terça-feira, 15 de maio de 2018

Sítio de Olho-de-Boi

Parece que não será no edificio do sr. Raton, mas na Outra-banda, no sitio de Olho-de-boi, que a companhia de "Fiação e Tecidos" vai estabelecer a sua fábrica. N'este último local esteve a fábrica de "lanificios de patente" [panos de feltro?], empresa que está em liquidação.

Olho de Boi, João Vaz, 1887.
Imagem: MNSR

Em qualquer sitio porém que a companhia de "Fiação e Tecidos" se estabeleça, fazemos votos pela sua prosperidade. (1)

Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [fundada em 1838], armazéns, rua dos Fanqueiros 135, Lisboa.

Fonte da Pipa — Almada,
Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tecidos de algodão. Esta companhia tem três fábricas: duas em Santo Amaro, Belem, para a fiação e tecelagem; uma em Olho de Boi, Almada, para a fiação e tinturaria.

Operários (durante as épocas normais): 285 do sexo masculino e 465 do sexo feminino.

Salários: de 280 réis a 800 réis por dia para os homens; de 420 réis a 240 réis por dia para as mulheres; de 80 réis a 460 réis por dia para os menores.

Produção anual: 385 contos de réis mais ou menos. Escoamento: os de Portugal e colónias de África, Brasil e Espanha.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Medalhas nas esposições de Lisboa 1849, Porto 1861, Lisboa 1863, Londres 1861, Londres 1862, Paris 1855, Porto 1865. (2)

*     *
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CPP (Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa)

E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca. (3)

Olho de Boi, Companhia Portuguesa de Pesca, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Companhia Portuguesa de Pesca foi fundada no ano de 1920 por quarto pequenos armadores de pesca de arrasto, cada um proprietário de um navio.

Tipo de arrastão a vapor do início do séclo XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Companhia surgiu num contexto de expansão da indústria conserveira e piscatória.

Inicialmente, os navios dedicados unicamente à pesca por arrastão costeira funcionavam a partir do cais de Santos, na margem norte, em Lisboa. devido ao pouco espaço na margem direita do rio Tejo, por estarem já implantadas algumas das importantes unidades fabris e devido à manutenção e aparelhagem dos navios, a direcção decidiu que era necessário construírem infra-estruturas de apoio.

Arrastões da Companhia Portuguesa de Pesca, Alcatraz e Liberal Primeiro, na Doca 1 da C.U.F., em Lisboa.
Imagem: Caxinas a freguesia

O local escolhido foi a margem esquerda, no Olho de Boi em Almada.

Numa primeira fase, foi celebrado um contrato de aluguer com a Administração Geral do Porto de Lisboa para a zona ribeirinha na margem sul, que ia desde o início do caminho para Almada até à Quinta da Arealva.


Nesta zona encontrava-se já uma muralha, que permitia a acostagem dos arrastões. Esta foi alargada mais tarde com a construção de um cais, assente em pilares, que avançou umas dezenas de metros em relação à estrutura existente, sendo assim possível atingir área profunda e portanto mais favorável à manobra das embarcações.

Lançamento à água do arrastaõ Almada em 1953.
Foram gémeos do Almada na Companhia Portuguesa de pesca os arrastões Alfama, Ajezur, Alvalade e Alfeite.
cf. Navios à vista

A escolha deste local deve-se também ao facto de se encontrar aí um edifício desactivado, que pertencera à Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses, passando este edifício a ser a zona de mecânica da CPP e o pólo das restantes estruturas fabris posteriormente construídas.

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Esta fábrica era uma das unidades industriais cujo aparecimento na segunda metade do séc. XIX foi um dos marcos da industrialização na margem sul.

Navios no cais do Ginjal, Real Bordalo, 1976.
Imagem: eBay

A CPP adquiriu este edifício, assim como algumas quintas contíguas, que se estendiam entre a orla ribeirinha e a arriba.

Cais do Ginjal, arrastões Algol e Alcoa da CPP, 1984.
Imagem: Nuno Bartolomeu

Alguns anos mais tarde a companhia expandiu-se ao longo da zona ribeirinha, para Este, até ao cais da Fonte da Pipa [...] (4)

"Estuário do Tejo - Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO MARTINS HOMEM, da SNAB / foto de autor desconhecido, gentilmente cedida por Nuno Bartolomeu."
cf. Navios à vista
Resolução do Conselho de Ministros n.º 30/84

Pelo Decreto-Lei 139/84, foi extinta a CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, S. A. R. L., tendo o Estado exercido o direito de reserva relativamente a alguns bens do património da empresa, abrangendo navios, participação financeira e direitos de crédito, com a possibilidade de os mesmos serem afectos a outras empresas [...] (5)

Art. 5.º - 1 [Decreto-Lei 139/84]- Ao abrigo do n.º 2 do artigo 44.º do Decreto-Lei 260/76, de 8 de Abril, o Estado reserva, do património da empresa, o seguinte:

1.º - Navios:
a) Aldebaran - Lx-39-A;
b) Alcoa - Lx-30-A;
c) Alcyon - Lx-51-A;
d) Algol - Lx-32-A;
e) Algenib - Lx-41-A;
f) Alvalade - Lx-65-A;
g) Alfeite - Lx-67-A;
h) Alcântara - Lx-19-A;
i) Almada - Lx-57-A;
j) Alcaide - Lx-71-A;
l) Alfama - Lx-59-A;
m) Aljezur - Lx-63-A. [...] (6)


(1) Revista Universal Lisbonense n.° 12, setembro de 1845
(2) Catalogue spécial de la section portugaise à l'Exposition universelle de Paris en 1867
(3) Vidas Lusófonas: Romeu Correia 
(4) Almada Digital
(5) Resolução do Conselho de Ministros 30/84, de 7 de Maio
(6) Decreto-lei 139/84, de 7 de Maio

Artigos relacionados:
O Grémio

Mais informação (Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense):
Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense : relação dos seus accionistas... 1872
Revista da exposição portugueza no Rio de Janeiro em 1879

