sexta-feira, 17 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte IV)

A nossa separação forçada teve sobre Amelia uma influência que não demorei reconhecer. Ela acolheu-me como se algo de essencial tivesse passado entre nós; eu, imobilizado na minha lembrança, fui acordado por ela, de repente, como que por uma queimadura. E sem alegria, dizendo a verdade. Ela não fez alusão minha confiança, mas à minha fidelidade era o único ponto duvidoso, já bem comprometido, infelizmente! tinha-a humilhado e ela havia resolvido vingar-se da minha ofensiva memória.

Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Essa certeza que eu lia seus lábios, os seus gestos — como todos os movimentos de prostitutas parecendo uma permissão — traíam com uma graça delicada e móvel, infinitamente variada como a chama dos seus olhos, certeza que me gela durante todo um dia, apesar dos esforços de sua persistente ternura.

Dos muros da cidadela os soldados observavam-nos. Fomos para outro lugar para lhes escapar. Nas bermas de um caminho deserto, onde grandes aloés formavam uma sebe, sentamo-nos diante um vasto horizonte que as montanhas fechavam. Seus contornos fundidos na bruma, suas arestas moídas, não pareciam mais do que uma habilidade de paisagista, uma sombra destina-se a colocar mais verosimilhança no encanto da luz.

No entanto, o charme que me desviava não era aquele que voava das suas pequenas mãos aladas que eu sentia, sem gosto, o esfregar nas minhas; e os lábios que eu beijava também não me retinham, embora eu os sentisse como pesadas flores tropicais de aromas plenos de febre. Distraidamente, como a prazeres exaustos, deixava-me ir a esses abraços, e sem a surpresa que acompanha a conquista, eu vogava para outros sonhos.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, ed. desc., c. 1903.
Imagem: Delcampe

Sabemos o que somos, o que sabemos, para onde vamos? Na desmoralização da minha culpa, era o pernicioso charme, essa ideia do negar tudo, a imensa comédia com que representamos com entusiasmo o primeiro ato, sem duvidarmos o que será o segundo e somente o desvelar. A impressão que nos deixa o sofrimento é diminuída, pela redução da nossa personalidade e da consciência de ser algo infimo na coletividade, o átomo anônimo, desembaraça-se um pouco de nós mesmos, adormece-nos e apaga-nos... Então as crueldades não sangram mais aos nossos fracos olhos.

A habilidade desta mulher, nas veias da qual uma semente perdida do orgulhoso sangue mouro tinha ainda germinado, a capacidade de conquistar era-me um assunto de estonteamento renovado. E eu soube mostrar-me dócil às suas tentativas de sufocar em mim o fantasma da minha felicidade passada. Ela foi pouco a pouco enlaçante e imperiosa; Ela tocava os olhos como um divino instrumento de luz; quente e rampante como uma pantera amorosa, gozona e queixosa, ela amarrava a suas mãos pequenas, castas como aquelas das virgens, e desnudava os seus braços, movia as ancas com uma indecência que crispava os sentidos. Ela dizia coisas semelhantes às das quimeras de sonho; ela proferia palavras que queimavam o fundo do ser. E ela mentia tão graciosamente, que era uma alegria para os ouvidos.

Eu também, mentia ao meu coração, ao meu passado.

Este ignora bem os maus segredos, que não viveu nos artifícios da luxúria. Ele não sabe até qual ilusão da imaginação nos podem levar os nossos sentidos perturbados, — já que não há outro modo de exprimir um desejo a uma mulher que lhe dizendo: "Eu vos amo."

Ai de mim! a miragem destas palavras às quais pouco a pouco nos deixamos prender; a miragem que afasta a nossa caravana a caminho dos belos oásis onde floresce a verdade da vida na ternura serena; a miragem que corrompe, que mancha, que lança sobre os seios ofegantes e a carne em fogo os nossos mais puros sonhos, as nossas mais luminosas esperanças...

Ela dizia: — Quero ser amada por um homem que resplandeça de beleza, valente como um leão e dócil como uma criança. Eu levá-lo-ia a delícias onde ele esqueceria tudo, tudo o que não fosse eu. E quando eu lhe dissesse: "Amigo, atirai-vos ao rio para me dar uma prova do vosso amor", na pressa louca de satisfazer o meu capricho, ele dar-me-ia a angústia de não chegar a tempo de o reter!

Sapho, Opera de Gounod, esboço de Edouard Despléchin para a cena final, 1851.
Imagem: Wikipedia

Estes propósitos obscureciam porque oferecia no encandeamento do seu corpo o preço dessas loucuras, porque ela também estendia o seu lábio para nada, e no seu corpete, na evocação deste amor assustador, os seus seios abanavam num tumulto de diversão.

Doçura de se deixar convencer quando já ter resolvido ceder! Doçura desta eloquência com a qual surpreendemos todas as armadilhas, e que isso ajudamos um pouco para nelas cair mais depressa! Doçura de todas as ironias às quais a vida se queixa e em que drenamos, embora que avisados, um embriaguez apesar de tudo!...

Foi por isso um longo prazer ceder às tentativas que Amélia fez para apagar as minhas recordações e a elas substituir-se. Mas ela resistia às minhas solicitações, esquivava-se sempre com uma crueldade excitante.

Sem dúvida, ela insinuava que o meu desejo ainda não era mais que uma febre passageira, este enrugar das águas à passagem de um sopro. O que ela queria era a conquista na fúria selvagem, o vento do frenesi, todas as emoções de uma pilhagem.

Eu não estava em uníssono com estas extravagâncias e sem dúvida parecia gelado à sua boca ardente, aos seus olhos de fogo: 
— Vós não me amais, dizia ela.

Outras vezes, era de Quitéria que ela se servia para motivar a sua recusa:

— Vós não conheceis aquela besta malvada! Sempre a espionar-me, deslizando sobre os seus pés nus como um réptil através da casa.

