segunda-feira, 20 de março de 2017

Fonte da Pipa e sua água

LISBOA , em Lat. Ulissipo [phn, Tejo], de que vém a ser cor. voc. o significar "água bôa" em que nada esta Cidade (a maior das conhecidas na Europa, Capital do Reino de Portugal) que há mais pequena escavação, logo apparece: o t. he Árabe; e porque parte desta água apezar de em muitas partes ser minerál, e sulphúrica, como se vê dos banhos das "alcacerias" pertencentes ao Duque de Cadaval, abunda muito Lisboa, de que tóma o nome; mas porque as águas potáveis afóra o antigo chafariz chamado de Elrei na Ribeira Velha, que córre por nove bicas sem cessar, e que se concertou em o tempo da Regencia, que o Sr. D. João VI. retirado no Brazil, deixara em Portugal, óbra prima de hydraulica, sem que o chafariz parasse de correr, e cuja ruína já era espantoza; abasta a Cidade: foi da providencia do Rei D. João V. encanar do Cazal d'águas livres, que rebenta em grandes olhos a água em Bellas a duas léguas de Lisbôa, "Villa de Pedro Correia", assim chamada em outro tempo, por hum aqueducto, que he huma óbra perfeitamente Romana, que nunca cedêu de sua feitúra pelo terremoto, que abastece de água a Cidade, independente do poço chamado d'água sancta , rúa da Prata, que nunca seccou, e em que se recórre em occazião de sêccas graves, e da água da outra banda, de que se faz águáda para os navíos (chamada a da Fonte da Pipa), porque vinha, em pipas vender se ao Cáes do Sodré antes de feito o sobredicto aqueducto — Águas livres.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

— Desgraça he que sendo esta água tão bélla, e potavel esteja imprégnada com outras inferiôres em bondade pela concessão mal entendida de deixar tirar do aqueducto pénnas, e anéis d'água com a obrigação de lhe substituir porção igual, que nunca igualára sua primitiva bondade.

Fonte da Pipa, Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Hemeroteca Digital

"Quem não vío Lisbôa, não vío couza bôa." adag. (1)


(1) António Maria do Couto, Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza..., Lisboa, Typ. António José da Rocha, 1842


Artigo relacionado:
Fonte da Pipa e seu caminho

terça-feira, 14 de março de 2017

Romeu Correia (um percurso...)

1.º Percurso deste roteiro literário:
Avenida Heliodoro Salgado e Rua Capitão Leitão
(da Câmara Velha ao Museu da Música Filarmónica)

Praça Camões, Tribunal e Paços do Concelho — Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Ciclo de visitas organizadas pela APCALMADA-USALMA
a locais que evocam a vida e a obra de Romeu Correia através da sua "voz",
isto é, daquilo que deixou escrito.

Romeu Correia no miradouro Luís de Queirós ou Boca do Vento.
Imagem: Wikipédia

Data: 5.ª Feira, 23 de março de 2017

Concentração às 14H30 nos Paços do Concelho, no LARGO LUÍS DE CAMÕES,
no início da R. Capitão Leitão, junto à Incrível Almadense.

Em cada um dos locais que vão ser referidos vão evocar-se factos da vida do escritor Romeu Correia, acontecimentos e vultos almadenses dignos de serem lembrados. Será sempre Romeu Correia a "falar" connosco, através da leitura de pequenos excertos da sua escrita em prefácios, artigos da sua vastíssima colaboração jornalística, contos, romances e obras sobre a história local.

Sábado sem Sol, 1947, ilustração Fernando Camarinha.
Imagem: Tertúlia Bibliófila

Programa:

— No antigo LARGO DA CÂMARA evocaremos com as palavras de Romeu Correia alguns dos momentos inesquecíveis que aí se viveram [Trapo Azul (1948), Chico Grilo in Sábado sem Sol (1947)].

