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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Luiz Gonzaga Pereira, Almada e o Tejo em 1809

Nasceu Luiz Gonzaga Pereira cm Lisboa, na Freguezia de S.to Estevão, em 21 de junho de 1796; era um dos trinta filhos de Joaquim Manoel Pereira, praça do regimento de Beça, onde prestou serviço até 1773, sendo nesse ano nomeado, por provisão régia, mestre da officina de aprestes de artilheria do Arsenal Real do Exercito, cargo que ocupou até 3 de março dc 1823, dia em que faleceu com 90 anos de idade, e 75 de serviço.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 27.
Montanha da Villa de Almada, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Casou em terceiras nupcias com Maria Barbara de Bulhões Diniz, de quem teve, entre outros filhos, Luiz Gonzaga Pereira.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 28.
Cacilhas, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Este casou em 1815 com Maria Antunes, de quem teve 12 filhos. Ainda muito novo já mostrava vocação para o desenho, como se vê pelos exemplares coligidos numa obra, a que adiante faremos referência, feitos com 13 anos de idade a bordo da náu Vasco da Gama, a qual fazia parte da esquadra do Estreito, que nos anos dc 1809 e 1810 cruzava nas aguas do sul de Hespanha e de Portugal, e do norte dc África [...]  (1)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

NAU VASCO DA GAMA (1792-1822)

Nau de 80 peças construída no Arsenal de Marinha por Torcato José Clavina e António José de Oliveira, foi lançada à água em 15 de Dezembro de 1792, juntamente com a fragata Ulisses e o brigue Palhaço.


Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 21.
Cabo da Roca, e Serra de Cintra, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

As suas dimensões eram de 55,20 metros de quilha, 14,55 de boca e 11,52 de pontal. Com urna guarnição de 663 homens, armava com 28 peças de calibre 36, 32 de 24e 16 de 12. Participou nas Esquadras do Canal de 1793 e 1794.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 24.
Torre do Bogio, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Ficou em Lisboa durante a ocupação francesa por não se encontrar ainda em condições de navegar quando da chegada dos franceses.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 25.
Trafaria, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A sua artilharia foi transferida para a Martim de Freitas. Durante a ocupação francesa serviu de de-pósito aos produtos e materiais saqueados pelos franceses, nomeadamente a prata das igrejas, conventos e capelas de Lisboa.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 23.
Torre de S. Jião, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Tomou parte nas Campanhas do Rio da Prata e de Montevideu em 1816. Ficou no Brasil depois da independência em 1822 [...]  (2)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 30.
[Mutela, Caramujo], Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Coligidos em um outro livro ou album, que tem por titulo "Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa".

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 31.
Alfeite, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Teve principio em 1809, o qual pertenceu ao sr, José Joaquim d'Ascenção Valdez, e hoje é do auctor desta noticia, encontram-se 130 desenhos, quasi todos aguarelados, dos quaes os 34 primeiros representam vistas de vazios sitios do Mediterraneo, das costas de Portugal, e da Bahia do Tejo até ao Barreiro (?); os 93 imediatos são vistas de aspectos de Lisboa, e de edifícios e locaes da cidade; e os 3 ultimos são copias de assumptos de Loanda. 

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 32.
Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

Pela numeração das estampas reconhece-se que o album está incompleto. Quando começou a fazer estes desenhos tinha Gonzaga Pereira 13 anos de edade [...] (3)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 33.
Bahia do Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


(1) Prefácio de A. Vieira da Silva, Monumentos Sacros de Lisboa em 1833...
(2) Revista da Armada n.° 413, novembro de 2007
(3) Prefácio de A. Vieira da Silva, idem

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (II de II)

Estamos em 1868, em Lisboa. A época não é das mais propícias ao florescimento das artes, o que ninguém deve estranhar, porquanto impera um gosto acentuadamente provincial nos costumes, nos trajos, no jornalismo, nos interiores das casas, no teatro, na literatura, em toda a vida citadina. 

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda, gravura, Nogueira da Silva, 1858.