Então, ainda, era o receio do pecado, um estonteante acordar de superstição que agitava o corpo e reabria os olhos carregados desta neta dos Mouros.

E ela dizia sempre: Não! de uma forma particularmente teimosa, olhando à sua frente as falésias avermelhadas e peladas, os pastos e bosques que levavam as suas encostas distantes em direção ao mar.

O Ville de Paris, da carreira França - Espanha – Portugal, na barra do Tejo, Louis Lebreton, c. 1850.
Imagem: do Porto e não só...

No entanto, um dia, ela parecia muita agitada. O capitão Joaquim tinha anunciado o seu regresso. A recordação das suas carícias, o efeito de suas palavras, uma fadiga de luta, e, acima de tudo, o momento vindo, sobre o qual se pode sempre contar, quando uma mulher cede por uma contradição ou necessidade de terminar, ela apareceu-me enfim desacostumada de orgulho, oferecendo a sua beleza numa tal sede de amor que se tornava suplicante.

Ah! Como poderei alguma vez contar a intensa impressão dessa noite de outono, enquanto o sol caía no mar entre as brasas das nuvens amontoadas, e que ao som da minha tornada frágil de repente frágil, como dantes nas horas melhores, a feroz voluptuosa deixa cair no meu ombro a sua cabeça soberana e apaga o seu olhar nos meus olhos perplexos?

Ela não falava. Um calor corria debaixo de sua pele; seu rosto tinha uma palidez de pérola. Um fluxo de sangue avermelhava as suas orelhas e os seus lábios, enquanto a ebriedade que subia fechava mais os seus olhos, as suas pálpebras caíam como beijos sobre o seu olhar toldado...

Do sol morrendo numa chama, aos seus lábios, um sopro de amor levantava as melancolias profundas que dormem sobre as águas da noite e das montanhas desoladas. A noite vinha numa doçura de abraço, rápido como um véu caído, enquanto que as últimas glórias do poente palpitavam nos olhos da bela Amélia. Ela colocou os braços em volta do meu pescoço, e, derramada pelos meus beijos, numa demência emocionada, ela gritou: "Eu amo-vos!"

Detalhe da muralha do forte de Almada, década de 1910.
Imagem: Delcampe

— Esta noite, às nove horas, na minha casa, atira-me ela na fuga que a punham as seis badaladas das seis horas que caíam no campanário vizinho...

— Vamos embora [continua...]! (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

terça-feira, 14 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte III)

Todos os dias ela vinha-se sentar nas vizinhanças do forte. Eu reencontrava-a, como que por necessidade, para apaziguar a desordem com que a sua ausência me deixava. Ela sorria de ser admirada, consciente da ajuda que a sua beleza dava ao quadro maravilhoso da paisagem.

Bilhete postal ilustrado, vistas e tipos, c. 1900.
Imagem: Lisboa Desaparecida

De fato, ela encarnava a essência amorosa destes dias inquietantes de outono e a promessa dos seus olhos não passava pelas intenções cuja natureza lânguida assaltava os sentidos.

— Estais triste, dizia-me ela.

Protestei; mas ela, batendo no peito, disse:

— Há qualquer coisa que me diz isso.

Seus olhos abraçavam-me convidando a lhe confiar a minha pena. Tentei apertá-la contra mim, tomar os seus lábios, gaguejando que a minha tristeza não era mais que um excesso de emoção. Mas ela afastou-se vivamente, quase cruelmente, e gritou:

— Ah! vós sabeis, eu sou a mulher do capitão Joaquim de Deus.

Então ela retomava a sua pose felina e ternurenta, enviando-me por debaixo da franja das suas pestanas o brilho dos seus olhos ardentes.

Joaquim de Deus era um capitão de longo curso que fazia, para uma companhia de navegação, um serviço regular entre Le Havre e Lisboa — profissão que lhe deixava apenas dois ou três dias por mês para passar com a sua esposa. Ela falava com orgulho desse homem, que lhe trazia durante momentos apressados uma paixão selvagem, que ameaçava estrangulá-la se algum dia ela o traísse, e que, visivelmente, ela levava nas palmas das mãos com o seu olhar lânguido...

— Se vós soubésseis como ele é belo!

Ela exaltava-se com umas lembranças quaisquer, que devante mim recordadas, tornavam-se de repente inebriantes à sua memória. Ela sentia-se crescer elogiando essa ausência.

Ela falava também da Quitéria, sua velha criada enrugada e escurecida como um macaco, que corria a pés nus pela casa, arrastando a sua preguiça suja, suas alcovitisses e os seus gritos de pássaro. Metida em casa por Joaquim, ela era, parece, uma dona ciumenta, sempre alerta, malcheirosa e malvada.

Velha camponesa, Paula Modersohn-Becker, 1903.
Imagem: Kunsthalle Hamburg

À noite ela abandonava-se aos seus propósitos familiares, desabotoava a sua vida à minha curiosidade, expunha o tédio das suas horas de solidão com belos gestos de odalisca. 

Caminhávamos lentamente neste lugar deserto, ao longo das paredes recentemente rebocadas da pequena igreja com telhado plano, janelas estreitamente gradeadas, tomando mais caminhos solitários debaixo de limoeiros e oliveiras, para chegar sempre à obsessiva magnificência do rio e de Lisboa mostrados num panorama ao qual não podíamos fugir.

Ela não via nada da magia do pôr-do-sol; ela falava, e toda a sua vida estava nas suas palavras. Também, era a hora das confidências, o momento fugitivo quando se sente a necessidade de abrir o coração, mesmo para ouvidos estranhos, este momento pálido e de arrependimento onde o céu se torna tão fino que parece morrer, onde as águas se encerram como um frio vazar de aço, onde a brisa de repente passa a fôlego funebre.

— Tudo exponho em vir aqui, perto de vós, não sei porquê, dizia-me ela. O mal que vos faço, Santa Virgem, posso crê-lo?...