Mais informação (CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa):
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos)
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos - tabela de excertos)
Restos de Colecção: Companhia Portuguesa de Pesca
Marinha (arquivo histórico)
Navios à vista: o abalroamento do arrastão Alvor
Blogue dos navios e do mar: Fishing vessel Blue


Leitura adicional:
50 anos da Companhia Portuguesa de Pesca, "Jornal do Pescador", Agosto 1970, pp 25-27.
Os Arrastões do Bacalhau



Sobre o Açor e o Alda Benvinda (os primeiros barcos de pesca a vapor em Portugal):
Momentos de História
Agepor 11

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Maria Rosa Colaço (1935-2004)

Abri a porta e eles entraram. Eram quarenta e cinco e faltavam carteiras. Faltavam muitas carteiras, mesmo quando os sentei a três e três e pus cinco na mesa que me destinaram para secretária.

Maria Rosa Colaço.
Imagem: Youtube.

O director chegou e disse: Este é o seu reino e aqui tem os seus "meninos". E sorria. Se tiver sarilhos, a esquadra da polícia fica ao fim da rua.

E eu ali fiquei, face à nova aventura. Não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões-de-coisas... essenciais-ao-dia-a-dia. (1)

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A Criança e a Vida saiu primeiro em Moçambique. Tinha levado comigo para África as redacções das crianças, como quem leva as cartas dos namorados. Um exemplar chegou ao director do ITAU que foi a Moçambique conhecer-me e propor a reedição em Portugal. 

Maria Rosa Colaço e os alunos-poetas de A criança e a vida.
Da esquerda, António Carlos, Vítor Barroca Moreira, a professora, Liís Filipe e Jorge.
Imagem: Romeu Correia, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada... 1978

Eram os anos 60, os estudantes acordavam definitivamente para as tarefas de luta. 

O pequeno livro, que cabia num bolso de casaco, entrou nas universidades como elemento quase mágico e começou a ser uma espécie de santo e senha entre os jovens. As crianças na sua voz lúcida e sem medo tinham escancarado as portas à denúncia dos podres e ao medo que corria nocturno e atento. 

Apesar do burburinho, algumas pessoas duvidaram da autenticidade dos textos. Levaram os miúdos à televisão para ver se os apanhavam em falso.

Um meu aluno que uma vez escreveu "o amor é não haver polícias". No dia da inauguração da Escola Maria Rosa Colaço ele veio de propósito da Suíça para estar ao meu lado. 

E eu perguntei-lhe: "Por que disseste aquilo?"

Então ele confidenciou que tinha escrito aquilo porque na altura o pai estava preso em Caxias, mas não podia contar-me. (2)

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Esta canção, "A Outra Margem", interpretada pelo Luís Represas e pelos Trovante, tem letra de Maria Rosa Colaço.


A Maria Rosa foi-me apresentada pelo escritor Romeu Correia, seu vizinho em Almada.

Foi uma amizade instantânea que começou, ainda nos anos 50, numa tarde de Inverno, no primeiro andar do café Avis nos Restauradores.

Era uma rapariga bonita, inteligente, bondosa, calma, com a sabedoria alentejana do seu Torrão natal a cintilar-lhe nos olhos.

Sobre a nossa amizade, ela descreve, mencionando-a, o cenário em que decorreu em "O Amor Tem Tantos Nomes" (1998), lembrando aqueles anos cinzentos que a nossa juventude, irreverente e lutadora, conseguia colorir.

Alta madrugada, cantávamos debaixo das janelas do Aljube, "Estupidamente, claro, porque os tiranos não se removem com canções nem falsos heroísmos, mas isso eu não, sabia porque aos dezoito anos só sabemos coisas importantes e únicas…", diz Maria Rosa. (3)

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A autora dedica o livro [Gaivota] a todas as crianças que,como Alfredo, são símbolo de sonho e de esperança.

Silhuetas, Artur Pastor (filho),  ed. Rolim.
Imagem: Delcampe

Conto que narra um dia na vida de Alfredo, dito Gaivota [a alcunha vem do facto de correr sobre os pontões de braços abertos]:

"Porque me chamam Gaivota? Está mesmo a ver-se… tenho passado entre os barcos e o Tejo, em cima deste paredão, correndo e escorregando nestas pedras húmidas, mais de metade da minha vida: às vezes, até a pele me sabe a sal."

Alfredo é-nos apresentado como um miúdo pobre na zona de Cacilhas. Vive ao deus-dará, fazendo de tudo um pouco, ou nada. Vive entre a raiva da sua situação e o deslumbramento da vida que o cerca.

Apesar da narração ser de terceira pessoa, passa frequentemente para o ponto de vista do próprio Gaivota, que nos interpela e é interpelado pelo narrador, em que questiona as suas memórias de um tempo mais feliz.

É a época do Natal e estamos perante uma criança desiludida, no entanto as suas reflexões produzem em nós um desejo de pensar também sobre a vida.

No final, perante a proposta de emprego como aprendiz de mecânico toda a felicidade perdida retorna, apesar da perda do pai em condições que não são explicitadas, de acossado pelo padrasto e descuidado pela mãe. (4)

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O cacilheiro, no Tejo, é assim, diariamente, a estrada possível das outras viagens que nunca faremos. 

O Tejo junto ao Cais das Colunas.

Nele começam e acabam as asas e as barbatanas de luz que séculos de adaptação à vida nos têm roubado.

É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.

Dos Mares nunca dantes navegados, restam-nos as viagens à Outra Banda, em persistentes, resistentes cacilheiros, naus familiares que nos ancoram o destino certo.

Indiferente às variantes com que se tem pretendido roubar-lhe a clientela, o cacilheiro do ano 2000 resume o português europeu com saudades inconfessadas das cangas de bois de lavradio que nunca devia ter largado.

