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sábado, 26 de dezembro de 2015

Embrechados (4 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Embrechados no Seminário de Almada, antigo Convento de S. Paulo.
Imagem: Alexandra Lopes

Agora um drama verdadeiro. 

Nos fins do seculo XVI e principio do XVII, passa-se em Almada o mysterioso e pungente episodio sobre o qual Garrett architectou o mais bello poema em prosa da nossa litteratura, a mais poetica definição da alma portugueza, ao mesmo tempo apaixonada e cavalheirosa, repassada de mysticismo e vibrante de amor, accessivel a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada pela fatalidade do destino, energica na resolução do supremo sacrifício.

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun, Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

E porque os personagens existiram, e porque viveram. e se amaram, e os dois principaes se separaram ao cabo de uma união feliz, para irem acabar a existencia distanciados nas cellas dos seus conventos, o "Frei Luiz de Sousa" tem além do prestigio de symbolisar o genio d'uma nação, o interesse que despertam as scenas vividas.

Quem não conhece o drama de Garrett não é portuguez. Inutil portanto recordal-o.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Que ha de realidade n'essa obra? O episodio fundamental é verdadeiro. Verdadeiros os principaes personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha da mais artistica e delicada das versões sobre os motivos de separação, a psychologia das figuras, e o sopro de genio que anima o drama.

Pelos annos de 1575 residia em Almada e tinha ali propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Magdalena de Vilhena.

Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com elle dez annos até á partida para Alcacer Kibir.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Andrada, Miguel Leitão de, Miscellanea, 1689.
Imagem: Wikipédia

Ficaram tres filhos, D. Luiz, que veiu a morrer em Tanger, n'uma escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de Vilhena e D. Joanna de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta ultima com D. Lopo de Almeida, dos quaes nasceu uma filha que acompanhou sua avó para o convento quando a elle se re recolheu. D. João de Portugal desappareceu na batalha. Os documentos officiaes deramn'o como morto.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Machado, Diogo Barbosa, Memórias para a História de Portugal, 1751.
Imagem: Wikipédia

D. Magdalena, conta-se, espaçara por alguns annos o segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não ser na realidade viuva. 

Afinal as razões que lhe deram os proprios parentes do primeiro marido convenceram o seu coração, já de ha muito dominado pelo encanto do brilhante cavalleiro Manuel de Sousa. Casaram entre 1584 e 1586. 

Elle tinha todas as qualidades que seduzem as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longiqua. As coisas banaes passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que nos embala quando lêmos periodos da Historia de S. Domingos e Vida do Arcebispo. 

Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma branca a la moda, e na imaginação tremulava-lhe a pluma ligeira d'uma phantasia romanesca.

Generoso, valente e poeta, captivou a linda e opulenta viuva. Alguns auctores teem avançado que essa riqueza tinha em grande parte resolvido o cavalleiro de 30 annos a desposar uma viuva mais velha do que elle. 

Entretanto essa hypothese é destituida de fundamento pela rasão de que uma grande parte da fortuna e toda a que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que d'elle tinham ficado. 

E Manuel era rico, e cavalleiro, e namorado!... Em que repugna que elle se deixasse apaixonar pela bella e seductora viuva, que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que elle?

Tiveram uma filha — a Maria do drama de Garrett, a que alguns escriptores chamam D. Anna de Noronha.

Em Lisboa viviam os conjuges a S. Roque, na freguezia do Loreto. Mas a sua residencia predilecta era Almada, onde, segundo affirma Barbosa Machado, Manuel commandava um corpo de setecentos infantes e cem cavallos.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A casa que habitavam n'esta villa era na rua Direita, como se vê d'uma escriptura publicada pelo erudito escriptor sr. Sousa Viterbo, na sua memoria apresentada a Academia Real das Sciencias. 

Qual ella fosse torna-se difficil averiguar. Não só porque o incendio, cavalheirosamente ateiado pelo proprio Manuel, a teria destruido, e as confrontações indicadas na escriptura nada elucidam, como por não haver indicio na rua Direita de reedificação nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.

Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais importante onde se veem uns bellos azulejos, permitte á imaginação conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protogonistas do drama. 

E certo que elles habitavam n'aquella rua e que já então Manuel de Sousa Coutinho cultivava as lettras em prosa e em verso, quando no anno de 1599 a peste grassava em Lisboa.

Resolveram os governadores do Reino, em nome de D. Filippe, virem estabelecer-se em Almada, e para palacio do governo escolheram a casa em que D. Magdalena e Manuel residiam. 

Foi então que o fogoso cavalleiro e ardente patriota respondeu á importuna intimação, incendiando a sua casa, episodio com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama "Illumino a minha casa", diz Manuel de Sousa "para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos."

O facto é verdadeiro. Elle proprio o narra no prologo que em latim escreveu ás obras de Jayme Falcão: "In fumum et cineres abïere". 

E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos govemadores do Reino, influisse para a sua resolução em se expatriar. Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento protector de D. Pedro e D. João de Borja, e d'ahi seguiu para a America.

Neste ponto se affastou da realidade Garrett, no seu drama, que faz succeder immediatamente ao incendio de Almada a catastrophe que decidiu os dois esposos a tomarem o habito. Entre um e outro facto mediaram perto de 13 annos.

Foi em 1600 que elle partiu para a America, em 1604 que d'ali regressou, e em 1613 que se realisou o divorcio.

O que motivou a sua volta a Portugal? Qual foi a causa da separação? 

Diz o bispo de Vizeu, D. Francisco Alexandre Lobo, e confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente á patria a noticia da morte de sua filha.

Outros affirmam que viria por saber que os governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que saudades da familia e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham repatriado.

N'esta hypothese, sua filha ainda viveria; e a sua morte, mais tarde, teria grande influencia na resolução de os paes se recolherem ao convento.

A mysteriosa causa do divorcio, interessante problema de psychologia, que tanto preoccupa aos escriptores que d'elle teem tratado, está ainda hoje para resolver. 

Seria a morte da filha unica? 

Não ha uma data que nos possa guiar. Não nenhuma citação que nos elucide. Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo um phenomeno de suggestão, que teria actuado no espirito dos dois, levando-os a esta especie de duplo suicidio?

É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa de Vimioso se tinham separado, para professarem, ella no convento do Sacramento em Alcantara, que instituira, e elle no de S. Paulo, em Almada.

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A coincidencia de serem os mesmos conven que Manuel de Sousa e D. Magdalena vieram a professar, a amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa Coutinho, a inclinação ao mysticismo da alma de D. Magdalena de Vilhena, creada e educada por uma mãe excessiváthente devota, n'uma epocha de profundas crenças religiosas, e supersticiosos terrores, que facilmente levariam o seu animo a procurar abrigo contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso instituira e onde se escolhera, tudo teria influido no espirito dos dois esposos, já ambos no começo do inverno da vida, a procurarem no claustro paz e tranquillidade.

A apparição do peregrino, facto que aos eruditos repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para explicar a subita resolução do divorcio.

Tirou-o Garrett da narrativa de Frei Antonio da Encarnação, que, por ser contemporaneo dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saldo de probabilidades.

Conta elle que em 1613, estando D. Magdalena de Vilhena em Almada, lhe apparecera um peregrino que vinha da Terra Santa, trazendo novas de um portuguez que ha muitos annos vivia em Jerusalem, e que escapara aos desastres de Alcacer Kibir. 

E dando os signaes certos de D. João de Portugal, o primeiro marido, accrescentou que fôra elle quem ali o mandára.

Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão presenceára.

Elle então dizem que respondera: "Até agora, senhora, vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste comigo; porque fio de vós que não casarieis outra vez se não tivesseis por certa a morte do vosso primeiro marido. O que convém mais é fugir para o sagrado da religião."

A este episodio, narrado por Frei Antonio da Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Vizeu, o sr. Sousa Viterbo e outros, que se teem occupado do caso, e attribuem ainvenção ao espirito de messianismo sebastico que inflammava as imaginações n'essa epocha.

