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sábado, 4 de março de 2023

Almada Atlético Clube (1946)

a caminho de transformar-se em grande instituição

A vila de Almada procura, mercê de um esforço admirável, apoiado na dedicação e entusiasmo dos seus habitantes, impor-se não só na vida social como também na prática do desporto.

Banquete de homenagem ao Almada Atletico Club
(campeão nacional da II divisão na época 1946-1947).
Delcampe Bosspostcard

O inicio desse novo aspecto no desporto local principiou com a fusão dos dois clubes locais: o União Desportivo de Almada e o Pedreirense Futebol Clube.

Coroada de êxíto essa iniciativa, o aparecimento do Almada Atlético Clube marcou desde logo um programa valioso, não só em benefício do desporto e dos desportistas locais, como também do desporto nacional, pois que, dada a importância do projecto, o desporto português receberá um excelente reforço.

Estivemos em Almada e na sede do clube ouvimos alentamente a exposição que nos fizeram o seu presidente, sr. João Louro, acompanhado pelos srs. Valentim Henriques, secretário. Jeremias Barros, secretário adjunto, e Alfredo Cáceres Alves, capitão do grupo de futebol.

Frente à antiga sede do Almada Atlético Clube.
A Banda da Incrível ao Longo do Tempo vol. I. ign 1.° centenario, 1 de outubro de 1948.
InfoGestNet

— O Almada Allético Clube cumpre a ideia que foi a base da iniciativa da fusão dos dois clubes almadenses.

Pensámos que poderia surgir um clube grande, capaz de divulgar os bons princípios do desporto e interessar o povo de Almada pela cultura física e até cultural.

António Henriques, director desportivo do Almada Atlético Clube 1949/1950.
InfoGestNet


Verificamos hoje que assim é. E não devem estar arrependidos o sr. Direclor Geral de Desportos, que apadrinhou com interesse a fusão. e a Federação Portuguesa de Futebol, que nos tem acompanhado com as suas boas palavras de incitamento e o valioso auxílio de 50 contos, com que pudemos entrar na posse do nosso magnifico campo de desportos. Temos cumprido. Muito mais queremos e havemos de fazer.

Associativamente, como se encontra o Allélico de Almada?

Bem. Quando existiam dois clubes, as duas massas associativaa perfaziam um total de 500 sócios. O Atlético de Almada regista já 1.200 sócios e esperamos que dentro em pouco, com uma campanha que vamos iniciar, se chegue aos 3.000.

Quais os projectos?

A instalação da nossa sede, em edifício que esperamos brevemente alugar. Procuramos que a nossa casa desportiva tenha conforto e ambiente acolhedor. Nessa sede, além de todas as instalações para os sócios, poderemos montar um amplo ginásio.

Almada Atlético Clube (sede)  c. 2014.

Ao mesmo tempo continuaremos as obras do nosso campo de desportos.

Procuramos dotar Almada com um estádio!

O nosso terreno presta-se à maravilha para esse efeito. Siuado em local privilegiado, com linda vista e terrenos desafogados, o campo de jogos do Atlético de Almada receberá, logo que a época de futebol termine, obras para tal necessárias. Prolongaremos as bancadas, há pouco inauguradas, que chegarão até a circundar as balizas. Construiremos uma pista para atletismo, balnearios, posto médico e outras instalações subterrâneas e procederemos ao arrelvamento do campo.

Se todos nos ajudarem e se o auxílio das entidades desportivas vier, como esperamos, colaborar nesta nossa obra, Almada, na época de 1946-47, terá o seu estádio! Todos estes projectos estão já traçados no papel prontos a serem submetidos ás entidades oficiais que superintendem nestes assuntos.

Campo de jogos do Almada Atlético Clube no Pragal.
InfoGestNet

Depois, há a valorização dos nossos «teams» de futebol e o alargamento da nossa aclividade desportiva.

Qual é presentemente essa actividade?