Um luto parecia cair em frente sobre a cidade; as igrejas brilhantes tornavam-se parecidas a túmulos de mármore. Nos cantos verdes, poços de tênebras escavavam-se e pouco a pouco um vasto tabuleiro de xadrez de paredes brancas e sombras lilás cobria Lisboa...

Neste momento, cheio de preocupação, quase esqueci de dizer:

— Também eu, que mal eu fiz! Que criminoso eu faço!

Oh! como então ela se compôs e que interrogatório apressado, ousado, tenaz ela me fez sofrer! Os seus olhos espiavam nos meus a mentira, e eu senti-a moldável, a roupa flexível sobre as ancas, pronta a lançar-se, enquanto se encostava contra mim, excitando-me com toda a tentação da sua carne soberba.

Charme d'aimer.
Imagem: Delcampe

Então, coisa incompreensível, eu abria-me a essa estranha, a essa passageira do acaso; e isso foi uma profanação, que não me perdoo, por ter mostrado a uma curiosidade qualquer o tesouro das minhas puras alegrias, a ideal fonte da minha esperança. Uma demência de palavras levou-me a uma loucura amarga e cruel, atormentada pelos remorsos, vibrante de lamentos e desejos, durante a qual não soube qual abjeta e infindável ligação de ingratidão, também ela, continua.

Nessa noite de outubro, plena de doçura e perfumes, a evocação de um tempo apenas passado uniu-me aquela que foi a mais cara da minha vida. Sentia, ao pronunciar o seu nome, quais lamentos e qual misericórdia escorria do seu coração neste momento, e as lágrimas de seus belos olhos aprofundados na tristeza comunicavam-me uma emoção da qual a minha voz tremia.

Oh! Que esposa, que mulher, que deus algum dia fundirá a minha pobre alma a esse ponto, a convencrá de mais baixeza no meio do seu orgulhoso egoísmo? Aí via o fantasma querido a envolver-me, a levar-me nesta noite perigosa. Ouvia-o chamar-me com aquela voz que leva o silêncio das vastas paisagens, amplos horizontes, e baixo eu respondia: "Minha bem-amada! minha bem-amada!" Enquanto a senhora Amélia, como uma criatura estrangeira, me considerava um pouco interdito e quase lamentador do meu segredo revelado...

Panorâmica das duas margens do Rio Tejo tirada de Almada, Francesco Rocchini, c. 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nos dias seguintes a chuva caiu, — uma daquelas fortes chuvas que afogam dias inteiros, sujam o céu sem mais acabar a atiram a negras melancolias [continua...] (1).


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte II)

Ora, neste dia quente e suave, era ainda a mesma claridade de sonho, o mesmo corte de azul estirado. Folhas tombadas, plantas murchas, todas a languidez de outubro era mais preocupante sob o sol sempre vitorioso. O charme de declínio, uma ameaça de morte, todas essas impressões outono que despejam uma melancolia apaixonada, pareciam hoje muito passageiras, e mais como um convite a viver de novo, a dar esperança a tempos próximos e a embriagueses renováveis.

Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Ela não estava na sua varanda, a Senhora Amélia de Deus. Apenas o seu gato dormia sobre o muro; e eu subi com um sentimento de abandono o caminho da cidadela .

Sobre um terraplano, lá em cima, à direita do forte, havia uma espécie de jardim público, que me tinha escapado na véspera. Pelado e vazio, sombreado de acácias e olmos de folhagem avermelhada, limitado por um lado de aloés e piteiras, e por outro de um muro branco, que o dividia do largo de uma igreja, ia até à beira do rochedo onde o parapeito de pedra o separava do vazio. 

Desci os três degraus deste jardim ressequido, onde o muro claro e o céu azul, de longe, davam ainda uma vivacidade intensa, e de repente, inclinada sobre o parapeito, no corpete rosa, a senhora Amelia.

Ao mesmo tempo que eu a observava, um pouco emocionado, surgiu uma brisa que levantou a sua mantilha e perturbou uma mecha do seu cabelo castanho. Ela deixou-se acariciar por este sopro que também enchia as velas na foz. Ela parecia docemente agitada, como o rio com o reflexo ondulado numa longa esteira, em que pretentia aumentar o fluxo. E esse fôlego e esse movimento embalavam nela um devaneio harmonioso.

No caminho, as folhas mortas estalavam. Ela virou-se, viu-me e sorriu ligeiramente. Em seguida, seu busto recolheu-se num movimento lento.

Meu Deus! Até onde irá a minha impertinência? Eu aproximo-a , e num português mestiçado de francês, muito ingênuo, asseguro-a do meu respeito. Ela sorriu com os seus olhos doces e seus dentes brancos,  com um embaraço evidente.

Ao longe, um galo canta. O apito de um vapor atira para o espaço o grito de uma criança assustada. Ela disse em voz baixa:

— Vós sois francês?
— Sim.
— Então fale na sua língua.

Então ela envolve-me num olhar que renova no fundo de mim as mais antigas emoções dos meus primeiros desejos.

Aí ficamos, banhados na brisa e no silêncio, encostados sobre o parapeito, dizendo coisas quaisquer, enquanto que o céu empalidecia e a luz fundia todos os seus reflexos de azul turquesa num fragmento súbito de malaquita.

Almada, Lado Norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 10, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

— Conhece Paris? perguntou-me.
— É de onde venho.
— Oh! O que eu quereria ver Paris!

A violência selvagem de todas as suas concupiscências traiu-se então nos seus olhos, na repentinidade da sua voz, num esgar voluntário da sua boca sensual.

— Vós não encontrareis lá nada tão bonito como isto, disse-lhe. 

Ela ria como se tratasse de uma piada. Maliciosa, sedutora, quase oferecida à tentação: 

— Os franceses são sempre educados, retorquiu.