O carvoeiro, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

— Na AVENIDA HELIODORO SALGADO, sempre acompanhados com as palavras do escritor:

Avenida Heliodoro Salgado — Almada, ed. desc.,
(ex avenida Gomes Netto no tempo da monarquia).
Imagem: Delcampe

Veremos o n.º 13, que foi o local da casa dos tios José Carlos de Melo e Julieta Correia, onde Romeu Correia viveu dos 21 aos 33 anos (de 1938 a 1950);

Sede da Incrível Almadense e habitação de José Carlos de Melo de 1938 a 1959.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada...

faremos a evocação do namoro e casamento dos tios, conheceremos um resumo biográfico sobre José Carlos de Melo e destacaremos que foi neste local que iniciou a sua escrita teatral, jornalística, de contista e de romancista [Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978), Prefácio de Tonecas, a Tragédia que enlutou Almada, de Vítor Aparício, Sempre Menino in Sábado sem Sol (1947), Dois Mil Contos in Um Passo em Frente (1976), O Tritão (1982)];

Carta Postal (detalhe), ed. Câmara Municipal de Almada, c. 1940.
Imagem: Delcampe

Veremos o atual n.º4 , que foi o local da casa do dr. Alberto Araújo — evocação da amizade recíproca e resumo biográfico deste insigne almadense [Jornal de Almada (14 de dezembro de 1974), Trapo Azul (1948), Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978)].

Contamos com a presença e testemunho da filha do escritor, Julieta Correia Branco, que nasceu e viveu na casa dos tios.

— Na RUA CAPITÃO LEITÃO:

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Visitaremos a Incrível Almadense, fundada em 1848, numa visita guiada pelos dirigentes Luís Milheiro e coronel Carlos Guilherme.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Na sala do bar ou noutra sala, sentamo-nos e ouviremos Romeu Correia a "falar" dos bailes de outrora;

Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, baile em 1959.
Imagem: Casario do Ginjal

das bandas filarmónicas; da saída de José Maria de Oliveira em 1894 (e que veio a fundar a Academia Almadense em 1895);

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

do corte entre as duas coletividades e das pazes em 1948;

da biblioteca onde na década de 40 conheceu e colaborou com Alexandre Castanheira e da colaboração que recebeu de António Henriques [Jornal de Almada (25 de março de 1972), Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978), Trapo Azul (1948)].

Romeu, o primeiro da direita, durante uma das visitas de Alves Redol a Almada, Arquivo da Academia Almadense.
Imagem: Luis Alves Milheiro, Romeu e a biblioteca da Academia Almadense

Contamos com a presença e testemunhos de Alexandre Castanheira, que celebra este ano o seu 90.º aniversário e do coronel Carlos Guilherme, filho de António Henriques.

À saída da Incrível indicaremos o Clube de Campismo de Almada e veremos um grande artigo que sobre ele escreveu Romeu Correia no Jornal de Almada.

Seguiremos para o Museu da Música Filarmónica.

Romeu vai "dizer-nos" que aí foi a casa onde nasceu o grande maestro Leonel Duarte Ferreira [Jornal de Almada (25 de março de 1972), Academia Almadense - Memória de 100 Anos (1995)].

Visitaremos, com o dr. João Valente, este museu, que guarda testemunhos das bandas da Incrível, da Academia (onde iremos no 2.º percurso) e de outras associações locais.

O Septimino de Saxofones da A.I.R.F.A.. Da esquerda 1.° plano: Maria Amélia. Ferreira, Luísa Avelar, Manuela. Avelar, Maria Pratas, Maria Ondina Pinto, Antónia Rodrigues e Aida Alves. Em 2.° plano: Hilário dos Santos Ferreira, Maestro Leonel Duarte Ferreira. e Américo Gonçalves Ferreira.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

No final assistiremos a um pequeno filme interativo, que refere o maestro Leonel Duarte Ferreira, a importância das bandas filarmónicas e que acaba com uma citação do escritor Romeu Correia.

Contamos com colaborações várias para dar voz aos excertos de Romeu Correia, com destaque para representantes do Conselho de Delegados da USALMA.

Organização das professoras Ângela Mota e Edite Condeixa.

Visita sem inscrições.
Basta estar às 14h30,de 5.ª feira, 23 de março,
em frente dos Paços do Concelho, junto à Incrível Almadense.



