terça-feira, 15 de março de 2016

Crianças a banhos na Trafaria em 1901

Bem empregada é essa esmola feita ás crianças escrofulosas, que por conta da assistência nacional aos tuberculosos, por que tanto se interessa a Rainha Sr.a D. Amelia, vão agora todas as manhãs tomar banho á praia da Trafaria.

Princesa D. Amélia d'Orléans e Príncipe D. Carlos de Bragança (detalhe), 1886.
Imagem: Observador

É quasi uma centemna de crianças já condenadas á morte e indultadas pela caridade, que difficilmente podia achar melhor occasião de exercer-se. Prometteram-lhes a saude e ellas lá vão arribando, já com melhores cores nas faces, com alegria maior nos olhos.

Foi a praia da Trafaria a escolhida, e á hora das crianças irem receber o abraço higyenico da aguas do mar, que contraste não ha entre aquelle extenso areal, que vê as tristinhas a sofrer e a as praias garridas da outra margem, e mais além as do Occeano, cheias de alegria, dando nota do que ha mais elegante em Portugal.

O banho ás creanças escrofulosas na Trafaria, J. Christino da Silva, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

De todas elas falam muito os jornaes e até alguns se batem para ver quem melhor consegue dar novas de sensação. São "pic-nics" que se realisaram, bailes em projecto, partida de "lawn-tennis", os que entram eos que sahem, columnas em prosa compacta descrevendo "cotillons". (1)


(1) João da Camara, O banho ás crianças escrofulosas..., O Occidente, n.° 818, dezembro, 1901

domingo, 13 de março de 2016

O fado do Virgílio

A praia da Costa de Caparica, ainda ha poucos anos alcunhada de "praia selvagem", é hoje uma das mais concorridas e apreciadas praias de Portugal. Foi como que uma transformação de magica...

Praia da Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Hemeroteca Digital

A praia, que era raramente visitada por uns raros visitantes, bate hoje o "record", da concorrência. Aflui ali, principalmente aos domingos, uma multidão enorme de gente de todas as camadas sociais, ávida de respirar, a plenos pulmões, o ar iodado do mar.

É vê-Ia, logo de manhã cedo, a correr para os vapores quê do Terreiro do Paço e de Belém fazem carreira para a Trafaria e a assaltar as "camionettes" que dali a conduzem á "Praia do Sol".

Trafaria — Caes de embarque, ed. Alberto Aguiar, 6, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Familias inteiras, ajoujadas com seus farneis, vão para lá passar o dia, á sombra acolhedora dos toldos e das barracas de lôna. A população fluctuante da praia, dá-lhe uma vida cheia de movimento e de colorido bizarro.

A Praia do Sol, Um trecho da praia, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, c. 1930.
Imagem: Delcampe

E toda a gente se descalça e se mete na agua, que anda no seu vai-vem constante...

As crianças, umas completamente nuas, outras com os seus mais variados fatos de banho, imprimem-lhe uma nota alegre, chapinhando na agua, á beira do mar, ou a dár cabriolas na areia.

Costa de Caparica, Praia do Sol, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Dentre elas sobressai, pela sua originalidade, um miudo de 7 anos chamado Virgílio, garoto esperto. azougado, que canta o fado sem acompanhamento, demonstrando uma excelênte memoria, pois que do seu "repertorio" fazem parte nada menos de seis cantigas, com o mote e suas respectivas decimas.

O pequeno Virgilio, tisnado pelo sol da praia, alegra a "Praia do Sol" cantando, junto dos visitantes domingueiros, os seus "fadinhos", dizendo os versos numa linguagem cheia de pitoresco...

Grupo de veraneantes na Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Delcampe

Enquanto êle canta, as irmãsitas, a Izaura, a Madalena e a ldalina, apregoam e vendem "agua fresquinha" a tostão cada copo... É uma familia de gente pobre, trabalhadora. O pai trabalha sempre que ha em quê; 

Costa da Caparica, Wolfgang Sievers, 1935.
Imagem: eBay

a mãi acarreta bilhas de agua que as filhitas vendem, bem novas começando na luta pela vida, e Virgilio canta no verão, como a cigarra...

