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sexta-feira, 27 de maio de 2022

Bote Leão (o Rei dos Nordestes)

Sobre a origem desta embarcação pouco se sabe, mas Manuel Leitão, no seu livro "Barcos do Tejo", refere uma declaração, de 1965, do mestre António da Costa Cruz, proprietário de um estaleiro de construções e reparações navais, em Alcochete, referindo que (...) o "Leão. teria sido construído na Junqueira, em Lisboa, havia mais de 140 anos (...). No entanto a inscrição do ano 1781 na antepara da ré sugere que a construção é anterior e o mais provável é que tal tenha acontecido. (1)

Bote Leão de Alcochete.
aNOTÍCIA.pt

Pertencia ao Marquês de Soydos (D. António Pereira Coutinho). De acordo com o Mestre António da Costa Cruz, carpinteiro de machado em Alcochete, terá sido construído na Junqueira. Mantinha rivalidade intensa com o "Diana" (pertencente á viúva do Comendador Estêvão de Oliveira), conseguindo, por vezes, vencer a falua em bolina cercada (cf. o jornal A voz de Alcochete em 1950).

Ainda, de acordo com o Mestre António da Cruz, tinha inicialmente a popa em "rabo de peixe", como a das faluas. Foi este mestre que reconstruiu a popa, alargando a parte que fica fora de água, para evitar que se afundasse tanto, quando carregado.

A popa em rabo de peixe, Barcos de sal (Alcochete), Silva Porto, 1882.
Colecção particular em Braga

A cana do leme foi feita com o calcés do primitivo mastro de "riga" (pinho de Riga) que partiu quando se soltou o estai real num dia de nortada no rio.

Na Igreja de Nossa Senhora da Atalaia, a 7 kms de Alcochete, existe um "ex-voto" que se refere a um milagre que aconteceu no "Leão" numa ocasião de aflição.

Comprado pela Empresa Portuguesa de Navegação Fluvial (detentora do vapor "Alcochete", que fazia a carreira de Alcochete) para eliminar a concorrência ao vapor. Serviu para transportar mercadorias e pessoal de descarga do carvão de navios no cais de Lisboa.

Vapor Alcochete.
Desembarque no cais do Alfeite dos sócios da Associação Naval em 1911.
Hemeroteca Digital

Foi novamente vendido e acabou por ficar nas mãos de Manuel Brigue e, depois, de João Baptista Damiães. Após a morte de João Baptista Damiães, o bote conservou-se na praia de Alcochete, porque a viúva e os filhos lhe tinham muito amor e não tinham coragem de se desfazer dele.

Após receberem garantias de que o "Leão" não seria abatido, a família consentiu na transferência da propriedade do bote para a Sociedade que o mandou restaurar para ser oferecido ao Grupo de Amigos do Museu de Marinha.; Sociedade é formada por João Augusto Vieira, José Vieira Júnior, Manuel António de Castro e Luís Lopes Silveira.

Restaurado pelo Mestre António da Cruz antes do seu ingresso no Museu de Marinha. (2)

O bote Leão serviu a população de Alcochete até à década de 60 do século passado, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da vila, pois com as outras embarcações de Alcochete impulsionou uma intensa atividade fluvial, não só no abastecimento de mercadorias à capital, mas também no transporte de pessoas e no carrego e descarrego de navios fundeados no rio Tejo (...)

São três as emblemáticas embarcações que nesta altura faziam a ligação entre Alcochete e Lisboa: a falua Diana e o bote Leão, que em 1907 passaram a pertencer à empresa portuguesa de navegação fluvial, assim como o vapor de Alcochete, que assegurou a carreira entre as duas margens de 1904 a 1958.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Hemeroteca Digital

Só em outubro de 1917 é que o bote é registado em nome da empresa, por ter iniciado nesse ano a sua função no transporte de carga e passageiros. O bote Leão navegava à vela e a remos e tinha lotação para 26 passageiros.

Em 1925 a embarcação foi transferida para a delegação marítima do Barreiro, e o seu registo ficou afeto ao cais de Alcochete, mantendo-se propriedade da empresa até 1939, ano em que foi vendida pela quantia de quantia de vinte mil escudos a Manuel Brigue, morador em Alcochete.

Em 1941 o barco foi adquirido por João Baptista Damiães, residente em Alcochete pela quantia de vinte e oito mil escudos. Após a sua morte a embarcação ficou durante mais de uma década parada na praia de Alcochete e só em 1967 foi comprada João Augusto Vieira, um dos elementos do Grupo de Amigos do Museu de Marinha, pela quantia de oito mil escudos, que depois a ofereceu ao referido museu.

Transporte do bote Leão de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso a 27 de junho de 1967.
Museu [digital] de Marinha

A última reparação do bote Leão foi da responsabilidade do mestre António da Costa Cruz e foi primorosamente pintado por Augusto Rodrigues.

A sua última viagem realizou-se a 27 de junho de 1967 de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso, em Lisboa, onde ficou a aguardar a entrada no museu, de cujo património passou a fazer parte.

Mas a entrada tardou e o Leão apodreceu nas águas do rio em que sempre navegou. Contudo durante esse período o Museu de Marinha desenhou planos do bote que permitiram à câmara municipal recuperar a embarcação.

Cana do leme do bote Leão.
Museu de Marinha

Do bote Leão de 1781 apenas resta a cana do leme que está em exposição no Museu de Marinha. (3)


(1) In Alcochete n° 21, junho 2016
(2) Museu [digital] de Marinha
(3) In Alcochete, n° 21, idem

domingo, 9 de janeiro de 2022

António Madeira, eu sou assim

À frente do Município de que é cabeça tão famosa e a ilustrar o seu passado glorioso, não faltam a Almada, iluminando-lhe os pergaminhos, autênticos testemunhos literários e picturais da grandeza da sua história.