No cacilheiro, o mundo é próximo e familiar, os olhares reconhecem-se, o diálogo ainda é possível, os mercadores do penso rápido, dos atacadores e das pilhas para o rádio, circulam intervalo dos cauteleiros, da pedinchice organizada, com cartões na lapela para elucidar os corações prevenidos.

Cais de cacilheiros, Terreiro do Paço, década de 1960.

Penélopes modernas fazem nas viagens do cacilheiro, com mãos hábeis, rendas que se vão tecendo sob o olhar de admiração das viajantes inaptas do banco da frente; jovens estudantes trocam beijos impúdicos, conclusões e cábulas sobre o Discurso do Método de mistura com as estridências dos Ena Pá 2000, que lhes gritam nos ouvidos com auscultadores; poetas experimentais escrevem e reescrevem novas versões incorrectas e mal plagiadas da Ode Marítima porque, em cada português há sempre um Álvaro de Campos à procura da posteridade.

Ao fundo, gaivotas famintas, recortam-se nos ácidos sulfurosos do céu do Barreiro onde o Kira sonha e pinta e o Sousa Pereira escreve poemas à tona da pele.

O cacilheiro, no Tejo, é assim, diariamente, a estrada possível das outras viagens que nunca faremos.


Nele começam e acabam as asas e as barbatanas de luz que séculos de adaptação à vida nos têm roubado.

É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.

Por entre pés, cestas, jornais, indiferença e alguns ouvidos atentos, vai o cego acordeando os fados da sua memória, deixando nas vigias algumas palavras de amor, quanto baste de saudade e as raivas, breves, do nosso fado português.

Ás vezes vou aqui, na amurada do cacilheiro; olho as gaivotas que pairam, voo rasteirinho, voo picado, voo maluco e penso, Liberdade é isto: ser gaivota branca.

Gaivota do Tejo. E mais nada...

Lisboa, Marcha  pela Paz, 1983.
José Saramago, Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues, fotografia de Rui Pacheco.
Imagem: Fundação José Saramago

Porque o resto é tudo conversa. Sem asas, nem espaço. (5)


(1) Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016
(2) A Viagem dos Argonautas
(3) Aventar
(4) Leituras mal amanhadas Maria Rosa Colaço, Gaivota. Edições Nave, 1982
(5) rostos

Mais informação:
Maria Rosa Colaço (blog)
Boletim O Pharol n.° 0, dezembro de 2004
Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016
Antifascistas da Resistência no Facebook
Maria Rosa Colaço no Youtube



Obras de Maria Rosa Colaço [cf. AMR Casa da Leitura]

Como obra de destinatário preferencial infantil publicada ao longo de várias décadas, Maria Rosa Colaço é uma figura marcante do universo de autores portugueses da segunda metade do século XX. A sua produção literária, abarcando a narrativa e o texto dramático, encontra-se centrada no universo infantil.

A partir da leitura dos seus textos, desde O Espanta-Pardais (1961) até O Coração e o Livro (2003), é possível perceber de forma muito clara e precisa a sua concepção de criança e de infância, a sua confiança inabalável nas suas competências e capacidades e a esperança ilimitada que deposita nas gerações mais jovens.

Assim, os textos de Maria Rosa Colaço caracterizam-se pelo facto de serem protagonizados por crianças e cruzados pelo maravilhoso que, de alguma forma, parece tentar superar ou mitigar as carências (afectivas ou materiais) com que os seus heróis se debatem. De índole interventiva e também pedagógica, a obra de Maria Rosa Colaço apela a uma releitura que não esqueça o percurso da autora.

COLAÇO, Maria Rosa (1961): O Espanta-pardais, Lisboa, Sociedade de Expansão Cultural (a edição de 1981, da Plátano, em versão de texto dramático é ilustrada por Ana Maria Duarte de Almeida).
COLAÇO, Maria Rosa (1969) (org.): A criança e a vida, Lisboa, Edições ITAU (ilustrações das crianças).
COLAÇO, Maria Rosa (1982): Sofia e o Caracol, Lisboa, Plátano Editora (ilustração de Ana Maria Duarte d’Almeida).
COLAÇO, Maria Rosa (1983): Maria-Tonta, como eu, s/ local, Distri-Editora.
COLAÇO, Maria Rosa (1984): Aventuras de João-Flor e Joana-Amor, Plátano Editora, Lisboa (ilustração de Ana Duarte de Almeida).
COLAÇO, Maria Rosa (1987): Pássaro Branco, Círculo de Leitores/ Associação Portuguesa para a Educação pela Arte (ilustração de Ana Maria Duarte de Almeida).
COLAÇO, Maria Rosa (1989): Aventura com asas, Porto Editora, Porto (ilustração de Avelino Rocha) [reeditado em 2007, na mesma editora, com ilustrações de Ana Lúcia Pinto].
COLAÇO, Maria Rosa (1989): Gaivota, Lisboa, Caminho (ilustração de António Jorge Gonçalves).
COLAÇO, Maria Rosa (1989): O Mistério da coisinha azul, Plátano Editora, Lisboa (ilustração de Ana Duarte de Almeida).
COLAÇO, Maria Rosa (1990): O Menino e a Estrela, Livros Horizonte, Lisboa (ilustração de Concetta Scuderi).
COLAÇO, Maria Rosa (2003): O Coração e o Livro, Porto, Âmbar (ilustração de António Modesto).

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O Livro do Desassossego

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. 

E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.

Almada, vista de [Alfama, sé patriarcal?] Lisboa, James Holland, 1837.
Imagem: Walker Art Gallery

Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade [...]

O céu negro ao fundo do sul do Tejo era sinistramente negro contra as asas, por contraste, vividamente brancas das gaivotas em voo inquieto. O dia, porém, não estava tempestuoso já. Toda a massa da ameaça da chuva passara para por sobre a outra margem, e a cidade baixa, úmida ainda do pouco que chovera, sorria do chão a um céu cujo Norte se azulava ainda um pouco brancamente. O fresco da Primavera era levemente frio.