O repórter de O Século, ouvindo alguns pescadores da Costa da Caparica sobre a grave crise que atravessam, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A grande simpatia que nos inspirou o simpático miudo, inspirou-nos os seguintes versos "virgilianos" que ele aprendeu com facilidade espantosa e aos quais imprime um grande tom de convicção:

Fado do Virgílio 

MOTE

Sou o rival do Menano, 
Canto conto um rouxinol; 
Sou pobre Caparicano 
E alegro a "Praia do Sol"

Filhos de pescadores da Costa da Caparica, 1933.
Imagem: Hemeroteca Digital

GLOSAS

Apesar de ser pequeno
E viver junto do mar, 
O "fadinho" sei cantar 
No estilo mais ameno; 
Para mim não há "empeno" 
A cantá-lo não me engano, 
Porque sou um lusitano, 
E, por êle, apaixonado, 
Por isso, a cantar o fado, 
"Sou o rival do Menano".


E toda a gente se encanta 
Ao ouvir a minha voz, 
Por aí corre veloz 
A fama desta garganta; 
A mim já nada me espanta 
Que, em breve, esteja no rol 
Dos grandes cantores de escol 
Que assombram com sua Arte, 
Pois eu, a modéstia aparte, 
"Canto como um rouxinol"...

Costa da Caparica, turistas posam à proa de um "Meia Lua".
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Embora eu ande descalço 
E pobremento vestido, 
Por todos sou bem-querido 
Pois não tenho olhar de falso; 
Da Honra sigo no encalço, 
Por ser um dever humano, 
O meu trabalho é insano 
Para não pedir esmola, 
E dizê-lo me consola: 
"Sou pobre Caparicano".

Costa da Caparica, turistas, 1938.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Aos domingos venho à praia 
Vêr mulheres quási nuas 
Que, em Lisboa, pelas ruas, 
Usam mui comprida a saia, 
E quando no céu espraia 
Seus lindos raios, o sol, 
E enquanto dura o "briol" 
E fazem bem às barrigas, 
Eu canto as minhas cantigas 
"E alegro a "Praia do Sol".

Veraneantes na Costa da Caparica, 1938.
Imagem: Dias que Voam

Por fim, munido de alguns exemplares do "seu" fado, dos muitos que lhe démos, e que um generoso amigo nos imprimiu gratuitamente em bom papel "couchet", o Virgílio distribui-os pelos mais graduados ouvintes, fazendo uma bôa colheita de "corôas" que êle corre a levar á mãi, sem gastar, sequer, um tostão, apesar de, na praia, haver muios "caramelos" e "barquillos" que êle conhece apenas de nome e de vista... 

Trafaria — Avenida Florestal, ed. Alberto Aguiar, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Assim, espera juntar dinheiro para comprar um fato novo para ir à escola, pois, inteligente como é, depressa aprenderá a lêr, preparando-se para a vida. (1)


(1) Lima Pereira, Ilustração, n.° 14, 1933

sexta-feira, 11 de março de 2016

A Ideal de Carrocerias

Apresentam este moderníssiomo auto-carro para 39 a 41 passageiros, da EMPRESA DE CAMIONETES PIEDENSE, LIMITADA, com exploração da carreira Cacilhas-Praia do Sol — construído em 73 dias — bateu assim o "record" das construções, apresentando, com esta unidade, a 20.a construção em 19 meses. (1)

Berliet PCR da Empresa de Camionetes Piedense, 1949.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1470, 1949

Artigos relacionados:
Empresa de Camionetes Piedense
Uma empresa que se impõe

terça-feira, 8 de março de 2016

Ponte dos vapores da Trafaria

Effectua-se hoje, como ha dias dissemos, a inauguração da ponte na Trafaria para serviço dos vapores do sr. Burnay, que actualmente fazem carreiras para aquella aprazível praia; por este motivo será offerecido um "copo d'agua" ao sr. Frederico Burnay, e haverá uma regata na qual tomam parte dezeseis senhoras.

