quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ilustrações de Finden à vida e obra de Byron

Pensou-se desejável fazer num volume, os primeiros oito números destas ilustrações de Lord Byron (1788-1824), em paisagem e retrato, para organizá-las de uma forma menos inconstante do que foi a ordem da sua publicação, e acompanhar as estampas com informação, de autores eminentes e de fontes originais, sobre os temas das gravuras.

Lord Byron (1788-1824) por Thomas Phillips, 1813.
Imagem: Wikipedia

O primeiro volume é assim apresentado ao público de uma forma completa; e os sucessivos oito números do trabalho serão, após a sua publicação, adaptados do mesmo modo,  formando assim um elegante acessório para a mesa de sala e para a biblioteca de obras ilustradas [...]

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BELEM CASTLE, LISBON

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A.
[Associate of the Royal Academy]


Belem Castle, Drawn by C. Stanfield, Engraved by E. Finden.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
On, on the vessel flies, the land is gone,
And winds are rude in Biscay's sleepless bay.
Four days are sped, but with the fifth, anon,
New shores descried make every bosom gay;
And Cintra's mountain greets them on their way,
And Tagus dashing onwards to the deep,
His fabled golden tribute bent to pay;
And soon on board the Lusian pilots leap,
And steer 'twixt fertile shores, where yet few rustics reap.

Childe Harold, canto i. St. 14.
[...] Saímos agora da Torre de Belém, onde um escritório é mantido para o registo de todos os navios que entram e saem do Tejo; assim como num estabelecimento de oficiais de alfândega, oficiais de saúde, e um deepartamento de policia naval, para a proteção da propriedade, e a defesa da passagem.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Mr. Hobhouse, numa nota às linhas de Lord Byron "Escrito depois de nadar a partir Sestos a Abydos", diz, "Meu companheiro antes tinha feito uma travessia mais perigosa, mas menos célebre; lembro-me de que, quando estávamos em Portugal, ele nadou desde Lisboa velha até à Torre de Belém; e mesmo tendo que lutar com a maré,  a contra-corrente e o vento fresco, demorou pouco menos de duas horas a travessia".

LISBON, FROM FORT ALMADA

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A. a partir de um Esboço de W. Page.


Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: Cesar Ojeda
What beauties doth Lisboa first unfold!
Her image floating on that noble tide,
Which poets vainly pave with sands of gold,
But now whereon a thousand keels did ride
Of mighty strength, since Albion was allied,
And to the Lusians did her aid afford:
A nation swoln with ignorance and pride,
Who lick, yet loathe, the hand that waves the sword,
To save them from the wrath of Gaul's unsparing lord.

But whoso entereth within this town,
That sheening for celestial seems to be,
Disconsolate will wander up and down
'Mid many things unsightly to strange ee;
For hut and palace shew like filthily,
The dingy denizens are reared in dirt;
No personage of high or mean degree
Doth care for cleanness of surtout or shirt,
Though shent with Egypt's plague, unkempt, unwashed, unhurt.

Childe Harold, canto i. st. 16, 17.
É difícil encontrar um único autor que tenha escrito sobre Lisboa, sem perceber que, quando quase esgotou os termos de panegírico sobre a sua bela localização e gloriosa aparência, traz instantaneamente, em contraste com estes, a linguagem do desprezo e repugnância à imundície e abominações desta pior que pintada sepultura.

"Quando entrámos Lisboa no ano passado, após a convenção de Cintra, pelas estradas que a ela levam a partir do Vimeiro" diz o coronel Leach, no seu "Rough Sketches of the Life of an Old Soldier...", "não tinhamos, até agora, uma oportunidade de julgar de sua aparência a partir do Tejo. As casas de campo e conventos ao lado das mais pitorescas colinas, densamente plantadas com vinhas; a legião de moinhos de vento perto de Belém; e, finalmente, a cidade em si, formam juntos uma imagem encantadora, que qualquer tentativa minha para lhes fazer justiça deve inevitavelmente falhar por completo. Além disso, de Lisboa e o seu rio têm sido muitas vezes descritos por penas muito mais capazes [...]"

No meio de tudo isso, no entanto, Lord Byron mostra-se, por escrito ao Sr. Hodgson de Lisboa, num dos seus mais alegres estados de espírito, diz ele: 

"Estou aqui muito feliz, porque gosto de laranjas, e falar mau latim com os monges, que o compreendem, como se fosse o seu próprio; e vou para a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado no Tejo que atravesso de uma vez, e passeio de burro ou mula, e digo palavrões em português, e tive uma diarreia e picadas dos mosquitos; mas o que é isso? o conforto não deve ser esperado por pessoas que vão a prazeres."

Da cena específica, que constitui o objecto da estampa em anexo, a melhor descrição é encontrada a acompanhar a vista do coronel Batty tomada quase do mesmo local, na sua obra "Select Views of the Cities of Europe", — Lisbon, from Almada.

"Em frente a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias, que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, a partir daí para o mar. A partir desta posição elevada temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável."

"Para norte toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas, e formando uma borda brilhante para o Tejo. Para o oeste, o nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, e fluindo para o oceano Atlântico oceano, entre as torres distantes de St. Julian e de Bugio; e para este o rio espalha-se num vasto estuário, delimitada por uma longa extensão de terra."

"Para sul os outeiros de Almada inclinam-se para um vale coberto de vinhedos, atrás do qual há uma subida gradual com colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é limitado pela cadeia montanhosa da Serra d'Arrábida, tendo a notável montanha coroada com o castelo de Palmela para este, e o castelo mouro distante de Cezimbra em direção a oeste."

"Na vista em anexo, o espectador é suposto estar a olhar para montante do rio, na direção noroeste."

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

"Parte de Lisboa ocupa o lado esquerdo da cena. O convento da Penha de Franca fica na colina mais distante nesse lado. Um pouco à direita, na colina ao lado, é a capela de Nossa Senhora da Monte. O castelo é visto cobrindo o morro ainda mais para a direita; e as torres da igreja de São Vicente, o local de enterro dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto da extremidade da cidade." 