Não interessa averiguar se este gosto é bom ou mau. Os vindouros que se deem, querendo, a esse trabalho crítico, aliás desprovido, quanto a nós, senão de significado, pelo menos de eficácia. O que dá encanto e razão de ser às modas e aos estilos de vida social, é justamente aquilo que melhor distingue as épocas umas das outras:  quase sempre; os traços mais exorbitantes, os pormenores mais caricatos. 

Quem sabe se no século XX, por exemplo (aí por 1946) as lisboetas elegantes não se atreverão a exibir uma indumentária mais aparentemente ridícula do que esta, em uso nos nossos salões e avenidas?... Todas as épocas têm os seus grotescos, as suas manias, os seus telhados de vidro. E é isso mesmo que lhes confere, meu caro leitor, nitidez, graça, distinção. 

Panorama n.° 30, 1946

Mas íamos dizendo que estamos em 1868  exactamente no dia 13 de Março. Como densa e escura núvem que de súbito cobrisse uma paisagem primaveril, acaba de espalhar-se pela cidade a notícia da morte de Nogueira da Silva. O leitor não ignora, decerto, de quem se trata, nem quanto o país fica devendo ao fino espírito, ao poderoso talento e à infatigável capacidade de trabalho do malogrado artista que esse nome usou:  nem mais nem menos do que centenas de admiráveis desenhos e gravuras em madeira.

Sim, muitas centenas! Paisagens, retratos, composições livres, ilustrações, caricaturas, cópias rigorosas (e quantas de inestimável valor documental!) de monumentos arquitectónicos, de esculturas, de peças de ourivesaria, de tábuas e azulejos dispersos pelo país - tudo atraía e impressionava a sensibilidade plástica de Nogueira da Silva, e era por ele interpretado ou transposto para o papel e a madeira com uma destreza inexcedível e uma graça inimitável.

Panorama n.° 30, 1946

Merecia a pena que alguém, algum dia, preenchesse os lazeres de umas férias com o benemérito labor de contar e classificar esses trabalhos, insertos na "Revista Popular", no "Jornal para rir", nas "Celebridades contemporâneas" e, principalmente, nos numerosos volumes do "Archivo pittoresco".

Claro está que nem todos os desenhos e gravuras do ilustrador das Obras completas de Nicolau Tolentino têm o mesmo interesse, a mesma altura.

Panorama n.° 30, 1946

Deve mesmo dizer-se, por respeito à verdade e à sua memória, que as produções de Nogueira da Silva são de irregularíssima qualidade. Nem todos os géneros se quadravam à sua vocação e ao seu temperamento. 

Na interpretação da figura, por exemplo (e particularmente no retrato) foi, por vezes, deplorável. No entanto, não era por gosto de contrariar-se nem por doentia atracção abísmica que o artista insistia nesse cultivo; - era, sem nenhuma dúvida, por mera necessidade, por obrigação profissional. 

Panorama n.° 30, 1946

Aqui temos um traço bem distinto da personalidade de Nogueira da Silva: num país em que são raros os artistas profissionais, e sobretudo na sua época, ele nada tinha de amador. Quem sabe, mesmo, se não terá sido o primeiro desenhista português verdadeiramente profissional  menos livre do que nenhum outro de satisfazer os imperativos do seu temperamento, mais vítima da fatalidade de ser "pau para toda a obra?"

A infelicidade obstinou-se em perseguir e ensombrar a sua estrela, que tinha brilho bastante para resplandecer no pardo firmamento da arte nacional. Quase não houve revez que não o afligisse, injustiça que não o ofendesse, miséria que não o ameaçasse.

Panorama n.° 30, 1946

Desde a incompreensão paterna à quase cegueira, desde a fome ao vexame de ser acusado de curandeiro, Nogueira da Silva conheceu e suportou, com um estoicismo exemplar, as maiores adversidades - inclusivê a de ter prestado as melhores provas num concurso para a regência da cadeira de Desenho da Escola Politécnica, e ficar aguardando ein vão (por razões que nunca se chegaram a apurar) a decisão do juri...

