sexta-feira, 15 de março de 2019

Zé Cacilheiro

Quando eu era rapazote,
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida! ...
Manobrei, e gostei dela,
E lá m'atraquei a ela
Pro resto da minha vida!

Cacilheiro, Rio Alva.

Às vezes, numa pessoa,
A saudade não perdoa,
Faz bater o coração!
Mas tenho grande vaidade
de viver a mocidade,
Dentro desta geração!



Sou marinheiro,
Neste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo!
E navegando ...
A idade foi chegando ...
O cabelo branqueando ...
Mas o Tejo é sempre novo!

Cacilheiros na Estação Fluvial de Cacilhas no final de 1973.
Nuno Bartolomeu no Facebook

Todos moram na rua
A que chamam sempre sua,
Mas eu cá não os invejo.
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas
E a minha rua é o Tejo!

Embarcações no Tejo.
Delcampe

Certa noite de luar,
Vinha eu a navegar
E de pé, junto da proa!
Eu ouvi, ou então sonhei
Qu'os braços do Cristo-Rei,
Estavam a abraçar Lisboa!

Zé Cacilheiro José Viana, Zero Zero Zé (ordem para pagar), 1966.
As canções da minha vida

Sou marinheiro,
Neste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo!
E navegando ...
A idade foi chegando ...
O cabelo branqueando ...
Mas o Tejo é sempre novo!


No desejo de organizarmos uma colectânea de poesias olisiponenses, publicamos hoje «Cacilheiro» da autoria do Sr. Paulo Fonseca, interpretado pelo actor José Viana, na revista Zero Zero Zé — Ordem para pagar. (1)



(1) Olisipo, N.os 117/118, ANO XXX, Janeiro/Abril 1967

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Almada por Barata Moura (1911-2011)

Para o diretor do Museu do Fundão, Pedro Salvado, "Barata Moura continua a ocupar uma assinalável presença no imaginário artístico regional como um pintor afetuoso da Beira e das suas gentes, como um peculiar artista emissor de afetos e detentor de uma pintura de registo de tempos, de rostos e de espaços vivenciais".

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Câmara Municipal de Almada

Realça ainda que "com um colorismo assumidamente imaginado, reproduzindo, por vezes, ingenuidades de captação, desenvolveu um entendimento muito pessoal do que era a arte e a função da sua pintura enquanto um arquivo-registo. 

Almada antiga, Paisagem com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Registos de ritmos temporais contrastantes da paisagem camponesa tradicional idealizada, onde se encontram ausentes angústias, negatividades ou interrogações e que confirmam os equilíbrios e o enraizamento das comunidades a uma arquitetura secular e a um calendário sazonal". (1)

 
O Último adeus a Barata Moura (2)

Na última 2ª feira, dia 3 de Março [de 2008], visitamos o pintor José Barata Moura. Depois de intensa pesquisa para localizar o Mestre, foi com a ajuda de amigos, que o conseguimos encontrar em Lisboa, numa casa de repouso no Restelo.

Almada antiga, Rua de Casario, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Uma casa calma, com amplos jardins, dedicada exclusivamente para receber e cuidar de grandes e talentosos artistas, como pintores, escritores, compositores... 

Almada antiga, Casario com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Era ansiosa esta visita, tanto para nós como para o Mestre, que nos recebeu com um contentamento muito próprio, pois desde o ano de 1989, quando foi convidado para estar presente nas comemorações dos 50 anos do Arsenal, nunca mais tinha recordado com Arsenalistas a sua vivência enquanto trabalhador do Arsenal do Alfeite.

Almada antiga, Casa com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Com a bonita idade de 97 anos, mantém ainda um estado de espirito muito forte e alegre, com um "poço" cheio de histórias acumuladas durante toda uma vida dedicada à arte, não só na pintura, mas também à música, ao teatro, à dança e à rádio.

Almada antiga, Casario, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Foi diferente aquela tarde de 2ª feira... conhecer pessoalmente o Mestre Barata Moura, é coisa que nunca mais se esquece...

O Tejo em Lisboa, Barata Moura, 1979.

