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quinta-feira, 31 de março de 2016

História de uma burra

Ouvimos contar o caso, e vamos confial-o á letra redonda para que d'elle se não perca a memoria.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tinha tido o porte airoso, as veias de uma transparência aristocrática, o olhar de uma suavidade indizível. Comera pouco, como esses entes quasi ideaes que pisam as alcatifas avelludadas das salas sem as acamar, e não haveria sido uma intrusa na verídica narrativa de uma reunião do "high-life".

Tinha dezeseis annos, a idade florente dos sonhos, dos desejos, dos caprichos para todas as do mesmo sexo, mas não da mesma raça... A protogonista da nossa historia é uma burra!

Dezeseis annos são na mulher a idade da walsa, das confidencias, das meias revelações. Na raça asinina são o desconsolo, a tristeza, a velhice, com todos os seus desencantamentos.

A protogonista da nossa historia nasceu na Trafaria, e pertencia, ou pertence... N'esta duvida entre o passado e o presente é que vai envolvido o mysterio de que tiramos esta verídica narrativa.

Ha na Trafaria um homem chamado Roberto, directo senhor de uma vacca, de meia dúzia de cabras, e de uns torrões pouco productivos, como quasi todos os que ficam ao sopé do monte de Caparica, antigo solar do snr. marquez de Vallada, denunciado ainda hoje ao vulgo por dous palácios em completas ruinas, como convém á velha fidalguia de sangue.

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O Roberto é um homem de cincoenta e tantos annos, que faz pela vida, que deita a pé seis léguas, ou mais se lhe forem precisas para o seu trafego, mas que precisa de um animal seguro de pernas, e de pouco alimento, que o aligeire das cargas mais pesadas quando tem de deitar até Cacilhas, ou levar a sua cara-metade ao cyrio de Nossa Senhora do Cabo.

Previdente como um labutador consciencioso, o Roberto comprou uma burra em 1868, quasi nas vésperas do snr. bispo de Vizeu trocar temporáriamente o báculo pela presidência do conselho de ministros.

Bispo de Vizeu, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A Janota, assim se chama a burra, tinha já então sete annos, e não se podia gabar de haver levado boa vida nas mãos de um moleiro, que lhe amolgava diariamente o espinhaço com três ou quatro saccas de farinha, aproveitando-lhe o préstimo nas horas vagas, carregando-a com pyramidaes cargas de tojo.

Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

Apesar de todos os pezares, a jumenta era jovial, e aparentada, no dizer dos entendedores de genealogias, com o feliz quadrúpede que o príncipe de Galles comprou em Cintra, para levar para Inglaterra, como um specimen dos productos naturaes da terra dos seus fieis alliados, receando que não lhe chegassem frescas a Londres as queijadas da Sapa.

Podem os bons exemplos deixar de ter imitadores, mas ainda não houve absurdo governativo que deixasse de fazer proselytos. A fúria das economias andava então no ar como o pó, e o Roberto que se não pôde gabar de ter um engenho original, deitou-se a imitar o programma do snr. bispo de Vizeu, pondo a burra a meia ração, como o illustre prelado fizera aos empregados públicos!

As consequências d'este systema económico não tardaram a chegar. A burra que nunca fizera cara ao trabalho, que não exigia mesmo gratificação de palhada para dar conta de qualquer missão espinhosa, começou a definhar de dia para dia, a olhar indifferente para a vacca que girava como ella debaixo da mesma firma commercial, até que deixou pender a cabeça sobre a manjedoura, na altitude resignada de uma beata que adormeceu a rezar o terço.

Era uma victima do orçamento particular do dono. Uma consócia insciente dos planos financeiros da época.

A instrucção publica: a grande burra, Raphael Bordallo Pinheiro, A Parodia, n.° 53, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

Agora vai começar a parte sentimental d'esta historia. Que pensa o leitor que fez Roberto ao seu braço direito, á burra que tinha incontestável direito a ser aposentada com a ração por inteiro, e a passar os últimos dias da vida, não digo cavaqueando na botica do bairro, com um empregado publico aposentado, mas retouçando livre da albarda a rara verdura que esmeralda o caminho da Sobreda?

