Mostrar mensagens com a etiqueta 1750. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1750. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (3.ª parte)

Uma outra modalidade de vistas panorâmicas e de edifícios isolados, muito em voga no século XVIII e nos princípios do imediato, consistia nas chamada vistas ópticas, que eram gravadas em cobre, geralmente toscamente coloridas, e com dimensões aproximadamente uniformes, destinadas a ser exibidas em câmaras ópticas ou cosmoramas, onde as "Vistas às avessas mostram o Mundo às direitas", como dizia, pelo ano 1809, o nosso bom José Daniel Rodrigues da Costa.

Lisboa, representação invertida da topografia da cidade, baseada em gravura precedente de Pierre Aveline, c. 1750.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Havia editores franceses, ingleses e alemães, que publicavam séries ou colecções destas vistas de monumentos, edifícios e cidades de todo o mundo, contribuindo assim para a propaganda das belezas e dos aspectos pitorescos dos diferentes países; constituíam elas o bilhete postal ilustrado e popular daqueles tempos.
Em 1946, o ano em o artigo foi escrito, durante o Estado Novo, o tema da governação espanhola, entre 1580 e 1640, era sensível e frequentemente evitado, fosse pela debilitação do orgulho nacionalista, fosse para não incomodar a, também nacionalista, Espanha de Franco.

Praticamente só Leitão de Barros abordou o tema, no filme Frei Luís de Sousa, na cena do incêndio, quando Manuel de Sousa Coutinho lança fogo à sua própria casa, em Almada, de modo a não albergar Filipe II de Espanha.


Tiremos então partido desse hiato pictórico, no texto original do engenheiro Augusto Vieira da Silva, para aqui intercalar algumas imagens do período Filipino, onde o Paço da Ribeira se evidencia pelo torreão maneirista, de Fillipo Terzi, que a partir de 1581 substitui a arquitectura manuelina, de Diogo de Arruda.

Vista geral da cidade de Lisboa capital de Portugal antes do terremoto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Umas dessas estampas são invertidas, a fim de que, quando introduzidas na câmara óptica, e com a margem inferior para baixo, se vissem os edifícios e os panoramas com o aspecto que eles naturalmente possuíam.

Os títulos, inscritos nas margens, superior ou inferior, eram também muitas vezes invertidos, de modo que, quando vistos, na câmara óptica, a sua leitura fazia-se ás direitas. Outras vezes, porém, as vistas eram direitas, de forma que introduzidas na câmara, mostravam os panoramas invertidos (da esquerda para a direita e vice-versa), o que não tinha inconveniente algum para os efeitos e fins que para o público se pretendiam obter com tais exibições.

Lisabona, Georg Balthasar Probst (1732-1801), c. 1730.
Imagem: Swaen

As vista ópticas da cidade de Lisboa, de que temos conhecimento, são geralmente cópias mui incorrectas, de estampas anteriores, panorâmicas e de edifícios, que se adaptavam ao formato e dimensões próprias para exibição nas câmaras ópticas.

Excepcionalnente encontram-se, sem serem destinadas a câmaras ópticas, algumas vistas de Lisboa invertidas, no que se refere aos seus lados direito e esquerdo, isto é, como o lado da foz do Tejo à direita do observador. Não sabemos explicar, senão por um equívoco do desenhador, o que levou este a praticar tal anomalia.

Lisboa amplissima lusitaniæ civitas, totius indiæ orientalis et occidental:
emporium celeberrimum, 1619.
Imagem: World Digital Library

As numerosas vistas panorâmicas produzidas durante este período de dois séculos que estamos considerando, isto é, até ao terremoto de 1755, eram feitas mui rudimentarmente.

Lisbona, Giuseppe Longhi, 1670.
Imagem: BLR

Os desenhadores copiavam os edifícios principais e característicos, que colocavam nos seus respectivos locais, e o espaço restante era preenchido com casaria, telhados, fachadas e janelas, dispostas de uma maneira mais ou menos arbitrária.

