sábado, 19 de dezembro de 2015

Embrechados (2 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

Appelidaram-n'a os latinos Ccefobrix, ou Ccetobica, e os árabes Hosnel-Madan (fortaleza da mina) ou Almadan (mina de ouro ou prata).

Frei Luiz de Sousa, que ainda quando era o brilhante Manuel de Sousa Coutinho, habitava o seu palácio n'esta villa, dá-lhe como etymologia a phrase dos cruzados inglezes que em 1147 ajudaram Affonso Henriques a tomal-a aos mouros, e os quaes, tendo acabado a faina, e querendo dar-lhe o nome da ventura e bom sucesso, exclamaram na sua língua — all is made. Tudo está feito e acabado.

Cinema português — Frei Luis de Sousa — Video 1


Na Monarchia Lusitana se diz também que os capitães inglezes que a povoaram, lhe chamaram ao principio Vimadel, que vale o mesmo que — Povoação de muitos. Em matéria de etymologia tudo é possivel.

Mas como os mouros a habitaram antes da chegada dos inglezes, que depois vieram povoal-a, é mais provável que a origem do nome árabe venha das minas d'oiro da Adiça, que ali havia próximo, e que deram mais tarde uma coroa a D. Diniz e um sceptro a D. João III. Dizem outros que Almada tomou o nome de um árabe, que a senhoreava, chamado Almades ou Almadão.


O que é certo é que depois de romana foi árabe, até que os cavalleiros inglezes, companheiros de Guilherme da Longa Espada, vindo auxiliar Affonso l na conquista christã, a tomaram, saquearam e depois habitaram.

D. Sancho I doou-a aos cavalleiros de S. Thiago, que alli perto tinham o seu fidalgo castello em Palmella, e D. Diniz encorporou-a na coroa. Teve destinos vários, sendo devastada em uma investida do Miramolim de Marrocos, que depois foi obrigado a recuar, refugiando-se em Hespanha.

Villa e castello de Palmella, ed. Mendes Estafeta, 20.
Imagem: Delcampe

Mas o facto culminante da sua historia é a heróica resistência dos habitantes durante o cerco de Lisboa, em 1384.

Corria o mez de maio, sereno e tépido. D. João I de Castella, depois de se desfazer de D. Leonor Telles, sogra que se lhe tornara inútil e até importuna, desde que d'ella arrancara a regência do reino, e tendo-a enviado para Tordezillas, a esmagar entre as paredes do convento as suas ambições violentas, a abafar na clausura as paixões ardentes que ainda a minavam, e a emmurchecer na sombra a sua belleza, sempre provocante, resolveu vir de Santarém, pôr cerco a Lisboa.

Cerco de Lisboa, Crónicas de Jean Froissart.
Imagem: Wikipedia

O exercito hespanhol, numeroso, brilhante e aguerrido, encaminhou-so para a capital, talando os campos, devastando as povoações, matando os habitantes.

Chamara o Rei além d'isso todo o poder de Castella em seu reforço. Ordenou ao Marquez de Vilhena, ao Arcebispo de Toledo e a Pêro Gonçalves de Mendonça, que lhe trouxessem pelo menos mil lanças. Mandara que o seu almirante Fernão Sanchez de Toar, se juntasse em Castella com o Conde de Niebla, com O Mestre de Alcântara, com o Prior dos Hospitalarios portuguezes e com outros, para qne depois de tomadas as praças do Alemtejo se reunissem a elle no cerco de Lisboa.

No dia 26 de maio começaram a entrar no Tejo as primeiras galés castelhanas. A 28 o Rei de Castella, que estava no Lumiar, marchou sobre a cidade. Veiu por Campolide com a sua hoste, a cavallo, acompanhado de muitos peões, e besteiros; e chegando a Monte Olivete, perto de onde hoje é a praça do Príncipe Real (actualmente chama-se: Praça do Rio de Janeiro, e onde ainda uma rua conserva aquelle nome), ahi se demorou um dia, para d'aquella altura observar uma grande parte da muralha da cidade. 

Corria ella então por onde hoje está S. Roque, em direcção ao Tejo. E ali perto abria-se a porta de Santa Catharina, junto ao convento da Trindade, onde os frades, animados de ardor patriótico, muito contribuíram para a resistência heróica da cidade.

N'esse dia, os de Castella andaram por aquelles arredores, que então eram campos deshabitados, cortando arvores, arrancando vinhas. Ali se deu a primeira escaramuça com os portuguezes que sahiram da cidade.

Na manhã seguinte desceu El-Rei de Castella a encosta, e mandou assentar o arraial junto do Mosteiro das Donas de Santos, da ordem de S. Thiago, edificio que actualmente é o palácio dos Marquezes de Abrantes (actualmente é propriedade da Legação de França) e freguezia de Santos-o-Velho.

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Era um deslumbramento esse arraial, onde se estabeleceu o Rei, a Rainha D. Beatriz, todas as suas Damas e um numeroso exercito composto de mais de trinta mil homens.

Para El-Rei e Rainha construiu-se uma casa assobradada, feita de quatro traves grossas e cercada de paredes de pedra secca. Em redor as numerosas tendas de senhores e fidalgos que com elles vinham, ostentavam os pendões, as armas e as signas de cada um. O restante do exercito estendia-se por Alcântara e Campolide, em bem alinhadas ruas que davam ao arraial o aspecto de uma cidade de prazer.

Havia a rua dos armeiros, a dos mercadores christãos e judeus, que vendiam pannos, e folias e muitas outras coisas. Havia a rua dos cambadores, para compra e venda de moedas de ouro e prata. Parece, porém, que minguavam os sapateiros, porque o chronista nota que de calçaduro nunca foi o arraial bem abastado.

A justiça, como quem diria hoje a policia, era tão bem feita, que cada um podia dormir descançado, ainda mesmo que sobre si tivesse grossos cabedaes. Ali havia phisicos, salorgiões e boticários, e nas coisas de prazer era o arraial abundantemente provido. 