António Madeira, EP Isto é Almada, 1964.
Fonoteca Municipal do Porto

O pincel de alguns artistas nacionais e estrangeiros e a prosa e o verso de vários dos nossos escritores e poetas seiscentistas, além dos descritivos modernos em revistas, "plaquetes" e cromos de divulgação turística, dão colorido relevo à fisionomia da vila-cidade de Cristo Rei.

António Madeira, EP Lisboa, foto António Paixão, 1962.
Fonoteca Municipal do Porto


Não esquecer que o seu cais é o de Cacilhas — o mais belo e movimentado pórtico flúvio-marítimo da margem esquerda do Tejo, aberto, ao Norte, sobre o panorama fantástico da Capital em anfiteatro, e, ao Sul, sobre a vasta paisagem compósita e policró-mica do território da península de Setúbal.



Este novo disco de António Madeira, é concerteza, mais um cartaz gritante da propaganda turística do já famoso concelho de Almada. "Isto é Almada" "Costa da Caparica" e "Fado Cacilhas" vão constituir mais um novo êxito na carreira artística do comer-ciante e cantor Almadense.

A valiosa colaboração da Comissão Municipal de Turismo Almadense, a qual muito contribuiu para esta gravação, deixa-se aqui realçada com a justiça merecida. (1)


(1) Fonoteca Municipal do Porto

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António Madeira (Fado Cacilhas), o concurso da rainha do balcão
António Madeira (Costa da Caparica), Ondéarte

António Madeira (Fado Cacilhas), o concurso da rainha do balcão

O programa radiopublicitário "Ondéarte", uma produção do dinâmico almadense Antónto Madeira, apresenta hoje pelas 20h. aos microfones de Rádio Voz da Lisbaa. na sua rubrica "Jornal Sonoro Almadense", "A coroação da rainha do balcão almadense de 1955" e das duas princesas eleitas.

Cacilhas, Ginjal Vista aérea do Grémio, c. 1960.
OBSERVADOR

No decotrer desta festa simbólica far-se-á a entrega dos prémios ás vencedoras, que foram gentilmente oferecidos por algumas casas comerciais de Almada. A reportagem fotográfica de todos os momentos deste simpático festival radiofónico esttá a cargo do artista da fotografia "Fotex" de Almada, cujos trabalhos serão expostos nas montras deste fotógrafo em Almada e também nas montras da Sapataria Madeira em Almada.

A "rainha do balcão Almadense", é uma simpática caixeirinha de drogaria e tem 19 anos de idade. As princesinhas são elas: a menina Argentina Marques Viegas, de 20 anos, empregada na Cooperativa Almadense, e a menina Maria Lucília Batalha Alves, de 15 anos, empregada de uma casa de ferragens.

Esta foi mais uma grande iniciativa de boa propaganda que Almada fica a dever ao incansavel almadense António Madeira, que é, como se sabe, o proprietátrio da já muito popular sapataria Madeira, de Almada, a qual afirma todas as quintas-feiras ao microfone do programa "Ondéarte", que os seus sapatos não fazem calos nos pés nem rugas nos calcanhares.



Quando perguntam a António Madeira se estava satisfeito com esta sua original ideia em organizar em Almada e todo o seu concelho um concurso deste género, respondeu prontamente:

Sabe, o meu unico fim em vista é fazer propaganda desta linda e risonha Vila de Almada. Nada mais pretendo!

E para terminar, dir-se-á que feliz é a terra que destes filhos tem! (1)


(1) Diário Popular, 2 de junho de 1955

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António Madeira, Ondéarte
António Madeira o "cantor-vendedor"
António Madeira, eu sou assim

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

J. Marciano, Tanoaria e Estabelecimento de banhos no Ginjal

É um cidadão duma gordura hyperbolica o meu amigo J. Marciano. Antes do alvorescer da mocidade, já elle movia entre as mãos infantis arcos e aduelas. A julgar pelos seus olhos pequenos e vivos, que ainda hoje scintillam de alegria e bom humor, devia ser um rapaz endiabrado. Com o tempo e o trabalho o corpo, na sita forte musculatura, engrossou de tal sorte, como que avolumando-se segundo a forma dos productos da sua industria, que hoje parece um pequeno tonel. 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Casario do Ginjal



J. Marciano, porém, apesar da grande materia ponderavel, que a natureza houve por bem justapor em camadas adiposas á sua estructura, conserva ainda uma grande agilidade do movimentos, é sempre o primeiro a apparecer na sua tanoaria, onde trabalham dezenas de operarios, e nunca o sol ao nascer o apanhou na cama.

É um gosto vêl-o. em mangas de camisa, ao raiar d'alva, defronte d'esse bailo horisonte do Ginjal, que tem por fado as dentadas ameias graníticas da serra de Cintra, e no primeiro plano a magnifica foz do Tejo cristalino, é uma delicia vêl-o a destacar-se na penumbra crepuscular como um collosso de bronze, porque elle é trigueiro como um Beduíno. 

Dá as suas ordens a sessenta, oitenta, cem operarios, e toda aquella engrenagem viva de intelligencia  e vontades entra em movimento methodico, regular, preciso, como as rodas d'uma machina. É sobretudo distincto como elle mantem a desse o modo, a disciplina do trabalho. 

Nunca, no meio de tantos operarios, e n'um dos lugares mais afastados do centro do povoado, houve a minima desordem. Os operarios de J. Marciano seguem o exemplo do patrão; em regra pode dizer-se que são os mais bem comportados de Almada. 

Fabricam-se n'aquella tanoaria toneis dama grandeza collossal ao pé dos quaes o meu é como a cabana do pescador junto do Kremelin, por hypothese.