E isso era todo o seu pensamento, desde que o seu olhar flutuava em direção do mar, onde poderiamos ver a linha cintilante que limitava o horizonte. Era por isso sómente que ela subia até este jardim, subia ao jardim, a fim de confiar seus sonhos ao mar distante, de ouvir este embalar de infinito falar-lhe de Paris...

Soaram as cinco horas no campanário da igreja, e na tarde que caía, o sino cedeu uma intimidade da qual me senti de repente desolado.

Almada, Lado Sul, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

... Queridos pobres olhos que, neste momento, estavam talvez afogados em lágrimas, — olhos amados que o crepúsculo enchia de ternura, e onde eu gostava de me perder, onde tentei morrer, esses olhos de amor, como eles pesavam na minha alma neste momento de perda e traição!...

Mas a sombra vinha muito rápida. Na luz alaranjada do pôr-do-sol, via-se a Torre de Belém avançar em espora no rio e todos as sinuosidades da costa a morder o espaço. A frescura fez estremecer Amélia, e nesse estremecimento, ela parecia revelar todo o seu corpo, tanto que adivinhei a beleza soberana a conquistar.

E agora que ela tinha partido, tinha sentido na minha mão a sua mão ardente colocar o seu império, que eu estava como ébrio de seu olhar, audacioso e doce, de Africana com reflexos metálicos, de escrava com sombras humidas e sensuais, ficava de coração inchado, quase virado, diante da noite, imensa noite tépida onde passavam as tremuras e o vento.

La maja desnuda, Francisco Goya, c. 1797 – 1800.
Imagem: Wikipedia

E a estranha feitiçaria exercida por essa mulher não parava de crescer.

Ela tinha as mãos finas e pequenas que abandonava em mim. Seus lábios sangravam como feridas de volúpia. E eu sentia o perfume do seu corpo subir por entre os seus seios como os odores extasiados das flores por cima das ensolaradas muralhas [continua...]. (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte I)

Como poderei jamais descrever a misteriosa doçura desses olhos que me seguiam no caminho de Cacilhas, — desses olhos de mulher, que ao mesmo tempo provocavam e desfaleciam, castanhos e reluzentes detrás da franja móvel das suas longas pestanas pretas? Como descrever o charme que tombava, neste dia de outubro quente e dourado, sobre este caminho onde eu subia solitário para uma cidadela situada no alto, afim de aí apreciar uma vista única sobre o Tejo e sobre Lisboa?

Rua do Castelo, Entrada do Jardim, Almada, ed. desc., década de 1900
Imagem: Fundação Portimagem

A senhora Amélia de Deus, da balustrada do seu terraço, explorava a estrada coberta de poeira amarela, onde entre os altos muros, no silêncio, os meus passos subiam. Ela aborrecia-se, e é por isso que era curiosa.

Quando passei, imediatamente a magia eterna do desejo amarra o seu olhar ardente à minha contente surpresa. Inconsciente, transportei-o ao fundo de mim, — seus olhos que queimavam a tez pálida, seus lábios escuros, pesados, e no seu corpete rosa, florido sobre a cabeceira das pedras, seu peito violento, soberbo...

No cimo, o íngreme bruscamente parou e abriu o encantamento do céu imenso e da água azul. Da porta desta fortaleza — uma pequena fortaleza não muito severa guardada por um soldado não muito mau — o panorama do mar da palha desenrolava-se incomparável. Sentei-me ao pé dos altos muros militares, deixando-me afundar pouco a pouco no azul límpido, no azul sonhado, imóvel e lendário, que fundia o firmamento na água.

Panorama de Lisboa, ed. A. Myre (detalhe), c. 1900.
Imagem: Delcampe

Sem uma ruga, o Tejo, nessa baía que ele descreve a par de Lisboa, dormia sob o fino céu. Sobre ele uma "écharpe" com estrias lumimosas flutuava docemente, e nos seus vincos caíam cintilas de sol, carícias de azul. Mecanicamente, eu olhava o triângulo de velas brancas e a sua silhueta derramada que tremia demoradamente na água. 

Uma embriaguez de silêncio e luz entorpecia-me assim como esses barcos distantes que pareciam ancorados para sempre na serenidade... Hora esquisita afundada fora da realidade no sonho mais amável! E não sei a quem devo, este momento extraordinário, ao profundo encantamento da paisagem ou ao olhar divino da senhora que atravessava algumas tênebras inconfessadas do meu ser.

Contornando o flanco esquerdo da cidadela, cheguei a um terraço que dominava a pique uma centena de metros de rochedo, abaixo dos quais se encontrava o rio. Aí, foi uma maravilha renovada para o olhar que podeia abraçar ao mesmo tempo a cidade de Lisboa agrupada sobre as suas colinas e o Tejo alargado confundindo-se com o mar, e toda a luz do poente que invadia a foz. 

Abaixo, baixas e revestidas de videiras, as casas alinham-se ao longo da água. O seu vozeiral sobe na solidão do rochedo, e é a vida que vem perturbar a poesia luminosa de paz. Da cidade também, acima do rio, acorre o ruído — o apito de vapor, o tumulto dos cais, o gemido surdo de mil trabalhos dispersos. Inútil, triste barulho àquela hora, quando a sombra se inclina, ou o espelho infinito do mar se alonga em mil facetas, onde o sol parte num fluxo de ouro que derrama sobre a água em deboche real...

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

Ao descer do alto, um tanto apressado, — o barco para Lisboa apitou no pontão — no seu terraço, revi a senhora Amélia que, com o mesmo olhar apaixonado, olhava o tombar do dia no seu sonho perturbador. E não sei porquê, ao passar, como se já nos conhecêssemos, cumprimentei-a.

Ela tinha uma muito simples alma de criança. E a sua vida também era a coisa menos complicada do mundo. Ela punha-se irrefletidamente à janela, aquecendo-se ao sol, conversando com Quitéria, sua velha criada, ou com as vizinhas, por muito tempo, incansavelmente​​, coisas muito triviais. Ela saía pouco, mas, atrás das persianas baixas ou no terraço, nunca deixava de participar na vida de fora. 

