O vapor da carreira dá signal, e a primeira escuma escachoa-lhe das rodas, no instante em que rente do caes uma fragata passa, com uma especie de deus marinho á ré, puxando a vela, emquanto o resto da companha desvia com arpões o costado da pesada traquitana, e o cão de bordo agita a cauda aos flavores da caldeirada que no convez refoga alegremente, sobre um lumareu jovial de pinho e d’urze. (1)
Gostaria de comentar que nesta caldeirada não entrava a batata. Como elementos principais apenas o que era pescado no Tejo, a cebola e o tomate.
O peixe era basicamente o safio, a raia e a tremelga, a que chamavam "galinha do mar", a irós, o xarroco e, às vezes, corvina quando apareciam "enjoadas" à tona da água.
Lisboa vista do Cais do Ginjal, Cacilhas (detalhe), Horácio Novais.
O cozinhado era feito num alguidar de barro que mais tarde passou a ser em tacho, também de barro. Os ingredientes eram colocados em camadas, a cebola, o tomate e o pescado, por esta ordem e tantas quantas fossem, dependendo do número de comensais e não se mexia, apenas se girava (agitava) o recipiente. (2)
A Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau [SNAB] completou a construção de uma nova fábrica para produção de óleo de fígado de bacalhau no Ginjal, Cacilhas, no município de Almada.
A fábrica consiste em três edifícios: (1) o laboratório, escritórios e edifícios administrativos; (2) a própria fábrica; e (3) abrigo para tanques de armazenamento.
A capacidade de produção é de cerca de 30 toneladas de matéria-prima por oito horas diárias, variando de acordo com o número de tratamentos efectuados.
A capacidade de armazenamento é de aproximadamente 1.100 toneladas, de acordo com um despacho de 30 de agosto da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa.
A fábrica está equipada para neutralizar ácidos gordos livres; limpeza e secagem; desodorização parcial; filtragem; e extração de estearinas e outros
resíduos. Tratamentos ainda mais especializados podem ser realizados no futuro.
A fábrica está ainda equipada com uma grande secção para encher, rotular e embalar as garrafas com um nível elevado de produção e pode processar o óleo
de fígado de bacalhau para qualquer uso conhecido, seja para nutrição humana ou animal. (1)
Um importante documento que, possivelmente, marca o início da distribuição do óleo de fígado de bacalhau nas escolas, sobretudo para os alunos mais carenciados, constitui a Circular nº 2628 de 4 de Janeiro de 1956. Como consta nessa circular que chegou às escolas naquele ano:
"Os serviços da Direção Geral do Ensino Primário, estão a distribuir pelas cantinas escolares do Distrito, elevado número de frascos de óleo de fígado de bacalhau, destinado a completar a alimentação das crianças pobres que são beneficiadas por aquelas instituições. Em cumprimento de despacho superior determina-se aos senhores diretores das cantinas citadas:
1º.) - que promovam seja efectuada pelos agentes de ensino a conveniente propaganda no sentido de se ensinar aos estudantes a utilidade do uso do óleo de fígado de bacalhau;
Rótulo para frasco.
2º.) - sejam conservados, cuidadosamente lavados, os frascos do óleo, depois de vazios, tendo em conta a futura utilização; as embalagens devem ser cuidadosamente conservadas;
3º.) - que informem diretamente a Direção sobre a data do recebimento, número de frascos e despesa que, porventura, tenham efectuado com o transporte."
Crianças de Bradford Inglaterra tomam dose de medicamento. PostcardEddie
Segundo as fontes consultadas, distribuía-se o óleo de fígado de bacalhau “DÓRI”. Este óleo era dado diariamente na sala de aula aos alunos com vista ao melhoramento da sua condição nutricional e de saúde. (2)
Álvaro Martins Homem (1941), Argus (1983-94). Arrastão de aço, construído no estaleiro da Companhia União Fabril, Lisboa (C107), em 1941, para SNAB, Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau.