Zé Povinho, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mandou-a deitar á margem!

Á margem! São duas palavras só, mas significam o inferno e a eternidade, como de um bipede seu cliente disse o visconde de Castilho, na sua immortal epistola á imperatriz do Brazil.

Á sentença seguiu-se a execução. A burra, a Janota, a intrépida caminheira, a paciente carregadora, foi levada de corda ao pescoço até os juncaes, e lá abandonada ao seu destino, para meditar, se o soubesse fazer, na injustiça dos homens, e na instabilidade da fortuna.

O que são os juncaes? Perguntai-o a Bulhão Pato, ao intrépido caçador, ao apaixonado pelas grandezas da natureza, mesmo nas suas mais agrestes manifestações; ao poeta, que por amar as boninas não deixa de bemquerer ao rosmaninho, nem de se affeiçoar ao sargaço que orla os trilhos tortuosos que conduzem ao topo das encostas escabrosas.

Bulhão Pato, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os juncaes são, a palavra o está dizendo, um terreno húmido e encharcado, tendo por docel um céo esplendido, e por usuaes povoadores inhospitos coelhos, espertas codornizes, rastejadoras perdizes, e, fendendo os ares em desencontrados rumos, espavoridas gaivotas, e ruidosas aves de rapina.

Os juncaes, que nascem e crescem onde as demais plantas degeneram e morrem, acoutam no intrincado labyrintho das suas emmaranhadas raizes os coelhos e as perdizes que o meu amigo Bulhão Pato desaloja dos seus tranquillos coutos, para os ferir de morte na carreira, ou as fazer desabar das alturas, até o desenvolto perdigueiro as ir topar adormecidas na alfombra, para não mais acordarem.

Foi, como dissemos, nos juncaes que a Janota foi abandonada ás vicissitudes da vida errante, ás intempéries das estações, ao desconsolo da solidão, ás misérias do isolamento!

Mas a Providencia é a mãi pródiga dos desvalidos, e reveste as formas que mais lhe apraz para valer á mais humilde das suas creaturas. Havia quasi uma semana que a Janota divagava por entre os juncaes, aspirando as brizas marinhas, e retemperando os pulmões com os perfumes agrestes do trevo e da margacinha, quando em um sabbado, por isso chamam aos sabbados de Nossa Senhora, a Providencia, representada por José Ghumeco, foi topar com a burra dormindo a sesta, com a tranquilhdade de um justo, zurrando por entre sonhos a palavra perdão.

Confesso que sou amigo do Ghumeco, mas não falsearei a minha historia com episódios que eu nâo haja apurado da tradição oral confrontada depois conscienciosamente com os factos subsequentes, que recommendam o nosso homem á benevolência da sociedade protectora dos animaes.

José Ghumeco é um maritimo, nado e creado ná Trafaria, que se sente mais á vontade empunhando um remo, colhendo uma vela, retorcendo um cabo deitando uma rede, conjecturando os ventos, prognosticando temporaes, do que muitos ministros com as pastas, e muitos poetas com a idéa nova.

Trafaria, Vista da Praia, ed. Manuel Henriques, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O vocabulário do Ghumeco é um vocabulário excepcional, pitoresco, novo, abundante. A alma anda-lhe lavada de ruins paixões. Aprendeu com o mar a serenar logo depois da tempestade. Se lhe escapa uma ruim palavra, conhece que o vento lhe veio de travessia, e põe-se á capa. É pai de uns poucos de mocetões que parece terem sido inventados para o mar, e casado com uma santa mulher que o remenda, e lhe diz quando as ondas não estão para graças:

— Ó homem! se eu fosse a ti não me mettia a tentar a Deus!

A que o Ghumeco responde invariavelmente:

— Á conta de quem pôde, é que a gente anda cá n'este mundo!

Era um sabbado, por signal a 23 de janeiro de 1877, ia o nosso homem para a costa, ver colher uma d'aquellas redes colossaes que trazem á terra dúzias de contos de reis em sardinha, quando, ao passar pelos juncaes, estacou ao ver a Janota que se espreguiçava vergando as pernas com o esforço que fazia para tomar conhecimento de si, com o pello hirto e aguado, denuncia muda da sua involuntária vadiagem.