De Sevilha vinham não só armas e mantimentos, como assucares, conservas, agua rosada e outras distilladas, de que os viçosos homens usavam nos tempos de paz, e até mesmo havia rua de mulheres mundanarias no arraial, tamanha, como se acostumava nas grandes cidades. A guarda d'esse arraial era vigilante em terra para que ninguém podesse sahir da cidade sem ser visto.

E no mar, cerca de Almada, jaziam sempre duas galés, para que a cidade não recebesse mantimentos pelo rio. Além d'isso outras naus, desde Cata-que-farás [antiga praia, corresponde hoje ao Cais do Sodré e extensas áreas vizinhas] até ás portas da Cruz [hoje freg. Santa Engrácia], cercavam pelo rio a cidade que peia terra estava apertada n'um cinto de ferro.

Resistia valentemente. É digno de ler-se o capitulo de Fernão Lopes, em que descreve a heroicidade dos habitantes, a bravura dos soldados, a energia do Mestre de Aviz, e o enthusiasrno com que a população, quando ouvia repicar os sinos da Sé, corria ás muralhas, com espadas, lanças e pedras, que arremessava contra os castelhanos, cobrindo-os de apupos, brados e risadas de escarneo. 

Os frades da Trindade distinguiam-se usando das melhores armas que podiam haver ás mãos, e os moços, sem medo, levando pedras fora dos muros para fazerem a barbacau, cantavam:

"Esta es Lisboa prezada, miralda, y leixada, se quisieredes carnero, qual dieron ai Andero, si quisieredes cabrito, qual dieron ai Arcebispo."

A Morte do Conde Andeiro, José de Sousa Azevedo  (1830-1864).
Imagem: Wikipédia

Do outro lado, Almada também estava pelo Mestre de Aviz. Ora por este tempo aconteceu que Diogo Lopes Pacheco, velho de oitenta annos, que fugira para Castella depois da tragedia de Ignez de Castro, tendo resolvido vir ajudar o Mestre de Aviz, e sabendo que Lisboa estava cercada, subiu por Cacilhas junto a Almada, com seus trez filhos e trinta homens, que o acompanhavam, querendo entrar na villa, dizendo que lh'a dessem, que fossem seus e que elle lhes faria mercês. 

Os do conselho da villa recusaram por julgarem que elles fossem castelhanos. O velho pousou com os seus no arrabalde da villa.

Vista de Lisboa e proposta de defesa abaluartada,
envolvendo as muralha fernandina e a cerca moura.
Em 1° plano vêem-se as ruínas do castelo de Almada, in Mallet, Alain Manesson,
Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre, 1685.
Imagem: eBay

Ao cabo de trez ou quatro dias, tendo o Rei de Castella noticia da sua vinda em auxilio do Mestre, mandou de noite, em galés e bateis, passar muita gente. Formou-se uma pequena columna que, pela estrada que vem de Coina, se dirigiu a Almada. Os da villa, tendo noticia d'isto juntaram-se aos homens de Diogo Lopes e seus filhos, e com oitenta homens de cavallo, gente de pé e besteiros sommaram uns quatrocentos e cincoenta.

Os de Castella só de cavallo eram quatrocentos, fora os muitos besteiros e peões. A manhã era de névoa cerrada. Apesar da sua superioridade, os castelhanos perderam quarenta homens, e os portuguezes apenas sete.

Os fidalgos de Diogo Lopes fugiram para Cezimbra. O velho foi preso, assim como Affonso Gallo, recebedor da villa.

Então os castelhanos atacaram Almada, e, como não lhe podessem fazer damno, pozeram-lhe cerco. Este cerco foi um horror! Do lado de terra defendia-se a villa contra os ataques ordenados pelo Rei de Castella. Do lado do mar não a podiam combater por causa da grande altura a pique sobre o mar.

Outra espécie de guerra lhe fizeram mais cruel e efficaz. Tentaram reduzil-a pela fome e pela sede. A uma e outra o povo de Almada resistiu heroicamente. Depois que a esquadra de Castella veiu sobre Lisboa, os moradores de Almada acolheram-se ao castello em dois bateis bailheiros, em que ás vezes levavam mantimentos á cidade, e para que os castelhanos não os tomassem na peleja que se travou, e em que houve uns dezeseis feridos, queimaram-n'os.

A villa ficou cheia de gente, e provida ainda então de mantimentos: pão, vinho, carne e outras coisas que calculavam poder durar seis mezes. A agua, porém, começava a escassear. Apenas a havia n'uma pequena cisterna, á qual foi posta uma guarda severa que distribuía a cada habitante não mais que uma canada por dia. E o calor ia apertando... E havia dois mezes que a villa estava cercada...

Os seus habitantes faziam sortidas arriscadas, á caça dos castelhanos pelo termo, a Cezimbra e Arrentella. Um dia mataram mais de trinta em um lameiro. Estas sortidas eram realizadas pela porta da Barroca, que chamavam Mejão frio, e defrontava com o mar.

Os castelhanos, por mandado do seu Rei, tentaram então cavar uma mina para fazerem saltar uma alta torre que estava sobre a porta do castello. Isto foi presentido pelos portuguezes, que se apressaram em augmeutar a barbacan ou pequena muralha fora da alcáçova. Ali foram sahir os sitiantes com a bocca da cava travando-se então rija peleja, em que houve muitos feridos, o que contrariou sobremaneira o Rei D. João de Castella, que resolveu ir elle próprio combater Almada, para onde se dirigiu, com as suas gentes e capitães.

Mandou então construir no campanário da egreja de S. Thiago um cadafacens de madeira, d'onde podesse vêr toda a villa e assistir ao combate. Trepou-se a elle, e ordenou que o logar fosse atacado "com gente d'armas e de pé, e tiros e bestaria, e fundas de demogrillas e outras artilherias de combate!" Durou esse ataque desde a hora da terça até depois do meio dia.