"Estuário
do Tejo
- Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do
Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da
classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO
MARTINS HOMEM, da SNAB" cf. Navios à vista, edição Santuário do Cristo-Rei, Henrique Santos
Custou 6.285.345$92, equipado e com o motor foi avaliado em 10.835.345$92. Foi registado em Lisboa a 12 de Julho de 1941, com o nome de Álvaro Martins Homem, com o número G419 e com o indicativo CSGV.
O navio tinha 1.250,15 tab e 623,26 tal. O casco tinha de comprimento 65,70 metros, 71,13 de comprimento ff, 11,04 de boca, 5,00 de pontal e 5,23 de calado. Estava equipado com um motor Diesel, marca Fairbanks-Morse, tipo 37D16 fabricado em 1940, de 7 cilindros, a 2 tempos e com a potência de 950 HP.
Com um hélice, o navio atingia a velocidade de 11 nós. Dispunha de tanques para 392 m3 de Diesel Oil e capacidade para 1.314,6 m3 de peixe salgado, ou sejam 18.008 quintais de bacalhau.
Arrastão Álvaro Martins Homem.
Baseado no desenho nº1154 dos estaleiros Navais da CUF, 1939, existente Museu de Marinha Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993)
Era tripulado por 8 oficiais e 64 outros tripulantes. Realizou a primeira campanha em 1941, capitaneado por José Nunes de Oliveira. Foi autorizado a realizar viagens de comércio de 14 de Setembro de 1942 a 15 de Fevereiro de 1943. A 8 de Janeiro de 1946 recebeu o número LX-10-N320. Em 23 de Fevereiro de 1956 as arqueações passaram a ser 1.256,43 tab, 596,91 tal e 1.510 tm de porte. Foi suprimida a capacidade de arrasto a bombordo e substituído por alojamentos em 1964?. O parque da pesca foi coberto em 1971?. As arqueações passaram a ser 1.250,15 tab e 623,26 tal.
A partir de 1977 foi imobilizado no Tejo aguardando a transformação para a pesca com redes de emalhar. Em 23 de Março de 1983 foi adquirido pela Parceria Geral de Pescarias, Lda.
Em 28 de Setembro de 1983 foi registado em Ponta Delgada com o nome de Árgus e com o número PD-449-N. Foi transformado em navio de pesca com redes de emalhar com quatro lanchas e parcialmente congelador em 1989 para 223 toneladas, para a qual foi pedido um subsídio321. Apesar da modificação, manteve os aros de arrasto e o guincho. Em 6 de Setembro de 1989, foram averbadas as arqueações 1.255,26 tab e 586,26 tal. Voltou à pesca em 1989, capitaneado por Armando Vieira Lau. A 7 de Setembro de 1993 regressou da última viagem. Foi demolido em Alhos Vedros. O registo foi cancelado em 5 de Abril de 1994. (1)
Pedro de Barcelos (1945), Labrador (1983-1993). Arrastão de aço
construído no estaleiro da Companhia União Fabril (C118) em Lisboa, em
1945, para a SNAB, Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau.
Foi
lançado em 12 de Maio de 1945, juntamente com o João Álvares Fagundes.
Custou 7.011.150$00, equipado e com o motor foi avaliado em 18 mil
contos. Foi registado em Lisboa em 7 de Agosto de 1945, com o nome Pedro
de Barcelos, com o número LX-17-N e com o indicativo CSDL. O navio
tinha 1.269,45 tab, 660,27 tal e 1.430 tm de porte bruto. O casco tinha
de comprimento 66,05 metros, 71,45 de comprimento ff, 64,00 entre pp,
11,03 de boca, 5,00 de pontal e 5,45 de calado. Estava equipado com um
motor Diesel, marca Mirrless, com o nº 5882/42, fabricado em 1944, de 8
cilindros e com a potência de 950 HP a 250 rpm. Com um hélice de 4 pás, o
navio atingia a velocidade de 11 nós. Dispunha de tanques para 431 m3
de Diesel Oil e capacidade para 1.327,4 m3 de peixe salgado, ou sejam
18.183 quintais de bacalhau.
