Nesse ano celebrou-se o 46º aniversário da implantação da República em Almada estando a comissão comemorativa constituída por Hélio Vieira Quartim, Firmino da Silva, Rafael Ferreira, José Alaís, José Duarte Vitorino Júnior, António Maria dos Santos Queimado, Raimundo José Moreira, José Maria, Amadeu de Almeida Ferrão, Óscar Penedo, Herculano Pires, Henrique Barbeitos, Francisco Açucena, Raul Adão e Silva, João Pedro de Jesus, José Moreira, Romeu Correia, João Romana, José Justino de Jesus, Salvador Avelar, José de Jesus dos Santos, António Maria Ribeiro, Felizardo Artur, Francisco Correia e Amaro Trindade Sanguinho.
Comemorações do 46º aniversário da Implantação da República. Jantar de confraternização republicana no Restaurante Pancão, Almada, 4 de Outubro de 1956. Da esquerda para a direita: não identificado, dr. Henrique Barbeitos, Firmino da Silva, não identificado, José Correia Pires e Hélio Quartim.
Museu da Cidade de Almada (cedência de Virgínia Silva Neto cf. Paulo Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada...)
Do programa apresentado o governador civil apenas aprovou a sessão na Incrível Almadense no dia 4 e um jantar de confraternização de republicanos deixando de fora a romagem à casa onde nasceu Elias Garcia por razões óbvias de retirar visibilidade à celebração da efeméride adivinhando um cortejo cívico com alguma expansão que pudesse constituir uma manifestação aberta e espontânea de repúdio ou de questionamento das instituições.
Foi no sentido de exercer controlo e vigilância sob o evento que Fernando Gouveia e a brigada liderada por Manuel de Medeiros se deslocaram a Almada. A sessão na Incrível Almadense foi presidida por Câmara Reis, secretariado por Firmino da Silva e Henrique Barbeitos e teve como oradores Rodrigues Lapa, José Alaíz, Herculano Pires, Edmundo Vieira Ferreira, João Pedro Martins Calvário e José Correia Pires na presença de uma numerosa assistência onde foram notadas mulheres e menores.
Comemorações do 46º aniversário da Implantação da República na Incrível Almadense, 4 de Outubro de 1956. À frente e da esquerda para a direita: Firmino da Silva, não identificado, dr. Henrique Barbeitos. Atrás de Firmino da Silva encontra-se José Alaíz. Museu da Cidade de Almada (cedência de Virgínia Silva Neto cf. Paulo
Emanuel Ramos Jorge, A oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada...)
Foi aprovada uma moção enviada por Amadeu de Almeida Ferrão e Mário Fernandes que propunha que a comissão organizativa da sessão continuasse para organizar a nova campanha eleitoral, ao passo que no jantar de confraternização celebrou-se um minuto de silêncio pelos que morreram pela República em 1910 e implicitamente pelos perseguidos e mortos pelo regime.
Neste evento ainda vemos antigos republicanos, como Firmino da Silva, embora esteja já dominado pela oposição comunista.
Casa de pasto e retiro de José Pancão à direita na foto.
Museu da Cidade de Almada
Estes eventos constituíam momentos de contestação ao se celebrar a democracia, a coberto da República, ou seja, não era uma comemoração da Primeira República, mas da liberdade que existia durante a sua vigência e, portanto, quando se vitoriava a República era este o seu significado. (1)
Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)
Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa
A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)
Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]
Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847
[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)
Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.
Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)
[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)
Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...
A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.
Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.
Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.
Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada
Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)
A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.
A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento [...]
A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.
Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes
Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)
(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003 (2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003 (3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada, 12. de julho de 2000 (4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005 (5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. (6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990 (7) Fábrica da Rankin & Sons
À volta do leito do enfermo, não faltam os parentes — os sobrinhos o Rafael e o Nuno — ou os amigos que costumam acorrer ás alegres refeições. D. Maria Isabel Bernaud, que estivera de joelhos a chorar e orar, ergue-se cambaleante. Não pode mais. Aquela comédia da serenidade, quando o seu coração estala de dor, é mais forte do que as suas forças.
A casa no Largo da Torre onde viveu Bulhão Pato, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares
O médico, o dr. Pinto, empunha já a seringa. O doente, muito rouqueja. A injecção é por assim dizer um pró-forma ou destino de consciência. Mas, num subito clarão da sua portentosa natureza, o doente exclama, como se a sua voz viesse já de além tumulo:
— Ainda senti a picada!
Foram as suas ultimas palavras. D. Maria Isabel é empolgada pelos braços carinhosos dos amigos, principalmente os do afilhado, o António Maria Povas, a quem mais tarde deixará todos os bens do casal sem filhos.
