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sábado, 7 de janeiro de 2023

Taludes do Almaraz

Observaram-se em diversos levantamentos alguns desmornamentos mas estes apenas ocorreram a partir da face rochosa do trecho escarpado superior, não afectando a respectiva crista. Evitaram-se os locais que se sabia terem sido alterados por interferência directa do Homem (escavações para adoçamento da crista, sobre o Olho de Boi, ou para alargamento de plataformas, sobre o Ginjal).

Olho de Boi, João Vaz, 1887.
Museu Nacional Soares dos Reis

O único caso de recuo efectivo de um trecho de escarpa ocorreu a meia encosta entre Boca do Vento e Fonte da Pipa, em 1992 e, por ser do conhecimento prévio do autor, foi facilmente detectado no levantamento de fotografias aéreas de 1994.

No mesmo local, ocorreram em datas posteriores àquele levantamento outras ocorrências (a partir de Janeiro de 1996) e, como aquele, associadas a uma mesma camada rochosa que formava uma consola de grande balanço.

Derrocada parcial do talude fronteiro à Fonte da Pipa
Cristo Rei, ed. Bazar Mumi n° 218.
Delcampe Bosspostcard


Em relação ao trecho de escarpa contínua entre Cacilhas e Arialva, o tipo dominante de movimento de terrenos consiste em quedas de blocos a partir das paredes verticais ou sub-verticais, onde as camadas mais rijas formam consolas postas em destaque pela erosão diferencial dos estratos confinantes mais brandos, inferiores e superiores (...)

A ocorrência em 1992, 1996 e 1997, de quedas de blocos de grande volume (várias dezenas de metros cúbicos) concentrando-se no trecho entre Boca do Vento e Fonte da Pipa, justifica-se pela presença, nesse local, de um espesso banco calcário a calcarenítico formando consolas com cerca de 3 m de balanço. Muito próximo deste trecho, um pouco a oeste, registe-se a queda, em 1968, de um bloco de cerca de 150 toneladas sobre as instalações da antiga Companhia Portuguesa de Pescas.

Perfil geológico simplificado do trecho de taludes entre Castelo de Almada e o Seminário de São Paulo, sobre Olho de Boi, desenhado sobre fotografia tomada a partir da margem oposta
cf. Pedro Lamas, Os taludes da margem sul do Tejo, 1998

A maior parte destas ocorrências tem a sua origem, quase sempre, a meia altura da escarpa, não sendo visíveis os seus efeitos no total deste sector. Da escarpa, destacam-se blocos aproximadamente prismáticos ou em diedro, no caso do maciço se encontrar compartimentado por diaclases oblíquas à sua parede.

Registe-se, ainda, um talude sobranceiro ao cais do Ginjal, coberto por depósitos de vertente espessos, onde ocorreu um escorregamento que obrigou à realização de obras de estabilização importantes (...) (1)


(1) Pedro Lamas, Os taludes da margem sul do Tejo, 1998

Artigos relacionados:
Fonte da Pipa e sua água
Fonte da Pipa e seu caminho
Sítio de Olho-de-Boi

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

À margem do rio, Manuel Tavares Junior

Manuel Tavares é uma figura algo lendária, porque pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, exceto que nasceu no Couto de Cucujães (concelho de Oliveira de Azeméis), no ano de 1911, e que faleceu no ano de 1974.

Vista do Tejo e de Lisboa a partir de Almada, Manuel Tavares Junior, 1963.

... distinguiu-se como paisagista, tema em que se destacam as marinhas e a ria, e também como retratista de trechos citadinos. Das muitas exposições que realizou individualmente há que realçar as que tiveram lugar em Lisboa, no ano de 1942, em Almada (1961), Coimbra (1936).

Cista de Cacilhas (Ginjal), Manuel Tavares, 1950.
Cabral Moncada Leilões

Das mostras coletivas em que participou, os destaques vão para as ocorridas na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa (1950 e 1952), a primeira Exposição dos Artistas de Aveiro (1970), a Grande Exposição dos Artistas Portugueses (1935) e ainda exposições realizadas em Lisboa (1952, 1966 e 1974), Almada (1961), Faro (1968), Matosinhos (1953 e 1963) e Porto (1935).


Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, 1960
Cabral Moncada Leilões

Manuel Tavares está representado em diversos museus, nomeadamente no Museu Soares dos Reis (Porto), de Aveiro, de Beja, de Faro e de Matosinhos, bem como em coleções privadas, portuguesas como estrangeiras. (1)


(1) Cardoso Ferreira, Aveirense ilustre – Manuel Tavares, aguarelista de renome internacional, 2017

Artigo relacionado:
À margem do mar, Manuel Tavares Junior

terça-feira, 15 de maio de 2018

Sítio de Olho-de-Boi

Parece que não será no edificio do sr. Raton, mas na Outra-banda, no sitio de Olho-de-boi, que a companhia de "Fiação e Tecidos" vai estabelecer a sua fábrica. N'este último local esteve a fábrica de "lanificios de patente" [panos de feltro?], empresa que está em liquidação.

Olho de Boi, João Vaz, 1887.
Imagem: MNSR

Em qualquer sitio porém que a companhia de "Fiação e Tecidos" se estabeleça, fazemos votos pela sua prosperidade. (1)

Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [fundada em 1838], armazéns, rua dos Fanqueiros 135, Lisboa.