O Ghumeco chamou-a. O instincto, que nos animaes presta para mais do que o raciocinio em alguns homens, disse a Janota que era chegado o termo dos seus males. Encabritando-se, como nos tempos felizes em que a cevada a estimulava ás caminhadas que a tradição ainda hoje commemora, e despedindo dous alegres couces, prenuncio dos mais que havia despedir pelo correr dos tempos, aproximou-se do Robinson que a chamava, attrahindo-a com a engenhosa bonhomia de um missionário, e a rude franqueza do homem do mar.

Novos horisontes se vão rasgar agora para a invalida que o dono não soubera apreciar recorrendo aos segredos das hervas medicinaes, ou coníiando-a á sciencia de um ferrador, perito no tratamento das pneumonias agudas.

A primeira quarta de cevada que a Janota viu diante de si em improvisada manjadoura de vime, foi como um convite á vida alegre e folgazã de outros tempos. A palhada, adubada de semea fina, produziu na organisação robusta da Janota melhor effeito que a "Revalescière du Barry", nos temperamentos lymphaticos das filhas de um portuguez recambiado de Pernambuco pela sociabilidade dos naturaes da terra.

No fim de um mez a burra afoutou-se a poder com a albarda para experiência. Na primavera seguinte, quando o cuco serve de calendário á gente do campo, já ella carregava uma moçoila desempenada, e, soberba de carga tão formosa, galgava chotando, onde as suas congéneres se enterravam na areia, e atrevo-me a dizel-o (Deus queira que me não venham trabalhos da sinceridade) que nunca até hoje o hippodromo de Belém deu premio de consolação, ou de qualquer outro nome, a bicho capaz de se lhe avantajar na carreira.

Costa da Caparica, transporte de mercadoria pelas dunas, década de 1920.
Imagem: Espólio Agro Ferreira

Desculpem-me os sócios do "Jockey-Club" esta minha opinião, que julgo não ser isolada. Se o meu respeitável amigo o snr. conselheiro Moraes Soares, não toma a serio o apuramento da raça cavallar, receio que os burros venham a ser trunfo nas corridas. .. de cavallos.

Vamos ao caso.

Não ha obra de caridade que Deus deixe sem recompensa. A Janota veio a ser a auxiliar do Ghumeco, não o seu ganha-pão exclusivo, mas uma fatia do seu pão quotidiano. Quem hoje quer alugar a burra que os juncaes viram magra, extenuada, lazarenta, tem que metter empenhos para o conseguir. O Chumeco põe a mão na ilharga, marca-lhe o preço, e não desce d'elle nem um real.

— É para quem pôde, responde invariavelmente o dono. Isto não é animal que se fie de quem não entende da poda.

Proferimos a palavra fatal: — dono!

O dono! Mas quem é o dono? A esta interrogação ha-de responder-se em Almada ao acabarem as férias judiciaes, visto que o Roberto chama hoje seu ao que mandou deitar fora, e o Chumeco se agarra á sua propriedade, mal comparado como uma ama de leite diz ser sua a criança que os pães abandonaram. Para este caso intrincado duvidamos que possa ser applicado com bom resultado o juizo de Salomão; mas recorda-nos quasi que a propósito, a tenacidade com que um verdadeiro sábio e homem de bem — o virtuoso Condorcet — preferiu sempre a mulher do povo que o creára, á mãi desnaturada que á nascença o entregara á caridade do municipio.

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

Nós não queremos prevenir julgamentos, mas respondam-nos em consciência: não representará o Roberto n'esta historia o papel de um amante volúvel, que só deixa accender no coração os bons affectos, quando vê feliz e alegre em poder de outro a mulher que elle levou á perdição e á miséria?

Sophia Loren e Marcello Mastroianni, Ieri, Oggi, Domani, Vittorio De Sica, 1963.
Imagem: rebloggy

Não significará o Chumeco n'esta singela historia, a Providencia dos dramas chamados realistas, onde a convenção theatral manda entrar uma figura que enxuga todas as lagrimas e consola todas as afflicções?

