Almadense, sensata solução que deu motivo à fundação do novo clube: o Almada Atlético Clube.

À interferéneía amivel de Francisco Valente — um nome que fito ligado à ideia — colocou-nos na presença do sr. José Braz, presidente da direcção do novo clube, ume figura de respeito em Almada, espirito ponderado, ideia sempre ligada a boas iniciativas. Por isso o seu nome apareceu — e foi bem recebido — nesta benéfica questão desportiva que é hoje em Almada assunto dc grande importância.

Comandante José Braz, albúm pessoal,
Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

— Esta ideia excedeu toda a expectativa — diz-nos o sr. José Braz com sincero entusiasmo.
— Como a receberam as duas massas associativas?
— De início, como é compreensível. formaram-se dois sectores, grupos que se opunham à fusão. Mas façamos-lhe justiça. Pata muitos, os clubes comtituiam um lar antigo. O amor clubista imperova. A saudade pelo grupo que lhes merecera tantas dedicações e esforços ajudara a não concordarem com a ideia, que era boa — para a terra e para a ideia desportiva.


O exemplo daquele sócio que compreendendo o benefício da fusão teve a sinceridede de me dizer: "Concordo com a fusão, mas quando ela for um facto quero reunir num jantar de despedida alguns eompanheiros e chorar o desaparecimento do meu clube!" Dedicaç6es destas vieram fortalecer o novo clube.

Pedreirense Foot Ball Club (emblema).

O sr. José Braz continuou expondo a finalidade que orientou este projecto:
— Almada é terra de gente boa, trabalhadora, honesta e sempre pronta a reunir-se em volta de uma bandeira para demonstrar o valor da sua actividade e das suas boas ideias.


O nosso meio recreativo impõe-se. As duas colectividades, a Academia Almadense e a Incrível Almadense, eonstituem motivo de orgulho. Por que haviam de continuar dispersos pordois clubes valores tão aproveitáveis? Por que haviam de continuar divididos os homens, em vez de os juntarmos num grende clube que marcasse posição de relevo no concelho e que conseguisse reunir todos os almadenses em volta de uma só entidade?


E tudo correu pelo melhor. Este nosso bom povo, humilde. mas amando muito o que pertence a Almada, é neste morneoto o melhor auxiliar para que a iniciativa tenho o exito que lhe antevemos. Registe-se que, expontâneamente, logo nos primeiros dias se inscreveram mais de 200 sócios, que até então não pertenciam a nenhum dos dois clubes.

União Sport Clube Almadense (emblema).

O sr. José Braz anima-se. As suas palavras são ajudadas por entusiasmo que, sendo comovido, deixa entretanto prever os beltssimos projectos que estão já em efectivação.

— O Almada Atlético Clube será um clube de todos e para todos. Preocupa-nos não fazermos uma coisa defeituosa, mas sim com bases sérias e que no futuro marque posição. Pretendemos, especialmente, fazer em Almada um clube em que se possa preparar a juventude,

Acarinhados e aconselhados pelo sr. capitão António Cardoso, contamos com o aplauso da Direcção Geral doa Desportos, além do apoio dos melhores valores da nossa terra.

E o sr. José Braz salienta-nos um nome, uma figura a quem o concelho deve: o banqueiro António Piano Jnr. Almada considera-o a sua "varinha de condão", sempre ao lado das boas iniciativas, desde que tenham por finalidade o engrandecimento da terra.

A generosidade do sr. Piano Junior tem-se feito sentir em tórias as obras de beneficèneia e de recreio espiritual que se têm organizado em Almada. E ao ser posto ao corrente do que se passava com a fundação do novo clube desportivo, o interesse e a magnífica ajuda de António Piano colocaram-se ao dispor da direcção do Almada Atlético Clube.

Mercê desse valiosíssimo apoio — countinua elucidando-nos o sr. José Braz — o novo clube, terá a sua sede própria. Neste momento ultimam-se as negociações para a compra, ou de um edifício e campo anexo, ou de terreno onde se edificará a sede. E qualquer destes elementos estão já escolhidos.

— Os seus projectos, quanto a instalações desportivas?
— A futura sede do Almada A. C. reunirá todas as instalações necessárias o um bom clube de desporto. Terá um amplo e apetrechado gimnásio e um campo de "basket ball".


Os campos dos dois clubes, o do Pedreirense e do União, pensamos depois aproveitá-los sob o seguinte projecto: o primeiro para futebol, introduzindo-lhe mais alguns melhoramentos e bancadas; o segundo para os pistas de atletismo, "rink" de patinagem, "courts" de ténis e piscina. (1)


(1) Stadium n° 89, 16 de agosto de 1944

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
O Almada Atlético Clube a caminho de transformar-se em grande instituição, Stadium n° 167, 13 de fevereiro de 1946

Artigos relacionados:
Almada Atlético Clube (1946)
Pedreirense Foot-Ball Club
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...
Grupo Desportivo da Casa dos Pescadores da Costa de Caparica

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Pedreirense Foot-Ball Club

Arrendara o Pedreirense Futebol Clube um declive de terreno no Pau-da-Bandeira e a maioria da massa associativa jurara "fossar" na terraplenagem. Há dias que parte da vila abrasava deste entusiasmo, e questiúnculas rompiam onde quer que estivessem adeptos dos amarelos-e-pretos e do União de Almada.

Construção do Campo do Pragal por voluntários do Pedreirense Futebol Club.
Gabriela Henriques

Vivia o Pedreirense sem campo atlético, treinando por empréstimo ora no rectângulo do Ginásio, ora no do rival. Mas agora, sim, com boa vontade de todos, tardes e noites, alumiados por réstias de sol ou bicos de carboreto, os braços não descansariam enquanto aquele chão não fosse propício a pugnas futebolísticas (...)