"Em linha com as torres de São Vicente, mas mais próximo do espectador, são as velhas torres castanhas da catedral [sé]; e à sua frente, perto para o Tejo, são os edifícios que cercam a Praça do Commercio: estes, com a Alfandega, o arsenal naval, e o Caes de Sodré, formam juntos uma gama imponente de edifícios. Numeros navios estão espalhados sobre a ampla bacia do Tejo;"

"o todo, combinado com a alta e precipitada falésia de Almada, em primeiro plano, formam uma interessante e impressionante paisagem".

CINTRA

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A. a partir de um Esboço de Capt. Elliot.


Cintra, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by Captain Elliot, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: ANTIQBOOK
Lo! Cintra's glorious Eden intervenes
In variegated maze of mount and glen.
Ah me ! what hand can pencil guide, or pen,
To follow half on which the eye dilates
Through views more dazzling unto mortal ken
Than those whereof such things the bard relates,
Who to the awe-struck world unlock'd Elysium's gates?

The horrid crags by toppling convent crown'd,
The cork-trees hoar that clothe the shaggy steep,
The mountain moss by scorching skies imbrown'd,
The sunken glen whose sunless shrubs must weep,
The tender azure of the unruffled deep,
The orange tints that gild the greenest bough,
The torrents that from cliff to valley leap,
The vine on high, the willow-branch below,
Mix'd in one mighty scene, with varied beauty glow.

Childe Harold, canto i. st. 18, 19.

MAFRA

Desenhado por D. Roberts a partir de um Esboço de C. Landseer.


Mafra, Drawn by D. Roberts from a Sketch by C. Landseer, Engraved by E. Finden.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Yet Mafra shall one moment claim delay,
Where dwelt of yore the Lusians' luckless queen;
And church and court did mingle their array,
And mass and revel were alternate seen
Lordlings and freres ill-sorted fry I ween!
But here the Babylonian whore hath built
A dome, where flaunts she in such glorious sheen,
That men forget the blood that she hath spilt,
And bow the knee to pomp that loves to varnish guilt.

Childe Harold, canto i. st. 29.


(1) William Brockedon (1787-1854), Edward Francis Finden (1791-1857), William Finden (1787-1852), Finden's illustrations of the life and works of Lord Byron, Vol. I, London, J. Murray, 1833

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX

Castelo de imagens e fantasia

Informação adicional:
D. G. Dalgado, Lord Byron's Childe Harold's pilgrimage to Portugal, Lisboa, Imprensa nacional, 1919
Flickr

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Luctas caseiras

Passos Manuel, durante os trabalhos das Cortes de 1821 reunidas no Palácio das Necessidades, que aprovariam a primeira Constituição Portuguesa. Pintura de Veloso Salgado, que decora o interior da Sala das Sessões do Parlamento.
Imagem: Assembleia da República

ADVERTÊNCIA PRELIMINAR

Devia comprehender um volume o trabalho de investigação historica a que demos o titulo de Luctas caseiras. Os materiaes, porém, reunidos sobre a epocha que nos propozemos historiar são tantos e tão valiosos, que impossivel foi incluir n'elle só a narração dos acontecimentos politicos de que Portugal foi testemunha de 1834 a 1851 [...]

Lisboa, Praça do Rossio no dia 1 de outubro de 1820. Entrada solene da Junta Provisória do Porto.
Imagem: Histórias com História

INDICE ANALYTICO 

Introducção (pag. ix a clxxvi)