Já, em noite de borrasca, eu e uma caravana de rapazes fomos surprendidos por um d'estes aguaceiros de verão, que despejam sobre as cabeças torrentes de chuva em que se rasgam as cataratas do ceu; e salvou nos um desses toneis monstruosos, que não tinha ainda os tampos, e em que entramos á vontade, como na Arca de Noé. 

Mas a actividade industrial de J. Marciano não se limita, nem se podia limitar, a fazer toneis. Sendo o Ginjal uma das mais pitorescas margens do Tejo, lembrou-se de construir ali um chalet para banhos. 

Lisboa vista do Ginjal, Alfredo Keil.
Casario do Ginjal

Dito e feito. Tudo o que havia de carpinteiros e pedreiros em disponabilidade no concelho de Almada marchou logo para dar começo á portentosa fabrica, e em menos de tres meses uma longa casaria branca flanqueada de elegantes ogivas envidraçadas, surgia como por encanto sobre a arenosa praia do Ginjal. 

Dentro ha banhos de todas as qualidades, deste a torrente, que e despenha dos altos rochedos, até a simples "douche", desde o banho russo, ou a vapor, até á delicada immersão em urna de marmore em tepida agua perfamada. 

J. Marciano fez e ezornou aquillo com um gosto verdadeiramente oriental.

Avultam as estatuas de alabastro nos mosaicos dos nichos das piscinas; tranças de flores de nacar suspendem da aboboda de crystal petriticações marinhas, conchas das mais bellas reverberações prismaticas, naiades e ondinas, de fôrmas voluptuosas, destacam nadando no ether dos frescos das paredes; plantas aquaticas de largas folhas avelludadas fluctuam em vasos collossaes de porcelana; todo o que o requinte da arte e do luxo póde inventar para deleite da vista o do olfato ali se ostenta como palacio de fadas. 

Por isso tambem os banhos do Ginjal são boje os mais concorridos de damas, donzeis e trovadores. Fazem-se ali n'estes dois meses proximos futuros sonetos, odes e poemas, como nunca os fez a antiga Arcadia Portugueza. 

Vidal já cantou aquella praia em redondiiba maior, e Florencio Ferreira sagrou-lhe na harpa magoada uma das suas mais harmoniosas endechas. 

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Casario do Ginjal



Este anno consta-nos que ha de descer para aquellas bandas do Tejo uma constellação de poetas. J. Marciano recebe-os a todos de braços abertos, e é muito capaz de lhes abrir a torneira da fonte Castalia de qualquer dos seus mais bojudos toneis de Malvasia. (1)


(1) Diário Illustrado, 26 de julho de 1882

sexta-feira, 5 de julho de 2019

As praias obscuras

Junto de Lisboa, na margem esquerda do Tejo, encontram-se ainda alguns logares de banhos onde a vida é mais barata que na margem de cá. Taes são:

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposta do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Arquivo Nacional Torre do Tombo


A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. 

Não obstante, o auetor d' estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. 

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro v matava-os na carreira, á bala, com notável perícia.

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Cabral Moncada Leilões

O Alfeite, perto da quinta real do mesmo nome, junto de Cacilhas e da Cova da Piedade. É o mais pittoresco sitio da margem do sul do Tejo.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

A Fonte da Pipa. Logar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços. (1)


(1) Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal..., Porto, Magalhães & Moniz, 1876

Artigo relacionado:
Lagoa de El-Rei

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Almada e Val de Piedade no diário de Dorothy Quillinan

Seja o que for que tenha provocado o ataque de Byron contra os portugueses parece ter dissipado a raiva do seu sistema, pois fez anjos dos espanhóis, no seguinte passo das suas viagens. Com contrariedade específica à troça de Byron, Dorothy Quillinan, filha de Wordsworth, determinou-se "ajudar a remover os preconceitos que fazem de Portugal uma terra a evitar". A sua permanência em Portugal em 1845 foi registada num diário. (1)

Doroty Quillinan (Dora Wordsworth) (1804-1847).
The Times

*     *
*

Tomámos novamente um barco em Belém e fomos a remos até Almada, no lado oposto do rio. Aqui deixámos os nossos barqueiros, que receberam contentes a soma que tinhamos combinado por nos trazerem tão longe, e por isso lhes demos um pouco mais, "para beber"; subimos a calçada inclinada, a qual se dirige, com belas vistas abaixo e além do rio, para a pequena vila, onde as ruas são sujas, tal como Mr. Southey [Robert Southey] descreve as de Lisboa como tendo sido meio século atrás.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Pedi para ser levada a uma venda pobre, mas de aparência limpa, e aqui fomos servidos por um belo jovem, de modos superiores à sua condição, que nos trouxe água fresca, serviu-nos vinho do barril, e pôs diante de nós laranjas, mais do que aquelas que pedimos  — laranjas com folhas verdes frescas agarradas  — trouxe-nos facas e pratos, e então, como um verdadeiro cavalheiro  — pois há cavalheiros da moda na natureza  — deixou-nos comer o nosso almoço imperturbados pela sua presença  — deixou-nos na sua loja, o seu balcão a nossa mesa, na qual, num extremo, estavam empilhadas laranjas, garrafas diversas, etc. no outro, atrás do balcão, estavam vários barris grandes de vinho, e alguns, mais pequenos, nas prateleiras acima.

A sala continha pouco mais mobília — nada, creio, excepto um pequeno banco de madeira, que o mestre tirou da parede para nos sentarmos; as paredes não tinham reboco, o telhado sem tecto, o chão de terra batida; a casa apresentava um contraste com o dono que nunca encontraria em Inglaterra.