Ela tocava música, bebia chocolate, arejava, vagava sem rumo pelas salas frias de sua casa. Então, complacentemente, deixava cair num espelho o seu olhar estranho, doce e selvagem, onde estavam as recordações da antiga Lusitânia. E para a noite, na fadiga de sua longa preguiça fadiga ou numa obsessão da sua solidão, esticava-se como uma fera selvagem abandonando-se aos desejos ferozes de volúpia ardente que carregavam através das suas veias algumas últimas gotas de sangue mouro.

La maja vestida, Francisco Goya, 1803.
Imagem: Wikipedia

Que fascínio soberano exercia ela sobre mim, e para obedecer a qual império regressei no dia seguinte a Cacilhas? Seu olhar tinha sobrecarregado o meu sangue de uma febre inconcebível. Eu carregava o seu peso como a impressão de uma queimadura. E isso, para mim, era uma fraqueza culpada, pois apenas tinha esquecido o desgosto de uma separação recente, e prometido a uma mulher, bem amada, de não mais viver, a partir de então, que do sentimento que trazia [continua...]. (1)

(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os Almadas

O appellido Almada recorda os varões doutos, soldados valorosos, patriotas dedicados, que tantos tem havido em Portugal, porque todas estas qualidades prestigiosas se encontram nos que o teem usado. (1)

Armas de Almada chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

ABRANCHES — Trazem as armas dos ALMADAS de que são chefes. 

ALMADA (Port. e Esp.) — De oiro, banda de azul carregada de duas cruzes floridas do campo e vazias da banda, e esta acompanhada de duas águias de vermelho, armadas e membradas de negro (1). T. : uma das águias (2). E. de prata, aberto, guarnecido de oiro. P. [paquife] e V. [virol] de oiro e azul.

(1) A. M., fl.eOv. ; T. T., fl. 12 ; S. S., n.° 24; M. L. III, 174v.; B. P., fl. 46 ; T. N. P., a-22.— B. L., II, 463 e T. N., fl. 28, diferem apenas em não armarem nem membrarem as águias de negro.

(2) T. T., M. L., B. L., B. P. e T. N. P.
— Em S. S.  a águia é armada e membrada de oiro, e em T. N.  é toda vermelha.


O. B., com outros apelidos, em 1783 e 1797 (A. H., 887 e 156). — Conta-se que Henrique VII, Rei de Inglaterra, dera, em 2 de março de 1501, carta de acrescentamento de armas a Pedro Alvarez de Almada e o fizera cavaleiro da Jarreteira!
A verdade é que elle era em 1499 um modesto recebedor do almoxarifado e alfandega do Porto, a quem foi passada carta de quitação no anno de 1502 (Arch. Jiist. port, V, 73).
Vide também as judiciosas observações de Albano da Silveira Pinto na Resenha das famílias titulares I, 185, nota.


ALMADA, Condes de ABRANCHES — (Conde de Avranches, na Normandia, 4 de agosto de 1445, reconhecido em Port.; já em 1446, extincto em 1449 ; renovado em 1478, outra vez extincto já em abril de 1496.) As armas dos ALMADAS.

Brasões dos Grandes de Portugal, Conde de Abranches.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

ALMADA, Condes de ALMADA — (Conde, 4 de maio de 1793; extincto, 1874.) As armas dos ALMADAS.

Brasão d´armas de conde de Almada e Abranches.
Imagem: Wikipédia

ALMADA, Viscondes de VILA NOVA DE SOUTO DEL REI — (Visconde, 17 de maio de 1774; extincto, 1862.) As armas dos ALMADAS, e depois partido de LANCASTRE e ALMADA (2).

Em primeiro logar deve notar-se Antão Vasques de Almada (? - 1388), um dos heroes de Aljubarrota, citado por Luiz de Camões nos "Luziadas" e que muito contribuiu para o completo desbarato dos castelhanos n'aquella famosa batalha, sendo quem se apoderou do estandarte real de Castella, que lançou aos pés de D. João I, findo o combate.

Batalha de Aljubarrota, 14 de agosto de 1385.
Imagem: História de Portugal
E da outra ala, que a esta corresponde,
Antão Vasques de Almada é capitão,
Que depois foi de Abranches nobre Conde,*
Das gentes vai regendo a sestra mão.
Logo na retaguarda não se esconde
Das quinas e castelos o pendão,
Com Joane, Rei forte em toda parte,
Que escurecendo o preço vai de Alarte.


* Camões confunde-o com Álvaro, seu sobrinho.
Álvaro Vaz de Almada (1390 - 1449), da casa dos condes de Pombeiro, em torno do qual se condensa uma lenda poética de valor e lealdade incomparáveis. Foi irmão de armas do infante D. Pedro, duque de Coimbra, victima das intrigas palacianas.

Militou muito tempo em Inglaterra e nos exércitos do imperador Segismundo, de maneira que se falava d'este cavalleiro na Europa como n'um dos doze pares de França, que se mediam com gigantes e desbaratavam exércitos de muitos milhares de soldados. 


Cota d´armas de Álvaro Vaz de Almada, 1.º Conde de Avranches.
Imagem: Wikipédia

Sabedor das machinaçôes contra o infante D. Pedro, regressou logo a Portugal e nunca mais o deixou na vida nem na morte, pois que travada a batalha de Alfarrobeira, D. Álvaro Vaz de Almada pelejava como um leão, longe do infanfe, quando um pagem hie foi dizer, chorando: "Que fazeis, senhor o infante D. Pedro é morto". 

Dom Álvaro Vaz d'Almada.
Imagem: Wikipédia

D. Álvaro recebeu a noticia com semblante sereno, como se aquellas palavras, annunciando-lhe o passamento do amigo, não proferissem também a sua sentença. "Cala-te, e não o digas a ninguém", acudiu elle, e, sem mais demora, correu á sua tenda, tomou pão e vinho para cobrar esforço, que lhe prometesse morrer vingando-se.