Ramalhete de Lisboa, Carlos Botelho, 1935.
Imagem: Wikipédia

Numa hora como esta, vazia e imponderável, apraz-me conduzir voluntariamente o pensamento para uma meditação que nada seja, mas que retenha, na sua limpidez de nula, qualquer coisa da frieza erma do dia esclarecido, com o fundo negro ao longe, e certas intuições, como gaivotas, evocando por contraste o mistério de tudo em grande negrume.

Mas, de repente, em contrário do meu propósito literário íntimo, o fundo negro do céu do Sul evoca-me, por lembrança verdadeira ou falsa, outro céu, talvez visto em outra vida, em um Norte de rio menor, com juncais tristes e sem cidade nenhuma. Sem que eu saiba como, uma paisagem para patos bravos alastra-se-me pela imaginação e é com a nitidez de um sonho raro que me sinto próximo da extensão que imagino.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Terra de juncais à beira de rios, terreno para caçadores e angústias, as margens irregulares entram, como pequenos cabos sujos, nas águas cor de chumbo amarelo, e reentram em baías limosas, para barcos de quase brinquedo, em ribeiras que têm água a luzir à tona de lama oculta entre as hastes verde-negras dos juncos, por onde se não pode andar.

A desolação é de um céu cinzento morto, aqui e ali arrepanhando-se em nuvens mais negras que o tom do céu. Não sinto vento, mas há-o, e a outra margem, afinal, é uma ilha longa, por detrás da qual se divisa — grande e abandonado rio! — a outra margem verdadeira, deitada na distância sem relevo.

Ninguém ali chega, nem chegará. Ainda que, por uma fuga contraditória do tempo e do espaço, eu pudesse evadir-me do mundo para essa paisagem, ninguém ali chegaria nunca. Esperaria em vão o que não saberia que esperava, nem haveria senão, no fim de tudo, um cair lento da noite, tornando-se todo o espaço, lentamente, da cor das nuvens mais negras, que pouco a pouco se mergiam [sic] no conjunto abolido do céu.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros , 1956.
Imagem: Lisboa Desaparecida

E, de repente, sinto aqui o frio de ali. Toca-me no corpo, vindo dos ossos. Respiro alto e desperto. O homem, que cruza comigo sob a Arcada ao pé da Bolsa, olha-me com uma desconfiança de quem não sabe explicar. 

O céu negro, apertando-se, desceu mais baixo sobre o Sul [...]

Cada vez que assim contemplo uma extensão larga, e me abandono do metro e setenta de altura, e sessenta e um quilos de peso, em que fisicamente consisto, tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento.

Lisboa, Maluda.
Imagem: maluda.eu

O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo  [...]

A ideia de viajar nauseia-me.

Já vi tudo que nunca tinha visto.

Já vi tudo que ainda não vi.

O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.

Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.

Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.

Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.

De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.

Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.

Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito.

A multidão aguardando o ministro na villa de Cacilhas, Joshua Benoliel, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.

Quando se sente demais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

Como nos dias em que a trovoada se prepara e os ruídos da rua falam alto com uma voz solitária.

A rua franziu-se de luz intensa e pálida, e o negrume baço tremeu, de leste a oeste do mundo, com um estrondo feito de escangalhamentos ecoantes… A tristeza dura da chuva bruta piorou o ar negro de intensidade feia. Frio, morno, quente — tudo ao mesmo tempo —, o ar em toda a parte era errado. E, a seguir, pela ampla sala uma cunha de luz metálica abriu brecha nos repousos dos corpos humanos, e, com o sobressalto gelado, um pedregulho de som bateu em toda a parte, esfacelando-se com silêncio duro.

O som da chuva diminui como uma voz de menos peso. O ruído das ruas diminui angustiantemente.

Nova luz, de um amarelado rápido, tolda o negrume surdo, mas houve agora uma respiração possível antes que o punho do som trêmulo ecoasse súbito doutro ponto; como uma despedida zangada, a trovoada começava a aqui não estar com um sussurro arrastado e findo, sem luz na luz que aumentava, o tremor da trovoada acalmava nos largos longes — rodava em Almada...

Lisboa, Avenida da Liberdade, década de 1900, publ. Mala da Europa.
Imagem: FCSH +Lisboa

Uma súbita luz formidável estilhaçou-se. Tudo estacou. Os corações pararam um momento. Todos são pessoas muito sensíveis. O silêncio aterra como se houvera morte. O som da chuva que aumenta alivia como lágrimas de tudo. Há chumbo [...]

A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que recomeçar a vida.) E tudo aquilo — toda esta frescura lenta da manhã leve, era análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.

O carro descia lentamente, a caminho das avenidas. À medida que se aproximava do maior aglomeramento das casas, uma sensação de perda tomava-lhe o espírito vagamente. A realidade humana começava a despontar.

Nestas horas matinais, em que a sombra já desapareceu, mas não ainda o seu peso leve, o espírito que se deixa levar pelos incitamentos da hora apetece a chegada e o porto antigo ao sol. Alegraria, não que o instante se fixasse, como nos momentos solenes da paisagem, ou no luar calmo sobre o rio, mas que a vida tivesse sido outra, de modo que este momento pudesse ter um outro sabor que se lhe reconhece mais próprio.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros , 1964.
Imagem: Museu Calouste Gulbenkian

Adelgaçava-se mais a névoa incerta. O sol invadia mais as coisas. Os sons da vida acentuavam-se no arredor.

Seria certo, por uma hora como estas, não chegar nunca à realidade humana para que a nossa vida se destina. Ficar suspenso, entre a névoa e a manhã, imponderavelmente, não em espírito, mas em corpo espiritualizado, em vida real alada, aprazia, mais do que outra coisa, ao nosso desejo de buscar um refúgio, mesmo sem razão para o buscar.

Sentir tudo sutilmente torna-nos indiferentes, salvo para o que se não pode obter — sensações por chegar a uma alma ainda em embrião para elas, atividades humanas congruentes com sentir profundamente, paixões e emoções perdidas entre conseguimentos de outras espécies.