A princípio, as laranjas não estavam incluídas na sua "conta" e, quando insistimos em pagá-las, "o total de tudo" era de cerca de três "pence" ingleses. Ele saiu para a rua para nos mostrar o caminho para o castelo e, em seguida, cortêsmente deixou-nos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto (1879-1893).
Nuno Prates, Casa dos Patudos

Fomos dentro da capela de Santiago, perto da muralha do castelo. Telhado em abóboda de aresta berço (preto e branco) muito notável. O tecto do corpo da capela pintado em painéis.

Igreja de S. Tiago.
Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1826.
  Wikimedia

Um velho soldado à porta do castelo admitiu-nos, e conduziu-nos por todo o lugar. Castelo, não sei porque assim é chamado, por ser meramente uma fortificação de terra crua [adobe] facetada com pedra. O nosso guia não estava satisfeito em nos mostrar as vistas da muralha mais elevada, e em algumas partes fez-nos andar por três alturas diferentes.

O Tejo de Lisboa a Aldea Gallega é 12 milhas de largo, e por mais tantas milhas cidade acima parece mais um refúgio nascido no mar do que um fugitivo da distante e interior montanha espanhola, de onde viajou cerca de 400 tortuosas milhas, todo o caminho desde as terras selvagens de Albarracin.

Dora Wordsworth (1804-1847) Lisbon, April 14 (1846) see Journal Vol II p. 74.
Dora Wordsworth's Portuguese Sketch book (1845-1846)

As vistas desde o castelo de Almada são boas em todas as direcções: rio acima em direcção de Alhandra, mesmo devante, onde toda a cidade de Lisboa está espalhada à vossa frente, e abaixo da maré até Belém, além, e atrás da qual nascem os altos rochosos e irregulares de Cintra.

Podíamos ver as casas brancas cintilar à luz do sol. A sul está o rico vale da Piedade, de onde Sartorius toma seu título de Visconde, e onde está a sua casa convento — estranho título, estranha casa estranha e estranha história para um blue-jacket [marinheiro de guerra] inglês!

E o galante Admiral Viscount Piety tem outra propriedade conventual em Cintra. Ambas foram compradas com os fundos recebidos do governo português pelos seus serviços a Don Pedro, o subversor das instituições monásticas.

Deixámos o nosso soldado guia, dando-lhe pelo seu incómodo uma pequena gratificação com a qual ficou mais do que satisfeito. Descemos a encosta, pelo lado oposto aquele pelo qual tinhamos subido para o cais de Cacilhas, passando debaixo de muros de jardim, sobre e abaixo dos quais pendiam ramos e festões de bem cheirosas e ricamente coloridas flores de várias espécies, e através de ruas não particularmente limpas, mas não tão sujas como aquelas de Almada.

Antes de alcançarmos o cais tivemos uma multidão ruidosa de barqueiros, cada um apregoado preços  mais baixos que os outros para passagem do rio. O barulho que faziam era tão grande que não podiam escutar Mr. 's assegurar-lhes que necessitávamos de burros e não de barcos.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
O Panorama, n° 18, 1847

Por fim, quando isto foi entendido, a turbulência apenas aumentou, e realmente pensei que Mr. estava prestes a ser demolido entre barqueiros e burriqueiros, quando para minha surpresa, ele gritou para mim, "Venha, , monte este cinzento." Fui imediatamente assistida pela pessoa mais próxima, e perguntei-me por qual magia.

A tempestade foi acalmada. R montou um outro; Mr.  montou um terceiro. Forçámos o nosso caminho através da multidão, seguidos pelo nosso alto, magro, guia de olhos pretos, com o seu barrete escarlate tombando sobre o ombro direito, em direcção à vila, e então à esquerda para o vale da "Piedade". O assunto ficou então arrumado.

"Não falem mas oiçam-me. Quero três burros para nos levarem ao convento da Piedade, e darei seis vinténs cada para irem e voltarem, guia e burros esperam por nós tanto tempo quanto possa ser necessário."

Uma vez a proposta aceite pela pessoa mais próxima dele; os outros donos dos burros ficaram em paz, e pusemo-nos à estrada. Nada particularmente impressionante na aparência do vale que é rodeado de colinas suaves, algumas delas cobertas de pinheiros, sendo que em geral há uma grande procura de madeira em ambos os lados, norte e sul, do Tejo.

Passámos por dentro de um lugar que me lembrou uma aldeia inglesa, ou melhor, irlandesa, com os seus espaços verdejantes, e as suas casas franjeando o verde —  uma corrente lamacenta de água furtivamante passava-lhe através. Uma ponte muito velha e curiosa com três arcos, pequena, baixa, e circular, evidentemente romana, passava sobre a corrente para uma estalagem de aspecto inconfortável, como é costume ver-se em Stanmore com "good entertainment for man and horse" pintado em letras pretas muito grandes nas paredes lavadas de branco; aqui similarmente estava pintado "Casa de Pasto."


Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

— Passámos por várias sebes de aloés e cactos; palmeiras aqui e ali, e bonitas flores por todo o lado.  Vinte minutos de passeio trouxeram-nos ao portão do convento, que é em pedra talhada, e formoso, e sobremontado por uma cruz simples e bonita.

Muito do convento foi destruído, e a parte que resta não é formosa — um lance de pedra destaca-se, a única quebra na longa linha direita da frente. Um criado inglês dirigiu-no através do jardim, onde estava uma bonita imagem, um pequeno moinho, algo como os nossos moinhos de debulha, sombreado por um grupo de palmeiras.

Quinta dos Frades. De Paço do Desembargador d'El Rei a Museu da Cidade de Almada, António Policarpo, 2017.
Rostos

Então subimos as escadas de pedra, entrámos numa sala larga e baixa onde está uma mesa de bilhar, e onde estão pendurados retratos de santos e monges e muita relíquias curiosas de tempos passados. Voltámos à nossa direita através de uma antecâmera onde estavam pendurados mais monges e santos, e ao fim da qual está outra divisão longa e baixa, a sala de estar, com janelas nos três lados — tão bonita esta sala! uma mescla de conforto inglês com frescura portuguesa e riquezas orientais de côr e explendor.