A essa hora o Rei desceu á egreja para comer. Foi a sua salvação, porque os da villa — imaginando que elle ainda se achava sobre o cadafacens de madeira — resolveram atirar-lhe um tiro. 

Esse tiro, que, atirado horas antes, teria morto o Rei de Castella e adeantado, decerto, a victoria do Mestre de Aviz; que teria libertado Almada e Lisboa; que teria supprimido Aljubarrota e a continuação da epopéa do Mestre e do Condestavel; que teria decidido a sorte dos exércitos e da guerra da independência, diminuindo o briltio da victoria, mas antecipando a fundação da dynastia de Aviz e alterando a sorte de Castella, esse tiro apenas matou dois homens obscuros, e feriu trez. O Rei já lá não se encontrava. 

Estava na egreja, jantando. Amargou-lhe porém, decerto, a comida. Ainda tentou o recurso de atirar cora uma bombarda do peso de cinco quintaes, mas não tirou resultado do primeiro tiro de pedra, e ao segundo, a machina de guerra inutilisou-se.

Subiu a cólera no animo do Rei, e vendo que os de Almada se não queriam entregar, e resistiam aos seus ataques, lavrou ali solemne protesto de nunca preitejar com elles, nem com elles negociar qualquer forma de capitulação.

Haviam de render-se. Haviam de ser vencidos, e para isso lhes deixava Pêro Sarmento e João Rodrigues de Catauheda, com abundância de gente para o exterminio. E, dadas essas ordens, voltou raivoso ao arraial do lado de cá do Tejo.

Paisagem no castelo de Almada, José Malhoa, Album de desenhos (17),  1870.
Imagem: Museu José Malhoa

O calor ia apertando, e o verão, adeantando-se, queimava a pequena villa de Almada. 

Narra então o velho Ferrão Lopes, na sua linguagem rude e expansiva, as angustias d'aquelle transe. E tão intensamente dramática é a situação, que a crueza da sua expressão não chega a ser indecorosa.

"Onde sabei, diz elle, que dentro na villa eram uns quarenta cavalleiros afora bestas de serventia, e quando a agua foi minguada houveram conselho de não darem de beber ás bestas, e foi tanta a sede d'ellas, que ali, onde mi... os homens, iam as bestas chuchar, e comiam aquella terra molhada."

Foi tal o horror de verem assim os animaes padecer, que ordenaram lançal-os fora para os não verem morrer, e como receiaram que deitando-os para a villa, os castelhanos se aproveitassem d'elles, lançavam-n'os de cabeça para o mar!

E o calor ia sempre apertando!... E a agua da cisterna a diminuir.

Começaram então a amassar o pão, e a cozer as comidas com o vinho das adegas. Até o próprio peixe tinham de cozer n'esse mesmo vinho, sendo obrigados a comer tudo emquanto quente, pois que depois de esfriar lhes repugnava.

N'isto a cisterna seccou de todo.

Recorreram então, tal era o horror da sede, a uma agua estagnada e verde, que desde as ultimas chuvas tinha ficado em charcos fora dos muros do castello. N'esses charcos, antes do cerco, as mulheres da villa lavavam as roupas infundidas e os irapos dos meninos e agora, desde que ellas não podiam arriscar-se alli, estavam esses pântanos coalhados de cães e gatos, e outros anlmaes mortos.

Pois era tão grande a sede d'aquella gente, que para obter essa agua immunda, alguns homens, em cada dia, arriscavam a vida. Como estava fora dos muros, iam de noite descendo por cordas, a furtal-a; coziam-n'a, e depois de fervida a bebiam e amassavam o pão com ella. Mas os castelhanos em breve deram com isso. E nas noites cálidas de julho, os portuguezes, para poderem dar de beber a suas mulheres, e a seus filhos, tinham de sustentar luctas rijas, em que houve muitos feridos de uma parte e de outra.

Mas como o calor apertava sempre, os próprios pântanos seccaram. Recorreram então á agua do mar, e tentaram recolher em tinas agua doce, lá em baixo, na ribeira. Cavaram na barroca um caminho, e por elle desciam ás occultas.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

No primeiro dia sahiu-lhes bem o estratagema, e trouxeram agua á vontade. Avisados, porém, os castelhanos pozeram guardas áquelle caminho, e quando dezesete portuguezes iam na segunda noite recolher a agua, foram atacados com dardos e settas, por mais de um cento de inimigos.

Mortos trez portuguezes, os outros quatorze, mal feridos, conseguiram ainda assim recolher dois odres meios de agua. As tinas, porém, foram quebradas pelos castelhanos. Era o ultimo recurso!

E o calor ia apertando! Julho meiava-se abrazador. Morria gente de sede. Algumas mulheres e creanças fugiam de noite para os campos.

Accenderam-se almenáras, fachos sinistros que davam signal a Lisboa da angustia dos habitantes de Almada, que no emtanto heroicamente resistiam, sem quererem render-se.

Bem viam e sentiam os de Lisboa aquelle drama pungente, mas em nada podiam valer a seus irmãos.

Ainda assim, o Mestre de Aviz tentou enviar uma barca com recursos, pólvora e armas. Foi tomada pelos castelhanos.

Então, um cavalleiro gascão chamado Mossen Mone, lembrou-se de levar atado com uma corda, o recebedor Affonso Gallo, que fora preso por occasião das escaramuças em que Diogo Lopes Pacheco também tinha sido capturado.

Em frente á muralha disse aos de dentro que se rendessem, que o Rei de Castella lhes faria mais mercês, e que se não, Affonso Gallo seria morto alli mesmo, á sua vista.

Os de dentro teimaram em que nâo se renderiam, e com um tiro certeiro deram com o gascão morto. O portuguez ficou vivo.