Além do futebol, praticamos atletismo, modalidade em que conquistámos já vários recordes, nacionais e regionais; andebol, com duas categorias, e estão prestes a iniciar a sua aclividade as secções de basquetebol e de voleibol.

Neste momento, o Almada Atlético Clube tem ainda uma outra ambição: ingressar na 1.a divisão da A. F. de Setubal. Havemos de conseguir.

Como vê disseram-nos os dirigentes almadenses ao terminarem as suas in formações estamos animados dos maiores desejos de cumprir uma bela missão, a bem do desporto e de Almada.

As entidades dirigentes do desporto deram-nos um impulso. Nós procuramos corresponder, valorizando esse apoio.

Almada Atlético Clube (emblema).
Wikipédia


Como se depreende destas informações o Almada Atlético Clube está lançado no bom caminho. Há entusiasmo acertado, uma vontade forte de trabalhar e um desejo ainda maior de, no mais curto espaço de tempo, fazer surgir em Almada um grande clube de desporto. Por enquanto nada há que faça supor o contrário... (1)


(1) O Almada Atlético Clube a caminho de transformar-se em grande instituição, Stadium n° 167, 13 de fevereiro de 1946

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
Stadium n° 89, 16 de agosto de 1944

Artigos relacionados:
Almada Atlético Clube (1944)
Pedreirense Foot-Ball Club
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Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...
Grupo Desportivo da Casa dos Pescadores da Costa de Caparica

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Almada Atlético Clube (1944)

Apôs a fusão Pedreirense-União Almadense
O ALMADA ATLETICO CLUBE
Será em breve uma honrosa manifestação do desporto Almadense


A vila da Almada, anichada no alto dos montes da Outra Banda, desfruta de situaçãp previlegiada. Debruçada, sobre o Tejo, olhando desafogadamente Lisboa inteira, Almada bem merece as carinhosas dedicações que se lhe tem devotado, procurando engrandecê-la ajudando-a no aspecto de renovação e melhoramentos que a cada passo se encontram por toda a Vila.

Almada Atlético Clube (emblema).
Wikipédia


Terra de laboriosa, que tem orgulho naquele rincão arejado, onde de toda janela se espreita o lindo rio e os olhos se inundam da paisagem campesina. Almada vai tomar posição de relevo no desporto. Disto nos convencemos quando nestes últimos ditas lá estivemos, inquirindo ao certo o que significava a fusão dos dois antigos clubes de Almada, o Pedreirense Futebol Clube e o União Sport Clube Almadense, sensata solução que deu motivo à fundação do novo clube: o Almada Atlético Clube.

À interferéneía amivel de Francisco Valente — um nome que fito ligado à ideia — colocou-nos na presença do sr. José Braz, presidente da direcção do novo clube, ume figura de respeito em Almada, espirito ponderado, ideia sempre ligada a boas iniciativas. Por isso o seu nome apareceu — e foi bem recebido — nesta benéfica questão desportiva que é hoje em Almada assunto dc grande importância.

Comandante José Braz, albúm pessoal,
Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

— Esta ideia excedeu toda a expectativa — diz-nos o sr. José Braz com sincero entusiasmo.
— Como a receberam as duas massas associativas?
— De início, como é compreensível. formaram-se dois sectores, grupos que se opunham à fusão. Mas façamos-lhe justiça. Pata muitos, os clubes comtituiam um lar antigo. O amor clubista imperova. A saudade pelo grupo que lhes merecera tantas dedicações e esforços ajudara a não concordarem com a ideia, que era boa — para a terra e para a ideia desportiva.


O exemplo daquele sócio que compreendendo o benefício da fusão teve a sinceridede de me dizer: "Concordo com a fusão, mas quando ela for um facto quero reunir num jantar de despedida alguns eompanheiros e chorar o desaparecimento do meu clube!" Dedicaç6es destas vieram fortalecer o novo clube.

Pedreirense Foot Ball Club (emblema).