As árvores, no seu alinhamento pelas avenidas, eram independentes de tudo isto.

A hora acabou na cidade, como a encosta do outro lado do rio quando o barco toca no cais. Ele trouxe consigo, enquanto não tocou na margem, a paisagem da outra banda pegada à amurada; ela despegou-se quando se deu o som da amurada a tocar nas pedras. 

Porto de Lisboa (Portugal), Caes da Ribeira Nova, ed. Martins/Martins & Silva, 60, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O homem de calças arregaçadas sobre o joelho deitou um grampo ao cabo, e foi definitivo e concludente o seu gesto natural. Terminou metafisicamente na impossibilidade na nossa alma de continuarmos a ter a alegria de uma angústia duvidosa. 

Os garotos no cais olhavam para nós como para qualquer outra pessoa, que não tivesse aquela emoção imprópria para a parte útil dos embarques [...] (1)


(1) Fernando Pessoa (Bernardo Soares), O Livro do Desassossego

Artigo relacionado:
Margem esquerda

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cella Nova, Senhora da Rosa de Caparica

Alferrara e Mendoliva constituíam, com o lugar de Barriga, ou Cela Nova (futuro mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica), um núcleo de eremitérios fundados em torno das vilas de Almada, Palmela e Setúbal, numa zona de forte presença santiaguista e com o apoio régio e dos mestres da Ordem. 

Nossa Senhora da Rosa com o Menino (detalhe), séc. XVI.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Sitos em território da diocese olisiponense, acabariam, todos eles, por ser anexados ao mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa, fundado nessa cidade em 1647 e posteriormente escolhido como nova sede da Província dos Paulistas. 

Com a extinção das casas de Alferrara e de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, já concluída em 1813, os cartórios de todos os eremitérios acima referidos acabariam assim por migrar para Lisboa e, após 1834, com o arquivo desta casa, viriam a transitar para a Torre do Tombo [...]

Nossa Senhora da Rosa com o Menino, séc. XV.
Imagem: Wikipédia

Filho de Mestre Joane [Fernando, regedor, a. 1433-1463 (Barriga — Cela Nova)], físico do Infante D. João, apresenta-se a si mesmo, em 1445, como "pobre Jrmjtam da Jrmjndade e companhia de Meem de sseaura pobre Ja finado".

Companheiro, pois, de Mendo Seabra, ingressou na pobre vida ainda antes de 1433, dado que, após a morte de João Fernandes, regedor da Serra de Ossa, ocorrida necessariamente antes desta data, é a ele quem o dito Mendo envia para reger o eremitério de Barriga, que este entretanto reedificara.

Sabemos que Mendo Seabra manteve, até à sua morte, o governo de Mendoliva e a supervisão sobre os eremitérios de Barriga ou Cela Nova e de Alferrara, colocando aí eremitas da sua confiança.

Santo Antão e S. Paulo 1.o Ermita, Mestre dos Arcos,
(Gregório Lopes ?).
Imagem: MNAA

Na eminência da sua morte (1442), nomeara para o suceder, com os mesmos poderes, ao eremita João Eanes, a quem também o regedor de Cela Nova manifestou a sua obediência, atestada no diploma que para o efeito manda redigir em Setúbal a 29 de Setembro de 1445. 

Pelo mesmo documento, procurava ainda garantir o reconhecimento de todos os bens que lhe haviam sido anteriormente doados como pertencentes ao conjunto da comunidade. 

Para isso inclui no mesmo acto o traslado de uma anterior doação que lhe fora feita, ainda em 1442 mas já após a morte de Mendo Seabra, de chãos, casas e outros bens no dito lugar de Barriga, renunciando expressamente a todo o direito pessoal sobre os mesmos [....] (1)

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*     *

A vila de Almada encontrava-se, desde 1385, entre as terras doadas ao Condestável, com a respectiva jurisdição, mantendo, contudo, a Ordem de Santiago os seus direitos de padroado sobre as igrejas da urbe, na sequência do escambo estabelecido com o rei Dinis em 1297. 

Em Maio de 1422, Nuno Álvares Pereira doaria a vila e os respectivos direitos jurisdicionais à sua neta Isabel, futura mulher do Infante D. João, administrador do mestrado santiaguista.

Em 1527, uma visitação feita pelos oficiais da Ordem de Santiago revela a existência, neste local, de uma ermida, que aparentava obras recentes e com algum investimento ao nível dos materiais construtivos e decorativos, das pinturas, imagens e alfaias.

De nave única, embora com dois altares laterais, dispunha ainda de uma torre sineira, pia baptismal e alpendre. Anexa, refere-se a existência de uma sacristia e de estruturas de habitação para os pobres, rodeadas por uma vinha e pomar.

Apesar dos dados disponíveis confirmarem o apoio recebido posteriormente por parte de importantes membros da nobreza, nada se conhece sobre eventuais reconstruções ou ampliações do mosteiro, sabendo-se que este manteve sempre uma comunidade de pequenas dimensões.

Extinção: c. 1813, sendo as respectivas rendas anexadas ao Mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa.