Pela ladeira ingreme que conduzia à vila, juntaram-se outros operários, gente das oficinas da Companhia de Pesca. Era um bando de enfarruscados; muitos faziam "picança" nas traineiras. Também eles vinham envolvidos no mesmo despique: unionistas e pedreirenses atenazando-se mutuamente. Uma joelhada fez voltar Alfredo - que deu com a cara suja de Casimiro.

Oh, pá! — Vas logo também cavar prà quinta do Feiteira? — brincou ele.

Já fui ontem... — respondeu o filho de Gracinda. Se os outros têm campo, a gente não tem porquê!? (1)

Pedreirense Futebol Clube. Nasceu na Rua da Pedreira, em 1920, e funde-se com o União Almadense, em 1944, dando o Almada Atlético Clube dos nossos dias. Esta fotografia da sua equipa de futebol é datada de 1925.

Equipa de futebol do Pedreirense Futebol Clube em 1925.
Henrique Mota, Desportistas Almadenses

Da esquerda: Agostinho de Figueiredo, Leonel Alaiz, guarda-redes da 1.a categoria do Clube de Futebol "Os Belenenses", e irmão de Rogério Alaiz, (talvez o futebolista mais habilidoso de Almada, e ainda irmão do grande democrata José Alaiz), Quirino Mendonça, Carlos Santos, Augusto Luís (o popular Agulhas, que além de bom futebolista foi um inteligente executante musical e inspirado compositor), Júlio Calóca, Manuel Lino, António Luís (conhecido por Maloia, que foi um primoroso futebolista), Américo Valentim, António Alves (conhecido por Pau por ser rijo e destemido, e irmão de dois excelentes futebolistas, Joãozinho e Franquelim Alves, o «Bidas»), Arsénio de Andrade (probo executante musical, que esteve 40 anos na Banda da Sociedade Incrivel Almadense) (2)

Cartão de sócio do Pedreirense Foot-Ball Club.
Delcampe, Bosspostcard

O sr. António Jesus Soares solicitou elementos sobre a criação do Almada Atlético Clube (fundado em 20 de julho de 1944), os quais lhe foram facultados, incluindo os modelos de equipamento utilizados, na altura, pela União Sport Club Almadense, filiado 166, admitido na Associação de Futebol de Lisboa em 23 de outubro de 1924 e pelo Pedreirense Football Club, admitido em 27 de maio de 1925, ficando registado com o nº 178.

Pedreirense Foot-Ball Club

Estes clubes fundiram-se para dar lugar ao Almada Atlético Club. (3)

União Sport Club Almadense


(1) Romeu Correia, Os tanoeiros, Parceria A. M. Pereira, 1976
(2) Henrique Mota, Desportistas Almadenses
(3) Alberto Helder, Fui voluntário durante 867 dias

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
Stadium n° 89, 1944

Artigos relacionados:
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...

sábado, 2 de abril de 2022

Jantar republicano (1956)

Nesse ano celebrou-se o 46º aniversário da implantação da República em Almada estando a comissão comemorativa constituída por Hélio Vieira Quartim, Firmino da Silva, Rafael Ferreira, José Alaís, José Duarte Vitorino Júnior, António Maria dos Santos Queimado, Raimundo José Moreira, José Maria, Amadeu de Almeida Ferrão, Óscar Penedo, Herculano Pires, Henrique Barbeitos, Francisco Açucena, Raul Adão e Silva, João Pedro de Jesus, José Moreira, Romeu Correia, João Romana, José Justino de Jesus, Salvador Avelar, José de Jesus dos Santos, António Maria Ribeiro, Felizardo Artur, Francisco Correia e Amaro Trindade Sanguinho.

Comemorações do 46º aniversário da Implantação da República. Jantar de confraternização republicana no Restaurante Pancão, Almada, 4 de Outubro de 1956.
Da esquerda para a direita: não identificado, dr. Henrique Barbeitos, Firmino da Silva, não identificado, José Correia Pires e Hélio Quartim.
Museu da Cidade de Almada (cedência de Virgínia Silva Neto cf. Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada...)

Do programa apresentado o governador civil apenas aprovou a sessão na Incrível Almadense no dia 4 e um jantar de confraternização de republicanos deixando de fora a romagem à casa onde nasceu Elias Garcia por razões óbvias de retirar visibilidade à celebração da efeméride adivinhando um cortejo cívico com alguma expansão que pudesse constituir uma manifestação aberta e espontânea de repúdio ou de questionamento das instituições.

Foi no sentido de exercer controlo e vigilância sob o evento que Fernando Gouveia e a brigada liderada por Manuel de Medeiros se deslocaram a Almada. A sessão na Incrível Almadense foi presidida por Câmara Reis, secretariado por Firmino da Silva e Henrique Barbeitos e teve como oradores Rodrigues Lapa, José Alaíz, Herculano Pires, Edmundo Vieira Ferreira, João Pedro Martins Calvário e José Correia Pires na presença de uma numerosa assistência onde foram notadas mulheres e menores.

Comemorações do 46º aniversário da Implantação da República na Incrível Almadense, 4 de Outubro de 1956.
À frente e da esquerda para a direita: Firmino da Silva, não identificado, dr. Henrique Barbeitos. Atrás de Firmino da Silva encontra-se José Alaíz.
Museu da Cidade de Almada (cedência de Virgínia Silva Neto cf. Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada...)

Foi aprovada uma moção enviada por Amadeu de Almeida Ferrão e Mário Fernandes que propunha que a comissão organizativa da sessão continuasse para organizar a nova campanha eleitoral, ao passo que no jantar de confraternização celebrou-se um minuto de silêncio pelos que morreram pela República em 1910 e implicitamente pelos perseguidos e mortos pelo regime.