Tema:
Romeu Correia

Informação complementar:
Manuel J. C. Jerónimo, Leonel Duarte Ferreira (1894-1959)..., Universidade Nova de Lisboa, 2012

domingo, 12 de março de 2017

Festejos na Outra Banda hontem 23 de julho de 1873

Logo ao nascer do sol embandeiraram quasi todas as cazas, e subiram ao ar muitos foguetes em signal de regosijo pelo anniversario da entrada das tropas liberaes. 

Pátria coroando os seus heróis, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais (ex Sala das Campanhas da Liberdade).
Imagem: Maria João Vieira Marques

A direcção dos festejos por tão fausto acontecimento tinha sido confiada a uma grande commissão composta dos seguintes cavalheiros: — Presidente, Eduardo Tavares — Wenceslau Francisco da Silva — Jose Maria do Valle — Augusto Cesar de Lima — A. L. J. Quintella Emauz — João Antonio Xavier Carvalho Freirinha — Julio Cesar Coelho — Antonio Faria G. Zagallo — S. Duarte Ferreira — Rafael Fortunato Alves Cunha — Antonio Francisco Silva Junior — Manuel Francisco da Silva — Christovam de Mattos— Antonio Candido Lopes — João Alegro Pereira Ernesto — Alvaro Seabra — Barreiros (Delegado) e Guilherme Maria de Nogueira.

Esta commissão veiu de Almada para o largo da Piedade, ás 7 horas da tarde, acompanhada da philarmonica da villa, e de muitas senhoras que todas vestiam de azul e branco.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Ahi, collocando-se na frente da egreja, o sr. Eduardo Tavares, presidente da mesma commissão e deputado por aquelle circulo, fez um brilhante improviso, commemorando os factos da batalha dada n'aquelle sitio; disse que os que o acompanhavam n'aquella occasião não estavam ali como vencedores, nem tão pouco revestidos de odios de partidos; e appellou para o patriotismo de todos os portuguezes para conservarem a independencia e a liberdade que ha quarenta annos desfrutámos.

Eduardo Tavares (1831-1875).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Concluído o discurso, o sr. Tavares levantou vivas á liberdade, sendo correspondido pela grande multidão que o cercava. Então deram-se também vivas aos veteranos da liberdade e ao sr Eduardo Tavares.

Em seguida foi distribuído a 50 pobres um bodo que se compunha de 230 grammas de carne, um pão, meio kilo de arroz e 100 réis em dinheiro.

Este bodo foi oflerecido por uma commissão especial composta dos srs. Eduardo Tavares — João Allegro Pereira — Padre João Netto — A. L. J. Quintella Emauz — Manuel Joaquim Motta e Lourenço Anastacio Ferreira de Aguiar.

Durante o bodo tocou uma philarmonica difíerentes peças de musica. Acabado o bodo, dirigiram-se todos ao largo onde se achava collocado o busto do duque da Terceira; e ahi foram levantados novos vivas á liberdade e entusiasticamente correspondidos. 

Estátua do Duque da Terceira (detalhe).
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Voltou depois a grande commissão a Almada acompanhada do povo, e dirigindo se á casa da camara ahi se levantaram novos vivas, que foram também correspondidos.

O sr. Eduardo Tavares foi novamente saudado. Em seguida marchou tudo para Cacilhas. 

O largo da Piedade está deslumbrante. Inaugurava-se ali um novo jardim com um elegante coreto, onde tocava uma nova philarmonica da localidade. 

Nas ruas de Cacilhas, Oliveira e Almada, estavam muitas casas embandeiradas, e as janellas de algumas apresentavam vistosas colchas. 

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Todas as senhoras, como dissemos, trajavam de azul e branco; e todos os cavalheiros traziam ao peito um ramo de perpetuas preso com fitilhos também azues e brancos.

Do caes até á Fonte da Pipa, e pela rocha do Ginjal e rampa de S. Paulo estavam dispostas 150 barricas de alcatrão, que foram incendiadas ás 8 horas e meia da noite, produzindo um bonito effeito.

As casas da villa estavam illuminadas. No largo da Piedade tocavam, antes da chegada da commissão, tres philarmonicas. 