The environs and harbour of Lisbon (assinalam-se o mosteiro e a ribeira), Laurie & James, publ. 1812.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Vestígios materiais do eremitério medieval: A igreja do mosteiro já se encontrava em completo estado de ruína e abandono em finais do século XIX, sobrevivendo hoje apenas alguns vestígios arquitectónicos integrados em casas particulares. (2)

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Os bens foram incorporados nos Próprios da Fazenda Nacional. (3)

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Notas:
Cela Nova (Termo de Almada)
Designação:
1. Barriga (termo de Almada) [Termo documentado pela primeira vez em 1414 (cf. TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, maço 2 de pergaminhos, nº 30 [antigo maço 1, nº 1] (1414.12.10, Almada). Pressupõe que o eremitério já existia nessa data, aproximando-se da data de 1410 proposta pela cronística moderna da Ordem para a fundação do eremitério (cf. Fr. Manuel de S. Caetano Damásio, Thebaida Portuguesa…, tomo I, p. 325).), é utilizado paralelamente com o de Cela Nova.]
2. Cela Nova (termo de Almada) [Assim referido por Mendo Seabra em 1442 (TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Consolação de Alferrara, maço 3, nº 17). Ao longo do período medieval, é utilizado paralelamente com o de Barriga para designar este eremitério.]
3. Vale de Grou (termo de Palmela [sic]) [O topónimo surge em duas cartas régias, de 1451 e 1455, na última referindo-se pertencer ao termo de Palmela (TT, Chancelaria de D. Afonso V, lv. 35, fl. 93v e lv. 15, fl. 183). Contudo, o topónimo pertence efectivamente ao concelho de Almada e à freguesia da Caparica, respeitando os documentos referidos ao eremita Fernando (III) que dirige o eremitério de Cela Nova entre a. 1433 e 1463 (cf. parte II, B 96).]
4. Santa Maria de Barriga (termo de Almada) [TT, Leitura Nova, Odiana, lv. 3, fls. 145v-146 (1457.03.03, Lisboa).]
5. Santa Maria da Rosa (termo de Almada) [Já aparece com a referência a Santa Maria da Rosa em 1511 - TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, maço 2 de pergaminhos, nº 35 [antigo maço 1, nº 33] (1511.06.11, Borba).] (4)


(1) João Luís Inglês Fontes, Da "Pobre vida" à congregação da serra de ossa..., 2012
(2) João Luís Inglês Fontes, Idem
(3) Arquivo Nacional Torre do Tombo
(4) João Luís Inglês Fontes, Idem, ibidem

Mais informação:
Chronica dos Erémitas da Serra de Ossa, no reyno de Portugal...
Santuario Mariano e Historia das Imagēs milagrosas de Nossa Senhora...
Chorographia moderna do reino de Portugal...
Corografia Portugueza e descripçam topografica...
Portugal antigo e moderno...

Informação relacionada:
Histórias da História da Charneca de Caparica
Mosteiro da Rosa na revista ARTIS

domingo, 29 de abril de 2018

Lisboa, vista de Almada (c. 1830)

Oposta a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, e dali para o mar. Desta elevada posição, temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o norte, toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas e formando um bordado brilhante para o Tejo. 

Lisbon from Almada (detalhe), Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o oeste, esse nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, fluindo para o Oceano Atlântico, entre as torres distantes de S. Julião e do Bugio. 

Para o leste, o rio espraia-se num vasto estuário, delimitado por um longo trecho de terras baixas. 

Para o sul, as alturas de Almada descem para um vale coberto de vinhas, atrás do qual há uma subida gradual de colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é delimitado pela cordilheira montanhosa da serra da Arrábida, tendo a notável rocha de Palmella, coroada pelo castelo em direcção ao leste, e o distante castelo mouro de Cezimbra em direção ao oeste.

Na vista que acompanha, o espectador é supostor olhar o rio, na direção nordeste. Parte de Lisboa ocupa a esquerda da cena. O Convento da Penha de França fica na colina mais distante desse lado. Um pouco à direita, na colina adjacente, fica a Capela de Nossa Senhora da Monte.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O castelo é visto a cobrir a colina ainda mais à direita; e as torres da Igreja de São Vicente, o lugar fúnebre dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto do extremo da cidade.

Em linha com as torres de São Vicente, mas mais perto do espectador, estão as velhas torres castanhas da catedral; e à sua frente, perto do Tejo, estão os edifícios que encerram a Praça do Comércio: estes, com a Alfândega, o Arsenal Naval e o Cais de Sodré formam um imponente conjunto de edifícios.

Numerosos navios estão espalhados na ampla bacia do Tejo; o todo, combinado com a ousada e precipitada altura de Almada no primeiro plano, formam uma impressionante e interessante paisagem. (1)


(1) Robert Batty, Select Views of some of the Principal Cities of Europe, London, ..., 1832

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX
Originais de Robert Batty

Mais informação:
Dictionary of painters and engravers, biographical and critical...
Robert Batty

domingo, 4 de março de 2018

A povoação do Caramujo na década 1900

Povoação na freguezia de S. Thiago e concelho dc Almada, districto de Lisboa. É contigua ao pittoresco logar da Cova da Piedade. Graças á sua situação sobre o Tejo, que lhe permitte fáceis communicaçòes com os navios mercantes que veem ao porto de Lisboa, teve em tempos o Caramujo grande commercio de vinhos para o Brazil e África.

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Hoje restam apenas algumas casas das que se entregavam a esse commercio, taes como as das firmas Valladares, Figueiredo, Paiva, etc. Em consequência d’esse embarque dos vinhos, era aqui numerosa a classe dos tanoeiros, mas esta industria está hoje decahida.

Tanoeiros.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Pelo contrario, o desenvolvimento industrial é importante. Existem no Caramujo varias fabricas para a preparação da cortiça, taes como as da Companhia Ingleza, Villarinho & Sobrinho, Rankin & Son’s, e outros pequenos estabecimentos de rolheiros e quadradores de cortiça.

Rankin & Son’s na Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, ant. a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa Rankin & Son’s

Uma das melhores fabricas de moagem em Portugal está aqui estabelecida é a da firma A. J. Gomes & Commandita, successora da viuva de Manuel José Gomes & Filhos.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Toda construida em cimento armado, acha-se dotada dos apparelhos mais modernos e aperfeiçoados. O edificio é dividido em andares, em cada um dos quaes se faz uma operação distincta da moagem, tudo automatica e mechanicamente.

Cilindros verticais em interior de fábrica semelhante à moagem Gomes do Caramujo.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

A illuminação é electrica, e tão importante estabelecimento póde considerar-se um verdadeiro modelo no seu genero. 