O sr. José Braz continuou expondo a finalidade que orientou este projecto:
— Almada é terra de gente boa, trabalhadora, honesta e sempre pronta a reunir-se em volta de uma bandeira para demonstrar o valor da sua actividade e das suas boas ideias.


O nosso meio recreativo impõe-se. As duas colectividades, a Academia Almadense e a Incrível Almadense, eonstituem motivo de orgulho. Por que haviam de continuar dispersos pordois clubes valores tão aproveitáveis? Por que haviam de continuar divididos os homens, em vez de os juntarmos num grende clube que marcasse posição de relevo no concelho e que conseguisse reunir todos os almadenses em volta de uma só entidade?


E tudo correu pelo melhor. Este nosso bom povo, humilde. mas amando muito o que pertence a Almada, é neste morneoto o melhor auxiliar para que a iniciativa tenho o exito que lhe antevemos. Registe-se que, expontâneamente, logo nos primeiros dias se inscreveram mais de 200 sócios, que até então não pertenciam a nenhum dos dois clubes.

União Sport Clube Almadense (emblema).

O sr. José Braz anima-se. As suas palavras são ajudadas por entusiasmo que, sendo comovido, deixa entretanto prever os beltssimos projectos que estão já em efectivação.

— O Almada Atlético Clube será um clube de todos e para todos. Preocupa-nos não fazermos uma coisa defeituosa, mas sim com bases sérias e que no futuro marque posição. Pretendemos, especialmente, fazer em Almada um clube em que se possa preparar a juventude,

Acarinhados e aconselhados pelo sr. capitão António Cardoso, contamos com o aplauso da Direcção Geral doa Desportos, além do apoio dos melhores valores da nossa terra.

E o sr. José Braz salienta-nos um nome, uma figura a quem o concelho deve: o banqueiro António Piano Jnr. Almada considera-o a sua "varinha de condão", sempre ao lado das boas iniciativas, desde que tenham por finalidade o engrandecimento da terra.

A generosidade do sr. Piano Junior tem-se feito sentir em tórias as obras de beneficèneia e de recreio espiritual que se têm organizado em Almada. E ao ser posto ao corrente do que se passava com a fundação do novo clube desportivo, o interesse e a magnífica ajuda de António Piano colocaram-se ao dispor da direcção do Almada Atlético Clube.

Mercê desse valiosíssimo apoio — countinua elucidando-nos o sr. José Braz — o novo clube, terá a sua sede própria. Neste momento ultimam-se as negociações para a compra, ou de um edifício e campo anexo, ou de terreno onde se edificará a sede. E qualquer destes elementos estão já escolhidos.

— Os seus projectos, quanto a instalações desportivas?
— A futura sede do Almada A. C. reunirá todas as instalações necessárias o um bom clube de desporto. Terá um amplo e apetrechado gimnásio e um campo de "basket ball".


Os campos dos dois clubes, o do Pedreirense e do União, pensamos depois aproveitá-los sob o seguinte projecto: o primeiro para futebol, introduzindo-lhe mais alguns melhoramentos e bancadas; o segundo para os pistas de atletismo, "rink" de patinagem, "courts" de ténis e piscina. (1)


(1) Stadium n° 89, 16 de agosto de 1944

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
O Almada Atlético Clube a caminho de transformar-se em grande instituição, Stadium n° 167, 13 de fevereiro de 1946

Artigos relacionados:
Almada Atlético Clube (1946)
Pedreirense Foot-Ball Club
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Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...
Grupo Desportivo da Casa dos Pescadores da Costa de Caparica

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Pedreirense Foot-Ball Club

Arrendara o Pedreirense Futebol Clube um declive de terreno no Pau-da-Bandeira e a maioria da massa associativa jurara "fossar" na terraplenagem. Há dias que parte da vila abrasava deste entusiasmo, e questiúnculas rompiam onde quer que estivessem adeptos dos amarelos-e-pretos e do União de Almada.