Naquela madrugada de 24 de Agosto de 1912 já não se descerraram as janelas do prédio do lugar da Torre, a cerca de 200 ou 300 metros do Monte de Caparica. Também os olhos do autor de "O patilhão vermelho" ali escrito, e de "Sob os ciprestes", ali também gerado, não voltarão a abrir-se, a perscrutar a luz da vida. A da morte nunca lhe interessou. Não sendo religioso, nem acreditando na vida eterna, Bulhão Pato costumava comentar com ironia, ao apontar com a bengala a terra que o havia de comer:
— O general Hugo de Lacerda julga que vai para o Céu. Mas eu tenho a certeza de que fico aqui.
O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital
Essa fraca ortodoxia não o impediria nunca de ser amigo do sr. prior do Monte. rev. padre José Joaquim Marques, que á hora a que hoje se almoça, lá ia jantar, bastantes vezes, muitas mais, tomar café, á sobremesa.
Discutiam religião? Se discutiam, não só nunca houve progresso no catolicismo de Bulhão Pato, que não ia á missa, mas, ainda as conversas não decorriam em termos de ser entendidas pelas pequenas.
As pequenas de então estão agora aqui na nossa frente, com a sua roda de anos bem puxados. Andam á volta dos 70 e Ramada Curto podia tê-las conhecido, quando escreveu "As meninas da Fonte da Bica".
São uma página de literatura já feita. A dificuldade estaria em pegar-lhes sem as destruir no que elas têm de vulnerávelmente espiritual e simples.
As meninas da Torre são três, e são solteiras (os homens empatam muito, dizem elas, que têm imenso que fazer, na sua qualidade de mestras das primeiras letras).
— Hoje, somos aqui, as unicas que conhemos o sr. Pato! dizem com simplicidade e um tudo nada de saudade.
Saudade, e como não hão-de ter saudades as meninas da Torre, cada urna delas com o seu caracter, a sua maneira, de ser, a sua humilde e recatada pobreza?
Só duas delas, porém, se resolvem a fazer evocações. A mana mais velha, a D. Laura da Conceição, viveu trinta e tantos anos com uns parentes ricos em Lisboa. Quase não privou com o sr. Pato. Hoje é a "dona da casa", a que trata o seu governo, distante, hierática e silenciosa, ficando-se muda e impenetrável, enquanto as manas mais novas, D. Carolina de Jesus, miudinha, um pouco estonteada, fala ou ouve falar a outra mana, a Isaura Augusta, a mais desenvolta, talvez a mais intelectualmente vigorosa.
Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia
Filhas e um mestre de obras, o que construira a casa onde havia de morar Bulhão Pato, quando o escritor para ali foi em 1890, mesmo na casa ao lado, foram elas, com os pais, as únicas admitidas a sua convivência.
Bulhão Pato que era muito bondoso, muito, tinha os seus paradoxos: não gostava de crianças, porque eram barulhentas, mas, chamava as filhas do sr. Marques para a sua beira; amava o silêricio e tinha sempre á sua roda á barulho de uma alegre e palradora convivência, médicos e escritores, sobretudo.
Tudo, porém, finalizara naquele colapso cardiaco. Bulhão Pato acabava de morrer, faz hoje precisamente quarenta e quatro anos. Os seus restos mortais jazem num mausoleu do cemiteriozinho do Monte, esquecidos dos homens e da criada do afilhado Povas que, morrendo sem filhos, lhe deixou o que herdara do padrinho.
— Estamos a vê-lo, ao sr. Pato, muito fino, muito educado, um pouco baixo e de barbas muito brancas, com uma manta alentejana pelos ombros: "vamos a ver se ainda deito este Janeiro fora!" Costumava passear por aí, com a sua bengalinha mas, sendo muito sociável, não admitia certas liberdades...
Só duas das meninas da Torre se deixaram fotografar, D. Carolina de Jesus e D. Isaura Augusta, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares
Quem conta isto é a menina Carolina de Jesus que se ri:
— Vinha muito por aí o dr. João Barreira. Ficava ás semanas e viamo-lo, através da janela, pendurado além, nas grades do jardim, a esticar-se, como se quisesse ficar mais alto. Tinha uns olhos de pássaro tonto que nos assustavam. Ali ao lado, havia um celeiro. Ás vezes, o caseiro da sr.a condessa dos Arcos ia para lá tocar harmónica. Como doido, o dr. João Barreira desatáva ás voltas, com as mãos nos ouvidos e aqueles olhos, a gritar, "que é isto, que é isto?" Este tocador de harmónio [?] era o mesmo que um dia, cumprimentando o sr. Pato, lhe estendeu a mão e a quem o escritor admoestou serenamente: "que é isso, rapaz, estende a mão só aos que forem teus iguais".