Revolução de 21 de agosto de 1820 — Installa-se no Porto uma junta provisória — Primeiras desintelligencias entre os seus membros — Drago Cabreira e Silva Carvalho — Fustão em Alcobaça da junta do Porto com a de Lisboa — Partido militar — Suas aspirações e fins — Projectos de revolução — Acontecimentos do dia 11 de novembro — Proclamação de Gaspar Teixeira e ordem do dia de Pereira Sampaio — Alliança momentânea de ultra-liberaes e absolutistas — O partido militar triumphante, mas não vencedor — O governo cede ás suas imposições, mas a população de Lisboa protesta, e tudo volta ao estado anterior — Radica-se a divergência entre os homens da revolução — Eleições — Memoria sobre a abstenção das chamadas classes privilegiadas — Congresso constituinte — Nomeação da regência — Opiniões politicas que predominavam no congresso — Muitos dos que alli se apresentaram como liberaes exaltados tornaram-se depois em ullra-conservadores — Impressão que na corte do Rio de Janeiro produz a noticia da revolução do Porto — Conselhos sensatos do conde de Palmella a D. João VI, que só uma revolução no Brazil obriga a acceitar a nova ordem de cousas eslabelecida em Portugal — Regresso de D. João VI á Europa — É vedado por ordem do congresso o desembarque em Lisboa a algumas das pessoas que o acompanhavam — Jura o rei perante o congresso as bases da nova constituição — Descontentamento que produz no congresso o discurso lido por essa occasião em nome do mesmo rei — Novo ministério com que o congresso se declara logo em opposição, que dias depois provoca uma crise, e em seguida a demissão de todos os ministros — Ultima-se a discussão da constituição, a que a rainha se recusa a prestar juramento — Novo rumo politico que começa a tomar a maioria do congresso — O procedimento da rainha em se recusar a jurar a constituição é o signal do alarme para os inimigos d'esta saírem a campo — Procede-se á eleição dos deputados para as côrtes ordinárias, triumphando em quasi toda a parle o partido liberal — Aberta a camara fere-se logo batalha entre liberaes e conservadores — Pronuncios de revolução absolutista, a que não é estranha a rainha — Medidas de repressão tomadas pelo governo — Fins a que visava a revolução — A camara ao lado do governo — Revolução absolutista em Traz os Montes abortada — O infante D. Miguel sáe de Lisboa para Villa Franca com uma parte da guarnição de Lisboa — Motivo d'esta jornada — Augmenta o numero dos parciaes do infante, cujos desígnios de derrubar a constituição são conhecidos de todos — Plano occulto — O governo leva o rei a condenmar o procedimento do infante — Tibieza da maioria dos deputados e demissão do ministério — D. João VI adhere tambern á revolução, e segue do mesmo modo para Villa Franca — Protesto da camara dos deputados — D. Miguel nomeado commandante em chefe do exercito — Ministério Palmella-Subserra — Regresso do rei a Lisboa, e politica adoptada pelo novo ministério — Projectos mallogrados de nova revolução absolutista — Assassinato do marquez de Loulé — Successos do dia 30 de abril — D. João VI passa para bordo de uma nau ingleza de onde providenceia sobre vários assumptos de politica interna, e ordena a saida do infante D. Miguel para França — Diligencias infructiferas para que a rainha D. Carlota Joaquina saia de Portugal — O partido miguelista continua a conspirar — Receios infundados que ao governo infunde ao partido liberal — Falta de união entre os membros do governo — Approximação entre liberaes e moderados — Rasões que teve o governo para afastar da successão da coroa o infante D. Miguel — Queda do ministério PalmelIa-Subserra — Reconhecimento da independência do Brazil, e declaração de que o herdeiro da coroa era o príncipe D. Pedro de Alcântara — Conselho de regência nomeado por D. João VI, e morte do mesmo soberano — Partidos políticos existentes ao tempo em Portugal — Aclamação do novo rei — Outorga da Carla constitucional, e nomeação de pares — Abdicação que da coroa de Portugal faz D. Pedro — Esforços dos absolutistas para que D. Miguel regresse a Portugal, e reconhecimento que o mesmo faz da soberania do irmão — Má impressão que no paiz e fora d'elle produz a noticia da outorga da Carta — Indecisão do governo em dar cumprimento aos decretos de D. Pedro — Saldanha, obrigando o governo a fazer jurar a Carta, obtém um logar no ministério e a chefia do partido liberal — Absolutistas em armas — Saldanha, que marchara contra os revoltosos, é afastado pela doença da gerência da pasta da guerra — Eleição de deputados e abertura do parlamento — Sublevação absolutista em Traz os Montes — O governo reclama o auxilio de tropas inglezas — Opposição que encontram nas duas camarás alguns dos seus actos — Os absolutistas são batidos — Recomposição ministerial — A opposição ao governo do parlamento augmenta na ses- são ordinária — Desentelligeneias graves entre a camara electiva e a dos pares — Proposta apresentada n'aquella para se pedir a demissão do ministério — Decretos e ordens de D. Pedro que não são cumpridas — Decrela-se uma amnistia — Saldanha reassume a sua pasta e promove a queda do ministério — Novos ministros— D. Miguel chamado ao Rio de Janeiro por D. Pedro recusa-se a partir — Saldanha demitte-se de ministro da guerra — Manifestação de sympathia que lhe faz o povo de Lisboa, e que dias depois se repete no Porto — Alteração no ministério — Medidas de repressão tomadas pelo governo — D. Pedro, approvando o procedimento de Saldanha, faz com que a regente demitta dois dos ministros — D. Miguel é nomeado por D.Pedro seu logar-tenente em Portugal — Descontentamento que este facto produz no partido liberal, e enthusiasmo que disperta entre os absolutistas — D. Miguel saindo de Vienna para Portugal segue por França e Inglaterra — Falta de interesse que offerecem as sessões parlamentares — Desembarque em Lisboa de D. Miguel e seu juramento á Carta — Nomeia novos ministros e dissolve a camará dos deputados — Representações que lhe são dirigidas para que se faça aclamar rei — São convocados os antigos três estados — Muitos liberaes emigram, para Inglaterra — O corpo diplomático pede os seus passaportes — O partido liberal appella para a revolução, onde se levanta o primeiro grito, e corpos de linha que adheriram — Junta provisória organisada no Porto — Apreciação que da mesma fazem dois escriptores contemporâneos — Forças liberaes e absolutistas — D. Miguel procura debellar a revolta — Primeiros recontros — Delegação da junta do Porto em Coimbra — Retirada das forças constitucionaes — Chegada de Inglaterra ao Porto de differeiítes generaes do partido liberal — Falta de união entre os recem chegados — Palmella commandante em chefe do exercito constitucional — Desanimo no campo liberal — Saldanha, que acceitára substituir Palmella no commando em chefe, exonera-se do mesmo commando — Retirada para Hespanha do exercito constitucional — O partido absolutista abusando da sua vicloria — O marquez de Palmella chefe da emigração — Saldanhistas e palmellistas — Deposito de Plymouth — Revolução na Madeira — Soccorros enviados para ali por Palmella — carta que este dirige a D. Pedro, defendendo-se das accusações que lhe faziam os seus inimigos — Este documento e a defeza que depois publicaram os membros da junta do Porto provoca protestos vehementes por parte de Saldanha e de seus partidários — Saldanha chefe da opposição a Palmella — Dissolve-se o deposito de Plymouth — Queixas infundadas que isto provoca por parte dos emigrados — Palmella procura mandar soccorros para a Terceira — Expedição para a mesma ilha sob o commando de Saldanha — O governo da Terceira é confiado por Palmella ao conde de Villa Flor — Regência nomeada por D. Pedro — Falta de confiança que a mesma inspira — Carta de Silva Carvalho sobre o assumpto — Aggravam-se as desintelligencias ha muito existentes entre Saldaidia e Palmella — Inslalla-se a regência na Terceira — Tentativa de revolta contra ella — Chegada de D. Pedro á Europa, seu pensamento politico com relação aos negócios de Portugal — Principia a formar-se o, depois, chamado partido de D. Pedro — Rodrigo Pinto Pizarro — Da expedição organisada para vir sobre Portugal é excluído Saldanha c outros officiaes seus partidários — No Porto — Esforços empregados pelos saldanhistas para avinda do seu chefe — Mousinho da Silveira deixa a pasta da fazenda, em que é substituido por Silva Carvalho — José da Silva Carvalho c o seu tempo (nota) — Difficuldades que levanta aquella crise ministerial — Vinda de Saldanha, e incremento que com este fado toma o seu partido — O governo principia a receiar dos triumphos militares de Saldanha — Palmella, que estava no desagrado de D. Pedro, é indigitado pelos saldanhistas para chefe do governo — Tomada Lisboa muda-se para ali o theatro da lucta politica — D. Pedro chefe de partido  — Crise ministerial — Cartas de alguns membios da opposição a D. Pedro — Novo partido opposicionisla — Uma medida violenta do governo contra um membro da opposição ia provocando uma revolução — D. Pedro implora a neutralidade de Saldanha — O partido miguelista agonisante — Conselho de generaes em Évora sob a presidência de D. Miguel — O general miguelista Lemos propõe uma suspensão de armas, que é acceita — Concessão de Evora Monte, que não agrada nem aos liberaes, nem aos miguelistas — Tumultos no theatro de S. Carlos — Tentativa de assassinato contra D. Miguel — Embarque do mesmo em Sines — Protesto que publica á sua chegada a Génova — Victorias successivas alcançadas pela opposição no Porto — A camara de Lisboa manifesta-se abertamente contra a marcha politica do governo — A opposição augmenta de dia para dia — Trabalhos eleitoraes — Prisão do coronel Pizarro — Candidatura do mesmo Pizarro — Viagem do regente ao Porto — A opposição triumpha ali na eleição de deputados — Abertas as camarás principia logo uma lucta formidável entre a opposição e o governo — Discute-se e approva-se uma proposta para a continuação da regência — Pares do governo e pares da opposição — Projecto de lei para a rainha poder casar com príncipe estrangeiro — Propostas contra D. Miguel.