Construção do Campo do Pragal por voluntários do Pedreirense Futebol Club.
Gabriela Henriques

Vivia o Pedreirense sem campo atlético, treinando por empréstimo ora no rectângulo do Ginásio, ora no do rival. Mas agora, sim, com boa vontade de todos, tardes e noites, alumiados por réstias de sol ou bicos de carboreto, os braços não descansariam enquanto aquele chão não fosse propício a pugnas futebolísticas (...)

Pela ladeira ingreme que conduzia à vila, juntaram-se outros operários, gente das oficinas da Companhia de Pesca. Era um bando de enfarruscados; muitos faziam "picança" nas traineiras. Também eles vinham envolvidos no mesmo despique: unionistas e pedreirenses atenazando-se mutuamente. Uma joelhada fez voltar Alfredo - que deu com a cara suja de Casimiro.

Oh, pá! — Vas logo também cavar prà quinta do Feiteira? — brincou ele.

Já fui ontem... — respondeu o filho de Gracinda. Se os outros têm campo, a gente não tem porquê!? (1)

Pedreirense Futebol Clube. Nasceu na Rua da Pedreira, em 1920, e funde-se com o União Almadense, em 1944, dando o Almada Atlético Clube dos nossos dias. Esta fotografia da sua equipa de futebol é datada de 1925.

Equipa de futebol do Pedreirense Futebol Clube em 1925.
Henrique Mota, Desportistas Almadenses

Da esquerda: Agostinho de Figueiredo, Leonel Alaiz, guarda-redes da 1.a categoria do Clube de Futebol "Os Belenenses", e irmão de Rogério Alaiz, (talvez o futebolista mais habilidoso de Almada, e ainda irmão do grande democrata José Alaiz), Quirino Mendonça, Carlos Santos, Augusto Luís (o popular Agulhas, que além de bom futebolista foi um inteligente executante musical e inspirado compositor), Júlio Calóca, Manuel Lino, António Luís (conhecido por Maloia, que foi um primoroso futebolista), Américo Valentim, António Alves (conhecido por Pau por ser rijo e destemido, e irmão de dois excelentes futebolistas, Joãozinho e Franquelim Alves, o «Bidas»), Arsénio de Andrade (probo executante musical, que esteve 40 anos na Banda da Sociedade Incrivel Almadense) (2)

Cartão de sócio do Pedreirense Foot-Ball Club.
Delcampe, Bosspostcard

O sr. António Jesus Soares solicitou elementos sobre a criação do Almada Atlético Clube (fundado em 20 de julho de 1944), os quais lhe foram facultados, incluindo os modelos de equipamento utilizados, na altura, pela União Sport Club Almadense, filiado 166, admitido na Associação de Futebol de Lisboa em 23 de outubro de 1924 e pelo Pedreirense Football Club, admitido em 27 de maio de 1925, ficando registado com o nº 178.

Pedreirense Foot-Ball Club

Estes clubes fundiram-se para dar lugar ao Almada Atlético Club. (3)

União Sport Club Almadense


(1) Romeu Correia, Os tanoeiros, Parceria A. M. Pereira, 1976
(2) Henrique Mota, Desportistas Almadenses
(3) Alberto Helder, Fui voluntário durante 867 dias

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
Stadium n° 89, 1944

Artigos relacionados:
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...

terça-feira, 26 de maio de 2020

Emilia Pomar de Sousa Machado (1857-1944)

Oh! Noite, oh! Minha amiga! Sê bendita
No teu manto de brilhos estelares,
Bendita cá na terra e lá nos mares,
E na vasta amplidão, sempre infinita!

Emilia Pomar de Sousa Machado (1857-1944)
Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada...

Tua sombra é propícia a quem medita
E sente o coração livre nos ares,
Tendo sóis e planetas por altares
Onde existe a Verdade Eterna escrita.

Oiço a voz do silêncio que revela
A vida de outros mundos, e os mistérios
Ocultos na azulada transparência...

Há tesouros de amor em cada estrela
Que vai rolando em vagalhões sidéreos,
E tenho, e sinto, um Deus na consciência! (1)

Poetisa e educadora, nascida no lugar de Cacilhas pelo mês de Junho de 1857. 