Esta historia por ser de uma burra, não terá a sua moralidade como os apologos de Lafontaine? Nós cremos que tem.

Marquez d'Ávila e de Bolama, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hontem ainda, 15 de setembro de 1877, sendo pretor o snr. marquez d'Ávila e de Bolama, vimos a burra que o Chumeco conserva por em quanto em seu poder, e podemos attestar que nos olhou... como quem reconhecia em nós o apologista do seu bemfeitor. (1)


(1) Luiz Augusto Palmeirim, Galeria de figuras portuguezas,  Porto e Braga, Liv. Internacional de Ernesto Chardron, 1879  

Artigos relacionados:
O pântano
O Juncal

Tema:
Trafaria

sexta-feira, 25 de março de 2016

O dragoeiro

No Jardim Botânico da Ajuda havia um dragoeiro de tamanho desconforme, e cuja sombra era propicia aos idyllios.

Lisboa, Vista do Paço da Ajuda, Louis Lebreton, c.1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Um dia a Bella Infanta abrigara-se de um aguaceiro n'aquelle asylo de Vénus com o moço inglez.

Princesa, Maria da Glória, futura rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

De súbito apparece o jardineiro. O inglez tirou do bolso uma pistola e ia a desfechar com elle quando a Infanta, n'um bom impulso, lhe teve mão. O jardineiro, nos meus primeiros tempos da Ajuda, seria homem dos seus sessenta annos, e contava o caso a toda a gente.

Vista de Lisboa — Tejo e Palácio da Ajuda, Isaías Newton (1838-1921), 1859.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett, passando o verão de 1849 na casa de Herculano, improvisou a lápis, debaixo da sombrio dragoeiro, os versos das "Folhas cahidas" que se intitulam: "Gôso e Dôr". (1)

Na tapada d'Ajuda, Arthur Loureiro, 1879.
Imagem: Hemeroteca Digital

Se estou contente, querida,
Com està immensa ternura
De que me enche o teu amor?
— Não. Ai! não; falta-me a vida,
Succumbe-me a alma a ventura:
excesso do góso é dor.

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Doe-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua belleza,
Nào sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

Paisagem e rio Tejo, Isaías Newton (1838-1921).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É que não ha ser bastante
Para este gosar sem fim 
Que me inunda o coração.
Tremo d'elle, e delirante
Sinto que se exhaure em mim
Ou a vida — ou a razão... (2)

O Tejo visto do Alto da Ajuda, Casimir Leberthais (????-1852).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantos suspiros de amantes não terá ouvido o monstro vegetal! (3)

Dracaena draco do jardim do Paço Real d'Ajuda, 1879.
Imagem: Mãos Verdes


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907
(2) Almeida Garrett, Folhas cahidas, Lisboa, Em casa da viúva Bertrand e filhos, 1853
(3) Bulhão Pato, Idem

Informação relacionada:
Archivo Pittoresco, n.° 27, 1862

Archivo Pittoresco, n.° 28, 1862

segunda-feira, 9 de março de 2015

Estações de correio

A estação dos CTT de Almada foi aberta à exploração em 6 de janeiro de 1879 e reinstalada em 1937.

A nova estação dos Correios e Telégrafos, de Almada, 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

As ligações telefónicas pertencem à APT. As ligações telegráficas com a Estação Central Telegráfica de Lisboa fazem-se pelo moderno sistema de fonogramas. A nova reinstalação tornou-se necessária devido ao considerável aumento de tráfego com o enorme crescimento da população. A estação fica localizada num dos melhores locais de Almada — a Praça da Renovação — e dispõe de amplas salas, cómodas na parte destinada ao público e bem apetrechadas e extensas no sector destinado aos serviços.

Praça da Renovação, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 173.

