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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Almeida Garrett

— Uma boa nova; o Garrett vem passar o resto da primavera e o verão comnosco [...]

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett mandou o seu saco de noite, uma pasta com manuscriptos, e o estojo de toilette, peça esta que, á primeira vista, podia parecer uma caixa de instrumentos cirúrgicos e juntamente uma botica portátil: tal era a quantidade de ferros cortantes em forma de canivetes, escalpellos e bisturis; as tesoiras de todas as dimensões, as pinças, as esponjas, de todos os tamanhos, e a enorme quantidade de frascos que encerravam finissimas essências combinadas pelos mais imaginosos e mais famosos perfumistas de Londres e Paris.

O dono da casa, vendo o estojo aberto diante do espelho, contemplou-o, como eu contemplava as notas, isto é, com os olhos arregalados de pasmo, e, passados alguns momentos, voltando-se para mim, disse com ar solemne:

— Ora veja o meu amigo de quantas cousas pôde precisar um homem n'este mundo!

Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do dolce far niente, que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçarle na graciosa grinalda das "Folhas Caídas".

Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.

Iconografia do Romantismo, O deambulador sobre o mar de névoa (detalhe), Caspar David Friedrich, 1818.
Imagem: Wikipedia

Sentia-se na força da inspiração. Os versos, com o ardor dos vinte annos, desatavam-se de dia a dia. Ao mesmo tempo gisava as scenas do seu grande romance "Helena", de que ha pouco sairam os primeiros capítulos, formosos quadros, que deixam o leitor suspenso em ardente curiosidade.

Ah! porque descaiu mortal a mão do artista!

Parece que o poeta presentia já a morte quando, com sorriso melancólico, me recitava estes lindos e apaixonados versos:

Bem o vés, o alaúde caía-me
D'estas mãos que não tem já poder;
E o som derradeiro fugiu-me

Do hymno eterno que ergui ao nascer.
Ai! por ti, por ti só, á memoria
Vem saudades do tempo da gloria !

Oh! os poetas, os poetas!... Só elles têm alma de pagar as volúveis carícias da mulher com a immortalidade! (1)

Assomava a primavera de 1849. — N'esse tempo, em Portugal, havia primavera. — Deixou bem gratas recordações áquelles, que são hoje açoitados, em abril e maio, com as granisadas aspérrimas de dezembro!

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

Os dias da estação vernal chegavam-nos sorridentes, azues, e illuminados. As roseiras nos jardins, o pomar na horta, o relvão nas chapadas, cobriam-se de botões e de flores.

O pardal nos beiraes dos telhados, as andorinhas nos ares, as tutinegras, os rouxinoes nos balsedos e nas faias sussurrantes e sombreiras, papeavam, alegres e enamorados [...]

Um dia Almeida Garrett escreveu uma longa carta a Alexandre Herculano. N'esse papel fazia-se uma confidencia amarga!

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência. Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.

Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.


Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Julie ou la Nouvelle Héloïse, o primeiro beijo.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

Pondo de parte o extraordinário Miguel Angelo, de quem se conta, que não amou em toda a sua vida senão a Victoria Colonna, e que, só depois de morta, lhe deu o primeiro beijo, os artistas são susceptíveis de diversas e desvairadas impressões.

É providencial, ás vezes! Se Garrett, já no declinar da vida, não fosse accommettido de nova leviandade, — se por tal a querem capitular — não teríamos esse livro delicioso, que se intitula "Folhas caídas" [...]

Depois da morte de Adelaide, succederam-se longos, inertes, e amargos dias para o poeta, que chorava sobre um tumulo, e velava sobre um berço! Uma vez, porém, embora [...]

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glorias esconder.


Revia-se a melancholia no rosto do consternado poeta:

Mas a orchestra bradou alta;
— Festa, festa! e salta, salta!

Os seus guizos delirantes
Sacode, louca, a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n'os ouvia?


D'alli a pouco, estava escripto que outra fascinação viria tomar-lhe a alma de assalto:

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira, sem cessar?
Como as roupas, leves, soltas,
Aerias leva a ondular,
Em torno á forma graciosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquilla se assentou.


Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha d'essa gente,
Como a levanta insolente !