Logo se lançou onde mais revolta andava a peleja. Apenas os inimigos o conheceram, todos os seus esforços convergiram contra elle, mas Álvaro Vaz, immovel entre as ondas dos inimigos, traçando em torno de si com a larga espada um circulo relampejante, derribava a seus pés todos quantos lhe passavam ao alcance do braço destruidor. Cançado de vencer, deixou pender o braço e disse com tristeza: "Ó corpo, já sinto que não pódes mais: e tu, minha alma, já tardas". 


Infante D. Pedro (?), 1.° Duque de Coimbra.
Painel dos Cavaleiros, Paineis de S Vicente.
Imagem: Wikipédia

Depois, estendendo-se no chão e offerecendo o peito ás espadas ardentes de vingança, que anciavam por se cravar n'elle, exclamou: "Ora fartar rapazes" ou "ora vingar villanagem!" Não foi necessário repetil-o, vinte espadas e lanças se enterraram ao memo tempo n'aquelle heroico peito, onde pulsava tão nobre coração. O dia 20 de maio de 1449 viu assombrosa lealdade cahir victima da mais requintada má fé.

D. Antão de Almada (1573 - 1644), tronco da casa dos condes d'este titulo, é porém o mais popular de quantos usaram este appellido, que parece ter sido bemfadado; foi um dos fidalgos que mais contribuíram para o feliz resultado da conjuração promovida por João Pinto Ribeiro para restaurar, em 1640, a autonomia de Portugal.

D. Antão de Almada (1573 - 1644).
Imagem: Wikipédia

Arriscou a vida, porque Miguel de Vasconcellos certamente lhe teria feito pagar caro o trama se o houvera descoberto. Era em sua casa que se reuniam os conjurados; foi ahi que se planeou o arro jado golpe de mão; foi elle quem conseguiu resolver a duqueza de Mantua a assignar-lhe uma ordem para o governador do castello de S. Jorge entregar a fortaleza aos sublevados.

Coroada de tão feliz successo a patriótica revoluçAo, ainda D. Antão foi um dos emissários enviados a todas as cortes europeas para obterem o reconhecimento da nova situação politica do paiz, competindo-lhe a corte ingleza, onde foi bem acolhido por Carlos II, que mais tarde veiu a desposar uma filha do novo rei, a qual em dote lhe levou a chave das índias. Morreu em 1644.

Francisco de Almada e Mendonça (1757 - 1804), a quém o Porto deve a sua prosperidade e os seus mais preciosos monumentos. Foi classificado por um auctor o "Pombal do norte".

Francisco de Almada e Mendonça.
Imagem: Wikipédia
Leitura recomendada:
Os Planos para o Porto - dos Almadas aos nossos dias

Ferreira Alves, Joaquim Jaime B., O Porto na época dos Almadas, 3 vols, Porto, Câmara Municipal do Porto, 1988

E outros muitos.

Brasão de armas da Villa d'Almada.
Imagem: A Villa de Almada

Estes citámos por constituírem glorias nacionaes; não são filhos de Almada, mas ramos da familia que ali teve seu solar e que não podem ser esquecidos, tratando-se da historia local. (3)


(1) Archivo Histórico, História da fundação das cidades e villas do reino, seus brasões d'armas etc., n.° 7, 1889
(2) Braamcamp Freire, Anselmo, Armaria Portuguesa, Lisboa, 1908
(3)
Archivo Histórico, idem

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Arte sineira

António Caliço abre os braços num amplexo frouxo de desalento e aponta o mar que nos beija os pés. "Isto está feio" — e com três palavras narra toda a vida da sua aldeia habitada por umas tantas dezenas de famílias de pescadores.

Fonte da telha, década de 1950.

Fonte da Telha. A dois passos de Lisboa, quatro ou cinco quilómetros da Costa da Caparica, perdeu agora, Verão fora, o cariz de estância balnear pobre, para ficar só o que realmente é durante todo o ano: uma pobre aldeia de pescadores.

"Mesmo isso da praia está-se a perder", lamenta António Caliço — "as pessoas estão a gostar mais de ir para a Lagoa, uns quilómetros mais abaixo." O homem aponta agora, num gesto enfadado de desalento, para a penosa ladeira de areia solta que constitui o único acesso à aldeia e à praia e conclui: "Só para não terem de subir isso as pessoas deixam de cá vir. Se não era para terem feito já uma estrada, caramba... são só cem metros..."

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

E é verdade. Nos últimos anos o único melhoramento de vulto conhecido pela aldeia da Fonte da Telha foi o posto da Guarda Fiscal, que serve para cobrar o imposto de pescado dos habitantes. O posto fica cá em cima, no alto do que deve ser o talude mais penoso de descer e, sobretudo, de subir. Quando o peixe arrastado para terra se estende na areia, com as famílias dos pescadores todas reunidas à sua volta, a Guarda Fiscal encarrega-se de proteger os legais direitos do Estado, cobrando o imposto devido pela pesca.

Um viver primitivo e sem perspectivas

António Caliço é um dos 19 membros da companha do arrais Noel Monteiro. "Se quiser mandar-me os retratos é só escrever: António Caliço, Arte Sineira, Fonte da Telha. Vem cá ter."

Arte Sineira é o tipo de pesca utilizado pelos pescadores da Fonte da Telha. Um ramo de arte xávega da Nazaré. Os barcos partem para o largo, para lançarem as redes em pontos determinados da costa. As artes ficam armadas durante todo o dia ou toda a noite, conforme o caso. Ao fim do tempo considerado necessário que é condicionado pelo conhecimento que os pescadores têm dos hábitos do peixe, as redes começam a ser puxadas para a praia através de umas enormes cordas que se encontram presas nas extremidades do aparelho. 