S.M.I. o Senhor D. Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora
D. Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses,
Nicolas-Eustache Maurin,1832.
Imagem: Wikipédia

CAPITULO I

1834-1835 (pag 1 a 179)

D. Pedro communica ás camarás que não pôde continuar a gerir os negócios públicos — O que motivou esta resolução — Projecto de uma regência— A rainha é declarada maior — Opposição que o projecto encontra na camara dos pares — Ultimo ministério de D. Pedro — Juramento da rainha — Como começa a exercer a soberania — Quem organisou o novo ministério — Morte de D. Pedro — Os novos ministros — Apresentação nas camaras do gabinete Palmella — Enterro do imperador — Projecto de responsabilidade ministerial apresentado pelo governo — Accusação da commissão de infracções sobre a nomeação de um presidente de conselho — Forças do governo e da opposição na camará electiva — Violência que adquirem os ataques da opposição — Iniciam-se os accordos — D. Miguel é banido para sempre de Portugal — Politica ministerial — A camará dos pares e a lei de liberdade de imprensa — O governo communica ás camaras que a rainha vae desposar o príncipe Augusto de Leuehtenberg — Rasões que houve para a escolha do noivo — Difficuldades por parte d'este em acceitar a mão da rainha — Condições inacceitaveis — Segredo que foi mister guardar sobre as negociações — A escolha do príncipe Augusto Leuehtenberg é bem recebida por todo o partido liberal — Dotação do príncipe e enxoval da rainha — Termina a sessão extraordinária do parlamento — Discurso de encerramento lido pela rainha — Reahre-se o parlamento, que logo é encerrado — Tentativas para attrahir Saldanha ao partido governamental — Reabertas novamente as camaras, a opposição inicia uma vigorosíssima campanha contra o governo — Mensagem de um grande numero de deputados pedindo a demissão do ministério — Saldanha abandona os seus antigos amigos e torna-se ministerial — Chegada do príncipe Augusto, acção nobilíssima destinada a commemorar a sua vinda, ratificação do seu casamento, discurso que pronuncia na camara dos pares por occasião de tomar ali assento — O príncipe é nomeado commandante em chefe do exercito — Tal nomeação levanta grande opposição — Doença e morte do príncipe — Tumultos que a noticia d'esta occasiona — Mensagem da camara dos deputados pedindo á rainha para que contráiha segundas núpcias — Resposta da rainha — Termina a sessão ordinária — Faz-se a historia d'ella — Carta de José Passos — O presidente do conselho e o ministro da justiça demittem-se — Dois ministros novos — O conde de Linhares presidente do conselho — Difficuldade em encontrar noivo para a rainha — Demissão do ministério — Golpe de vista sobre a sua administração — Plano financeiro do antigo ministro da fazenda Silva Carvalho — Indemnisações — A opposição não conquista o poder, é este que se lhe entrega — Ministério de conciliação presidido por Saldanha — Os novos ministros e o seu passado politico — Applauso geral e unanime com que é recebido — Programma ministerial apresentado por cada um dos novos ministros — Annuncios de tempestade — Alterações na atmosphera politica annunciadas diariamente pelo "Nacional" — Crise ministerial que se avizinha — A rainha procura afastal-a nobilissimamente — O ministro da fazenda Campos pede a demissão, que lhe é acceita — Manifesta-se abertamente a crise ministerial, que influencias palacianas procuram resolver em proveito próprio — É julgada indispensável a entrada de Silva Carvalho para o ministerio — Rodrigo da Fonseca Magalhães ministro do reino — A antiga opposição de novo em campo — Tratado de 1810 — O marquez de Loulé é subslituido na gerência da pasta da marinha por Jervis de Athouguia — O conde de Lavradio encontra emfim um noivo para a rainha — O principe de Carignan tão depressa escolhido como rejeitado — Assenta-se a final na escolha do principe Fernando Coburgo para marido da rainha — Tratado com a Hespanha sobre a livre navegação do Douro — Procedimento inqualificável de Saldanha para com Sá da Bandeira — Apologia que este faz dos seus serviços, e põe a claro alguns factos pouco honrosos da vida publica de Saldanha — O governo nomeia novos pares, e manda proceder á eleição supplementar do deputados — A campanha eleitoral — A Hespanha reclama o auxilio de Portugal para combater os carlistas em armas — Organisa-se uma divisão auxiliar para este fim — Instrucções dadas ao respectivo commandante — Apreciação injusta que d'ellas faz a opposicão — Projecto para a venda em globo das lezírias do Tejo e Sado — Protestos que levanta — Reforma de instrucção publica — Applausos e protestos com que é recebida — Crise ministerial provocada pela rainha — Esta acceita a demissão do ministério, e logo depois recusa-lh'a — Como se suicida um governo — Intervenção dos commandantes de alguns corpos nos trabalhos eleitoraes — Censura que aos mesmos inflige o commandante em chefe do exercito — Descontentamento que no exercito produz esta providencia — Officiaes desligados dos respectivos commandos — Manifestação militar contra o ministério — Em resultado d'ella e do voto do conselho d'estado, ouvido sobre o assumpto, o governo demitte-se — Novo ministério sob a presidência de José Jorge Loureiro — Os novos ministros — Economias — É revogada a reforma de instrucção publica do ultimo ministério — O governo triumpha nas eleições supplementares para deputados — forças do governo e da opposicão na camará electiva — Extincção do commando em chefe do exercito — Curto alcance das medidas ministeriaes — Os jornaes governamentaes são os primeiros a confessal-o — Estado anarchico em que se encontra o paiz — Realisa-se o segundo casamento da rainha — Discurso lido pela rainha na abertura do parlamento — O governo consegue ter maioria na camará electiva — Novo projecto para a venda das Lezírias — Estado precário do thesouro — Silva Carvalho defende brilhantemente a sua administração — É votado o projecto relativo ás lezírias — O ministro da fazenda, querendo engrandecer os seus méritos de estadista, exagera o mau estado da fazenda publica — Venda dos bens nacionaes a dinheiro de contado — Nas camaras a opposicão ao ministério cresce de dia para dia — Prorogação do tratado de 1810 — Nomeação do principe D. Fernando para commandante em chefe do exercito — O governo, ao ver-se fortemente atacado no parlamento, adia as camarás — Operação financeira mal recebida e peior succedida — Nota curiosa sobre o assumpto, escripta por Silva Carvalho — Demissão do ministro da fazenda — O ministério agonisa — Frieza com que é recebido o príncipe D. Fernando na sua chegada a Lisboa — O governo, encerrando repentinamente o parlamento, apressa a sua queda — Já demissionário nomeia o principe D. Fernando commandante em chefe do exercito — O marquez de Valença é encarregado de organisar ministério, mas depressa resigna a rnissão, que é confiada a Agostinho José Freire.