Almeida Garrett, Pedro Augusto Guglielmi, 1844.
Imagem: Wikipédia

O risco é inevitável; a perdição está por um fio! (2)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Artigo relacionado:
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Referências externas:
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal
Obras de Almeida Garrett em archive.org
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

quinta-feira, 31 de março de 2016

História de uma burra

Ouvimos contar o caso, e vamos confial-o á letra redonda para que d'elle se não perca a memoria.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tinha tido o porte airoso, as veias de uma transparência aristocrática, o olhar de uma suavidade indizível. Comera pouco, como esses entes quasi ideaes que pisam as alcatifas avelludadas das salas sem as acamar, e não haveria sido uma intrusa na verídica narrativa de uma reunião do "high-life".

Tinha dezeseis annos, a idade florente dos sonhos, dos desejos, dos caprichos para todas as do mesmo sexo, mas não da mesma raça... A protogonista da nossa historia é uma burra!

Dezeseis annos são na mulher a idade da walsa, das confidencias, das meias revelações. Na raça asinina são o desconsolo, a tristeza, a velhice, com todos os seus desencantamentos.

A protogonista da nossa historia nasceu na Trafaria, e pertencia, ou pertence... N'esta duvida entre o passado e o presente é que vai envolvido o mysterio de que tiramos esta verídica narrativa.

Ha na Trafaria um homem chamado Roberto, directo senhor de uma vacca, de meia dúzia de cabras, e de uns torrões pouco productivos, como quasi todos os que ficam ao sopé do monte de Caparica, antigo solar do snr. marquez de Vallada, denunciado ainda hoje ao vulgo por dous palácios em completas ruinas, como convém á velha fidalguia de sangue.

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O Roberto é um homem de cincoenta e tantos annos, que faz pela vida, que deita a pé seis léguas, ou mais se lhe forem precisas para o seu trafego, mas que precisa de um animal seguro de pernas, e de pouco alimento, que o aligeire das cargas mais pesadas quando tem de deitar até Cacilhas, ou levar a sua cara-metade ao cyrio de Nossa Senhora do Cabo.

Previdente como um labutador consciencioso, o Roberto comprou uma burra em 1868, quasi nas vésperas do snr. bispo de Vizeu trocar temporáriamente o báculo pela presidência do conselho de ministros.

Bispo de Vizeu, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A Janota, assim se chama a burra, tinha já então sete annos, e não se podia gabar de haver levado boa vida nas mãos de um moleiro, que lhe amolgava diariamente o espinhaço com três ou quatro saccas de farinha, aproveitando-lhe o préstimo nas horas vagas, carregando-a com pyramidaes cargas de tojo.

Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

Apesar de todos os pezares, a jumenta era jovial, e aparentada, no dizer dos entendedores de genealogias, com o feliz quadrúpede que o príncipe de Galles comprou em Cintra, para levar para Inglaterra, como um specimen dos productos naturaes da terra dos seus fieis alliados, receando que não lhe chegassem frescas a Londres as queijadas da Sapa.

Podem os bons exemplos deixar de ter imitadores, mas ainda não houve absurdo governativo que deixasse de fazer proselytos. A fúria das economias andava então no ar como o pó, e o Roberto que se não pôde gabar de ter um engenho original, deitou-se a imitar o programma do snr. bispo de Vizeu, pondo a burra a meia ração, como o illustre prelado fizera aos empregados públicos!

As consequências d'este systema económico não tardaram a chegar. A burra que nunca fizera cara ao trabalho, que não exigia mesmo gratificação de palhada para dar conta de qualquer missão espinhosa, começou a definhar de dia para dia, a olhar indifferente para a vacca que girava como ella debaixo da mesma firma commercial, até que deixou pender a cabeça sobre a manjedoura, na altitude resignada de uma beata que adormeceu a rezar o terço.

Era uma victima do orçamento particular do dono. Uma consócia insciente dos planos financeiros da época.

A instrucção publica: a grande burra, Raphael Bordallo Pinheiro, A Parodia, n.° 53, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

Agora vai começar a parte sentimental d'esta historia. Que pensa o leitor que fez Roberto ao seu braço direito, á burra que tinha incontestável direito a ser aposentada com a ração por inteiro, e a passar os últimos dias da vida, não digo cavaqueando na botica do bairro, com um empregado publico aposentado, mas retouçando livre da albarda a rara verdura que esmeralda o caminho da Sobreda?

Zé Povinho, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mandou-a deitar á margem!

Á margem! São duas palavras só, mas significam o inferno e a eternidade, como de um bipede seu cliente disse o visconde de Castilho, na sua immortal epistola á imperatriz do Brazil.

Á sentença seguiu-se a execução. A burra, a Janota, a intrépida caminheira, a paciente carregadora, foi levada de corda ao pescoço até os juncaes, e lá abandonada ao seu destino, para meditar, se o soubesse fazer, na injustiça dos homens, e na instabilidade da fortuna.

