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quinta-feira, 9 de março de 2023

Edmundo Castanheira (1924-2009)

Este livro (Construção de Pequenas Embarcações), agora na sua 2ª edição, é um trabalho para todos aqueles que possuam, construam ou necessitem de manter ou reparar pequenas embarcações, especialmente de madeira.

Edmundo Castanheira, capa do livro Construção de pequenas embarcações (detalhe).
Dinalivro


É escrito numa linguagem (Nomenclatura Naval) que é comum e interessa a todos os que de qualquer modo estejam ligados a navios de qualquer dimensão e construídos de quaisquer materiais. (1)

O autor publicou na Dinalivro Construção de Pequenas Embarcações (1977) e Manual de Construção de Navios de Madeira (1991).

Edmundo Castanheira,
capa do livro Manual de Construção do Navio de Madeira (1991).
Livraria Santiago



Com Auxiliar do Técnico Industrial (2002) Edmundo Castanheira vem pôr à disposição do leitor, no seguimento de uma linha que se caracteriza essencialmente pelo seu carácter prático, didáctico e técnico, todos os conhecimentos que adquiriu ao longo de muitos anos de estudo e de prática concreta na área da construção e reparações navais.

Edmundo Castanheira,
capa do livro Auxiliar do Técnico Industrial (2002).
Dinalivro


Neste sentido, poderá encontrar-se não só um manancial de bases teóricas e de conhecimentos práticos fundamentais, mas também as soluções para vários problemas ou ainda algumas informações particularmente úteis para estudantes, como é o caso das tabelas de conversão de unidades e de materiais ou das secções sobre desenho geométrico, projecções, planificações, entre outras, que integram, tal como os livros anteriores, um trabalho inestimável.

O autor, Edmundo Castanheira, nasceu em 1924. depois de obter o diploma do Curso Industrial dedicou quarenta anos da sua vida à arte da construção naval em madeira. Foi Contra-mestre de carpintaria e docas secas, bem como desenhador e traçador de navios de madeira na H. Parry & Son (v. artigo relacionado: H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas).

Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 16, década de 1960.
Delcampe

Mais tarde, trabalhou na Sociedade Geral de Comércio, Industria e Transportes (SG), exercendo as funções de chefe de trabalhos de carpintaria de bordo, oficinas, estofadores, polidores e calafates.

Lisnave, brochura promocional, junho de 1971.
A Lisnave...


Durante 12 anos esteve nos estaleiros da Lisnave como chefe de aprestamento de navios, dando assistência técnica às fragatas para a NATO Almirante Pereira da Silva, Gago Coutinho, navios para a pesca do bacalhau Ana Mafalda Santa Mafalda (o Ana Mafalda foi um navio misto de transporte de passageiros e carga da Sociedade Geral), petroleiro Larouco (80.000 toneladas), rebocadores, lanchas, batelões, dragas, etc... Ainda na Lisnave, foi encarregado geral das docas da Margueira. (2)


(1) Authentic livros
(2) Dinalivro

Tema:
Construção naval

Informação relacionada:
Alexandre Flores (fb)
As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

domingo, 30 de outubro de 2022

Maria da Lua (Conceição Lamosa)

Fernanda de Castro (1900-1994)

«A vida está difícil, ninguém sabe o que será o dia de amanhã. É preciso pensar no futuro e, por isso, desejo que também as pequenas, e não só os pequenos, estudem a sério e façam exames. Sei que esta carta vai estalar como uma bomba nessa casa que sempre me pareceu — lembras-te, Anica? — a casa da Bela Adormecida, mas tenham paciência... bem sabem que só tenho um desejo, uma preocupação na vida: garantir aos meus filhos um mínimo de felicidade, pô-los, tanto quanto possível, ao abrigo das más surpresas da vida».


Retrato de Fernanda de Castro por Tarsila do Amaral (detalhe), 1922.
Governo de S. Paulo, acervo dos palácios

Não se enganara o pai ao prever que esta carta rebentaria como uma bomba na tranquila casa cor-de-rosa. Sufocada, a tia Emiliana deu largas à sua indignação: — Exames! Era só o que faltava! Os rapazes, vá, que são homens, e aos homens tudo se perdoa, nada lhes fica mal!.…. Mas as meninas?! Sujeitá-las a um vexame desses?! E para quê, sempre queria que me dissessem! Para que precisará de exames uma filha de família, uma mãe dos seus filhos, uma senhora da sua casa?

A partir deste dia a atmosfera da casa mudou por completo. Os rapazes, de mala às costs, iam todas as manhãs para a escola. Desciam a escada a correr e, ao sair, atiravam com a porta. Cada vez que os ouvia, a tia Emiliana, que estava a tomar o seu chá ou a ler o jornal, não perdia a ocasião de dizer com ironia: — Parecem uns carroceiros. Por este andar, não tarda que cuspam no chão. Estão muito adiantados, têm aprendido muito.