Era
tripulado por 7 oficiais e 66 outros tripulantes. Realizou a primeira
campanha 1945, capitaneado por José Nunes de Oliveira. Foi instalado um
novo motor Diesel em Halifax, da marca Cooper-Bessemer tipo LS8DR, nº
3861, fabricado em 1947, de 8 cilindros e 300 rpm. Com 1.000 BHP e 12
nós de velocidade. O motor original foi montado no navio de pesca à
linha Sam Tiago então em construção para a SNAB. Em 2 de Maio de 1953,
foram averbadas as alterações do aparelho motor. Em 8 de Maio de 1964,
foram averbadas as seguintes alterações, resultante do fecho da borda a
bombordo a ré, 1.399,31 tab e 736,88 tal. O motor passou a
sobrealimentado e com 1.320 BHP. Em 15 de Junho de 1976 foram averbadas
as arqueações, resultante do fecho do parque de pesca, para 1.458,24 tab
e 781,39 tal.
Foi imobilizado no Tejo em 1977,
após incêndio que lhe destruiu a ponte. Não voltou a navegar. Foi
vendido à Parceria Geral de Pescarias em 26 de Março de 1983.
Foi
registado em 28 de Setembro de 1983 em Ponta Delgada como Labrador e
com o número PD-450-N e com as novas arqueações, 1.299,80 tab e 662,86
tal. Foi pedido um subsídio para modernizado e conversão em navio para a
pesca com redes de emalhar. A quota de pesca na NAFO, deste navio foi
usada pelo Neptuno. Foi pedido o seu abate 1986330. Em 25 de Maio de
1993, foi considerado demolido, por Baptista & Irmão, Lda. (2)
Parece que não será no edificio do sr. Raton, mas na Outra-banda, no sitio de Olho-de-boi, que a companhia de "Fiação e Tecidos" vai estabelecer a sua fábrica. N'este último local esteve a fábrica de "lanificios de patente" [panos de feltro?], empresa que está em liquidação.
Em qualquer sitio porém que a companhia de "Fiação e Tecidos" se estabeleça, fazemos votos pela sua prosperidade. (1)
Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [fundada em 1838], armazéns, rua dos Fanqueiros 135, Lisboa.
Fonte da Pipa — Almada,
Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem
Tecidos de algodão. Esta companhia tem três fábricas: duas em Santo Amaro, Belem, para a fiação e tecelagem; uma em Olho de Boi, Almada, para a fiação e tinturaria.
Operários (durante as épocas normais): 285 do sexo masculino e 465 do sexo feminino.
Salários: de 280 réis a 800 réis por dia para os homens; de 420 réis a 240 réis por dia para as mulheres; de 80 réis a 460 réis por dia para os menores.
Produção anual: 385 contos de réis mais ou menos. Escoamento: os de Portugal e colónias de África, Brasil e Espanha.
Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem
Medalhas nas esposições de Lisboa 1849, Porto 1861, Lisboa 1863, Londres 1861, Londres 1862, Paris 1855, Porto 1865. (2)
* *
*
CPP (Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa)
E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os
frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails
para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco
badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da
Companhia Portuguesa de Pesca. (3)
Olho de Boi, Companhia Portuguesa de Pesca, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa
A Companhia Portuguesa de Pesca foi fundada no ano de 1920 por quarto pequenos armadores de pesca de arrasto, cada um proprietário de um navio.
Esta Companhia surgiu num contexto de expansão da indústria conserveira e piscatória.
Inicialmente, os navios dedicados unicamente à pesca por arrastão costeira funcionavam a partir do cais de Santos, na margem norte, em Lisboa. devido ao pouco espaço na margem direita do rio Tejo, por estarem já implantadas algumas das importantes unidades fabris e devido à manutenção e aparelhagem dos navios, a direcção decidiu que era necessário construírem infra-estruturas de apoio.
