sábado, 28 de março de 2020

Na Lapa de Cacilhas em 4 de junho de 1950

Aspectos da parada dos Bombeiros Voluntários de Almada

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Jeep n.°2 com moto-bomba n.°4 (Standard) e carro oficina com roulotte.

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada,.
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Extra rápido n.° 1.

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Extra rápido n.° 1.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Jeep n.°1 com moto-bomba n.° 5 (Denniz).

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Carro oficina com roulotte.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Início do desfile da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Desfile da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada à entrada da rua Cândido dos Reis.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
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Artigos relacionados:
Grande Parada dos Bombeiros Portugueses
Bombeiros Voluntários do Caramujo
Museu de Bombeiros

Leitura relacionada:
Victor M. Neto, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011, Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011

quinta-feira, 5 de março de 2020

O perré!

Nos anos cinquenta, todos os estaleiros das praias da Margueira e Mutela foram encerrados em consequência do aterro de toda a frente ribeirinha que se estende de Cacilhas à Cova da Piedade, seguido da construção de uma muralha e da avenida que ainda hoje existe.

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos por meio da cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos de retenção por meio da cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(começo das obras)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(começo das obras do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos de retenção)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(construção do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(construção do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Na década de sessenta, como já antes referimos, foi construído nesse local o estaleiro da "Lisnave" também conhecido pelo "estaleiro da Margueira" [...]

Vista aérea do perré na variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
IGeoE

Para o rio, na Margueira
A muralha era um céu
Acabou-se a brincadeira
Quando a Lisnave apareceu (1)



(1) As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, J.F. de Cacilhas, 2013

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A banhos na Margueira com Romeu Correia
Ante-projecto do Arsenal de Marinha na margem sul do Tejo
Lisnave
Kong Haakon VII na Lisnave
Doca 13
História alternativa

Leitura relacionada:
Decreto-Lei n.º 44708 - Diário do Governo n.º 267/1962, Série I de 1962-11-20
Boletim do Porto de Lisboa n.° 179, abril, maio e junho de 1967
Salvaterra e eu (pesquisa: Lisnave)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Grupo Dramático Recreativo de Cacilhas

Acaba de se fundar na localidade de Cacilhas, por alguns rapazes da nossa melhor sociedade, um grupo dramático intitulado "Grupo Dramático Recreativo".

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Delcampe

Este grupo que tem por sede uma bella e pittoresca habitação situada na rua Carvalho Freirinha, além de ser a uníca associação de recreio n'aquella localidade, é sem duvida, um delicioso passatempo para todos aquelles que já se inscreveram no numero dos seus associados. 

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Delcampe

Brevemente tem lugar a primeira recita, em que sóbe à scena o commovente drama em 3 actos, Escravos e Senhores, e a engraçada comedia em 1 acto Valentes e Medrosos [a fingir].

Projecta se uma corrida de bycicletes nos meados de junho proximo, em que tomarão parte distinctos amadores d'esse genero de sport, residentes n'esta Villa. 

Rua Direita, Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Delcampe, Oliveira

O sr Demetrio Lopes, proprietario da "Maison Confiance" já fez acquisição de diversas machinas para o mesmo fim. (1)

Passou a denominar-se "Club Recreativo José Alvelino", o "Grupo Dramatico Recreativo, de Cacilhas".

É definitivamente no dia 6 de maio proximo, que se realiza na séde d'este Club, a primeira recita brilhantemente ensaiada pelo sr. Antonio Luiz Avellar, e dedicada pela direção aos socios e suas familias. 

João Rafael

As obras na organisação do palco e sala desta sympathica agremiação encontram-se quasi concluídas. A direcção composta de distinctos e bem conceituados cavalheiros esforça se, para que esta festa seja revestida do maior deslumbramento possivel. (2)


(1) A Liberdade n.° 1, 15 de abril de 1906
(2) A Liberdade n.° 2, 29 de abril de 1906

Artigo relacionado:
Clube Recreativo José Avelino

Informação relacionada:
Ministério da Administração Interna: Club Recreativo José Avelino (1924)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Recordação de Cacilhas

Em Cacilhas tudo é primitivo, rústico, muito à moda provinciana. E os garotos, de epiderme clara, limpa, fortes rosêtas nas faces, pés descalços e barretes, negros à cabeça, falam uma linguagem pitoresca e pedem um escudo, enquanto as mulheres, de lenço sarapintado e saia de chita arregaçada, põem a mão em concha, junto aos lábios, para gritar o nome dos filhos que jogam "às escondidas", no adro da igreja.