O passatempo do almirante — o lagar de azeite — foi-nos mostrado, e também o foi o lagar de vinho, e a adega, que são as partes mais notáveis do edifício.

Apressámo-nos de volta a Cacilhas, para apanhar o vapor das três em ponto, mas felizmente chegámos um pouco atrasados

Praia de Cacilhas, The Harbour of Lisbon, Charles Henry Seaforth (1801 - c. 1854).
reprodução em colecção particular

— felizmente, porque alguns dos barqueiros barulhentos com os quais já tinhamos falado ofereceram-se para nos transportar por oito vinténs, e fizeram-no, muito agradados, no seu barco muito limpo, com a sua vela triangular, e desembarcaram-nos no "Caes do Sodre."

Passámos perto de três navios de guerra, o "Vasco da Gama," muito novo, "Ferdinando," e "Don Joao."

Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
 Internet Archive

Tudo o que pagámos pelas grandes e bonitas vistas de hoje, incluindo barcos e barqueiros, burros e burriqueiros, e vinho e laranjas, foram was 5s. [shillings] 6d. [pennies]. Não tivemos problemas com algum dos homens; eles disseram uma vez a soma pela qual se comprometiam a nos levar, estavam contentes com isso, e bem agradados com os poucos pence pagos a mais. (2)


(1) Paul Buck, Lisbon: A Cultural and Literary Companion, Lisbon, Signal Books, 2002
(2) Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... London, E. Moxon, 1847

Artigos relacionados:
Francisco Inácio Lopes
O visconde da Piedade
Fragata D. Fernando II e Glória
etc.

Mais informação:
Dora Wordsworth's Portuguese Sketch book (1845-1846)
Referências a Portugal em Wordsworth Trust (incl. Dora Wordsworth sketchbook)
Quillinan, Uma Família Irlandesa em Portugal
Biblioteca Nacional de Portugal
Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... Volume 1
Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... Volume 2

Leitura relacionada:
Robert Southey on Portugal: Travel Narrative and the Writing of History



QUILLINAN, EDWARD (1791–1851)
poet, born at Oporto on 12 Aug. 1791, was the son of Edward Quillinan, an Irishman of a good but impoverished family, who had become a prosperous wine merchant at Oporto. 
His mother, whose maiden name was Ryan, died soon after her son had been sent, in 1798, to England, to be educated at Roman catholic schools. Returning to Portugal, he entered his father's counting-house, but this distasteful employment ceased upon the French invasion under Junot in 1807, which obliged the family to seek refuge in England. After spending some time without any occupation, he entered the army as a cornet in a cavalry regiment, from which, after seeing some service at Walcheren, he passed into another regiment, stationed at Canterbury. A satirical pamphlet in verse, entitled 'The Ball Room Votaries,' involved him in a series of duels, and compelled him to exchange into the 3rd dragoon guards, with which he served through the latter portion of the Peninsular war. In 1814 he made his first serious essay in poetry by publishing 'Dunluce Castle, a Poem,' which was printed at the Lee Priory Press, 4to; and it was followed by 'Stanzas by the author of Dunluce Castle' (1814, 4to), by 'The Sacrifice of Isabel,' a more important effort (1816); and by 'Elegiac Verses' addressed to Lady Brydges in memory of her son, Grey Matthew Brydges (Lee Priory, 1817, 4to). In 1817 he married Jemima, second daughter of Sir Samuel Egerton Brydges [q.v.], and subsequently served with his regiment in Ireland. In 1819 'Dunluce Castle' attracted the notice of Thomas Hamilton (1789-1842) [q.v.], the original Morgan O'Doherty of 'Blackwood's Magazine,' who ridiculed it in a review entitled 'Poems by a Heavy Dragoon.' Quillinan deferred his rejoinder until 1821, when he attacked Wilson and Lockhart, whom he erroneously supposed to be the writers, in his 'Retort Courteous,' a satire largely consisting of passages from 'Peter's Letters to his Kinsfolk,' done into verse. The misunderstanding was dissipated through the / p.104 / friendly offices of Robert Pearse Gillies [q.v.], and all parties became good friends. In the same year Quillinan retired from the army, and settled at Spring Cottage, between Rydal and Ambleside, and thus in the immediate neighbourhood of Wordsworth, whose poetry he had long devotedly admired. Scarcely was he established there when a tragic fate overtook his wife, who died from the effects of burns, 25 May 1822, leaving two daughters. 
Wordsworth was godfather of the younger daughter, and he wrote an epitaph on Mrs. Quillinan. Distracted with grief, Quillinan fled to the continent, and afterwards lived alternately in London, Paris, Portugal, and Canterbury, until 1841, when he married Wordsworth's daughter, Dorothy (see below).  The union encountered strong opposition on Wordsworth's part, not from dislike of Quillinan, but from dread of losing his daughter's society. He eventually submitted with a good grace, and became fully reconciled to Quillinan, who proved an excellent husband and son-in-law. In 1841 Quillinan published 'The Conspirators,' a three-volume novel, embodying his recollections of military service in Spain and Portugal. In 1843 he appeared in 'Blackwood' as the defender of Wordsworth against Landor, who had attacked his poetry in an imaginary conversation with Porson, published in the magazine. Quillinan's reply was a cento of all the harsh dicta of the erratic critic respecting great poets, and the effect was to invalidate in the mass an indictment whose counts it might not have been easy to answer seriatim. Landor dismissed his remarks as ' Quill-inanities ;' Wordsworth himself is said to have regarded the defence as indiscreet. 
In 1845 the delicate health of his wife induced Quillinan to travel with her for a year in Portugal and Spain, and the excursion produced a charming book from her pen (see below). In 1846 he contributed an extremely valuable article to the ' Quarterly' on Gil Vicente, the Portuguese dramatic poet. In 1847 his second wife died, and four years later (8 July 1851) Quillinan himself died (at Loughrig Holme, Ambleside) of inflammation, occasioned by taking cold upon a fishing excursion ; he was buried in Grasmere churchyard. His latter years had been chiefly employed in translations of Camoens's ' Lusaid,' five books of which were completed, and of Herculano's 'History of Portugal.' The latter, also left imperfect, was never printed ; the 'Lusiad' was published in 1853 by John Adamson [q.v.], another translator of Camoens. 
A selection from Quillinan's original poems, principally lyrical, with a memoir, was published in the same year by William Johnston, the editor of Wordsworth. Quillinan was a sensitive, irritable, but most estimable man. ' All who know him,' says Southey, writing in 1830, 'are very much attached to him.' ' Nowhere,' says Johnston, speaking of his correspondence during his wife's hopeless illness, 'has the writer of this memoir ever seen letters more distinctly marked by manly sense, combined with almost feminine tenderness.' Matthew Arnold in his 'Stanzas in Memory of Edward Quillinan,' speaks of him as ' a man unspoil'd, sweet, generous, and humane.' As an original poet his claims are of the slenderest ; his poems would hardly have been preserved but for the regard due to his personal character and his relationship to Wordsworth. His version of the 'Lusiad,' nevertheless, though wanting his final corrections, has considerable merit, and he might have rendered important service to two countries if he had devoted his life to the translation and illustration of Portuguese literature. 
His wife, DOROTHY QUILLINAN (1804-1847), 
the second child of William Wordsworth, was born on 6 Aug, 1804. She was named after Dorothy Wordsworth, her father's sister. By way of distinguishing her from her aunt, Crabb Robinson used to call her 'Dorina.' The same writer calls her the 'joy and sunshine' of the poet, who saw in her an harmonious blending of the characteristics and lineaments of his wife and sister. 'Dora,' he wrote in 1829, 'is my housekeeper, and did she not hold the pen it would run wild in her praises.' 
She published in 1847 (2 vols, 8vo, Moxon) 'A Journal of a Few Months' Residence in Portugal, and Glimpses of the South of Spain,' dedicated to her father and mother. Wordsworth's later poems contain several allusions to Dora, and she is celebrated in particular along with Edith Southey and Sara Coleridge in 'The Triad.' She died at Rydal Mount on 9 July 1847, and was buried in Grasmere churchyard.
[cf. Dictionary of National Biography, Vol.47]