Maria da Lua e Princesa tinham mestras em casa. A escolha destas mestras fora penosa e difícil. O director da escola da Câmara — escola que, com grande indignação da tia Emiliana, os rapazes frequentavam por não haver outra capaz nas imediações — aconselhara uma professora da sua escola, pessoa instruída, séria, de confiança, que, depois das aulas, poderia perfeitamente ocupar-se da educação das meninas. — É uma pessoa competente, que nunca teve um desaire nos exames. Ainda o ano passado apresentou vinte alunas e todas ficaram aprovadas ou distintas.

Retrato de Fernanda de Castro por Anita Malfatti (detalhe), 1922.

— Era só o que faltava! — sibilou a tia Emiliana, A Conceição Lamosa a dar lições às minhas sobrinhas! Ainda me lembro de ver a mãe a vender criação às portas! — Que se há-de fazer, minha tia? Não temos por onde escolher, é a única pessoa competente destes sítios.

— A única? Então a Alzira... a Alzirinha? Essa, ao menos, é uma senhora, tem maneiras, sempre é filha de um major... — Não pode ser, minha tia... A Alzira estava bem, escapava, para os ensinar a ler e a escrever... Mas agora, que têm de ir a exame, precisam de aprender gramática, aritmética, geografia, coisas que ela não conhece nem de nome.


Finalmente, para evitar o mal-estar que, certamente, resultaria de uma intransigência absoluta, Conceição Lamosa, a filha da galinheira, tomou conta de Maria da Lua, Alzirinha, a filha do major, encarregou-se dos estudos da Princesa que, pela sua extrema simplicidade — a Princesa tinha apenas de fazer o 1.° grau — não requeriam ainda ciência especial, conhecimentos pedagógicos especiais.

A tia Emiliana, quando ouvia a campainha da porta duas vezes por dia, desabafava com Guilhermina: — Parece um portão de quinta... Quem quer entra e sai sem pedir licença, como na botica! Até a Lamosa!

Guilhermina abanava a cabeça e remoía velhas queixas: — Ainda se ao menos vendesse criação capaz! Mas qual! Eram só patos magros, galinhas tísicas que não deixavam nem uma olha na canja! E agora a fillha, de cadeira, a dar leis como se tivesse o rei na barriga!

— Modas novas, Guilhermina.….. Dizem que agora é assim, que nós é que estamos velhas... (1)



(1) Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945

Artigos relacionados:
Maria da Lua (retratos do passado)
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício (Google search)
José Dionísio Telles de Castro Aparício (Google search)
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)
Atlântico n.º 5, 1944, Maria da Lua, por Fernanda de Castro, duas ilustrações de Ofélia Marques



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

sábado, 29 de outubro de 2022

Maria da Lua (retratos do passado)

Fernanda de Castro (1900-1994)

No tempo da guerra civil, das lutas entre liberais e miguelistas, o avô materno (Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício van Odyck), partidário de D. Miguel, e o irmão daquele, o tio José Dionísio (Telles de Castro Aparício van Odyck), fiel a D. Pedro IV, haviam gasto rios de dinheiro pelas respectivas causas, vendendo aqui, hipotecando além, fanáticos, apaixonados, adorando-se como irmãos, odiando-se como adversários políticos.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Alternadamente no exílio, a caminho da América ou da Inglaterra o avô António Feliciano fizera as campanhas do Rio da Prata, o tio José Dionísio estivera em Plymouth com Palmela e daí embarcara clandestinamente para os Açores — haviam sido forçados a trocar vinho e cortiça por bolsas de libras que a mãe, a avó Ana Francisca (Telles de Castro Rolim van Odick?), lhes mandava às escondidas por emissários embuçados e fiéis.

Uma vez, contava-o com orgulho, chegara mesmo a ir a bordo, disfarçada de vendedeira de ovos, levar dinheiro ao filho mais novo, passageiro clandestino de um veleiro, que, aclamado D. Miguel, ia esconder nos nevoeiros de Londres a sua amarga desilusão.

Depois, quando tudo serenara, quando, assinada a Convenção de Évora-Monte, D. Miguel embarcara para Génova, quando, por morte de D. Pedro IV, subira ao trono D. Maria II, amnistiando os presos políticos, pondo fim às lutas fratricidas, o avô António Feliciano enterrara-se na Quinta e procurava salvar os destroços do naufrágio.

O irmão, desiludido de uma liberdade que permitia desmandos e abusos de toda a espécie, declinou honras e favores a que tinha direito e refugiou-se igualmente na velha casa familiar.