Rua Carvalho Freirinha em Cacilhas (detalhe), década de 1960.
Arquivo Municipal de Lisboa

Todo esse caleidoscópio, e o exame, desse precioso material humano, simples mas rico de colorido, forte de nuanças vivas, tem de ser apreciado com a celeridade de um átomo. As horas voam. 

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Casario do Ginjal

Os convites para novas excursões aumentam; e uma única certeza nos assalta: dentro de alguns dias, tudo isso será uma recordação. Grata e imorredoura, das mais felizes, mas apenas recordação. (1)


(1)  Celestino Silveira, De Lisboa e da província... Revista da Semana n.° 2, 1950

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Egreja do Espírito Santo

Encontra-se bastante arruinada esta pequena mas elegante egreja situada no centro da vila d'Almada, em cujo templo estão patentes aos fieis as sagradas Imagens da Paixão, que antigamente sahiam em procissão, no domingo de Ramos, Imagens de subido valor artistico de muito merecimento.

Largo do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A irmandade que alli presta culto, é pobre, e não possue rendimentos para que possa accudir ás obras indispensaveis, de que carece a referida Egreja, que é propriedade do Estado, e n'esta conformidade o rev.° parocho, com a mai-ria dos seus parochianos, habitantes d'Almada, assignados em um memorial, pediram ao governo as precisas obras, a exemplo do que se tem feito a outras Egrejas, as quaes não são pertencentes ao Estado. 

Rua Dr. Francisco Inácio Lopes, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Este pedido foi feito e entregue no ministerio das obras publicas em 24 de maio de 1897, sem que até hoje tenha tido deferimento. 

A velha travessa do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Pedimos ao sr. ministro das obras publicas, se digne ordenar a desejada obra, não só pelos motivos expostos, como tambem pela conservação dos objectos de culto que alli existem, e proporcionar trabalho a alguns dos muitos operarios que se encontram desempregados.

Eduardo Tavares [As Instituições, propriedade de] (1)


(1)  As Instituições, domingo 20 de março de 1898

Artigo relacionado:
Salão das carochas
Almada no espólio do arquitecto Cassiano Branco

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Fábrica moderna para produção de óleo de fígado de bacalhau

A Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau [SNAB] completou a construção de uma nova fábrica para produção de óleo de fígado de bacalhau no Ginjal, Cacilhas, no município de Almada.

Ginjal, vista aérea c. 1960.
OBSERVADOR

A fábrica consiste em três edifícios: (1) o laboratório, escritórios e edifícios administrativos; (2) a própria fábrica; e (3) abrigo para tanques de armazenamento.

Vista da entrada da fábrica. À direita, o edifício administrativo; à esquerda, a fábrica, vista leste.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A capacidade de produção é de cerca de 30 toneladas de matéria-prima por oito horas diárias, variando de acordo com o número de tratamentos efectuados.

Vista do armazém. Abriga tanques metálicos para armazenamento.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A capacidade de armazenamento é de aproximadamente 1.100 toneladas, de acordo com um despacho de 30 de agosto da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa.

Interior da fábrica mostrando os tanques de operação.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A fábrica está equipada para neutralizar ácidos gordos livres; limpeza e secagem; desodorização parcial; filtragem; e extração de estearinas e outros resíduos. Tratamentos ainda mais especializados podem ser realizados no futuro.