E a phantasia popular, que esperava ver apparecer o "Desejado" e cria que elle não perecera, facilmente daria como explicação á repentina deliberação dos dois conjuges, a chegada d'um mensageiro que trazia novas do cavalleiro de Alcacer Kibir.

Não havendo provas que invalidem esta versão, e havendo em seu favor o testemunho de um contemporaneo, porque regeital-o? E porque não fundiremos na alma dos dois heroes d'essa historia os tres motivos de anniquillamento moral?

A morte d'uma filha. é a maior dôr humana. E essa dôr ter-lhes-hia quebrado as energias vitaes. 

A apparição do peregrino mensageiro do D. João de Portugal, ou elle proprio, como alvitra Garrett, seria para as suas almas a catastrophe determinante do refugio na casa de Deus.

E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos, ter-lhes-hia indicado o caminho. Por isso n'esse mesmo anno de 1613, deixando Almada, entraram, ella no convento de Alcantara, levando comsigo uma netasinha de sete annos, que a seguiu na clausura, elle no convento dos dominicanos de Bemfica, ondeveiu a escrever as mais harmoniosas paginas da harmoniosa lingua portugueza.

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra".

Vista do Seminário de Almada, antigo Convento Dominicano de São Paulo  Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Conta elle depois que por ser de tal modo formoso o panorama de Lisboa que da villa de Almada se disfructa escolheu D. Filippe II esta villa para gozar da vista da cidade, antes de n'ella entrar.

Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de Lisboa de luminarias, e tão deslumbrante era o espectaculo, que Frei Luiz de Sousa accrescenta que: "estando assim ardendo sem damno, toda, ficou devendo mais ás sombras nocturnas que ao resplendor do sol".
Aqui faz a viva memória do já morto Manoel de Sousa Coutinho,
cavalleiro portuguez, como se vivo fora.

Não morreu às mãos de nenhum castelhano,
senão à do amor que tudo pôde.

Caminhante, procura saber-lhe a vida,
e lhe invejarás a morte.


in Branco, Camilo Castelo, Mosaico e silva de curiosidades historicas, literarias e biographicas, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão.
Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

Annos depois, diz-se, esteve ali também o Duque de Bragança, mas com o intuito de ás occultas vir entender-se com os conjurados que em 1640 o acclamaram Rei com o nome de D. João IV. (1)

(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Manuel de Sousa Coutinho

Manuel de Sousa Coutinho (1555 — 1632), frei Luis de Sousa (1613 — 1632)

Nos fins do seculo XVI e principio do XVII, passa-se em Almada o mysterioso e pungente episodio sobre o qual Garrett architectou o mais bello poema em prosa da nossa litteratura, a mais poetica definição da alma portugueza, ao mesmo tempo apaixonada e cavalheirosa, repassada de mysticisrno e vibrante de amor, accessivel a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada pela fatalidade do destino, energica na resolução do supremo sacrifício.

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.
Imagem: eBay

E porque os personagens existiram, e porque viveram. e se amaram, e os dois principaes se separaram ao cabo de uma união feliz, para irem acabar a existencia distanciados nas cellas dos seus conventos, o "Frei Luiz de Sousa" tem além do prestigio de symbolisar o genio d'uma nação, o interesse que despertam as scenas vividas.

Quem não conhece o drama de Garrett não é portuguez.

Inutil portanto recordal-o.

Lisboa, Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun, Frans Hogenberg, 1572.
Imagem: Prosimetron

Que ha de realidade n'essa obra? O episodio fundamental é verdadeiro. Verdadeiros os principaes personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha da mais artistica e delicada das versões sobre os motivos de separação, a psychologia das figuras, e o sopro de genio que anima o drama.

Pelos annos de 1575 residia em Almada e tinha ali propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Magdalena de Vilhena.

Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com elle dez annos até á partida para Alcacer Kibir.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Andrada, Miguel Leitão de, Miscellanea, 1689.
Imagem: Wikipédia

Ficaram tres filhos, D. Luiz, que veiu a morrer em Tanger, n'uma escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de Vilhena e D. Joanna de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta ultima com D. Lopo de Almeida, dos quaes nasceu uma filha que acompanhou sua avó para o convento quando a elle se re recolheu.