Fica aqui o nosso registo e agradecimento à Adiministração da casa que acolhe o Mestre, à forma pronta e simpática como nos recebeu [...] (3)


(1) Gazeta do interior, 24 de agosto de 2016
(2) Rádio Cova da Beira, 20 de dezembro de 2011
(3) Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite, 8 de março de 2008

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Os pergaminhos de Cacilhas

Era ao anoitecer e eu estava inda em Lisboa. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Circumstancia desagradavel para quem se tem demorado pelo Caramujo a saborear os ultimos sorrisos e a placida melancholia do ameno Outono d'este anno. 

Ora o Caramujo, como de certo sabem, fica na margem esquerda do Tejo de cristal; a nossa querida Lisboa fica na margem direita. Daqui se deduz, por um syllogismo incontroverso, que para se ir de Lisboa ao Caramujo tem de se atravessar o rio, e para se atravessar um rio é necessario um barco, a menos que algum Moysés condescendente não haja por bem rasgar com a sua varinha as aguas, e conceder-nos a passagem a pé enxuto, como se o nosso itinerario fosse para a Palestina.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Ora em consequencia d’esta serie de raciocinios andava eu pelos caes de Lisboa á procura não de um Moysés, mas de um bote, exactamente como Jeronymo Paturot andava por esse mundo de Christo á procura da melhor das republicas. 

Mais feliz do que Paturot, encontrei o que procurava. E verdade que o encontrei no caes do Sodré. Ora as republicas dos "caes do Sodré" são, segundo assevera o Senhor Francisco Palha, as mais anarchicas e as mais difficeis de governar.

O bote appareceu. Estava cercado de escaleres americanos, de barcos abandonados já pelos seus patrões, e que, baloiçando-se e embalando-se com o murmurio dé agua negra que lhes beijava a amurada, pareciam preparar-se para dormir á luz das estrellas e da lua, que surgia larga e vermelha, como um escudo em braza, no horisonte Oriental. 

Os remos cairam na agua, o bote deslisou silencioso, como um espirito dos humidos abysmos, por entre esse labyrintho de, mastros, e a final entrámos na esteira luminosa que a lua projectava sobre o rio.

Soprava do norte uma fresca viração encrespando levemente as ondasinhas, que se franjavam de espuma. Soltou-se a vela, O bote curvou-se graciosamente ao impulso d'essa aza branca, infunada pela brisa, e partimos.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Hemeroteca Digital

Pouco a pouco Lisboa foi fugindo de nós, involta, como fada nocturna, no seu véo de chammas. O confuso ruido que se lhe exhalava do seio foi esmorecendo com a distancia e transformando-se n'um murmurio vago, respiração immensa d'essa Babylonia, que antes desperta do que adormece com as primeiras horas da noite.

Era o rumor das carruagens, era o enxamear da turba ás portas dos theatros, era o ultimo vozear dos pregões confundindo-se nesse indisivel sussurro que vinha expirar no silencio augusto de uma noite de luar no Tejo.

O bote corria, ligeiro como um corcel generoso que sente a espora do cavaleiro, e como ele ora abaixava a cabeça, procurando afrouxar o passo, e deixando bater a vela no mastro, ora erguia garboso o collo, galgava o cume boleado de uma vagasinha que vinha, enrolando-se, quebrar no costado do barco, e deslisava de novo rapidamente na esteira espumosa branqueada pelo clarão da lua. 

Já lá ficava longe a Babylonia rumorejante, e os vultos immoveis dos navios do quadro estampavam, por um e por outro lado, a sua mastreação fina e airosa no fundo transparente da atmosphera inundada de luar.

Além Lisboa tornava-se já unicamente visivel por uma larga faxa de luz scintillante que orlava o rio. Ao seu eterno clamor succedera o murmurio flebil e queixoso das aguas.

