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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Costa de Caparica: notas cronológicas

Assim como a Trafaria, a Costa de Caparica era originalmente um aglomerado de pescadores, que no ano de 1770 se estabeleceram vindos de Ílhavo [e, mais tarde, do Algarve,] nas suas próprias embarcações.

Pescador (detalhe), Narciso Alfredo de Morais,  1923.
Imagem: ARCADJA

As suas habitações não passavam de pequenas cabanas de colmo dispostas no areal, onde os pescadores se abrigavam durante o Verão, queimando-as no fim da campanha e regressando às suas origens [...] (1)

1472Criação da freguesia da Caparica pelo Papa Sisto IV.
1558Edificação do Convento dos Capuchos por ordem de Lourenço Pires de Távora.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

1755Devido ao terramoto há registo de mortos e o Convento dos Capuchos é afetado.
1780Construção do cemitério da Costa (de facto o actual cemitéro data de 1848, o que não descarta  que a data de 1780 possa referio o antigo, v. O cruzeiro do lugar da Costa).
1800Edificação da primeira casa de alvenaria na Costa, a Casa da Coroa a partir de 1824.

Costa da Caparica, Casa da Coroa.
Imagem: Centro de Arqueologia de Almada

1834Camponeses instalam-se no Convento dos Capuchos.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1840Incêndio, fogo do Quinquilheira, que destrói 48 barracas.
1856Construído o primeiro caminho de ligação entre os Capuchos e a Costa.

Costa da Caparica, Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

1854Incêndio, o fogo Rosa do Ché-Ché que consome 50 barracas.
1876O Padre Hughes instala-se na Costa e dá início ao Colégio do Menino Jesus.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1878Abertura da vala da Costa, com a função de drenar os pântanos do Juncal.
1878Florestação das dunas da Costa e Trafaria, por iniciativa do deputado Costa Pinto.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1879Construção do Poço ou Fonte da Bomba.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba, Chafariz
Imagem: Delcampe

1880Reedificação da Igreja da Costa por João Ignácio Alfama da Costa.

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

1882Início das obras de drenagem do pântano do Juncal.
1882Construção de duas estradas de acesso à Trafaria e Costa.
1886Incêndio que destrói 60 barracas, o fogo do Costa Pinto.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

1888Construção da estrada que liga Almada, a Trafaria e a Costa, dirigida por Liberato Teles.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

1895Intensas cheias provocam o transbordo das valas e o alagamento dos terrenos.
1895Possível início da construção da duna artificial ou "escarpado".

Costa da Caparica, o "escarpado" junto à praia, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1925Classificação da Costa de Caparica como estância balnear, DR nº 11335, de 9 de Dezembro.
1926Criada a freguesia da Trafaria que abrange a Costa, DR nº 12432, 7 de Outubro.
1929Naufrágio do Pensativo a 12 de dezembro.
1930Apresentado o plano modernista para a Costa de Caparica pelo arquiteto Cassiano Branco.

Costa de Caparica, Praia Atlântico.
Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1930.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1931Construção da ligação entre a Trafaria e a Costa, denominada por estrada florestal.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

1934Primeira brochura turística a abordar exclusivamente a Costa de Caparica.

Praia do Sol, Caparica, ed. Guia de Portugal Artístico, M. Costa Ramalho, 1934.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1934Inaugurado o Hotel Praia do Sol, a primeira unidade hoteleira do distrito de Setúbal.

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1938Inaugurada a Casa dos Pescadores da Costa de Caparica.

Costa da Caparica, Casa dos Pescadores, Comissão Municipal de Turismo, ed. Neogravura, Mario Novais, 1946.Imagem: Delcampe - Bosspostcard

1939Inaugurada a Colónia de Férias Um Lugar ao Sol da FNAT.

Costa da Caparica, FNAT, Colónia de férias Um Lugar ao Sol.
Imagem: Delcampe

1946Apresentado o Plano de Urbanização dos arquitetos Gröer e Faria da Costa.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

1949Criada a freguesia da Costa da Caparica, desanexada à Trafaria.
1952Concluídas as obras de restauro do Convento dos Capuchos.

