domingo, 30 de outubro de 2022

Maria da Lua (Conceição Lamosa)

Fernanda de Castro (1900-1994)

«A vida está difícil, ninguém sabe o que será o dia de amanhã. É preciso pensar no futuro e, por isso, desejo que também as pequenas, e não só os pequenos, estudem a sério e façam exames. Sei que esta carta vai estalar como uma bomba nessa casa que sempre me pareceu — lembras-te, Anica? — a casa da Bela Adormecida, mas tenham paciência... bem sabem que só tenho um desejo, uma preocupação na vida: garantir aos meus filhos um mínimo de felicidade, pô-los, tanto quanto possível, ao abrigo das más surpresas da vida».


Retrato de Fernanda de Castro por Tarsila do Amaral (detalhe), 1922.
Governo de S. Paulo, acervo dos palácios

Não se enganara o pai ao prever que esta carta rebentaria como uma bomba na tranquila casa cor-de-rosa. Sufocada, a tia Emiliana deu largas à sua indignação: — Exames! Era só o que faltava! Os rapazes, vá, que são homens, e aos homens tudo se perdoa, nada lhes fica mal!.…. Mas as meninas?! Sujeitá-las a um vexame desses?! E para quê, sempre queria que me dissessem! Para que precisará de exames uma filha de família, uma mãe dos seus filhos, uma senhora da sua casa?

A partir deste dia a atmosfera da casa mudou por completo. Os rapazes, de mala às costs, iam todas as manhãs para a escola. Desciam a escada a correr e, ao sair, atiravam com a porta. Cada vez que os ouvia, a tia Emiliana, que estava a tomar o seu chá ou a ler o jornal, não perdia a ocasião de dizer com ironia: — Parecem uns carroceiros. Por este andar, não tarda que cuspam no chão. Estão muito adiantados, têm aprendido muito.

Maria da Lua e Princesa tinham mestras em casa. A escolha destas mestras fora penosa e difícil. O director da escola da Câmara — escola que, com grande indignação da tia Emiliana, os rapazes frequentavam por não haver outra capaz nas imediações — aconselhara uma professora da sua escola, pessoa instruída, séria, de confiança, que, depois das aulas, poderia perfeitamente ocupar-se da educação das meninas. — É uma pessoa competente, que nunca teve um desaire nos exames. Ainda o ano passado apresentou vinte alunas e todas ficaram aprovadas ou distintas.

Retrato de Fernanda de Castro por Anita Malfatti (detalhe), 1922.

— Era só o que faltava! — sibilou a tia Emiliana, A Conceição Lamosa a dar lições às minhas sobrinhas! Ainda me lembro de ver a mãe a vender criação às portas! — Que se há-de fazer, minha tia? Não temos por onde escolher, é a única pessoa competente destes sítios.

— A única? Então a Alzira... a Alzirinha? Essa, ao menos, é uma senhora, tem maneiras, sempre é filha de um major... — Não pode ser, minha tia... A Alzira estava bem, escapava, para os ensinar a ler e a escrever... Mas agora, que têm de ir a exame, precisam de aprender gramática, aritmética, geografia, coisas que ela não conhece nem de nome.


Finalmente, para evitar o mal-estar que, certamente, resultaria de uma intransigência absoluta, Conceição Lamosa, a filha da galinheira, tomou conta de Maria da Lua, Alzirinha, a filha do major, encarregou-se dos estudos da Princesa que, pela sua extrema simplicidade — a Princesa tinha apenas de fazer o 1.° grau — não requeriam ainda ciência especial, conhecimentos pedagógicos especiais.

A tia Emiliana, quando ouvia a campainha da porta duas vezes por dia, desabafava com Guilhermina: — Parece um portão de quinta... Quem quer entra e sai sem pedir licença, como na botica! Até a Lamosa!

Guilhermina abanava a cabeça e remoía velhas queixas: — Ainda se ao menos vendesse criação capaz! Mas qual! Eram só patos magros, galinhas tísicas que não deixavam nem uma olha na canja! E agora a fillha, de cadeira, a dar leis como se tivesse o rei na barriga!