Nesta próspera vila inaugura hoje a Administração-Geral dos CTT novas instalações para a sua estação, graças à prestante colaboração do activo industrial, Sr. Álvaro Pereira, que construiu o novo edifício do qual a Administração-Geral arrendou parte ao abrigo do Plano de Instalação e Reinstalação de pequenas Estações de Província. É uma instalação delineada com todos os requisitos técnicos para bem servir o público e as necessidades dos serviços.

Novas instalações dos correio de Almada, desdobrável, 1956.
Imagem: Fundação Portuguesa de Comunicações no Flickr


A Administração-Geral dos CTT ao proporcionar este novo melhoramento à população de Almada torna público o seu reconhecimento ao Ex.mo Sr. Álvaro Pereira, que com seu espírito de iniciativa e colaboração o tornou possível, alinhando assim ao lado de muitas dezenas de pessoas que por todo o país estão a fazer progredir as nossas vilas e aldeias ajudando ao mesmo tempo uma grande realização dos CTT a favor das terras pequenas. (1)

Novas instalações dos correio de Almada, desdobrável, 1956.
Imagem: Fundação Portuguesa de Comunicações no Flickr


(1) Fundação Portuguesa de Comunicações

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Quarentena

Rafael Bordalo [Raphael Bordallo] Pinheiro (1846 - 1905), presença no Brasil de 1875 a 1879.

Rafael Bordalo Pinheiro.
Imagem: Hemeroteca Digital

Meu caro Tejo de Cristal. Cheguei há dias do Brazil.

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, John Elder 3,500 Tons, 600 HP. Built by John Elder & Co., Glasgow, 1869.
Imagem: 19th Century Ship Portraits in Prints

Desembarco considerado para todos os effeitos um emissario do Vomito Negro.

Panorama visto da Trafaria, Vista de Lisboa e do Tejo tirada do Lazareto, ed. Tabacaria Costa, década de 1900. .
Imagem: Delcampe

Os quartos de 1.a classe. Os de 2.a. Os de 3.a. isto é: 3 classes distintas e uma só verdadeira.

No Lazareto de Lisboa, o quarto, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A peça de luxo, a melhor peça de architectura do edifício.

No Lazareto de Lisboa, a peça de luxo, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal>

No vão inferior desta escada é a hygienica sala de jantar da 3.a classe.

No Lazareto de Lisboa, a sala de jantar da 3.a classe, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Oh! como eu me recordo do sumptuoso serviço do Joaquim dos Melões, de Cacilhas. (1)

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O namoro da janella abaixo, imprevidente, como não pôde deixar de ser, arrisca uma mulher a ligar-se para sempre a um vadio; ou um homem laborioso a cabir na armadilha que lhe preparou a menina que só via no casamento a possibilidade de assistir na rua dos Condes à representação de uma magica, ou de ir no dia de S. João à Outra Banda merendar a casa do Joaquim dos Melões.
Em conclusão, o namoro da janella abaixo devia ter sido prohibido pelo Código civil como attentato-rio da dignidade da familia, e conductor seguro e rápido do divorcio judicial.

in Galeria de Figuras Portuguezas
 

Montar, galopar, correr, correr ainda que seja n'um jerico de Cacilhas, por essas azinhagas floridas da outra banda do Tejo, gaiato ao couce, sobre um albardão berrante e jaezes polychromos, onde a figa negreja na testeira do jumento entre ourellos de algodão, vermelho como as cerejas de Ceragonte!
Montar, cavalgar, é a preoccupação o pensamento de metade da humanidade, desde o juvenil escolar até ao pacato burguez, que por dias santificados vae divertindo a rotunda esposa até abancarem no Joaquim dos Melões, saboreando a bella salladinha com pimpínella e aipo, e a boa pescadinha frita digna de figurar no banquete, entre as matees e os ganços da Germânia, quando Lucullus jantava em casa de Lucullus!