Neste evento ainda vemos antigos republicanos, como Firmino da Silva, embora esteja já dominado pela oposição comunista.

Casa de pasto e retiro de José Pancão à direita na foto.
Museu da Cidade de Almada

Estes eventos constituíam momentos de contestação ao se celebrar a democracia, a coberto da República, ou seja, não era uma comemoração da Primeira República, mas da liberdade que existia durante a sua vigência e, portanto, quando se vitoriava a República era este o seu significado. (1)


(1) Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada (1933-1974), 2019

quarta-feira, 28 de abril de 2021

João Black (1872-1955)

Na terra natal está recordado numa modesta lápida, no restaurante Pancão, que, juntamente com o seu retrato, reza o seguinte:

Sala João Black
Poeta Almadense
Conterrâneos e Amigos
28/9/1950

Cabo da vila de Almada no extremo da antiga Rua Direita.
Casa de pasto e retiro, José Pancão (à direita na foto) e adega das Andorinhas localzada na antiga Ermida de S. Sebastião.
Museu da Cidade de Almada

De seu nome completo João Salustiano Monteiro, nasceu em Almada a 28 de setembro de 1872 e foi urna figura com muito talento, honradez ie popularidade, ao longo dos seus 83 anos de existência.

Ouvindo narrar a sua história, tão rica em acidentes e infortúnios, mas que jamais o vergaram no rumo traçado desde criança, sentimo--nos diante de uma pequena força da Natureza. o poeta, o trabalhador e o homem são talhados na mesma peça, fadados e cultivados para a luta do dia-a-dia.

Há na sua Musa cantos de alegria, hinos de esperança e de fraternidade e que belos na sua singeleza! —, mas assomam também vergastadas cruéis numa sociedade iníqua e mentirosa, a que ele nunca serviu. Quem coligir os seus versos e artigos, insertos em folhas e jornais de dezenas de anos, compreenderá este homem de Almada, de muitas e variadas profissões, sempre corajoso, leal e grato entre os seus contemporâneos [...]

Muito cedo ficou órfão de pai e de mãe, sendo recolhido por um tio. Parente de poucos escrúpulos e desumano, que logo o não quis sustentar. Num dia de temporal, esse pô-lo na rua, quase sem roupa e descalço, à mercê do acaso.

Foi, então, que um pobre operário de O Puritano o recolheu e 1he deu umas roupas nando-ihe pouco depois o Conhecimento edeu umas roupas, proporcionando-lhe pouco depois o conhecimento da bela arte gráfica e do jornalismo, como o próprio João Black nos confirma neste relato:

"O Puritano, semanário que se publicou em Almada aí por alturas de 1888 a 1898, sob a direcção política de José Carlos de Carvalho Pessoa, que sucedeu dois ános depois a Jaime Artur da Costa Pinto, deputado pelo círculo, foi o meu tirocínio para o culto das letras. De compositor passei a reudactor, a secretário, a ser tudo, enfim, que constitui a engrenagem dum jornal de província, incluindo a revisão, a impressão, a factura do correio e todo o demais expediente.

Fui um Faz-tudo, explorado até à última gota de suor, mas beneficiado por essa mesma exploração, pois me deu margem a desenvolver a minha mentalidade e a tornar-me apto a ingressar em jornais de grande envergadura, como "O Século", onde entrei em 1892, pela mão de Eugénio da Silveira e de que era director o saudoso democrata Dr. Magalhães Lima (1850-1928)."

Aluno da sociedade A Voz do Operário, entrou mais tarde para o seu quadro gráfico. Nesta benemérita instituição, quase um prolongamento do seu lar, desempenhou as mais variadas funções. Tipógrafo, repórter, bibliotecário, empregado de escritório, director por fim, aposentado. Mas anos antes, e durante a sua juventude, fora pescador e até artista de circo...

Cantador de fado dos mais populares do seu tempo, tudo quanto cantava era de sua lavra. De centenas de quadras, transcrevemos esta, ao ãcaso:

A Honra é virtude morta
Se a Fome for atrás dela.
Quando a Fome entrar a porta
Sai a Honra p'la janela.


O órgão noticioso do anarco-sindicalismo A Batalha, que se publicou entre 1919 e 1927, tem um hino revolucionário [v. artigo dedicado] cuja letra é da autoria de João Black.

Entre as amizades que contraiu, e foram imensas, destacam-se as dos poetas Guerra Junqueiro (1850-1923) e Angelina Vidal (1858-1917), que muito o estimaram e admiravam.

Nascido em 1872, tinha 19 anos quando do ultimatum inglês a D. Carics: trinta e oito, quando da proclamação da república; quarenta e sete, quando saiu o primeiro número de A Batalha; cinquenta anos, quando, em 1921, foi criado o Partido Comunista Português. João Black foi um anarquista, um poeta operário, que se sentia solidário com todas as misérias e injustiças do mundo.

João Black (1872-1955)
Romeu Correia, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

E lutou sempre, como podia e sentia... Sobre, João Black, homem-político, diz-nos César Nogueira no elogio fúnebre já citado [A Voz do Operário, 1 de fevereiro 1956]:

"Não tinha laivos de revolucionário. Era ponderado e educador. Nas lides do seu sindicato deu às artes gráficas o seu melhor préstimo. Nos congressos operários, especialmente aquele em que se celebrou em Tomar, em 1914, prestou uma boa colaboração de harmonia e solidariedade, devido às diversas correntes associativas que se manifestavam.

No extinto Partido Socialista colaborou na sua Imprensa. fez a sua judiciosa propaganda, assistiu aos seus congressos e foi eleito membro do seu Conselho Central (1917). Foi seu candidato nas eleições municipais, que se celebraram em 1917, obtendo 1876 votos.