— Modas novas, Guilhermina.….. Dizem que agora é assim, que nós é que estamos velhas... (1)



(1) Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945

Artigos relacionados:
Maria da Lua (retratos do passado)
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício (Google search)
José Dionísio Telles de Castro Aparício (Google search)
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)
Atlântico n.º 5, 1944, Maria da Lua, por Fernanda de Castro, duas ilustrações de Ofélia Marques



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

sábado, 29 de outubro de 2022

Maria da Lua (retratos do passado)

Fernanda de Castro (1900-1994)

No tempo da guerra civil, das lutas entre liberais e miguelistas, o avô materno (Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício van Odyck), partidário de D. Miguel, e o irmão daquele, o tio José Dionísio (Telles de Castro Aparício van Odyck), fiel a D. Pedro IV, haviam gasto rios de dinheiro pelas respectivas causas, vendendo aqui, hipotecando além, fanáticos, apaixonados, adorando-se como irmãos, odiando-se como adversários políticos.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Alternadamente no exílio, a caminho da América ou da Inglaterra o avô António Feliciano fizera as campanhas do Rio da Prata, o tio José Dionísio estivera em Plymouth com Palmela e daí embarcara clandestinamente para os Açores — haviam sido forçados a trocar vinho e cortiça por bolsas de libras que a mãe, a avó Ana Francisca (Telles de Castro Rolim van Odick?), lhes mandava às escondidas por emissários embuçados e fiéis.

Uma vez, contava-o com orgulho, chegara mesmo a ir a bordo, disfarçada de vendedeira de ovos, levar dinheiro ao filho mais novo, passageiro clandestino de um veleiro, que, aclamado D. Miguel, ia esconder nos nevoeiros de Londres a sua amarga desilusão.

Depois, quando tudo serenara, quando, assinada a Convenção de Évora-Monte, D. Miguel embarcara para Génova, quando, por morte de D. Pedro IV, subira ao trono D. Maria II, amnistiando os presos políticos, pondo fim às lutas fratricidas, o avô António Feliciano enterrara-se na Quinta e procurava salvar os destroços do naufrágio.

O irmão, desiludido de uma liberdade que permitia desmandos e abusos de toda a espécie, declinou honras e favores a que tinha direito e refugiou-se igualmente na velha casa familiar.

Os dois irmãos, morta a paixão política, abraçaram-se e fizeram as pazes. Trataram então de desenterrar as pratas, de vender aqui para resgatar além, de percorrer a cavalo matas e olivais, de afirmar direitos sobre velhos foros, de visitar rendeiros e feitores.

A casa, desmantelada, começou a reviver, como árvore doente a que o sacrifício dalgumas ramadas restitui o vigor. Sem tornar a ser o que fora nos tempos de oiro da avó Ana Francisca, senhora de extensas matas de cortiça, a fortuna da casa parecera equilibrar-se, permitindo à família um desafogo, um bem-estar que havia muito não conhecia.

A casa cor-de-rosa, ilustração de Manuel Lapa, 1945, para o livro de Fernanda de Castro,
Maria da Lua, história de uma casa, 3.a edição, 1960, Livraria Tavares Martins
prémio Ricardo Malheiros, 1945

Voltaram então a ter carruagem, criados, mesa posta para amigos e parentes. Depois, a morte levara a avó Ana Francisca, e a fortuna, ainda mal refeita do abalo que sofrera, não resistira a desequilíbrio provocado pelas partilhas.

O tio José Dionísio, liquidada a herança, fora viver para a Beira, one a administração das propriedades da mulher exigia a sua presença. E o avô António Feliciano, que estava longe de possuir as qualidades de administrador do irmão — a prudência, a moderação, o equilíbrio — vira-se forçado a consentir o casamento da filha com o cunhado (Francisco Liberato e Silva), trinta anos mais velho, a fim de assegurar a educação dos quatro filhos varões, que destinara à carreira das armas.

Sem deixar de lamentar a mãe, casada aos dezasseis anos com um homem de quase cinquenta que nunca deixou de tratar por «tio», a tia Emiliana admirava secretamente aquele avò autoritário que, para salvar a casa, o prestígio do nome, não hesitara em sacrificar a filha.

No íntimo do seu coração, o avô era o seu modelo, o seu conselheiro invisível. «Que faria o avô, se fosse vivo?». E o avò, do fundo do seu silêncio, do alto do seu orgulho, não deixava nunca de lhe responder.