Fonte da Pipa — Almada,
Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tecidos de algodão. Esta companhia tem três fábricas: duas em Santo Amaro, Belem, para a fiação e tecelagem; uma em Olho de Boi, Almada, para a fiação e tinturaria.

Operários (durante as épocas normais): 285 do sexo masculino e 465 do sexo feminino.

Salários: de 280 réis a 800 réis por dia para os homens; de 420 réis a 240 réis por dia para as mulheres; de 80 réis a 460 réis por dia para os menores.

Produção anual: 385 contos de réis mais ou menos. Escoamento: os de Portugal e colónias de África, Brasil e Espanha.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Medalhas nas esposições de Lisboa 1849, Porto 1861, Lisboa 1863, Londres 1861, Londres 1862, Paris 1855, Porto 1865. (2)

*     *
*

CPP (Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa)

E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca. (3)

Olho de Boi, Companhia Portuguesa de Pesca, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Companhia Portuguesa de Pesca foi fundada no ano de 1920 por quarto pequenos armadores de pesca de arrasto, cada um proprietário de um navio.

Tipo de arrastão a vapor do início do séclo XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Companhia surgiu num contexto de expansão da indústria conserveira e piscatória.

Inicialmente, os navios dedicados unicamente à pesca por arrastão costeira funcionavam a partir do cais de Santos, na margem norte, em Lisboa. devido ao pouco espaço na margem direita do rio Tejo, por estarem já implantadas algumas das importantes unidades fabris e devido à manutenção e aparelhagem dos navios, a direcção decidiu que era necessário construírem infra-estruturas de apoio.

Arrastões da Companhia Portuguesa de Pesca, Alcatraz e Liberal Primeiro, na Doca 1 da C.U.F., em Lisboa.
Imagem: Caxinas a freguesia

O local escolhido foi a margem esquerda, no Olho de Boi em Almada.

Numa primeira fase, foi celebrado um contrato de aluguer com a Administração Geral do Porto de Lisboa para a zona ribeirinha na margem sul, que ia desde o início do caminho para Almada até à Quinta da Arealva.


Nesta zona encontrava-se já uma muralha, que permitia a acostagem dos arrastões. Esta foi alargada mais tarde com a construção de um cais, assente em pilares, que avançou umas dezenas de metros em relação à estrutura existente, sendo assim possível atingir área profunda e portanto mais favorável à manobra das embarcações.

Lançamento à água do arrastaõ Almada em 1953.
Foram gémeos do Almada na Companhia Portuguesa de pesca os arrastões Alfama, Ajezur, Alvalade e Alfeite.
cf. Navios à vista

A escolha deste local deve-se também ao facto de se encontrar aí um edifício desactivado, que pertencera à Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses, passando este edifício a ser a zona de mecânica da CPP e o pólo das restantes estruturas fabris posteriormente construídas.

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Esta fábrica era uma das unidades industriais cujo aparecimento na segunda metade do séc. XIX foi um dos marcos da industrialização na margem sul.

Navios no cais do Ginjal, Real Bordalo, 1976.
Imagem: eBay

A CPP adquiriu este edifício, assim como algumas quintas contíguas, que se estendiam entre a orla ribeirinha e a arriba.

Cais do Ginjal, arrastões Algol e Alcoa da CPP, 1984.
Imagem: Nuno Bartolomeu

Alguns anos mais tarde a companhia expandiu-se ao longo da zona ribeirinha, para Este, até ao cais da Fonte da Pipa [...] (4)

"Estuário do Tejo - Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO MARTINS HOMEM, da SNAB / foto de autor desconhecido, gentilmente cedida por Nuno Bartolomeu."
cf. Navios à vista
Resolução do Conselho de Ministros n.º 30/84

Pelo Decreto-Lei 139/84, foi extinta a CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, S. A. R. L., tendo o Estado exercido o direito de reserva relativamente a alguns bens do património da empresa, abrangendo navios, participação financeira e direitos de crédito, com a possibilidade de os mesmos serem afectos a outras empresas [...] (5)

Art. 5.º - 1 [Decreto-Lei 139/84]- Ao abrigo do n.º 2 do artigo 44.º do Decreto-Lei 260/76, de 8 de Abril, o Estado reserva, do património da empresa, o seguinte:

1.º - Navios:
a) Aldebaran - Lx-39-A;
b) Alcoa - Lx-30-A;
c) Alcyon - Lx-51-A;
d) Algol - Lx-32-A;
e) Algenib - Lx-41-A;
f) Alvalade - Lx-65-A;
g) Alfeite - Lx-67-A;
h) Alcântara - Lx-19-A;
i) Almada - Lx-57-A;
j) Alcaide - Lx-71-A;
l) Alfama - Lx-59-A;
m) Aljezur - Lx-63-A. [...] (6)


(1) Revista Universal Lisbonense n.° 12, setembro de 1845
(2) Catalogue spécial de la section portugaise à l'Exposition universelle de Paris en 1867
(3) Vidas Lusófonas: Romeu Correia 
(4) Almada Digital
(5) Resolução do Conselho de Ministros 30/84, de 7 de Maio
(6) Decreto-lei 139/84, de 7 de Maio