Duque de Saldanha (1790-1876), c. 1870.
Imagem: Wikipédia


CAPITULO II

A revolução de setembro (pag. 181 a 240)

Novo ministério presidido pelo duque da Terceira — Manuel Gonçalves de Miranda — Silva Carvalho e a situação do thesouro — O principe D. Fernando assume o commando em chefe do exercito — Protesto da opposição — Club dos Camillos [Sociedade Patriótica Lisbonense] — Convocação extraordinária das camaras — O governo fixa previamente o que se deve discutir — Aberto o parlamento, o ministério soffre logo um cheque — Dissolução da camara electiva — Tumultos no Porto — Visita que a esta cidade faz o principe D. Fernando — Incêndio do thesouro — O governo triumpha nas eleições — Deputados eleitos —Annuncios de revolução — O governo pensa em tomar medidas repressivas — Manifestação popular em Lisboa á chegada dos deputados opposicionistas — Soares Caldeira, França e Leonel Tavares heroes do dia — A guarda nacional em armas proclama a constituição de 1822 — O governo em vão procura suffocar a revolta nascente — Fraternisação da tropa de linha com a guarda nacional — A revolução triumphante — Mensagem dos revoltosos á rainha — O governo demitte-se — O conde de Lumiares e o visconde de Sá da Bandeira são encarregados de formar novo governo — Recusa do visconde de Sá — Instancias do principe D. Fernando e do corpo diplomático para que não mantenha esta resolução — Condições impostas e acceitas — Novo ministério —Traços biographicos de cada um dos seus membros — A constituição de 1822 restabelecida — Juramento á nova constituição — Uma revolução em Hespanha foi uma das causas principaes da revolução de setembro — Antecedentes curiosos — Como se consolida a revolução — Situação financeira e economias — Dictadura — Começa a manifestar-se a desunião entre os vencedores — Resistência pacifica á nova ordem de cousas — Muitos funccionarios públi- cos demittem-se para não jurarem a nova constituição — Protesto dos pares do reino contra a nova constituição — Errada politica do partido cartista — A rainha em desconfiança permanente com o ministério — Vieira de Castro tenta em vão fazer desapparecer este preconceito — O principe D. Fernando exonerado do commando em chefe do exercito — Os mareehaes Terceira e Saldanha, nem juram a nova constiluição, nem são demittidos — Febre demissionaria — Tentativas da Bélgica, de accordo cora o gabinete inglez, para intervir nos negócios internos de Portugal — O paço favorecendo o restabelecimento da Carta — Annuncios de um golpe de estado.

Columbine e diversos navios experimentais na barra de Lisboa, John Christian Schetky, 1831.
Imagem: Royal Museums Greenwich

CAPITULO III

A Belemzada (pag. 241 a 358)

Preparativos de desembarqae da esquadra ingleza, surta no Tejo, na noite de 2 de novembro de 1836 — Protestos de Sá da Bandeira de fidelidade á monarchia perante o ministro inglez, e de Passos Manuel perante a rainha — O ministro da justiça Vieira de Castro é instado pela rainha para que de novo se proclame a Carta constitucional — O governo sabe que se conspira — A rainha, por conselhos do rei da Bélgica, deixa o paço das Necessidades e vae para o de Belém — Os ministros, a corte, conselheiros d'estado, auetoridades e corpos da guarnição são chamados por ordem da rainha a Belém — Nem todos obedecem — Golpe de estado — Demissão do ministério e nomeação immediata de outro, de que é presidente o marquez de Valença — Feição politica dos novos ministros — Proclamação da rainha — Passos Manuel propõe em conselho a resistência ao golpe de estado — A guarda nacional em armas — Passos Manuel é chamado a Belém pela rainha — Comité revolucionário em Lisboa — Forças que estavam em Belém — Assassinato de Agostinho José Freire — Photographia da revolução em Belém n'este momento — Franca e nobre exposição de Passos Manuel á rainha — Resposta enérgica de Passos Maimel ás ameaças de lord Howard [de Walden (Sá da Bandeira, Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, marquês de, The slave trade and Lord Palmerston's bill, 1840)], e um dito pouco feliz do principe D. Fernando — A rainha encarrega o marechal Saldanha e o conselheiro Trigoso de negociarem um accordo com Passos Manuel — Bases d'este accordo — Sá da Bandeira toma o commando da guarda nacional, e á sua frente marcha para Belem — Desembarque das tropas inglezas — Communieação do visconde de Sá ao marechal Saldanha — Reconhece-se afinal em Belém a impossibilidade de restaurar a Carta — Entrevista de Saldanha com Sá da Bandeira — A rainha nomeia Sá da Bandeira presidente do conselho, e deixa-lhe a livre escolha dos ministros — Recebido pela rainha, dicta as suas condições e indica o nome dos seus collegas — Excitação popular — A rainha assigna os decretos da nomeação do novo ministério, e volta para as Necessidades — Trecho de um discurso de Passos Manuel sobre o assumpto — Exemplo da hospitalidade ingleza — Cartas trocadas entre os chefes da contra-revolução triumphante e Silva Carvalho — Restabelecimento da ordem — Generosidade para com os vencidos — Triumvirato — Retrato de Passos Manuel por D. António da Costa — A iniciativa rasgada d'aquelle manifesta-se a uma longa serie de medidas decretadas por elle — Opposição que a Manuel Passos fazem os seus próprios amigos — Atacado na imprensa, defende-se n'uma carta dirigida ao "Nacional" — Decreta-se a elegibilidade dos ministros — Protestos que este decreto levanta por parte de alguns partidários do governo — João Bernardo da Rocha — Como se formou a opposição setembrista ao ministério — Clubs políticos — Eleição de deputados e poderes extraordinários que os mesmos recebem dos eleitores — Abre-se o congresso e fere-se a primeira batalha contra o governo — Discute-se o decreto da elegibilidade — Passos Manuel defende na camará os seus actos como ministro — Representação do partido cartista no congresso — Os poucos deputados d'este partido que foram eleitos renunciam aos seus logares — Situação financeira — Relatório de Manuel Passos — Discussão sobre as leis da dictadura — Defeza brilhante que faz Manuel Passos — Votação no congresso sobre o assumpto — Começa a discutir-se o projecto de uma nova constituição — Importância dos debates — É votada a generalidade d'aquelle projecto — A opposição setembrista no congresso— Votação contraria ao governo — Parece que este a aguardava para deixar o poder — Manuel Passos declara no congresso que se retira do poder — Ministério Passos.