Filha de Júlio Pomar, de origem galega, estabelecido com um armazém de azeite. Mais tarde casou com o comandante da marinha mercante José Severo de Sousa Machado [o filho deste casal foi o comandante Francisco pomar de Sousa Machado, sócio da Empresa Fluvial de cacilhas que teve na travessia do Tejo os "barcos pequenos" Popular, Pacífico e Portugal].

"Quando moça enfeitiçara-a a ópera no Teatro de S. Carlos, e lá ia, acompanhada do pai, atravessando o Tejo, de ida e volta em botes, nem sempre romançosa a corrente fluvial e nem sempre límpido céu estrelado. 

Quando em idade avançada, já no ocaso radiante, sentada ao piano, tocava e cantava algumas óperas do seu maior agrado, que a sua vizinhança escutava emocionada" [texto de D. Francisco de Melo e Noronha]. 

Emília Pomar de Sousa Machado conhecia Italiano, Francês, Inglês, Espanhol e Latim. Publicou o livro de poemas "As Pecadoras", deixando larga colaboração na Imprensa regional e foi correspondente da Revista Espírita Brasileira, "Luz e Caridade". 


Ablução [em "As Peccadoras" cf. Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016]

Toda à agua do Ceo caindo em baga,
Cotas de chuva brancas, erystallinas,
verdes aguas do mar, potentes vagas,
e toda a que beberam as campinas,
mesmo a que guarda o intimo das fragas,
e de Jesus as lagrimas divinas,
o próprio orvalho que a lua da alva chora
para lavar a pobre pecadora.

Cacilhas, 24-5-1921.

Traduziu do francês o romance de Ernesto Doudet, "O Crime de João Malory", publicado em folhetins no jornal O Sul do Tejo, em 1885. Há um poema da sua autoria, "Ignota Almada", enaltecendo a resistência dos almadenses contra os castelhanos, em 1384, musicado por Leonel Duarte Ferreira.

Possuindo uma seleccionada biblioteca, exerceu constante e profícua acção cultural junto das camadas mais jovens. Muitos lhe ficaram devendo o gosto pela leitura, o amor aos livros e os primeiros passos na aquisição de conhecimentos.

Tia-avó do pintor Júlio Pomar, faleceu em Cacilhas no dia 14 de Novembro de 1944. Tinha 87 anos de idade. (2)

Que vejo além? ruinas e destroços,
o incêndio, a miséria, e tanta dôr...
entre montões de entulho, sangue e ossos:
É Liege e Luvaina: que pavor!


A Rendição (estudo), Adriano Sousa Lopes.
Reactor

O que ouço alem? que voz me traz o vento
que vem do norte, e fere o coração?
É como o estertorar do último alento
e a voz atroadora do canhão.

Que emanações são estas que ora sinto
que a brisa em seu eterno giro espalha?
é um mixto de horror, cheiro indistinto...
É o cheiro dos campos de batalha.

Quem impele nações contra nações,
que assola tudo e todo o mundo aterra?
É um monstro gerado de ambições
e esse monstro cruel chama-se: a Guerra. (3)


(1) De noite, Alguns vultos do Movimento Espírita Português
(2) Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada..., 1978
(3) A guerra, O Domingo n.° 719, semanário republicano radical, 18 de abril de 1915

Mais informação:
Alexandre Flores (fb)
Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016

Leitura adicional:
Os grandes homens, Revista Luz e Caridade, outubro de 1934

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Um Hino a Almada

Comemorando o 50.° aniversário da sua fundação, mandou a Academia de I. R. F. Almadense fazer, com o consentimento do autor, a pubicação deste poema, onde se exaltam as virtudes antigas e modernas do bom povo de Almada. 