Trafaria, Entrada da ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Além das carreiras ordinarias ha para ali um vapor extraordinario, que parte ao meio dia e volta depois da regata. (1)

A regata na Trafaria

Nâo faltariam attractivos para que a regata nada deixasse a desejar aos mais exigentes: 3 escaleres tripulados por senhoras; oito guigas, e balieiras, de que eram tripulantes diveraos banhistas; aspirantes de marinha, e socios da real associação naval.

Trafaria, Ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, 10, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Havia tambem muitas embarcações de vélla, de differentes lotações, que partiriam da Trafaria á 1.a baliza, em frente do Bico da Terra Alta, proximo da Gollada, e dahi á 2.a, em frente do Dafundo, voltando ao ponto de partida.

Programa da regata na Trafaria, 12 de outubro de1890.
Imagem: Remo História

Logo de manha, porém, o vento Norte começou a refrescar, e á 1 hora da tarde, havia um temporal desfeito.

Apezar do perigo que ameaçava os que se aventurassem a embarcar n'aquella occasião, nem as senhoras nem os cavalheiros tripulantes das embarcações, desistiriam de tomar parte na regata, se o presidente da commissão os nâo persuadisse da necessidade absoluta de addiar esse certamen.

Aspecto da praia da Trafaria.
Imagem: Remo História

Uma canoa grande, do arraes João Ferreira, que ia servir de baliza, esteve em perigo, e voltou logo para a Trafaria com a verga partida; atravessou-se na praia, enchendo-se d'agua, uma barca das armações de pesca; o bote de Antonio Tourinhas, que vinha de Porto-Brandão com muitos passageiros, correu risco de se despedaçar na praia, e se nâo houve victimas, deve-se, exclusivamente, á dedicação de grande numero de pessoas que, mettendo se á agua, pegaram no bote e o puzeram em secco.

Igual soccorro foi necessário prestar a dois marinheiros que imprudentemente se fizeram de vélla n'uma canoa, suppondo que mettiam uma lança em Africa.

Proximo á Torre do Bugio, que annunciou embarcação em perigo por meio de 3 tiros de peça, esteve prestes a ir a pique uma muleta de pesca.

A concorrência de gente, tanto de Lisboa, como de todas as povoações próximas, foi enorme; e se o tempo nâo abonançasse ás 6 horas da tarde muitos centenares de pessoas tinham de ficar na Trafaria, pela impossibilidade d'atracar á ponte o novo vapor Victoria.

Trafaria, Praia de banhos, ed. Manuel Henriques, 2, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

É digno do maior louvor o cabo do mar, sr. Antonio Cosme de Paiva, antigo capitão da marinha mercante, pelas acertadas providencias que tomou para evitar qualquer desastre marítimo.

Trafaria — Praia de banhos, ed. J. Quirino Rocha, 07, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A intimação feita aos donos de embarcações de fundo chato para nào as alugarem a pessoas estranhas ás lides marítimas, sem serem acompanhadas por indivíduos d'esta profissão, tornou-a extensiva, aos donos de quaesquer outras embarcações. Que lhe sigam o exemplo todos os cabos do mar, porque com essa medida muito lucrará a humanidade. (2)

——ooOoo——

Teve hontem lugar a inauguração da ponte dos vapores, na Trafaria. A bordo do vapor Victoria ia a sr. Frederico Burnay, que foi recebido pelos banhistas e habitantes d'aquella povoação, com vivas demonstrações de regosijo.

O vapor Victória.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No club, onde lhe foi offerecido um copo d'agua, achava-se toda a colonia balnear, muitos aspirantes de marinha e socios da Real Associação Naval.

REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

O menu foi variadissirno, e fizeram-se muitos brindes, especialmente a Frederico Burnay, e Jayme Arthur da Costa Pinto, que teve uma recepção brilhantissima.

Trafaria — Vista geral da praia, ed. J. Quirino Rocha, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Durante a refeição, uma banda de musica tocou á porta do club, e foi lançado ao ar grande numero de foguetes. (3)


(1) Diário Illustrado, 19 de setembro de 1889
(2) Diário Illustrado, 1 de outubro de 1889
(3) Idem

segunda-feira, 7 de março de 2016

Defesa de Lisboa em 1834

D. Miguel dispunha ainda pela sua parte de todos os recursos do reino, exceptuando apenas as duas cidades de Lisboa e Porto. Por todo o paiz os membros do clero secular e regular haviam pregado uma nova cruzada contra os constitucionaes [...]

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

O elevado morro de Palmella havia sido fortificado e guarnecido com doze bocas de fogo, o que igualmente tinha succedido a Almada e Cacilhas, onde se formara uma espécie de isthmo por meio de uma linha, que corria do Pragal á Margueira, guarnecida também por vinte e duas peças de artílheria. (1)

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 1833-1834 as forças liberais, logo após a tomada de Lisboa, prevenindo-se contra um ataque à capital pelos miguelistas que continuavam em operações a sul do Tejo, estabeleceram entre o Paliarte [Palliart, quinta e convento de S. Paulo] e a Margueira uma linha fortificada continua que cortava por completo o acesso a Almada e Cacilhas.
Quando se elaborou a carta topográfica militar de 1834 representando a linha fortificada já a quinta e convento de S. Paulo pertenciam a um comerciante de nome Palliart ou Paliarte, como se indica na legenda da carta. As propriedades haviam sido vendidas em consequência da extinção das ordens religiosas. A propriedade regressou à posse da igreja em 1934, voltando então a ser designada por quinta de S. Paulo, mas o nome de Paliarte, que perdurou 100 anos, ainda é uma designação conhecida.
Segundo Fernando Mendes [A dynastia de Bragança...] a linha comportou 22 peças, artilhamento que confere aproximadamente com o constante da carta topográfica militar [Planta da linha de defensa que cobre as villas d'Almada e Cacilhas] levantada [e desenhada] pelo 2.° tenente [do Real Corpo de] engenheiro[s] Manuel Maria da Rocha em 1834: 18 peças.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

A carta é pormenorizada quanto ao traçado da linha e sua construção mas quase omissa quanto ao terreno, apenas se representando toscamente as arribas da margem e pequenos troços das azinhagas que cruzavam a linha.

A localização da linha pode no entanto fazer-se com rigor a partir do desenho que serviu de base ao plano hidrográfico do porto de Lisboa, levantado em 1845-1847.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

O flanco direito da linha assentava na encosta a norte do convento de S. Paulo; de aqui contornava a igreja e o convento de S. Paulo e descia para sueste numa frente rectilínea até a proximidade do teatro da Academia Almadense; ao cruzar a estrada para a Caparica, actual rua Capitão Leitão, formava um reduto; inflectia um pouco para leste e, junto ao local ocupado pela nova igreja de Almada apresentava um meio reduto; continuava para leste com duas frentes formando um ligeiro saliente próximo da rua Lourenço Pires de Távora, no sítio onde estivera o reduto do Conde; atravessava depois a estrada Cacilhas-Piedade pelo alto da Mutela, junto à rua Jorge de Paiva, formando um relente; dirigia-se daqui para sul e rematava na arriba com uma pequena frente olhando a Mutela.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Uma muralha isolada cortando a praia desde o sopé da arriba até ao nivel do baixa mar completava a obra protegendo o flanco. 