Interior dos armazéns que abrigam os tanques de armazenamento.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A fábrica está ainda equipada com uma grande secção para encher, rotular e embalar as garrafas com um nível elevado de produção e pode processar o óleo de fígado de bacalhau para qualquer uso conhecido, seja para nutrição humana ou animal. (1)

Outra vista do interior da fábrica.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

Um importante documento que, possivelmente, marca o início da distribuição do óleo de fígado de bacalhau nas escolas, sobretudo para os alunos mais carenciados, constitui a Circular nº 2628 de 4 de Janeiro de 1956. Como consta nessa circular que chegou às escolas naquele ano:

"Os serviços da Direção Geral do Ensino Primário, estão a distribuir pelas cantinas escolares do Distrito, elevado número de frascos de óleo de fígado de bacalhau, destinado a completar a alimentação das crianças pobres que são beneficiadas por aquelas instituições. Em cumprimento de despacho superior determina-se aos senhores diretores das cantinas citadas: 

1º.) - que promovam seja efectuada pelos agentes de ensino a conveniente propaganda no sentido de se ensinar aos estudantes a utilidade do uso do óleo de fígado de bacalhau; 

Rótulo para frasco.

2º.) - sejam conservados, cuidadosamente lavados, os frascos do óleo, depois de vazios, tendo em conta a futura utilização; as embalagens devem ser cuidadosamente conservadas; 

3º.) - que informem diretamente a Direção sobre a data do recebimento, número de frascos e despesa que, porventura, tenham efectuado com o transporte."

Crianças de Bradford Inglaterra tomam dose de medicamento.
PostcardEddie

Segundo as fontes consultadas, distribuía-se o óleo de fígado de bacalhau “DÓRI”. Este óleo era dado diariamente na sala de aula aos alunos com vista ao melhoramento da sua condição nutricional e de saúde. (2)

Embalagem.


(1) Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955
(2) Monica Truninger, A evolução do sistema de refeições escolares... 2012

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O Grémio

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Almada em 1760

Lançando hontem á noite os olhos, por acaso, sobre um livro portuguez, e vendo o frontispicio que fora impresso em Lisboa occidental, perguntei o que significava aquelle "occidental", e responderam-me que esta Lisboa aqui, situada na margem direita do Tejo, é assim chamada, para se distinguir de outra Lisboa, que está do outro lado do rio, à qual as escripiores portuguezes dão a denominação de oriental 

Vue de l’entrée d’un port animé, Alexandre Jean Noel (1752-1834).
Cappriccio Lisbonne, la tour de Belem.
De Baecque

[o erro em que, de certo, involuntariamente cahiu aqui o estimavel auctor das Cartas Familiares encontra facil correcção nas breves palavras que da Mappa de Portugal 5.ª parte, cap II, pag. 247 de João Baptista de Castro, transcrevemos em seguida: "Querendo o fidelissimo rei D. João V promover e exaltar com ardentissimo zelo o maior culto de Deus e o esplendor da sua egreja, impetrou do summo pontifice Clemente XI a bulla aurea, que começa: In supremo apostolatas solio, expedida nos 7 de novembro de 1716, pela qual fiz erigir na conllegial insigne da real capella uma cathedral metropolitana e patriarchal, dividindo para este effeito a cidade de Lisboa, e seu arcebispado em duas metropeles, com territorios distinctos, ficando os que pertencem à linha devisoria da parte do nascente sujeitos ao prelado de Lisboa Oriental, e os que olhavam para o poente ao patriarcha de Lisboa Occidental..."]

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Biblioteca Nacional de Portugal

e accrescentaram que "in dirbus illis" a cidade era toda para além do Tejo; mas que, com o decorrer dos annos, se descobriu ser mais commodo habitar da parte de cá, de sorte que a pouco e pouco se fez esta grande Lisboa, que antes de destruida pelo terremoto devia ser uma cousa estupenda, e a antiga Lisboa do lado de lá a pouco e pouco se reduziu a quasi nada.

Este "quasi" quiz eu ver logo; por isso esta manhã aluguei ás horas um bote de dois remos, e em menos de uma hora lá me achei. Ambas as margens deste rio são, pela maior parte, altas e penhascosas, mas a oriental ou esquerda especialmente, é toda ella uma collina mais alta que a nossa dos Capuchinos [colina próximo de Turim, assim chamada por causa de um convento de frades d'aquella ordem, que tem no cimo]; e a subida é tão difficil e aspera que faz suar a medulla dos ossos, quando o sol queima, como fez todo o dia de hoje.

Almada, brasão de armas no anno de 1760.

Mas, meus irmãos, bem sabeis que a curiosidade me faria andar descalço sobre espinhos, quanto mais ao sol. O certo é que, desta vez, a curiosidade teve pouco pasto, porque aquella Lisboasinha não contem senão dois logaritos de nenhuma importancia, um chamado Almada, outro Cacilhas [no texto vem "Castiglio"].