Novo motivo de queixa para o Rei D. João de Castella, que ao relatarem-lhe o facto, jurou que todos haviam de morrer pela espada.

Julho acabava. O Mestre de Aviz, dentro de Lisboa, affligia-se com as tribulações dos bravos de Almada, mas de modo nenhum podia corresponder-se com elles, e conhecer realmente a sua situação.

Appareceu-lhe então um homem natural de Almada, que viera na frota do Porto e disse que, nadando, levaria o recado do Mestre aos da villa da Outra Banda. Acceitou o Mestre esse offerecimento, e por escripto mandou o seu recado para o informarem das condições em que se achavam.

Atravessou esse homem, de noite, o rio, nadando com valentia, até á Ribeira do Monte. D'ali subiu dissimuladameute pela Barroca, ao Mejão Frio, e faltando aos do castello, estes, conhecendo-o, lhe abriram a porta. Tomado o recado, informaram o mensageiro da sua situação angustiosa. 

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

E aquelle homem, com a simplicidade ingénua dos heroes, ouvida a resposta, de novo voltou a nado para Lisboa. E assim arriscou n'essa noite mil vezes a vida, não só luctando com as correntes do Tejo, como expondo-se á vingança dos castelhanos, que se aqui ou na outra margem o presentissem, tel-o-hiam logo morto.

Ouvido pelo Mestre o relatório dos padecimentos dos seus fieis d'além, passados trez dias mandou o mesmo homem, de noite, com recado a Almada, para que, em vista da situação, os seus habitantes preitejassem com o Rei de Castella. E ainda em levar recados e trazer respostas, o heroe, cujo nome ficou ignorado, passou o Tejo seis vezes, a nado, sempre de noite.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Então, de accordo com o Mestre de Aviz, resolveram os de Almada capitular, e para isso mandaram emissários.

Mas o Rei de Castella, que sabia que todos os dias morria gente á sede, e esperava que assim elles se rendessem, recusava-se a preitear com elles.

Interveiu então a Rainha D. Beatriz. Confrangia-se porventura o seu coração de mulher com a narrativa dos horrores que alli perto estavam soffrendo mulheres e creanças, e não era talvez insensível ao seu animo de portugueza, que fora, a heroicidade com que portuguezes se defendiam tão tenazmente.

Implorou do marido que perdoasse, e entrasse em negociações. Foi afinal concedido que, aos habitantes, se lhes segurassem corpos e haveres e cada um ficasse em sua casa.

No dia primeiro de Agosto, o Rei D. João e a Rainha D. Beatriz, sahiudo do seu luxuoso arraial de Santos, embarcaram em festivas galés, dirigindo-se á Outra Banda, onde lhes foi entregue a villa e as chaves d'ella.

Almada defendera-se heroicamente, e capitulava agora com honra, escrevendo mais um capitulo brilhante na historia de Portugal.

Pouco depois ainda a vemos figurar quando Nuno Alvares Pereira, descendo d'Evora, resolveu vir a Almada, sobre Pedro Sarmento, capitão castelhano, que com elle não quizera pelejar.

Na Senda do Cavaleiro, José Garcês, 1950.
Imagem: BDBD

Veiu pelo castello de Palmella, onde se apresentou e d'onde ao dia seguinte, por desfastio, sahiu a correr monte, matando um porco. Conta-se até que resolveu presentear o seu competidor com este porco.

O caso é que veiu por Azeitão, de noite, e por os guias não serem bem certos e andarem fora dos caminhos, só chegou a Almada com soldado. Esperava alli surprehender Pedro Sarmento. Mas este estava em Lisboa. A sua hoste, porém, ficara alli, e por não esperar esta investida, quasi todos dormiam.

Levantaram-se á pressa, e combateram desordenadamente. Fugiam quanto mais podiam, e alguns ainda por vestir, como aquelle João Rodrigues Catanheda, que nem poderá envergar o gibão. Singular peleja aquella, em que até alguns capitães se evadiram pelos telhados!

Refere Fernão Lopes que, reunida a sua gente, ordenara Nuno Alvares que todos se collocassera no monte, sobre o mar, para serem vistos de Lisboa, d'onde effectivamente os lobrigaram com grande prazer os cercados na cidade, e com enorme furor o Rei de Castella, e Pedro Sarmento, o fronteiro, que também, meio vestido, se metteu em uma galé, dirígindo-se a Almada. 

Já alli não encontrou Nuno Alvares, que muito descançadamente regressara a Palmella, onde á noite accendeu almeuáras para avisar os de Lisboa, que alli se achava. De cá responderam-lhe com muitas tochas no eirado dos Paços, onde o Mestre pousava.

Termina o pittoresco Fernão Lopes, dizendo: "Nuno Alvares apagou seus fogos por cobrar o somno que de antes perdera, onde fique com boas noites; nós tornemos ver esta atribulada Lisboa em que ponto está!!"

Fernão Lopes

Durou ainda um mez o cerco que o Rei de Castella lhe pozera havia mais de trez.

A peste que dizimava o brilliante arraial, atacou a Rainha, a quem deram duas tramas. No sabbado trez de Setembro, o Rei de Castella, roído de raiva, ordenou que o cerco fosse levantado e que o fogo consumisse o arraial. Ardeu durante todo o domingo.

D. João de Castela levanta o cerco à cidade de Lisboa, Constantino Fernandes, 1878-1920.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

O exercito castelhano arrastou-se, combalido, com a Rainha doente, por Santo Antão, Torres Vedras, até Santarém. Lisboa estava salva! (1)


(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

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O cerco castelhano de 1384
O Meijão Frio
A ribeira do arrabalde descontra Coina

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Embrechados (1 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Almada, Serões, revista mensal ilustrada, n° 2, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Entre os quadros que Lisboa, a linda Lisboa, Lisbon the fair, como lhe chamou um escriptor americano [escocês, Mickle, William Julius, Almada hill: an epistle from Lisbon, Oxford, W. Jackson, 1781], offerece para regalo dos olhos dos seus habitantes, figura o panorama da Outra Banda.