O que são os juncaes? Perguntai-o a Bulhão Pato, ao intrépido caçador, ao apaixonado pelas grandezas da natureza, mesmo nas suas mais agrestes manifestações; ao poeta, que por amar as boninas não deixa de bemquerer ao rosmaninho, nem de se affeiçoar ao sargaço que orla os trilhos tortuosos que conduzem ao topo das encostas escabrosas.

Bulhão Pato, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os juncaes são, a palavra o está dizendo, um terreno húmido e encharcado, tendo por docel um céo esplendido, e por usuaes povoadores inhospitos coelhos, espertas codornizes, rastejadoras perdizes, e, fendendo os ares em desencontrados rumos, espavoridas gaivotas, e ruidosas aves de rapina.

Os juncaes, que nascem e crescem onde as demais plantas degeneram e morrem, acoutam no intrincado labyrintho das suas emmaranhadas raizes os coelhos e as perdizes que o meu amigo Bulhão Pato desaloja dos seus tranquillos coutos, para os ferir de morte na carreira, ou as fazer desabar das alturas, até o desenvolto perdigueiro as ir topar adormecidas na alfombra, para não mais acordarem.

Foi, como dissemos, nos juncaes que a Janota foi abandonada ás vicissitudes da vida errante, ás intempéries das estações, ao desconsolo da solidão, ás misérias do isolamento!

Mas a Providencia é a mãi pródiga dos desvalidos, e reveste as formas que mais lhe apraz para valer á mais humilde das suas creaturas. Havia quasi uma semana que a Janota divagava por entre os juncaes, aspirando as brizas marinhas, e retemperando os pulmões com os perfumes agrestes do trevo e da margacinha, quando em um sabbado, por isso chamam aos sabbados de Nossa Senhora, a Providencia, representada por José Ghumeco, foi topar com a burra dormindo a sesta, com a tranquilhdade de um justo, zurrando por entre sonhos a palavra perdão.

Confesso que sou amigo do Ghumeco, mas não falsearei a minha historia com episódios que eu nâo haja apurado da tradição oral confrontada depois conscienciosamente com os factos subsequentes, que recommendam o nosso homem á benevolência da sociedade protectora dos animaes.

José Ghumeco é um maritimo, nado e creado ná Trafaria, que se sente mais á vontade empunhando um remo, colhendo uma vela, retorcendo um cabo deitando uma rede, conjecturando os ventos, prognosticando temporaes, do que muitos ministros com as pastas, e muitos poetas com a idéa nova.

Trafaria, Vista da Praia, ed. Manuel Henriques, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O vocabulário do Ghumeco é um vocabulário excepcional, pitoresco, novo, abundante. A alma anda-lhe lavada de ruins paixões. Aprendeu com o mar a serenar logo depois da tempestade. Se lhe escapa uma ruim palavra, conhece que o vento lhe veio de travessia, e põe-se á capa. É pai de uns poucos de mocetões que parece terem sido inventados para o mar, e casado com uma santa mulher que o remenda, e lhe diz quando as ondas não estão para graças:

— Ó homem! se eu fosse a ti não me mettia a tentar a Deus!

A que o Ghumeco responde invariavelmente:

— Á conta de quem pôde, é que a gente anda cá n'este mundo!

Era um sabbado, por signal a 23 de janeiro de 1877, ia o nosso homem para a costa, ver colher uma d'aquellas redes colossaes que trazem á terra dúzias de contos de reis em sardinha, quando, ao passar pelos juncaes, estacou ao ver a Janota que se espreguiçava vergando as pernas com o esforço que fazia para tomar conhecimento de si, com o pello hirto e aguado, denuncia muda da sua involuntária vadiagem.

O Ghumeco chamou-a. O instincto, que nos animaes presta para mais do que o raciocinio em alguns homens, disse a Janota que era chegado o termo dos seus males. Encabritando-se, como nos tempos felizes em que a cevada a estimulava ás caminhadas que a tradição ainda hoje commemora, e despedindo dous alegres couces, prenuncio dos mais que havia despedir pelo correr dos tempos, aproximou-se do Robinson que a chamava, attrahindo-a com a engenhosa bonhomia de um missionário, e a rude franqueza do homem do mar.

Novos horisontes se vão rasgar agora para a invalida que o dono não soubera apreciar recorrendo aos segredos das hervas medicinaes, ou coníiando-a á sciencia de um ferrador, perito no tratamento das pneumonias agudas.