D. João de Portugal desappareceu na batalha. Os documentos officiaes deramn'o como morto.

Batalha de Alcácer Quibir, 1578, gravura Machado, Diogo Barbosa, Memórias para a História de Portugal, 1751.
Imagem: Wikipédia

D. Magdalena, conta-se, espaçara por alguns annos o segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não ser na realidade viuva. 

Afinal as razões que lhe deram os proprios parentes do primeiro marido convencerêim o seu coração, já de ha muito dominado pelo encanto do brilhante cavalleiro Manuel de Sousa. Casaram entre 1584 e 1586. 

Elle tinha todas as qualidades que seduzem as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longiqua. As coisas banaes passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que nos embala quando lêmos periodos da Historia de S. Domingos e Vida do Arcebispo. Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma branca a la moda, e na imaginação tremulava-lhe a pluma ligeira d'uma phantasia romanesca.

Cinema português — Frei Luis de Sousa — Video 1


Generoso, valente e poeta, captivou a linda e opulenta viuva. Alguns auctores teem avançado que essa riqueza tinha em grande parte resolvido o cavalleiro de 30 annos a desposar uma viuva mais velha do que elle. Entretanto essa hypothese é destituida de fundamento pela rasão de que uma grande parte da fortuna e toda a que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que d'elle tinham ficado. E Manuel era rico, e cavalleiro, e namorado!... Em que repugna que elle se deixasse apaixonar pela bella e seductora viuva, que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que elle?

Tiveram uma filha — a Maria do drama de Garrett, a que alguns escriptores chamam D. Anna de Noronha.

Em Lisboa viviam os conjüges a S. Roque, na freguezia do Loreto. Mas a sua residencia predilecta era Almada, onde, segundo affirma Barbosa Machado, Manuel commandava um corpo de setecentos infantes e cem cavallos.

A casa que habitavam n'esta villa era na rua Direita, como se vê d'uma escriptura publicada pelo erudito escriptor sr. Sousa Viterbo, na sua memoria apresentada a Academia Real das Sciencias. 

Qual ella fosse torna-se difficil averiguar. Não só porque o incendio, cavalheirosamente ateiado pelo proprio Manuel, a teria destruido, e as confrontações indicadas na escriptura nada elucidam, como por não haver indicio na rua Direita de reedificação nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.

Almada, rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais importante onde se veem uns bellos azulejos, permitte á imaginação conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protogonistas do drama. E certo que elles habitavam n'aquella rua e que já então Manuel de Sousa Coutinho cultivava as lettras em prosa e em verso, quando no anno de 1599 a peste grassava em Lisboa.


Resolveram os governadores do Reino, em nome de D. Filippe, virem estabelecer-se em Almada, e para palacio do governo escolheram a casa em que D. Magdalena e Manuel residiam. Foi então que o fogoso cavalleiro e ardente patriota respondeu á importuna intimação, incendiando a sua casa, episodio com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama "Illumino a minha casa", diz Manuel de Sousa "para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos."

O facto é verdadeiro. Elle proprio o narra no prologo que em latim escreveu ás obras de Jayme Falcão: "In fumum et cineres abïere". E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos govemadores do Reino, influisse para a sua resolução em se expatriar. Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento protector de D. Pedro e D. João de Borja, e d'ahi seguiu para a America.

Neste ponto se affastou da realidade Garrett, no seu drama, que faz succeder immediatamente ao incendio de Almada a catastrophe que decidiu os dois esposos a tomarem o habito. Entre um e outro facto mediaram perto de 13 annos.

Foi em 1600 que elle partiu para a America, em 1604 que d'ali regressou, e em 1613 que se realisou o divorcio.

O que motivou a sua volta a Portugal? Qual foi a causa da separação? Diz o bispo de Vizeu, D. Francisco Alexandre Lobo, e confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente á patria a noticia da morte de sua filha.