Professor João Barreira (1866-1961).
Imagem: ARTIS
— Apesar disso — acrescenta a mana Isaura Augusta — o sr. Pato era muito bondoso, muito. Acudia pelas criadas, obrigava-as a ir cedo para a cama, que não queria excessos de trabalho lá em casa.
Depois, a propósito de criadas, vem a história da Elisa. Bulhão Pato. além da cozinheira e do criado, tinha sempre uma "criadinha fina", uma rapariga de serviços de fora que pudesse acompanhar D. Maria Isabel.
— O sr. Pato gostava de ter caras jovens e bonitas á sua roda. Mas a história da Elisa é muito triste. Um dia, vieram dizer ao escritor que ela andava de amores com uma visita da casa, o jornalista, sr. Urbano de Castro. Viam-nos juntos em Lisboa, nas folgas da Elisa...
O sr. Pato chamou-a, ralhou-lhe tanto, tanto, que ele, segundo diziam, era um trovão quando se zangava, que a rapariga, envergonhada, matou-se com um desinfectante com que andava a tratar-se...
O sr. Pato chorou e fez-lhe uns versos. Havia uma quadra que dizia assim:
Senti bater o caixão Quando te foste enterrar Era tarde de Verão O Sol morria no mar.
Fora uma amiga da casa, a D. Elvira Bastos — elucida a outra mana — quem levara a novidade lá a casa. Nunca mais ali se pronunciou o seu nome.
— E Urbano de Castro?
— Bem, continuou a ir lá a casa. Havia as relações das senhoras...
D. Carolina de Jesus suspende o "crochet" e dobra a folha impressa de onde o estava a copiar. Já não vê e não há luz eléctrica lá em casa. Uma das manas vai acender o candeeirinho de petróleo (desculpe, somos pobres... não repare, esta sala é a das aulas...).
A mana continua:
— O sr. Pato gostava da boa mesa e que lhe gabassem o "roast-beef" mas mal provava os petiscos. Dizia sempre: "não tenho que comer!" E a senhora protestava: "Oh! Raimundo, que cisma a tua!" D. Isabel tratava-o por tu. Ele, falando com a esposa, dizia sempre "você".
Mas, enfim, se o sr. Pato não comia muito, bebia bastante e sempre bebidas finas. Fumava muito e levantava-se cedo, para trabalhar cedo. Cedo também se deitava.
— Mesmo assim, tinha uma intensa vida de sociedade... Devia ser rico...
— Não sabiamos de onde lhe vinham os rendimentos. Rico, rico, porém, não seria, porque lhe vinham duas vezes por semana, ás quintas e domingos, grandes cestas de fruta e legumes, oferecidos pela familia Pinto Basto, da sua quinta aqui de perto, que está hoje nas mãos dos Quintelas. Mas com o não ser rico não deixava de ser muito esmoler, o sr. Pato. A casa aqui ao lado. estava mais que modestamente mobilada.
O mais importante eram, no escritório, os livros, um retrato do escritor, pintado por Lupi e que está hoje no, Museu de Arte Contemporanea e um outro de Alexandre Herculano (1810-1877), a quem era muito dedicado, mas que não nos lembra ver por cá. Devia já ter morrido.
— Em que passava o tempo o escritor?
— Se não escrevia, conversava sobre as suas viagens, falava de livros, fazia "pic-nics" na Quinta da Estrela ou caçava nos juncais de Caparica. Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, saia para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.
O Joaquim da Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa. para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje.
Aqui, do Porto Brandão, é que partiam os barquinhos movidos por meio de remos....
— Não falava de política, em derrubar o Governo...
— Fechava-se com os amigos no escritório; como podiamos nós, adivinhar do que falavam em voz baixa? Alegria naquela casa não faltava. O sr. Pato até gostava de armar as suas festas. Muitas vezes, porque não lhe chegavam os dois andares que ocupava, estendia-se por casa dos vizinhos. E era ver, no Santo António e S. João, as fogueiras, as festas e bailaricos que armavam no terreirinho fronteiro á casa do sr. Pato. O povo passava e juntava-se, saltando também a fogueira. E o sr. Pato gostava.
— Deu o nome a muitos "pratos" e petiscos...
— Possivelmente, eram os amigos que lhos davam. Nunca demos conta de que o sr. Pato fosse á cozinha ensinar a fazer ameijoas, bacalhau, perdizes ou ostras — e o que ele gostava destas! — com o seu nome ou não...