Detalhe da capa do livro Um hino a Almada, Álvaro Valente, 1945.
InfoGestNet

Poema em onze cantos. Na Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense na tarde de 4 de Junho de 1944. (1)

Intróito

Canto I A Natureza. Os Monumentos

Canto II Costa do Sol

Canto III O Trabalho

Canto IV S. João da Ramalha. Popular

Canto V Origem do nome de Almada

Canto VI O cêrco de Almada

Canto VII Um Auto e dois processos

Canto VIII Restauração de Portugal

Canto IX Lutas Liberais

Canto X Vultos Ilustres

Canto XI Almada actual. Arte e espíritos


(1) InfoGestNet cf. Álvaro Valente, Um hino a Almada, Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1945

Informação relacionada:
O Pharol: Álvaro Valente, o Homem e a Obra
Livreiro Monasticon

terça-feira, 30 de junho de 2015

Empresa de Camionetes Piedense

A empresa Piedense tem uma frota de 44 veículos, a maioria dos quais com base nos chassis Volvo e Berliet de motor frontal.

Cacilhas, Lisboa vista de Cacilhas, ed. Postalfoto, 468, década de 1950.
Imagem: Delcampe

As carrocerias em alumínio foram construídas pela empresa em oficinas próprias, na Trafaria. O material utilizado foi em grande parte fornecido pela Aluminium Union, Ltd., da Grã-Bretanha, e o diretor e gerente geral, sr. Agostinho Ramos Munhá, está satisfeito com os resultados.

Cacilhas, autocarro Volvo, viatura 24 ou 26 da da Empresa de Camionetes Piedense, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, c. 1947.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

As taxas de consumo de combustível dos veículos são baixas e uma grande poupança é feita em direitos de importação.

Versatilidade do chassis Berliet PCK 8 adaptável a diferentes carrocerias.
Imagem: Bus America

As carrocerias apresentam-se sem pintura, e têm-se revelado particularmente fáceis de limpar e manter.

Cacilhas, comemorações do centenário da Incrível Almadense, Júlio Dinis, Outubro de 1948.
Em segundo plano, autocarros com cabine recuada e, outros, com a volumetria do motor integrada no habitáculo.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

As grandes janelas curvas, à frente e atrás, e as portas de dobrar são características do design. O sistema de entrada de passageiros pela traseira e saída pela frente, com o sistema de portas dobráveis, operadas manualmente, é generalizado em Portugal.

Trafaria, paragem de autocarros, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Os interiores são revestidos a alumínio natural, com estofos em vermelho. As janelas são de correr, de manuseamento rápido, com cortinas, e as luzes do teto têm painel antirreflexo. As camionetes têm instalado um relógio e um aparelho de rádio porque também são usadas ​​em serviços interurbanos e de turismo.

Berliet PCK 7, autocarro com carroceria do fabricante.
Imagem: Delcampe

Acima do lugar do motorista está um espelho à largura total que lhe dá uma visão completa do interior e, a seu lado, está disponível um assento especial para funcionários da empresa e da polícia, que são transportados gratuitamente.

Berliet PCR 10, interurbano com carroceria do fabricante.
Imagem: Delcampe

São transportados pelos veículos mercadorias, correio e passageiros. As mercadorias são transportadas no tejadilho [...] Na parte traseira do veículo, do lado de fora, há uma caixa de correio [...]

Berliet PCK, viatura 29 da Empresa de Camionetes Piedense, c. 1952.
Imagem: Publi Transport in Portugal

Muitos passageiros obtêm os seus bilhetes nos escritórios da empresa antes do embarque.

Às 62.000 milhas cada veículo é sujeito a uma inspeção geral e revisões pontuais são efetuadas nos intervalos de 42.000, 36.000 e 30.000 milhas. Duas grandes manutenções são feitas a cada mês, de maneira que nenhuma das camionetes trabalha mais de dois anos sem uma revisão completa.

Berliet PCK, viatura 29 da Empresa de Camionetes Piedense, década de 1950.
Imagem: José Luis Covita

As bombas de combustível são recalibrados numa máquina inventada por um empregado da empresa. O seu sucesso é tal que é frequentemente emprestada aos operadores de Lisboa.