Outros affirmam que viria por saber que os governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que saudades da familia e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham repatriado. N'esta hypothese, sua filha ainda viveria; e a sua morte, mais tarde, teria grande influencia na resolução de os paes se recolherem ao convento.

A mysteriosa causa do divorcio, interessante problema de psychologia, que tanto preoccupa aos escriptores que d'elle teem tratado, está ainda hoje para resolver. 

Seria a morte da filha unica? Não ha uma data que nos possa guiar. Não nenhuma citação que nos elucide. Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo um phenomeno de suggestão, que teria actuado no espirito dos dois, levando-os a esta especie de duplo suicidio?

É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa de Vimioso se tinham separado, para professarem, ella no convento do Sacramento em Alcantara, que instituira, e elle no de S. Paulo, em Almada.

A coincidencia de serem os mesmos conven que Manuel de Sousa e D. Magdalena vieram a professar, a amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa Coutinho, a inclinação ao mysticismo da alma de D. Magdalena de Vilhena, creada e educada por uma mãe excessiváthente devota, n'uma epocha de profundas crenças religiosas, e supersticiosos terrores, que facilmente levariam o seu animo a procurar abrigo contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso instituira e onde se escolhera, tudo teria influido no espirito dos dois esposos, já ambos no começo do inverno da vida, a procurarem no claustro paz e tranquillidade.

A apparição do peregrino, facto que aos eruditos repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para explicar a subita resolução do divorcio.

Tirou-o Garrett da narrativa de Frei Antonio da Encarnação, que, por ser contemporaneo dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saldo de probabilidades.

Conta elle que em 1613, estando D. Magdalena de Vilhena em Almada, lhe apparecera um peregrino que vinha da Terra Santa, trazendo novas de um portuguez que ha muitos annos vivia em Jerusalem, e que escapara aos desastres de Alcacer Kibir. E dando os signaes certos de D. João de Portugal, o primeiro marido, accrescentou que fôra elle quem ali o mandára.

"Accrescentou que fôra elle quem alli o mandára"
Imagem: Hemeroteca Digital

Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão presenceára.

Elle então dizem que respondera: "Até agora, senhora, vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste comigo ; porque fio de vós que não casarieis outra vez se não tivesseis por certa a morte do vosso primeiro marido. O que convém mais é fugir para o sagrado da religião."

A este episodio, narrado por Frei Antonio da Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Vizeu, o sr. Sousa Viterbo e outros, que se teem occupado do caso, e attribuem ainvenção ao espirito de messianismo sebastico que inflammava as imaginações n'essa epocha.

E a phantasia popular, que esperava ver apparecer o "Desejado" e cria que elle não perecera, facilmente daria como explicação á repentina deliberação dos dois conjuges, a chegada d'um mensageiro que trazia novas do cavalleiro de Alcacer Kibir.

Não havendo provas que invalidem esta versão, e havendo em seu favor o testemunho de um contemporaneo, porque regeital-o? E porque não fundiremos na alma dos dois heroes d'essa historia os tres motivos de anniquillamento moral?

A morte d'uma filha. é a maior dôr humana. E essa dôr ter-lhes-hia quebrado as energias vitaes. A apparição do peregrino mensageiro do D. João de Portugal, ou elle proprio, como alvitra Garrett, seria para as suas almas a catastrophe determinante do refugio na casa de Deus.

E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos, ter-lhes-bia indicado o caminho. Por isso n'esse mesmo anno de 1613, deixando Almada, entraram, ella no convento de Alcantara, levando comsigo uma netasinha de sete annos, que a seguiu na clausura, elle no convento dos dominicanos de Bemfica, onde veiu a escrever as mais harmoniosas paginas da harmoniosa lingua portugueza.

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra".

Conta elle depois que por ser de tal modo formoso o panorama de Lisboa que da villa de Almada se disfructa escolheu D. Filippe II esta villa para gozar da vista da cidade, antes de n'ella entrar.

Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de Lisboa de luminarias, e tão deslumbrante era o espectaculo, que Frei Luiz de Sousa accrescenta que: "estando assim ardendo sem damno, toda, ficou devendo mais ás sombras nocturnas que ao resplendor do sol". (1)
Aqui faz a viva memória do já morto Manoel de Sousa Coutinho,
cavalleiro portuguez, como se vivo fora.