As meninas da Torre leram Bulhão Pato. O escritor estimava-as e a uma delas quis ensinar francês, ao que o pai, o mestre de obras, patrióticamente se opôs. Hoje, no seu casarão desconfortável e antigo, vivem da saudade de tanta coisa vivida, da mágua de se terem debruçado á beira de um grande mundo espiritual, do qual não recolheram o melhor do seu sabor.
Timidas, fiéis a Deus e á memória dos que amaram, assim as fomos achar, perturbando-as com a ideia de falar para um jornal e deixar-se fotografar, assim de chitas vestidas.
— Que vergonha! — disseram, a tapar o rosto com as mãos.
Mas, daqui a pouco, as meninas da Torre dobrarão esta folha de jornal, irão juntá-la a mil ninharias do seu património espiritual, já esquecidas do seu amigo, sr. Pato, vinte e dois anos seu vizinho na Torre.
O poeta no seu gabinete de trabalho, segundo fotografia publicada em 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital
Depois, empunharão a cartilha e, nos seus bancos em fila, as meninas da Torre, as mestras e as alunas voltarão a dizer em coro: Um á e um i faz ai... Um d e um ó faz... dó! (1)
No último quartel do século XIX construiu-se a nova estrada Cacilhas - Trafaria que aproveitou parte das antigas azinhagas. A sul de Almada abriu-se um troço inteiramente novo desde onde é hoje a praça Gil Vicente [...] (1)
D. Francisco de Melo e Noronha (1863 - 1953)... muito respeitado nesta sua terra de adopção, onde residia em casa própria, no fim da Estrada Nova [...]
D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada
A sua residência, conhecida pela Casa do Gato, foi adequada, respeitando a sua vontade, a um liceu. (2)
Almada, Casa do Gato, posteriormente Externato Liceal de Almada (Externato do Gato), década de 1960.
Imagem: Casario do Ginjal
A partir de Julho de 1947 a CMA começou a vender, em hasta pública, os lotes resultantes da expropriação da Quinta do Conde [de Assumar, provavelmente D. João de Almeida Portugal], uma das propriedades sobre as quais incidia o PPUA [Plano Parcial de Urbanização de Almada, aprovado em abril de 1947].
Figueirinhas — Nome do sítio que abrangia as terras onde estão hoje o Largo de Gil Vicente, o princípio da Avenida D. Afonso Henriques e o princípio das ruas D. Sancho I e Bernardo Francisco da Costa.
O topónimo está em desuso e mesmo completamente esquecido. Em 1665 o Conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, arrendou ao Capitão-Mor Álvaro Pereira de Carvalho, uma propriedade no sítio "aonde chamam as figueirinhas" que contactava "da banda do Sul com a estrada pública que vem da Mutela para Cacilhas... e do Norte com a estrada que vem de S. Sebastião para Cacilhas".
in PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada,
Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
Almada, rua D Sancho I, em segundo plano figuram a "Casa do Gato" e a ainda área rural, década de 1950.
Imagem: almaDalmada
As verbas resultantes da venda de lotes e as receitas da água (desde 1945) foram aplicadas nas amortizações dos empréstimos e na implementação das obras de urbanização [...]
Entrada da Av. Afonso Henriques, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 172.
O PUCA [Plano de Urbanização do Concelho de Almada, entregue por Étiènne de Gröer em setembro de 1946] e o PPUA previam o desenvolvimento urbanístico de Almada para sul, em torno de uma avenida central, designada por Rua I (actual Avenida Afonso Henriques) e construída paralelamente ao antigo eixo de ligação a Cacilhas (a chamada estrada nova).
Entre as duas vias desenvolver-se-ia o novo centro cívico da vila, comercial, administrativo e religioso [...]
Praça Gil Vicente, vista parcial e início da Estrada Nova, década de 1950.Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada
Embora a JAE tivesse assumido a construção da avenida central da zona nova de Almada, que constituía um troço da "estrada turística", e tivesse desenvolvido a sua ligação alternativa a Cacilhas, aquela nunca foi construída, nem as projectadas circulares.
Almada, Praça Gil Vicente,ed. Postalfoto, 12, década de 1960.
Imagem: Delcampe
A ideia da cidade-jardim foi-se perdendo a partir da aplicação da legislação que reintroduziu a lógica do primado do loteamento particular, em oposição à urbanização planeada e executada pelos municípios da época de Duarte Pacheco. (3)
Almada, Praça de Gil Vicente e fonte luminosa, Ed. da Comissão Municipal de Turismo de Almada, 2, c. 1970.
Imagem: Postais Ilustrados
(1) PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs. (2) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs. (3) Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.