Arrastões da Companhia Portuguesa de Pesca, Alcatraz e Liberal Primeiro, na Doca 1 da C.U.F., em Lisboa.
Imagem: Caxinas a freguesia
O local escolhido foi a margem esquerda, no Olho de Boi em Almada.
Numa primeira fase, foi celebrado um contrato de aluguer com a Administração Geral do Porto de Lisboa para a zona ribeirinha na margem sul, que ia desde o início do caminho para Almada até à Quinta da Arealva.
Nesta zona encontrava-se já uma muralha, que permitia a acostagem dos arrastões. Esta foi alargada mais tarde com a construção de um cais, assente em pilares, que avançou umas dezenas de metros em relação à estrutura existente, sendo assim possível atingir área profunda e portanto mais favorável à manobra das embarcações.
Lançamento à água do arrastaõ Almada em 1953.
Foram gémeos do Almada na Companhia Portuguesa de pesca os arrastões Alfama, Ajezur, Alvalade e Alfeite.
cf. Navios à vista
A escolha deste local deve-se também ao facto de se encontrar aí um edifício desactivado, que pertencera à Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses, passando este edifício a ser a zona de mecânica da CPP e o pólo das restantes estruturas fabris posteriormente construídas.
Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões
Esta fábrica era uma das unidades industriais cujo aparecimento na segunda metade do séc. XIX foi um dos marcos da industrialização na margem sul.
Navios no cais do Ginjal, Real Bordalo, 1976.
Imagem: eBay
A CPP adquiriu este edifício, assim como algumas quintas contíguas, que se estendiam entre a orla ribeirinha e a arriba.
Cais do Ginjal, arrastões Algol e Alcoa da CPP, 1984.
Imagem: Nuno Bartolomeu
Alguns anos mais tarde a companhia expandiu-se ao longo da zona ribeirinha, para Este, até ao cais da Fonte da Pipa [...] (4)
"Estuário do Tejo - Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO MARTINS HOMEM, da SNAB / foto de autor desconhecido, gentilmente cedida por Nuno Bartolomeu."
cf. Navios à vista
Resolução do Conselho de Ministros n.º 30/84
Pelo Decreto-Lei 139/84, foi extinta a CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, S. A. R. L., tendo o Estado exercido o direito de reserva relativamente a alguns bens do património da empresa, abrangendo navios, participação financeira e direitos de crédito, com a possibilidade de os mesmos serem afectos a outras empresas [...] (5)
Art. 5.º - 1 [Decreto-Lei 139/84]- Ao abrigo do n.º 2 do artigo 44.º do Decreto-Lei 260/76, de 8 de Abril, o Estado reserva, do património da empresa, o seguinte:
Por todo este almaraz ao terreno ondulando, Tal como ondula o mar, quando o tempo está brando. Nos contrastes de luz, no variado matiz, Nenhum lhe dá de rosto em volta do paiz.
The Praҫa do Comércio Lisbon, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams
As folhas dos trigaes, vinhedos e pomares, Pendendo para o mar á beira dos algares.
Val de Flores, Rosal, a fecunda Sobreda, Conservando a azinhaga e a sombria vereda.
As "Villas de Azeitão", o medo de Albufeira, A Charneca, formando uma enorme clareira Cingida de pinhaes. No gracioso recorte, Cintra, no seu perfil, campeando sobre o norte.
A Arrábida domina ufana o Sado e Tejo. Não tem outra rival por todo esse Alemtejo.
Vista do Tejo tomada de Belém, Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams
O Atlântico á barra. O rio, a desaguar, Funde na vaga azul a tinta verde-mar.
Seja em que ponto for é relancear a vista; Sempre, no vasto quadro, uma nota imprevista.
Pescadores no Tejo, Fishermen at work off the mouth of the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams
Rompe um formoso dia. O mar azul e manso. Vem as redes á Costa, e com soberbo lanço.