Lissbona, representação invertida da topografia da cidade,
Jeremias Wolff (1663-1724), segundo Friedrich Bernhard Werner (1690-1776).
Imagem: Paulus Swaen

Por isso o aproveitamento de tais estampas, como documento, para a história, deve ser feito mui criteriosamente, para não induzir em erros, como por várias vezes tem sucedido. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (1.ª parte)

O empenho de tornar conhecidas as belezas das cidade e de outras povoações estimulou, após a descoberta da arte tipográfica e da gravura em madeira, e seguidamente em cobre, no século XVI, os artistas desenhadores e gravadores a ilustrarem os livros descritivos dessas terras, com estampas representando vistas panorâmicas e trechos arquitectónicos de cidades, povoações e edifícios, tomando assim mais atraente e interessantes os textos descritivos.

Vista de Lisboa e fantasia da margem sul do Tejo, Martin Engelbrecht segundo Friedrich Bernhard Werner, 1750.
Imagem: akg images

Portugal não ficou esquecido nessas publicações, tanto mais que os olhos da Europa estavam então fixados neste povo, que alargava os âmbitos do velho mundo com as suas descobertas e conquistas.

Portugalia (detalhe), Nuremberg Chronicle, Hartmann Schedel, 1493.
Imagem: World Digital Library

Era então a cidade de Lisboa muito mais pequena do que hoje a conhecemos. Já no século XVI ela tinha transposto a cinta de muralhas com que a havia cingido, de 1373 a 75, el-rei D. Fernando, e havia-se alargado ate à Esperança, para o ocidente, até Santa Clara, para o oriente, pelos montes da Graça, da Penha de França e de Sant'Ana, para o norte, e bem assim ao longo duma faixa marginal do Tejo, desde Alcântara até Xabregas.

Foi porém depois do terramoto do 1.º de Novembro de 1755, e ainda mais durante o século XIX, que a cidade ampliou consideravelmente o seu âmbito do lado da terra, de forma que neste trabalho consideraremos "cidade de Lisboa" toda a região que constitui actualmente (1946) o município de Lisboa, que se estende desde as antigas portas de Algés até Olivais, ao longo da linha marginal do Tejo, e desde este rio até Benfica, Lumiar e Charneca para o norte, compreendendo portanto as antigas povoações de Belém, Alcântara, Ajuda, Benfica, Carnide, Campo Grande, Lumiar, Ameixoeira, Charneca, Encarnação, Chelas, Olivais e Xabregas.

A mais antiga representação iconográfica de Lisboa conhecida consta dum selo de cera da Câmara de Lisboa, do tempo de D. Afonso IV, pendente dum documento da era 1390 (A.D. 1352), que existiu no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em que se vê a cidade representada esquematicamente com as muralhas e torres da cerca moura.

Esta vista só é conhecida pela cópia que dela se fez para acompanhar o tomo IV (1788) da "História Genealógica da Casa Real Portuguesa", por António Caetano de Sousa.

Selo de cera do tempo de D. Afonso IV, 1352 (A.D.),
reprodução gráfica.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois desta, as primeiras representações iconográficas da cidade foram feitas nalguns portulanos em pergaminho, dos séculos XV e XVI, que se guardam em bibliotecas e museus estrangeiros, e que têm sido reproduzidas e publicadas em épocas recentes.

Portulano de Jorge de Aguiar (detalhe), 1492.
Imagem: Gafanha da Nazaré

São todas vistas esquemáticas em que figuram edifícios convencionais, e que tinham por fim, como os desenhos, mostrar o seu respectivo local nos ditos mapas geográficos.

Da mesma época se conserva uma vista esquemática da cidade numas tapeçarias conhecidas por "Tapeçarias da tomada de Tunis" [tapeçarias ditas de Pastrana], que se guardam em Espanha.

É dos princípios do 2.° quartel do século XVI (1529) um quadro a óleo, sobre tábuas, que contém, como episódio de assunto religioso, o desembarque em Lisboa dos Santos Mártires (Veríssimo, Máxima e Júlia), a vista mais antiga dum edifício de Lisboa, o palácio real da Ribeira propriedade dum particular [do Museu Carlos Machado].

Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia, Desembarque em Lisboa, Garcia Fernandes.
Imagem: Museu Carlos Machado

Como pequenos trechos de edifícios de Lisboa, em pintura a óleo, há os portais das igrejas da Madre de Deus, num quadro (1509) que representa a chegada a este convento, das relíquias de Santa Auta, e da Sé, num painel que contém a representação de Santo António intercedendo para livrar o seu pai, da forca (2.a metade do século XVI). Estão ambos estes quadros em museus de Lisboa.

Mestre do Retábulo de Santa Auta, Chegada das Relíquias de Santa Auta (detalhe),
Cristovão de Figueiredo?, c. 1520, MNAA.
Imagem: do Porto e não só...

Afora as mencionadas, não se conhecem outras pinturas a óleo, com motivos da cidade, até aos princípios do século XVII.

O desenho em papel mais antigo que se conserva com assunto referente a Lisboa é o da batalha da ponte de Alcântara, 1580, que deve ter sido feito pouco depois do acontecimento que comemora. Está emoldurado num gabinete da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Batalha de Alcântara, 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Do princípio do século XVI datam as mais antigas vistas panorâmicas da cidade, que se conhecem já com um certo cunho artístico e característico de exactidão. Consistem elas em duas iluminuras em pergaminho, quase idênticas, guardadas em museus, que felizmente têm resistido ao estrago do tempo e à incúria dos homens.

A primeira dessas vistas panorâmicas encontra-se na "Chronica de D. Affonso Henriques", por Duarte Galvão (1505), códice manuscrito que pertenceu ao Conde de Castro Guimarães, mandado editar pelo mesmo conde em 1917, e deixado em testamento à Misericórdia de Cascais. Está no Museu Conde Castro de Guimarães, em Cascais.

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Imagem: Wikipédia

A segunda pertence a uma "História Genealógica da Casa Real de Portugal", iluminada por Simão Beninc [Simon Bening] (entre 1580 e l584), e que, tendo sido encontrada ou comprada em Portugal em 1842, foi adquirida depois pelo British Museum de Londres, onde se guarda.

Vista panorâmica de Lisboa, História Genealógica da Casa Real de Portugal, Simon Bening, entre 1580 e l584.
Imagem: British Museum

Acha-se reproduzida integralmente em fototipias, num album com o título "Ahnenreihen aus dem Stammbaum des Portugiesischen Königshauses", editado em Stuttgart por Julius Hoffmann, s/d..

Tanto a segunda como a primeira destas vistas têm sido reproduzidas modernamente em varias obras, e foram publicadas, em grande escala, num artigo do autor, inserto em Arqueologia e História (vol. V, 1928. pág. 101), acompanhadas dum texto descritivo.

Depois destas, a primeira vista panorâmica de Lisboa consta do livro "Da Fabrica que falece ha Çidade de Lysboa", por frãcisco dolãda [Da fábrica que falece à cidade de Lisboa, Francisco de Hollanda] (1571), estampa IV, desenho em papel. Este livro guarda-se na Biblioteca da Ajuda, e era pouco conhecido quando em 1879 foi publicado o texto, e depois, em 1929, o texto com as estampas.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

São numerosos os livros que até ao fim do século XVIII se publicaram no estrangeiro, ilustrados com vistas de cidades, de edifícios, e de trechos pitorescos de paisagens.

Mas, pelo que respeita ao nosso país, pode dizer-se que quase nada nele se fez a tal respeito, sendo por isso devida a estrangeiros, e não a nacionais, a divulgação da vista panorâmica e as de alguns edifícios da nossa capital sendo tais documentos gráficos os únicos que nos permitem ter conhecimento de algumas cousas desses remotos tempos, hoje desaparecidas. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"

sábado, 1 de novembro de 2014

Furiosa batalha

Trafaria, 1750

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Era uma tarde do ardente Junho, na era da era deste, quando já o rasante Zéfiro declinava os seus relevantes sopros com o grande incêndio dos caniculares que naquele dia deram cabal indício da sua breve chegada, tempo em que fazendo já o dia paroxismos e já do Sol os brilhantes raios, tremulando, se encaminhavam para o ocaso;

quando já as montanhosas aves, pondo termo aos seus harmoniosos cantos, só procuravam cuidadosas, entre os copados freixos os seus ninhos;

a esta hora, pois, quando as ondas do aprazível Tejo, com os mais sossegados movimentos se estendiam nas suas arenosas praias, aonde, desfazendo-se em cristalinas pérolas, se multiplicavam os brilhantes cristais, apareceu, em Travessia do Cabo Espinhel [Espichel], a bombordo da nossa barra de Lisboa, uma armada de embarcações do Algarve, que constava de três lanchas guarnecidas, cada uma delas, com bastantes algarvios, vinte e tantos chuços, dezoito bicheiros, nove facas flamengas, vinte e cinco navalhas de dez réis e setenta e tantos cachimbos, entre velhos e novos;