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Imagem: Fundação Portimagem

Divisava-se em todos os semblantes o maior regosijo. Correu tudo com o maior enthusiasmo, o que se deve ao muito amor dos portuguezes á liberdade, e sem o mais pequeno incidente desagradavel, o que se deve á muita cordura dos ciadãos. (1)


(1) Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Artigo relacionado:
Os festejos de 24 de julho de 1874

Mais informação:
Duque da Terceira, Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Tema:
Guerras Liberais

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (10 de 10)

Vão todos p'la rua abaixo,
Com medo como o diacho!

N'isto, junto de Soccorro,
Vê-se um trem á luz de um gaz,
Que dizía mesmo: "Morro,
Por indecente e incapaz!"

Era o landau do... D. Braz!!!
Tudo logo em berraria!
Tudo logo em gritaria!
Não ha horas, ruins, más!
Mana! papá! minha tia!
Olhe... veja... que alegria
D. Braz! D. Braz! Ó D. Braz!

Tudo se ácerca do trem,
Tudo quer ver o amigo,
Tudo pergunta ao postigo:
"Como passou, passou bem?

Como está, senhor morgado?
O figado seu, como vai?
O baço está desinchado?
Ainda bem que já sahe!
A perua já se curou?
O bofe já melhorou?"

E tudo sobre elle cahe...
Que quasi o esborrachou!
 O cocheiro no pescante,
Com seu enorme penante,
Toda aquella scena via,
E como melro sorria.

Padre José, com agrado,
Quer abraçar o morgado;
Mas como ás escuras fal-o,
A dar aos braços avança,
E n'um amplexo.. zás!
A cabeça de um cavallo,
Abraçou ao pé da lança,
Julgando que era o D. Braz!!!

D. Braz Pimenta Athayde
De Vasconcellos e Cid
Noronha da Cunha Mattos,
Morgado dos Carrapatos,
Um vinculo instituido,
Por D. Manuel da Falperra,
Em Sines, a sua terra...

Estava dentro do landau,
De cara pasmada .. só,
O que todo o rancho espanta,
Porque o nosso personagem,
Na mais pequena viagem,
Traz a velha governanta,
E o seu amigo doutor,
Medico assás erudito,
Que lhe acode á menor dor,
E ao menor faniquito.

(Gambôa)

Oh! D. Braz, d'onde vens tu?
E elle diz-lhe ao ouvido:

(D. Braz)

"Fui por mandos de Cupido,
A um rico rendez-vous."

(Gambôa)

Ora adeus! fanfarronadas...
Toleimas... parlapatices...
Setecentas patacuadas,
Imposturas e tolices!...

Mas o gaz não apar'cia,
E o nosso fidalgote,
A palacio recolhia,
Suspirando p'r'um archote.
E bisarro, e generozo,
Franco, como os que são francos,
Dizia assáz gracioso,
(Que elle tem ditos facêtos,)
"Os pretos hoje são brancos,
E os brapcos parecem pretos."

Se vão p'ra casa, vai tudo,
Aqui dentro da typoia,
É uma dansa d'entrudo,
Porém eu não vejo boia!

D. Francisca, a patroa,
Vai no colo do Gamboa,
Vossa excellencia entendeu?...
A mana, sento eu no meu,
Tu Alfredo, aqui em pé,
As meninas, ambas, sim,
"Aqui em frente de mim."
E o padre então galhofeiro,
Piscou o olho á creada,
E foram para a almofada,
Sentar-se ao pé do cocheiro.

Roda "el coche", e dentro "el níño",
Par'cia um carro de bois.
Onde ia o rei dos heroes,
A passo, devagarinho.

Sem contratempo ou quisilia,
Chegou a casa a familia,
Do nosso q'rido Gambôa,
Que a rir sempre alegre anda; 
E assim acabou-se em paz 
Em noite escura, sem gaz, 
O passeio á Outra Banda.

(Final)

Com modos muito cordatos,
O nosso amavel e q'rido,
Morgado dos Carrapatos
Disse ao Gambôa, ao ouvido:

"Em segredo isto te digo,
Tu que és meu dedicado,
E um verdadeiro amigo,
No high-life do Illustrado,
Amanhil, faze sair,
Esta coisa... e obrigado".
E abraçou-o muito a rir.

