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terça-feira, 3 de maio de 2016

A procissão de São João

Era costume antigo, supomos que remontando ao século XVI, organizar aquela confraria sediada na igreja de Sant'Iago, um solene procissão do santo da sua devoção que se dirigia à Ramalha (antiga Alvalade na tarde de 23 de Junho de cada ano, pernoitando a imagem alternadamente umas vezes no oratório de Santo Antão, outras vezes na Ermida de Nossa Senhora da Piedade, situada ali próximo na Quinta de Crastos, onde, segundo a tradição, está sepultada uma das filhas de El-Rei D. Dinis, regressando à vila de Almada na manhã do dia seguinte.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Já em 1730, a Mesa da Irmandade se recusara a organizar a procissão, alegando que o oratório ficava muito distante da vila. Esta atitude provocou insubordinação popular, argumentando João Vieira de Sã Ribeiro que a procissão de São João Baptista se realizava para a Ramalha desde tempos que não havia lembrança nos homens velhos do seu tempo, exigindo que se cumprisse o preceito religioso, pois desde que deixou de ter lugar, não deram as fazendas novidades, o que se reconhecia por castigo divino.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Apenas em 3 de Junho de 1734, o assunto fica parcialmente solucionado através de uma Provisão do Patriarca de Lisboa, D. Tomás I, na qual ordenava que "levem o santo à dita ermida na véspera do seu dia, e o tragam no dia, como de tempo imemorial se tem praticado, e mandamos que esta se cumpra como nela se contem".

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

A partir desse dia foi a população da Ramalha e de mais lugares vizinhos, que se encarregavam dessa tarefa e a procissão jamais deixou de se realizar ao longo dos últimos 266 anos. (1)


(1) Caparica News cf. Jornal da Região — Almada, 15 de novembro de 2000

Artigo relacionado:
Da Ramalhinha aos Crastos

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O concelho de Almada

Depois da concessão do foral, [por D. Sancho I em 1190, Almada] passou a concelho independente com os seus magistrados próprios como é natural.

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

As suas confrontações primitivas eram: ao norte, o rio Tejo; ao sul, o concelho de Sesimbra; a oeste o oceano Atlântico, e a leste os rios Tejo e Coina.

Descripcion del reyno de Portugal (detalhe), Pedro Teixeira, 1662
Imagem: Biblioteca Nacional de España

Em 1350, como do concelho de Sesimbra se desanexou Vila Nogueira de Azeitão e outras freguesias, para formarem o concelho de Azeitão, ficou Almada sendo limitada ao sul por Sesimbra e Azeitão.

Sabemos que as freguesias de N. Sra. da Anunciação [sic, leia-se Assunção] do Castelo e de S. Tiago de Almada são muito antigas.

Presumimos que, para além destas, existam já também as freguesias de  N. Sra. da Graça de Corroios e N. Sra. da Conceição [sic, leia-se Consolação] de Arrentela.

Arrentela, vista geral, Jorge Almeida Lima, 1886
Imagem: Representações do Seixal e da Época no Olhar de Jorge Almeida Lima

Em 1472, à custa da freguesia da N. Sra. da Assunção, formou-se a freguesia de N. Sra. do Monte de Caparica.

Desde 1472 até 1724, ficou constituído o nosso concelho com as seguintes freguesias:
  • N. Sra. da Assunção do Castelo de Almada (também conhecida pela invocação de Santa Maria do Castelo de Almada);
  • S. Tiago de Almada;
  • N. Sra. do Monte de Caparica;
  • N. Sra. da Graça de Corroios;
    N. Sra. da Graça de Corroios (parece que desta freguesia fazia parte N. Sra. de Monte Sião de Amora que depois teria passado a ser freguesia);
  • N. Sra. da Consolação de Arrentela.

Por provisão do Cardeal Patriarca de Lisboa, D Tomás de Almeida, em 28 de Junho de 1734, foi desanexado da Arrentela o lugar do Seixal, que ficou constituindo uma paróquia sob a invocação de N. Sra. da Conceição.

Seixal, lado do nascente, Jorge Almeida Lima, 1886
Imagem: Representações do Seixal e da Época no Olhar de Jorge Almeida Lima

Da mesma foi também desanexado o lugar, depois freguesia, denominado Aldeia de Paio Pires.

Aparece-nos por estes tempos também a freguesia da Amora.

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Almada foi assim uma grande circuncrição territorial que se manteve até 1834 com estas oito freguesias:
  • N. Sra. da Assunção,
  • S. Tiago,
  • Caparica,
  • Amora,
  • Corroios,
  • Arrentela,
  • Seixal,
  • e Aldeia de Paio Pires.

Moinho de maré de Corroios
Imagem: Pimentel, Alberto, A Estremadura portuguesa

Começa então a decadência.

Em Novembro de 1834, a freguesia de N. Sra. da Assunção foi anexada à de S. Tiago.

Em 6 de Novembro de 1836 foi constituído o concelho de Seixal, à custa do de Almada.

Aquele ficou com as Freguesias de Amora, Corroios (que estava anexado a Amora, sendo depois desanexado), Arrentela, Seixal e Aldeia de Paio Pires.

Almada conservou apenas as freguesias de S. Tiago e de Caparica.

Em 1895 foi extinto o concelho do Seixal, passando para o de Almada a freguesia de Amora (de que já fazia parte a de Corroios) [as outras freguesias, Arrentela, Seixal e Aldeia de Paio Pires, passaram para o concelho do Barreiro, tendo, em 1898, voltado para o concelho do Seixal].

Mas logo por decreto de 13 de Janeiro de 1898 foi criado de novo o concelho do Seixal, perdendo Almada mais uma vez a freguesia de Amora.

Almada fazia parte do distrito de Lisboa, mas passou a pertencer ao de Setúbal, quando este foi criado em 23 de Dezembro de 1926.

Mais tarde, em 7 de Fevereiro de 1928 (por Decreto n.° 15.004, publicado no Diário do Governo de 10 de Fevereiro de 1928), foi desanexada da freguesia de S. Tiago a freguesia da Cova da Piedade;

Limites da freguesia da Cova da Piedade
Imagem: Diário do Governo de 10 de Fevereiro de 1928

e, da freguesia do Monte de Caparica, a da Trafaria [criada pelo decreto n.º 12 432 de 7 de Outubro de 1926].

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900
Imagem: Delcampe

Quanto à Costa da Caparica, essa torna-se freguesia pelo  Decreto n.° 37.301, publicado no Diário do Governo de 12 de Fevereiro de 1949. (1)

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.