14
Cayque
Batiment pecheur de l'Algarve qui vient
souvent à Lisbone

e assim vinham preparados para o que pudesse suceder, pois esta gente do Algarve, como são ali confinantes com os Mouros, por isso todos são arrenegados e mais arrenegados vinham por ser no tempo do figo verde que quando lá não se passa, não podem eles passar; e por conta disso, saíram de suas terras jurando pelas almas dos capachos e pelas tripas dos atuns que haviam de sacar dinheiro, mas que roubassem algum.

Astérix le gaulois, Uderzo et Goscinny, Dargaud, 1961.
Imagem: BD Central

Vai senão quando vindo estes piratas do presente, por lhes faltar o contrato do passado, já dentro do nosso Tejo, tomando o rumo da parte colateral do Bugio, chegaram à frente daquela formosa terra da Trafaria, para donde se botam os lazarentos como os cavalos para o almargem, e subindo o gajeiro acima a descobrir terra, divisou por entre o colombo do nariz e a cabeça do cachimbo, a boiar, uns vultos no meio da água;

Torre do Bugio na Barra de Lisboa, João Pedroso, gravura
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e entendendo ser atum ou golfinho deu logo parte ao seu comandante, e mandou este que voltassem por estibordo e que fossem a provar a natureza daqueles monstros marinhos.

Entra logo toda a confraria a gritar uns com os outros com o maior desassossego nunca visto e, entendo ser empresa em que pudessem tirar os ventres de miséria, entraram a remar com toda a força e chegando aos ditos vultos, acharam-se engasgados com as bóias de uma rede que ali tinham botado os ditos Saveiros. 

Fizeram consulta entre si e votaram para que se levantasse a rede e saqueasse o peixe e tudo o mais que pusessem agadanhar para saciarem a desesperada fome das suas negregadas barrigas.

Porém, estando todos nesta diligência, sucedeu vir um dos Saveiros saindo da costa que fica ao sul da Trafaria, aonde adiantados bosques fabricou entre as margens do mesmo Tejo e recôncavos daquelas penhas uma celebrada enseada em que os ditos Saveiros vivem a maior parte do ano aquartelados em suas cabanas;

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e vendo este que ao redor da rede se divisavam três embarcações, supôs logo serem piratas e remando para trás com toda a força, foi logo dar parte aos companheiros que se achavam emboscados na dita enseada. 

Estes, que também não são moles pelo rústico modo de viver que têm à maneira de feras, sem conhecerem mais Deus que ao Deus Baco, nem terem outra lei que a da sua conveniência, desassossegados com o aviso, deram logo ordem, a toda a pressa, a botarem as suas embarcações ao mar; 

armando-se de cacheira, chuços, paus e facas se embarcaram valorosos, influindo neles não menos a arrogância de Baco que o valor de Marte e remando com inexplicável ligeireza chegaram a avistar as embarcações dos Algarvios que já a esse tempo tinham saqueado a rede com todo o peixe.

Transporte da sardinha na Trafaria, Joshua Benoliel, início do século XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Porém, como estes estavam cuidando no modo como haviam de meter o peixe na barriga, pouco se lembraram que era furto para a cautela de fugirem e, assim, chegando os Saveiros a tiro de cachamorra e certificando-se de que eles lhe tinham furtado a rede com todo o peixe, renovaram os incendiados ânimos e travando-se uns com os outros de bestiais razões, deram princípio à mais furiosa batalha que se tem visto cá nestes tempos.