De toda a povoação, e remotos casaes, As recovas lá vão a travez dos juncaes.
Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams
E a trepar a ladeira, — a saia coruscante, A cestinha á cabeça, o lenço fluctuante, — Correm, com seus pregões, á venda, as raparigas, Pregoes que têm um tom de jovenis cantigas!
Cae a noite. O farol, as frechas rutilantes, Atira pelo oceano e guia os navegantes.
Vista do Tejo e do Forte de S. Lourenço, Bugio Castle, the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams
Accendem-se também Bugio e Sam Julião. A cidade illumina, e reflecte o clarão No Tejo que lá vae, na veia crystallina, Levando, a scintillar, o véo da tremulina. (1)
Um desenho bem simples e genuinamente portuguez: A muleta de pesca, deslisando á superficie das aguas, desfralda ao vento as ponteagudas vélas e deixa ver a seu bordo os arrojados tripulantes, ao longe descobre-se a linha da terra, e no ultimo plano accumulam-se os tons da atmosphera.
Quantas idéas, porém, desperta este singelo quadro a quem sobre elle attenta!
Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital
O barco, como assumpto principal, representado no seu conjuncto pelo casco, leme, mastro, vergas, cabos e vélas, synthetisa a arte nautica, que arrancou ao engenho humano um domicilio e um meio de transporte no vasto liquido que cobre o globo, assegurando a existencia e o isolamento d'aquelles que lhe confiam as suas vidas;
o mar, elemento magestoso e profundo, repleto de mysterios e tempestades, lança no espirito de quem o contempla uma preoccupação vaga, mistura de receios e encantos, que provoca á meditação;
os pescadores, nas suas melancholicas attitudes, fazem recordar as desoladas familias, que deixaram nos lares em afervorada prece, unico amparo que lhes fortifica os animos; a terra, ao longe, aviva a saudade, conduzindo á reminiscencia do passado;
e a atmosphera limita o pensamento, não permittindo sondar o espaço indefinido, que a imaginação intenta traspassar, em poderoso vôo.
D'esta multidão de idéas associadas e impressões commoventes, resulta um amplo quadro, delineado em um sem numero de motivos, que o tornam complexo e grandioso.
Já o mar, impellido pelo vento, encrespa a superficie; monticulos de plumbeas vagas, recortadas por franjas de branca espuma, balouçam a muleta, que completamente alagam, fustigando ao mesmo tempo os tripulantes, que ensopam até á medula.
O aspecto carregado do céu atemorisa os pescadores; ouvem o ranger do apparelho, sibilando gemidos que entibiam os animos; e, ora fortalecidos pela experiencia de longos annos, ora sobresaltados pela lembrança das mães, mulheres e filhos, que ficam ao desamparo, proseguem na dura faina.
Entra a vaga com furia, destruindo a borda; rasga-se a véla grande; está o barco desmastreado; pesada nuvem despejou em catadupas a abundante agua que transportava; exgotam á força de braços energicos e possantes o liquido que faz adornar a muleta; desenrascam o mastro e a véla, e aguardam serenamente o destino que a providencia divina lhes reserva.
Mas, já descobre o céu velho, tinto de azul escuro, velado, em grande parte, pelos vapores esbranquiçados que correm suspensos no ar. Um primeiro raio do sol, e, em seguida, todo o feixe luminoso, bate em cheio no maravilhoso quadro, illuminando os tons, aquecendo as côres, e dando vida e alento aos tripulantes.
O vento amainou; a ondulação vae diminuindo pouco a pouco de amplitude; os pescadores sacodem os encharcados fatos, e preparam o mastro e o panno. Já verdeja a collina e rescende o perfume da vegetação marginal; as mães riem para os filhos, que fazem saltar nos braços, e os pobres operarios do mar sentem nova vida invadir-lhes o endurecido organismo.