Depois a margem fronteira foi avultando, avultando, e veio ao nosso encontro com a sua casaria branca, e silenciosa, illuminada apenas em cheio pelo clarão argenteo e melancholico da pallida rainha da noite.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847 [*]

Cacilhas dormia á beira do rio que lhe espumava no caes; a sua tranquilidade eremitica, o silencio em que estava immersa, o alvor deslumbrante das suas casas, apenas illuminadas pelo jorro de luz, que lhe chovia do carro prateado de Diana, contrastavam de um modo notavel com tumultar de Lisboa, sua donosa visinha.

E eu, encostado na popa do bote, affastava os olhos do immenso esplendor com que a grande capital incendiava o espelho do Tejo, e ficava-me enlevado a mirar essas casinhas brancas, tão socegadas, tão mudas, todas banhadas pelo luar, agrupadas timidamente, não ousando sequer mirar-se nos crystaes do Tejo, e molhando timidamente os pés na espuma, que resaltava da vaga aos degraus lodosos do caes.

E pensava:

O que é a popularidade! Ente caprichoso que ao acaso escolhe um homem, uma aldeia, uma cidade, um reino, e o eleva ao fastigio da gloria, e o illumina, e o immortalisa, e o cinge de capellas de loiro, deixando no olvido outro homem, outra aldeia, outra cidade, outro reino, que tem titulos iguaes!

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Delcampe

Cacilhas! É quasi a incarnação da prosa. A celebridade dos jumentos atou-se fatalmente a esta aldeia ou villa, e condemnou-a para sempre a ser proscripta do dialecto poetico. Ser o cantor de Cacilhas equivale a ser o Camões da guerra do pão barato, ou o Petrarcha d’uma forçureira. Nicoláu Tolentino, querendo estampar o ultimo vergão do ridiculo nas faces d'um pobre versejador, depois de interpellar asperamente Jove por consentir que "um homem de couros baios — siga ás musas suas filhas"

Potente Jove onde estão
Os teus vingadores raios!

requer-lhe formalmente que, para se desaggravar de tamanha injuria, ordene a esse malvado que

Saia logo do Parnaso
E passe para Cacilhas. 

Aqui está como fica desacreditada uma povoação! Que tinha a pobre Cacilhas feito a Nicolau Tolentino [v. Nicolau Tolentino, Obras completas, Voume II], para que o maganão do poeta a escolhesse como antithese do Parnaso, e a lembrasse como o unico logar da terra capaz de receber um versejador de má morte?

"Não ajuda ao padre a cara" ilustração de Nogueira da Silva.
Nicolau Tolentino, Obras completas, Voume II

E comtudo a pobre vilasinha alvejava tão serena e risonha, tão banhada de poesia naquella noite em que o meu barquinho cortava as aguas phosphorescentes! Que mais bella póde ser Sorrento, reclinada á beira da sua bahia napolitana, Procida ou Castellamare debruçadas sobre as ondas azues do Mediterraneo?

E comtudo essas cidadinhas de poeticos e sonoros nomes vivem na nossa memoria perfumadas pelas grinaldas de versos, com que todos os poetas desde Virgilio até Lamartine as enramaram, e Cacilhas, a pobre Cacilhas, mal ousa intrometter-se, como rima desdenhada, no fecho d’uma decima satyrica!

Mas não! engano-me! houve um poeta que arrostou o preconceito e que deu a Cacilhas foros de nobreza tradicional. Esse poeta foi Antonio de Sousa Macedo, o embaixador de D. João IV na Inglaterra, o author das Flores d'España, o cantor da Ulyssipo.

Este Ulyssipo é um maravilhoso poema! Trata da fundação de Lisboa, segundo a acreditada versão de frei Bernardo de Brito. Ora é o caso que no tempo em que Ulysses andava ás aranhas pelo Mediterraneo, reinava em Lisboa até Santarem um poderoso rei chamado Gorgorís, que morou, segundo parece, no paço das Necessidades, e cujo exercito já n'esse tempo manobrava em Tancos. Ulysses, que era rei de Ithaca, o que vem a ser quasi o mesmo que ser rei da ilha do Fayal, andando á procura da sua ilhota do Archi pelago veio ter á foz do Tejo, engano que se parece muito com o d'um capitão de navios que, querendo ir de Lisboa a Setubal, fosse parar á Islandia. Mas d'este engano resulta muita bulha entre o tal Gorgoris e Ulysses, bulha que se acabou casando este com D. Calypso, filha d'aquelle, e fundando a cidade a que deu o seu nome, nome que, pela corrupção da linguagem se veio a transformar em Lisboa.