Também foi membro da Junta da Freguesia de Santa Engrácia, onde conquistou, pelo seu lídimo c pata dos seus colegas democráticos e arácter, a sim-de todos os paroquianos."

Na inauguração da cantina escolar d'A Voz do Operário recitou esta quedra, mais tarde fixada num artístico azulejo:


Esta cantina escolar
É mais um belo padrão
Em que a Voz faz realçar
A causa da instrução


Casado com D. Bernardina Adelaide Azevedo, faleceu em Lisboa, em 18 de dezembro de 1955. (1)


(1) Romeu Correia, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada... 1978

Informação diversa:
Canções libertárias

Fado republicano, João Black (1872-1955)

Foi na publicação A Voz do Operário que teve seu cargo urna secção de título Carteira do Operário que durou entre 1905 e 1920 e, na qual foram publicados inúmeros textos de poetas amadores com temáticas de cariz social, e naturalmente textos que o próprio João Black escreveu para essa coluna.

Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário.
Ephemera JPP

A ligação de João Black com o fado começa por volta do ano de 1883, quando na infância começa a cantar. Apenas cinto anos mais tarde já percorria as sociedades recreativas para ouvir e interpretar os seus fados. Posteriormeme começa a procurar utilizar os versos cantados para transmitir ideais de carácter político-ideológico.

João Black, A Cançäo de Portugal n° 19, agosto de 1916
Museu do Fado

Em entrevista ao jornal Guitarra de Portugal, ern 1923, o próprio João Black relata episódios da sua vivência fadista da viragem do século e revela a formação de um terceto, com dois outros grandes nomes do universo fadista, Avelino de Sousa e António Rosa, que se apresentava em clubes e associações.


Nas palavras do próprio identificamos um propósito bem definido desta vertente de abordagem ao fado que temos vindo a retratar:

"Conheciamos a índole do nosso povo e sabendo-o falho de educaplo, mas muito inclinado ao fado, resolvemos fazer pelo verso cantado uma intensa propaganda de sociologia."

João Black fez também uma "peregrinação" pelo Alentejo, acompanhado por Júlio Janota, ambos cantando as mensegens de justiça social e de ataque ao regime monárquico [...]

João Black, Reliquias do fado 1936.
Fadoteca

O seu envolvimento com as ternáficas fadistas manteve-se ao longo de toda a sua vida, fazendo parte de comissões de homenagem, como a realizada para o guitarrista Luís Carlos de Silve (Petrolino)., em 1931 ou em festas de beneficiência.


Poema comemorativo do 50.° aniversário de A Voz do Operário
Casa Comum

Em Julho de 1946 foi também ele objecto de uma sentida homenagem,. Avelino de Sousa o presenteou com estes versos:

Quando o Fado não era um "ganha pão",
Mas um terno motivo espiritval,
— Hóstia de Luz na doce comunhão,
Do Povo, com a Alma nacional...


De entre os nomes mais altos da Canção
Mais popular em todo o Portugal,
Um houve que, de firma mais real,
Se destacou e teve vibração.

Um nome de poeta consagrado
E trovador que soube honrar o Fado
Em verso de divino sentimento!


E ésse nome, que mer'ceu tal destaque
Foi o teu, camarada João Black,
Que o conquistaste a golpes de Talento. (1)



(1) Fado 1910, CML/EGEAC, Museu do Fado, Lisboa, 2010

Informação diversa:
Canções libertárias

sábado, 24 de abril de 2021

Fado anarquista, João Black (1872-1955)

Alexandre Black, avô do aviador civil Carlos Black, possuía uns aterros em Cacilhas, onde meu pai exercia as funções de guarda. Foi ele quem insistiu com o meu pai para me meter na escola, tendo eu já sete anos nessa altura, comprometendo-se ele a pagar as, propinas, dada a situação de pobreza em que vivíamos.

João Black (1872-1955)
Romeu Correia, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

Graças à sua extrema bondade, cheguei a cursar o 2.° ano do Liceu do Carmo, findo o qual resolvi não continuar por ter sido vítima duma injustiça do júri. Enveredando depois pelo campo tipográfico e jornalístico e prestando fervoroso culto às Musas, resolvi adoptar o pseudónimo de João Black em homenagem à memória do ínclito cidadão a quem devia a minha instrução e a preparação para enfrentar os graves problemas da vida.

Cometendo um acto de justiça, julgo ter dado assim uma prova da minha gratidão. (1)



Ciência humanitária
Um símbolo de altruísmo
Tem como fim condenar
Deus, pátria e militarismo


O mundo há-de assitir
Aos pobres livres do jugo
Espezinhar é o futuro
Da burguesia a surgir


E depois quando existir,
O ideal...
Esplendor e bem-estar
Incitar o patriotismo
A miséria,
O anarquismo tem por base condenar

Mas o povo subjugado
Esfacela-se sob a tortura
Quando o seu mal tinha cura
O ideal desejado

Viver na prisão
Nas garras dos inimigos
Ai ela bem cai no abismo
A fanática humanidade
Pois fia-se nesta trindade
Deus, pátria e militarismo (2)


(1) César Nogueira, elogio necrológico de João Black, A Voz Operária, 1 de fevereiro 1956 cf.  Romeu Correia, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada... 1978
(2) Carlos Loures, A face anarquista do fado

Informação diversa:
Canções libertárias

A Batalha, João Black (1872-1955)

A Batalha. Hino revolucionário, música de Tomás del Negro, letra de João Black.

Arquivo Nacional Torre do Tombo

I

Surgindo vem ao longe a nova aurora
Que os povos há de unir e liberar
Desperta rude, escravo, sem demora,
Não leves toda a vida a meditar.

Destroi as cruas leis da sujeição
E quebra as vis algemas patronais!
O mundo cai ter nova rotação,
Os homens hão de ser todos iguais.