A arte venceu, mais uma vez, mas também mais uma vez saíu mal-ferida da batalha. As mutilações que sofreu esta forte e singular personalidade, são. bem notórias e confrangedoras. No entanto, cabe ao laborioso artista o mérito de ter reformado e desenvolvido, entre nós, a gravura em madeira, até então só apreciàvelmente cultivada por Manuel Maria Bordalo Pinheiro e José Maria Batista Coelho.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

É aí, repetimos, que se encontra o maior número de trabalhos de Nogueira da Silva, atestando, além da espantosa multiplicidade do seus recμrsos técnicos, a penetrante acuidade do seu espírito de observação e o afinado gosto do seu humorismo  virtudes às quais não foi estranha a influência dos mais famosos desenhadores e gravadores franceses contemporâneos, sobretudo de Gavarni. 

Panorama n.° 30, 1946

Como ilustrador, julgamos possível e justo que algum cronista do próximo século (aí por volta do ano de 1942...) afirme que o volume das Obras completas de Nicolau Tolentino é "uma das raras edições portuguesas do século XIX que, não sendo classificável como livro de arte  por excesso de tiragem e modéstia de materiais  é, todavia, um espécime perfeito de livro ilustrado. Pois onde se vê, como nele, uma harmonia tão grande entre o espírito do autor e dp ilustrador da sua obra?" 

— "Nogueira da: Silva não ilustrou mais nenhum livro. Sete anos depois, morreu. Faz de conta que tivemos dezenas de Nogueiras da Silva. Vale lá a pena recordar o seu nome?"


Panorama n.° 30, 1946

Como caricaturista, Francisco Augusto (iamo-nos esquecendo de dizer que eram estes os seus prenomes) foi dos mais engraçados que desde sempre se contam na história da arte nacional. O "D. Quichote" do século XIX e muitas das caricaturas que publicou  acompanhadas de biografias, crónicas e legendas humorísticas da sua autoria  nas "Celebridades contemporâneas", no "Jornal para rir", no "Archivo pittoresco" e noutros periódicos da época, deram brado e fizeram escola. 

A ironia do seu traço, apontada aos ridículos da baixa burguesia, aos narizes-de-cera, às vaidades balofas, era por vezes contundente, mas nunca grosseiramente ofensiva. É que o seu humor provinha menos de ressentimentos, do que de uma visão mais evoluída, ·mais urbana dos homens e das coisas.

Panorama n.° 30, 1946

Nogueira da Silva foi um artista da cidade. Por isso lhe repugnava, mais do que tudo, o "arrivismo", o recem-chegadismo provinciano. E afinal, feitas bem as contas, talvez tenha sido essa pecha da vida portuguesa — tão evidentemente acentuada no seu tempo — a causa fundamental das suas vicissitudes.


(Conforme com o original).

CARLOS QUEIROZ (1)


(1) Panorama n.° 30, 1946

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (I de II)

Fica esta villa fronteira á cidade de Lislooa na outra margem do Tejo. São duas irmãs apartadas que folgam de se estar vendo, assentadas no alto uma e outra e ambas namoradas dos navios que vêm de todo o mundo, rio acima, lançar ferro por entre ellas.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Lisboa, a morgada, não tem mais escondida, em sombra e fabulas a sua origem, de que. Almada a sua. 

Sôa porém, e se crê, haver esta sido fundada imoles inglezes de Guilherme de Longa-espada, do quem D. Afonso. Henriques se ajudou no arrancar Lisboa oro mouros; e que nome de Amada lhe ficara por corrupção de Vimadel; que na linguagem de então significava povoado grande; nome que da terra se pegou a um nobre seu morador, de quem descende, ao que rezam genealogicos, a esclarecida familia dos Almadas; ainda que outros querem que Almada se appellidasse o sitio, por ser esse. ou com esse parecido, o nume de um arabe (Almades ou Almadão) que alli dominava. 

Conjectura-se todavia que a primeira fundação do logar fôra muito mais antiga, existindo já elle em tempo dos romanos dos romanos com a denominação Caetobrix ou Caetobrica. 

Em nossos dias, na guerra civil em que se pleitearam e sentenciaram a final os direitos da dinastia representou Almada e Cacilhas, que sob dois nomes são uma e mesma povoação, um papel que a historia, seja quem for que a escrever, ha de sempre qualificar por guapamente heroico: d'alai arrancou vôo de águia sobre Lisboa o duque da Terceira, coroando-se com a mais brilhante fortuna a temeridade mais inaudita. 