Planchisters em interior de fábrica semelhante à moagem Gomes do Caramujo.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

Em 25 de março dc 1903 realisou a Academia de Estudos Livres uma excursão a esta fabrica, publicando-se por essa occasião na imprensa jornalistica varias descripções interessantes, entre as quaes se póde indicar a do Diário de 29 do mesmo mez e anno [v. Tesis Doctoral - Fábrica de Molienda "António José Gomes", Primer edificio de hormigón en Portugal La revitalización de espacios degradados - Micro y macro dificultades de una tecnología - Samuel Roda Fernandes - Anexos]

Tem est. tel. e post. permutando malas com Almada e Lisboa. (1)


(1)  Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906

Pesquisas relacionadas:
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: caramujo
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: cacilhas
Diccionário Histórico... Vol. II, Lisboa, João Romano Torres, 1906, pesquisa: caparica

Referências:
Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes"

sábado, 24 de fevereiro de 2018

A SFUAP e a PIDE

A SFUAP (Sociedade Filarmónica União Artística Piedense) é uma Sociedade de largas tradições populares na Cova da Piedade. Tem cerca de 80 anos de existência [est. 1889], é a mais velha colectividade de Almada e a sua banda, com quarenta elementos, a sua biblioteca e o seu grupo cénico, (além da sala de cinema) sempre foram motivo de orgulho da terra pois muitos contribuíram para manter o espírito popular e de união entre os piedenses. 

Cova da Piedade, a sede da SFUAP em 1962.
Imagem : Arquivo Municipal de Lisboa

Daí que a Sociedade tenha cerca de 6000 sócios. Teatro, música, leitura, bailes, futebol (no Clube Desportivo), festas populares e mais tarde cinema, foram sempre actividades que "animaram" o povo da Cova da Piedade.

Até que... em 1960, a Sociedade vê-se a braços com alguns problemas, O número de sócios é cada vez maior, e as instalações vão-se tornando cada vez mais pequenas para comportar tantos sócios, principalmente na altura das festas.

Começa-se assim a pensar no alargamento das instalações da Sociedade. Mas para isso é preciso "muito dinheiro" e só a Câmara de Almada poderia ajudar.

Mas para isso era preciso ter influências lá dentro. Por isso, nesse ano, os sócios resolveram eleger para presidente da Assembleia Geral da Sociedade, o presidente da Junta de Freguesia, Mário Pinto, homem rico, segundo se diz, pois é genro dum grande corticeiro da Cova da Piedade e com "conhecimentos" na Câmara de Almada.


Cova da Piedade, a Junta da Freguesia em 1962.
Imagem : Arquivo Municipal de Lisboa

Instalado o "amigo" Pinto dentro da Sociedade, este resolve convidar o seu particular "amigo" Orlando Soares — funcionário da PIDE, para a Direcção da Sociedade, apresentando-o aos sócios como uma pessoa com muitas influências" e capaz de dar à Sociedade a ajuda desejada.

E assim temos a "Pide" a tomar conta dos destinos desta agremiação popular. Aos poucos vão entrando para a Direcção, os outros comparsas da camarilha do OrlandoDiamantino Xavier, José Maria (um caixeiro viajante), Anselmo (presidente da Comissão de Festas da Nossa Senhora da Piedade),e outros indivíduos (por agora não sabemos o nome deles, em breve poder-se-á informar) jk 

Ingenuamente, o povo da Cova da Piedade tinha-se deixado levar.

Cova da Piedade Largo 5 de Outubro Mercado 02

Em breve vao-se sentir os efeitos da política de tal dírecção: 

— o teatro vai morrendo (não se pode gastar o dinheiro da Sociedade com teatros)
— os bons livros da Biblioteca vao desaparecendo (o ano passado foi queimada a história da Filosofia de Bertrand Russel, publicada em fascículos e a "Vértice") 
— os bailes, antigamente autênticos pretextos para uma boa convivência, tornam-se agora no dizer do povo, numa verdadeira "xungaria" 
— a banda de música quase que deixa de existir 
— o cinema torna-se um foco de mentalização "pro-americana" — filmes de terror e cow-boys a 2$50 por sessão 

O pior ainda é que a Sociedade serve de coio à PIDE, como agente de repressão do povo da Cova da Piedade - a ordem de prisão do Sr. Sim-sim, funcionário do Arsenal do Alfeite, foi redigida por Orlando Soares na Sede da Sociedade. 

Quando se fez uma campanha para a compra de uma ambulância a oferecer para a guerra de Angola, estava o amigo Orlando a querer utilizar os fundos da Sociedade para dar uma contribuiçao e se nao o fez, foi devido à oposição de alguns dos sócios honestos que tiveram conhecimento disso e o impediram.

No entanto nao se chegou a saber se desviou ou nao algum dinheiro da Sociedade. E muito mais coisas que resta ainda averiguar. Por fim eram os ficheiros dos sóciosquase todos os homens da Piedade são sócios da SFUAPque serviam à PIDE para efectuar as suas prisõesServiço facilitado!

Uma telefonadela para o amigo OrlandoOuve lá, fulano, conheces o tipo X? Onde é que ele mora? Onde trabalha?E no outro dia de manhã, às 6 horas, à porta desse amigo, ou à porta do empregolá estava um Volkswagen verde com três pides para o ir buscar Foi assim que sucedeu com vários democratas presos não há muito tempo.

Então e quanto a ajudas à Sociedade, quanto ao seu alargamento? Bom, fizeram-se grandes projectos,  um deles, o projecto da nova sala de espectáculos, até custou 300 contos (só o projecto). 

Construiu-se até - para o povo ver que o amigo Orlando tinha na verdade grandes influênciasuma piscina que importou em cerca de 3500 contos, uma piscina que seria o orgulho do concelho - segundo as suas palavras.