Costa da Caparica, arte xávega, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma arte pobre, embora difícil e tremendamente arriscada. Toda a faina decorre junto à costa, o que obriga as tripulações dos pequenos botes a suportarem a violência da rebentação. Na maior parte dos dias não se pesca nada. Mas fica sempre a esperança de que na noite seguinte as coisas corram melhor. A vida na aldeia reflecte em pleno toda a falta de perspectivas de única actividade produtora da população. Todos sentem que a pescar por este antigo e ultrapassado método nunca sairão da miséria em que se encontram, mas nem dispõem de meios para sair do impasse nem parecem estar decididos a tal. É uma pobreza que se aceita por determinismo.

Meses inteiros desligados do mundo

Fonte da Telha vive separada do mundo por uma ladeira com cem metros de areia solta. No Verão sempre aparecem uns banhistas. 

Fonte da Telha, 1964.
Imagem: Memória com História

No Inverno só o contacto irregular com os negociantes de peixe. Mas quando a violência das ondas impede que os homens vão para o mar, a aldeia fica cercada por todos os lados. De uma massa ameaçadora do líquido oceânico. Do outro a vertente incómoda da areia solta.

Os negociantes deixam de aparecer, a aldeia isola-se e fica ainda mais triste e mais pobre. É um dia destes que chegamos à Fonte da Telha. Lá em baixo, as casitas de tábuas velhas parecem agachadas ante a rudeza descomunal da ravina. Não se vê vivalma. Dir-se-ia deserta. Uma aldeia abandonada provoca arrepios.

Mas vê-se agora uma rapariga que vai da barraquita de madeira para ir estender roupa no arame esticado em frente da habitação. Um pouco mais ao lado surge, de sob um barco voltado de boca para baixo, em sinal de paralisia que a fúria do mar impõe, um pescador de camisa axadrezada e calça de ganga arregaçada até aos joelhos.

Capa do livro de Alexandre Cabral, Fonte da Telha.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

É o António Caliço. Olha-nos com certa reserva. Não é para menos. Estranhos lá em baixo, no dia pegado de chuva, é para espantar. As pessoas, as mulheres, as crianças e os pescadores, assomam-se às portas para nos espreitarem, roídas de curiosidade.

O mais pequeno rendimento per capita do país

"Pescador tem muitos filhos. Não pode ter mais nada, tem muitos filhos. Eu por acaso não tenho nenhum, sou solteiro. Mas há-os aí com sete e oito fedelhos e comê-los pelas pernas." António Caliço fala calmamente, dominado pelo fatalismo próprio do pescador isolado. Vê que está mal, que a aldeia está mal, que as coisas vão mal, mas não sabe como resolver a situação. Está convencido de que as coisas acontecem como têm de acontecer, sem remédio que o homem possa engenhar. "Umas vezes o peixe aparece e outras não. É tudo. Que pode um homem fazer? Quando o mar se zanga e quer meter-nos os barcos no fundo, como havemos de o sossegar, como?"

Festa infantil na Costa da Caparica, 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

António Caliço bem vê os barcos grandes de pesca que passam ao largo, movidos por fortes motores, mas para ele constituem uma possibilidade tão remota que prefere não pensar nela. Falamo-lhe das modernas técnicas de pescar, das sondas electrónicas para detectar os cardumes, das descargas eléctricas com que alguns navios russos e norte-americanos aprisionam o peixe às toneladas, mas deixamo-lo hirto como um penedo. Vive tão intensamente a sua realidade de Fonte da Telha que prefere não agravar ainda mais o seu sofrimento a sonhar sonhos impossíveis.

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
Imagem: Cruz Louro

Fonte da Telha possui três artes sineiras

São três as artes de Fonte da Telha. Cada uma compreende 19 homens que se associaram em sistema cooperativo. Para o mar, na operação sempre arriscada do lançamento das redes, vão oito. Seis encarregam-se dos remos, um toma conta da corda que prende as extremidades do aparelho e que o puxará no final da faina para terra, o oitavo vai à espadilha. Os onze restantes ficam em terra para colaborarem na penosa operação do puxamento da rede.

As contas são feitas, ao fim de cada faina, segundo normas tradicionais estabelecidas há dezenas, senão centenas de anos. O produto total da pesca é dividido em 14 partes. Os homens que foram ao mar recebem uma destas catorze partes. Os que ficaram em terra para puxar as redes recebem meia parte. Nos últimos meses os que foram ao mar saíram-se com "uns 800$00 por mês, enquanto os que ficaram em terra, não ganharam mais do que uns 500$00".


Claro que os pescadores e as suas famílias não ganham só dinheiro: também comem peixe, o peixe que pescam. "Na maior parte dos dias" — diz-nos António Caliço — "o que pescamos é distribuído quase inteiramente por todos, para que haja de comer nas casas dos pescadores".

Muitos dias nem para se comer se apanha. Por cima dos telhados vêem-se ainda restos de peixe exposto ao sol para secar, que constituirá nos dias mais negros do inverno que se aproxima o alimento base do povo de Fonte da Telha. É peixe de manhã à noite. Peixe ao pequeno almoço; peixe ao almoço; peixe ao jantar; e só não é peixe à ceia por que o pescador da Fonte da Telha mal suporta os encargos das três parcas refeições a que está habituado.

As crianças vão a uma escola das redondezas, mas quase todas ficam pela terceira classe. As raparigas ficam em casa para ajudarem as mães na lida da casa; os rapazes ou ensaiam os primeiros puxões na corda da velha arte sineira, ou sobem a ravina de areia, para irem trabalhar na serventia para o Alto do Grilo, Costa da Caparica ou outra terra das proximidades.

Todos desejam afastar os filhos da miséria do pescador

São, contudo, muito poucas as crianças da Fonte da Telha que hoje se iniciam na arte sineira que apaixonou os seus descendentes nos últimos séculos. São os próprios pais e ainda mais as mães que tudo fazem para os afastar do fascínio do mar. Só os que de todo em todo não podem é que não mandam os filhos aprender outro ofício sobretudo na construção civil.