A esquerda da linha coincide num ponto com obra já existente: o meio reduto da Quinta do Conde que pode ter aproveitado parte do Forte do Conde. 

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Esta coincidência reforça a convicção de que os fortes do Conde e da Margueira ainda existiam em 1833 e que a última resistência séria oferecida por Teles Jordão em retirada, buscava apoio nas fortificações.

Sabe-se que nesse local, entre os dois fortes, passava a estrada Piedade-Cacilhas e Teles Jordão colocara aí artilharia. o castelo de Almada e as Linhas de Defesa estavam subordinados ao mesmo comando.

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Desconhecemos se o mapa de guarnição elaborado em 1833, com o total de 148 homens abrangia não só o castelo mas as linhas de defesa que contariam também com o reforço do Batalhão Nacional Fixo d'Almada. Em qualquer caso, a importância das linhas e o quantitativo da guarnição justificavam o comando de um tenente-coronel e a presença de um cirurgião mor.

Exerceram o comando, no período de maior perigo para os liberais dois oficiais notáveis: Amaro dos Santos Barroso (1833-34) e Adriano Mauricio Guilherme Ferreri (1834-35) e o cargo de cirurgião mor, o cirurgião civil Francisco Inácio Lopes, um almadense também notável.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela observação dos planos hidrográficos conclui-se que a linha ainda existia em 1847 e, muito provavelmente, em 1878. Desapareceu antes do fim do século. (2)


(1) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal... Tomo V, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885
(2) R. H. Pereira de Sousa, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

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Defesa de Lisboa em 1810

sábado, 5 de março de 2016

O retiro de um velho romântico

Cansado das mocadas que entre si distribuía a turba sertaneja, que em procissão, às vezes, recorria à minha agulha de sutura, procurei regressar à Arte consoladora [...] (1)

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Em dezembro de 1898, tendo sido nomeado medico do Partido Municipal de Almada, em Caparica, fui levado ao Monte por D. João da Camara e Lopes de Mendonça, que me apresentaram a Bulhão Pato.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

O velho poeta vivia numa casita modesta, com um mobiliário simples, quasi pobre, em que uma antiga commoda marchetada e um toucador Império lembravam uma passada prosperidade familiar.

O typo já eu o conhecia: era, no gesto, na dicção, na voz arrastada e grave com profundos finaes melodramáticos, o personagem que Eça de Queiroz compôs nos "Maias" [Tomás de Alencar — o que motivou que Bulhão Pato escrevesse as sátiras "O Grande Maia"  em 1888 e "Lázaro Cônsul" em 1889], 

Eça de Queiroz "In memoriam" (excerto), organizado por Eloy do Amaral e M. Cardoso Martha.
Imagem: Internet Archive

e digo compôs porque depois de conversado e convivido, Bulhão Pato afastava-se da celebre caricatura do celebre romance por uma vivacidade mental, uma penetração de espirito e até por uma observação aguda, por vezes resumidas em ditos scintillantes, alguns dos quaes ficaram na tradição como lapidares.

Como era muito assomado de gênio, herança da impetuosidade romantica toda feita de gestos heroicos e braços cruzados de desafio, as suas inesperadas saídas tinham a fúria de estocadas súbitas que marcavam a presa com um sinete de galés.

"Se o assanham, tem duas farpas na lingua", dizia Camillo. 

Pena é que esses botes sejam no maior numero dos casos do domínio das cryptineas, como alguns que lhe ouvi, preciosos pelo realismo desbragado mas perfeito, que chegavam pela sua eloquencia a dar relevo burlesco a certos personagens.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Amimado desde a infancia, por isso vaidoso da aureola que lhe puseram desde muito moço, bonito rapaz como ainda se vê, na idade já madura, do bello retrato de Lupi, passou uma primavera na casa que Alexandre Herculano habitava na Ajuda, casa que ainda existe proximo do paço real.