Naquela manhã, emoldurado de talha dourada, com o seu belo fardamento de lanceiros, olhou-a com uns olhos agudos e disse-lhe: — «Na nossa família nunca ninguém vendeu nada. Não comece a menina por vender o que não tem preço: a dignidade, o orgulho...» (...)

ooOoo

A sala onde se encontravam era a mais espaçosa da casa. Tinha duas janelas de peito e duas sacadas com grades verdes e cortinas de renda nas vidraças. Um piano de cauda, de camurças gastas, ocupava um dos cantos da sala. Uma alcatifa cobria o chão e abafava o ruído dos passos. Reposteiros de seda verde, puídos e desbotados, escondiam as portas.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Sobre as mesas, as consoles, as étagères, álbuns de retratos, jarras com flores de seda, miniaturas, bibelots de Saxe. A mobilia Império, hirta e rebarbativa, alternava com esses sofás, essas cadeiras, essas mesas sem estilo que o tempo nobilita, parentes pobres da casa, adoptados pelo hábito. Numa das paredes, um fogão de sala ladeado por duas poltronas de peluche verde. Na parede oposta, um espelho com a sua moldura de talha dourada.

Sobre a chaminé, um brasão bordado a oiro e a vermelho, caprichosa mistura de dragões e de flores de lis, e dois retratos a óleo: o trisavò Marechal e o avô miguelista que, no tempo do Senhor D. Pedro IV, andara a monte e tivera de emigrar para Inglaterra.

E, finalmente, junto de uma das sacadas, o «canto da avó», com a sua poltrona de molas cansadas e a sua mesa de profundas gavetas. (1)


(1) Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945

Artigos relacionados:
Maria da Lua (Conceição Lamosa)
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício (Google search)
José Dionísio Telles de Castro Aparício (Google search)
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)
Atlântico n.º 5, 1944, Maria da Lua, por Fernanda de Castro, duas ilustrações de Ofélia Marques



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

A casa cor-de-rosa

Fernanda de Castro (1900-1994)

Quando voltei de África, esmagada pelo horror das últimas semanas, compreendi logo que a casa da minha infância já não era a casa da minha infância. Os móveis eram os mesmos e estavam no mesmo sítio, as dimensões do sótão eram as mesmas, as flores continuavam a desabrochar nos canteiros da tia Emiliana, a malva-rosa continuava a enfeitar o muro esboroado do velho poço, do mirante via-se o mesmo Tejo e avistavam-se as mesmas gaivotas e as mesmas fragatas. E, contudo, nada estava igual, tudo parecia diferente.

Fernanda de Castro e Antoninho Gabriel (detalhe) por Sarah Affonso, 1928.
MNAC/Flickr

Levei muito tempo mas acabei por compreender que a mudança não estava nas coisas, mas nas pessoas. Todos andavam vestidos de preto, incluindo as criadas que há muito faziam parte da família. Ninguém punha uma flor numa jarra, as portadas das janelas estavam fechadas e as janelas só se descerravam à noitinha, não fosse entrar um raio de Sol que aliviasse, por momento que fosse, o luto das paredes e das pessoas.

A minha bisavó, que era, como o meu pai dizia, a trave mestra da casa, fora a única que reprovara, que não aceitara o luto integral. Sobre o vestido de là de todos os dias, sobre o vestido de seda preta lavrada dos domingos e das visitas, usava um grande avental de seda roxa com uma algibeira de onde continuavam a sair maravilhas: libras, cigarros e garrafinhas de chocolate, berlindes e abafadores coloridos para os rapazes, cautelas sempre brancas para o tio António.

Um dia apareceu uma modista com figurinos e amostras de tecidos pretos e dias depois a minha irmà e eu tínhamos os nossos vestidos de luto pesado, sem os quais não poderíamos ir à rua. Porque era a mais velha, o meu vestido tinha uma golinha de crepe também preto. Quando a minha avó me viu com aquele vestido, pálida, triste e desajeitada, pegou deliberadamente numa tesoura, descoseu a golinha de crepe que mandou substituir por outra de piquet branco sem se importar absolutamente nada com o mau humor e a reprovação da tia Emiliana.

— Que vão pensar, minha mãe, quando virem a pequena, já tão crescida, de luto aliviado dois meses depois de lhe ter morrido a mãe? (...)