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

CAPITULO lV

Conspiração das Marnotas (pag. 359 a 427)

Estado de fraqueza em que se encontrava o partido miguelista quando caiu o ministério Passos — D. Miguel em Roma — Falta de recursos pecuniários com que luctou durante muito tempo (nota) — D. frei Fortunato de S. Boaventura — Protesto de D.Miguel contra a venda dos bens nacionaes — Protecção e apoio que encontrou sempre na corte pontificia — António Ribeiro Saraiva — Os seus primeiros serviços á causa de D. Miguel, e desfavor com que os ministros d'este o trataram — É nomeado secretario de embaixada em Londres — Vem a Portugal com propostas do governo inglez para o reconhecimento de D. Miguel — Estas propostas, que foram rejeitadas, originam alterações no ministério miguelista — Ribeiro Saraiva agenceia a vinda para o exercito miguelista de alguns officiaes e marinheiros estrangeiros — Opposição que a este auxilio faz o ministério miguelista — Testemunho de vários escriptores sobre o aprisionamento da esquadra miguelista — Terminada a lucta entre D. Pedro e D. Miguel, António Ribeiro Saraiva continua em Londres com o mesmo caracter politico que até então tivera — Jornaes que em Portugal e no estrangeiro advogavam a causa de D. Miguel — Ribeiro Saraiva, havendo caído no desagrado do seu rei, é substituído na direcção do partido por D. frei Fortunato de S. Boaventura — Preseguições de que é víctima o partido miguelista era seguida á concessão de Évora Monte — Principia a manifestar-se em differentes pontos do paiz um scisma religioso— Cousas apparentes e reaes d'este scisma — Vista retrospectiva sobre as relações diplomáticas de Portugal com Roma, e apoio que na corte pontifícia sempre encontrou o governo de D. Miguel — Reformas ecclesiasticas decretadas pela regência de D. Pedro, e protestos do papa contra ellas — Tentativas de reconciliação por parte do governo portuguez com a corte pontifícia — Golpe de vista sobre o estado da administração ecclesiastica, e manifestação e progressos do scisma nas differentes dioceses do paiz — Guerrilhas miguelistas no Algarve — O Remechido — Projectos mallogrados de uma revolução combinada entre os miguelistas de Portugal e os carlistas de Hespanha — Tentativa de revolução nas proximidades de Lisboa, e prisão de alguns officiaes do antigo exercito de D. Miguel — Correspondência sobre o assumpto trocada entre o ministro de França e Sá da Bandeira.

Lisboa, Praça de D. Luiz e monumento ao Marquez de Sá da Bandeira, c. 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nota n.° 1, pag. 429
Nota n.° 2, idem
Nota n.° 3, pag. 432
Nota n.° 4, pag. 433
Nota n.° 5, pag. 440

A verdade histórica e a "Historia da revolução de setembro" pag. 485



Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Almoxarifado do Alfeite em 1850

As differentes propriedades que se acham comprehendidas no Almoxarifado do Alfeite, estão situadas na peninsula ao sul do Tejo, sendo a principal formada pelo complexo das Septe Quintas, todas unidas e communicaveis por espaçosas ruas,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

confinantes pelo norte com os sitios do Caramujo, e da Piedade, 

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo poente com a estrada real do Alentejo, azinhaga do Rato, e quintas de Sancto Amaro, da Varegeira e do Rouxinol,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo sul, com os salgados do rio do Seixal, e pelo nascente com a praia; pega com este grupo o grande areial da ponta dos Corvos, que lhe pertence:

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

dous pinhais no sitio de Corroios,

Planta do Pinhal do Cabral, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Planta do Pinhal das Courellas, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

a Albufeira situada na contracosta do cabo d 'Espichel, com o terreno adjacente, que se acha demarcado, e uma courella de vinha do dominio particular de Sua Magestade a Rainha, incorporada na mais meridional das Septe Quintas, completam o numero das propriedades circumscriptas por este circulo administrativo;

Planta da Lagoa d'Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

de cada uma dellas, como se torna indispensável, faremos especial tombação. (1)


(1) Tombo do Almoxarifado do Alfeite, 1850

sábado, 2 de abril de 2016

Quinta do Outeiro do Alfeite

Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)

Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)

[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.

Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.

Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)

A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.

A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento  [...]

A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.

Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes

Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003
(3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada,  12. de julho de 2000
(4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005
(5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. 
(6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990
(7) Fábrica da Rankin & Sons


quinta-feira, 31 de março de 2016

História de uma burra

Ouvimos contar o caso, e vamos confial-o á letra redonda para que d'elle se não perca a memoria.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tinha tido o porte airoso, as veias de uma transparência aristocrática, o olhar de uma suavidade indizível. Comera pouco, como esses entes quasi ideaes que pisam as alcatifas avelludadas das salas sem as acamar, e não haveria sido uma intrusa na verídica narrativa de uma reunião do "high-life".