Costa da Caparica, Almada, Convento dos Capuchos (após o restauro em 1952), Ed. Passaporte, 32
Imagem: Fundação Portimagem

1952Inaugurado o Parque de Campismo do Clube de Campismo de Lisboa.

Costa da Caparica, entrada do parque do Clube de Campismo de Lisboa.
Imagem: Delcampe

1957Construída a primeira estrutura de defesa costeira, o esporão da Cova do Vapor.
1960Inauguração do comboio turístico Transpraia.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

1960A área entre a Trafaria e a FNAT passa a designar-se por S. João da Caparica.
1962Galgamentos de mar e destruições na Costa de Caparica.
1964A Arriba Fóssil da Costa de Caparica é cortada em Brielas para a passagem Via Rápida.

Vista de Caparica tomada dos Capuchos, após os desaterros no vale cego de Brielas para a construção do IC 20.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1970Construído o Bairro Campo da Bola, demolido durante Programa Costa Polis.
1971As dunas do topo da Arriba Fóssil integram a mata dos Medos, Reserva Botânica.
1971Concluído o Plano Geral de Urbanização da Trafaria-Vila Nova-Costa de Caparica.

Costa da Caparica, vista aérea, c. 1980.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1984A Arriba Fóssil é constituída Paisagem Protegida, DR n.º 168/84, 22 de maio.
1985A Costa da Caparica é elevada a vila, 9 de julho.
1995Início da cobertura da rede de esgotos de drenagem pluvial.
1998Demolida a Casa da Coroa, "por se encontrar em elevado estado de degradação".

Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa"
Imagem: caparica news

2000Obras de restauro do Convento dos Capuchos.
2003Reparação do paredão sob a tutela do INAG, após abatimento do mesmo.
2004Discussão pública dos Planos de Pormenor do Projeto Costa Polis.
2005A Costa de Caparica é elevada a cidade, DR nº 10/2005, 26 de janeiro.
2007Início das obras do Projeto Polis na Costa de Caparica.
2007Obras de alimentação artificial de praias.
2008Obras de alimentação artificial de praias.
2008Inaugurado o Jardim Urbano da Costa de Caparica, obra do Projeto Polis.
2009Obras de alimentação artificial de praias.
2010Término do Projeto Polis sem que todos os trabalhos tivessem sido concluídos. (2)

Costa da Caparica, praias urbanas Costa Polis, 2009.
Imagem: Programa Polis

No ano atual, 2014, assistiu-se a relatos de um inverno violento para a Costa de Caparica e Cova do Vapor, causando inúmeros estragos nos apoios de praia e infraestruturas mais próximas. 

Marítimo da Costa de Caparica, Narciso Afredo de Morais Moraes.
Imagem: Hemeroteca Digital

As investidas do mar nesse Inverno colocaram novamente a descoberto a obra de defesa costeira dos anos 60 do século XX, que consistia em blocos do Miocénico (material da Arriba) enterrados a fim de proteger a duna.

Costa da Caparica, A praia 35 K de comprida, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Fundação Portimagem

No Verão de 2014 recorreu-se novamente à alimentação artificial de praias, a fim de reconstituir o perfil de praia e deste modo tornar possível a sua utilização em época balnear. (3)


(1) Marta Oliveira, Evolução Natural e Antrópica Trafaria - Cova do Vapor - Costa de Caparica, Lisboa, UL, 2015
(2) ref.as cf. Marta Oliveira, op. cit.
(3) Idem

Tema:
Costa da Caparica

domingo, 24 de abril de 2016

Barca Bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Costa da Caparica, Meia Lua, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Costa da Caparica, Almada, Passaporte,  53, Pôr de Sol e barcos pesqueiros.
Imagem: Delcampe

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

No areal da Costa da Caparica.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Costa da Caparica, Meia Lua, Artur Pastor.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador! (1)