Os dois irmãos, morta a paixão política, abraçaram-se e fizeram as pazes. Trataram então de desenterrar as pratas, de vender aqui para resgatar além, de percorrer a cavalo matas e olivais, de afirmar direitos sobre velhos foros, de visitar rendeiros e feitores.

A casa, desmantelada, começou a reviver, como árvore doente a que o sacrifício dalgumas ramadas restitui o vigor. Sem tornar a ser o que fora nos tempos de oiro da avó Ana Francisca, senhora de extensas matas de cortiça, a fortuna da casa parecera equilibrar-se, permitindo à família um desafogo, um bem-estar que havia muito não conhecia.

A casa cor-de-rosa, ilustração de Manuel Lapa, 1945, para o livro de Fernanda de Castro,
Maria da Lua, história de uma casa, 3.a edição, 1960, Livraria Tavares Martins
prémio Ricardo Malheiros, 1945

Voltaram então a ter carruagem, criados, mesa posta para amigos e parentes. Depois, a morte levara a avó Ana Francisca, e a fortuna, ainda mal refeita do abalo que sofrera, não resistira a desequilíbrio provocado pelas partilhas.

O tio José Dionísio, liquidada a herança, fora viver para a Beira, one a administração das propriedades da mulher exigia a sua presença. E o avô António Feliciano, que estava longe de possuir as qualidades de administrador do irmão — a prudência, a moderação, o equilíbrio — vira-se forçado a consentir o casamento da filha com o cunhado (Francisco Liberato e Silva), trinta anos mais velho, a fim de assegurar a educação dos quatro filhos varões, que destinara à carreira das armas.

Sem deixar de lamentar a mãe, casada aos dezasseis anos com um homem de quase cinquenta que nunca deixou de tratar por «tio», a tia Emiliana admirava secretamente aquele avò autoritário que, para salvar a casa, o prestígio do nome, não hesitara em sacrificar a filha.

No íntimo do seu coração, o avô era o seu modelo, o seu conselheiro invisível. «Que faria o avô, se fosse vivo?». E o avò, do fundo do seu silêncio, do alto do seu orgulho, não deixava nunca de lhe responder.

Naquela manhã, emoldurado de talha dourada, com o seu belo fardamento de lanceiros, olhou-a com uns olhos agudos e disse-lhe: — «Na nossa família nunca ninguém vendeu nada. Não comece a menina por vender o que não tem preço: a dignidade, o orgulho...» (...)

ooOoo

A sala onde se encontravam era a mais espaçosa da casa. Tinha duas janelas de peito e duas sacadas com grades verdes e cortinas de renda nas vidraças. Um piano de cauda, de camurças gastas, ocupava um dos cantos da sala. Uma alcatifa cobria o chão e abafava o ruído dos passos. Reposteiros de seda verde, puídos e desbotados, escondiam as portas.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Sobre as mesas, as consoles, as étagères, álbuns de retratos, jarras com flores de seda, miniaturas, bibelots de Saxe. A mobilia Império, hirta e rebarbativa, alternava com esses sofás, essas cadeiras, essas mesas sem estilo que o tempo nobilita, parentes pobres da casa, adoptados pelo hábito. Numa das paredes, um fogão de sala ladeado por duas poltronas de peluche verde. Na parede oposta, um espelho com a sua moldura de talha dourada.

Sobre a chaminé, um brasão bordado a oiro e a vermelho, caprichosa mistura de dragões e de flores de lis, e dois retratos a óleo: o trisavò Marechal e o avô miguelista que, no tempo do Senhor D. Pedro IV, andara a monte e tivera de emigrar para Inglaterra.

E, finalmente, junto de uma das sacadas, o «canto da avó», com a sua poltrona de molas cansadas e a sua mesa de profundas gavetas. (1)


(1) Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945

Artigos relacionados:
Maria da Lua (Conceição Lamosa)
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício (Google search)
José Dionísio Telles de Castro Aparício (Google search)
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)
Atlântico n.º 5, 1944, Maria da Lua, por Fernanda de Castro, duas ilustrações de Ofélia Marques



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

A casa cor-de-rosa

Fernanda de Castro (1900-1994)

Quando voltei de África, esmagada pelo horror das últimas semanas, compreendi logo que a casa da minha infância já não era a casa da minha infância. Os móveis eram os mesmos e estavam no mesmo sítio, as dimensões do sótão eram as mesmas, as flores continuavam a desabrochar nos canteiros da tia Emiliana, a malva-rosa continuava a enfeitar o muro esboroado do velho poço, do mirante via-se o mesmo Tejo e avistavam-se as mesmas gaivotas e as mesmas fragatas. E, contudo, nada estava igual, tudo parecia diferente.