A primeira quarta de cevada que a Janota viu diante de si em improvisada manjadoura de vime, foi como um convite á vida alegre e folgazã de outros tempos. A palhada, adubada de semea fina, produziu na organisação robusta da Janota melhor effeito que a "Revalescière du Barry", nos temperamentos lymphaticos das filhas de um portuguez recambiado de Pernambuco pela sociabilidade dos naturaes da terra.

No fim de um mez a burra afoutou-se a poder com a albarda para experiência. Na primavera seguinte, quando o cuco serve de calendário á gente do campo, já ella carregava uma moçoila desempenada, e, soberba de carga tão formosa, galgava chotando, onde as suas congéneres se enterravam na areia, e atrevo-me a dizel-o (Deus queira que me não venham trabalhos da sinceridade) que nunca até hoje o hippodromo de Belém deu premio de consolação, ou de qualquer outro nome, a bicho capaz de se lhe avantajar na carreira.

Costa da Caparica, transporte de mercadoria pelas dunas, década de 1920.
Imagem: Espólio Agro Ferreira

Desculpem-me os sócios do "Jockey-Club" esta minha opinião, que julgo não ser isolada. Se o meu respeitável amigo o snr. conselheiro Moraes Soares, não toma a serio o apuramento da raça cavallar, receio que os burros venham a ser trunfo nas corridas. .. de cavallos.

Vamos ao caso.

Não ha obra de caridade que Deus deixe sem recompensa. A Janota veio a ser a auxiliar do Ghumeco, não o seu ganha-pão exclusivo, mas uma fatia do seu pão quotidiano. Quem hoje quer alugar a burra que os juncaes viram magra, extenuada, lazarenta, tem que metter empenhos para o conseguir. O Chumeco põe a mão na ilharga, marca-lhe o preço, e não desce d'elle nem um real.

— É para quem pôde, responde invariavelmente o dono. Isto não é animal que se fie de quem não entende da poda.

Proferimos a palavra fatal: — dono!

O dono! Mas quem é o dono? A esta interrogação ha-de responder-se em Almada ao acabarem as férias judiciaes, visto que o Roberto chama hoje seu ao que mandou deitar fora, e o Chumeco se agarra á sua propriedade, mal comparado como uma ama de leite diz ser sua a criança que os pães abandonaram. Para este caso intrincado duvidamos que possa ser applicado com bom resultado o juizo de Salomão; mas recorda-nos quasi que a propósito, a tenacidade com que um verdadeiro sábio e homem de bem — o virtuoso Condorcet — preferiu sempre a mulher do povo que o creára, á mãi desnaturada que á nascença o entregara á caridade do municipio.

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

Nós não queremos prevenir julgamentos, mas respondam-nos em consciência: não representará o Roberto n'esta historia o papel de um amante volúvel, que só deixa accender no coração os bons affectos, quando vê feliz e alegre em poder de outro a mulher que elle levou á perdição e á miséria?

Sophia Loren e Marcello Mastroianni, Ieri, Oggi, Domani, Vittorio De Sica, 1963.
Imagem: rebloggy

Não significará o Chumeco n'esta singela historia, a Providencia dos dramas chamados realistas, onde a convenção theatral manda entrar uma figura que enxuga todas as lagrimas e consola todas as afflicções?

Esta historia por ser de uma burra, não terá a sua moralidade como os apologos de Lafontaine? Nós cremos que tem.

Marquez d'Ávila e de Bolama, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hontem ainda, 15 de setembro de 1877, sendo pretor o snr. marquez d'Ávila e de Bolama, vimos a burra que o Chumeco conserva por em quanto em seu poder, e podemos attestar que nos olhou... como quem reconhecia em nós o apologista do seu bemfeitor. (1)


(1) Luiz Augusto Palmeirim, Galeria de figuras portuguezas,  Porto e Braga, Liv. Internacional de Ernesto Chardron, 1879  

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Tema:
Trafaria

sábado, 5 de março de 2016

O retiro de um velho romântico

Cansado das mocadas que entre si distribuía a turba sertaneja, que em procissão, às vezes, recorria à minha agulha de sutura, procurei regressar à Arte consoladora [...] (1)

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Em dezembro de 1898, tendo sido nomeado medico do Partido Municipal de Almada, em Caparica, fui levado ao Monte por D. João da Camara e Lopes de Mendonça, que me apresentaram a Bulhão Pato.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

O velho poeta vivia numa casita modesta, com um mobiliário simples, quasi pobre, em que uma antiga commoda marchetada e um toucador Império lembravam uma passada prosperidade familiar.