Ora, segundo nos informa o senhor Antonio de Sousa Macedo, não é menos digna de menção a origem dos nomes dos arredores de Lisboa. Arroyos era o nome d'um gigante que requestava uma nympha, e a nympha para fugir d’elle transformou-se n’uma fonte, que é nem mais nem menos que o chafariz, de Arroyos! De fórma que a magana da camara municipal, que nós julgavamos um modelo de pudicicia, tem um verdadeiro harem nas praças da capital, harem de nymphas que se transformaram em chafarizes!

E Cacilhas?

The Harbour of Lisbon (praia de Cacilhas), Charles Henry Seaforth (1801-c. 1854).

Cassilia, que ditosa companheira
Jupiter déra a Gorgoris famoso,
Teve d’ella a Calypso, unica herdeira 
Dos reinos que domina poderoso. 

Estes reinos eram Lisboa, Santarem, Aldeia-Gallega, e não sei se a Lourinhã. 

Amava a mãe á filha de maneira, 
Que, por saber seu fado duvidoso, 
Consulta a Chiron, sabio cuja essencia
Abonou ante nós larga experiencia.

Este Chiron, que depois de ensinar Achilles, andava naturalmente por este mundo, dando lições por casas particulares, prophetisa-lhe toda essa tramoia do Ulysses, e amnuncia-lhe que sua filha, a poderosa herdeira dos reinos de Santarem, Lisboa e Aldeia-Gallega, virá a casar com um rei não menos poderoso, que lá na Grecia governa uma ilha formidavel, ilha que não tem menos de meia legua de comprimento. Cassilia fica louca de alegria com tal notícia, e tanto que morre, mas, antes de morrer, diz assim:

No monte, que mais alto se levanta
Nas enseadas do Occéano por onde,
Movendo o Tejo a cristallina planta,
No mar as aguas não a fama esconde,
Por onde me ha-de entrar ventura tanta,
Se aos astros o successo corresponde,
Sepultem minhas cinzas, que ali quero
Dos fados esperar o bem que espero.


Vinha ella a dizer na sua que queria ser sepultada no monte d'Almada para dar fé de quem entrava a barra. Assim se fez, e de Cassilia, essa curiosa endemoninhada, que até depois de morta o era, veio, como podem suppôr, o nome de Cacilhas.

Portugal, Costumes 8, Carregando um burro, En chargeant un âne (imagem editada),
cf. Luís Bayó Veiga, Crónicas d'agora sobre Cacilhas d'outrora, vol. I.
União das Freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas

Já vêem que não são para despresar os pergaminhos cacilhenses, e que um poeta qualquer poderá cantar Cacilhas sem que os famigerados jumentos intervenham forçosamente nos seus versos. (1)


(1) Manuel Pinheiro Chagas, Scenas e phantasias Portuguezas, 1867

Informação relacionada:
Morte de Manuel Pinheiro Chagas, O Occidente, 15 de abril de 1895

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O grande Peixe

O grande Peixe, que entrou neste porto a semana passada, se não tem certo conhecimento da sua especie, Alguns entendem ser huma Bufalina, a que os Francezes dão o nome de "Soufleur", id est, Assoprador, outros que seja certa especie da Balea a que os Hollandezes charnam Kapeku; mas como a sua figura é differente da Balea, e de qualquer outro peixe conhecido, se espoem aqui em estampa aos curiozos som as medidas de todos os teus membros, e huma breve de descripção da sua estructura com mais certeza, que a semana passada.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710.