Artigos relacionados:
O Grémio

Mais informação (Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense):
Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense : relação dos seus accionistas... 1872
Revista da exposição portugueza no Rio de Janeiro em 1879

Mais informação (CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa):
Flickr (FCG), Pescas, Mário Novais
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos)
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos - tabela de excertos)
Restos de Colecção: Companhia Portuguesa de Pesca
Marinha (arquivo histórico)
Navios à vista: o abalroamento do arrastão Alvor
Blogue dos navios e do mar: Fishing vessel Blue


Leitura adicional:
50 anos da Companhia Portuguesa de Pesca, "Jornal do Pescador", Agosto 1970, pp 25-27.
Os Arrastões do Bacalhau



Sobre o Açor e o Alda Benvinda (os primeiros barcos de pesca a vapor em Portugal):
Momentos de História
Agepor 11

sábado, 27 de agosto de 2016

Memórias simples

Ha no destricto desta Freguesia dous pórtos de mar, hum he о da Fonte da Pipa, com seu Forte para a banda do Poente, com huma praya como a deu a natureza sem artificio algum, frequentado de muitas embarcações, especialmente lanchas, que a ella vem fazer aguadas, e pode admittir até dezoito désta casta de embarcações.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

O outro porto he o do Cubal, com huma praya mais espaçosa, que a do primeiro, assim no comprimento, como na largura, tambem sem artificio, frequentado de varias embarcações, como são; bateiras, e fragatas, e as que o frequentão todos os dias fao dezasseis, e tem capacidade para admittir até cincoenta embarcações, como barcos de Cassilhas, que em muitas occasioens do anno vem amarrar nella, pela causa de ser abrigado das tormentas dos Nordestes, e Lestes, que por aqui correm com grande violencia. (1)

Vista de Cacilhas e do Tejo, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Além de subsistirem traços “do cais e instalações [...] com características identificáveis de final do séc. XVII e XVIII [...],” sofrendo, no entanto, "sucessivos acrescentos e alterações, particularmente após meados de oitocentos," também é verdade que no século XVIII se construíram de raiz "armazéns e cais de alvenaria. A impossibilidade de expansão para a arriba obriga à extensão do cais pela margem à medida das necessidades".

Em 1813, "parte significativa destes armazéns eram propriedade da família Paliarte [...]." Dedicava-se, como de resto a maioria dos comerciantes de vinho ali estabelecidos, à actividade exportadora. (2)

Cacilhas Ginjal Grémio Vista aérea 01 c 1960
Imagem: OBSERVADOR

Segundo os poucos testemunhos disponíveis, a actividade comercial exercida pela Sociedade Theotónio Pereira no século XIX e, ainda, na primeira metade do século XX, tinha por base uma série de produtos agrícolas já transformados, de que se destacavam, entre outros, os vinhos, as aguardentes e o azeite.

A firma que, tanto quanto se sabe, nas suas várias fases em momento algum se dedicou à produção ou sequer à transformação dos produtos que transaccionava, pelo menos em grande escala, tinha a sua sede em Lisboa, sendo possível, ou bastante provável, que até à aquisição dos armazéns localizados no Cais do Ginjal — não sendo de descartar a possibilidade de aqui ter funcionado sempre a actividade armazenista —, toda a mercadoria ficasse acondicionada em depósitos situados na zona ribeirinha de Lisboa ou nas imediações desta.

Panorama de Cacilhas (Ginjal, Fonte da Pipa, Olho de Boi, Quinta da Arealva), 1967.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A de qualquer modo precoce localização, na vida da empresa, dos seus armazéns no Cais Ginjal, encontra-se indirectamente documentada por se saber que quando em Agosto de 1871 foram adquiridos por Theotónio Pereira vários prédios no dito cais, dos números 12 ao 22, havia pelo menos um deles que confrontava com a propriedade da Viúva Theotónio Pereira & Filhos [...]

[...] um prédio na Rua Direita em Almada; um prédio rústico no Ginjal; um outro, também no Ginjal, descrito como rústico e urbano (composto de vinhas – parreiras – árvores de fruto, horta, com duas nascentes de água, casa para caseiro, telheiro e forno); sete prédios urbanos no Ginjal, quase todos eles armazéns com um ou dois pisos; um "domínio" principal de uma "praia denominada do baixo mar, no sítio do Ginjal" de que era "senhoria" a Câmara Municipal de Almada; um segundo "domínio" principal de "uns armazéns, casa e pátio no Ginjal" de que era "senhoria directa" a mesma Câmara Municipal [...] 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal



Das vinhas do citado prédio rústico e urbano, "uma quinta encantadora, encostada à rocha de Almada", com o seu "grande parreiral de belíssimas uvas", seguia este seu fruto "em caixas para o estrangeiro" [...]

Foi no Ginjal que nasceu de madrugada Virgínia Theotónio Pereira, a mais nova dos cinco irmãos. Na altura, e como sucedia não poucas vezes, seu pai encontrava-se num pequeno bote a pescar "ao candeio acompanhado de dois pescadores vizinhos". No fim dessa madrugada, levou para casa, entre outro pescado, um "possante congro de 15 quilos." Regressou entusiasmado pela pescaria mas "mal passou os umbrais ouviu um cué-cué de bebé nascido" [...]

Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Era naquela mesma casa "de fora" do Ginjal que José Correia [avô do escritor Romeu Correia], o encarregado das adegas e dos armazéns de vinhos, marcava os "pas de quatre e as quadrilhas". Juntava-se-lhes "sempre que possível o pessoal menor, depois de se assear", para dar o "seu pé de dança, que acabava sempre num galope à roda mesa da sala de jantar". (3)


(1) P.e Luís Cardoso, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.
(2) Martinez, ... ser mestre do vapor de Cacilhas, 2005
(citações de Maria Ângela Correia Luzia, A memória, a cidade e o rio, Lisboa, 1996)
(3) Martinez, idem

Leitura relacionada:
Cais do Ginjal. Da fortuna à decadência

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O Ginjal não é para raparigas solteiras

Tema:
Ginjal

sábado, 13 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (6/18), sapo e doninha


SAPO E DONINHA



Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior (gravura), 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Já lá vão bastantes annos depois d'essa tarde de abril, em que Antão Diniz, de sobrecasaca azul com botões amarellos, galões de major nos punhos, chapéo redondo, e guarda-sol ao hombro, levava pelo braço D. Francisca Rosa de Lima, sua mulher, a santa senhora, como lhe chamava a tia Libania; adiante sua filha Mathilde, linda mocinha de l6 annos, com seus sapatos de fitas traçadas, e vestido de seda cor de canella, toda peralta, como tambem dizia a tia Libania; e á esquerda de D. Francisca, o joven Luiz Franco, a cara mais sympathica de rapaz que eu tenho conhecido.

La se ía este ranchínho na direcção da Arealva, por aquella empoeirada estrada, para onde a brisa impellia os aromas de mil odoriferas plantas. Sobre elle o nosso bello sol meridional projectava a sua cor doirada d'entre o azul da abobada celeste. Ao longe ouvia-se a chiada dos carros e o saudoso ulular dos moinhos.

Ó cidades. que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda.

Lá vão pois estrada fóra; e para fazerem o passeio mais longo, ao chegarem ao poço de Cacilhas sobem a Almada, contemplam Lisboa, cidade que d'ali parece como feita de marfim, e a que só faltam os minaretes para se afigurar ao viajante uma cidade mahometana, tão branca e phantastica se apresenta á vista com seu hello porto, vasto, e ermo de navios n'esta época da decadencia de Portugal...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Depois descem á Bocca do Vento, dirigem-se a Olho de Boi, e percorrem o longo caes que conduz á entrada da Arealva. Eil-os na quinta d'este nome, nos bancos de pedra, junto ao portão, debaixo das velhas arvores.

— Pae! Se eu fôra rapaz, diz Mathilde, havia de vir muitas vezes deitar-me á sombra d'este arvoredo, a olhar para o céo, para o Tejo, e para as penedias que estão por cima de nossas cabeças.
— Para que filha? diz Antão Diniz.
— Ora para que... para que não sei... Gosto muito de estar aqui.
— É um optimo logar para pensar, para meditar, observa Luiz Franco.
— Para pensar! replica Mathilde. Pois póde-se pensar quando se está diante d`estas scenas?!... Eu por mim não posso senão contemplar, e acho pouco todo o meu coração para isso.
— Já senti o mesmo, filha, tornou Antão Diniz, se bem que não soubesse então, nem me atravesse a exprimir taes sensações, com medo de que ellas fossem grande defeito da minha alma, defeito que me cumpria occultar; mas hoje que aprecio melhor o juizo que então formava das minhas sensações, sei fazer justiça ao teu coração.

— Muito bem, sr. Antão Diniz, observa Luiz Franco. Mas a longa contemplação das bellas paisagens costuma trazer no fim certa porção de tristeza, um sentimento que acabrunha o espirito, e como que lhe embota por momentos as faculdades; sentimento a que nos esforçâmos por subtrair-nos (tanto elle nos enleva!) transportando-nos a logares mais prosaicos.
— É, diz Antão Diniz, porque a contemplação não interrompida de tantas maravilhas cansa a alma, e ella precisa de descançar em outros objectos menos imponentes. Tudo no mundo tem e precisa ter verso e reverso, claro e escuro, e a sensibilidade da alma não é exceptuada da regra geral.

— Quem será que lé vem adiante? — diz D. Francisca, que principiava a aborrecer-se com a conversação.
— Parece marujo — observa Franco. Effectivamente da banda do Olho de Boi vinha um marinheiro alto, que ao chegar proximo do grupo de que fallamos, tirou o seu chapéo embreado, e deu as boas tardes, acrescentando:

— Acaso v. ex.as perderam alguma coisa?

Depois de alguns momentos, disse Mathilde — Perdi o meu lenço.

— É este? Aqui está, e por feliz me dou em ter achado este lencinho da sr.a D. Mathilde, filha do sr. Antão Diniz, de quem sou humildo criado.

Espanta-maridos disse tudo isto porque viu que o não tinham reconhecido; mas disse-o do um modo que á força de ser delicado degenerava em grotesco, o que fez sorrir Luiz Franco.