Não morreu às mãos de nenhum castelhano,
senão à do amor que tudo pôde.

Caminhante, procura saber-lhe a vida,
e lhe invejarás a morte.


in Branco, Camilo Castelo, Mosaico e silva de curiosidades historicas, literarias e biographicas, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão.

(1) Sabugosa, Conde de, Almada pelo conde de SabugosaSerões: revista mensal ilustrada, n° 2, Lisboa, 1905.
Fonte: Hemeroteca Digital 

Leitura relacionada: 
Garret, Almeida, Frei Luís de Sousa ; Um auto de Gil-Vicente, Porto, Livraria Chardron de Lélo & irmão, 1900.
Sousa, Frei Luis de, Annaes de el rei D. João III, Lisboa, Alexandre Herculano, Typ. da Sociedade propagadora dos conhecimentos uteis, 1844.

Artigo relacionado: 
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Freguesia de Caparica no século XIX

Caparica — freguezia, Exlremadura, comarca e concelho de Almada, 6 kilometros ao S. de Lisboa, 1:430 fogos. 

Em 1717 tinha 1:193 fogos.

Orago Nossa Senhora do Monte. 

Patriarchado e districto admintstrativo de Lisboa.

Situada na esquerda do Tejo, e d'ella se gosam deliciosas vistas.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa, 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É n'esta freguezia a chamada Torre Velha, ou de S. Sebastião de Caparica, que serviu de lasarêto. Fica em frente da torre de S. Vicente, de Belém.

Foi mandada edificar por el-rei D. Sebastião, pelos annos dé 1575.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

Principia a freguezia logo á entrada da barra do Tejo, que a banha na extensão de 12 kilometros, pelo N.: o Oceano lhe serve de termo pelo O., e na praia está a aldeia da Costa, d'esta freguezia.

A matriz é um bello templo, fundado nos fins do século XVI.

O terreno d'esta freguezia é em geral fertil e seu clima saudável. Antes do oidium produzia annualmente, termo médio, 6:500 pipas de bom vinho.

Na aldeia de Mofacem, d'esta freguezia ha 30 e tantas cisternas, todas magnificas e de dispendiosa construcção, obra dos árabes. 

Foram elles que deram a esta aldeia o noma de mo-hacem, que significa barbeiro.

Vè-se pois que esta povoação é muito antiga. Capa tambem é palavra arabe (que os mouros adoptaram dos persas) significa mesmo capa. (Capote é diminutivo de capa.)

Ha duas tradições sobre a etymologia de Caparica.

Uns dizem que morrendo aqui um velho, declarou no testamento que deixava a sua capa para ser vendida e com o producto da venda se fazer uma capella a Nossa Senhora do Monte. Fez isto rir bastante; mas sabidas as contas, a boa da capa estava recheiada de bellos dobrões de ouro, que chegaram de sobra para a fundação da capella.

A segunda versão (e mais verosimil) é que, sendo a Senhora do Monte, de muita devoção para estes povos limitrophes, concorreram todos para lhe fazerum esplendido manto (ou capa) pelo que a Senhora ficou d'álli em diante sendo conhecida por Nossa Senhora da Capa Rica.

Junto a Caparica está o convento de capuchos arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Távora quarto senhor de Caparica, em 1564. Elle morreu em 15 de fevereiro de 1573, e jaz na egreja do mesmo convento.

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

Este fidalgo, sendo embaixador de Portugal em Hespanha, em uma occasião que o imperador Garlos V estava zangado com elle, lhe disse : "Eu sei muito bem quantos rios e pontes tem Portugal" ao que Tavora respondeu: "Os mesmos que linha em 14 de agosto de 1385." Digna resposta de um bravo portuguez.

Caparica foi antigamente da comarca de Setúbal.

D'esta freguezia se avista a serra da Arrabida, Palmella, o mar, o Tejo, Lisboa e outras muitas povoações, montes e valles.