Fernanda de Castro e Antoninho Gabriel (detalhe) por Sarah Affonso, 1928.
MNAC/Flickr

Levei muito tempo mas acabei por compreender que a mudança não estava nas coisas, mas nas pessoas. Todos andavam vestidos de preto, incluindo as criadas que há muito faziam parte da família. Ninguém punha uma flor numa jarra, as portadas das janelas estavam fechadas e as janelas só se descerravam à noitinha, não fosse entrar um raio de Sol que aliviasse, por momento que fosse, o luto das paredes e das pessoas.

A minha bisavó, que era, como o meu pai dizia, a trave mestra da casa, fora a única que reprovara, que não aceitara o luto integral. Sobre o vestido de là de todos os dias, sobre o vestido de seda preta lavrada dos domingos e das visitas, usava um grande avental de seda roxa com uma algibeira de onde continuavam a sair maravilhas: libras, cigarros e garrafinhas de chocolate, berlindes e abafadores coloridos para os rapazes, cautelas sempre brancas para o tio António.

Um dia apareceu uma modista com figurinos e amostras de tecidos pretos e dias depois a minha irmà e eu tínhamos os nossos vestidos de luto pesado, sem os quais não poderíamos ir à rua. Porque era a mais velha, o meu vestido tinha uma golinha de crepe também preto. Quando a minha avó me viu com aquele vestido, pálida, triste e desajeitada, pegou deliberadamente numa tesoura, descoseu a golinha de crepe que mandou substituir por outra de piquet branco sem se importar absolutamente nada com o mau humor e a reprovação da tia Emiliana.

— Que vão pensar, minha mãe, quando virem a pequena, já tão crescida, de luto aliviado dois meses depois de lhe ter morrido a mãe? (...)

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900.
Delcampe

Não, a casa da minha infância já não é a casa da minha infância. Agora, mais do que nunca, está vazia, para sempre vazia. Numa noite de Verão, calma e sem sofrimento, a minha avó adormeceu e nunca mais acordou.

A casa inteira ficou outra vez de luto pesado, mas desta vez, como ela queria, não se fecharam janelas, e na velha terrina da Índia, no meio da mesa, havia sempre rosas frescas, as rosas da tia Emiliana que não ousou desta vez ignorar as últimas vontades da mãe, vontades não expressas em cartas ou testamentos, mas em toda a sua vida de noventa e sete anos.

As pessoas agora movem-se na casa como fantasmas, como se nenhum gesto tivesse já razão de ser, como se o silêncio fosse a única linguagem da casa deserta.

Acabados para sempre os mistérios do sótão, os segredos do poço, o óculo do mirante pelo qual se via o Tejo até à barra. Acabadas a malva-rosa, a mesa de pedra das merendas e as rosas-de-toucar: a casa já não pertence à família.

Aliás a família já não se interessa pela casa que não é a mesma, sem a mãe, sem a avó, sem as rosas da tia Emiliana, sem as crianças que em breve serão adolescentes, com saudades de si próprias e do puro cristal das suas almas.

Quando a casa se vendeu e a família se dispersou, surgiu nas nossas vidas uma nova personagem (...)

Quando fechei pela última vez a porta da casa cor-de-rosa puxando pela mãozinha de ferro que era o batente dessa porta, sabia perfeitamente que não estava só a despedir-me da casa e da quinta, do mirante e do poço nem mesmo das presenças invisíveis mas muito reais da minha avó e da minha mãe, mas ainda e sobretudo da minha infância.

Cacilhas, Rua Direita (ed. Martins & Silva para distribuidor local), década de 1900
Delcampe, Oliveira

Ficavam ali para sempre os meus últimos bibes de menina, as últimas fitas que prendiam as minhas tranças, os meus pequenos sonhos, os meus pequenos segredos. Os meus pequenos segredos... Lembras-te, Pedro?

Uns amigos dos meus pais tinham um filho que vinha às vezes passar o dia connosco. Chamava-se Pedro e era um pouco mais velho do que eu. Um dia pegou-me por um braço, levou-me para um canto, e meteu-me na mão um embrulhinho, dizendo-me em voz baixa, quase ao ouvido:

— Não o percas, não o deites fora! Olhei para ele com espanto e afastei-me para ver o que tinha dentro o papelinho. Era um pequeno coração de barro que tinha um P gravado dum lado e um F do outro. Não me foram precisos muitos segundos para perceber que P queria dizer Pedro e F, Fernanda. Apertei com força o pequeno coração pensando no que ia fazer, até que resolvi enterrá-lo à sombra da amoreira.

"Não, Pedro, um coração não é coisa que se deite tora". Com um sacho abri uma pequena cova, forrei-a com musgo tenro, pus o coração sobre o musgo e tapei-o com duas rosi- nhas-de-toucar. Depois enchi a cova de terra que calquei e alisei com as mãos.