CÔRO

É justo aos parasitas dar batalha,
A terra só pertence a quem trabalha...

II

Arquivo Nacional Torre do Tombo
Labutas atrelado ao cruel jugo,
Em troca da miséria por desdouro
Enquanto o teu patrão, o teu verdugo,
Aumenta à tua custa o seu tesouro.

É tempo já de erguer bem alta a voz,
bradr ao causador do teu sofrer:
A terra foi legada a todos nós;
Trabalha tu também, é teu dever.


CÔRO

É justo aos parasitas dar batalha,
A terra só pertence a quem trabalha...


III

Terrível convulsão sacode a terra
Sedenta de Justiça e Liberdade.
À guerra de opressão sucede a guerra
Que tende a redimir a Humanidade.

Saudemos, pois, o facho de porvir,
Das hostes comunais suprema luz.
O lema do futuro é produzir;
Dos lucro só partilha quem produz.

CÔRO

É justo aos parasitas dar batalha,
A terra só pertence a quem trabalha... (1)


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João Salustiano Monteiro (Black) nasceu em Almada, a 28 de Setembro de 1872 e faleceu em Lisboa, aos 83 anos de idade, no dia 18 de Dezembro de 1955.

Tendo completado o 2.° ano no Liceu do Carmo, resolveu ir ser tipógrafo e jornalista. Em 1892 entrou para O Século pela mão de Eugénio da Silveira e tempos depois fez-se aluno da Sociedade "A Voz do Operário" entrando depois para seu quadro gráfico.

Manteve amizade com vultos do socialismo, mas foi no campo sindical onde marcou a sua presença como educador ponderado e poeta revolucionário. Participou no Congresso de Tomar em 1914 e outros que lhe sucederam e escreveu o Hino revolucionário "A Batalha" que o Maestro Del Negro musicou. (2)


(1) Arquivo Nacional Torre do Tombo
(2) Projecto MOSCA cf. E. Rodrigues (1982). A oposição Libertária em Portugal. 1939-1974. Lisboa. Sementeira

Informação diversa:
Canções libertárias

sábado, 17 de abril de 2021

Gregório, do Cacilhense...

Gregório
Revista Stadium n° 345, 1949
Cacilhas, a vila da outra margem do Tejo, que amorosamente fita Lisboa. O alfacinha que por ela nutre particular admiração e estima, não se furta o grato prazer de a visitar da quando em vez, animando-lhe buliçosamente as ruas e retiros nos domingo e dias feriados.

No recuado ano de 1930, nas ruas menos concorridas, sobre o basalto, a miudagem que rondava pelos 13 anos, dava largaa à inontida fúria pela bola, disputando interminavelmente desafios que, geralmente, só findavam devido à intervenção dosprogenitores da policia ou da guarda republicana.

Entre os pequenitos Gregório Gonçalves dos Santos nascido em 26-1-1917, distinguia-se pela vivacidade endiabrada, pelo fôlego inexgostavel, pela indiferença com que sacrificava a biqueira das botas... até que o pai resolveu não as deixar ao alcance do azougado garoto... que jogava descalço, então, sacrificava os dedos dos pês à alegria de jogar com uma bola de borracha ou de trapo... embora, depois, ao chegar a casa, o pai jogasse com ele de maneire diferente...

O número de miúdos cresceu de tal forma que chegou um dia em que resolverem, multo simplesmente, fundar um clube. Apareceram vários nomes, mas só um deles mereceu aprovação unanime, pelo seu simbolismo: "Cacilhense".

Criado o clube, faltava uns bola de coiro, igual ou parecida com as dos jogadores de verdade. Qual a solução?

Todo o dinheiro obtido pelaa dádiva dos pais ou dos amigos era empregado na compra de rebuçaods,— daqueles que tinham concurso dos emblemas dos principais clubes. E, assim, foi resolvIdo tão magno problema!

Teve, porém, efémera duração o grupo. Na ano seguinte, já com os miúdos na idade de 14 a 15 anos, novo clube surgiu em substituicão do primeiro o "Bombense".

Os jogos passaram a realizar-se no Campo do Ginásio Clube do Sul, com bola de cautechu, pagando cada miúdo dez tostões para o aluguer. Claro que, os desafios não tinham hora certa de duração.

Aos 16 anos, Gregório, ingressava no Ginásio, proprietário do campo onde começara a revelar a sua intuição futebolística, participando em vários desafios... já a valer, mas com carácter particular. Alinhava também, visto que não assinara ficha, no Pedreirenee F. C. hoje fusionado com o Atlético Clube de Almada e no União Piedense, hoje Clube Desportivo da Cova Piedade, entre outros. (1)


(1) Stadium n.° 345, 13 de julho de 1949

Artigos relacionados:
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Clube Recreativo José Avelino

sábado, 28 de março de 2020

Na Lapa de Cacilhas em 4 de junho de 1950

Aspectos da parada dos Bombeiros Voluntários de Almada

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Jeep n.°2 com moto-bomba n.°4 (Standard) e carro oficina com roulotte.

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada,.
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Extra rápido n.° 1.

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Extra rápido n.° 1.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Jeep n.°1 com moto-bomba n.° 5 (Denniz).

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Carro oficina com roulotte.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Início do desfile da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Desfile da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada à entrada da rua Cândido dos Reis.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Artigos relacionados:
Grande Parada dos Bombeiros Portugueses
Bombeiros Voluntários do Caramujo
Museu de Bombeiros

Leitura relacionada:
Victor M. Neto, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011, Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Grande Parada dos Bombeiros Portugueses

16 de Junho de 1935

A parada teve como pano de fundo as principais artérias da Baixa de Lisboa, sendo assistida, ao longo de todo o percurso, por enorme multidão, desperta pela vistosidade dos fardamentos e das viaturas, para além dos estandartes e das bandas de música que marcaram a cadência das garbosas e disciplinadas formações de bombeiros. O número de participantes saldou-se num verdadeiro êxito: 2488 homens e 114 viaturas (15 carros de pessoal, 110 carros de combate, 2 ambulâncias e 17 auto-macas).