Ares puros, aguas doces e salubres, abundância de todo o necessario, prospectos infindos terras e mar, tornam Almada sitio mui cobiçado para saude e para regalo, é para as calmas do verão um suplemento de Cintra, se o póde haver, e com duas vantagens: a da economia e da facil e continuada comunicação com Lisboa, por via dos vapores que sem descanso, vão e vêm.

Possue também a sua gloria literária: alli nasceu, viveu, se finou, e jaz sepultado o nosso poeta latino Diogo de Paiva de Andrade. (1)


(1) Archivo Pittoresco n.° 37, 1859

sábado, 7 de setembro de 2019

Chafariz de Cacilhas (os festejos da inauguração)

Foi no domingo dia de grandes festejos em Cacilhas. Logo de manhã começaram a subir ao ar muitos foguetes annunciando a costumada festividade religiosa, e tambem a inauguração do excellente chafariz que a camara municipal mandou construir n'aquelle local.

Chafariz de Cacilhas, inaugurado em 1 novembro 1874.
Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 11 horas da manhã sairam dos paços do concelho a camara municipal, que se compunha do sr. presidente Bernardo Francisco da Costa, dos srs. vereadores Antonio de Brito, e Salvador Duarte, escrivão e todos os seus empregados; acompanhavam tambem a camara o sr. Palmeirim, administrador do concelho, o seu escrivão e empregados da administrado, além das diferentes auctoridades, e cavalheiros da terra indo á frente de todos uma excelente philarmonica.

Banda da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, 1894-1896.
InfoGestNet

Chegados a Cacilhas e junto do chafariz, onde se haviam collocado uma meza e cadeiras, estava o sr. engenheiro director o sr. Carlos Agostinho da Costa, soltando a agua e fazendo-a correr pelas quatro torneiras, e fez entrega á camara da obra que lhe havia sido incumbida, lavrando-se em seguida o auto de inauguração, que foi assignado pelas auctoridades e por muitos funccionarios que se achavam presentes, entre os quaes vimos o sr. commendador Holbeche, conservador Quaresma, dr. Loureiro, Manuel de Jesus Coelho, Madureira Chaves, Chichorro da Costa, etc.

As damas mais elegantes de Almada tambem concorreram a embellesar este acto com a sua presença. 

Nas janellas das casas em ter-no do chafariz viam-se magnificas toilettes. 

Encerrado o auto o sr. presidente leu em voz alta a seguinte saudação que foi acolhida com acalorados vivas: 

Retrato de Bernardo Francisco da Costa
Galeria dos Goeses Ilustres

Salve, ó fonte amiga! Manem fecundas e perennaes tuas aguas puras e cristalinas. Nunca tuas forças cancem; nunca teu curso sereno esmoreça; nunca teu doce murmurio cesse.

Salve, ó fonte amiga! A aurora, que hoje esplendida te raia, seja a luz suave que sempre teus dias innocentes doire. Se nas salsas aguas do mar peregrina perdida andavas; se entre os limos do visinho rio teus ricos encantos se iam sumidos; se assim aviltada em lamentavel olvido por seculos se contava esse teu viver mesquinho; por seculos se contém tambem, d'ora avante, teus dias alegres e formosos.

Salve, ó fonte amiga! Tres vezes salve! Mil distantes metros percorrendo risonha vens até ás nossas moradas? Mil vezes bem vinda sejas. Milhares de vezes tuas limpidas aguas possam nossos labios libar. Por milhões valham teus gratos serviços. 

Vem, ó mimosa fonte, ser nossa companheira quotidiana, presidir á hygiene publica, extinguir os incendios. Vem ó fonte meiga, entra sempre copiosa assim na modesta cabana do pobre, como nos amplos salões do rico. Desde muito anciosamonte desejada, a despeito de larga descrença nascida, entre labores arduos creada, com merecida alacridade recebida; vem ó filha deste povo, entre nós e para nós viver.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Delcampe

Não te desvaneças porém de seres hoje a unica, que amanhã novas irmãs comtigo á partilha virão. Nem então d'ellas inveja deves ter porque sempre a primogenita has de ser. Nem tão pouco te pése o seres obra modesta e não faustosa, pois sabes que no mundo tudo é relativo, e que por muitos d'aqueiles, que podem apreciar as condições difficeis d'este concelho, foste reputada de fundação quasi impossivel.