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900.
Delcampe

Não, a casa da minha infância já não é a casa da minha infância. Agora, mais do que nunca, está vazia, para sempre vazia. Numa noite de Verão, calma e sem sofrimento, a minha avó adormeceu e nunca mais acordou.

A casa inteira ficou outra vez de luto pesado, mas desta vez, como ela queria, não se fecharam janelas, e na velha terrina da Índia, no meio da mesa, havia sempre rosas frescas, as rosas da tia Emiliana que não ousou desta vez ignorar as últimas vontades da mãe, vontades não expressas em cartas ou testamentos, mas em toda a sua vida de noventa e sete anos.

As pessoas agora movem-se na casa como fantasmas, como se nenhum gesto tivesse já razão de ser, como se o silêncio fosse a única linguagem da casa deserta.

Acabados para sempre os mistérios do sótão, os segredos do poço, o óculo do mirante pelo qual se via o Tejo até à barra. Acabadas a malva-rosa, a mesa de pedra das merendas e as rosas-de-toucar: a casa já não pertence à família.

Aliás a família já não se interessa pela casa que não é a mesma, sem a mãe, sem a avó, sem as rosas da tia Emiliana, sem as crianças que em breve serão adolescentes, com saudades de si próprias e do puro cristal das suas almas.

Quando a casa se vendeu e a família se dispersou, surgiu nas nossas vidas uma nova personagem (...)

Quando fechei pela última vez a porta da casa cor-de-rosa puxando pela mãozinha de ferro que era o batente dessa porta, sabia perfeitamente que não estava só a despedir-me da casa e da quinta, do mirante e do poço nem mesmo das presenças invisíveis mas muito reais da minha avó e da minha mãe, mas ainda e sobretudo da minha infância.

Cacilhas, Rua Direita (ed. Martins & Silva para distribuidor local), década de 1900
Delcampe, Oliveira

Ficavam ali para sempre os meus últimos bibes de menina, as últimas fitas que prendiam as minhas tranças, os meus pequenos sonhos, os meus pequenos segredos. Os meus pequenos segredos... Lembras-te, Pedro?

Uns amigos dos meus pais tinham um filho que vinha às vezes passar o dia connosco. Chamava-se Pedro e era um pouco mais velho do que eu. Um dia pegou-me por um braço, levou-me para um canto, e meteu-me na mão um embrulhinho, dizendo-me em voz baixa, quase ao ouvido:

— Não o percas, não o deites fora! Olhei para ele com espanto e afastei-me para ver o que tinha dentro o papelinho. Era um pequeno coração de barro que tinha um P gravado dum lado e um F do outro. Não me foram precisos muitos segundos para perceber que P queria dizer Pedro e F, Fernanda. Apertei com força o pequeno coração pensando no que ia fazer, até que resolvi enterrá-lo à sombra da amoreira.

"Não, Pedro, um coração não é coisa que se deite tora". Com um sacho abri uma pequena cova, forrei-a com musgo tenro, pus o coração sobre o musgo e tapei-o com duas rosi- nhas-de-toucar. Depois enchi a cova de terra que calquei e alisei com as mãos.

Fernanda de Castro e Antoninho Gabriel por Sarah Affonso, 1928.
MNAC/Flickr

Passaram anos e só hoje, Pedro, ao fechar a porta da casa cor-de-rosa pela última vez me surpreendi a pensar: "O que será feito do coraçãozinho de barro? Terá sido desenterrado pelo vento e pela chuva, calcado por uma bota ferro ferrada ou pelo ferro duma enxada ou continuará intacto sob os cadáveres de duas rosas-de-toucar?" (1)


(1) Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986

Artigos relacionados:
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira

O Laboratório-fábrica situado na Margueira existiria pelo menos desde 1825, ano em que foi elevado à categoria de fábrica de produtos químicos, com a atribuição do privilégio exclusivo de produção de ácido sulfúrico durante 14 anos (a existência do laboratórrio é mesmo anterior a 1825, v. imagem abaixo, c. 1809). (1)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
(documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa)

Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Graphite Drawing, Southern Bank of Mouth of Tagus, C. L. Robertson, depois de 1866.
Sulis Fine Art

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica.