Tinha este Peyxe 87. palmos de comprimento, e na sua mayor grossura 43. de circunferencia, que por ser perfeitamente redondo, teria dc alto 14. e hum terço. Na parte onde acaba a barbatana do espinhaço tinha 14. de circunferencia. Desde alli hia diminoindo com figura chata até grossura de 2. palmos e meyo somente, e na parte mais delgada começava e rabo, deitado, e não ao alto como os outros peixes com 4. palmos de comprido, e 7. em circunferencia, acabando em duas pontas como os das Andorinhas com exensão de 18. palmos.

Lisabona, Ankunfft Konigs Caroli des III in Hispan zu Lissabon..., 1704.
ZVAB

A cabeça era de notavel grandeza. O rasgado da boca tinha 15. palmos , e toda a círcunferencia della 6o. Seis homens metidos em pè dentro na sua concavidade parecia occuparem puma pequena parte della; o queixo de cima acabava tomo unha de ancora, e era guarnecido em lugar de dentes dc 644. barbas, que principiavaõ com meyo palmo , e acabavaõ em dous e meyo junto ao canto da boca. As de diante occupavão 5. palmos de cada lado, e erão brancas em numero de 294. As que occupavão os dez palmos ate  junta dos queixos, erão 350. e tiravão a cor dc chumbo, como a do mesmo Peyxe.

A parte superior da concavidade da boca tinha huma especie de sedas como de Javali, quasi brancas, com hum terço dc palmo de comprimento, e no meyo huma fórma dc quilha, que continuava da ponta da boca até a goela, branca, e liza, com meyo palmo de largo , e outro tanto de grosso, mas adelgaçando no meio acabava com dous palmos de largura. A parte era liza, e da cor do mesmo Peyxe. No alto da cabeça tinha duas ventas, ou buracos por onde respirava com dous palmos e meyo de comprido. Cada hum dos olhos tinha hum palmo de diametro e contavam-se 13. entre hum, e outro.

Vista de Lisboa e fantasia da margem sul do Tejo, Martin Engelbrecht segundo Friedrich Bernhard Werner, 1750.
AbeBooks

Sobre o lombo tinha huma barbatana de palmo e meyo de alto, coai dous e tres quartos de comprido, e desta até o rabo havia 17. e meyo de distancia. Tinha nas ilhargas duas azas de 11. palmos de extensão cada huma, as quaes distavão 9. e meyo do canto da boca. Desde os queixos pela parte da barriga tinha 33. listas brancas, e entre ellas outras tantas meyas canas cor dc chumbo, com que fazião 66. as quais acabavão todas em fórma pyramidal no embigo, que se distinguia com huma concavidade de meyo palmo, e havia sete e meyo ate a via da propagação, a qual mostrava ser femea, e tinha dous palmos e meyo de comprido, e de cada parte huma mamadeira, ou teta de palmo com seu bico no meyo.

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library 
Cabral Moncada Leilões

A via do excremento tinha hum palmo. A guela hum quarto de palmo de diametro , e della para a boca lhe cahião sobre o queyxo dc bayxo humas pelles como redenhos de perto de dous palmos e meyo brancas, encarnadas, e vermelhas, ou tirantes a roxo. A pelle era delgada, e tão mimosa que com pouca força, que se lhe applicava, a destazião.

Baleia de bossa, infograma publicado na Gazeta de Lisboa Occidental, 21 de janeiro de 1723.

Dizem que havendo entrado neste rio discorrera por elle até sitio da Madre de Deos, donde voltára para a vizinhança de Cassilhas, e que se chegára tanto a terra, que enraiando-se entre huns grandes penedos, não pudera sahir deles, e vacando a maré, se achára em seco, e forão tão grandes os urros, que dava de se ver fóra da agua, que atemorizou os moradores naquelle destrito. (1)


(1) Gazeta de Lisboa Occidental, 21 de janeiro de 1723

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Marrare de Cacilhas, casa de pasto e hotel da villa...

Á entrada da casa de pasto vulgarmente denominada do Marrare, estabelecida na rua da Oliveira em Cacilhas, se lê em gordos caracteres, lançados sobre enorme taboleta, o seguinte:

HOTEL DE VILLE.

E por baixo deste lettreiro

CASA DE PASTO!!