O typo já eu o conhecia: era, no gesto, na dicção, na voz arrastada e grave com profundos finaes melodramáticos, o personagem que Eça de Queiroz compôs nos "Maias" [Tomás de Alencar — o que motivou que Bulhão Pato escrevesse as sátiras "O Grande Maia"  em 1888 e "Lázaro Cônsul" em 1889], 

Eça de Queiroz "In memoriam" (excerto), organizado por Eloy do Amaral e M. Cardoso Martha.
Imagem: Internet Archive

e digo compôs porque depois de conversado e convivido, Bulhão Pato afastava-se da celebre caricatura do celebre romance por uma vivacidade mental, uma penetração de espirito e até por uma observação aguda, por vezes resumidas em ditos scintillantes, alguns dos quaes ficaram na tradição como lapidares.

Como era muito assomado de gênio, herança da impetuosidade romantica toda feita de gestos heroicos e braços cruzados de desafio, as suas inesperadas saídas tinham a fúria de estocadas súbitas que marcavam a presa com um sinete de galés.

"Se o assanham, tem duas farpas na lingua", dizia Camillo. 

Pena é que esses botes sejam no maior numero dos casos do domínio das cryptineas, como alguns que lhe ouvi, preciosos pelo realismo desbragado mas perfeito, que chegavam pela sua eloquencia a dar relevo burlesco a certos personagens.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Amimado desde a infancia, por isso vaidoso da aureola que lhe puseram desde muito moço, bonito rapaz como ainda se vê, na idade já madura, do bello retrato de Lupi, passou uma primavera na casa que Alexandre Herculano habitava na Ajuda, casa que ainda existe proximo do paço real.

Real Palácio da Ajuda, ed. Tabacaria Costa, 901, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Entrando logo na intimidade e no culto do grande historiador, era então companheiro de Garrett, ali hospede também [1847-1848], que aggregou o jovem poeta á sua vida noctambula de mundanismo elegante, pelos aristocráticos salões de então.

As gerações do romantismo literário em Portugal reunem-se na casa da Ajuda em 1847-1848:
Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877) e Bulhão Pato (1828-1912).

Regressavam á Ajuda fora de horas, e tão fora de horas que Herculano resolveu-se a mandar fazer uma chave da porta, que lhes entregou, para que o criado não ficasse até de madrugada á espera do autor illustre do Frei Luís de Sousa e do novel versejador do "Se coras, não conto". É que Herculano deitava-se invariavelmente ás onze horas ("deita-te ás onze, que não és de bronze", dizia), adormecia logo que punha a cabeça no travesseiro e era de um somno só.

Esta existencia na Ajuda, que Pato recorda nas suas "Memórias", apresentava outros aspectos menos austeros, de uma jovialidade expansiva, que tiravam ao tradicional Herculano de sobrancelha carregada essa mascara de lenda para lhe afivelar outra, de uma expansão alacre, quando ouvia aos rapazes certas historias que Bulhão Pato classificava de fescenninas.

Assim, o autor da "Historia de Portugal", que os retratos dão sempre de catadura severa, gostava immenso de anecdotas frescas, e quando alguém lhe dizia; — "o mestre já conhece esta" — Herculano esfregava as mãos e dizia: — "conte, conte, as experimentadas são as melhores." Foi assim que certo dia, ouvindo José Estevão rematar a descripção de uma recita de gala em São Carlos com um commentario de desbragada representação rabelaisiana, caiu literalmente no chão ás gargalhadas.

Bulhão Pato era um espirito profundamente liberal, patuléa na sua mocidade, e que um dia foi barbaramente aggredido por um grupo de cartistas no alto da calçada da Ajuda, com a aggravante de estar a namorar para uma sacada a filha do celebre ceramista [Wenceslau] Cifka.

— "Mas dias depois, no Martinho do gelo, vinguei-me. Moi-os!" — Esta rapariga, Mary Cifka, era protestante, e Pato tinha de freqüentar a capella deste rito para a ver. Duma vez, estava um "clergiman" a fazer uma predica no meio de um grande silencio e entra no recinto um homem, typo de velho embarcadiço, olho azul, barba de passa-piolho, mas as bochechas muito escanhoadas.

Olhou em todos os sentidos, fitou o pregador, escutou, e momentos depois toca no cotovelo de Bu- lhão Pato e diz-lhe em tom de poucos amigos: — "Você não me saberá dizer o que é que aquella besta está ali a ladrar ?" — Pato saiu á pressa da igreja.