Graphite Drawing, Southern Bank of Tagus opposite Lisbon (detail), C. L. Robertson, depois de 1866.
Sulis Fine Art

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (2)

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

João António Pereira Serzedello & Companhia, "Droguista e comércio de produtos químicos" instalou-se no início do século XIX na Rua Direita de São Paulo, n.º 53, em Lisboa. Mais tarde, João A. P. Serzedello fundava com os sobrinhos José António, António José e António Joaquim a Serzedello & Companhia sediada no Largo do Corpo Santo, n.º 7. Em 1824, o tio João António deixa a sociedade, ficando este com a firma que já tinha constituído em 1822 (...)

Foi vendido à família Serzedello, em 1844, e a sua exploração ganhou um considerável desenvolvimento a partir de 1848, altura em que se deverá ter procedido a reformas tecnológicas, tendo-se tornado um estabelecimento de referência no âmbito da química e da farmácia, com participação em exposições universais onde recebeu distinções e nomeações pelos seus produtos.

Serzedello & Ca., década de 1840
(documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa)



Em 1855 o laboratório da Margueira produzia ácido clorídrico e nítrico, diversos sais de chumbo e mercúrio, dissoluções de sais (de nitrato de cobre e de cloreto de antimónio) e nitratos (de potássio, de bismuto, de prata, entre outros), os “tártaros”, a potassa cáustica (hidróxido de potássio), etc.

Em 1852 a fábrica tinha seis operários. Laborou praticamente até ao século XX. Nela operaram 4 a 5 gerações da família Serzedello. (2)


(1) Ângela Ferraz, Materiais e Técnicas da Pintura a Óleo em Portugal (1836-1914): Estudo das fontes documentais, Volume II
(2) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática... Universidade de Évora, 2016,
(3) Ângela Ferraz, Materiais e Técnicas da Pintura a Óleo em Portugal (1836-1914): idem

Artigos relacionados:
A casa da Quinta da Oliveira
Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

Leitura relacionada:
RELATORIO GERAL DA EXPOSIÇÃO DE PRODUCTOS DE INDUSTRIA PORTUGUEZA, SOCIEDADE PROMOTORA DA INDUSTRIA NACIONAL, EM 22 DE JULHO DE 1838

International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado

Mais informação:
"Janêllos" da História: Os Serzedello

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Quinta do Forte ou do Armeiro-Mor (ou do dito dito) no Pragal

Com o nome de Armeiro-Mor (...) compreendia a quinta que no século XIX se chamou do Forte (...) Nesta propriedade construiu-se em 1810-1811 o Forte que foi chamado de Armeiro-Mor (n.° 17 das linhas de defesa da margem Sul de Tejo, alt. 80 m) o qual está na origem do nome de Quinta do Forte.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813.
Instituto Geográfico do Exército

A quinta (...) pertencia no Século XVIII aos Costas, Armeiros-Mores do reino, que foram condes e viscondes de Mesquitela.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Internet Archive

Os Costas possuiram na Mutela um palácio que anda noje existe, muito degradado, e um moinno de maré (v. artigo dedicado: Moinho do Mesquitela), além de outras quintas no termo de Almada (...) a Quinta dos Costas à Mutela foi também conhecida por quinta do Armeiro-Mor. (1)


(1) Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Câmara Municipal de Almada, 2003

Artigos relacionados:
Defesa de Lisboa em 1810 (I)
Defesa de Lisboa em 1810 (II)
Defesa de Lisboa em 1810 (III)
Moinho do Mesquitela
Panorâmicas do Pragal
Quinta de São Pedro no Pragal
etc.

Leitura adicional:
Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engineers
Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, in Spain, during the years 1811 to 1814

Mais informação:
Friends of the Lines of Torres Vedras (Forts on the Fourth Line to the South of the River Tagus)

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Quinta de São Pedro no Pragal

Quinta ao Pragal, no extremo da povoação, do lado sul da EN. 377, junto ao viaduto por onde esta estrada transpõe a auto-estrada do Sul (...)

Pragal, Quinta de S. Pedro, Augusto de Jesus Fernandes.
Arquivo Municipal de Lisboa

Quando se construiu a auto-estrada do Sul, a A2, a quinta foi retalhada tendo desaparecido o lado oeste da quinta, salvou-se da demolição a entrada da quinta constituída por um magnifico portal do Século XVIII e também um painel de azulejos da mesma época e a antiga adega, hoje recuperada para habitação (...)