Ouves essas harmonias? Escutas essas philarmonica? Sentes o atroar estridente dos foguetes? Observas as bandeiras e galhardetes que as ruas enfeitam? Contemplas gostosa tantas damas lindas, tantos cavalheiros elegantes, que todos risonhos se apinham em torno de ti. Apraz-te este numeroso e alegre concurso? Embevece-te o prazer phrenetico e ruidoso que te circunda? É a tua recepção festival, é o enthusiasmo por um dos muitos melhoramentos de que esta terra carece, e a que justamente o povo aspira.

Anima-o, ó fonte fagueira, para que na larga, se bem que custosa, vereda de creações uteis e produclivas prosiga corajoso. Fortalece-o para que novas victorias nestas lutas incruentas das artes da paz alcance glorioso; para que na marcha encetada não suspenda o passo; para que com outros e mais avantajados beneficios dote este concelho; para que rompa novas vias de communicação e aperfeiçoe as antigas; para que, em uma palavra, a seus obreiros conceda recursos e cooperação.

É pois que tu, ó recemvinda, me dizes que te anima profunda gratidão a este bom povo, por haver quebrado o encanto da tua mofina existencia passada — ao concelho deste districto porque prestes deu todo o superior apoio para a tua regeneraçao — á camara e conselho municipal, que se empenharam até levar a cabo a tua emancipação ao joven architeeto, que com dedicação inexcedível construiu o teu elegante berço e aos proprietarios do Ginjal, Covalinho e Cacilhas que benevolamente coadjuvaram os trabalhos; concede-me o doce encargo de teu interprete e permitte que em teu nome eu diga:

Vivam os habitantes do concelho de Almada. 

Viva o conselho do districto de Lisboa. 

Vivam a camara e o conselho municipal de Almada.

Vivam todos aquelles que cooperaram para se levar a effeito esta obra.

Cacilhas 1 de novembro de 1874.

Seguia-se a ceremonia religiosa que todos os annos se faz, n'este dia, em Cacilhas, em cumprimento de um voto feito por occasião do terramoto de 1755. 

A imagem da Nossa Senhora do Bom Successo, conduzida em procissão pela sua irmandade, vem até á beira mar, pára ali, todos ajoelham, e resa-se um antiphona: é um acto edificante e de muito respeito. 

Cacilhas, imagem da Nossa Senhora do Bom Sucesso em procissão.

Na procissão ia o Santissimo, levado pelo reverendo padre João Pereira Netto, que depois cantou á missa, orando ao Evangelho o reverendo conego Antonio José Pereira. Tanto a festa como o sermão foram rnagnificos.

A todos estes actos seguiu-se um opiparo lunch ao Ginjal em casa do sr. engenheiro Costa, para oque tinha convidado muitos dos seus amigos, e posto que não assistissimos, por motivos superiores aos nossos desejos, com, tudo, bem informados, sabemos que não deixou nada a desejar. O sr. Costa e a sua familia obsequiaram o mais possivel os seus convivas.

Á noite deu sr. presidente da camara um baile esplendido ás pessoas das suas relações, tendo-lhe prestado para esse fim a sua casa o seu intimo amigo o sr. Isidoro Netto, por ser mais espaçosa do que a de s. ex.ª. Tudo foi deslumbrante n'esta reunião de pesssoas de amisade, primeiro que tudo a amabilidade dos donos da casa, depois a animação do baile, a profusao do serviço; em fim não ha phrases com que se descreva o que ali se passou. 