Real Palácio da Ajuda, ed. Tabacaria Costa, 901, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Entrando logo na intimidade e no culto do grande historiador, era então companheiro de Garrett, ali hospede também [1847-1848], que aggregou o jovem poeta á sua vida noctambula de mundanismo elegante, pelos aristocráticos salões de então.

As gerações do romantismo literário em Portugal reunem-se na casa da Ajuda em 1847-1848:
Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877) e Bulhão Pato (1828-1912).

Regressavam á Ajuda fora de horas, e tão fora de horas que Herculano resolveu-se a mandar fazer uma chave da porta, que lhes entregou, para que o criado não ficasse até de madrugada á espera do autor illustre do Frei Luís de Sousa e do novel versejador do "Se coras, não conto". É que Herculano deitava-se invariavelmente ás onze horas ("deita-te ás onze, que não és de bronze", dizia), adormecia logo que punha a cabeça no travesseiro e era de um somno só.

Esta existencia na Ajuda, que Pato recorda nas suas "Memórias", apresentava outros aspectos menos austeros, de uma jovialidade expansiva, que tiravam ao tradicional Herculano de sobrancelha carregada essa mascara de lenda para lhe afivelar outra, de uma expansão alacre, quando ouvia aos rapazes certas historias que Bulhão Pato classificava de fescenninas.

Assim, o autor da "Historia de Portugal", que os retratos dão sempre de catadura severa, gostava immenso de anecdotas frescas, e quando alguém lhe dizia; — "o mestre já conhece esta" — Herculano esfregava as mãos e dizia: — "conte, conte, as experimentadas são as melhores." Foi assim que certo dia, ouvindo José Estevão rematar a descripção de uma recita de gala em São Carlos com um commentario de desbragada representação rabelaisiana, caiu literalmente no chão ás gargalhadas.

Bulhão Pato era um espirito profundamente liberal, patuléa na sua mocidade, e que um dia foi barbaramente aggredido por um grupo de cartistas no alto da calçada da Ajuda, com a aggravante de estar a namorar para uma sacada a filha do celebre ceramista [Wenceslau] Cifka.

— "Mas dias depois, no Martinho do gelo, vinguei-me. Moi-os!" — Esta rapariga, Mary Cifka, era protestante, e Pato tinha de freqüentar a capella deste rito para a ver. Duma vez, estava um "clergiman" a fazer uma predica no meio de um grande silencio e entra no recinto um homem, typo de velho embarcadiço, olho azul, barba de passa-piolho, mas as bochechas muito escanhoadas.

Olhou em todos os sentidos, fitou o pregador, escutou, e momentos depois toca no cotovelo de Bu- lhão Pato e diz-lhe em tom de poucos amigos: — "Você não me saberá dizer o que é que aquella besta está ali a ladrar ?" — Pato saiu á pressa da igreja.

Aos vinte annos, assignara o famoso manifesto contra a lei de imprensa de Costa Cabral [agosto de 1850], denominada já nesse tempo "lei das rolhas". E quando, meio século depois, identico projecto foi apresentado ao Parlamento por João Franco, os liberaes foram-no buscar ao seu retiro do Monte para levar o protesto que foi por elle entregue ao presidente da Camara.

Dava-se um facto singular: os três homens que restavam em 1907 tendo assignado o protesto contra a lei cabralina, haviam-no feito, por acaso, a seguir e juntos: — Barbosa du Bocage, Almeida e Albuquerque, Bulhão Pato. E é igualmente singular que morressem pela ordem por que vinham no documento.

A casita de Caparica era um retiro hospitaleiro e conservava as tradições de fina recepção, através do seu ar modesto e simples, em que Pato se afizera a viver nas grandes casas dalgumas das velhas e históricas familias portuguesas, que elle freqüentara em quasi todas as nossas províncias, como viajante incansavel que foi, lamentando apenas não ter conhecido Trás-os-Montes.