Pois juntando-se os Saveiros, que eram sete, todos em fileira, fizeram cerco às três embarcações dos Algarvios e estes, vendo-se no meio, lançaram mãos aos chuços e travando-se a dura guerra de parte a parte, tão grande era o marcial estrépido junto com o furiosos alarido daquelas bárbaras e rústicas línguas que toda a gente da Trafaria saiu a campo, sem que ficasse velhas no canto da chaminé nem moça na porta da rua que não acudisse à praia, aonde se avistava o lugar da batalha;

20
Saveiro da Costa fig. A e do Tejo fig. B
Petits Batiments pêcheurs Ceux de la fig. A
pêchent hors du Tage

aqui já soavam as vozes de que tinham morrido cinco e dois que caíram ao mar afogados e trinta e tantos feridos de uma e outra parte, certificando-se a notícia com o sangue que era já tanto que chegava a tingir as brancas areias das cristalinas praias e qual outro Mar Vermelho apareceu o nosso Tejo nesta ocasião, que faltando já as forças a uns por feridos e as vidas a outros por mortos, metendo-se de permeio a obscuridade da noite, deram fim à batalha com grandes destroços de parte a parte.

E indo-se já recolhendo a justiça que teve notícia do sucesso, saltando-lhe ancas, prendeu tudo fora uns poucos que fugiram e, passando-se só alvará da soltura aos que ficaram mortos, levaram trinta e tantos para a Torre do Bugio e vinte e sete que se encontram no troco desta cidade.

H.M.S. Victory (?) na embocadura do Tejo, Thomas Buttersworth (1768 - 1842).
Imagem: Bonhams

Porque parte ficasse a vitória desta batalha não corre notícia certa e só se suspeita com certeza que esta passará por dez réis para a mão de qualquer curioso que Deus guarde para sustento dos cegos e amparo das tabernas. (1)

Astérix légionnaire, Uderzo et Goscinny, éd. Albert René, 1966.
Imagem: Ecole Edouard Vouagnat


(1) Guevarz, Francisco, Nova relação da batalha naval, que tiveram os algaravios com os saveiros nos mares, que confinão com o celebrado paiz da Trafaria, Catalumna, 1750.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Estradas Real 79, Distrital 156 e outras vias

[...] nenhum carreiro desta vila assim como do seu termo passe com o seu carro carregado, nem vazio pela calçada de Mutella e São Simão, salvo quando fizerem tão notaveis atolleiros que não possão hir por outra parte  [...]

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

[...] quem tiver vinhas e herdades que entestarem nos caminhos do concelho que fação as testadas dos seus valados e cortem os seus silvados e mattos de maneira que os caminhos sejam livres e dezempachados [...]

[...] os caminhos do concelho, e nos vallados das ditas havia muntos mattos silvados de maneira que tapão os caminhos e o sujão de maneira que não podem andar neles [...] (1)


A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A situação de Portugal nesta epocha [1807] era bem lastimosa; não havia estradas; o estado dos caminhos, em geral, mau ou pésssimo, tinha-se tornado perigoso pelo rigoroso inverno; chuvas copiosas, tresbordo de rios e ribeiras, grandes innundações haviam assolado o paiz, tornando difficil, penosa e arriscada a marcha das tropas; (2)

Carta militar das principaes estradas de Portugal (detalhe), Lourenço Homem da Cunha de Eça, 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 A cituação e a commodidade que offerece o porto de Cassilhas de toda a hora se encontrar maré, condição unica que não acha nos outros portos da margem esquerda do Tejo

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

fariam da Villa de Almada hum ponto mais interessante para a circulação do commércio interior do Alentejo do que Mouta ou mesmo Aldea Gallega, 

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa  (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

se as estradas fossem melhores, ou antes se houvessem estradas de comunicação, pois que passado o recinto da Villa, os caminhos para toda a parte são pessimos, não offerecem senão estorvo ao transporte, por serem antes trilhos do que estradas reais. (3)

Lisbonne son port, ses rades et ses environs avec une petite carte routière du Portugal (detalhe), 1833.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] no Diccionario Chorographico publicado em 1878, Agostinho Rodrigues de Andrade estabelece uma classificação das diferentes vias.