Panorama de Lisboa, ed. Tabacaria Costa, c. 1900.
Imagem: Bosspostcard

Na sinuosa linha que além do Tejo corre desde as indecisas planuras do Montijo, subindo longe ao altivo castello de Palmella, e dobrando pelo Barreiro e Seixal, vem quebrar-se no Pontal de Cacilhas, para, depois d'uma ascenção rápida, se prolongar com acidentes vários ao largo, até ás costas da Trafaria, e alcançar o isolamento do Bugio;

Baixa e Rio Tejo (montagem), Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

n'essa linha que traça uma das mais bellas paysagens do mundo, o olhar de quem sabe olhar, e de quem sente o que olha, descança docemente n'um dos refegos da encosta, onde se aninha a casaria branca de Almada.

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869
Imagem: amazon

Ou seja nas tardes claras em que a humidade da atmosphera serve de lente e approxima de nós as minuciosidades do quadro, mostrando-nos nitidamente as fachadas das casitas claras, os campanários graciosos de Santa Maria e S. Thiago, o castello, as copas verdes e ramalhudas das arvores, e mais para a direita do espectador, em contraste com a risonha villa, o severo e sisudo convento de S. Paulo; 

Almada, Lado Sul, Lado norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, 10, c. 1905.
Imagens: Delcampe

ou seja, nas manhãs de outomno, em que a paysagem se distanceia mais e uma ténue neblina esbate os contornos dando aos objectos phautasticas formas, cheias de indeciso e de mysterio; ou seja nas noites de plenilúnio, em que, batidas de luar claro, as casas, a torre e o castello tomam o ar d'um scenario de bailada, e dominam com poesia severa a prata liquida do Tejo;

Almada, a loureira visinha de Lisboa, tem sempre um encanto a que só se escapa o paladar embotado de espectador alfacinha que nasceu a ver a Outra Banda, e que, distrahido, n'ella não attenta.

E, comtudo, quem nos carros eléctricos, percorrendo cada dia a margem direita do Tejo, levado aos seus negócios ou attrahido pelos seus prazeres, olhar pelos intervallos das monstruosidades que se amontoam ao longo da linha marginal, como biombo asqueroso, e quem subindo a Santa Catharina, onde discreteavam os velhotes do Tolentino, 

Vista de Almada, cais da Ribeira Nova e Fabrica de Gás da Boavista (detalhe), 1905.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

ou ao adro das Chagas, onde galanteava Camões, reparar na margem fronteira, e deixar cahir a vista n'essa pequenina villa, tão garrida, sente decerto, além do pittoresco do espectáculo, aquelle phenomeno de evocação, que nasce das coisas que atravessaram a Historia.

Panorâmica de Lisboa e do rio Tejo vendo-se a igreja das Chagas de Cristo, 1905.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

De facto, Almada tem no grande livro dos fastos da Península alguns pequenos capitulos, ou pedaços d'elles, que lhe dão foro de fidalguia, e chamam o nosso interesse. (1)


(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

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Colina de Almada

sábado, 12 de dezembro de 2015

Importância relativa

O valor e o interesse da Torre Velha como fortificação já estavam definitivamente liquidados em meados do século XIX.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

A defesa próxima de Lisboa estava ultrapassada pelo aumento do alcance e da eficácia da artilharia [...]

Torre Velha, Lisbonne (detalhe), François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

A partir de então ficou como simples depósito e alojamento, anexo ao depósito de munições do Porto Brandão de onde igualmente se retirara a bateria. (1)

Torre Velha, Lisbonne (detalhe), François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's


(1) Pereira de Sousa, R. H., Pequena história da Torre Velha, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1997

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Príncipe de Joinville

Tema:
Torre Velha

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Almada, O Panorama, 1841

A Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis foi criada em Fevereiro de 1837, sob os auspícios da rainha D. Maria II.

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

O lançamento de uma publicação semanal, propagadora de conhecimentos uteis, terá mesmo sido o objetivo que despoletou [espoletou] a constituição da Sociedade, conforme faz noticia o Diário do Governo, de 21 de Fevereiro de 1837:

"O louvável fim da Associação, que se propõe publicar este periódico [O Panorama], compreende-se em poucas palavras: ensinar o Povo, para que elle seja menos acelerado ou menos violento em suas opiniões e oferecer-lhe a instrução por modo que ella possa chegar ao seu intendimento [sic] e a sua bolsa; isto é, fácil e barata." (1)

Vista de parte de Lisboa tomada do alto d'Almada, 1841.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quantas vezes fallar-mos de Lisboa, hade ser com elogios! — Dirá alguem, que não viu esta formosa capital, que o amor nacional nos faz exagerados — mas, para testemunhas não equivocas da verdade, ahi estão esses escriptores estrangeiros, apaixonados por suas terras e orgulhosos como eram , que pondo mil defeitos no pobre Portugal, não podaram resistir á convicção, e descreveram Lisboa, por sua posição e porto, como a rainha entre as cidades da Europa, que gozam a preeminencia de cabeças de seus respectivos estados.

Panorama de Lisboa, Edward Gennys Fanshawe, 1856.
Imagem: Royal Museums Greenwich

Link [Heinrich Friedrich], com a sua má lingua, que entretido a colher plantas, olhava pouco para os costumes da nação e por isso mentiu tão superficial e descaradamente; o inglez Murphy [James Cavanah], pessoa de rasão mais imparcial, todo embevecido em obras d'arte, por sua profissão d'architecto; Châtelet [Louis Marie Florent Du,], Kinsey [Rev. William Morgan,] e outros confessaram quanto era bella e magestosa a séde da monarchia portugueza.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Das eminencias, que a circumdam, são deleitosas e variadas as vistas que offerece ao espectador; transportai-vos porem á margem meridional do Tejo, e dos outeiros, que a guarnecem , olhai para a nossa cidade, e desfructareis novas e interessantes perspectivas.