Dahi, as figuras das suas "Memorias", pintadas com as côres optimistas dessa época romantica, com abundancia de sentimento e ausência de cuidados, aos últimos clarões do patrimonio das conquistas que fazia a vida fácil e o temperamento optimista. 

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

A agudeza economica era um vocabulario ainda desconhecido. Por isso as mulheres eram sempre cheias de paixão, de sacrifício, e tinham longos cabellos que se desgrenhavam dramaticamente; os homens eram valentes, bons cavalheiros, e vestiam com elegancia. 

Se Bulhão Pato, em vez de fazer Memórias de recorte literário, com preoccupações acadêmicas, conta o que viu, sem diversões de estilo, na sua realidade brutal, teriamos alguns instantâneos illuminados ás vezes por uma luz de tragédia.

— "Estava eu, contava, com alguns rapazes á porta do Marrare do polimento (era no Chiado e chamavam-lhe assim para o distinguirem do Marrare das sete portas, na Baixa), todos sem vintém e revolvendo a imaginação para ver como achar uma solução á nossa penúria. Nisto vemos descer o Chiado, pelo passeio fronteiro,.um sujeito nosso conhecido, amante e "souteneur" de uma senhora da sociedade.

Marrare de Polimento, gravura in A Semana, n.° 4, 1851.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ora acontecia que o filho dessa senhora era um dos nossos companheiros de miséria, o qual, destacando-se do grupo, atravessa a rua e dirige-se ao tal cavalheiro e segreda-lhe qualquer coisa.

Este sorri, mette a mão no bolso e dá-lhe uma moeda. O moço regressa, sorridente também, e clama para os companheiros mostrando uma libra em oiro: — "O bom filho a casa torna..." — Bulhão Pato, depois de me contar esta scena, travou-me do pulso, gesto muito seu, e diz-me com os olhos brilhantes: — "Você já o viu melhor em Shakespeare?"

Doutra vez contou-me que uma senhora muito da alta sociedade estava uma noite a passar por cima de um muro baixo, em Algés, uma cadeira para o amante poder passar. Nisto sente-se atrás agarrada pelos cabellos; era o marido. Surprehendida e attonita, grita num desespero: — "Traição!" — É demoniaco!

Quando eu chegava a casa depois do giro clinico, era freqüente encontrar um bilhete de Bulhão Pato com estas concisas palavras: — "Venha! Temos pescada do alto." — Porque a sua mesa era prova das suas tradições de cozinheiro insigne, gabando-se o poeta de ter mais orgulho com o êxito de um bom prato do que com a fama de um bom alexandrino; Eram celebres os seus jantares de caça, as perdizes, as gallinhas, as narcejas, e por esse tempo havia em Caparica um vinho branco que tinha um gosto de pederneira [muito mineral], vinho já cantado por Gil Vicente e Camões [Convite que fez Camões em Goa a alguns Fidalgos]:

Ceia não a papareis,
Comtudo por que não minta,
Em vez de ceia tereis,
Não Caparica mas tinta ,
E mil coisas que papeis.

Pato gostava que lhe gabassem as vitualhas, e quando os convivas mastigavam em silencio, não deixava de observar: — "Vocês comem, mas nem palavra." — Eu um dia respondi: — "A commoção embarga-me a voz!" — ao que outro replicou: — "As grandes alegrias, como as grandes dores, são mudas..."

Pato ria, porque gostava de ver os rapazes á sua mesa, ali indo D. João da Camara, o jornalista Urbano de Castro, mestre em trocadilhos, e eu lá levei Alexandre Braga, de cujo pae o poeta fôra amigo. Augusto Gil, Manuel Monteiro. Um dia fui encontrá-lo com uma alegria infantil. Tinha quasi oitenta annos e ao ver-me gritou abrindo os braços: "Cacei hoje uma gallinhola!" — E presidiu com carinho ao seu amanho, não deixando de preparar o raro acepipe da torrada.