Assim, são de primeira ordem as estradas reais (de primeira e segunda classe), enquanto nas de segunda ordem inclui os caminhos municipais e vicinais.

No concelho de Almada este autor identifica estradas de segunda ordem que ligam a vila a Sesimbra à Trafaria e esta à Costa. 

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Já no Seixal, apenas refere a estrada que liga a povoação a Sesimbra passando pela Arrentela.

Companhia de laníficios da Arrentela, desenho Nogueira da Silva, gravura João Pedroso,  1858.
Referências: Lugares do concelho do Seixal, Restos de colecção 
Imagem: Hemeroteca Digital

Embora se concentre na freguesia de Caparica, a obra de Vieira Júnior, datada de 1897, refere diversas vias de comunicação, designando estradas reais e distritais. azinhagas e caminhos. sem no entanto as caracterizar.

Identifica como real a já referida estrada para a Trafaria, passando pelos lugares de Casas Velhas, Torrinha, Costas de Cão, Cova, Pêra e Valle de Meirinho.

Referindo as estradas distritais, o autor salienta a que atravessa a Chameca vinda do Arieiro como: "sendo esta o melhor lanço de estrada que existe em todo o concelho de AImada", de onde também parte a estrada para a Costa.

A caminho da Costa da Caparica, João José Penha Lopes, 1921.
Imagem:Arquivo Municipal de Lisboa

No lugar da Torre entroncam as estradas que conduzem a Almada, à Charneca, ao Porto Brandão e à Trafaria.

No vale da Sobreda passa, segundo o mesmo texto, um caminho que conduz à estrada real, passando em Casas Velhas. 

De Murfacém saem para a Trafaria "dois caminhos principaes, a estrada velha e o moderno accrescente da estrada districtal".

Por último, são ainda registadas duas azinhagas, uma "que do Salgado vae á Seixeira, Silveira, Urraca, e Ginjal (Monte), até ao Bicheiro pela estrada real" e outra "de Poçolos ao sitio das Casas Velhas, pelo caminho a da 'Formiga',  se volta ao 'Monte' propriamente dito". (4)


Em 1862, a rede de estradas existente e projectada é classificada em 1.ª classe, estradas reais (com origem directa ou indirecta — travessias fluviais p. ex. — em Lisboa), 2.ª classe, estradas distritais, e estradas municipais, estas últimas geridas pelos munícipios.


Estudo, construção, reparação e conservação das
estradas ordinárias, Escola do Exército, 1897 — 1898

Com a abolição da monarquia em 1910, as estradas Reais foram renomeadas estradas nacionais.


Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Em 1913, as estradas distritais foram também renomeadas estradas nacionais. (5)


(1) Posturas da Câmara Municipal de Almada, 1750, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(2) Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

(3) AHMOP, Memoria Económica da Vila d'Almada, e seu Termo, 1835, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(4) Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(5) Fonte: Wikipédia


Referências:

Andrade, Agostinho Rodrigues de, Dicionário corográfico do reino de Portugal, Coimbra, Imp. da Universidade, 1878, 254 págs.

Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.

domingo, 15 de junho de 2014

Fonte da Pipa e seu caminho

"A obra desta fonte e seu caminho, se fez por ordem de sua magestade, à custa do povo desta vila e seu termo, por tributo que se lhes impôs nos açougues desta vila e seu termo de três reis em cada arratel de carne para pagamento da dita obra na era de 1736".

Fonte da Pipa, construída em 1736.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Cais da Fonte da Pipa (Olho de Boi), gravura, Pierre Eugène Aubert, 1820.
Lisboa, vista tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Acordarão os ditos oficiais e homens bons que nenhum homem solteiro de qualquer estado e condição que seja, não esteja quedo na Fonte da Pipa nem passeie no caminho dela, sob pena de duzentos reis [de multa] e da cadeia, a metade para o Concelho, e a outra para quem acusar" [édito do Senado da Câmara, c. 1750].

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Digno feito de ser no mundo eterno
grande no tempo antigo e no moderno
Camões — canto 8, estrofe 35
C.M.A. 10-6-1880

Pedra de armas de D. João V.