A predilecção que os habitantes de Lisboa manifestam pelos passeios á outra-banda, talvez se fundamente no regozijo que infunde n'alma o delicioso aspecto da nobre povoação, onde por horas deixaram seus lares domesticos.

Em alto fragoso está assentada a villa de Almada; podemos dizer que a edificaram em cima d'um penedo. Como sentinella avançada olha respeitosa e vigilante para a sua capital, que na margem do norte se dilata com belleza e magestade.

Lisbonne , vue du fort d'Almeida [sic] .  
Hugo, Abel, France militaire, Histoire des armées françaises de terre et de mer, de 1792 à 1837, Paris, Delloye, 1838, 5 vols.

Ao redor d'Almada ficam precipicios, mas daquellas alturas tamhem se avista a foz do Tejo; e em frente desde o bairro de Belem até o convento de Santos-o-Velho; se estende Lisboa com a sua compacta população: dalli, apenas ladeando no ponto que occupa o espectador avista os togares d'Amora, d'Arrentella os paços d'Azeitão, a eminencia de Palmella; o Seixal, o Barreiro, terras quasi exclusivamente de pescadores; Lavradio, acreditada por seus generosos vinhos; Aldêa-gallega, sitio de frequentíssimo transito, Alcochete e outras; e tambem se divisa o castello da piscosa Cezimbra, como lhe chamou Camões.

Almada, com o seu castello no sitio mais elevado, foi (ao que dizem alguns) fundada pelos inglezes, que entraram o Tejo na armada do norte de Guilherme, o da longa espada que tanto auxiliou D. Affonso Henriques na tomada de Lisboa: contam que este nosso ínclito monarcha doára este districto aos que desistindo da cruzada á Palestina, a que se destinavam, preferiram ficar em nossas terras referem mais que estes primeiros povoadores lhe pozeram o nome de Vimadel [Monarchia Lusitana, tomo 3.°, livro 10, cap. 27], que em sua lingua significava povoação de muitos; porém que, possuindo-a de novo os mouros, foi tirada do domínio destes por um cavaleiro, do appellido de Almada descendente dos primeiros que com esta denominação de sua familia fixou o da povoação.

Guilherme, o da longa espada (William Duke of Normandy), detalhe da tapeçaria de Bayeux, c. 1070.
Imagem: Wikipedia

Ha quem diga que um arabe, por nome Almadéz ou Almadão a fundára: porém nestas controversias d'etymologias, de ordinario ou vagas ou falsas, não queremos entrar e deixamos a escolha ao arbitrio dos leitores, em quanto não houver quem as assente de forma incontestavel.

Sabemos que D. Sancho 1.° deu foral á Villa d'Almada, e fez della doação aos cavalleiros da ordem militar de S. Tiago em 1187, e que D. Diniz a encorporou na Corôa, dando em troca á dita ordem as villas de Almodovar, e Ourique com os castellos de Marachique e Aljesur.

— As suas duas parochias, a de N. S.a d'Assumpção, vulgo Santa Maria do Castello, e de Santiago, são de remota data: a casa da Misericordia fundou-se n'um hospital instituido pela infanta D. Beatriz mai d'elrei D. Manuel.

Os seus arredores são cobertos de quintas e fazendas rendosas, onde se cultivam os generos, que fazem a abastança do nosso paiz: familias nobres e ricas ahi tinham e muitas, conservam hoje apraziveis vivendas.

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

Dos mananciaes nas visinhanças de Almada faz menção o Dr. Francisco da Fonseca Henriques no seu Aquilegio medicinal, e diz que a agua da fonte do Alfeite, chamada a biquinha, era excellente, usada contra os achaques de dor de pedra, e areias da bexiga.

A Fonte da Pipa, que de Lisboa se está vendo, é notavel pela bondade e abundancia das aguas, de que se refazem os navios para suas viagens; e tem contigua uma pequena praia, como a fez a natureza, sem artificio algum, mas que é uma especie de portinho, capaz de conter dezoito lanchas.

Almada, Olho de Boi, Fonte da Pipa, 2015.
Imagem: Pedro Ramos

O logar de Cacilhas assente á beira d'agua , numa quebrada entre os outeiros, pela qual se prolonga para o interior, é como um porto d'Almada, com seu caes de segura cantaria, principalmente frequentado dos barcos e pessoas, que transitam de uma para a outra margem.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847 [*]

Se deixarmos a villa no alto, e caminharmos á esquerda depois do desembarque, iremos dar á Cova da Piedade onde ha uma ermida, em que houve noutros tempos um pequeno recolhimento; o rocio adjacente foi celebre pelas festas que se faziam em repetidas romarias, e agora ainda mais o é depois da memoravel batalha do dia 23 de Julho de 1833.

Frontespício do Compromisso da Irmandade da Virgem Nossa Senhora da Piedade sita na ermida de S.Simão de Mutela termo de Almada.
Ordenada no ano de 1606.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

No districto d'Almada fica a Torre-velha, ou de S. Sebastião de Caparica assim apellidada dos nomes de um lugarejo proximo, e do fundador, elrei D. Sebastião: está fronteira á outra torre de S. Vicente de Belem, fechando esta garganta, que é das mais estreitas paragens do rio; como encerram a foz as outras fortalezas, de S. Jultão, e de S. Lourenço ou do Bugio. Póde jogar artilharia ao lume d'agua, mas não é defensasel do lado da terra, por isso que lhe fica sobranceira uma altura muito visinha.

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

No termo da villa ha muitos lugares; alguns bastante apraziveis pelas quintas de que são cercados: por duas especiaes circumtancias mencionaremos dois delles.