Tinha dezeseis annos, a idade florente dos sonhos, dos desejos, dos caprichos para todas as do mesmo sexo, mas não da mesma raça... A protogonista da nossa historia é uma burra!

Dezeseis annos são na mulher a idade da walsa, das confidencias, das meias revelações. Na raça asinina são o desconsolo, a tristeza, a velhice, com todos os seus desencantamentos.

A protogonista da nossa historia nasceu na Trafaria, e pertencia, ou pertence... N'esta duvida entre o passado e o presente é que vai envolvido o mysterio de que tiramos esta verídica narrativa.

Ha na Trafaria um homem chamado Roberto, directo senhor de uma vacca, de meia dúzia de cabras, e de uns torrões pouco productivos, como quasi todos os que ficam ao sopé do monte de Caparica, antigo solar do snr. marquez de Vallada, denunciado ainda hoje ao vulgo por dous palácios em completas ruinas, como convém á velha fidalguia de sangue.

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O Roberto é um homem de cincoenta e tantos annos, que faz pela vida, que deita a pé seis léguas, ou mais se lhe forem precisas para o seu trafego, mas que precisa de um animal seguro de pernas, e de pouco alimento, que o aligeire das cargas mais pesadas quando tem de deitar até Cacilhas, ou levar a sua cara-metade ao cyrio de Nossa Senhora do Cabo.

Previdente como um labutador consciencioso, o Roberto comprou uma burra em 1868, quasi nas vésperas do snr. bispo de Vizeu trocar temporáriamente o báculo pela presidência do conselho de ministros.

Bispo de Vizeu, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A Janota, assim se chama a burra, tinha já então sete annos, e não se podia gabar de haver levado boa vida nas mãos de um moleiro, que lhe amolgava diariamente o espinhaço com três ou quatro saccas de farinha, aproveitando-lhe o préstimo nas horas vagas, carregando-a com pyramidaes cargas de tojo.

Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

Apesar de todos os pezares, a jumenta era jovial, e aparentada, no dizer dos entendedores de genealogias, com o feliz quadrúpede que o príncipe de Galles comprou em Cintra, para levar para Inglaterra, como um specimen dos productos naturaes da terra dos seus fieis alliados, receando que não lhe chegassem frescas a Londres as queijadas da Sapa.

Podem os bons exemplos deixar de ter imitadores, mas ainda não houve absurdo governativo que deixasse de fazer proselytos. A fúria das economias andava então no ar como o pó, e o Roberto que se não pôde gabar de ter um engenho original, deitou-se a imitar o programma do snr. bispo de Vizeu, pondo a burra a meia ração, como o illustre prelado fizera aos empregados públicos!

As consequências d'este systema económico não tardaram a chegar. A burra que nunca fizera cara ao trabalho, que não exigia mesmo gratificação de palhada para dar conta de qualquer missão espinhosa, começou a definhar de dia para dia, a olhar indifferente para a vacca que girava como ella debaixo da mesma firma commercial, até que deixou pender a cabeça sobre a manjedoura, na altitude resignada de uma beata que adormeceu a rezar o terço.

Era uma victima do orçamento particular do dono. Uma consócia insciente dos planos financeiros da época.

A instrucção publica: a grande burra, Raphael Bordallo Pinheiro, A Parodia, n.° 53, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

Agora vai começar a parte sentimental d'esta historia. Que pensa o leitor que fez Roberto ao seu braço direito, á burra que tinha incontestável direito a ser aposentada com a ração por inteiro, e a passar os últimos dias da vida, não digo cavaqueando na botica do bairro, com um empregado publico aposentado, mas retouçando livre da albarda a rara verdura que esmeralda o caminho da Sobreda?

Zé Povinho, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mandou-a deitar á margem!

Á margem! São duas palavras só, mas significam o inferno e a eternidade, como de um bipede seu cliente disse o visconde de Castilho, na sua immortal epistola á imperatriz do Brazil.

Á sentença seguiu-se a execução. A burra, a Janota, a intrépida caminheira, a paciente carregadora, foi levada de corda ao pescoço até os juncaes, e lá abandonada ao seu destino, para meditar, se o soubesse fazer, na injustiça dos homens, e na instabilidade da fortuna.

O que são os juncaes? Perguntai-o a Bulhão Pato, ao intrépido caçador, ao apaixonado pelas grandezas da natureza, mesmo nas suas mais agrestes manifestações; ao poeta, que por amar as boninas não deixa de bemquerer ao rosmaninho, nem de se affeiçoar ao sargaço que orla os trilhos tortuosos que conduzem ao topo das encostas escabrosas.

Bulhão Pato, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os juncaes são, a palavra o está dizendo, um terreno húmido e encharcado, tendo por docel um céo esplendido, e por usuaes povoadores inhospitos coelhos, espertas codornizes, rastejadoras perdizes, e, fendendo os ares em desencontrados rumos, espavoridas gaivotas, e ruidosas aves de rapina.

Os juncaes, que nascem e crescem onde as demais plantas degeneram e morrem, acoutam no intrincado labyrintho das suas emmaranhadas raizes os coelhos e as perdizes que o meu amigo Bulhão Pato desaloja dos seus tranquillos coutos, para os ferir de morte na carreira, ou as fazer desabar das alturas, até o desenvolto perdigueiro as ir topar adormecidas na alfombra, para não mais acordarem.

Foi, como dissemos, nos juncaes que a Janota foi abandonada ás vicissitudes da vida errante, ás intempéries das estações, ao desconsolo da solidão, ás misérias do isolamento!

Mas a Providencia é a mãi pródiga dos desvalidos, e reveste as formas que mais lhe apraz para valer á mais humilde das suas creaturas. Havia quasi uma semana que a Janota divagava por entre os juncaes, aspirando as brizas marinhas, e retemperando os pulmões com os perfumes agrestes do trevo e da margacinha, quando em um sabbado, por isso chamam aos sabbados de Nossa Senhora, a Providencia, representada por José Ghumeco, foi topar com a burra dormindo a sesta, com a tranquilhdade de um justo, zurrando por entre sonhos a palavra perdão.