Já se acha concluída a grande reparação da estrada da Fonte da Pipa: tendo a respectiva camara municipal d'Almada recebido para a mesma obra, no dia 17 de novembro ultimo dos srs. Domingos Affonso [Quinta da Arealva] 200$000 réis; E. Prince Son & Companhia 100$000 réis e Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [Quinta do Olho de Boi] 60$000 réis.

Almada, Miradouro do Jardim do Castelo, ed. Manil.
Imagem: Delcampe

Além destes donativos, os srs. Affondo e Price emprestaram desde o começo da obra até à sua conclusão, os seus carros, bois e trabalhadores para a remoção de terra e pedra para o concerto da estrada.

Reparação da estrada da Fonte da Pipa, 1882- 1883.

Fonte da Pipa — Almada, Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Cavalheiros como estes, honram sempre o munícipio a que pertencem, e as suas obras são dignas de ficarem registadas. (1)

Miradouro Boca do Vento, Olho de Boi e Fonte da Pipa, ed. Manil, 3010 D.
Imagem: Delcampe


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

domingo, 18 de maio de 2014

Alcipe

Marquesa d'Alorna, Franz Joseph Pitschmann, Viena, 1780
Imagem: Wikipédia

Tomando posse da sua casa, foi viver por algum tempo na Quinta de Almeirim, e n'outra em Almada, 

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

onde practicava toda a liberalidade e todo o bem que n'outro tempo fizera em Almeirim, soccorrendo agora dalli particularmente os habitantes pobres de Cassilhas, que por isso lhe chamavam a Màe de Cassilhas, demonstrando e agradecendo os benefícios que delia recebiam.

Muitas vezes dizia ella, que presava mais este titulo do que os outros que tinha, ou poderiam dar-lhe, porque deste lhe resultava maior gloria. (1)

O Tejo, que algum dia, se eu cantava,
Erguido sobre as ondas m'escutava,
Hoje nem se enternece,
E ao som dos meus gemidos adormece.

Escarpas na margem sul do Tejo.
O Pintor Eduardo Leite ladeado de duas crianças, João Alves de Sá, 1926
Imagem: Palácio do Correio Velho

"Na sua quinta d'Almeirim costumava meu pae residir uma grande parte do anno, especialmente no inverno, recreando-se com a Musica e a Poesia, a que era muito aífeiçoado; e quando se aproximavam os calores do Estio, passava á outra quinta d'AImada, onde se entretinha com a Astronomia, sciencia de que possuia não vulgares conhecimentos." (2)

Inflamma o peito com paixões sublimes:
Té que em fim, transportado e fervoroso,
Extático apercebe a Divindade;
E no mundo, feliz, os gostos prova
Que a angélicas essências só competem.

Estes sào os sagrados sentimentos
De tua alma elevada, ó Pae amado!
Teus pensamentos e paixões ditosas
Assim suavemente modificas.


D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750 - 1839), Marquesa de Alorna, conhecida como Alcipe nos meios literários, era filha de D. João de Almeida Portugal, conde de Assumar, e avó de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, Marquês de Fronteira.

[A Quinta do Conde era uma] quinta de grande dimensão localizada entre Almada e os Caranguejais, de limites mal conhecidos.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Em 1811 quando se construiu o reduto que teve o nome de Forte do Conde, o lugar da construção, perto da escola Frei Luís de Sousa, era terreno da Quinta do Conde.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

No mesmo lugar se construiu a parte de linha de defesa de Almada e Cacilhas que teve o nome de "frente da Quinta do Conde".

O conde em causa é um dos condes de Assumar, muito provavelmente D. João de Almeida Portugal [...] Provedor da Misericórdia entre 1796 e 1802.

Mais a Norte desta propriedade, contígua a casas e quintal da Misericórdia, na Rua Direita, existiu uma propriedade que no século XIX era designada por Quinta do Conde. 

Almada, Vista parcial, ed. J. Lemos, 31 (detalhe)

Esta quinta pertencia ao Marquês de Fronteira [...] (3)

Prédio Queimado, Tenda Moderna, Almada
Imagem: Delcampe, Oliveira


(1) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. I e II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(2) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. III e IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(n. do ed.) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. V e VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional: Biografia de Alcipe, Fundação das casas de Fronteira e Alorna