Aos vinte annos, assignara o famoso manifesto contra a lei de imprensa de Costa Cabral [agosto de 1850], denominada já nesse tempo "lei das rolhas". E quando, meio século depois, identico projecto foi apresentado ao Parlamento por João Franco, os liberaes foram-no buscar ao seu retiro do Monte para levar o protesto que foi por elle entregue ao presidente da Camara.

Dava-se um facto singular: os três homens que restavam em 1907 tendo assignado o protesto contra a lei cabralina, haviam-no feito, por acaso, a seguir e juntos: — Barbosa du Bocage, Almeida e Albuquerque, Bulhão Pato. E é igualmente singular que morressem pela ordem por que vinham no documento.

A casita de Caparica era um retiro hospitaleiro e conservava as tradições de fina recepção, através do seu ar modesto e simples, em que Pato se afizera a viver nas grandes casas dalgumas das velhas e históricas familias portuguesas, que elle freqüentara em quasi todas as nossas províncias, como viajante incansavel que foi, lamentando apenas não ter conhecido Trás-os-Montes.

Dahi, as figuras das suas "Memorias", pintadas com as côres optimistas dessa época romantica, com abundancia de sentimento e ausência de cuidados, aos últimos clarões do patrimonio das conquistas que fazia a vida fácil e o temperamento optimista. 

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

A agudeza economica era um vocabulario ainda desconhecido. Por isso as mulheres eram sempre cheias de paixão, de sacrifício, e tinham longos cabellos que se desgrenhavam dramaticamente; os homens eram valentes, bons cavalheiros, e vestiam com elegancia. 

Se Bulhão Pato, em vez de fazer Memórias de recorte literário, com preoccupações acadêmicas, conta o que viu, sem diversões de estilo, na sua realidade brutal, teriamos alguns instantâneos illuminados ás vezes por uma luz de tragédia.

— "Estava eu, contava, com alguns rapazes á porta do Marrare do polimento (era no Chiado e chamavam-lhe assim para o distinguirem do Marrare das sete portas, na Baixa), todos sem vintém e revolvendo a imaginação para ver como achar uma solução á nossa penúria. Nisto vemos descer o Chiado, pelo passeio fronteiro,.um sujeito nosso conhecido, amante e "souteneur" de uma senhora da sociedade.

Marrare de Polimento, gravura in A Semana, n.° 4, 1851.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ora acontecia que o filho dessa senhora era um dos nossos companheiros de miséria, o qual, destacando-se do grupo, atravessa a rua e dirige-se ao tal cavalheiro e segreda-lhe qualquer coisa.

Este sorri, mette a mão no bolso e dá-lhe uma moeda. O moço regressa, sorridente também, e clama para os companheiros mostrando uma libra em oiro: — "O bom filho a casa torna..." — Bulhão Pato, depois de me contar esta scena, travou-me do pulso, gesto muito seu, e diz-me com os olhos brilhantes: — "Você já o viu melhor em Shakespeare?"

Doutra vez contou-me que uma senhora muito da alta sociedade estava uma noite a passar por cima de um muro baixo, em Algés, uma cadeira para o amante poder passar. Nisto sente-se atrás agarrada pelos cabellos; era o marido. Surprehendida e attonita, grita num desespero: — "Traição!" — É demoniaco!

Quando eu chegava a casa depois do giro clinico, era freqüente encontrar um bilhete de Bulhão Pato com estas concisas palavras: — "Venha! Temos pescada do alto." — Porque a sua mesa era prova das suas tradições de cozinheiro insigne, gabando-se o poeta de ter mais orgulho com o êxito de um bom prato do que com a fama de um bom alexandrino; Eram celebres os seus jantares de caça, as perdizes, as gallinhas, as narcejas, e por esse tempo havia em Caparica um vinho branco que tinha um gosto de pederneira [muito mineral], vinho já cantado por Gil Vicente e Camões [Convite que fez Camões em Goa a alguns Fidalgos]:

Ceia não a papareis,
Comtudo por que não minta,
Em vez de ceia tereis,
Não Caparica mas tinta ,
E mil coisas que papeis.

Pato gostava que lhe gabassem as vitualhas, e quando os convivas mastigavam em silencio, não deixava de observar: — "Vocês comem, mas nem palavra." — Eu um dia respondi: — "A commoção embarga-me a voz!" — ao que outro replicou: — "As grandes alegrias, como as grandes dores, são mudas..."