Vista da Praça do Comércio, rio Tejo e Cacilhas na Outra banda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
  Biblioteca Nacional de Portugal

O baile terminou ás 6 horas da manhã. As toilettes eram em geral de muito gosto. A ex.ª sr.ª D. Luiza Costa tinha um lindo vestido de faie azul claro enfeitado de ramos de flores; — da mesma côr vestia a ex.ª sr.ª  D. Amelia Affonso com toda a elegancia propria da sua ingenuidade; a ex.ª sr.ª D. Amalia Tavares vestia de veludo preto por estar de luto, era rico o seu vestuario; — sua irmã a ex.ª sr.ª   D. Henriqueta Tavares Marques tambem vestia de damasco preto, uma rica toitette; a ex.ª sr.ª   D. Maria José Collares trajava um rico vestido de setim côr de rosa, com enfeitos pretos; — da mesma cõr em damasco, com enfeites brancos, e rendas de França era a toitette da ex.ª sr.ª   D. Izabel Affonso: emfim todas as senhoras estavam elegantissimas. — Foi um baile esplendido na verdadeira significação da palavra. (1)


(1) Diario Illustrado, 3 de novembro de 1874

Artigo relacionado:
Chafariz de Cacilhas

domingo, 29 de abril de 2018

Lisboa, vista de Almada (c. 1830)

Oposta a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, e dali para o mar. Desta elevada posição, temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o norte, toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas e formando um bordado brilhante para o Tejo. 

Lisbon from Almada (detalhe), Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o oeste, esse nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, fluindo para o Oceano Atlântico, entre as torres distantes de S. Julião e do Bugio. 

Para o leste, o rio espraia-se num vasto estuário, delimitado por um longo trecho de terras baixas. 

Para o sul, as alturas de Almada descem para um vale coberto de vinhas, atrás do qual há uma subida gradual de colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é delimitado pela cordilheira montanhosa da serra da Arrábida, tendo a notável rocha de Palmella, coroada pelo castelo em direcção ao leste, e o distante castelo mouro de Cezimbra em direção ao oeste.

Na vista que acompanha, o espectador é supostor olhar o rio, na direção nordeste. Parte de Lisboa ocupa a esquerda da cena. O Convento da Penha de França fica na colina mais distante desse lado. Um pouco à direita, na colina adjacente, fica a Capela de Nossa Senhora da Monte.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O castelo é visto a cobrir a colina ainda mais à direita; e as torres da Igreja de São Vicente, o lugar fúnebre dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto do extremo da cidade.

Em linha com as torres de São Vicente, mas mais perto do espectador, estão as velhas torres castanhas da catedral; e à sua frente, perto do Tejo, estão os edifícios que encerram a Praça do Comércio: estes, com a Alfândega, o Arsenal Naval e o Cais de Sodré formam um imponente conjunto de edifícios.

Numerosos navios estão espalhados na ampla bacia do Tejo; o todo, combinado com a ousada e precipitada altura de Almada no primeiro plano, formam uma impressionante e interessante paisagem. (1)


(1) Robert Batty, Select Views of some of the Principal Cities of Europe, London, ..., 1832

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX
Originais de Robert Batty

Mais informação:
Dictionary of painters and engravers, biographical and critical...
Robert Batty

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ilustrações de Finden à vida e obra de Byron

Pensou-se desejável fazer num volume, os primeiros oito números destas ilustrações de Lord Byron (1788-1824), em paisagem e retrato, para organizá-las de uma forma menos inconstante do que foi a ordem da sua publicação, e acompanhar as estampas com informação, de autores eminentes e de fontes originais, sobre os temas das gravuras.

Lord Byron (1788-1824) por Thomas Phillips, 1813.
Imagem: Wikipedia

O primeiro volume é assim apresentado ao público de uma forma completa; e os sucessivos oito números do trabalho serão, após a sua publicação, adaptados do mesmo modo,  formando assim um elegante acessório para a mesa de sala e para a biblioteca de obras ilustradas [...]

--ooOoo--

BELEM CASTLE, LISBON

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A.
[Associate of the Royal Academy]


Belem Castle, Drawn by C. Stanfield, Engraved by E. Finden.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
On, on the vessel flies, the land is gone,
And winds are rude in Biscay's sleepless bay.
Four days are sped, but with the fifth, anon,
New shores descried make every bosom gay;
And Cintra's mountain greets them on their way,
And Tagus dashing onwards to the deep,
His fabled golden tribute bent to pay;
And soon on board the Lusian pilots leap,
And steer 'twixt fertile shores, where yet few rustics reap.