Confesso que sou amigo do Ghumeco, mas não falsearei a minha historia com episódios que eu nâo haja apurado da tradição oral confrontada depois conscienciosamente com os factos subsequentes, que recommendam o nosso homem á benevolência da sociedade protectora dos animaes.

José Ghumeco é um maritimo, nado e creado ná Trafaria, que se sente mais á vontade empunhando um remo, colhendo uma vela, retorcendo um cabo deitando uma rede, conjecturando os ventos, prognosticando temporaes, do que muitos ministros com as pastas, e muitos poetas com a idéa nova.

Trafaria, Vista da Praia, ed. Manuel Henriques, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O vocabulário do Ghumeco é um vocabulário excepcional, pitoresco, novo, abundante. A alma anda-lhe lavada de ruins paixões. Aprendeu com o mar a serenar logo depois da tempestade. Se lhe escapa uma ruim palavra, conhece que o vento lhe veio de travessia, e põe-se á capa. É pai de uns poucos de mocetões que parece terem sido inventados para o mar, e casado com uma santa mulher que o remenda, e lhe diz quando as ondas não estão para graças:

— Ó homem! se eu fosse a ti não me mettia a tentar a Deus!

A que o Ghumeco responde invariavelmente:

— Á conta de quem pôde, é que a gente anda cá n'este mundo!

Era um sabbado, por signal a 23 de janeiro de 1877, ia o nosso homem para a costa, ver colher uma d'aquellas redes colossaes que trazem á terra dúzias de contos de reis em sardinha, quando, ao passar pelos juncaes, estacou ao ver a Janota que se espreguiçava vergando as pernas com o esforço que fazia para tomar conhecimento de si, com o pello hirto e aguado, denuncia muda da sua involuntária vadiagem.

O Ghumeco chamou-a. O instincto, que nos animaes presta para mais do que o raciocinio em alguns homens, disse a Janota que era chegado o termo dos seus males. Encabritando-se, como nos tempos felizes em que a cevada a estimulava ás caminhadas que a tradição ainda hoje commemora, e despedindo dous alegres couces, prenuncio dos mais que havia despedir pelo correr dos tempos, aproximou-se do Robinson que a chamava, attrahindo-a com a engenhosa bonhomia de um missionário, e a rude franqueza do homem do mar.

Novos horisontes se vão rasgar agora para a invalida que o dono não soubera apreciar recorrendo aos segredos das hervas medicinaes, ou coníiando-a á sciencia de um ferrador, perito no tratamento das pneumonias agudas.

A primeira quarta de cevada que a Janota viu diante de si em improvisada manjadoura de vime, foi como um convite á vida alegre e folgazã de outros tempos. A palhada, adubada de semea fina, produziu na organisação robusta da Janota melhor effeito que a "Revalescière du Barry", nos temperamentos lymphaticos das filhas de um portuguez recambiado de Pernambuco pela sociabilidade dos naturaes da terra.

No fim de um mez a burra afoutou-se a poder com a albarda para experiência. Na primavera seguinte, quando o cuco serve de calendário á gente do campo, já ella carregava uma moçoila desempenada, e, soberba de carga tão formosa, galgava chotando, onde as suas congéneres se enterravam na areia, e atrevo-me a dizel-o (Deus queira que me não venham trabalhos da sinceridade) que nunca até hoje o hippodromo de Belém deu premio de consolação, ou de qualquer outro nome, a bicho capaz de se lhe avantajar na carreira.

Costa da Caparica, transporte de mercadoria pelas dunas, década de 1920.
Imagem: Espólio Agro Ferreira

Desculpem-me os sócios do "Jockey-Club" esta minha opinião, que julgo não ser isolada. Se o meu respeitável amigo o snr. conselheiro Moraes Soares, não toma a serio o apuramento da raça cavallar, receio que os burros venham a ser trunfo nas corridas. .. de cavallos.

Vamos ao caso.

Não ha obra de caridade que Deus deixe sem recompensa. A Janota veio a ser a auxiliar do Ghumeco, não o seu ganha-pão exclusivo, mas uma fatia do seu pão quotidiano. Quem hoje quer alugar a burra que os juncaes viram magra, extenuada, lazarenta, tem que metter empenhos para o conseguir. O Chumeco põe a mão na ilharga, marca-lhe o preço, e não desce d'elle nem um real.

— É para quem pôde, responde invariavelmente o dono. Isto não é animal que se fie de quem não entende da poda.

Proferimos a palavra fatal: — dono!

O dono! Mas quem é o dono? A esta interrogação ha-de responder-se em Almada ao acabarem as férias judiciaes, visto que o Roberto chama hoje seu ao que mandou deitar fora, e o Chumeco se agarra á sua propriedade, mal comparado como uma ama de leite diz ser sua a criança que os pães abandonaram. Para este caso intrincado duvidamos que possa ser applicado com bom resultado o juizo de Salomão; mas recorda-nos quasi que a propósito, a tenacidade com que um verdadeiro sábio e homem de bem — o virtuoso Condorcet — preferiu sempre a mulher do povo que o creára, á mãi desnaturada que á nascença o entregara á caridade do municipio.

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

Nós não queremos prevenir julgamentos, mas respondam-nos em consciência: não representará o Roberto n'esta historia o papel de um amante volúvel, que só deixa accender no coração os bons affectos, quando vê feliz e alegre em poder de outro a mulher que elle levou á perdição e á miséria?

Sophia Loren e Marcello Mastroianni, Ieri, Oggi, Domani, Vittorio De Sica, 1963.
Imagem: rebloggy

Não significará o Chumeco n'esta singela historia, a Providencia dos dramas chamados realistas, onde a convenção theatral manda entrar uma figura que enxuga todas as lagrimas e consola todas as afflicções?

Esta historia por ser de uma burra, não terá a sua moralidade como os apologos de Lafontaine? Nós cremos que tem.

Marquez d'Ávila e de Bolama, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hontem ainda, 15 de setembro de 1877, sendo pretor o snr. marquez d'Ávila e de Bolama, vimos a burra que o Chumeco conserva por em quanto em seu poder, e podemos attestar que nos olhou... como quem reconhecia em nós o apologista do seu bemfeitor. (1)


(1) Luiz Augusto Palmeirim, Galeria de figuras portuguezas,  Porto e Braga, Liv. Internacional de Ernesto Chardron, 1879  

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