in Recordando


Ter uma pessoa uns cobres a mais nas algibeiras e desejar divertir-se, não é caso para se surprehender ninguem; é mesmo um caso naturalissimo!
Escolher o outro lado do Tejo para dar uma passeata, é igualmente um caso muito natural! 
Ter fome e ir petiscar, continua a ser o caso mais natural do mundo! Dar a preferencia á antiga casa do defunto poeta Joaquim dos Melões, não é para admirar, pela fama do estabelecimento e, ainda mais, pela fama dos petiscos! 
Mas... fazer um roubo em domicilio proprio, isso é que é realmente um facto digno da maior censura e punido rigorosamente pelo nosso codigo civil. 
Pois é verdade. . . roubamos! 
Mêa culpa, mêa culpa, mêa maxima culpa!!! 
O arrependimento. porém, salva, e aqui vimos depôr o roubo tal qual o encontrámos sobre uma das mesas da casa do poeta, onde petiscâmes no dia 15 de setembro, por occasião da festa no largo da Piedade.
Eil-o sem lhe faltar nada:

"Lista"
Sopa de Masa. 
dita Juliana. 
canga de galina. 
haros. 
came cocida. 
carne hasada de Baca. 
dita porco. 
costa letas panadas. 
Lingoa hagardincira. 
carnes estopada hargerdineira. 
pato courado com haros. 
galina courada. 
Dita d'fricace. 
dita de celbid'la, 
cuello gisado. 
carneiro gisado
pato com feigon carapato 
carne pre fifes
Frangos de fricace.
"sobre mensas"
ceijo falmengo
dito branco al farina
Peras
Pecegos
Larangas
hubas
Macanis
Melons
Toda hacalidade de dose

Se ainda fosse vivo o velho Joaquim dos Melões, diria na sua linguagem pittoresca e metrificada:

É uma coisa nunca vista,
a redacção d'esta lista!
É discipulo o intrujão
Do seu "Brabozá Lião"!
Merece o autor do "menú"

Um pontapé no... etc.

Zé Povinho, Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro Lda.
Imagem: Restos de Colecção


in Almanach do Trinta 1881, Lisboa, Typographia Popular, 1880

Alguns dos companheiros de quarentena no Lazareto.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.


(1) Pinheiro, Raphael Bordallo, No Lazareto de Lisboa, Lisboa, Empreza Litteraria Luso-Brazileira Editora, 1881.

Artigos relacionados: 
Lazareto de Lisboa, em 1897
Decauville Cacilhas Lazareto em 1894

Informação adicional:
O Lazareto, Gazeta dos Caminhos de Ferro n.° 1374, 16 de março de 1945
Restos de Colecção, Raphael Bordallo Pinheiro

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Avenida Gomes Neto

Avenida Heliodoro Salgado — Almada, ed. desc., avenida Gomes Netto no tempo da monarquia
Imagem: Delcampe

Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é necessario anotar rapidamente [...]

Entre essas figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção, mas d'um grande senso pratico.

Não raro o encontravam em mangas de camisa no seu escriptorio.

Escrevia em largos quartos de papel e depois dizia: — Ponham-lhe lá a gramatica!

— Acabou já velho e amoroso, fazendo todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que depois ia distribuir de coupé por casa das amantes, pescada aqui, pescada alli... (1)

José António Gomes Neto
Imagem: Hemeroteca Digital

Dia 17 do mês corrente, surpreendeu-nos a noticia, por Lisboa, em fóra, rapidamenta propalada, do falecimento do muito conhecido e muito respeitado homem-de-negocios, e riquissimo proprietário, que foi Antonio José Gomes Netto.

Homem dotado de grande actividade, tornou-se uma figura de destaque no nosso meio comercial.

Era natural de Ovar, onde nasceu por 1836.

Os seus principios de vida foram um modesto emprego de caixeiro na empresa de navegação, agencia de Chambica & Gonçalves, no Caes do Sodré.

Inteligente, pertinaz, laborioso-da situação mais humilde guindou-se a uma condição altíssima, possuidor duma avultada fortuna e credôr da consideração e estima dos seus concidadãos e consocios.

Por um acurado esforço e sagacidade, supria falta de estudos classicos que não obteve. em parte de muitas empresas e companhias onde ocupava sempre logar proeminente, todas elas relevantemente conceituadas no espirito publico.

Foi presidente da Companhia das Lezirias, administradôr da Empresa Nacional de Navegação e director do Banco de Portugal.