— Quem és tn que nos conheces? — perguntou Diniz com modo benevolente.
— Sou Joaquim de Jesus, o Espanta-maridos, alcunha que nunca pude saber quem foi o parceiro que m'a poz, mas que nunca mais pude tirar de cima do lombo.
— Ó Joaquim de Jesus! Tu por aqui! Então que é feito? Chega-te cá, meu rapaz, que te quero dar um abraço.

Espanta-maridos abriu os braços, e deu um passo para diante, mas parando de repente, disse:

— Não acceito. É demasiada honra para um engeitado e marinheiro.
— Será, será; mas não para homens como tu, que possuem um nobre coração. E abraçaram-se.

Depois recebeu Espanta-maridos outro cordial abraço de Franco, e fez os cumprimentos ás senhoras.

Ora ha em toda a gente da Outra Banda ricos e pobres, um certo ar de affabilidade e de agasalho mutuo, que diflicilmente se encontra nas cidades.

Ali o abastado trata o pobre e o miseravel com toda a urbanidade, conversa e mesmo ri com elle, mas isto de modo tal que não exclue o respeito entre as differentes classes; e a gente de Lisboa que lá vae passar o verão affaz-se sem custo a tão bella familiaridade.

Ás vezes de tarde em Cacilhas, no Caramujo, na Piedade e em Almada, parecem todos mais uma tribu, que uma reunião de familias estranhas e distinctas entre si em interesses e posição.

E tambem isto se encontra pouco nas outras terras do campo.

— Então está de marinheiro em algum navio mercante? perguntou D. Francisca.
— De contra-mestre, minha senhora. Vim ha pouco de Cabo Haytiano, foi a minha ultima viagem.

— Se me não engano, disse Luiz Franco, Cabo Haytiano e o antigo Cabo Francez, hoje capital de uma republica de pretos. Havia de ver por lá coisas bem curiosas.
— Muitas, respondeu Espanta-maridos. É a viagem mais divertida que tenho feito na minha carreira de marítimo, que ainda assim não e muito longa 18 — annos somente.

— Lá as mulheres são todas pretas: não é assim? — diz Mathilde.
— Pretas e mulatas; mas estas ultimas são bem poucas comparadas com as pretas. Ha algumas brancas, mas são de familias de ministros, cônsules e alguns poucos negociantes estrangeiros. Ha deputados pretos, generaes pretos, almirantes, juizes, marítimos, tudo é preto ou mulato, e as mulheres e filhos tambem.

— Se o sr. Joaquim de Jesus tivesse a bondade de nos contar algumas coisas do que por lá viu, muito estimaria ouvil-o disse D. Francisca.
— Com todo o gosto. Mas v. ex.as hão de achar mais interessante a leitura dos apontamentos que o piloto tomou do que observava quando ia a terra. Elle, como era muito meu amigo, deu-me o borrão depois de o ter passado a limpo. Trago-o aqui, e se v. ex.as quizerem lerei algumas folhas.

Enseada da Glória, Ponta do Calabouço e Morro do Castelo, litografia de Benoist e Ciceri, 1852
Imagem: Especial Rio Antigo no Facebook

Desejando todos saber o contheudo do manuscripto, Espanta-maridos foi buscar um carrinho de mão, que estava proximo, voltou-o, sentou-se em cima, e disse:

— Antes de começar a leitura, devo dizer a v. ex.as que parti do Rio de Janeiro de contra-mestre a bordo do Conceição Flor de Maria [o bergantim, pequeno veleiro de transporte e comércio, ainda operava em 1885], da praça de Lisboa, com direcção a New-York; mas tendo-nos adoecido na altura das Grandes Antilhas alguns marinheiros e o capitão, este, que era dono do navio, quiz arribar a Cabo Haytiano, onde o ministro hespanhol era muito seu amigo e pessoa rica. Ancorámos com effeito em Cabo Haytiano, cidade de muito mesquinha apparencia, e transportados os doentes para casa do hespanhol, ficou o piloto, que era filho do capitão, encarregado do navio, e aqui está. o que elle nas horas vagas se entretinha a escrever:

— "Apenas cheguei a Cabo Haytiano, desembarquei, e ao sair da alfandega fui logo rodeado de gente esfarrapada, que com grande insistencia me pedia esmola. Contentei-os. Metti-me depois pela cidade, e breve deparei com um grande ajuntamento de pretalhada á porta da casa da misericordia. Estavam ali empilhadas perto de 2:000 pessoas de ambos os sexos.

Era a venda dos bilhetes da loteria. A todo o instante saiam d'aquelle immenso grupo gritos de soccorro e desesperação. Por vezes foram lá pequenas forças de infanteria e cavallaria para valerem aos desgraçados que succumbiam no apertão e fazerem com que elle diminuisse; mas nada remediavam. E como precederam no fim de tudo as auctoridades? Deixaram continuar aquelle horrivel espectaculo, e limitaram-se a mandar por macas no largo para levarem ao hospital ou ao cemiterio os que ficassem contusos ou mortos.

E effectivamente assim aconteceu, porque morreram duas pessoas, e ficaram bastantes gravemente pisadas. E não foi por falta de tropa, porque a guarnição da cidade era de muitos mil soldados de todas as armas. Fiquei logo por este facto entendendo que estava em terra de barbaros, e o mais que observei me confirmou n'esta opinião.