A traducção não pode ser mais elegante, nem mais fiel; porém, como seja novissima, julgamos fazer grande e relevante serviço ás pessoas que frequentão aquella villa, em as prevenir de que não obstante significar Hotel de ville, o que em língua Portugueza sempre significou — "Casa da Camara"; também hoje em idioma Cacilhense significa — "Casa de Pasto do Marrare".

Chapeo de castorinho. Sobrecasaca de panno. Calça de casimira.
Bonnet de setim. Sobrecasaca de estamenho. Calça de cassineta dobrada.
Capeo de castor. Colete de sarja de seda. Casaca de panno de senhora. Casaca de cotim.

E não será isto verdadeiro progresso? Sentimos em verdade, que o erudito Barboza [Diogo Barbosa Machado] não alcançasse o nosso tempo para mencionar na interessante Bibliotheca Lusitana [publicada entre 1741 e 1758], que nos deixou, a primorosa traducçâo acima referida, o nome do distincto traductor, o seu ninho paterno, idade e nascimento. (1)


(1) Progresso da lingua franceza, O Correio das Damas, agosto de 1839

Informação relacionada:
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume I
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume II
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume III
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume IV

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Duas Uniões Victoriosas, de Jaime Ferreira Dias

"Duas Uniões Victoriosas" estreou-se, ainda manuscrita, no teatro Garrett, da Cova da Piedade, em 24 de Maio de 1931, de-sempenhada pelo grupo dramático "A Juventude', cujos papeis foram assim distribuidos: Mestre Macedo — Leonel Borges, Angela — Dorinda de Carvalho, D. Martinho — José Coelho, Mario — José da Cruz, Raul —João Miguel Pereira.

Duas Uniões Victoriosas, edição do autor, 1931.
InfoGestNet


Sebastião Lopes e Artur Ramos, que representavam respectivamente "O Almadense" e "Republica Social" na primeira representação fizeram ao original e ao seu autor referências extremamente lisongeiras que agradecemos num sincero abraço.

Jaime Ferreira Dias.
InfoGestNet

DUAS  UNIÕES VICTORIOSAS

PERSONAGENS

Mestre Macedo, 60 anos, cego,
Angela, 19 anos, operária filha de Macêdo
D. Martinho, jovem rico.
Mario, jovem operario
Raul, 35 anos, ex-companheiro de Macédo.

Actualidade

ACTO ÚNICO

Num quarto andar. Sala pobremente mobilada: ladeada por algumas cadeiras, a desconjuntar-se, uma pequena mêsa coberta por um pano já desbotado, tendo em cima um candieiro acêso, costura e alguns jornais operarios. Uma cadeira de repouso e nas paredes alguns quadros alusivos á causa do proletariado. Dez horas da noite.

SCENA I

MARIO e ANGELA (que estão sentados á mesa conversando).

MARIO — (tomando as mãos de Angela que chorou) — Sim, minha Angela. Verás que havemos de ser felizes. Mas é preciso que afastes de ti esses pensamentos que te entristecem e acredites só, minha querida, no nosso amôr... Ainda duvidas da nossa felicidade?

ANGELA (Reanimada). — Duvidas... dizes-me tu. Como se eu não cresse cegamente no que tu me tens dito... Não és tu, Mário a minha unica esperança, todo o meu amôr?! Eu sei que não és como os outros, que cultivam o amôr como uma banalidade desta época. Nem eu seria também, como tantas das minhas pobres companheiras de oficina, um objecto de frivolidade perigosa. Compreendi desde o primeiro instante os teus sentimetos generosos. E tu, Mário, que és digno, que sofres com a dôr dos nossos irmãos de oficina, compreendes também todo o meu entristecimento. Bem vês. Não tenho mãe, uma irmã.... (Comovida). Resta-me apenas o meu velho pai, trôpego, e cego, a quem tenho que sustentar com o meu magro salario. E só tenho a proteção dele e o teu amor.

MARIO. — E eu não te exijo outra fortuna. Dentro de bem poucas semanas as nossas existencias ter-se-hão ligado no mais enternecido sonho. Viveremos um para o outro e gosarêmos, querida, a felicidade sadia dos pobres. Que aspiras mais?...