Viatura dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
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Em termos organizativos, as forças motorizadas concentraram-se em Belém, na Avenida da India, dirigidas pelo comandante do então Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa, major Frederico Vilar, enquanto as forças apeadas, sob a orientação do comandante dos Bombeiros Voluntários Portuenses, major Gabriel Cardoso, reuniram entre a Praça de D. Pedro IV e a Praça dos Restauradores [...]

Viatura dos Bombeiros Voluntários de Almada na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
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Numa tribuna instalada na Avenida da Liberdade, assistiu à parada o Presidente da República, general Óscar Carmona, acompanhado do ministro do Interior, Manuel Rodrigues Júnior, e do governador civil de Lisboa, tenente-coronel João Luís de Moura, entre outras altas entidades do Estado. (1)

Viatura dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
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À noite

As viaturas concentraram-se às 22 horas na avenida da India e cada bombeiro recebeu uma provisão de fogo de artifício. Uma hora depois o cortejo pôs-se a caminho. Ao chegar ao Terreiro do Paço a iluminação do percurso imediato foi atenuada e principiou a queima de fogo, dos veículos em marcha.


Viatura dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas na II Grande Parada dos Bombeiros Portugueses em 16 de Junho de 1935.
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O aspecto feérico da longa fila de carros, donde jorravam fachos de luz, era deslumbrante. A todo o momento subiam no ar foguetes que se derramavam depois em lágrimas refulgentes de luz ante os olhares da multidão maravilhada. (2)


(1) Bombeiros de Portugal
(2) Ilustração N.º 229, 1 de julho de 1935

Artigo relacionado:
Museu de Bombeiros

Mais informação:
O Noticias Ilustrado n.° 367, 1935, cf. A voz dos egrégios avós

Leitura relacionada:
Victor M. Neto, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir..., Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011


Informação relacionada:
Liga dos Bombeiros Portugueses, Núcleo de História e Património Museológico

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)

A "Stadium" não esquece nunca o labor desinteressado e valioso dos clubes que propagam os desportos na provincia. A sua acção, modesta em geral, e brilhante e valiosa muitos vezes, tem merecido palavras de elogio e provocado algumas iniciativas de estímulo para a sua actividade. Conhecer a sua existêna, auscultar as suas aspirações, é concorrer para aprecia-los melhor. Vários clubes da província tem passado pelas coluna, da Stadiurn, em referência mais ou menos ampla a uma obra que é sempre digna de realce.

Clube Desportivo da Cova da Piedade no acto da sua inauguração, em 1947.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Neste número, no de hoje, cabe a vez ao Clube Desportivo da Cova da Piedade. É, entre as agremiações mais novas, uma das que mais tem progredido. Em pouco mais de um ano, pôde levar atletas ao estrangeiro e colher aí uma vitória esplendida. Pois é desta colectividade que vamos falar, numa reportagem que tem muito de oportuna. E vamos dividir em très partes, que se completam — condições em que se fundou, a obra do um ano e projectos para o futuro.

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e a sua fundação

Cova da Piedade talvez seja mais conhecida como localidade de transito para o sul do pais. É o primeiro núcleo populacional que se encontra no caminho, depois da travessia dificil por Cacilhas. Considerada assim, de passagem, é de-cetro uma terra como outras... Para quem a visite é uma localidade em pleno desenvolvimento. A proximidade do novo Arsenal de Marinha, à volta do qual se está criando uma cidade moderna deu, à Cova da Piedade. melhores condições de vida e expansão.

Situada também perto de Almada, séde do seu concelho, e da movimentação de Cacilhas, recebeu delas influência desportiva. Formaram-se há, anos, dois clubes: Sporting Clube Pledense e União Piedense. Não merece a pena indicar com rigor a antiguidade de cada um dos clubes [v. artigo relacionado: Clube Desportivo da Cova da Piedade]...

Basta afirmar que a acção desportiva do lugar se dispersava por duas colectividades. E que, por serem modestas, alguns dos seus melhores atletas procuravam representar clubes da capital, com mais atractivos para quem tem aspirações de progresso e fama. 

Criou-se, assim, explicou-nos um director do Desportivo da Cova da Piedade. a ideia de uma concentração de estorço., numa só agremiação, com fundas raizes na região a que pertence — um clube que representasse dignamente a sua terra e agrupasse todos os valores dispersos. 

A menina Maria Gabriela Barbosa Álvaro conduz as chaves para a abertura da sede do Desportivo pelo Dr Salazar Carreira, no acto da inauguração.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

As pessoas que mais se distinguiram, nesta campanha, c que encaminharam os doia clubes para a fusão, foram os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, advogado; dr. Raúl Cerqueira Afonso, diplomado em Ciéncias Económicas e Financeiras; Domingos Cabrita. Júnior, todos sócios de ambas as agremiações locais, e Salvador Marques de Assunção, diretor do Sporting Clube Piedense. 

Em 28 do Janeiro de 1947, realizou-se uma reunião magna do povo da Cova da Piedade, para se pronunciar publicamente acerca do projecto de fusão dos dois clubes. A ideia foi bem aceite e a data citada figura como sendo a da fundação do Desportivo, visto que nela se resolveu organizar um novo clube, com raie título. 