No dia seguinte passei outra vez pela casa da misericordia, e entrei na egreja. Estava á porta uma turba de mendigos fazendo lamuria. Havia grande funcção, o povo era immenso. Olhei em roda, e vi uma bancada, e n'elIa em cadeira dourada e de espaldar um preto gordo de argolas de ouro nas orelhas. Vi então chegar outro preto vestido exactamente como os chamados irmãos de azul da misericordia de Lisboa. Trazia na mão uma tenaz de prata com uma braza. Parou diante do preto gordo fazendo-lho grande venia. Este puchou de um charuto, accendeu-o, e poz-se a fumar. Interroguei a este respeito um mulato que me ficava ao pé, e respondeu-me que a ninguem era permittido fumar na egreja, mas que o fazia, com grande escandalo, o irmão do marquez de Branques, que era o tal preto das argolas, e ninguem lhe ia á mão por ser o provedor da misericordia e fidalgo de muita importancia.

Em outro dia passei pela casa das sessões legislativas e entrei. Ouvi por muito tempo questionar qual de dois deputados era o que devia fallar primeiro. Houve sobre isto discursos e votações. Acabada esta questão, approvou-se a despesa de alguns contos de réis com a compra de pós para matar pulgas e percevejos nos quarteis da tropa. Seguiu-se a approvacão de uma pensão para a mulher do presidente da camara, o que muito o contentou porque se estavaa rir e a rebolar na cadeira a cada momento. Seguidamente votou-se que se dessem a um engenheiro inglez 75 contos de réis por alguns estudos de portos e barras.

O homem estava na galeria, era meu conhecido, e fallava alguma coisa portuguez. Apenas se votou o seu negocio, veio logo ter comigo, e disse-me com a maior franqueza:

— Estes estudes, senhorre portugasio, valerre une bagatelle; mas no force, mim fique agora rique. Mim e otrres estrancheires combinarre com Ministres negrres; elles entreterre populache com politiques, e fazerre comigue e outrres aventureires contrrates ruinoses pârre Hayti. Nós dividirre com chefes de maiorie e opposicione, e assim mim e elles todes vae ficande riques. Nós e homes grrandes de Hayti, excepte poques cabeçudes, sérre todes come une companhie de cavalheires de industrie. Elles e nos tinhe sapates ha dois dies, e hoje temes carriges e cavalhes. Hayti fique arruinade; mas o proveito de quem é, senhorre portugasio? — dizia-me elle batendo-me palmadas nas costas, e dando grandes gargalhadas. Quande gate come frangues o proveite de quem é?

— É de gate, respondi eu com egual hilaridade. Depois approvou-se um emprestimo feito ao governo por um banqueiro alemão, em que este ganhou e o Hayti perdeu coisa de um milhão de cruzados.

E depois... saí pela-porta fóra farto de presenciar tantas miserias.

Quando fui a Leogane vi uma coisa extraordinaria.

N'uma grande casa, as grades de ferro das janellas, estavam muitos pretos que deitavam para fora paus de que pendiam atados em cordas cabazes, cestos e cabeçadas de burro, assim a modo de quem pesca ao candeio, e pediam com vozes lacrimosas que lhes deitassem ali alguns cobres.

Era a prisão da cidade. O espectaculo pareceu-me hediondo. E passava-se isto n'uma das principaes praças publicas.

Tendo eu comido em terra algum peixe temperado com vinagre, á noite a bordo fui acommettido de uma violenta colica. Era do vinagre, que estava adulterado. Tambem encontrei no fundo de uma chavena de chá alguma limalha de cobre. Era do assucar, que lá se retina em grandes bacias d'aquelle metal. Comprei um pouco do chá, e ao passal-o para um vidro notei que o papel ficava esverdeado. Disseram-me que não estranhasse isto, porque o governo d'aquelle paiz não se importa com a saude publica, e cada qual pode a seu salvo vender generos falsificados.

Quando percorri as margens do Artibonite, vi que o terreno era mui fertil, e que a maior parte estava por cultivar.

Vêem-se excellentes campos todos cobertos de matto e convertidos em charnecas, e aldeias miseraveis habitadas por gente rota e immunda."

— Basta, Espanta-maridos! — disse Antão Diniz. Muito prazer nos daria a continuação da leitura; mas vae-se fazendo tarde, e ainda estas senhoras não passearam na quinta. Apparece lá por casa com esses apontamentos, que muito nos teem divertido os costumes da pretalhada.
— E ainda v. ex.as não ouviram mais do que uma pequena parte, disse Espanta-maridos, guardando o ensebado manuscripto.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

Effectivamente entraram todos para a quinta, e passeando, ao chegarem perto do pequeno logar da Arealva, ouviram quasi aos pés um guinchar de afflicção, como de ratinho perseguido por gato.

— Olhe, mãe, para aquelle lado — exclama Mathilde. Está ali um sapo, e anda um ratinho a guinchar em frente d'elle. E o maldito sapo está de boca aberta.
— Paremos aqui, e sentem-se sem fazerem bulha, disse Antão Diniz. Vamos agora ver um dos phenomenos mais singulares que se dão na natureza.

É o sapo engulir uma doninha pela simples influencia da fascinação.