ANGELA. — E como havemos de ser felizes!

MÁRIO. — Então não terás que preocupar-te tanto com a exploração de que és vitima nem com o trato grosseiro dos mandões [...]

*
*     *

D. MARTINHO (continuando cinicamente). — Mas, não teem que surpreender-se. Mário, esse fami-gerado socialista que anda a sublevar os meus operários com utopias subsersivas, êsse terá um passaporte para a África. E não me esquecerei de si, descance, sr. Raul.

RAUL. — Canalha! Tudo há a esperar do seu estofo moral. Mas nada receio de si, miserável. Eu tenho, tambem, uma recompensa para esta pobre gente que o sr. persegue. Ei-la: é o seu último recibo. (Entrega-o a Macedo). E agora, miserável, sáia! imponho eu. Sáia!

D. MARTINHO (Fixando o recibo). — E' falso esse recibo. Exijo-o. Você é um falsificador.

RAUL. — É assinado por seu pai e foi o sr. que o perdeu há instantes, colérico, por certo, com o insucesso das suas diligências donjuanêscas.

(já se tem houvido, da rua, o rumar da multidão que canta a Internacional e que passa sob a janela)
.

A pé, ó victimas da fóme!
A pé, famélicos da terra!
Da ideia a chama já consome
A crôsta bruta que a soterra!
Cortai o mal bem pelo fundo!
A pé! A pé! não mais senhores.
Se nada somos em tal mundo,
Sejamos tudo ó produtores!
Bem unidos façamos,
nesta luta final
duma terra sem amos
a Internacional! [...]

*
*     *

MACEDO (Voltado para a plateia). — É a inexoravel justiça da rua, meus filhos. Os burguêses e senhores inventaram-na com os pelourinhos e a igrêja com os autos de fé. E o povo não soube subtraír-se ainda a essa ferocidade, e quere ser tombem juiz. (Vai cessando o ruído e as personagens afastam-se da janela).

RAUL. — Passou, victoriosa, a união dos trabalhadores. E agora meu querido méstre, deixe que eu denuncie uma outra união não menos fervorosa e indivizível que existe há muito entre dois jovens que se amam: Mário e Angela. Graças ao amôr dêles, a virtude triunfou, como nos romances, tornando fortes e arreigadas as convicções emancipadoras d'este moço idealista.

Jaime Ferreira Dias.
InfoGestNet

MACEDO. — Mas, meus filhos. Eu sinto-me venturoso por vos saber amados. Sède pois muito felizes, mas com uma condição: não desampareis este velho cego como dois egoistas tontos de felicidade.

ANGELA e MÁRIO. (acercando-se mais dele e afagando-o). — Oh não, meu pai, nunca nos separaremos.

MÁRIO. — Sim. E de hoje em diante, consinta que, em vez de méstre vos chame pai. Seremos cada vez mais unidos.

RAUL. — Pois sim, mas não vão esquecer-se da bôda...

OS NOIVOS (Reconhecidos). — Pois não...

MACEDO (Contente). — Assisto, meus filhos, depois de tantas vicissitudes que tenho sofrido, a duas uniões que tornam felizes os meus últimos dias: — a victória d'ideia libertadora e o triunfo do vosso amôr. Elas viverão em meu coração de pai afectuoso e de velho idealista como duas uniões victoriosas... (Tem-se ouvido rumores da Internacional cantada pela multidão).

TODOS (Dirigindo-se para a janela). — Viva União dos Trabalhadores!... (O pano baixa lentamente, continuando a ouvir-se o cobro até este cair definitivamente).

FIM (1)


(1) InfoGestNet

Artigos relacionados:
O pequeno operário
SFUAP, origens, teatro e escola

Leitura relacionada:
La cultura obrera en Portugal, TEATRO Y SOCIALISMO DURANTE LA PRIMERA REPÚBLICA (1910-1926)
Les mythes et les légendes bibliques dans le théâtre portugais à thématique ouvrière