Era um papel que dizia
Sem normas de orthographia:

"Parte ámanhã para Carnide, 
P'r'á sua quinta dos Gatos, 
D. Braz Vasconcellos Cid, 
Morgado dos Carrapatos.
E faz tenção tambem mais, 
Não esticando o pernil, 
D'ir setembro p'ra Cascaes, 
E outubro p'ró Estoril.
Sua excellencia que a vida, 
Só disfructa entre regalos, 
P'rá vivenda apetecida, 
Leva o trem e os cavallos."

(Fim)


(1) Diário Illustrado, 17 de agosto de 1896

Grande passeio à Outra Banda (9 de 10)

O Gambôa o olho deita, 
Furioso como um toirão! 
E aqui se põe á espreita, 
Que viesse algum carrão.

A mana, n'um repellão, 
De enfado e Dona Francisca, 
Dão meia volta á direita 
E cada uma se sisca, 
Por aquella escuridão! 

Diz o padre: "Está bonita... 
Que bella illuminação!
Isto ninguém acredita 
E perco eu p'r'um tostão 
O ver a... Linda Chiquita!"

Volta o Gambôa: "Ora bolas! 
A Chiquita está na França, 
Hoje era opera com dança, 
E musica com castanholas. 
Era a Carmen de Bizet; 
Meu q'rido padre José, 
Bem se vê que é de Alcoentre, 
Hoje não tinha voce, 
A bella dança do ventre."

As duas pequenas riam; 
No rapaz dera-lhe o somno, 
Caminhando como um mono, 
Muito atraz de quantos iam.

Passavam mil franchinotes
Cantarolando em tropel, 
Com lanternas de papel, 
Dizendo ao rancho dichotes.

Vários faias e fadistas, 
Bem diziam os grèvistas, 
Por darem occasião, 
A tamanha reinação!

A mana, de olhar tirano, 
Suando-lhe toda a fronte, 
Exclamava: "Mano! oh! mano,
Temos Maria da Fonte!"

O padre temia então, 
Que a guarda municipal, 
Atirasse um esquadrão, 
Pr'o meio da capital! 

E deu um enorme grito, 
Com entono doloroso, 
Quando ouviu uns sons de apito, 
No Paço do Bemformoso! 

D. Francisca já dava, 
No marido alta desanda, 
Por ter ido á Outra Banda, 
toda se arrepellava! 

"Você é que teve a culpa, 
De em tempo de revol'ções, 
Sahir co'a gente a funcçoes,. 
Não tem nenhuma desculpa.

Antes ter ido a Queluz, 
Antes termos ido a Bellas, 
Não andavamos sem luz, 
Nem lá ás apaldadellas!"

(Grita o Gambôa)

Não foi por poupar dinheiro, 
Que eu não sou pelintra, 
O que propuz eu primeiro?... 
Foi que fossemos a Cintra. 

(A mana)

"Pois eu gostei de Cacilhas."
Então acordam as filhas: 
Ter ido. a Cintra?!... Meus Deus! 
Eu cá não ia mamã, 
Com uns vestidos de lã... 
Com estes velhos chapéos... 
Com estes grandes cuxixos... 
P'ra nos tomarem por bixos, 
P'ra rirem da gente toda! 
Com uns monos d'uns vestidos, 
Que além de estar encardidos, 
As mangas não têm á moda! 

(Grita : a mana)

Abanar-se com o leque, 
"Eu a Cintra não iria, 
Com este meu cazbueque... 
O high-life... o que diria?... 
E lá que a terra é tão fria... 
E que tão janota é tudo... 
Com vestido de velludo, 
Eu só lá passearia." 

(Gambôa azoado)

Fallaram as figuronas... 
Fallaram as paspalhonas... 
Já tudo aqui me atazana! 
E fallou também a mana, 
Rainha das tafulonas!... 
Pretenciosa liró... 
Que ainda sonha em derriços. 
Com cinco dentes postiços, 
E um amarello chinó.