Entre os variados typos de embarcações portuguezas, possue certamente um original sabor artistico a "muleta" usada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro, para o lançamento da muito antiga rede de arrastar a reboque pelo fundo, denominada "tartaranha".
A muleta tem o fundo largo e chato; a proa, excessivamente boleada, remata em arrufado be-que; a popa, muito inclinada, recua em cima; caracteristicos estes que, juntos ao grande amassa-mento dos flancos, dão ao casco o aspecto de uma tosca naveta normanda do seculo XIII.
Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital
O apparelho da muleta compõe-se de um mastro, muito inclinado para vante, onde iça a verga de uma véla grande triangular, latina, e de dois compridos paus, denominados batelós, deitados pela proa e pela popa, que servem para amurar e caçar as outras vélas, e, ao mesmo tempo, para nas extremidades amarrarem os cabos que seguram a rede, quando esta funcciona.
Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital
Á ré, caça no extremo do batelós um triangulo, que iça na penna da véla grande, denominado varredoura de cima, e, por baixo, outro, a varredoura de baixo; e em estaes que vão da cabeça do mastro pai:a a roda de proa e para o batelós de vante, içam umas seis a sete pequenas vélas, chamadas toldos, muldins, varredoura e cozinheira, que, segundo o seu numero, compensam o effeito das vélas de ré, quando a embarcação se mantem atravessada, durante a pesca.
As muletas largam a rede proximo da emboccadura do Tejo, no começo da enchente, e, mareando o panno, vão caindo ao longo da costa da Trafaria e margém do sul, montando o pontal de Cacilhas e continuando a derivar pelo Mar da Palha, até terem completado o lance, recolhendo então a rede, e apanhando o peixe que vem no sacco.
Uma fragata inglesa de través
frente à margem sul do Tejo com pequenas embarcações nas proximidades,
Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões
Outras vezes, arrastam fóra da barra, desde o largo até á enseada de Entre Cabos. Este typo de embarcações vae acabando, a ponto de actualmente existirem apenas duas. Tem sido substituido pelos modernos bateis, que pescam pelo mesmo systema.
No museu de archeologia naval de París, ha um modelo reduzido da nossa muleta, que o ministerio da marinha offereceu áquelle estabelecimento; e mais dois outros modelos figuram nas collecções da escola naval, e do museu marítimo da escola industrial Pedro Nunes, de Faro.
Muleta, modelo da Escola Naval que pertenceu ao Museu de Marinha (1896).
Imagem: Internet Archive
A rede tartaranha, empregada pela muleta, consta de um sacco com malha muito miuda, alargando para o lado da bôcca, onde ligam duas bandas de rede, muito compridas e estreitas, na extremidade das quaes amarram os cabos que sustentam o apparelho dentro de agua, e que recebem o nome de alares.
O sacco tem duas costuras convergentes, prendendo a face de cima á de baixo, formando uma garganta afunilada e dois cantos triangulares, denominados beliches, onde o peixe se accumula sem poder sair, na occasião de suspender a rede. A tartaranha constitue uma variedade muito notavel das artes de arrastar, sendo em Portugal unicamente empregada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro.
Velame do bote-da-tartaranha: 1. Varredora de cima; 2. Varredora de baixo; 3. Grande; 4. Pano da vara; 5. Polaca; 6. Varredora da proa; 7. Cozinheira; 8. Cozinheira; 9. Toldo.
Imagem: Maria Lucia De Nicolò, Tartane cf. E. Curtinhal, Barcos, memórias do Tejo, Ecomuseu Municipal do Seixal 2007
Imagine-se este phantasma colossal, com o enorme ventre dilatado, a bôcca escancarada, os braços estendidos, movendo-se no abysmo oceanico, engulindo milhares de seres differentes, e esmagando, com o pesado corpo, tudo que encontra na sua devastadora digressão pelo fundo.