Pato ria, porque gostava de ver os rapazes á sua mesa, ali indo D. João da Camara, o jornalista Urbano de Castro, mestre em trocadilhos, e eu lá levei Alexandre Braga, de cujo pae o poeta fôra amigo. Augusto Gil, Manuel Monteiro. Um dia fui encontrá-lo com uma alegria infantil. Tinha quasi oitenta annos e ao ver-me gritou abrindo os braços: "Cacei hoje uma gallinhola!" — E presidiu com carinho ao seu amanho, não deixando de preparar o raro acepipe da torrada.

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação. Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)


(1) Paulo Braga, João Barreira, o Escritor, o Professor e o Artista, Jornal da Régua, 27 de Dezembro de 1936
cf. Catarina Fernandes Barreira
(2) Dr. João Barreira, O retiro de um velho romântico

domingo, 20 de setembro de 2015

Uma arribada em calma branca


UM dia de dezembro, um soberbo dia de dezembro no nosso paiz é, para mim, o ideal da belleza diurna de todas as quadras do anno.

Não tem os relvões esmaltados, pomares floridos, searas ondeantes, gorgear de ninhos como na primavera; nem os vinhedos colmados de cachos, o trigo loiro, sombras remorosas de arvores de fructos opimos como o verão e o outono.

Mas tem o pungir virginal da esperança nas folhas das terras lavradias, os cristaes serpentinos dos córregos e algares, as veias prateadas dos ribeiros e as calhandras aos paires pelos ares.

Vem abrindo a manhã; é rápido o crepúsculo; o norte brando e límpido menea a coma flexivel dos pinheiros bravos; o azul do ceu carregado como o dos Apeninos, o sol, incendiado, resae da orla do nascente, os diamantes da geada á fíor da terra, e na rede das arvores desfolhadas. Na esphera immaculada, no ar luminoso e vivificador a suprema formosura, annunciando, no poder latente da natureza, os dias prósperos do futuro.

Foi n'uma d'essas madrugadas inolvidáveis de dezembro, em 1877, que eu sahi a bater os montados da Rosa e da Oliva. Na volta á Trafaria, encontrei de improviso Júlio Mardel. Vi nha com um rapaz que eu conhecia — Lúcio do Sacramento — regente agrícola, protegido de Simões Margiochi.

*

Duas palavras sobre Júlio Mardel.

Conheci-o no berço. Não ha ninguém de certa roda e certa edade, que o não conheça e o não aprecie no muito que vale. O que nem todos podem calcular é o que elle foi em pequeno. Não conheci na minha longa vida criança egual.

Tinha conceitos, replicas brilhantes — algumas já correm impressas. Quando convinha, guardava a compostura de um homem feito. Era tal a vivacidade, o talento a borbotões, que sahia d'aquelle cérebro infantil, que in fundia mais do que espanto; quasi medo!

A precocidade assombrosa, reunia a simplesa e as graças da puerícia. Um dia, teria elle dez annos, levei-o a jantar a casa de Rebello da Silva. Vinha galantíssimo; todo de veludo preto, e trajando com o bom gosto peculiar n'aquella excepcional familia.

Por essa época, o eminente escriptor e orador recebia ás quintas, e domingos, a jantar, os seus íntimos: Rodrigo Felner, A. Xavier Rodrigues Cordeiro, Francisco Maria Bordallo, António Pedro Lopes de Mendonça.

Alexandre Herculano nas quintas era quasi sempre certo. N'esse tempo morava Rebello na rua de S. Bento, próximo á travessa de Santo Amaro. Ao lado vivia Latino Coelho, e em frente João de Andrade Corvo.

Corvo, também não raro, vinha jantar; Latino, abstemio como um anachoreta, apenas apparecia ás noites.

Com taes convivas, pôde calcular-se como corria o tempo, e talvez devesse tomar-se como leviandade minha levar um pequeno, que mal teria dez annos, a passar largas horas com homens d'aquelles. Pois encantou e maravilhou a todos.

Pena foi, di-lo-ei, pena foi, que apesar do que vale, Júlio Mardel não hou vesse desenvolvido mais profusamente, n'um estudo methodico e aturado, as poderosas faculdades do seu engenho nativo.

*

A canoa, que havia de transportar-nos a Lisboa, era tripulada por três rapazes braceiros e pelo velho mestre Casaca já entrado em annos, porém robusto ainda. Os meus companheiros de viagem: Júlio, Lúcio e meu afilhado António Tovas.

Quatro remeiros para atravessar o Tejo em noite plenamente calma e n'um dos pontos mais estreitos do rio, talvez pareçam de sobra. E que as aguas do monte vinham de tal modo arrebatadas que próximo á barra eram doces.