(1) Almeida Garrett, Folhas caídas, 1853

sábado, 23 de abril de 2016

Pesca de dezembro

Os elegantes e esperançosos poetas da geração moderna, pouco depois da lucta civil de 1846, entregando-se quasi todos ás discussões áridas e rancorosas da politica militante, haviam desgraçadamente voltado as costas ao éden risonho da poesia; e apenas, de quando em quando, João de Lemos, Mendes Leal, Palmeirim, e poucos mais, davam signal de vida n'uma ou n'outra canção fugitiva.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Esta espécie de adormecimento litterario, em que vimos cair os primeiros engenhos, explica-se talvez pela influencia da epocha em que vivemos. A poesia respira-se no ar, como a fragrância das flores; e a atmosphera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das machinas de vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza [carta a Alexandre Herculano, 5 de maio de 1856]. (1)

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nunca tomou uma vereda por outra, nos numerosos pinhaes das nossas províncias do sul?

Quando, n'esses labyrinthos de columnas rugosas, percebemos que nem as ondulações do terreno, nem as curvas caprichosas das sendas, nem os verdes oásis dos brejos sâo nossos conhecidos, retrocedemos, sem hesitar, até atinarmos com o direito caminho. Este retroceder é progresso. O distraído, ou o que ignora d'onde vem ou para onde vae, é que continua a seguir avante. Só o insensato crê que caminhar sempre em frente é synonimo de progredir. A Paquita é o symbolo da poesia transviada, que retrocede da estrada por onde andava erradia.


A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Agradecida a offerta, permitta-me que lhe ralhe um pouco [...]

Pelo que dizem os entendidos, a ex-democracia temporária fomenta a democracia permanente. Os democratas barões, conselheiros, commendadores, chefes e sub-cbefes, de que se lembra, estão livres de ser Stilicons e Alarícos; mas imitam-n'os, como comportam as differenças do século XIX ao V: civilisam-se, apodrecem provisoriamente, aprendem a pisar com garbo as alfombras dos paços, reclinam-se com elegância nas poltronas das secretarias, penduram a heráldica ao pescoço do socialismo, cozinham nas fornalhas ministeríaes os curatos, as magistraturas, as escrivaninhas, as prebendas, as mitras, as comendas, as escolas; palmeiam nos theatros com luvas de irreprehensivel brancura; agitam-se nos bailes esplendidos, embriagam-se nas mesas opiparas, recuam com asco diante dos andrajos do plebeu, e retiram a mão afeminada da mão callosa do villão, que ousa estender-lh'a; — a erudição que mais os enleva é a genealogia. Sacrificam-se assim á democracia futura. De feito, Pedro, o obefe dos apóstolos, achou que havia conjuncturas em que se devia negar Christo. Esta gente é essencialmente evangelica.

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Se lhe repugna imital-os, meu amigo — espero em Deus que lhe repugne sempre — tome o conselho que lhe dou: guarde silencio. Tire o chapéu á dança judenga que passa: respeite a crença publica e o progresso que consistem em não crer e em não progredir seriamente em coisa nenhuma; respeite sobretudo os parvos e os velhacos, porque a doutrina da omnipotência das maiorias é ponto de fé constitucional.

A carta que me dirige tem um sabor acre, e não sei se revolucionário; queime-a, e queime esta. Não é por mim: é por si.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Publique a Paquita, mas sem prologo. Só assim lhe poderão perdoar ter a sua tentativa — poesia, naturalidade, e senso commum [resposta de Alexandre Herculano, 20 de maio de 1856]. (2)

A pesca de dezembro, a mais rendosa,
A força dos constantes agoaceiros
Falhou, e foi a quebra desastrosa!

Os mestres d'artes mais aventureiros
Não poderam romper de cara ao tempo
Que teve de peor os nevoeiros!