Festa infantil na Costa da Caparica, 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

É o esboçar de um movimento de fuga que é incutido nos mais novos pelos mais velhos, que conduzirá fatalmente à extinção das aldeias de pescadores que guarnecem a orla marítima portuguesa e de que Fonte da Telha, a dois passos de Lisboa, é um caso típico. (1)


(1) António dos Santos, Notícias da Amadora, n° 348, 21 de dezembro 1968
Enviada a Censura em 1968-12-16, Decisão: Cortado Nº de linguados: 4


Artigos relacionados:
Fonte da Telha 

Os saveiros meia lua da Costa da Caparica
Arte xávega descrita por Romeu Correia

terça-feira, 30 de junho de 2015

Empresa de Camionetes Piedense

A empresa Piedense tem uma frota de 44 veículos, a maioria dos quais com base nos chassis Volvo e Berliet de motor frontal.

Cacilhas, Lisboa vista de Cacilhas, ed. Postalfoto, 468, década de 1950.
Imagem: Delcampe

As carrocerias em alumínio foram construídas pela empresa em oficinas próprias, na Trafaria. O material utilizado foi em grande parte fornecido pela Aluminium Union, Ltd., da Grã-Bretanha, e o diretor e gerente geral, sr. Agostinho Ramos Munhá, está satisfeito com os resultados.

Cacilhas, autocarro Volvo, viatura 24 ou 26 da da Empresa de Camionetes Piedense, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, c. 1947.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

As taxas de consumo de combustível dos veículos são baixas e uma grande poupança é feita em direitos de importação.

Versatilidade do chassis Berliet PCK 8 adaptável a diferentes carrocerias.
Imagem: Bus America

As carrocerias apresentam-se sem pintura, e têm-se revelado particularmente fáceis de limpar e manter.

Cacilhas, comemorações do centenário da Incrível Almadense, Júlio Dinis, Outubro de 1948.
Em segundo plano, autocarros com cabine recuada e, outros, com a volumetria do motor integrada no habitáculo.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

As grandes janelas curvas, à frente e atrás, e as portas de dobrar são características do design. O sistema de entrada de passageiros pela traseira e saída pela frente, com o sistema de portas dobráveis, operadas manualmente, é generalizado em Portugal.

Trafaria, paragem de autocarros, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Os interiores são revestidos a alumínio natural, com estofos em vermelho. As janelas são de correr, de manuseamento rápido, com cortinas, e as luzes do teto têm painel antirreflexo. As camionetes têm instalado um relógio e um aparelho de rádio porque também são usadas ​​em serviços interurbanos e de turismo.

Berliet PCK 7, autocarro com carroceria do fabricante.
Imagem: Delcampe

Acima do lugar do motorista está um espelho à largura total que lhe dá uma visão completa do interior e, a seu lado, está disponível um assento especial para funcionários da empresa e da polícia, que são transportados gratuitamente.

Berliet PCR 10, interurbano com carroceria do fabricante.
Imagem: Delcampe

São transportados pelos veículos mercadorias, correio e passageiros. As mercadorias são transportadas no tejadilho [...] Na parte traseira do veículo, do lado de fora, há uma caixa de correio [...]

Berliet PCK, viatura 29 da Empresa de Camionetes Piedense, c. 1952.
Imagem: Publi Transport in Portugal

Muitos passageiros obtêm os seus bilhetes nos escritórios da empresa antes do embarque.

Às 62.000 milhas cada veículo é sujeito a uma inspeção geral e revisões pontuais são efetuadas nos intervalos de 42.000, 36.000 e 30.000 milhas. Duas grandes manutenções são feitas a cada mês, de maneira que nenhuma das camionetes trabalha mais de dois anos sem uma revisão completa.

Berliet PCK, viatura 29 da Empresa de Camionetes Piedense, década de 1950.
Imagem: José Luis Covita

As bombas de combustível são recalibrados numa máquina inventada por um empregado da empresa. O seu sucesso é tal que é frequentemente emprestada aos operadores de Lisboa.

Uma nova área de desenvolvimento da empresa é a construção de alguns atrelados de 16 lugares, que serão rebocados por pequenas unidades de tração, para o serviço de curta distância a partir do terminal na Costa da Caparica até à praia, que se está a tornar uma estância de fim de semana favorita dos lisbonenses.

Costa da Caparica, Almada, Largo Comandante Sá Linhares, ed. Passaporte, 08, década de 1950.
Imagem: Fundação Portimagem

Além das carreiras regulares, são também efetuados oito serviços de longa distância pelo sul e centro de Portugal. Estes serviços abrangem uma rota total de 1.020 milhas.

Cacilhas, Berliet PCR, viatura 31 (?) da Empresa de Camionetes Piedense, c. 1952.
Imagem: Publi Transport in Portugal

No total, 2 milhões de passageiros são transportados pela empresa em cada ano e os veículos cobrem 21 milhões de milhas.

Cacilhas, autocarro Berliet da Empresa de Camionetes Piedense, com o pára brisas em lanterna.
Imagem: José Luis Covita

Embora a qualidade dos veículos britânicos seja admirada pelo diretor geral, o mesmo acredita que, por causa do seu preço, não é atualmente possível a compra de veículos britânicos.

Cacilhas, autocarro Berliet, viatura 53 da Empresa de Camionetes Piedense.
Imagem: José Luis Covita

Os veículos franceses e suecos sempre prestaram um excelente serviço. (1)


(1) Commercial Motor (Archive),  Publi Transport in Portugal,  31 de outubro 1952, pág. 41

Artigo relacionado:
Uma empresa que se impõe


Bibliografia:
Covita, José Luis Gonçalves, História da Camionagem no Concelho de Almada, Almada, Câmara Municipal de Almada, 2004