Além do mercado Municipal na sua forma mais antiga, observa-se parte da Estrada Nova, denominada de rua Bernardo Francisco da Costa. A Estrada Nova era, então, o principal trajecto pedestre que as pessoas faziam no regresso à vila, provenientes de Cacilhas.
Almada, vista poente do novo mercado construído em terrenos dexanexados à então zona rural, 1933.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo
Este caminho e a calçada da Pedreira (actual rua Elias Garcia) eram até meados dos anos 30, praticamente isentos de propriedades urbanas, sendo apenas circundados por imóveis rústicos.
Almada, vista sul do mercado, da Estrada Nova, a actual rua Bernardo Francisco da Costa e, ao fundo, próximo do "Prédio Queimado", o palácio do Marquês de Fronteira, que o havia
herdado da Marquesa da Alorna, sua avó, década de 1930 ou 1940.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada
Além da praça, a estampa [abaixo] ilustra, à direita, o edifício da Pensão Barros, o Tribunal em construção e diversas propriedades que nos anos 40, pertenciam ao Casal dos Serras (onde hoje, se situam a rua Fernão Lopes, rua de Olivença e parte da avenida D. Afonso Henriques [...] (1)
Almada, rotunda da Praça da Renovação e acessos em construção, c. 1950. Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada
De facto com o Plano de Urbanização desenvolvido por De Gröer [1946], Almada viu o seu crescimento seguir de forma relativamente mais organizada e segundo um planeamento definido.
Almada, Pensão Barros, rua de Olivença, c. 1950.
Imagem: Maria do Céu Ramos
Contudo, foi na década de 50, com o arquitecto Rafael Botelho em conjunto com a Câmara Municipal e a convite do arquitecto Faria da Costa que surgiu o Gabinete de
Urbanização a Câmara Municipal de Almada.
Almada, Avenida D Afonso Henriques, ed. J. Lemos, 18, década de 1950.
Imagem: Nuno Machado
Neste seguimento, Almada passou a seguir um desenvolvimento de vários estudos urbanísticos, nomeadamente Planos Parciais de
urbanização. (2)
Almada, avenida D. Nuno Álvares Pereira, fotografia Julio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada
Foi um acontecimento de relevo para a vida de Almada a inauguração do
Café Central
ALMADA que, dia após dia e, em ritmo acelerado, se transfigura e se embeleza, acaba de ser dotada com mais um melhoramento que em muito a valorizará: o novo "Café Central", pertença do conceituado construtor civil sr. João Morgado e situado numa das principais artérias do burgo, Praça da Renovação, "é mais uma pedra que acaba de ser colocada no já grande e imenso plano de melhoramentos locais", levados a cabo pela iniciativa particular, para uma Almada moderna e cosmopolita [...]
in Voz do Tejo, edição de 9 de junho de 1956, citado em almaDalmada
Em Almada havia dois Cafés, lado a lado, separados apenas pela entrada do prédio de três andares, (onde se instalaram nos baixos), e por uma tabacaria que dava para aquela praça.
Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, 29, década de 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada
Um, o maior, era o Central, o outro era o Dragão Vermelho, o tal que eu mais frequentava.
Os referidos Cafés tinham no exterior e á sua frente esplanadas contíguas, voltadas para a Praça da Renovação, onde, especialmente à noite, a tomar cafés e, aos domingos de manhã, a beber um Martini, caía toda a gente semi-chique, tigela e meia-tigela. Chique não havia, ou, se havia, não se notava nem nada dava a entender.
Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950. Imagem: almaDalmada
O Central, embora frequentado pela maioria da populaça, por ser mais amplo e ter alguns refúgios recatados, era o preferido dos chamados intelectuais. Ali escrevia desalmadamente Romeu Correia, despontava Fernando Pernes, que havia um dia ir para a Casa de Serralves, no Porto, e advogados, como o Herculano Pires da esquerda moderada e o Luís Álvaro, uma ave nocturna muito minha amiga, da direita também moderada.
Os dois moderados de sinal contrário, por todas as razões e mais esta, mantinham-se em guerra intestina e odiavam-se figadalmente.
Luís Álvaro era dos Rotários, o que na altura dava bastante penacho, e sempre pôs uma bola preta em Herculano para que este dentro deles não conseguisse pôr um só dedo dum qualquer pé. Este e outros rejeitados, cheios de despeito recalcado, haviam de vir a criar os Lions de Almada, não por amor aos ceguinhos, mas como adequada retaliação.
O Dr. Luís Álvaro, cerca de vinte anos mais velho que eu, era um jovem companheirão, muito observador e crítico mordaz, com quem me fartei de divertir. Ficávamo-nos umas vezes por Almada a tagarelar e deslocavam-nos algumas até ao Muxito mordiscar um pouco de ambiente nocturno a ouvir, ao vivo, um pouco de música dançável, às vezes com uns fadinhos pelo meio, muito bem cantados pela Saudade dos Santos.