— Tinha ouvido fallar n'este phenomeno, disse Luiz Franco, mas até hoje ainda o não tinha presenciado. Estou com curiosidade de o ver.
— Então o sapo come a doninha? — disse Mathilde.
— Come sim, e vaes ver — respondeu Diniz.
— Se não fosse o sr. Antão Diniz querer ver o caso e mostral-o ás senhoras, já o sapo não estava com vida, observou Espanta-maridos.

Com effeito no meio do chão-estava o nojento reptil, muito grande, immovel, e sem tirar os olhos da pobre doninha.

Esta, parecida com um pequeno rato, porém mais bonita, e côr de castanha, corria de um lado para o outro formando meios círculos diante do sapo, o qual não desviava um momento a vista de sobre ella.

O animalzinho guinchava dolorosamente, levantava-se nos pés, corria e estremecia, mas olhando sempre para o sapo. Alguns instantes durou esta lucta, e a doninha ia estreitando a seu pezar os semicirculos que fazia, até que dando maiores guinchos, correu para diante, e metteu-se pela boca do sapo, que n'um instante a enguliu.

— Está acabado o phenomeno, já vimos: agora sô Joaquim de Jesus faça a sua vontade.

Espanta-maridos não se fez rogar, arrancou um tronquinbo do uma videira, e espetou o sapo, puchou da navalha, abriu-o, e tirou-lhe de dentro do bucho a doninha ainda estrebuchando.

Mas a coitada envolvida na baba immunda do reptil, acabou logo de espirar.

Quinta da Arealva, Margarida Bico.
Imagem: Panoramio

— Bem feito, sr. Joaquim de Jesus, bem feito. Mas a nossa curiosidade custou a vida á pobre doninha — disse D. Mathilde.
— No Brasil, observou Espanta-maridos, ha umas cobras que teem o mesmo poder de fascinação, e até sobre creaturas humanas as vezes o exercem.

Dito isto deitou fora a doninha e cravou no terreno a vara, ficando o sapo espetado na extremidade superior d'ella.

A este tempo appareceram Botelho e Gomes, e a sociedade continuou a passear separando-se um tanto adiante Mathilde, Franco, Botelho, e Gomes, e ficando mais atraz Diniz, sua mulher e Espanta-maridos.

— Não sabem, meus senhores, disse Mathilde, que vi ainda agora um sapo engulir uma doninha pelo poder da fascinação? Era uma coisa que ainda não tinha visto e mais sou filha da Outra Banda.
— E então: v. ex.a não afugentou o sapo? Bastava atirar-lhe com qualquer coisa para se quebrar o encantamento, disse Botelho.
— O marinheiro queria salvar a doninha, mas meu pai oppoz-se para nós vermos o caso.

— Ha paes que se dariam por muito felizes se em certas oocasiões tivessem podido evitar que as doninhas caissem na boca dos sapos; disse Gomes para Botelho gracejando.

— Mas nem todas as doninhas são engulidas pelos sapos, observou Luiz Franco: ou sabem desviar-se a tempo, ou apparece alguma alma caritativa que impede o effeito da fascinação.

Todos se riram muito d'esta observação de Franco. Fazia calor, e o caminho começava a ser ingreme.

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858. Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— Ah! como estou cançada, disse Mathilde, e doem-me os pés.
— Apoie-se v. ex.a no meu braço — apressou-se Gomes a dizer. Eu a ajudarei a subir até á Boca do Vento.

— Muito obrigada, sr. Gomes ; mas v. s.a é muito alto; e talvez, se não incommodasse o sr. Franco, fosse melbor-que elle me desse o braço, porque é mais baixo, è melhor para meu braceiro.

Gomes fez-se pallido, e Luiz Franco, apressou-se com toda a delicadeza a dar o braço a Mathilde.

Quanto a Botelho fez um movimento, mas não se resolveu a offerecer-se.

— Fiquei com tanto nojo do reptil, que me parece que o estou vendo apparecer debaixo dos pés.
— Socegue v. ex.a, diz Franco, que por aqui não se encontram sapos.
— Quem sabe, respondeu Matbilde rindo, talvez algum saísse da quinta, e ande por aqui mesmo ao pé de nós.

— Eu o que vejo são flores, e aqui está uma bem singela e bonita, disse Gomes, apanhando um malmequer. Eu gosto muito d'estas flores do campo. Digne-se v. ex.a acceital-a. — Oh! não, sr. Gomes, respondeu Mathilde, e não é pela pessoa que m'a offerece que muito considero e estimo, mas pelo nome da flor... malmequer!
— Quer v. ex.a esta cravina? Disse Franco, tirando uma cravina da abotoadura da casaca.
— Acceito antes a cravina. É uma flor mais delicada e menos commum, ao passo que o malmequer é de nome e côr desagradavel, e nasce por toda a parte. E que bello aroma que tem a cravina!