Childe Harold, canto i. St. 14.
[...] Saímos agora da Torre de Belém, onde um escritório é mantido para o registo de todos os navios que entram e saem do Tejo; assim como num estabelecimento de oficiais de alfândega, oficiais de saúde, e um deepartamento de policia naval, para a proteção da propriedade, e a defesa da passagem.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Mr. Hobhouse, numa nota às linhas de Lord Byron "Escrito depois de nadar a partir Sestos a Abydos", diz, "Meu companheiro antes tinha feito uma travessia mais perigosa, mas menos célebre; lembro-me de que, quando estávamos em Portugal, ele nadou desde Lisboa velha até à Torre de Belém; e mesmo tendo que lutar com a maré,  a contra-corrente e o vento fresco, demorou pouco menos de duas horas a travessia".

LISBON, FROM FORT ALMADA

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A. a partir de um Esboço de W. Page.


Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: Cesar Ojeda
What beauties doth Lisboa first unfold!
Her image floating on that noble tide,
Which poets vainly pave with sands of gold,
But now whereon a thousand keels did ride
Of mighty strength, since Albion was allied,
And to the Lusians did her aid afford:
A nation swoln with ignorance and pride,
Who lick, yet loathe, the hand that waves the sword,
To save them from the wrath of Gaul's unsparing lord.

But whoso entereth within this town,
That sheening for celestial seems to be,
Disconsolate will wander up and down
'Mid many things unsightly to strange ee;
For hut and palace shew like filthily,
The dingy denizens are reared in dirt;
No personage of high or mean degree
Doth care for cleanness of surtout or shirt,
Though shent with Egypt's plague, unkempt, unwashed, unhurt.

Childe Harold, canto i. st. 16, 17.
É difícil encontrar um único autor que tenha escrito sobre Lisboa, sem perceber que, quando quase esgotou os termos de panegírico sobre a sua bela localização e gloriosa aparência, traz instantaneamente, em contraste com estes, a linguagem do desprezo e repugnância à imundície e abominações desta pior que pintada sepultura.

"Quando entrámos Lisboa no ano passado, após a convenção de Cintra, pelas estradas que a ela levam a partir do Vimeiro" diz o coronel Leach, no seu "Rough Sketches of the Life of an Old Soldier...", "não tinhamos, até agora, uma oportunidade de julgar de sua aparência a partir do Tejo. As casas de campo e conventos ao lado das mais pitorescas colinas, densamente plantadas com vinhas; a legião de moinhos de vento perto de Belém; e, finalmente, a cidade em si, formam juntos uma imagem encantadora, que qualquer tentativa minha para lhes fazer justiça deve inevitavelmente falhar por completo. Além disso, de Lisboa e o seu rio têm sido muitas vezes descritos por penas muito mais capazes [...]"

No meio de tudo isso, no entanto, Lord Byron mostra-se, por escrito ao Sr. Hodgson de Lisboa, num dos seus mais alegres estados de espírito, diz ele: 

"Estou aqui muito feliz, porque gosto de laranjas, e falar mau latim com os monges, que o compreendem, como se fosse o seu próprio; e vou para a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado no Tejo que atravesso de uma vez, e passeio de burro ou mula, e digo palavrões em português, e tive uma diarreia e picadas dos mosquitos; mas o que é isso? o conforto não deve ser esperado por pessoas que vão a prazeres."

Da cena específica, que constitui o objecto da estampa em anexo, a melhor descrição é encontrada a acompanhar a vista do coronel Batty tomada quase do mesmo local, na sua obra "Select Views of the Cities of Europe", — Lisbon, from Almada.

"Em frente a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias, que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, a partir daí para o mar. A partir desta posição elevada temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável."

"Para norte toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas, e formando uma borda brilhante para o Tejo. Para o oeste, o nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, e fluindo para o oceano Atlântico oceano, entre as torres distantes de St. Julian e de Bugio; e para este o rio espalha-se num vasto estuário, delimitada por uma longa extensão de terra."