Antes de 1834 era o povo da freguezia que apresentava o cura, a quem davam anualmente, 1 moio de pão meiado e 5 pipas de vinho em mosto, a saber: os que tinham liuna junta de bois davam nm alqueire de pão, os que tinham duas ou mais, dois alqueires, e cada fazendeiro um pote de vinho. Andava tudo por 250$000 réis.

Além do convento dos capuchos arrabidos, ha mais n'esta freguezia um convento de frades paulistas, fundado em 1410. Este mosteiro está em um profundo valle, e era denominado, convento de Nossa Senhora, da Rosa. Na sua cêrca ha uma fonte, cuja agua dizem que cura a lepra e outras moléstias cutaneas. Foi fundador d'este convento Mendo gomes de Seabra.

Outro de frades agostinhos descalços, fundado em 1677. Este é no logar da Sobrada [Sobreda].

Ha n'esta freguezia nada menos de 24 capellas, entre publicas e particulares.

É terra muito abundante de aguas.

Tem vários portos de mar, sendo os principaes, Benatega, Porto Brandão, Paulina, Portinho da Costa e Trafaria.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Benatega é a palavra árabe ben-ataija. Significa, filho ou descendente da coroada. Vem de ben filho, ou descendente e de ataija coroada.

No logar da Costa, d'esta freguezia esteve (julgo que em 1823 ou 1824 D. João VI, hospedando-se na única casa de pedra que alli então havia (todas as mais eram cabanas da palha) 

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, 1909.
Imagem: Delcampe

e tanto gostou da caldeirada que alli lhe deram, que fez o cosinheiro (dono da casa) mestre das caldeiradas (!) com a renda de 800 réis diários emquanlo vivo.

Costa da Caparica, casa da coroa.
Imagem: almaDalmada

Também aqui esteve a sr.a D. Maria II e depois, quando rei, seu filho, o sempre chorado D. Pedro V. (1)

A Sobreda (antigamente Suvereda) está ligada com a Charneca pelos terrenos de Vale Figueira.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Lugar solitário, assente sobre alguns outeiros, que lhe fornecem ao centro o caminho principal, desigual e pedregoso, que lhe circundam a parte baixa, a que chamavam no final do século passado [XVII] Largo do Rio, em consequência da bica que em parte do ano ali corre e fornece água às lavadeiras, e do poço público que por volta de 1800 a 1830 no mesmo largo foi aberto a expensas de um cavaleiro daquele lugar, o Fidalguinho da Sobreda, Francisco de Paula Carneiro Zagalo e Melo.

E para fazermos segura ideia do que era Charneca antiga e de que então era Vale de Rosal, e a sua importância histórica, ouçamos o que em 1647 diz o Padre Baltazar Teles em sua Chronica da Companhia de Jesus em Portugal

— Tem o colégio de Santo Antão (uma das primeiras casas da companhia de Jesus em Lisboa) uma grande quinta ou para melhor dizer, uma vinha chamada Vale de Rosal, que está na banda d’além, no termo de Almada, limite de Caparica, na freguesia de Nossa Sra. Do Monte, distante do porto de Cacilhas quase uma boa légua.

O martírio dos 40, Mathaeus Greuter, gravura, 1611.
Louis de Richeome, La peinture spirituelle, Folger Shapespeare  University
Imagem:  Aspectos de devoção e iconografia dos Quarenta Mártires do Brasil...

Fica esta quinta no meio de uma grande e estendida charneca: é lugar todo à roda muito tosco, seco e estéril, cheio de silvados incultos, continuado de matos maninhos, e de areais escalvados, escondido em vales, cercado de brenhas, coberto de pinheiros bravios, de zimbros, de tojos e de outros frútices silvestres: é sítio mais acomodado para caças de monteria que para morada de gente culta, e por isso mui frequentao de corças e veados, infesto de lobos e de outros animais monteses. (2)

Afonso Costa, o Ministro da Justiça  visita a Quinta do Vale do Rosal, 1911.
Ilustração Portuguesa, n° 263 II série, Lisboa, Chaves, José Joubert
Imagem: Hemeroteca Digital



(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,

(2) Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896