Fernanda de Castro e Antoninho Gabriel por Sarah Affonso, 1928.
MNAC/Flickr

Passaram anos e só hoje, Pedro, ao fechar a porta da casa cor-de-rosa pela última vez me surpreendi a pensar: "O que será feito do coraçãozinho de barro? Terá sido desenterrado pelo vento e pela chuva, calcado por uma bota ferro ferrada ou pelo ferro duma enxada ou continuará intacto sob os cadáveres de duas rosas-de-toucar?" (1)


(1) Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986

Artigos relacionados:
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Sape na barba

Nasceo este jogo em Cassilhas, inventado pela viuva de hum ferreiro, que estando a fregir humas sardinhas, e hum filho de cinco annos a metter-lhe a mão no prato das fritas por de traz della; a mãi com toda a vigilancia, com huma mão fregia, e com a outra dava na mão do filho, sem nunca a poder pilhar, de que o rapaz gostou tanto, que descorrendo como podia ensinou aos outros o tal joguinho... (1)

A assadeira de sardinhas.
Henri l'Évêque, Costume of Portugal, 1814.


(1) José Daniel Rodrigues da Costa, Comboy de mentiras, vindo do reino petista com a fragata verdade encoberta por capitania

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Na Trafaria, cena da borda-de-água
Caldeirada à Pescador

Leitura relacionada:
Humor impresso: cultura e política em "O Espreitador do Mundo Novo"


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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

De regresso à Lapa (com Luís Bayó Veiga e outros cacilhenses)

À direita, assente na vertente um pouco mais recuada do maciço rochoso, erguia-se uma construção toda em pedra, que tinha a forma cilíndrica e que mais não era que um torreão que acompanhava toda a altura da arriba do morro encimado por uma pequena habitação de forma quadrada com telhado coberto por telha lusa e que tinha 3 janelas viradas respectivamente a nascente, sul e norte.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 28.
Cacilhas, Luiz Gonzaga Pereira, 1809 (com a zona da Lapa à esquerda da imagem).
Museu de Lisboa

A porta localizava-se a poente e dava acesso ao caminho que percorria o cimo do morro, onde se situavam precárias habitações que faziam parte da Margueira Velha, até se chegar ao Largo de Gil Vicente, como então se chamava (...)

Percorrendo de seguida a ala direita da Lapa, no sentido do Largo de Cacilhas, existiam 4 prédios separados entre si por pequenos acessos laterais que conduziam a quintais ou pequenas construções anexas.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Revista O Panorama, n° 18, 1847

Seguidamente, procura-se fazer um resumo da descrição de cada um deles.

O primeiro prédio localizado mesmo defronte ao portão de entrada dos estaleiros da “Parry”, era de construção muito antiga e encontrava-se bastante degradado. Em meados da década de 1930, foi comprado por José de Jesus Malaquias, então comerciante de Cacilhas, que na práctica o reconstrui quase de raíz e o transformou em prédio de rendimento com 4 pisos e 8 fogos, comportando ainda 2 espaços que funcionavam como armazém de mercadorias, um dos quais tinha acesso exterior por uma escada em pedra existente na fachada lateral do edifício (I).

Cacilhas, Carro Carreira da Empreza Camionetes Piedense, Leslie Howard, década de 1930.
A zona da Lapa em segundo plano (detalhe).
Museu da Cidade de Almada

José de Jesus Malaquias ficou a viver no 3° andar conjuntamente com a sua mulher, Maria Rosa Malaquias e seu filho José Malaquias, alugando os restantes fogos a diversos inquilinos, entre os quais se relembram alguns deles tal como eram conhecidos:

—  Tomás das Camionetes que era expedidor da empresa de camionagem Setubalense;
— Carlos da Ponte que possuía uma lancha para transportar passageiros a bordo dos navios ancorados ao largo do Tejo. (1o andar);
— Álvaro Cortador, conhecido talhante de Cacilhas que depois foi viver para a Rua Carvalho Freirinha;
— António Pintassilgo que era irmão do mestre do cacilheiro Renascer (4° andar);
— Joaquim Vieira, motorista dos barcos da Parceria dos Vapores Lisbonenses.


No piso térreo do “prédio do Zé Malaquias”, como ficou a ser conhecido, situava-se a “taberna do Malaquias”, que também funcionava como casa de pasto, que era frequentada aos almoços pelo pessoal um pouco mais abastado que trabalha mesmo defronte na “Parry”.

Existiam ao tempo, mais tabernas e tascas na localidade de Cacilhas, mas segundo “rezam as crónicas” era na taberna do “José Malaquias” na Lapa, que se servia o melhor vinho tinto, que provinha das adegas de Xavier Santana localizadas em Palmela, que ainda hoje existem.