A acção destruidora deste gigantesco engenho do mal exerce-se sobre a vegetação submarina; sobre os ovulos e germens das mais preciosas especies, que nas plantas encontram auxilio para o seu desenvolvimento embryonario; sobre a fauna e flora, que servem de alimento ás especies novas e adultas; e sobre a propria colheita, que, na maior parte, fica inutil para qualquer applicação proveitosa.
O damno causado por estas redes, tem dado logar á promulgação de diversas medidas repressivas do seu exercicio, desde 9 de abril de 1615, data do primeiro alvará que as prohibiu por tempo de oito annos, para favorecer os pescadores do alto, da cidade de Lisboa, contra os que pescavam com as ditas redes, procurando remediar a falta de pescado, que attribuiam ao uso das tartaranhas.
E, como a arte, na sua progressiva evolução, nem sempre dá resultados beneficos, acontece que este systema de exploração dos seres que habitam as aguas, se tornou ainda mais nocivo com o emprego da navegação a vapor no arrastamento do immenso sacco, imprimindo-lhe maior velocidade e intensidade de acção, motivo por que o decreto de 30 de julho de 1891, confirmando a previsão do velho alvará, estendeu a prohibição ao moderno arrastão, rebocado pelos vapores de pesca.
A muleta de pesca, pela sua fórma exquisita e pittoresca, e pelo gosto artistico que revela, tem sido representada em modelos, desenhos, gravuras e aguarellas, merecendo a predilecção de muitos admiradores da sua belleza, entre os quaes se contam o finado Rei D. Luiz, El-Rei D. Carlos, o almirante Páris [François Edmond Pâris (1806-1893)], Pedroso, Pinto Basto, Camacho, Vaz, Casanova, o auctor destas linhas, e o sr. R. Monleon [Rafael Monleón y Torres], de quem são os bellos desenhos que acompanham este artigo, e que representam as mais minuciosas particularidades do casco, apparelho, velame e accessorios, da muleta.
Que bellas applicações se podem fazer da muleta de pesca na ourivesaria, na ceramica, na tapeçaria, e em muitas outras artes uteis e decorativas!
A fórma do seu casco dá esplendidamente, imitada em porcelana ou barro, uma admiravel terrina ou saladeira, e um elegante centro de mesa ou floreira, com especial aspecto maritimo, genuinamente portuguez. Em marmore, pôde modelar-se com ella um lindo tanque ou baptisterio, de puro estilo nautico nacional. Tem desusada e significativa applicaçáo o desenho da muleta no lavor central de um tapete, alcatifa ou cortinado. Em oiro, prata, bronze ou ferro, ou pela combinação e entrelaçamento d'estes me-taes, quantos objectos de arte se podem conseguir com a fórma ou delineamento geral da muleta de pesca?!
Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital
Carecemos tanto de um estylo genuinamente caracteristico da nossa feição especial de povo de navegadores, cheio de tradições maritimas, perpetuadas em poemas sublimes e monumentos grandiosos, que é forçoso reunir, e methodisar em formulas praticas, os elementos simples e as concepções geraes, que devem orientar o nosso gosto artistico na composição dos productos da industria nacional.
A arte portugueza não pôde desenvolver-se sem conseguir este desideratum.
Campolide, 16 de março de 1895 (1)
(1) A. A. Baldaque da Silva, Muleta de pesca, Arte Portugueza n.° 5, 5 de Maio de 1895
A íntima amisade, que contrahi com a Illustre Pessoa, que aqui serve de Heróe; o passeio, a musica, o divertimento de colher pelas praias do Caramujo, termo de Almada, differentes qualidades de mariscos, e finalmente a pesca nunca interrompida, fizerâo em mim tal impressão, que me determinei a celebrar este ultima diverlimento , a que sempre fui propenso; e porque era, e he aquelle, que alli mais cultivão as Illustres Famílias , que a éste sitio concorrem no tempo dos banhos.
APDG, Sketches of portuguese life, manners, costume and character, Banhos no Tejo, 1826.