Nas amenas noites de Verão íamos tomar um cafezinho numa qualquer esplanada da já insuportável Caparica, onde a Dona Ausenda, uma matrona livre de compromissos, não sei se solteirona, viuvona ou outra ona qualquer, a ele se atirava descaradamente e ele dela, pelo menos em público, cortesmente fugia a sete, ou mais, pés. Algo me diz que ela era uma das suas consulentes "habituées", daquelas que o iam ver frequentemente ao consultório, como quem ritualmente se vai benzer à bruxa.
O advogado Luís Álvaro vivia e tinha o seu escritório no coração de Almada, bem junto ao jardim e ao novo Tribunal.
Conhecia meio mundo, muito mais por dentro do que por fora, e ia-me contando, sem nunca quebrar o sagrado sigilo profissional, engraçadíssimas histórias, muitas delas muito podres, de toda aquela gente de casca muito fina e interior muito grosso de quem ele, de ginjeira, conhecia muito melhor o tenro e escondido miolo do que a dura e bem visível casca. Ríamo-nos os dois, com muito gosto, à custa das graças envenenadas de um e das tretas não menos venenosas do outro, e vice-versa.
Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam
Ao Dragão ia gente como eu, ou até pior; iam, por exemplo, os irmãos do trio Odemira e vários fadistas e cançonetistas baratos e muito mal cotados; também iam algumas senhoras acompanhadas dos seus maridos a quem, com todo o empenho, notoriamente punham os palitos, para não estar para aqui, em frente de toda a gente, a dizer cornos.
Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe
Na Praça da Renovação, hoje abrilescamente designada por Praça das Forças Armadas, havia uma papelaria, uma outra tabacaria, onde eu comprava o “Janeiro”, uma farmácia, um oculista, a Calhandra, (que era um snack-bar), o Stand Mirco, os Correios e, que me lembre,
Praça da Renovação, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 173.
pouco ou nada mais. (1)
(1) Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Almada, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1985, 189 págs. (2) Almeida, Gonçalo, Miguel Pires de, Densidade e Forma Urbana..., Densificação como valor de projecto e estratégia de desenvolvimento urbano, Lisboa, Faculdade de Arquitectura de Lisboa, 2011 (3) Isolino de Almeida Braga
As ligações telefónicas pertencem à APT. As ligações telegráficas com a Estação Central Telegráfica de Lisboa fazem-se pelo moderno sistema de fonogramas. A nova reinstalação tornou-se necessária devido ao considerável aumento de tráfego com o enorme crescimento da população. A estação fica localizada num dos melhores locais de Almada — a Praça da Renovação — e dispõe de amplas salas, cómodas na parte destinada ao público e bem apetrechadas e extensas no sector destinado aos serviços.
Praça da Renovação, Almada, Fotoselo ROTEP
(Roteiro Turístico e Económico de Portugal), 173.
Nesta próspera vila inaugura hoje a Administração-Geral dos CTT novas instalações para a sua estação, graças à prestante colaboração do activo industrial, Sr. Álvaro Pereira, que construiu o novo edifício do qual a Administração-Geral arrendou parte ao abrigo do Plano de Instalação e Reinstalação de pequenas Estações de Província. É uma instalação delineada com todos os requisitos técnicos para bem servir o público e as necessidades dos serviços.
A Administração-Geral dos CTT ao proporcionar este novo melhoramento à população de Almada torna público o seu reconhecimento ao Ex.mo Sr. Álvaro Pereira, que com seu espírito de iniciativa e colaboração o tornou possível, alinhando assim ao lado de muitas dezenas de pessoas que por todo o país estão a fazer progredir as nossas vilas e aldeias ajudando ao mesmo tempo uma grande realização dos CTT a favor das terras pequenas. (1)
A Costa — a sereia do Sul — tem muitos apaixonados...
Caparica, miradouro do Convento dos Capuchos, 1954.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard
Como todos os apaixonados — loucos de amor por ela (sempre o eterno feminino!...), cegos de paixão, egoistamente têm procurado preserverá-la de quantos se possam aproximar, enamorar-se também, e envolver a sereia noutro ambiente que não seja o da primitiva rusticidade.
Exclusivismos de amor... Todos os sinceros amantes são exclusivistas...
Mas o leito da praia tem sete léguas.
A sereia expraia-se por sete léguas do mesmo areal, da mesma païsagem, do mesmo quadro.