Para se ser político na mais alta significação do têrmo é necessário ter uma vida completamente limpa de empregos e sinecuras dependentes do Estado.

Não é infelizmente assim em Portugal.

Aqui são raros os homens da política que não comem de companhias e de fartos empregos do Estado.

Não há companhia ou banco onde se não acoitem, recebendo ordenados d'essas companhias, d'esses bancos e dos cofres do Estado n'um impudor que passa todas as marcas da immoralidade.

[Cargos desempenhados por António José Gomes Neto:]

  • Presidente da Assembleia Geral do banco da Economia Portugueza;
  • Vice-Presidente da Assembleia Geral do banco Commercial de Lisboa;
  • Membro do Conselho Fiscal da Companhia dos Phosphoros;
  • Presidente da Assemblea geral da Companhia de Seguros Portugal;
  • Vice presidente do banco Lisboa & Açores;
  • Director do Banco de Portugal;
  • Presidente da Assembléa Geral da Companhia Commercial Angola;
  • Presidente da nova Companhia Ascensores mechanicos Lisboa;
  • Presidente da Companhia de Estamparia de Alcântara;
  • Presidente da Companhia Fabril Lisbonense;
  • Presidente da Sociedade Portugueza de Seguros;
  • Presidente da Companhia de Seguros Universal;
  • Vice-presidente da Companhia de Seguros Tagus;
  • Vogal do conselho Fiscal da Companhia Portugueza de Carvão;
  • Vogal do Conselho Fiscal do Mercado da Praça da Figueira;
  • Director da Empresa Nacional de Navegação;
  • Vogal do Conselho Fiscal da Companhia do Congo Portuguez.

in Notas Verbais que cita informação publicada no Jornal "O Liberal", de 10 de novembro de 1909

Desempenhou com proficiencia o cargo de vereadôr da Camara Municipal de Lisboa e teve por vezes assento na Camara dos Deputados.

Gomes Netto
Gomes Netto vs. Costa Pinto
por Raphael Bordallo Pinheiro
Revista Pontos nos ii
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Costa Pinto

Ultimamente, apezar de velho e rico, nunca renegou o seu amigo de sempre um trabalho denodado e indefesso.

Enviuvara, ha pouco tempo, de D. Rosa Maria Gomes Netto.

Aos parentes e amigos, e especialmente aos seus filhos que lhe assistiram piedosamente nos ultimos momentos daqui enviamos a expressão das nossas mais sentidas condolencias.

Sem duvida, a noticia do falecimento de Antonio Gomes Netto causou no nosso meio uma funda sensação de pesar.

A casa do extinto, deixaram cartões de pesames personalidades de grande representação social.

Tambem, a familia do falecido, fôram remetidos telegramas do sentimento de alguns chefes politicos do venerando Presidente da Republica Portuguésa.

É que, na verdade, Antonio José Gomes Netto, impunhasse, pelos seus dotes de caracter e inteligencia, á consíderação de todos. (2)

Mandado construir por iniciativa de António José Gomes Netto, foi projectado pelo arq. Jorge Pereira Leite [...]

[... o] edifício [onde residia Gomes Neto] recebeu, ex-aequo com outro imóvel, uma Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1904, facto que não foi muito bem aceite, uma vez que o prémio principal não havia sido atribuído nesse mesmo ano [...] (3)

Lisboa, avenida da Liberdade, Ferreira da Cunha, década de 1930
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

António José Gomes Neto, deputado por Almada tanto serviu o partido Regenerador como o Progressista.

Adaptou-se sem dificuldades de maior à queda da monarquia manteve-se nas funções de director do Banco de Portugal desde 1879 até ao fim dos seus dias.

Cédula de mil réis com a inscriçáo "República" e assinatura do director Gomes Netto
Imagem: invaluable


(1) Brandão, Raul, Memórias, Vol. I, Porto, Renascença Portuguesa, 1919

(2) O Ocidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.º 1278, 30 Jun. 1914

(3) Câmara Municipal de Lisboa Edifício de Habitação na Avenida da Liberdade, 262-264