Imagem: Internet Archive
No dia 10 de Setembro de 1826, quando eu contava 27 annos de idade, estando todos, como costumávamos, applicados ao nosso divertido exercício, passeando no largo com grande prazer, appareceo de repente Belmiro, debaixo de cujo nome se intitula o Heróe da acção, acompanhado de outro amigo nosso, trazendo por huma corda huma masseira velha, ou gamella de amassar pão, muito rota por todos os lados.
O cais do Caramujo, década de 1980.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, Freguesia da Cova da Piedade
Todos perguntarão, porque trazia tal cousa; e elle respondeo, que era para nella hirmos pescar. Todos estimámos, principalmente eu, tal descoberta de vaso, para duplicarmos nosso regosijo nesta tarde.
Logo, convocando elle alguns amigos, comigo começou a concertalla do modo, que melhor foi possível; nella metemos as redes e vogámos para o mar, elle, e eu sómente, porque ninguem mais se atreveu a acompanhar-nos.
Muitas pessoas, principalmente huma Senhora, sua filha, e mais familia nos dissuadíão de tentar o rio naquelle vaso pequeno e velho; mas desprezados estes avisos, e confiados em saber bem nadar, comettemos nossa viagem.
Caramujo, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: ZONA Magazine
Estando porem já muito distantes de terra, repentinamente sobreveio tão horrivel tempestade, que á vista de todos fez voltar o barquinho comnosco, que, privados de ver a terra por causa do aguaceiro, com relâmpagos, raios, trovões, pedra, etc. nos custou tomar a praia apesar das nossas forças em nadar.
Em fim chegámos á praia, e mandámos soltar hum bote, que estava prezo a hum cáes de pedra, para trazer a canoa, e as redes, que ficárão no largo, as, quaes trouxerão peixe, de que se fez huma merenda esplendida, como nunca tivemos, o que bem se pôde inferir pelos successos, que lhe antecederão, que posto sejão debuxados com tosco pincel, forão brilhantes [...]
Praia do Caramujo, Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo
Do Caramujo expõe-se o sítio ameno; E como delle gosâo pelo Estio Innocentes, maritimos prazeres Diversas personagens d'outras terras. No designio Belmiro entra da pesca C'os illustres vizinhos, que consentem, E do dvertimento não desmentem [...]
Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem
Do nosso antigo Tejo, ha na aurea margem, Hum lugar mui ameno, delicioso, Caramujo de séculos remotos Pelos seus habitantes nomeado: Dous altos montes sobem a seus lados, Que parecem tocar do Ceo as nuvens. Hum agradável prado mui risonho, Onde assiste a formosa Primavera, Torna seu local bello, e aprazível [...]
Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa
"Tudo o que Vénus diz, verdade he pura, "Formosa Filha tua, grande Jove; "Lá do Tejo nas margens, nas raízes "Dos montes, que de base a Almada servem "O Caramujo existe socegado. "He maritimo porto, alli altares, "E templos dedicados mil eu lenho, "Onde o licôr divino nunca falta, "Que com festividades me consagrão; "Alli á Pesca entrega-se Belmiro [...]
Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada
Belmiro se prepara com Phylinto; Fileno vai também lançar as redes: Já he visto o batel frágil nas ondas. Difficutdades muitas se presentão. Que pelos argonautas são vencidas. A rede se prepara, que na barca Já recolhida fôra, e só lhe falta Remar bem para o largo com grão força [...]
Cais do Caramujo, pontão de madeira, década de 1970.
Imagem: Fernando Cruz
"Ó Deos do mar profundo, tu me escula, "Mais que disse, dizer nâo pôde Vénus; "Do Caramujo sou Patrono eterno; "Eu requeiro o que implora a bella Deosa: "Juno he prejura; Belmiro innocente; "Juramento a verdade não precisa. [...] (1)
(1) Francisco António Martins Bastos, A pesca, Lisboa, Impressão Regia, 1831