Pode aqui formar-se um grupo de admiradores que perturbe o devaneio do poeta, a lucubração do artista, o sonho do azul, o romance da vaga — mas mais adianle, uns quilómefros mais adianíe, no mesmo quadro de séculos, no mesmo areal de sempre, a sereia espreguiça-se à vontade, chamando os seus apaixonados para mais longe... mais longe... e depois ainda mais longe... onde a sós, num mudo colóquio de amor, continue o devaneio, o sonho, o romance de encantamenio e de paixão...
Costa da Caparica, turistas, década de 1950.
Imagem: Cocanha
E entretanlo vem a multidão também extasiar-se perante a maravilha...
O poela e o artista descobriram e bradaram o mistério de beleza — a beleza eterna que só aos eleitos é dado desvendar.
E a multidão acudiu a êsse brado e viu a coluna de espuma em curvas de sensual beleza, incensada de aromas, resplendente de luz — e quedou-se maravilhada.
Aquela era a beleza magestosa em que a natureza se diviniza...
Costa da Caparica, turistas, agosto de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard
E a multidão rodeando a imagem, — o sonho, o devaneio, feitos luz, aroma e espaço — completou o quadro.
(1) Praia do Sol (Caparica): estância balnear de cura, repouso e turismo, Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico, 1934, M. Costa Ramalho, Lisboa.
José Carlos de Melo nasceu a 25 de Maio de 1886, na quinta do Pombal, cultivada por seu pai, João Carlos de Melo.
José Carlos de Melo.
Tinha mais quatro irmãos, Augusto, o primogénito, duas irmãs, Amélia e Georgina, e o mais novo, de nome Arnaldo, que fora, sem favor algum, um dos melhores músicos de filarmónica nascidos em Almada.
Rapazes e raparigas com uma instrução acima da media, pois nesse tempo a percentagem de analfabetismo cifrava-se na casa dos 80%.
Gente amistosa e convincente. a quinta do Pombal foi cedida ao longo dos anos para piqueniques e convívios de associados de colectividades da terra.
Após o exame de Instrução Primária, efectuado na escola oficial de Conde de Ferreira (a única então existente), o pequeno José Carlos de Meio ficou como ajudante do velho e prestigioso Mestre Epifânio.
Calmo, educado, dotado de extrema paciência e competência o jovem monitor realizou uma obra deveres significativa de alfabetização nesses longínquos anos da "Belle Epóque" em que raros decifravam o alfabeto.
A 27 de Julho de 1906 ingressa como amanuense na Câmara Municipal de Almada, onde se conserva por meio século, pois só se aposenta em 1956.
Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem
De espírito conservador, uma vez burocratizado passou a entrar na secretaria da Câmara às onze horas, já almoçado, e saía muitas vezes às onze horas ou meia-noite.
Nunca teve férias ao longo deste meio século. Parece-nos ele que nunca esteve doente...
Muito jovem, tornou-se um homem associativo, trabalhando como director nas secretarias das mais variadas colectividades de cultura e recreio associações de Socorros Mútuos bombeiros voluntários e até em clubes desportivos.
Também as Juntas de Freguesia e a Misericórdia de Almada mereceram a sua colaboração ao longo de mais de quarenta anos.
Pertenceu igualmente a muitas e variadas comissões administrativas de colectividades.
Diziam os velhos almadenses, que o admiravam e o classificavam como o "homem que não tinha inimigos", que Zé Melo, o solteirão, recolhia todas as manhãs a casa quando batia à porta o padeiro...
É impressionante a lista de colectividades e instituições que este cidadão serviu por muitas dezenas de anos:
Na Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense foi várias vezes director, e de uma só vez permaneceu 25 anos no cargo de 1° secretario (secretário pela noite dentro, alumiado a candeeiro de petróleo, acrescente-se…);
Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção
Nos Bombeiros Voluntários de Almada, sócio fundador (26-8-1913), fazendo parte do seu corpo activo nos anos iniciais e prestando serviço na secretaria;
Na Associação de Socorros Mútuos 1° de Dezembro, sócio durante meio século e director por quatro dezenas de anos, alternados;
No Ginásio Clube do Sul, sócio fundador (17-5-1920) e presidente da Direcção em 1922. (Possuía fardamento da colectividade, pagou quotas até ao dia da sua morte e usou sempre na lapela o distintivo do clube);
Na Misericórdia de Almada, secretário e por vezes dirigente ao longo de quatro dezenas de anos.
Nas Juntas de Freguesia, muitas e variadas comissões o tiveram nos seus corpos parentes.
Foi ainda secretario e colaborador de vários jornais publicados no concelho, com destaque para o Jornal de Almada (1ª série) fundado e dirigido pelo seu velho amigo Manuel Parada.