Costa da Caparica, pescadores, Furtado & Reis.
Imagem: Delcampe

Alar! Lá vem a rede salvadora:
As mulheres, nos médos, mãos erguidas,
Em prantos, a invocar Nossa Senhora.

Não tem de receiar perda de vidas;
Mas se o sacco não pode com o peixe,
Que enormes perdas se darão agora!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ganhou a praia a mole reluzente,
Sem ter nem leve sombra de avaria;
No rude vozear d'aquella gente,

Que expansão de enthusiastica alegria!
Viva, saltando sobre a areia flava.
Chega a todos a argêntea pescaria!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ao soar da buzina, dos casaes
Partem bestas de carga a toda a brida,
Guisalhando atravez d'esses juncaes.

Os cabazeiros, na afanosa lida,
Avergados e a passo de balança,
Jogam-se ao Monte, a governar a vida! (3)


(1) Bulhão Pato, Paquita, Poema em XVI cantos, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894
(2) Idem
(3) Idem, ibidem,

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Pescadores da Costa em 1900

A esperança, a esperança! ... O mar longe, movido
Solta, de quando em quando, um lúgubre gemido...

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O pescador da Costa abandona a cabana;
Deixa filhos, mulher!... Na carreira vesana
Vae perguntar trabalho, e sem poder lograr
Companha, que se afoite ao truculento mar!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No areal da Costa não rebenta a vaga;
Todo o mar sereno! Pobre pescador!...
Lança em vão os olhos... Da deserta plaga
Não descobre ao longe nem signal, que traga
Negra de sardinhas, ondulando á flor!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não seja o tempo fatal
Aos do mar, e ao pescador;
Que o mais este vendaval
É propicio ao lavrador!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar (inv.), década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Pesado estoira o mar, pelo areal da Costa;
Sibila, range, estrala, o pinheiral da encosta! (1)


(1) Raimundo António de Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

Alguns artigos relacionados:
Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901
A Costa romântica de Bulhão Pato
Os saveiros meia lua da Costa da Caparica
Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Nas arribas do mar

Na margem esquerda, encontra-se a modesta estação da Trafaria, ao mesmo tempo povoação de pescadores. Bulhão Pato, que habita perto d'ahi, em Caparica, dá-nos uma viva descrição de uma pesca de sardinha, cheia de pitoresco local. (1)

O poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Há dias, abrindo o jornal — "A Caça" — deparou-se-me um artigo intitulado: Législation sur la chasse. Dizia: ..."Je revois encore les dunes sauvages qui s’étendent de Trafaria à Costa, où j’ai fait ma première chasse avec Bulhão Pato; les rizières et les côtes boisées du vallon d’Apostiça, etc."

O artigo era de Sampayo Osborne, que esteve em Portugal cerca de 25 annos; rapaz muito intelligente, illustrado, da família do conde da Povoa e primo da casa Palmella.

Caçador de sangue. Um desastre varou-lhe com um tiro, em França, uma das mãos, não sei se a direita, se a esquerda. Continuou, apesar d'isso, a ser espingarda de primeira ordem e, o que é mais, ao piano primoroso artista.

Durante largo tempo bateu as tapadas e montados com os reis do throno e os reis da caça. É provável que não o torne mais a vêr. D'aqui lhe envio um cordial e saudoso aperto de mão.

Em 1859 José Augusto Sacotto Galache e eu principiámos as nossas caçadas no Juncal da Costa. Pelas arribas as perdizes saltavam aos bandos; na planura as codornizes, as narcejas e outra caça de arribação abundantíssima. Vivíamos em Buenos-Ayres [à Lapa, Lisboa].

Vista do Tejo e da Torre de Belém tomada da legação britânica,
George Lennard Lewis, 1880.
Imagem: Sotheby's

No inverno, noite ainda, Lourenço da Pinha estava no caes de José António Pereira [freg. de Santos-o-Velho, anterior ao aterro da Boavista, actual Beco da Galheta], com os seus três filhos: o mais velho José, o segundo João, o terceiro Francisco, este muito mocinho ainda para as fainas da travessia do Tejo, às vezes bravias. 