Sente-se um grito afflicto! 
E a exclamação: "Eu caio!" 
A velha teve um desmaio, 
Um valente faniquito!

Torna a si.—Grito geral, 
"Tudo ao Principe Real!"

A creada então dizia, 
Olhando para o theatro: 
"Valha-me Santa Maria! 
Ai, meu rico 104."


(1) Diário Illustrado, 16 de agosto de 1896

Grande passeio à Outra Banda (8 de 10)

Este conto vai a fio,
Que eu não desejo lacunas,
Desembarcaram sem frio,
Todos no caes das Columnas.

Mal pozeram pé em terra,
Se a memoria me não erra,
Com esta o padre se sahe:
"Uma lembrança aqui vai,
Attenção, que fallo eu!
Para o dia ser em cheio,
O final d'este passeio,
Deve ser no... Colyseu."

Alegres, felizes almas!
Proposta de extremo agrado!
As filhas batem as palmas,
E tudo grita: "Apoiado."

A mana, isto olvidou,
Mencionar; mas sempre achou,
Aqui agora o relato,
O negregado sapato,
Que perdeu no Caramujo.
E logo grita: Eu não fujo,
A ir a quaesquer funcções,
Que idéa monumental!
Vamos lá para a geral,
P'r'o logar de dois tostões.

Mas que é isto?! (diz Gamboa,)
Com a maior expansão,
Eu vejo toda a Lisboa,
N'uma extrema escuridão?!...

Dona Francisca: "Ih! Jesus!
A cidade está sem luz!...
Meninas! dêm-me a mão!
Como é que isto se descreve?!
Diga lá quem for capaz..."

Acode o padre: "E' a gréve,
Da companhia do gaz!"

(D. Francisca)

"A caminho, já em frente,
Todos chegados a nós...
Vocês filhas... não vão sós...
Padre José! não se ausente!

Até me tremem as pernas!
A noite está como um breu!
Lá vejo duas lanternas...
Mesmo acolá... vejo-as eu...
Do cor verde transparente...
Não m'engano... não m'engano.
É um carro americano,
Que vai para o Intendente..."

Aqui tropeço... ali cáio...
Aqui subo... ali esbarro...
Todos sobem para o carro...
Que era um antigo pangaio.

Mas ao Coliseo chegados,
Não se dava o espectáculo,
O gaz era o obstáculo,
E muitos grupos zangados,
Também ficaram logrados!

Tudo queixumes e bulha,
Praguejando um tal vaivém!
Uns vieram da Pampulha,
Outros d'Alcant'ra, e Belem!
A discussão era rica,
E tudo ali a gritar,
Tudo contra a companhia!
Uns que vinham de Bemfica,
E outros do Lumiar.
Era enorme a "engresia"!

Todos estavam em brasa!
Os que tinham lá em casa,
Na sua q'rida casinha,
Fogões a gaz na cosinha,
Lastimavam em berreiros,
Contra a companhia então,
A falta dos fogareiros,
Do clássico carvão!

Furiosos grupos vários!
Gritavam os emprezarios,
A protestarem ufanos,
Já contra perdas, e damnos.

Apostrophava-se ao sério,
A policia, o ministério,
E a camara municipal!
Quando o Gamboa então diz:
"Vamos já padre Luiz,
Tudo ao Príncipe Real."

Eis começa a discussão,
(Estas scenas idolatro!)
Se haviam d'ir ao theatro,
Ou se para casa então.

(P.S.)

N'esta historia verdadeira,
Que aqui conto toda inteira,
Uma surpreza verão,
E não é nada pequena...
Vai-lhes appar'cer em scena,
Um illustre figurão.

Será algum deputado
Será ministro d'Estado? 
Algum militar ousado? 
Africanista notado?

Leitor, tenha paciência, 
Espere Vossa Excellencia, 
Que ficará inteirado, 
De tudo que é... s'il vous plait.


(1) Diário Illustrado, 15 de agosto de 1896

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (7 de 10)

Varias strophes do Fado,
O padre mais cantarola,
E em ouvil-o enthusiasmado,
Todo o rancho se consola.

Fadistas, Rafael Bordalo Pinheiro, 1877.
Gravura, João Pedroso.