Uma nova área de desenvolvimento da empresa é a construção de alguns atrelados de 16 lugares, que serão rebocados por pequenas unidades de tração, para o serviço de curta distância a partir do terminal na Costa da Caparica até à praia, que se está a tornar uma estância de fim de semana favorita dos lisbonenses.

Costa da Caparica, Almada, Largo Comandante Sá Linhares, ed. Passaporte, 08, década de 1950.
Imagem: Fundação Portimagem

Além das carreiras regulares, são também efetuados oito serviços de longa distância pelo sul e centro de Portugal. Estes serviços abrangem uma rota total de 1.020 milhas.

Cacilhas, Berliet PCR, viatura 31 (?) da Empresa de Camionetes Piedense, c. 1952.
Imagem: Publi Transport in Portugal

No total, 2 milhões de passageiros são transportados pela empresa em cada ano e os veículos cobrem 21 milhões de milhas.

Cacilhas, autocarro Berliet da Empresa de Camionetes Piedense, com o pára brisas em lanterna.
Imagem: José Luis Covita

Embora a qualidade dos veículos britânicos seja admirada pelo diretor geral, o mesmo acredita que, por causa do seu preço, não é atualmente possível a compra de veículos britânicos.

Cacilhas, autocarro Berliet, viatura 53 da Empresa de Camionetes Piedense.
Imagem: José Luis Covita

Os veículos franceses e suecos sempre prestaram um excelente serviço. (1)


(1) Commercial Motor (Archive),  Publi Transport in Portugal,  31 de outubro 1952, pág. 41

Artigo relacionado:
Uma empresa que se impõe


Bibliografia:
Covita, José Luis Gonçalves, História da Camionagem no Concelho de Almada, Almada, Câmara Municipal de Almada, 2004

domingo, 30 de março de 2014

Cova da Piedade em 1890, a ponte do Caramujo

Em princípios do século XIX o local [Caramujo] era uma larga restinga de areia que fechava um antigo esteiro, então já reduzido a um grupo de valas e uma caldeira de moinho de maré [dito da Mutela ou do Mesquitela] 

A sul da caldeira ficavam as valas alimentadas pelas águas do ribeiro da Mutela (o que corre pelo vale de Mourelos) e pelas águas de maré. A passagem entre as valas e a caldeira era "a ponte", nome que ainda hoje é lembrado. (1)

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

A ponte do Caramujo, na sua forma primitiva ligava a Mutela ao Caramujo nos finais do séc. XIX... A grande vala representada na ilustração [sic] era uma das valas provenientes do largo da Piedade, que mais tarde foi aproveitada para colocação do colector.

Em 1923, [o Dr. António Resende Elvas] montou o consultório na rua Capitão Leitão (Almada), depois na rua Manuel Febrero e, em 1935, mandou construir a "Clínica Dr. António Elvas" na Mutela, no lugar da ponte do Caramujo (2).

Clínica de Dr. António Elvas, 1935
Imagem: João Elvas 

É criada [em 1944] uma zona de protecção ao conjunto de instalações da marinha do Alfeite e, dentro dela, uma zona de expansão e influência dessas instalações.

A zona de protecção é demarcada, pelo lado do rio, pela linha de margem compreendida entre o limite SE das instalações do quartel do Corpo de Marinheiros e o ponto de encontro dessa linha com o prolongamento, até a rio, das fachadas do lado norte da rua que liga à estrada nacional n.° 19-1.° no local designado por Ponte do Caramujo. (3)

Zona de protecção das Instalações da Marinha no Alfeite
Imagem: Diário da República, I Série, n° 138, 28 de Junho de 1944


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

(2) Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

(3) Diário da República, I Série, n° 138, 28 de Junho de 1944, pág. 584
 
* Barrocas, António, Arte da luz dita, revistas e boletins teoria e prática da fotografia em Portugal (1880-1900), Vol. II, 2006