É piloto da Barra há já muitos annos. Lourenço da Pinha nascera em Olhão, terra de marítimos, que folgam com o esbravejar das ondas como as aves marinhas.

Moço, veio para Belem e, ora com a mão no leme e na escota, ora no punho do remo, sempre de ânimo folgazão, coartada pronta e verboso como algarvio, lá foi mareando o barco, sustentando a mulher e criando os filhos.

Torre de Belém,
Frank Dillon, 1850.
Imagem: BBC Your Paintings

Morreu há bastantes annos, mas por todo o bairro de Belem e por todo este almaraz lhe relembram o nome honrado e benquisto.

José Augusto Galache, sem jactâncias nem farroncas, era um rapaz que não tinha medo do diabo à meia-noite. Agora lá está na sua propriedade do Freixo, ao pé de Valle de Lobos, tratando da sua lavoira, beijando a terra para manter as forças, sempre jovial e gentil-homem. 

A bravura e galhardia do cabo de forcados nas toiradas de amadores no Campo de Sant'Anna foi tal que ainda hoje corre na lenda entre os novos.

Um dia, em Dezembro, véspera de Nossa Senhora da Conceição, embarcámos, noite cerrada ainda, com Lourenço e seus dois filhos mais velhos. 

Lisboa, Sol Nascente,
Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Tempo sêcco, sem vento, e intensamente frio; a geada caía em carambinas. Proa ao Torrão. Lourenço da Pinha, expansivo, animava os filhos:

— Vamos, rapazes, de voga arrancada, que é para aquecer.

Havia águas de monte e o barco, mal clareando, abicou defronte da Quinta do Miranda.

Os dois rapazes acompanharam-nos, e o pae ficou guardando o barco à nossa espera. Os terrenos planos e à beiramar do Juncal eram lenteiros, enchabocados, como dizem os homens do campo e os caçadores. 

Nós tínhamos dois cães soberbos: o Black de José Augusto e o meu Faliero. Ambos muito bem parados, cobrando de ferido, e trazendo à mão toda a espécie de caça.

Depois do ímpeto da primeira batida sentámo-nos num médão de areia, acudimos ao almoço, que vinha nas redes, e matámos a fome. Engolfámo-nos Juncal dentro. Quando demos por nós estávamos muito adiante das barracas da Costa.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O estômago não tinha a mais leve memória do almoço; a ambição de caçar no dia seguinte não nos mordia menos de que o apetite voraz. Resolvemos ficar; mas ficar aonde e comer o quê? À sorte.

Entrámos na povoação. Tudo choças de colmo; muitas levantadas sobre o arcaboiço de um velho barco. 

Uma casa de um só andar, com armas reais, bojudas como o abdómen do ladino e bondoso monarca D. João VI, que foi alli por mais de uma vez. De pedra a cal meia dúzia de casitas mais, quando muito. 

Íamos andando por aquele labyrintho de cubatas e à porta de um ferrador demos com uma rapariguinha dos seus dez annos, de cara insinuante, vestido de chita, meias muito brancas, socos, cabello em trança e bem tratado.

— Ó pequena, olha lá. Haverá aqui alguma casa onde se possa ficar e se coma alguma coisa?

— Pois não há, meus senhores!... É a tia Maria Rita do Adrião — acrescentou, dando à sua voz crystallina certa expressão que indicava a grandeza da personagem a quem se referia.

Levou-nos à tia Maria, e tal foi o agasalho que por mais de trinta annos frequentei aquela casa com o melhor dos meus amigos. 

A Claudina, a rapariguita que fora a nossa salvação e a nossa guia, passados tempos casou e, já mãe de filhos, depois de eu estar n'este Monte, morreu, coitada, de uma pneumonia. 

Maria Rita do Adrião vive ainda; há dois annos que veio visitar-me, na sua burrita, muito lépida, com os seus noventa e três. 