As chuvas do outono haviam sido caudaes.

Júlio Mardel, ao pôr os pés no barco, invocou o grande épico, exclamando:

"Oh! mal haja o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz um secco lenho!" [Camões, Luis de, Os Lusíadas, Canto IV, Estância 152]

E commentou o texto, declarando que não havia homem em todo o universo mais poltrão do que elle no mar.

Vendo, porém, a tranquilidade da noite, continuou dando largas á veia inexgotavel da sua faiscante palavra.

Mettemos ao rez do Almarás, montes que vão da Trafaria ao Pontal de Cacilhas.

*

A tarde findava. A lua, em fogo, como o sol posto, levantava-se do nascente.

Momento que raras vezes, sob um céu diaphano e luminoso, logram apanhar os que adoram os painéis inimitáveis da natureza no incomparável rio do nosso paiz.

Como descrever os tons das aguas, dos horisontes, onde a mancha de rubim vae cambiando na violeta da amethysta; os picos de Cintra, como ondulando, a desapparecer na penumbra do occidente, a cidade a envolver-se no veu da neblina crepuscular!

Não ha tintas, nem linhas, nem arte de génio humano que possam reproduzir com o pincel, com a palavra, com todo o vago e intenso das próprias partituras, a maravilha arrebatadora!

A alma do admirador enternece-se, extasia-se, abysma-se na contemplação momentânea do indisivel quadro!

*

Tinhamos embarcado havia largo espaço. Nos vãos, recôncavos, grutas e largas fendas d'aquelles rochedos, o ímpeto da corrente dava uns rugidos surdos e sinistros, contrastando singularmente com a funda e majestosa serenidade da noite.

Júlio Mardel emmudeceu. Os remadores, arrancando com alma, procuravam chegar a uma altura que lhes permittisse descair no caes de Belém.

Ao cabo de mais uma hora, supondo momento propicio, tentaram a travessia. A poucas remadas entravamos no fio da corrente.

O barco a descair a olhos vistos. Os homens redobrando na faina, Mar estanhado, porém a ondulação, que vinha do largo, augmentava.

Ouvia-se já distinctamenteo som pesado da vaga nos cachopos da barra:

"Como o confuso bramar
D'um mar ao longe movido. 
Que á praia vem rebentar" [Garrett, Almeida, Folhas Caídas]

Ninguém proferia palavra.

N'isto, um dos remeiros d'estibordo levou a mão á cabeça, e tirando o barrete disse, suffocado de afflicção:

— Nossa Senhora do Cabo!

Os outros responderam sombriamente:

— Nossa Senhora do Cabo!

O mais leve esmorecimento era a perdição. Se o barco desse a popa á corrente, em poucos minutos estávamos todos perdidos.

Então, com a energia dos momentos supremos, acudi aos dois canos da minha espingarda.

Quando saltámos em terra...
A disciplina restabeleceu-se. 

O pânico passou. 

Os rapazes, resolutos e vigorosos, arrependidos e envergonhados d'um momento de fraqueza, com a alma de marítimos portuguezes, atiraram-se ao punho dos remos de voga arrancada, e, soando em grossas bagas, lograram tomar a revessa, e deitaram-nos adiante do Dá Fundo.

Quando saltámos em terra, os calhaus da praia pareceram-nos tapis da Pérsia.

As estrellas no ceu profundo, desvanecidas com o luar esplendido; na superfície espelhada do Tejo e, barra-fóra, a tremulina.

Encanto ethéreo de noite e de mar! 

O mar, porém, embora manso como cordeiro, é sempre pérfido e tigrino.


*

Mettemos caminho de Belém. 

Os Jerónimos inundados de luz nas linhas altivas e elegantes. Nós, perdido o senso esthetico, não tinhamos olhos senão para ver se estava allumiada ainda a casa de pasto do Caçador d'El-rei, João Lourenço, por antonomásia — o João da Burra.

Estava e tinha a canja de gallinha, a sua cosinha á portugueza e o trato fino e polido da sua pessoa opulenta de formas e sympathica. Também se foi na força da vida.

Eu não lamento a solidão dos velhos. Os velhos sempre teem alguns vivos, e sempre uma legião de mortos!

Dos meus companheiros d'aquella notável travessia. Lúcio do Sacramento sucumbiu ha muito. Júlio Mardel, e meu afilhado António Maria Tovas, estão vivos, e Deus os conserve!

Monte de Caparica, Torre. Outubro, 25 — 1906 (1)



(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Uma arribada em calma branca