A traseira da taberna dava acesso para um saguão que existia no interior do prédio e era aqui que se localizava numa das paredes, uma porta que dava acesso à entrada de uma gruta que segundo se dizia, se prolongava em forma de túnel subterrâneo, em direcção onde existia à superfície, a Estalagem /Cocheira do Narciso José e depois declinando em frente do local onde se situa a “Igreja de Cacilhas”, seguiria para Almada, bifurcando-se para o forte de Almada e o palácio da Cerca, onde se sabe existirem diversos tuneis subterrâneos...

Carta hydrographica do littoral de Cacilhas, 1838.
 Biblioteca Nacional de Portugal

Segundo José Malaquias (filho), ao penetrar-se pela galeria da gruta com a ajuda de um candeeiro a petróleo ou pequeno archote, uma vez que não existia iluminação eléctrica, poucos passos adiante a chama extinguia-se, o que era indicativo de haver pouco oxigénio no ar pelo que naquele tempo, ninguém se atrevia a ir mais além...

A seguir ao prédio do Malaquias, havia um armazém de Azeite a granel que era pertença de Ferreira Marques. O seu encarregado de apelido Oliveira, vivia no 1° andar com mulher e filhos. O azeite era embalado em latas de folha-de-flandres de 1 e 5 litros e era destinado à exportação (II).

Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono (detalhe), 1937.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Logo depois, erguia-se um enorme prédio de rendimento já bastante antigo e gasto, que pertencia à família da Casa Serra (III).

A Casa Serra, cujo proprietário era o comerciante João Baptista de Carvalho Serra, tinha os seus escritórios e estabelecimento num prédio na actual Rua Cândido dos Reis, onde vivia com a família no 1° andar. Esta firma comercializava enorme gama de géneros alimentícios, mas também licores, xaropes e ainda produtos de drogaria, ferragens e calçado.

Procedia ainda ao fabrico de gasosas. Aquele prédio que tinha grande profundidade, era formado por 3 pisos e águas furtadas, e nele habitavam diversos inquilinos. Todas as fachadas tinham janelas do tipo guilhotina.

Na frente principal do prédio, existia um a acompanhar a sua largura, um logradouro em forma de quintal, local preferido pelo rapazio para brincadeiras e jogatanas de bola.

As suas escadas interiores, em madeira já envelhecida e carunchosa, rangiam ao serem percorridas e a rapaziada que por ali brincava chamava-lhe o prédio das carochas... Segundo informação recolhida, no rés-do- chão existia ainda a entrada para uma taberna e casa de pasto que pertencia a José Narciso que habitava no mesmo prédio com mulher e filhos.

Continuando na direcção ao Largo de Cacilhas, deparava-se de seguida com uma entrada em forma de rampa que intervalava o prédio antecedente com o último prédio da Lapa que já fazia gaveto com o Largo.

Bailarico em Cacilhas, possível original de A. E. Hoffman, c. 1835.
Alberto de Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente, Lisboa, edição de Fernando Souza.

Esta estreita rampa permitia o acesso de veículos a um logradouro interior onde se localizavam duas pequenas construções com telhados de duas águas que serviam inicialmente de garagem aos veículos pertencentes à Casa Serra.

Aquelas construções foram compradas em 1942 pela firma José Pinto Gonçalves, Lda. para servirem de armazém de mercadorias e permi- tindo então a ligação a outro armazém que a firma já possuía nas traseiras do prédio na Rua Cândido dos Reis, onde se situava o estabelecimento Casa da Beira Alta.

Casa da Beira Alta de José Pinto Gonçalves, Mercearia, Fanqueiro e Retrozeiro
Largo Costa Pinto, Cacilhas
Boletim O Pharol

Finalmente o último prédio da Lapa, era composto por 3 pisos e em todas as fachadas existiam janelas de guilhotina. Ao nível térreo na esquina virada a sul, existia uma garagem para recolha de viaturas a qual não era visível pelo Largo de Cacilhas e que pertencia à Casa Serra, Lda (IV).

Para o eventual relembrar de alguns cacilhenses mais provectos na idade, referem-se alguns dos últimos inquilinos que viveram neste prédio:

Casimira que era cabeleireira em Cacilhas (1° andar);
José Joaquim Júnior e Donorah Vialonga (1° andar);
Magalhães que era Cabo de Mar (2° andar),
André que era expedidor da camionagem Setubalense (3° andar).

Na fachada virada para o Largo de Cacilhas, estava escrito em letras pretas garrafais: Garage CentralRecolha de Automóveis.

Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono (detalhe), 1937.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Já virada para o largo de Cacilhas, existia uma taberna e casa de pasto, bem frequentada, que pertencia a Antonino Ferreira, conhecido pelo “Pinga Azeite”, cuja entrada se fazia pelo lado da Lapa.

Já fora do sítio da Lapa, mas a bem dizer, com “paredes meias”, e logo a seguir à taberna do “Pinga Azeite” poucos metros adiante, à entrada da rua Cândido dos Reis, havia uma outra taberna também muito conhecida e que veio (por razões diferentes da sua actividade), a ficar famosa: Era a taberna da Tia Francisca, como era conhecida, a qual já existia a funcionar, desde a primeira década de 1900.

A multidão aguardando o ministro na villa de Cacilhas, Joshua Benoliel, 1911.
Hemeroteca Digital

A Tia Francisca, que explorava a taberna, vivia no 1° andar do mesmo prédio com seu marido e seu filho, José de Jesus Malaquias. Este casou, ainda bem jovem, e nos primeiros anos continuou a viver na casa dos seus pais, com sua mulher e seu filho, José Malaquias, que entretanto tinha nascido em 1934.

Só após as obras concluídas no prédio que tinha adquirido na Lapa é que então se mudou para lá, e começou a explorar o seu próprio negócio de taberna e Casa de Pasto, mantendo-se aberta a taberna explorada por sua mãe.

Lapa de Cacilhas, aguarela de Anyana, O Scala, inverno 2006.
Casario do Ginjal

Em 1947, com a previsível expropriação de todas as construções existentes na ala direita da Lapa, a fim de ser aberta uma nova via de acesso entre Cacilhas e a Cova da Piedade, José de Jesus Malaquias, acabou por ir viver para Almada e passou a explorar a taberna que pertencia a seus pais, sucedendo assim à sua mãe Francisca, naquele negócio (...) (1)


(1) O Pharol n° 25, A Lapa - Um recanto de Cacilhas, 2014

Artigos relacionados:
A menina do mirante
O torreão e a Lapa
Na esplanada do forte de Cacilhas
Bailarico em Cacilhas
Cacilhas vista do Tejo, em 1847
A visita do sr. ministro
Na Lapa de Cacilhas em 4 de junho de 1950
etc.

sábado, 30 de outubro de 2021

Canoa...

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira
Gaivota, que anda perdida
Sem encontrar companheira


Canoa afundada, Adriano Costa, 1923.
Museu de Lisboa

O vento sopra nas fragas
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango


Canoa
Conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem

Canoa
Por onde vais?
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais


Canoa de vela panda
Que vens da boca da barra
E trazes na aragem branda
Gemidos de uma guitarra




Teu arrais prendeu a vela
E se adormeceu, deixa-lo
Agora muita cautela
Não vá o mar acordá-lo


Canoa
Conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem


Canoa, por onde vais?
Quando há norte pela proa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais

Canoa, por onde vais?
Quando há norte pela proa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais (1)


(1) Canoas do Tejo, Frederico de Brito, Carlos do Carmo

Informação relacionada:
Barcos miúdos de Lisboa

terça-feira, 2 de março de 2021

Almaraz e Cacilhas, vestígios arqueológicos de actividades portuárias

Vista parcial, do lado direito, da colina do Almaraz, Almada, voltada para o estuário do Tejo...
João Cardoso, A Baixa Estremadura dos Finais do IV Milénio A. C. ... 2004

Almada

Posição geográfica: Margem esquerda do Tejo, na parte vestibular do estuário.
Coordenadas geográficas: N. 38 ° 41’ W. 9 ° 09’
Localização: Morro sobranceiro ao Tejo
Contexto geomorfológico: Insere-se no Esquema 2 de N. Flemming apresentado no II Capítulo e na Fig.13. Observou-se continuidade na posição de litoralidade.


Maria Luísa Blot, Os portos na origem dos centros urbanos...

Fontes antigas: São abundantes as referências ao ouro extraído das areias do Tejo emautores antigos tais como os poetas Catulo (XXIX, 20), Juvenal (III, 54-55), Silicio Italico (Punicorum, XVI, 560), Lucano (Pharsalia, VII, 755). Relativamente a época posterior, lembramos a conhecida relação entre o topónimo árabe Al-madan com o significadode "a Mina" e a tradição ligada à exploração de ouro no Tejo (Cardoso, 1995, p. 53).
Fontes cartográficas: João Teixeira (1648) — Descripção dos Portos Marítimos do Reino de Portugal, reproduzido em Cortesão e Mota (1987, vol. IV, Estampa 510 A).

Vestígios arqueológicos e actividades portuárias

Almaraz:

O esporão rochoso de Almaraz tem fornecido documentos arqueológicos que confirmam o povoamento do local durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.