— O lugar da Amora, em sitio desafrontado e ameno, tem uma freguezia do orago de  N. S.a do Monte Sião; dizem os P.es Carvalho e Fr. Agostinho de St.a Maria ser a unica desta invocação que ha nos paizes catholicos da Europa. A aldeia de Payo Pires, que erradamente chamam de Pai Pires, deve o nome ao seu donatario, o esforçado D. Payo Pires [ou Peres] Correa, que libertou o Algarve do jugo mourisco, e tem honrada memoria em nossas antigas chronicas.

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Em Almada nasceu, residiu por muito tempo, e morreu o erudito Diogo de Payva d'Andrade, sobrinho, auctor do poema epico em verso latino, Chauleidos: de quem diz o P.e Antonio dos Reis, em um dos epigrammas do "Enthusiasmo poetico", que "extrahindo os sons da tuba altisonante, e cantando, infundira espanto ao rochedo d'Almada." Cantantem pavilans extimuit Almadica rupes. (2)


(1) O Panorama, Ficha Histórica, Hemeroteca Digital
(2) O Panorama, n° 204, vol. I, Lisboa, Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 27 de março de 1841.

Bibliografia estrangeira referida:
Link, Heinrich Friedrich, Voyage en Portugal, Paris, Dentu..., 1808
Murphy, James Cavanah, Travels in Portugal... 1789-1790: with plates, London, A. Strahan, 1795
Châtelet, Louis Marie Florent Du, Voyage Du Ci-Devant Duc Du Chatelet, En Portugal... Tome 1, Paris, F. Buisson, 1797-1798
Châtelet, Louis Marie Florent Du, Voyage Du Ci-Devant Duc Du Chatelet, En Portugal... Tome 2, Paris, F. Buisson, 1797-1798
Kinsey, Rev. William Morgan, Portugal Illustrated, London, Treuttel, Würtz, and Richter..., 1828

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mina de água do Pombal

Por decisão da Senhora presidente da Câmara Municipal de Almada, e na linha da sua preocupação para com a investigação, restauro e preservação do património deste concelho, mandou esta proceder ao desaterro de uma estrutura na zona do Pombal cujas origens remontam à idade Média, constituída por mina de águas, tanque e respectivos acessos, datando seguramente do século XIII, e aterrado por razões que se prendem com a urbanização do local, na década de sessenta deste século.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Dado o interesse manifestado pelas populações relativamente ao conjunto patrimonial em referência, a Junta de Freguesia da Cova da Piedade decidiu divulgar as poucas informações disponíveis sobre o local, proporcionando aos interessados elementos de caracter histórico por forma a melhor poderem avaliar o interesse deste núcleo no contexto da vida social e económica da região ao longo dos séculos.

Alfeite, vista Geral tomada da Quinta do Pombal (detalhe), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Bosspostcard

O conjunto em referência cumpriu durante séculos a dupla finalidade de abastecer de água a população das zonas próximas, e desedentar o gado das redondezas, fazendo-se o acesso por uma rampa empedrada a basalto.

Cova da Piedade, fonte Medieval do Pombal.
Imagem: Flickr

Tudo indica que seriam frequentes os litígios entre os seus utilizadores, acentuando-se os conflitos de tal modo que em 1392, uma sentença repartiu a água entre a Albergaria ou Casa dos Gafos de Cacilhas, que aí tinham uma propriedade, e outros proprietários das redondezas. 

A partir da referida sentença, a utilização da mina e do tanque passou a ser de uso público e, naturalmente, por esse motivo foi encimado pelas armas de Portugal.

Bandeira pessoal de D. João I com a sua divisa "Pour bien".
Imagem: Wikipédia

A atestar a antiguidade do escudo de armas está à disposição das quinas em cruz. Este, quando do aterro a que já fizemos referência, foi retirado do seu lugar de origem e posto a salvo no Convento dos Capuchos, por iniciativa do eminente investigador da história local, arqueólogo e homem de cultura Dr. Mário Bento, para quem Almada tem uma dívida de gratidão.

De resto, deve-se a esta personalidade a recolha da cantaria da entrada monumental da antiga quinta das Rosas do Pombal, recolhida igualmente nos Capuchos, e infelizmente em péssimas condições de conservação.

Portal da Quinta do Pombal, rótulo de garrafa de vinho (detalhe).
Imagem: Soc. Com. Theotónio Pereira, Lda.

Na primeira metade do século XX, já a água da mina do Pombal não era de boa qualidade para consumo e deixou de ser utilizada para esse fim, procedendo a Câmara Municipal de Almada à colocação de um chafariz no cimo da rampa de acesso, ligado à rede pública de abastecimento. 

No século XIV, o sítio compreendia uma extensa área que ia desde a referida mina de água, até à actual Rua de Vera Cruz, compreendendo o actual bairro de Na Senhora da Piedade e a quinta do Pombal que ali existia.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

Em 1390 a Casa dos Gafos de Cacilhas possuia aí uma propriedade que, por confrontar em toda a volta com caminhos públicos e por dela constar parcelamento por vários aforamentos supomos que abrangia grande parte da área citada.

Os aforamentos mais antigos, e mais interessantes, da Albergaria de S. Lázaro, no Pombal são: 

Em 1393, um casal de "herdade de pão e vinho" que trazia um tal Marcos, escudeiro;

Em 1409, um bacelo que entestava com "caminho público de Pombal para Alvalade", a actual Ramalha;

Em 1539, um cerrado ( junto da mina), aforado a Frutos de Gois, irmão do cronista Damião de Gois, e avô do 19 senhor do morgado de Mutela, Luís de Gois Perdigão de Mendonça;

Em 1539, uma quinta e cerrado, aforados ao adail Diogo Fernandes. Este,coincide em nome e cargo com aquele de que fala Gaspar Correia nas "Lendas da India"."mandou Diogo Fernandes , homem cavaleiro, a que deu o cargo de adail, com doze de cavalo... e com mil piães que passasse à terra firme".