— Perdoe v. ex.a; quer ver como a flor vae desmentir o nome? E Gomes, dizendo isto, começou com uma curiosidade infantil a dizer "bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer" á medida que ia passando pelos dedos as folhas da flor sem comtudo a deteriorar, ate á ultima, a que correspondiam as palavras " mal me quer" Fiquei logrado, continuou elle, a flor deixou-me ficar mal; mas quando a offereci a v. ex.a era na idéa de que a final desmentisse o seu nome.
— Pois bem, disse Mathilde, acceito-a para não parecer impertinente. Mas vamos a tanta distancia. Esperemos aqui pelos nossos companheiros.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

E sentaram-se todos tres no alto da Boca do Vento. Entretanto chegaram Antão Diniz e sua mulher acompanhados de Espanta-maridos, e todos seguiram o caminho do Caramujo, indo Botelho ficar n'essa noite a casa de Gomes.

Quando Mathilde se recolheu ao seu quarto, Felizarda disse-lhe:

— O sr. Gomes pediu-me encarecidamente que entregasse esta carta á menina. Elle pediu-me tanto, que eu não pude recusar-me, mesmo porque me disse que se não a entregasse me intrigaria com Espanta-maridos, que, como a menina sabe, é o meu namorado.
— Ah ! com que elle deu-te a carta e disse-te isso! respondeu Mathilde abrindo-a. Vamos a ver.

Lida a carta, que era uma protestação amorosa, Mathilde dictou e Felizarda escreveu os seguinte — Sr. Gomes — Escusa de se cançar: digo-lhe uma vez por todas que perde o seu tempo.

No dia seguinte, ao alvorecer, foi Gomes ao Caramujo, recebeu de Felizarda a resposta á sua carta, e cheio de despeito partiu pouco depois a reunir-se ao seu regimento.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Tarde de abril

Panorama de Cacilhas (Ginjal, Fonte da Pipa, Olho de Boi, Quinta da Arealva), 1967.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já lá vão bastantes annos depois d'essa tarde de abril, em que Antão Diniz, de sobrecasaca azul com botões amarellos, galões de major nos punhos, chapèo redondo, e guarda-sol ao hombro, levava pelo braço D. Francisca Rosa de Lima, sua mulher, a santa senhora, como lhe chamava a tia Libania;

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

adiante sua filha Mathilde, linda mocinha de l6 annos, com seus sapatos de fitas traçadas, e vestido de seda cor de canella, toda peralta, como tambem dizia a tia Libania;

e á esquerda de D. Francisca, o joven Luiz Franco, a cara mais sympathica de rapaz que eu tenho conhecido.

La se ía este ranchínho na direcção da Arealva, por aquella empoeirada estrada, para onde a brisa impellia os aromas de mil odoriferas plantas.

La Merveilleuse odyssée d'Olivier Rameau et de Colombe Tiredaile,
Dany et Greg, éd. Le Lombard, 1970.
Imagem: Anita Blake

Sobre elle o nosso bello sol meridional projectava a sua cor doirada d'entre o azul da abobada celeste.

O Passeio ou A Mulher da Sombrinha, Oscar-Claude Monet, 1875.
Imagem: Wikipédia

Ao longe ouvia-se a chiada dos carros e o saudoso ulular dos moinhos.

Ó cidades que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros!

Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda.

Lá vão pois estrada fóra; e para fazerem o passeio mais longo, ao chegarem ao poço de Cacilhas sobem a Almada, 

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, reprodução alemã.

contemplam Lisboa, cidade que d'ali parece como feita de marfim, e a que só faltam os minaretes para se afigurar ao viajante uma cidade mahometana, tão branca e phantastica se apresenta á vista com seu hello porto, vasto, e ermo de navios n'esta época da decadencia de Portugal...

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

Depois descem á Bocca do Vento, dirigem-se a Olho de Boi, e percorrem o longo caes que conduz á entrada da Arealva.

Quinta da Arealva, Margarida Bico.
Imagem: Panoramio

Eil-os na quinta d'este nome, nos bancos de pedra, junto ao portão, debaixo das velhas arvores. (1)


(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Entre Cacilhas e Almada junto ao Tejo

... e isto já não é o Ginjal, o fim da muralha e a vereda de terra batida já pertencem à Fonte da Pipa... esta pedra é o Tramoceiro... naquela muralha fica a fonte... e ali, onde vês os barcos encostados, já é o Olho de Boi.

— Tramoceiro!?...

— Sim, Tramoceiro ou Tremoceiro, é a mesma coisa, é esta pedra junto à prôa da canoa... e, se um gajo não se põe a pau ainda embica ali...

— E o Tramoceiro caíu lá de cima?

— Duvido, as pedras aqui não caem, atiram-se!

— Como sabes isso tudo?

— Sei lá, foi assim que me ensinaram, foi assim que aprendi!

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

quinta-feira, 6 de março de 2014

A Boca do Vento e o miradouro

Há sítios de onde se avista o passado.

Vemo-lo sentado no cais a olhar as águas do rio ou encostado à beira da estrada onde um dia ficou.

Por vezes, quando regressamos a esses sítios, o passado já lá não está. Outras vezes, foi o sítio que mudou.

Miradouro Luíz de Queiróz ou miradouro da Boca do Vento, ed. Lifer 663

Olho de Boi e Companhia Portuguesa de Pescas, vista tomada do miradouro da Boca do Vento, Amadeu Ferrari, década de 1940

Miradouro Luíz de Queiróz ou miradouro da Boca do Vento, ed. desc.

Cais do Ginjal e fábrica La Paloma, vista tomada do miradouro da Boca do Vento, Amadeu Ferrari, década de 1940