No caso do povoado de Almaraz datável da Idade do Ferro, registaram-se testemunhos de importações directas de produtos de fabrico mediterrânico, com origem no Mediterrâneo Oriental e datáveis do século VII a.C. (Cardoso, 1995, p. 47).

Essas importações de formas e técnicas poderão ter produzido fenómenos de aculturação como certas produções cerâmicas locais deinspiração oriental parecem sugerir a J. L. Cardoso (1995, p. 49).

Entre os artefactos de importação presentes em Almaraz figuram as cerâmicas de verniz vermelho, ânforas fenícias, pithoi decorados com bandas pintadas e cerâmicas cinzentas (Cardoso, 1995).

Cacilhas:

O achado subaquático, durante operações de dragagens fluviais, de umaespada pistiliforme datável do Bronze Final e a relação desse artefacto com “um comércio trans-regional, atlântico-mediterrânico”surgem em paralelo com uma eventual interpretação como objecto votivo relacionável com um ritual dedicado a divindades aquáticas (Cardoso,1995, p. 42).

As escavações na parte ribeirinha de Cacilhas levadas a cabo por Luís de Barros puseram a descoberto uma estrutura em pedra interpretável como um cais com evidências de contacto prolongado com a água, e associada a materiais pré-romanos (séculosVII-VI a.C.)18 e a tanques de salga.

É igualmente no sopé do esporão de Almaraz que continuou a fazer-se a travessia do Tejo em época romana, verificando-se continuidade nesta utilização desse ponto até à actualidade (Alarcão, 1992b, apud Cardoso, 1995, p. 45).

Cacilhas apresenta um complexo industrial de salga de peixe da época romana(século I a.C. — meados do século I d.C.).

A área das cetariae revelou sete níveis de ocupação, incluindo uma reutilização durante a época islâmica e registando-se ocupações posteriores relacionadas com a expansão urbana de Cacilhas (século XVI-século XIX) (Barros, 1982). Cerâmicas de importação: sigillata itálica e sud-gálica, cerâmica de paredes finas (Cardoso, 1995).

Utilização do litoral

A ocupação do morro de Almaraz denuncia contactos antigos com rotas marítimas longínquas através de um ponto de contacto com a navegação situado na área actualmente correspondente a Cacilhas. Terão operado em conjunto, constituindo um pólo de difusão e de escoamento quer de sal, quer de produtos mineiros, além de produtos agrícolas e agro-pecuários.

Almada insere-se num contexto geográfico especialmente privilegiado pela presença do estuário do Tejo na sua parte mais propícia à instalação de indústrias directamenterelacionadas com o meio marinho: salicultura, unidades fabris de transformação de pescadoe olarias com produção de contentores destinados aos preparados piscícolas durante a época romana.

Almada aparece referida em 1640 como uma vila:

"A la otra parte de Lisboa, distancia de una legua que la anchura do Tajo occupa, yaze la villa de Almada, comarca de Setubal, en lugar alto con 450 vezinos, 2 Parroquias y un convento de frayles" (Biblioteca Nacionalde Paris, Manuscrits espagnols, códice 324, fol. 31, apud Serrão, 1994, p. 198). (1)


O foral de Lisboa de 1179 e o foral de Almada de 1190, que privilegiam as tripulações das embarcações com foros de cavaleiros, são documentos reveladores da importância que, já naprimeira dinastia, era atribuída ao porto de Lisboa, embora a primeira referência explícita ao"porto de Lisboa" só tenha ocorrido em 1305, na época de D. Dinis.

No século XIV, a descrição que Fernão Lopes faz deste porto, embora aparentemente anterior a instalações portuárias construídas, e de relevo, não deixa dúvidas acerca da capacidade navegável da parte vestibulardo estuário do Tejo:

"carregavam de Sacavem e ponta de Montijo, sessenta a setenta navios de cadalogar, carregando sal e vinhos"(Fernão Lopes, apud Ramos, 1994, p. 724), embora, por ausência de cais adequados, fosse natural que se recorresse aos ancestrais serviços de embarcaçõesde transbordo, pois "por a gramde espessura de mujtos navios que assi jaziam ante a cidade, como dizemos, hiam ante as barcas Dalmadaa aportar a Santos, que he hum gramde espaço da çidade,nom podemdo marear perantrelles” (Fernão Lopes, apudRamos, 1994, p. 724). (2)


(1) Maria Luísa Blot, Os portos na origem dos centros urbanos...
(2) Idem


Mais informação:
Ana Olaio, O povoado da Quinta do Almaraz... 2018
João Cardoso, A Baixa Estremadura dos Finais do IV Milénio A. C. até à Chegada dos Romanos: um Ensaio de História Regional... 2004
Luis Barros, João Cardoso, Fenícios na margem sul do Tejo... 1993
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