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação. Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)


(1) Paulo Braga, João Barreira, o Escritor, o Professor e o Artista, Jornal da Régua, 27 de Dezembro de 1936
cf. Catarina Fernandes Barreira
(2) Dr. João Barreira, O retiro de um velho romântico

quinta-feira, 3 de março de 2016

Mais lindas que a luz do sol

Fedelha, rabejou pela areia, a mastigar broa e peixe, endureceu para mil inclemências. 

Aspecto do bairro piscatório da Costa da Caparica (detalhe), 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Nos verdes anos, fora delgadinha como junco, uma trança a roçagar pela anca, seios duros que a impediam de debruçar-se, no enxergão.

Branquinhas, avaramente atafulhadas nos panos das saias, às suas pernas nem o rabo do olho do Bernardino lá trepara.

Vivia-se sob junco e colmo, tornavam-se fastios quando o peixe não andava de través, mas nem por isso a praia deixava de possuir moças mais lindas que a luz do sol...

Os Faroleiros de Raul de Caldevilla (detalhe), 1922.
Imagem: CINE-PT CINEMA PORTUGUËS

Vira-te ao norte
eu estou viradinha ao sul...


Pelas rodas do S. Pedro, fogachos crepitavam noite adiante — e os olhos dos rapazes mordiam-nas de desejos...

o luxo das raparigas: 
saia branca e barra azul.

Então, um homem valia tanto como uma mulher: quando a possuía, ia tão inteirinho como ela...

Casamento aprazado tinha que se lhe dissesse. Não era qualquer catraio que suportava tão sério encargo. Se um rapaz "arreava" o dinheiro nas mãos da conversada, todo o mundo os considerava unidos para a vida e para a morte e só não se "amanhavam" os parvos...

Havia, então, um dia escolhido — o mais lindo na vida de uma rapariga de Caparica! — em que os dois abalavam cedinho para a Trafaria, metiam-se no vapor e iam fazer compras a Belém:

1 — cama
1 — colchão
1 — cobertor
1 — mala
6 — toalhas e...


uma peça de pano cru para lençóis, travesseiros e almofadas.

Era o dia mais feliz na vida de uma rapariga de Caparica! Nunca os olhos se mostravam tão brilhantes, a boca tão levada a sorrisos.

Recebia da casa paterna os arranjos de cozinha: fogareiro, tachos e talheres, e só mais tarde, quantas e quantas vezes já com filhos a gatinhar, o casal se metia a segunda despesa:

1 — lavatório
1 — mesa
6 — cadeiras de pinho.


E, assim, as moças casavam, enchiam-se de filhos, e punham-se umas caras de velhas...

A Praia do Sol, O mercado, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 109.
Imagem: Delcampe

Rapariga nã te cases
logra-te da boa-vida!


A boa-vida era ajudar a mãe em toda a lida caseira, calcorrear para a venda com a canastra à cabeça e pegar nos irmãos que so-bejam dos braços maternos!...

Eu já vi uma casada
chorando de arrepindida!


"É mentira! Chora-se por outros motivos: arrepindimento, não. O mar alguma vez já se arrepindeu de tar com a areia?! A áugua que escorre da rocha nã quis alguma vez esse caminho!? O corvo já pensou em trocar as suas penas negras par as brancas, da gaivota!?"

Pescadores e Varinas, Manuel Ribeiro de Pavia.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Também a ti Palmira nunca chorou de arrependida.

Somos varinas
vamos à praia... 


"Digo eu que o destino de cada um é coisa tão rigorosa pró rico como pró pobre... Tanto faz que uma alma chore baba e ranho, como não. A coisa tá só em cada um de nós poder adevinhá-lo... Atão é que se evitam muitas asneiras e desgostos! ..."

Costa da Caparica, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins, década de 1930.
Imagem: Fundação Portimagem

Os nossos homens
vêm cansados
vêm arribados
do alto mar... (1)



(1) Romeu Correia, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950