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Marrare de Cacilhas, casa de pasto e hotel da villa...

Á entrada da casa de pasto vulgarmente denominada do Marrare, estabelecida na rua da Oliveira em Cacilhas, se lê em gordos caracteres, lançados sobre enorme taboleta, o seguinte:

HOTEL DE VILLE.

E por baixo deste lettreiro

CASA DE PASTO!!

A traducção não pode ser mais elegante, nem mais fiel; porém, como seja novissima, julgamos fazer grande e relevante serviço ás pessoas que frequentão aquella villa, em as prevenir de que não obstante significar Hotel de ville, o que em língua Portugueza sempre significou — "Casa da Camara"; também hoje em idioma Cacilhense significa — "Casa de Pasto do Marrare".

Chapeo de castorinho. Sobrecasaca de panno. Calça de casimira.
Bonnet de setim. Sobrecasaca de estamenho. Calça de cassineta dobrada.
Capeo de castor. Colete de sarja de seda. Casaca de panno de senhora. Casaca de cotim.

E não será isto verdadeiro progresso? Sentimos em verdade, que o erudito Barboza [Diogo Barbosa Machado] não alcançasse o nosso tempo para mencionar na interessante Bibliotheca Lusitana [publicada entre 1741 e 1758], que nos deixou, a primorosa traducçâo acima referida, o nome do distincto traductor, o seu ninho paterno, idade e nascimento. (1)


(1) Progresso da lingua franceza, O Correio das Damas, agosto de 1839

Informação relacionada:
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume I
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume II
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume III
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume IV

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sugestões para um passeio a Almada

O relêvo de Lisboa permite que existam, espalhados pela cidade, alguns miradoiros. Integrados, por assim, dizer, no casario, sentimo-nos levados antes pelo sentido e gôsto da orientação e localização. A vizinhança dos prédios distrai-nos, a cidade apresenta-se-nos, pela proximidade, mais como um aglomerado humano que como um conjunto, mais ou menos estético, de edificações. A visão é, por todos os aspectos, parcial e reduzida.

Vista aérea de Lisboa e do Tejo em 1941.

Mas existe um ponto que pela sua especial situação é o único miradoiro sôbre Lisboa. E o espectáculo dali não é só panorâmico, é também histórico. Podem apreciar-se os estratos da formação da capital: primeiro a parte ribeirinha, a mais antiga &mdash que Lisboa nasceu com o mar; depois as épocas vão desfilando, concretizando-se em diferentes manchas de côr e aspecto; lá para o fundo, quási a adivinhar-se já, a parte moderna, as novas veias que de há cêrca de quinze anos se vem enriquecendo. 

Acompanhando o colear da fita maravilhosa do Tejo, Lisboa estende-se, indolente; indolente só em aparência, porque até n6s chega, aqui, à outra margem, o incessante rodilhar dos guindastes nos cais.