Pragal, Quinta de S. Pedro, Augusto de Jesus Fernandes.
Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1900 pertencia a Salvador Duarte Ferreira e, em data que desconhecemos, entrou na posse de Jose Carlos da Maia o conhecido politico republicano assassinado em 1921.

É agora (2003) habitada, na parte que dela restà, por um neto daquele, o pintor de arte (José) Carlos da Maia. Com o nome de S. Pedro hà outra quinta na Freguesia da Caparica (...) (1)

Planta da Quinta do Ill.mo e Ex.mo Snr. Principal de Sousa sita no lugar do Pragal, termo da vila de Almada levantada em Setembro de 1803. Dedicada a Ill. ma e Ex.ma D. Marianna de Sousa Coutinho por seu respectuoso e obrigadíssimo creado M.J.N.G. Reduzida do original e calculada por M.M.F. (2)

Planta da quinta do Principal de Sousa sita no Pragal, termo da vila de Almada (detalhe), 1803.
ANTT

Descrição iconogratica de uma quinta caracteristica do termo de Almada no século XIX, com as confrontações, as arcas utilizadas para o cultivo da vinha. horta. lavoura e pomar, os caminhos, as estruturas de apoio à atividade agricola e as áreas funcionais de habitação da casa principal. (3)

Planta com esquema e legenda do interior do edificio (detalhe), 1803.
1. portão 2. entrada, pátio  3. escada exterior com alpendre e pequena varanda 4. corredor 5. salinha bilhar  6. sala 5 janelas 7. passagem para a casa de jantar 8. casa de jantar 9. gabinete de meu pae (pequena livraria) 10. quarto da mmmm (?) 11. escadas para o quarto das criadas 12. o meu quarto 13. pequena sala onde me vestia 14. quarto de meus paes 15. capella 16. pequenas tribunas 17. quarto do mano Rodrigo e da mana 18. casa de passagem e de entrada 19. quarto para hospedes 20. copa, casa de jantar dos criados, escada para o quarto das manas 21. fonte em frente do portão  22. lagar 23. adega 24. poço (allegretes, passeio, horta) 25. jardim exterior 26. entrada para a capella
ANTT

Levantamento topográfico da propriedade rural e planta da casa pertença de D. José Antonio de Meneses e Sousa Coutinho, diacono da igreja Patriarcal de Lisboa e membro do Conselho de Regência do Reino que governou Portugal durante a ausência da corte no Brasil.


Planta da quinta do Principal de Sousa sita no Pragal, termo da vila de Almada, 1803.
ANTT

O Principal de Sousa, membro de uma das famílias abastadas e nobres do reino, é irmão de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, o 1.° Conde de Linhares. A propriedade, conhecida também por Quinta de S. Pedro, foi doada pelo Principal de Sousa às suas irmas D. Mariana e Maria Balbina de Sousa Coutinho. (4)


(1) Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) ANTT
(3) Almada na História, Boletim de Fontes Documentais, n° 27/28, 2014
(4)
Idem
 

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Eunice Relvas, A Lisboa de Gomes Freire (1781-1817), Revista Militar, 2605/2606, Fevereiro/Março de 2019
Daniel Estudante Protásio, Os algozes de Gomes Freire: análise prosopográfica e ideológica de alguns decisores do seu processo
Luis Stau Monteiro, Felizmente há luar!

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Sape na barba

Nasceo este jogo em Cassilhas, inventado pela viuva de hum ferreiro, que estando a fregir humas sardinhas, e hum filho de cinco annos a metter-lhe a mão no prato das fritas por de traz della; a mãi com toda a vigilancia, com huma mão fregia, e com a outra dava na mão do filho, sem nunca a poder pilhar, de que o rapaz gostou tanto, que descorrendo como podia ensinou aos outros o tal joguinho... (1)

A assadeira de sardinhas.
Henri l'Évêque, Costume of Portugal, 1814.


(1) José Daniel Rodrigues da Costa, Comboy de mentiras, vindo do reino petista com a fragata verdade encoberta por capitania

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Humor impresso: cultura e política em "O Espreitador do Mundo Novo"


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