Na mesma reunião, que a Cova da Piedade não esquecerá facilmente, resolveu-se ainda nomear uma comissão organizadora, que ficou sendo a ,primeira comissão administrativa do C. D. C. P. . Dela fizeram parte os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, dr. Raúl Cerqueira Afonso, Domingos Cabrita Júnior e Salvador Marques de Assunção, já apontados, com Augusto Baptista, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa, José Ribeiro de Sousa, Carlos Matos Peres. Pedro Lopes Rodrigues, António da Costa, Diogo da Silva Nunes e José da Fonseca.

Alguns dos convidedos à festa de inauguração da sede do Desportivo.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

A comissão organizadora resolveu aproveltar o edifício que estava destinado para a sede do União Piedade, a sede do Sporting para uma escola e o campo desportivo Silva Nunes, do União, perto do centro da localidade. O edifício da sede foi mobilado, não tão completamente conto era nosso desejo, mas por modo que não coloca mal o clube. 

Em 1 de Anril do mesmo ano, com pouco mais de três meses de fundação, o Cube Desportivo da Cova da Piedade pôde realizar o acto que marcou melhor, sob o ponto de vista representativo, o começo oficial da sua actividade. Referimo-nos à inauguração da séde social. Ao acto presidiu o sr. dr. Salazar Carreira, inspector de desporto, em representação do sr. tenente-coronel Sacramento Monteiro, Director Geral de Desportos. E estiveram também presentes, com muito prazer para o Desportivo, o sr. Comandante Sá Linhares, ilustre presidente da Camara Municipal de Almada, vários vereadores, Benvindo Cardoso, pela Federação Portuguesa de Ciclismo, e Jaime Franco, pelo Atlético Clube de Portugal.

A festa constou da inauguração oficial da sede e de uma escola privativa do Desportivo, para educação pré-escolar, e visita ao campo de jogos.

Surgira, pois, um novo clube.

A obra de um clube novo e o seu trabalho de um ano

O Desportivo começou a funcionar com 1.023 sócios e aproveitando as instalações já apontadas — sede no edifício destinado à sede do União Piedade; escola de preparação pré-escolar, para crianças de 5 a 7 anos de idade. na antiga sede do Sporting Piedense; e campo de jogos Silva Nunes. O nome do campo constitue homenagem ao antigo sócio n.° 1 do União Piedade, Silva Nunes, que ficou sendo também sócio n.° 1 do Desportivo. 

O numero de sócios subiu para 1.823. A escola tem 50 alunos. O campo de jogo, tem sido aproveitado para futebol e andebol. Para a prática do voleibol é utilizada a esplanada da União Artística Piedense, gentilmente oferecida pela respectiva direcção. 

Quando o Desportivo iniciou a sua acção desportiva, organizou e manteve secções para os seguintes desportos: futebol, ciclismo, andebol. voleibol, ténis de mesa e bilhar desportivo. Para poder disputar provas nestas modalidades, o Desportivo filiou-se nas respectivas Federações e Associações, filiando-se ainda na Associação de Atletismo, embora não constituisse logo secção especial para esse desporto. 

O edificio da sede tem dois andares. No primeiro, estão montados um bar, um salão de jogos com bilhar desportivo e ténis de mesa, e um posto de enfermagem. No pavimento superior, encontram-se instalados o gabinete da direcção. o gabinete das comissões, a biblioteca e sala dos trofeus. 

No campo há uma boa vedação e existe uma bancada com capacidade para 300 pessoas. Tem balneário. E comporta uma assistência de 4.000 espectadores.

Um resumo de actividades

O número de praticantes desdobra-se como segue:
Futebol — 4 categorias, com 83 inscrições. 
Ciclismo — 4 categorias e 14 corredores. 
Andebol — 15 jogadores.
Voleibol — 14. 
Ténis de mesa — 15. 
Cicloturismo — 27. 
Atletismo (intersócios) — 17. 
Bilhar desportivo — 6. 
Natação (populares) — 8.
A secção de andebol está ern reorganização. 
O Desportivo disputou campeonatos em futebol ciclismo e voleibol

Os primeiros resultados

Em Futebol, a categoria de honra classificou-se em primeiro lugar no campeonato distrital, ao qual não concorreram os clube. da 1.ª e 2.ª Divisão. Em reservas e em segundas categorias ficou no segundo poeto. Em juniores, terceiro. O Desportivo passou, depois, ao campeonato nacional da 3.ª Divisão. Chegou à final, batendo o outro finalista, Académico de Viseu, no Entroncamento. No fim do tempo regulamentar, oa dois clubes estavam empatados com 2-2. No prolongamento, o Cova da Piedade marcou trés pontos, sem resposta. Venceu, pois, por 5-2. A classificação obtida permitiu a entrada do Desportivo na fase final da Taça de Portugal. A prova é, porem, difícil. E o Desportivo não tem grandes aspirações. 

A primeira equipa de futebol do Desportivo da Cova da Piedade, vencedora do capeonato nacional de III Divisão e do campeonato distrital de Setubal.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Em voleibol, os jogadores do Desportivo ficaram campeões da sua série mas foram eliminados pelo Naval Setubalense, campeões da série de Setúbal. Fizeram dois desafios. Na Cova da Piedade, perderam por 5-3. A cidade do Sado a derrota não passou da tangente — 2-3.

A secção de ciclismo tem sido a mais brilhante e movimentada. Em independentes, a equipa do Desportivo classificou-se em 4.° lugar na "Volta a Portugal", a seguir ao Benfica, ao Sporting e ao Porto; e Baltazar Rocha foi o décimo, individualmente, na classificação geral. Manuel Pinto Ribeiro ganhou a Rampa do Vale de Santo António. Jorge Pereira e Baltazar Rocha conquistaram a Taça "Corpos", em Orense, Jorge Pereira ficou em primeiro, na classificação individual, e Baltazar em terceiro. João Joaquim Nunes desistiu. 