Há também outras colectividades nas terras de Almada que tiverem como sócio de toda a vida José Carlos de Melo, como a Sociedade lncrível Almadense, o União Sport Clube Almadense e o Clube Recreativo José Avelino.
Pertenceu igualmente a comissões disto e daquilo grupos excursionistas, iniciativas de solidariedade para acudir a cidadãos em precária situação física ou económica.
José Carlos de Melo foi das figuras mais populares e respeitadas do concelho de Almada.
Homem de honradez acima de qualquer suspeita, extremamente educado, quando atravessava as ruas da velha vila não havia ninguém que não cumprimentasse o sr. Zé Melo.
Namorou durante anos uma senhora da terra que adoeceu com gravidade. Muitos anos a namorou à beira do leito, pagando-lhe as visitas médicas e, por fim, o funeral.
Mais tarde, por volta de 1922, enamorou-se de outra senhora, esta residente no cais do Ginjal, Julieta Mercedes Correia, com quem se consorciou pelo São João de 1926. Tinha então 41 anos de idade.
Este namoro do cais para o 1° andar durou cinco anos, tantos quanto a espera para vagar uma casa em Almada, coisa que por esse tempo era também de extrema dificuldade.
Para além de todas estas múltiplas actividades, José Carlos de Melo vivia apaixonado, de tenra idade, pela história de sua terra.
Tudo que se relacionava com Almada, ele anotava, recortava, coleccionava.
Almada, edifício dos Paços do Concelho, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada
Durante dezenas de anos. o nosso biografado e o primo Luís de Queirós foram as pessoas que melhor conheciam Almada e seu termo.
Ligado desde sempre a D. Francisco de Melo e Noronha, Manuel Parada e Raul Custódio Gomes, José Melo acalentou a esperança de colaborar numa Monografia de Almada.
Há muitos textos seus publicados no Jornal de Almada, 2a série, dirigido pelo Padre Manuel Marques, que termina com a sua assinatura, tendo por debaixo a indicação: Monografia da Almada, em preparação.
A sua morte, súblta, ocorrlda a 25 de Maio de 1960, dia em que completava 75 anos da idade, frustrou-lhe, todavia, os intentos.
Todo o seu espólio foi recolhido pelo sobrinho, Romeu Correia, autor desta série de pequenas biografias.
Romeu Correia, atrás, o segundo a contar da esquerda, praia da Margueira.
Fotografia: Mário da Cruz Fernandes, 1935.
Imagem: As Margueiras
Muitos dos seus vastos conhecimentos sobre o concelho se perderam, uma vez que não ficaram anotados.
Mas muito material seu serviu a outros compiladores, e estudiosos de Almada, uma vez que nunca negou a sua ajuda e colaboração a ninguém.
Dele disse, muito agradecido, o Conde dos Arcos (in Caparica Atrevés dos Séculos, pag. 88): "José Carlos de Melo, natural de Almada, funcionário da Câmara e bastante conhecedor da história de sua terra".
Augusto Sant'Ana d'Araújo, José Alaíz, António Correia e outros publicistas e estudiosos de Almada citam-no também com frequência.
O próprio jornalista, arquivista e bibliotecário do antigo Ministério das Obras Públicas, Albino Lapa (1898 — 1969), incumbido pelo então presidente da Camara Municipal de Almada nos anos quarenta, Comandante Sá Linhares, de realizar um inventário de livros e documentos existentes no Município teve em José Carlos de Melo o melhor colaborador, dizendo dele: "Agora muito temos a louvar o auxilio que nos prestou o funcionário dessa Câmara José Carlos de Melo, que interessado e curioso sobre todos estes assuntos muito fez e há-de fazer que decerto amanhã a Câmara constituindo uma Biblioteca para leitura pública melhor pessoa não pode ser indicada para esse fim."
Por falecimento de seu pai, José Carlos de Meio herdou uma boa parcela de terreno da quinta do Pombal.
Uma parte fora expropriada pela Câmara de então para se edificar o bairro do Pombal, e por preço irrisório.
Cova da Piedade, vista aérea (detalhe), 1938.
Terraplanagens para a construção do Bairro das Casas Económicas (metade direita superior da fotografia).
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian
Quanto ao talhão restante, que incluía um prédio de 1° andar e uma adega, foi abusivamente anexado, e nele construiu a Câmara o pavilhão de Assistência aos Tuberculosos, sem sequer largar um tostão ou lembrar-se de lhe dirigir um simples obrigado.
Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul
E assim viveu — modesto, desprendido e utilíssimo — José Carlos de Melo, investigador e publicista da maior importância para o conhecimento de Almada e seu termo. (1)
(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.