Cova da Piedade, piscina da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, 1966.
Dimensões, em metros: comp. máx., 25; larg. máx., 21; larg. mín., 16; prof. mín., 1,20; prof. máx., 5,40; alt. máx. das pranchas de salto, 15.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O dinheiro arranjava-se com facilidade, Contraiu-se um empréstimo à Caixa Económica o dinheiro feito nas festas de Nossa Senhora da Piedade (que estava destinado à construção de uma creche) também foi emprestado, puseram-se as entradas para a piscina a 10$00, iam pedir-se uns subsídios à Câmara e o problema resolvia-se. Na verdade está quase resolvido.

Em fins do ano passado os sócios tomam conhecimento que a Sociedade iria ser penhorada pois tinha que pagar imediatamente encargos no valor de 61 contos; dinheiro que a Sociedade não possuía que os cálculos apresentados pelo Orlando Soares tinham saído furadosos sócios não acorriam à tão bela piscina. 

Evidentemente a poucos quilómetros da Costa da Caparica gastando apenas 5$00 numa ida e volta o povo da Cova da Piedade continuava a preferir a praia. E os subsídios da Camarabom, o dinheiro da Câmara nunca ninguém sabe para onde vai!não apareciam.

E depois a piscina não foi muito ao agrado dos sócios e a opinião deles também não tinha sido pedida (aliás nem os consultaram)Só uma coisa resultara na ideia de Orlando: fazer acabar com a SFUAP; tira-la das mãos do povo.

Cova da Piedade, piscina da SFUAP, 1967.

Mas alto lá, povo agora tinha aprendido com esta experiência longa de 8 anos Não se acaba com a sua Sociedade" assim com duas cantigas. 

Ao grito de alarme "A Sociedade vai ser penhorada" acorreram os sócios em massa. Estamos em fins de Dezembro 1967. A Direcção que se mantivera na Sociedade durante 8 anos tinha que apresentar o seu relatório de contas e explicar o que se passava. 

Faz-se uma Assembleia (nunca na Cova da Piedade se fez uma tão grande Assembleiaeram centenas de sócios a encher a sala de espectáculos, a exigir uma explicação). O Orlando Soares aparece mas vendo o caso mal parado desaparece e não põe mais os pés nas Assembleias que se irão seguir.

O povo exige: o julgamento da comissão-pide tem que ser completo, o problema tem que ser esclarecido, façam-se as assembleias que se fizerem. O relatório é feito, a situação torna-se clara para todos. A Direcção fez despesas insuportáveis para a Sociedade, há dinheiro que desapareceu não se sabe para onde. É evidente que os sócios tém sido espoliados.

Então o povo reage, reage fortemente como só ele sabe reagir nestas ocasiões. "Estamos a ser burlados, sim, e a culpa é nossa porque temos medo"é a voz corrente. Um sécio sobe ao palco da sala e diz em voz alta para a assistência:Meus senhores, eu não tenho medo! Quando uma direcção não é capaz de dirigir uma sociedade o melhor é ir-se embora.Apoiado! Nós também nãotemos medogrita a multidão na salaFora, fora com eles! É a apoteose final. 

A Direcção é obrigada a demitir-se, levando "em cima" um voto de desconfiança de todos os sócios. O Conselho Fiscal recusa-se a aprovar o relatório de contas (Está falseado! - afirmam os sócios entre si). 

É eleita uma nova Direcção, constituída agora por sócios que já deram garantias de seriedade noutras instituições da terra. Aliás o seu programa para já, é mesmo democrático: os problemas da sociedade serão resolvidos se todos quiserem colaborar.

Programa do 79.° Aniversário da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (23/10/1968).
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O povo começou a organizar-se. Formou-se já uma "comissão de angariação de fundos", com 15 elementos, que tém vindo a pedir dinheiro a toda a gente (batem a todas as portas). Já conseguiram arranjar mais do que é necessário para pagar a dívida mais imediata: os 61 contos de encargos. Alias as sociedades irmãs lá da terra, prontificaram-se a dar uma grande ajuda. Até as mais pequeninas, com muitos sacrifícios. É verdade, não quiseram deixar de participar neste acto de solidariedade.

A Sociedade, por um descargo de consciéncia ainda, resolveu pedir a ajuda da Câmara. Que ao menos lhes desse agua para a piscina. Mas foi uma nova ilusão. "O Senhor Presidente" informa que a Câmara não pode "fornecer agua de borla". 

Mais uma liçào que aproveitará muito ao povo. Agora todos começam a convencer-se de que só eles é que poderão e saberão construir. Começa a surgir um movimento de unidade ente as colectividades populares, não só da zona, mas de toda a margem Sul.

A SFUAP fez um apelo a todas as outras Sociedades para que a ajudem a resolver os seus problemas. Quanto ao "Orlando" parece que as coisas estao a correr mal. A sua demissão deu tal brado que segundo consta vai ser transferido para a cidade da Guarda. Atenção Guarda mais um patife para a vossa terra.

NOTAS

Acerca destes indivíduos, não consta que sejam da Pide, mas sempre se prestaram a colaborar com o Orlando e a manter-se com ele na Direcção.

Uma outra actividade dos pides: o Orlando e camarilha tém um programa de radio, chamado "Imagens Piedenses" [emitido entre 18 de Abril de 1966 e 25 de Abril de 1974] e transmitida pelos "Emissores Associados de Lisboa" aos domingos de manhã. 

A coberto deste "programa, o reporter do Orlando "metia-se em todas as realizações das colectividades do concelho para gravar conversas. Pez isto especialmente na Homenagem feita pelas colectividades da Piedade e do Laranjeiro ao escritor Ferreira de Castro.

Ferreira de Castro na Cooperativa de Consumo Piedense, 1964.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Depois mais tarde, cem uma grande lata, informou alguns amigas que e pide o tinha abordado e lhe levara as fitas de gravação [...] (1)


(1) Casa Comum, A PIDE foi expulsa da Cova da Piedade, 1967

Artigo relacionado:
SFUAP, origens, teatro e escola

Mais informação:
Casa Comum, Relato de situação na Sociedade Filarmónica União Artistica Piedense, 1967
Diário de Lisboa, 16 de janeiro de 1968