Em Cacilhas nada vi de notavel, a não serem os pouquissimos restos de um pequeno forte situado sobre urna eminencia bastante alta, e que de certo, não custou muito ao terremoto demolir.

Em Almada visitei um pequeno convento de dominicos, chamado de S. Pauto, cujas paredes interiores são forradas de azulejos muito luzentes, que só de os ver refrescam a gente. Este convento já não tem egreja, porque abateu de uma vez com o terremoto, ficando esmagado um frade que estava celebrando missa, e bem assim todas as pessoas que se achavam na egreja, sem escapar uma só.

E o padre que me acompanhava nesta visita disse me que debaixo das ruias foram depois tirados os cadaveres de mais de cincoenta mulheres, todos aos pedaços, sem contar os homens, que não chegavam a vinte, cousa digna de todo o credito. porque em toda a parte os homens são muito menos inclinados ã devoção, e cuidam muito menos da salvação da sua alma do que as mulheres. 

Nós, os homens, podemos dizer o que quizermos; mas, por bondade de animo e por virtude, reunidas, as mulheres approximam-se tanto do caracter dos anjos, quanto os homens se avisinham ao de certos senhores de pontas, de garras e de cauda, que por delicadeza, não quero aqui nomear.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII (detalhe).
Museu de Lisboa

Não é porque eu ignore que no mundo existem mulheres de caracter iniquissimo, as quaes por soberba, avareza ou luxuria poriam fogo por assim dizer a um sanctuario, e muitas hei conhecido que, para enganarem o proximo, ainda que sem grande proveito proprio, teriam deitado a barra adeante d'aquelle que entrou na serpente para enganar a mãe de genero humano; mas, pelo amor de Deus não me obrigueis, meus senhores, a entrar a dizer a verdade, e a pôr a calva á mostra aos homens, pois que, por um bom ou mediocre que me deis, eu vos apresentarei logo dez mulheres.

E notae que, por uma que corrompa a mente de um homem, cem mulheres são corrompidas por um só destes traidores, o qual, tingindo atfficção e desesperação mortal por amor invencivel, faz emfim tanto com o auxilio do diabo, que desperta immensa piedade no coração credulo e compassivo de uma innocente e digna creatura feminina, e d'ella se torna senhor absoluto primeiro que a misera e mesquinha caia em si de ter sido vencida pela sua natural bondade e ternura mais que pelo seu appetite e concupiscencia.

Por isso, minhas senhoras, podeis estar certas, e recordae-vos sempre de que o maior inimigo que tendes é a vossa mesma bondade, que vos faz obrar a maior parte dos despropositos que fazeis, os quaes despropositos, para vosso maior pesar, e para vossa maior vergonha, são quasi sempre praticados a favor de um ingratíssimo patife, que, quando de vós houve o que desejava, vos despreza, vitupera e aborrece, ou vos trata deshumana e cruelmente, apenas vos entregastes a elle sem nenhuma reserva.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Museu de Lisboa

— Mas, volte-mos a Lisboa oriental. O desmoronamento da egreja de Almada tornou aquelle logar pobrissimo de habitantes. O convento não fez companhia á egreja, pois ficou de pé, de maneira que nenhum dos frades morreu, excepto o que referi, e um leigo.

Das janellas desse pequeno convento se desfructam as mais bellas vistas do mundo, porque de uma parte se avista toda Lisboa, e Belem, o rio, o mar, infinitas embarcações, differentes castellos e fortalezas, que defendem a foz do Tejo, e da outra lindissimas collinas verdejantes e bem cultivadas; por maneira que este, quanto a mim. e um panorama muito superior ao famoso promontorioo, em que já vos fallei, o monte Edgecumbe, perto de Plymouth, em Inglaterra.

Satisfeita a minha curiosidade pelo que respeita a Lisboa oriental, desci a collina, voltei ao bote, e mandei aproar ao hospital dos inglezes, que tira do mesmo lado do rio, para baixo, para a banda do mar; mas não vi lá cousa nenhuma que parecesse extraordinario, excepto um medico já velho do hospital, um urso, que, tendo recebido aos setenta annos uma rapariga de dezoito, tornou-se, apesar de inglez, tão bestialmente ciumento, que se poz a olhar muito para mim de soslaio, quando viu que me dirigia para o jardim do hospital, porque sua mulher alli estava n'aquelle momento colhendo figos e uvas para o jantar.