Almada, Vista Parcial (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Delcampe, Bosspostcard

Pelo rio, veleiros e vapores não param. Cargueiros fundeados lembram a guerra distante: ali um da Cruz Vermelha Internacional, mais perto outro, da frota mercante da Suíça, país que tem Lisboa por principal pôrto ele mar... e mais, e mais...

Lá ao longe, envôlta em bruma e beleza, a serra de Sintra.

*
*      *

Pois êste ponto da margem esquerda do Tejo, de onde Lisboa melhor se pode compreender e admirar, é Almada. E se Almada é, pois, pela sua natural situação geográfica, o único miradoiro sôbre lisboa, é lógico que para ela se voltem as atenções do turismo.


Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Delcampe, Bosspostcard

No fundo do problema - não tendo permitido até hoje a realização de qualquer obra de vulto — está a falta de água. Falta de água, drama de uma terra encostada a um dos grandes caudais da Europa. Mas a questão está a solucionar-se e dentro de alguns meses a água, trazida de longe, percorrerá a vila, subirá às habitações, revivificará os jardins.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
O Pharol

Por outro lado, a vila é suja e pobre. O primeiro aspecto parece poder resolver-se com a água, com uns quilos de argamassa a rebocar faltas pelos prédios, e com umas latas de tinta ou de lusitana cal; porém, o nível de vida da população, (na maioria operariado das emprêsas fabris marginais), não lhe permite êstes gastos, embora relativamente pequenos, nem os próprios senhorios estão em condições de cumprir posturas que os obriguem a dispendiosas e freqüentes beneficiações nas suas propriedades.  A uns e a outros terá, decerto, de ir o auxílio do Estado.

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel,
Mário Novais, 1946.
Fundação Calouste Gulbenkian
Há pequenos pormenores, porém, que são de fácil e importante remedeio. Dois exemplos: um pequeno quadrado de terreno, com um máximo de três portas nos seus quatro lados, merece a pomposa designação de Largo e, para mais, Largo de Fernão Mendes Pinto... Se não existisse qualquer letreiro, (dado que o podemos considerar como parte integrante da rua que o gera), notar-se-ia menos; mas a impressão é tanto mais penível, quanto ela nos atesta ingrata homenagem ao delicioso autor da "Peregrinarão".

Perto desse «largo» existe um prédio, de dois andares, de miserável aparência; reparando depois melhor, vemos não ser um prédio, mas a sua fachada somente. O prédio foi demolido, a fachada ficou servindo de muro. Ora, quero crer que se abatessem essa fachada e vendessem a alvenaria, o produto da venda cobriria as despesas a fazer com a construção de um simples e caiado muro.

Vejamos, agora, algumas possibilidades turísticas e de arranjo estético. Existe um pequeno miradoiro, gracioso quanto à arquitectura, ao qual falta uma pequena latada, se bem que tenha o travejamento para ela. E quero ver ainda nessa falta o problema da água. Mas uma só varanda não basta. A esplanada do Castelo... Já que falamos em Castelo, é justo perguntar que Castelo é êsse que, conquanto exista nos indicativos quilométricos da estrada e esteja ligado à história da Fundação de Portugal, por mais que o busquemos, se não distingue? Talvez que seja essa arte da guerra moderna, a camuflagem, que o esconde aos olhos dos profanos!... Urge restaurá-lo, para que as paredes que ainda restam dêle se nos não apresentem como as ruinas de um velho palheiro.

No miradouro de Almada, 5/X/1946.
Delcampe

Pois ia-vos falando da esplanada do Castelo: não seria justificável a construção, aqui, de um novo miradoiro, já que o sítio é alto?

Bastante acima do nível do Tejo, encravada na montanha que ali é áspera, há uma edificação, que não sei se teria feito parte do Castelo e que hoje pertence à Câmara de Almada. Aí, uma nova varanda, talvez a mais bela, deveria ser aberta. O Município tinha pensado já em a aproveitar para restaurante, ou mesmo pousada. É um caso merecedor de estudo, tanto mais que ainda não está na zona que as leis militares indicam como pertencendo à influência do Forte.

Almada, jornal "O Século" edição especial, 1940.

Um rochedo, a quinze ou vinte metros da margem, se estivesse ligado a esta por uma estreita ponte e possuísse condições artificiais de segurança, deveria transformar-se num local magnífico para os amadores de pesca à linha. 

Pequenas-grandes coisas a fazer... Mas tantas outras havia, que o espaço não nos deixa sugerir!

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Além, sôbre Lisboa, as sombras vão-se alargando e estendendo, vão ganhando uma tonalidade violeta; dentro em pouco, aqui e ali acender-se-ão as primeiras luzes e, mais tarde, ainda há-de Lisboa cintilar em milhares de janelas, em clarões que sobem das avenidas e das praças. Abaixo de mim, um barquito a remos faz singela cabotagem, transportando barris.

DC3 da TAP sobtre Lisboa, década de 1950.

No forte, lá no alto no mais alto de tudo que nos rodeia desenha-se nitidamente contra o azul do céu uma sentinela que vigia. Sôbre tôdas as coisas paira a recordação das chamas que consumiram o palácio de Manuel de Sousa Coutinho. (1)


(1) Panorama, revista portuguesa de arte e turismo, n.º 17, Outubro 1943

Artigos relacionados:
Homens de água e luz
Almada 1945-1965

domingo, 14 de outubro de 2018

Largo da Piedade

Uma vista antiga do Largo da Piedade, muito antes de se chamar "5 de Outubro de 1910". Nota-se uma autentica burricada a que não faltavam os lisboetas de cartola e o burriqueiro, a pé, que controlava o desfile.

Uma Burricada [Cova da Piedade], ed. Paulo Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.

À esquerda uma carroça que sobe a velha estrada das Barrocas e à sua frente o pátio do Zé da Amora, onde vivia além de outras famílias, a Tia Maria Céu, vendedeira da tradicional fava-rica. 