Os quatro corredores que representaram o Desportivo da Cova da Piedade na XII Volta a Portugal em bicicleta.
Jorge Pereira ganhou também uma prova em Orense.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Este ano, Jorge Pereira colocou-se em primeiro, nos 100 quilómetros em linha, ex-aequo com João Lourenço. Adoeceu, todavia, e não completou as provas do campeonato regional. Baltazar Rocha, Pinto Ribeiro e António Vieira deram ao Desportivo o segundo lugar no Grande Prémio Alfredo Piedade. E, no campeonato nacional de amadores juniores, um corredor da Cova da Piedade ficou em segundo.

Quanto ao ciclo turismo, a equipa do Desportivo, de principiantes, composta por Vítor Antunes, Alberto Sarty e Diamantino dos Santos, ganhou o título de campeão de Lisboa, em competência com os representantes do Benfica e do Casa Pia. E um grupo formado por António Dias, Sabino David e José Mourinha, realizou um raide ao centro do país, num total de 894 quilómetros.

Outros nomes — e outros factos

A direcção actual, a primeira que o clube elegeu, tem a seguinte composição: 

Presidente, Augusto José Baptista; vice-presidente, Domingos Cabrita Júnior; tesoureiro, Emílio dos Santos Ganhão; secretário-geral, José Ribeiro de Sousa; secretário-adjunto, António da Costa; vogais. Salvador Marques da Assunção, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa e José da Fonseca. 

A direcção tem sido auxiliada por uma comissão constituída pelos srs. António Reis, João Augusto dos Reis. Carlos Filipe, César Costa Figueiredo, António Pereira da Cruz. João Palmeiro Barbosa, Carlos Reis Duarte e outros. 

O Desportivo organizou apenas uma prova, no dia da inauguração da sede — o I "Circuito Piedense", em ciclismo, para Iniciados. Ganhou-a Edgard Marques, do Benflea, recentemente apurado campeão nacional de amadores seniores. Em segundo, ficou José Barroso, do Desportivo. 

E houve ainda uma outra festa, a marcar a posição do clube na sua região — uma festa de homenagem aos atletas da região que se destacaram e destacam no desporto nacional, pelas suas proezas e pelos seus títulos — Mário, Francisco e João da Silva Merques, très irmãos com carreiras gloriosas.

João da Silva Marques, campeão e recordista de natação,
um dos homenageados pelo Desportivo.
[Stadium 309, 1943]
[João Silva Marques – Rei e Senhor da Natação Ibérica nos Anos 30/40]

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e os seus projectos

Não quizemos fechar esta reportagem sem saber quais são os trabalhos que o novo clube tem em curso ou projecto.

Pouco nos disseram a tal respeito e por urna razão de certo modo simples — não existir maior preocupação que a de caminhar sem precipitações e sem grandes aspirações. Há porem um problema importante em estudo — o campo de jogos. E não é porque não disponha de um campo melhor que muitos da provincia. É porque não satisfaz, especialmente pelo defeito que revelou desde que começou a ser aproveitado: é amplo, está tratado com cuidado; apresenta aspecto regular; mas alaga com facilidade, quando sobre ele cai alguma chuvada forte. 

Seria fácil alarga-lo, para futebol e andebol, e tem terreno que podia permitir a prática de outros desportos. Seria, no entanto, dificil e dispendioso prepara-lo para não alagar. A direcção procura por isso resolver o problema com a aquisição de um novo campo. E, à volta da localidade, não faltam terrenos alguns deles dependentes de entidades oficiais, que bem podiam auxiliar um clube digno de simpatia, pela obre já realizada em prol do rejuvenescimento da mocidade e na valorização da região o que pertence. 

Entre as peasoas e entidades a que tem recorrido, o Desportivo da Cova da Piedade destaca o sr. comandante Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada, a quem o concelho deva já reunir alguns notaveis melhoramentos. Tem sido amável para com os representantes do clube, compreende as suas necessidades e procura diligentemente atende-las. Ha, pois, confiança nos  bons reoultados da intervenção do sr. comandante Sá Linhares, neste assunto palpitante do novo campo. E ja não é pouco.

A sede social do
Clube Desportivo da Cova da Piedade no acto da sua inauguração, em 1947.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Além do problema em referência, o desportivo da Cova da Piedade procura apenas de momento. assegurar melhor as suas instalaçóes, completando o mobiliario da sede, e alargar a sua acção desportiva a maior número de desportos, de modo a justificar o proposito de reunir, num só clube todos os atletas da Cova da Piedade, quando não houver necessidade de material especial. Não ha, porém, pressas e não ha demoras. Tudo a seu tempo e na devida altura.

A Direcção está reorgonizando a secção de andebol, vai alargar a pratica do atletismo e pensa dedicar-se também a basquete e à patinagem. Conta, para isso, com a boa vontade dos seus sócios e com a cooperação da Industria local e da Imprensa.

A industria piedense tem auxiliado o C. D. C. P. com varios donativos periodicos, distinguindo-se nesta colaboração oportuna e preciosa, as seguintes firmas: Henrique Bucknal & Sons, Limitada. Rankins, Limitada e Cabruja & Cabruja.

Pelo que o que se relaciona com a Imprensa, o novo clube confessou-nos estar muito reconhecido, principalmente aos jornais desportivos, pela publicidade dispensada a todas as suas iniciativas e pelo ambiente de simpatia e estimulo com que se tem referido à acção do clube. 

Casa Renner
(antiga alfaiataria Benjamim M. Oliveira)

Essa simpatia é, no entanto, merecida em absoluto, dizemos nós agora. É por isso mesmo que pensamos nesta reportagem à vida da nova agremiação. E é ainda por tal motivo que lhe apresentamos os nossos votos de largo progresso. (1)


(1)  Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Artigo relacionado:
Clube Desportivo da Cova da Piedade

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