Ainda em 1539, refira-se que uma das propriedades de Albergaria neste sítio confrontava com um morgado de Vasco Lourenço.

Em 1555, uma sentença proferida contra Francisco de Sousa Tavares e sua mulher D. Maria da Silva, obrigava estes a pagarem ao prior e aos beneficiados das igrejas de Almada foro, "por um olival, certas geiras, tudo junto, contíguo e cerrado", que partia do norte com olival e do leste com estradas públicas, tudo isto no Pombal.

José Carlos de Melo.

Finalmente, o último proprietário [anterior à familia Theotónio Pereira] da chamada quinta do Pombal foi o notável publicista almadense, José Carlos de Melo: que aí nasceu em 1885. (1)


(1) Policarpo, António Manuel Neves, Mina de água do Pombal, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1993

Artigos relacionados:

Rosas do Pombal
José Carlos de Melo


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Valderozal

Em o Collegio de S. Antam da cidade de Lisboa, hua quinta, ou pera melhor dizer, huma grande vinha, chamada Valderozal [Vale do Rosal], que está na banda dálem, no termo de Almada, limite de Caparica, na freguesia de nossa Senhora do Monte, distante do porto de Cafsilhas, quasi huma boa legoa:

Quinta do Vale do Rosal, 1911 in Ilustração Portuguesa, n° 263 II série.
Imagem: Hemeroteca Digital

fica esta quinta no meyo de huma grande, & estendida charneca; he o lugar todo á roda muy tosco, seco, & esteril, cheyo de sylvados incultos, côtinuado de matos maninhos & de areaes escalvados, escondido em valles, cercados de brenhas , cubertos de pinheiraes bravios, de zimbros, de tojos, & de outros frutices sylvestres:

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

he o sitio mais accommodado pera caças de monteria, que pera morada de gente culta, & por isso muy frequentado de corças, & veados, infestado de lobos, & de outros semelhantes animaes monteses.

Mas he por outra parte este deserto muy accommodado pera hum sancto retiro os homens, & contemplações com Deos; porque he muy solitario tem estradas, & caminhos muy livres, tem sahidas muy alegres, & entre ellas a principal he a que leva ao mar (que dista da quinta, pela parte do Poente, cousa de meya legoa) pera o qual se déce por humas quebradas entre algumas barrocas, que o tempo, & a corrente das agoas tem abertas.

O caminho do Cruzeiro, Quinta de Vale de Rosal.
Imagem: Histórias da História de Charneca de Caparica no Facebook

Do alto d'estas quebradas se sobe pera algumas assomadas, que tem vistas muy appraziveis, muy largas, & muy fermosas porque se descobre todo este grande valle, que começa quasi ao pé da montanha de Palmela, & se vay estendendo ate Nossa Senhora do Cabo, & dahi volta pera Caparica, & vem a fazer em roda cousa de doze, ou treze legoas;

N. S.ra DO CABO
Virgem Maria defendei dos perigos aos que na
vegaó sobre Augoas do Mar

alem dis­to se descobre daly muita parte da cidade de Lisboa, & se vem montes muy fermosos, como he o de S. Luis, & a serra da Arrábida, que ficam pera a parte do Sueste, & tambem se alcança pera o Noroeste a famosa serra de Sintra; & tem outras villas de longes muy saudosos.

Vems­e tambem huas grandes serranias de arèa, que aly chamam os Medos & vam quasi continuando até huma grande alagoa, chamada Albofeyra, de muita pescari­a, que está como trés legoas da quinta, pera a parte do Sul, caminho de Nossa Senhora do Cabo.

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Destas assomadas se descobrem muy largamente as muy estendidas campinas do Oceano Atlantico,que aly vem tributar suas immensas agoas naquella fermosa praya, que se vay estendendo por espaço de seis legoas da ponta da Trafaria, junto a Caparica, até o Cabo de Espichel, a que os antiguos chamaram "caput Barbaricum":

Linha de costa da Torre do Bugio ao Cabo Espichel (fotomontagem).
Observam-se as elevações moinhos do Chibata, Monte Córdova (Serra de S. Luís) e Serra da Arrábida, conforme descrito no Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa, Francisco Maria Pereira da Silva, 1857.
Imagem: AVM

& como toda aquella paragem he costa brava, o continuo bater que nella faz o rolo do mar, o quebrar das ondas encapelladas naquellas aréas s­olitarias, a largueza daquellas prayas, a solidão de todo aquelle si­tio, causa por huma parte grandes lembranças, & saudades da gloria aos contemplativos, por outra parte o continuo crecer, & baixar das marés, o rolo do mar, a resaca das ondas, a vista de muy fermosos orizentes, a largueza daquellas immensas agoas, dá grande occasiam pera discorrer na immensidade do creador, & dizer com o Propheta, Mirabiles elationes maris, mirabilis in altis Dominus [Maravilhosas são as ondas do mar; maravilhoso é o Senhor nas alturas, Salmo 92, 4].

Pera este sitio de Valderozal se veyo recolher o Padre Ignacio de Azevedo com aquelle seu esquadram de gente apostada ao martyrio:

Quarenta Mártires do Brasil, no Museu Diocesano de Arte Sacra da Catedral de Las Palmas.
Imagem: Wikipédia

há na quinta algumas casas, humas mais antigas, que já nella havia, quando os Padres a compraram, que foy no anno de 1559. outras que elles fizeram de novo, a saber, hum dormitorio com doze cellas, pera os Religiosos, huma capella muy bem traçada, muy airosa, & capás, por sy, & por suas tribunas (a qual ajudou a fazer Martim Gonçalves da Camara, escrivam da Puridade delRey Dom Sebastiam, por causa do muito que seu irmam o Padre Luis Gonçalves gostava deste sitio, como adiante veremos) (1)


(1) Telles, Balthazar, Chronica da Companhia de Iesu, na provincia de Portugal, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1647

Informação relacionada:
Quinta do Vale do Rosal