O prédio frontal pertencia ao Crisógno da Fonseca Coelho, onde também possuia taberna e mercearia. Este edifício veio a ser demolido,mais tarde, para dar lugar à nova avenida Piedade-Laranjeiro.

A outra carroça vai entrar na Rua do Brejo, mais ou menos defronte da tasca do João Guerreiro, que não se vê na foto, e onde os lisboetas e outros de veraneio se banqueteavam com os deliciosos "menús". (1)


(1) InfoGestNet

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Restaurantes no Ginjal

Não sabemos se o leitor já adivinhou que estamos no Ginjal, à beira-rio. O nosso olhar foge-nos para o cenário maravilhoso da cidade, que nos fica em frente envolta numa poalha luminosa de fim do tarde a recortar o seu perfil caprichoso num fundo azul cobalto.

Cacilhas, ed. Manil, 3010 Q.
Delcampe

Depois, ficamos por momentos a observar os pormenores decorativos dos restaurantes típicos de margem: conchas coladas nas paredes, tanques contendo peixes ainda vivos, como nos mercados chineses, crustáceos de várias espécies marinhas, que dariam motivo para sôbre tão expressivo terna se escrever vivas páginas naturalistas... 

Vista aérea do Cais do Ginjal, c. 1960.
OBSERVADOR

Nota-se nos rostos e no ambiente característico que envolve êste lugar de refúgio, certa expressão saudável e de desprendimento. (1)

Cacilhas, Ginjal, década de 1940 (Secretariado de Propaganda Nacional).

A restauração é uma das atividades que mais fama deu ao Ginjal. A notícia que em 1931 [19 de julho] se lê n'O Almadense, sob o título "Os restaurantes do Ginjal vão-se civilizando", mostra que há muito se criara o hábito de aí procurar boa comida e boa bebida [...] 

Êste atencioso servidor e os vermelhos crustáceos tentam...
Um pela gentileza; as lagostas pela gula que despertam

"Os toldos de serapilheira que lhes tapavam as portas noutros tempos e a fila de fogareiros de barro onde se assavam sardinhas e se abria o marisco, tudo isso desapareceu para dar lugar a casas decentes onde decentemente se pode comer"

Uma tabuleta que é uma indicação gulosa aos que apreciam as caldeiradas

Criam-se assim condições para que cada vez mais pessoas se desloquem propositadamente ao cais para apreciar os petiscos preparados nos vários restaurantes da zona. 

Não  se mexam agora...
Riam um bocadinho... pronto...
Vão ficar mais bonitos do que a minha sogra

"Do lado de Cacilhas, estes ocupavam logo os primeiros edifícios"

Á porta do Floresta do Ginjal, 6 de agosto de 1940.
"patuscada de sardinhas e caldeiradas de lulas"
Delcampe, Bosspostcard

"Começando aqui pelo princípio do Ginjal, há o Farol, que era dantes a Fonte da Alegria, que era uma tasca. Foi sempre uma tasca que deu muito dinheiro… Aquilo a vender sandes e copos era um disparate!" […]

Hispano-Suiza de D. José Anadia em Cacilhas de partida para Sevilha, em 1912.
Restos de Colecção

"Depois, onde está aquele restaurante baixinho, era o restaurante da Maria Vagueira."

Aperitivos populares – os burriés e os camarões –
ainda são mais apreciados e, também, os mais acessíveis

Depois a entrada da Floresta era aquela entrada que ia dar a uma tasca lá por cima, pela Rua das Terras" […]

Vai já... Vai já...assim se anuncia, através do
característico "hall" aos impacientes "gourmets"

"Depois a seguir havia um restaurante que era o Pepe" […] 

"Depois ainda havia o Pita, que era o restaurante Abrantino no primeiro andar, [que] ardeu, e por baixo outro restaurante que era a Palmira das Batatas" […]

Cacilhas, uma família em 1940.
Delcampe, Bosspostcard

"Depois ao lado era o Gonçalves […] e a seguir era o restaurante da espanhola. Era a mãe da Madalena Iglésias. Ao fundo do cais ainda havia o Ponto Final."

"O Floresta do Ginjal […] era assim chamado por ser todo tapado com folhas de parreira, permitindo a realização de grandes festas com fados" […] (2)

Cacilhas, Restaurante Floresta do Ginjal.

Para finalizar este pequeno artigo da melhor maneira, aqui se recordam os principais restaurantes que funcionaram no Ginjal, quase todos ocupando então os primeiros edifícios à entrada do Cais e que abriram as suas portas a partir da década de 30, referenciando-se por ordem sequencial, no sentido de Cacilhas para a Fonte da Pipa:

Lisboa vista do Cais do Ginjal, Cacilhas (detalhe), Horácio Novais.

Maria Vagueira / Floresta do Ginjal (Out. 1934) / Os Bagueiras / Palmira das Batatas, (Abril 1935) mais tarde "O Grande Elias" / Tomé Pita (Out° 1934) mais tarde "O Abrantino"

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Biblioteca Nacional de Portugal

/ O Gonçalves (Jun 1939) / Conchas do "José da Avó" (Mar° 1939). (3)


(1) Mundo Gráfico, 15 de abril de 1944
(2) Elisabete Gonçalves, Memórias do Ginjal, Centro de Arqueologia de Almada, 2000
(3) Os restaurantes no Ginjal, O Pharol n.° 8, dezembro de 2008

Artigo relacionado:
Na esplanada do forte de Cacilhas
O corredor do Ginjal

Mais informação:
Alexandre Flores no Facebook (O Ginjal antigo e os seus restaurantes...)
Alexandre Flores no Facebook (A famosa «Estrêla do Ginjal»...)