Era um barytono o padre,
Muito bom em toda a parte,
Declarava-o um seu compadre,
Mais o Antonio Duarte,

O fadista, Typos Populares de Lisboa, 1904.
  Alberto Souza

D'ahi, na Sé foi cantor,
E no canto religioso,
Sempre muito mavioso,
Com sentimento e amor!

Elle dava o dó do peito,
Como se fosse um tenor!
Era musico a preceito,
Representava, era actor.

Aos outros 'té dava ajudas,
Sem vaidade, nem papalvo;
Nas notas então agudas,
Pondo os seus olhos em alvo,
Era o que se chama: um barra!
Um valente pistarola!
Outro Gaspar da viola,
Hoje onde é que isto se agarra?!

O Gaspar da Viola, Manuel de Macedo.
Imagem: Ilustração Antiga

Estava elle agora rouco,
Por fazer uso de mais,
De uns líquidos especiaes,
Do Cartaxo e do Samouco.

Mas no bote lá á vella,
A sua voz retenia,
E com que chiste dizia,
Dando muita pescadella.

"Para as torradas manteiga,
Saborosa como o créme,
Posta por criada meiga,
Que ali vae sentada ao léme!"

Rindo muito a Annunciada,
Agora o leitor que pensa?
Pediu aos patrões licença,
E um pouco envergonhada,
Logo canta sem detença,
Esta resposta acertada:

"Mesmo triste creatura;
Eu agradeço, ólare!
O verso, n'uma mesura,
Ao senhor padre José."

A mana deu tal risada,
Com a graça da criada,
Que afflicta quasi desmaia,
Dizendo em voz de falsete:

"Estoirou-me o cós da saia!
E rebentou-me o collete!"

E tudo ria e cantava...
Que ali só prazer reinava.

Dona Henriqueta depressa,
Elegante então começa:
A minh'alma aqui não treme,
P'ra responder, meu senhor;
Mas no barco do amor,
Ninguém sabe andar ao leme!
Se o coração muito geme,
Se o espirito não reflecte,
Se o pouco pensar se mete,
Em q'rer dar ao peito as leis;
Perde-se o barco... vereis,
E a gente se compromette."

Elegante, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro

Tocou então o delirio,
O enthusiasmo geral!
Mais trinte de que o martyrio,
Cantou um anjo ideal!...

A mãe, beijou a filhinha,
Mil festas, fez-lhe o papá,
A tia, á q'rida sobrinha,
Muitos abraços lhe dá;
Esta, taes caricias troca,
Com caricias mui feliz;
E até o padre Luiz,
Lhe ferrou uma beijoca!

Alguns dos companheiros de quarentena no Lazareto, Rafael Bordalo Pinheiro.
Imagem: António Correia, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

O que parece impossivel,
O que é mesmo, mesmo incrível,
Talvez ninguém acredite!
Foi fazer o ar do mar,
N'um prompto ressuscitar,
Em todos o apetite!

E foi Gambôa o primeiro,
Que exclamou muito depressa,
Com ar todo prazenteiro:

"Onde é que está a condessa?
Francisca! mana! Henriqueta,
Vocês não façam careta,
Ao que eu vou propor agora.
O padre José, que adora,
A bella gastronomia,
Também nos faz companhia.

Salta a condessa tão linda
Salta a condessa que ainda,
Ha lá muita carne assada,
Uvas, laranjas e não,
Seja eterna esta função,
A pandega abençoada !"

"Cá está o padre presente,
Cá está o padre contente,
Que o expediente bom acha;
Aqui no meio do rio,
Desaparece o fastio,
Mas que apareça a borracha."

"Não ha pucaras, nem ha copos!" 
Dizem as lindas meninas. 

Nas sociedades mais finas, 
Fidalgos até eu topo-os, 
Que bebem ruido a primor, 
Seja lá por onde for!

Uma borga na horta das tripas, Raphael Bordallo Pinheiro, O António Maria n.° 305, 1891.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foram comer mais... Espanto! 
Padre, Filho, Espirito Santo!!!


(1) Diário Illustrado, 14 de agosto de 1896