Costa da Caparica,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Teve sempre boa estrella; até na sua visita a minha casa o azar apenas lhe deu um rebate falso. Quando voltava para a Costa perdeu um objecto de certo valor, creio que um brinco, que mão piedosa achou e foi logo anunciar no Século.

Caparica, convento de Santo António,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

Depois de devorarmos o jantar e pelos barqueiros mandar aviso aos nossos, sol alto ainda, sahimos até à praia. Era véspera de Nossa Senhora da Conceição, a grande festa annual da terra. 

Os habitantes é que estavam descoroçoados e tristes; a sardinha, a famosa sardinha da salga, não tinha dado nada ou quase nada. Mais uns dias de escassez e lá se iam as esperanças... o pão por muito tempo! 

Mar calmo. Na crista dos médãos, homens, mulheres, rapazes, mudos, immoveis, olhos cravados na companha, que lá muito ao largo vinha regressando. 

De manhã os alcatrazes [gansos-patola], de aza fechada, cahindo do alto como raios, picavam a flor das águas, indício de  grandes negras de sardinha. Pelo cariz do tempo, o lanço devia de ter sido grande. Chegaria a salvamento ou rebentaria o sacco?!

Silêncio profundo nos de mar e nos de terra. O silêncio é signal certo de grande preoccupação de espírito nos moradores de povoações marítimas, tão vivos e loquazes.

Ao rés do mar grandes grupos moviam-se visivelmente inquietos. Com o sol, que já no ponente batia o areal, aquelas figuras pareciam tomar proporções gigantescas, cingidas de nimbos de oiro. 

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, as montanhas, o mar, as soberbas e solemnes paizagens, em vez de apoucarem o homem, engrandecem-no. 

Numa linha de fortificações ondulada de montes e crespa de píncaros, antes de romper o assalto, os ajudantes-de-ordens, cruzando-se na carreira, a dois exércitos podem afigurar-se hipogrifos phantasiados pela veia fecunda de Boiardo ou de Ariosto [in Orlando Innamorato e Orlando Furioso resp.].

A paizagem parece dar e receber, às vezes, commoções trágicas. O facto é que exerce nos espíritos acção profunda, embora ignota. Uma tempestade, nas serranias ou no oceano, improvisa heroes, como os relâmpagos das espadas e o trovão das baterias no campo da batalha.

À beira de água principiou a correr um torvelinho, levantando pyramides de areia. De repente uma lufada súbita correu violenta.

Os prodromos do furacão têm rugidos dolorosos como os do leão na entrada da febre. Daria numa tempestade? Quantos corações ficaram apavorados em tal momento!

Os barcos aproximaram-se de terra. A multidão silenciosa. A vaga alta como de mar movido ao longe, embora não arrebatada. Num ai tudo salvo ou tudo perdido!

O sacco... a montanha de prata, estava a salvamento na praia. Raros olhos ficariam enxutos vendo rebentar a alegria d'aquelle povo!

Costa da Caparica, Praia do Sol, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, disco de fogo, tocava a superfície das águas, que serenavam, passada a borrasca ephemera, permitindo que olhos humanos se cravassem no seu ocaso esplêndido.

Em breve a linha arenosa e já desmaiada, que segue até o Cabo, a bahia de Cascais, os picos de Cintra, os montes e povoações do norte, o Tejo dormente, desvaneciam-se no breve crepusculo das tardes de inverno.

O pharol do Espichel, girando as suas aspas de fogo intermittentes, parecia abrir sulcos luminosos pelo mar levemente enrugado. 

Bugio e São Julião accendiam-se. As estrellas estremeciam no firmamento límpido. Noite coroada de lumes.

Bugio e Forte de São Julião da Barra.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A aragem era um alento virgínio, e a vaga na praia um suspiro amoroso. As redes voltaram ao mar. A companha bradou a uma voz:

Bulhão Pato,
Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

— Avé, Maria puríssima! (2)



(1) Teixeira Judice, Antonio Arroyo, Notas sobre Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1894


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O Juncal