"Para sul os outeiros de Almada inclinam-se para um vale coberto de vinhedos, atrás do qual há uma subida gradual com colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é limitado pela cadeia montanhosa da Serra d'Arrábida, tendo a notável montanha coroada com o castelo de Palmela para este, e o castelo mouro distante de Cezimbra em direção a oeste."

"Na vista em anexo, o espectador é suposto estar a olhar para montante do rio, na direção noroeste."

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

"Parte de Lisboa ocupa o lado esquerdo da cena. O convento da Penha de Franca fica na colina mais distante nesse lado. Um pouco à direita, na colina ao lado, é a capela de Nossa Senhora da Monte. O castelo é visto cobrindo o morro ainda mais para a direita; e as torres da igreja de São Vicente, o local de enterro dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto da extremidade da cidade." 

"Em linha com as torres de São Vicente, mas mais próximo do espectador, são as velhas torres castanhas da catedral [sé]; e à sua frente, perto para o Tejo, são os edifícios que cercam a Praça do Commercio: estes, com a Alfandega, o arsenal naval, e o Caes de Sodré, formam juntos uma gama imponente de edifícios. Numeros navios estão espalhados sobre a ampla bacia do Tejo;"

"o todo, combinado com a alta e precipitada falésia de Almada, em primeiro plano, formam uma interessante e impressionante paisagem".

CINTRA

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A. a partir de um Esboço de Capt. Elliot.


Cintra, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by Captain Elliot, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: ANTIQBOOK
Lo! Cintra's glorious Eden intervenes
In variegated maze of mount and glen.
Ah me ! what hand can pencil guide, or pen,
To follow half on which the eye dilates
Through views more dazzling unto mortal ken
Than those whereof such things the bard relates,
Who to the awe-struck world unlock'd Elysium's gates?

The horrid crags by toppling convent crown'd,
The cork-trees hoar that clothe the shaggy steep,
The mountain moss by scorching skies imbrown'd,
The sunken glen whose sunless shrubs must weep,
The tender azure of the unruffled deep,
The orange tints that gild the greenest bough,
The torrents that from cliff to valley leap,
The vine on high, the willow-branch below,
Mix'd in one mighty scene, with varied beauty glow.

Childe Harold, canto i. st. 18, 19.

MAFRA

Desenhado por D. Roberts a partir de um Esboço de C. Landseer.


Mafra, Drawn by D. Roberts from a Sketch by C. Landseer, Engraved by E. Finden.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Yet Mafra shall one moment claim delay,
Where dwelt of yore the Lusians' luckless queen;
And church and court did mingle their array,
And mass and revel were alternate seen
Lordlings and freres ill-sorted fry I ween!
But here the Babylonian whore hath built
A dome, where flaunts she in such glorious sheen,
That men forget the blood that she hath spilt,
And bow the knee to pomp that loves to varnish guilt.

Childe Harold, canto i. st. 29.


(1) William Brockedon (1787-1854), Edward Francis Finden (1791-1857), William Finden (1787-1852), Finden's illustrations of the life and works of Lord Byron, Vol. I, London, J. Murray, 1833

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX

Castelo de imagens e fantasia

Informação adicional:
D. G. Dalgado, Lord Byron's Childe Harold's pilgrimage to Portugal, Lisboa, Imprensa nacional, 1919
Flickr

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Se coras, não conto

Chapelle anglaise à Lisbonne, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo innocente:
Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?


Palais d'Ajuda, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não córes, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvídas, verás como é lindo
O sonho innocente do meu coração:

Quai de Sodre, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Eu via em teus labios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.


Palais de Necessidades, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

E tu não fallavas, mas eu entendia;
E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minh'alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.


Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
O resto eu te conto; como has de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvil-o não has de córar.


Vue de S. Pedro d`Alcantara, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois apertando teu corpo flexivel,
Cingindo teu collo no braço a tremer,
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.

Promenade Publique, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-te, só pude sentil-a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores,
Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Place du Commerce prise du Tage, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.

Interieur de l`Eglise de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Tour de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho innocente do meu coração. (1)



(1) Bulhão Pato, janeiro de 1847