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

Contudo, mesmo nas suas bochechas, fui entrando, sem lazer reparo na sua mulhersinha, porque não tenho prazer nenhum em causar aborrecimento a outra pessoa; e antes tenho dó dos velhos, que estão no caso d'aquelle senhor doutor, reflectindo que talvez haveria mister da compaixão dos outros n'aquella edade, se lá chegar, e se então perder o juizo, como succedeu ao pobre homem.

Não creio que a ternura do coração e o amor ao sexo feminino se apartem jámais dos homens educados, se Deus os não ajudar com uma graça especial, e lhes não apagar da fantasia a esperança do supremo contentamento que é produzida pela idéa incessante da posse completa da belleza feminil.

E é por isso que os homens de educação devem, especialmente quando são solteiros ou viuvos, arreceiar-se sempre de cair na rede em que o referido doutor cahiu; porque um quarto de hora de violenta agitação do pensamento é muitas vezes bastante para vencer toda a prudencia humana e todas as resoluções mais fortes de um homem considerado circumspecto, e leva-o a praticar um erro grande que precisa de ser sustentado depois com outros muitos erros; e talvez fosse este exactamente o caso do meu pobre velho doutor do hospital inglez donde voltei, rio acima, para casa de um irlandez que negoceia em vinhos por grosso, esperando induzil-o, com dinheiro ou com boas palavras, a dar-me algum por miudo, tendo com effeito tanta necessidade d'elle como os meus catraeiros.

E foi uma felicidade que aquele senhor negociante de vinhos que se chama O'Neal, usasse para commigo de tanta cortezia quanta vilania tinha praticado o velho doutor da tal mulher nova, o qual apenas quiz consentir que eu depenicasse um cacho das suas vinhas, que todavia estavam carregadíssimas d'elles.

Retrato de Giuseppe Baretti (1719-1789) por Joshua Reynolds.
Wikipedia

Deu-me com liberalidade o sr. O'Neal a beber quanto eu quiz, e fez-me provar mais qualidades de vinhos muito estimados, e aos meus suados barqueiros deu tambem um garrafão, pondo ainda dificuldade em deixar metter algum dinheiro no bolso de um seu pequeno.

Aquelle cavalheiro tem a sua casa protegida do rio por uma espécie de molhe construido de grossos penedos, e, tendo eu subido a esse molhe, recreei-me de ver dois escravos da Guiné, mais pretos do que pez nadarem no rio, e darem viravoltas e saltos na agua, e mergulhos, que era um regalo vel-os; e, a troco de alguns cobres que lhes dei, armaram uma dança sobre as ondas, cantando á sua moda, ora mergulhando, ora pulando de todo no ar. de modo tão assombroso, que seria mais facil agarrar uma enguia pelo rabo. 

Da canção do baile, que me cantaram em lingoa africana só comprehendi que era uma rima, nem mais nem menos do que a de Lourenço de Medicis e do Policiano.

Alguns modernos inimigos da rima teem dito e continuam a dizer que essa futilidade foi inventada pelos frades nos seculos barbaros, e em apoio da sua opinião citam os versos leoninos; mas eu achei que os americanos do Mexico e de outras partes do novo mundo usavam das rimas antes do nascimento de Christovam Colombo, e é claro que faziam uso d'ellas por serem proprias da poesia, fosse esta o que fosse, boa ou má.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

E pela mesma razão os mouros da Guiné, e provavelmente de toda a Africa. empregam a rima em todas as suas poesias, sem haverem tido por mestres os inventores do verso leonino. Custa-me bastante não saber musica para apanhar as poucas e solemnes notas d'aquella canção africana; e quando figuei satisfeito, voltei a prôa para Belem, e fui visitar o convento dos Jeronvmos. (1)

Lisboa, 5 de setembro de 1760

Cartas Familiares de José [Giuseppe] Baretti, traduzidas do italiano [por Alberto Telles], VII


(1) Occidente n.° 625, 5 de maio de 1896.

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