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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Primeira procissão (domingo 28 de Agosto de 1814)

Lisboa 9 de Setembro.

O Provedor, Officiaes, e mais Irmãos Conselheiros da Meza da Irmandade da Virgem Nossa Senhora da Piedade da Cova de Mutella, limite da Villa de d'Almada, querendo nesta ocasião de público regozijo pela paz da Europa, restituição dos Monarcas aos seus Estados, e chegada do Exercito Portuguez a Patria, dar ao Altissimo as devidas graças; e muito principalmente pelos singulares favores liberalizados nesta época a este Reino, dando ás suas armas assignaladas victorias;

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 27.
Montanha da Villa de Almada, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


celebrarão huma festa de acção de graças em o Domingo 28 de Agosto na sua Igreja, com illuminação na vespera, Missa cantada, com musica vocal e instrumental escolhida: no fim da Missa houve Te Deum, acompanhado pela mesma musica: foi Orador o Reverendo Doutor José Maria, da Ordem de S. Paulo Eremita; e de tarde o P. João dos Santos, que desempenharão com a sua costumada eloquencia tão digno assumpto.

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page,
Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Cesar Ojeda

Houve Procissão em que sahio o Santissimo conduzido pelo Reverendo P. Prior da Freguezia do Castello, e as Imagens de Nossa Senhora da Piedade, da Victoria, e do Rozario; sendo esta a primeira vez, que em tal sitio se fez Procissão, a que assistio grande concurso de povo, reluzindo no rosto de todos a alegria, e compunção, de que estarão possuidos os seus corações.

Foi todo este acto acompanhado por huma Guarda do Regimento da Policia, a qual deu no fim as descargas do costume, Nessa mesma noite houve festins no arraial, e se executarão muitas peças de musica exceliente. (1)


“As tropas portuguesas rivalizaram, como é de seu costume, em valente conduta com os seus irmãos de armas do Exército britânico (...) não só sustentaram até ao fim o seu carácter valoroso, e de excelentes soldados, mas ainda aumentaram a sua glória, e a da sua nação por este feito de armas” (cf. Ferreira Martins, História do Exército Português. Editorial Inquérito Limitada, Lisboa, 1945).

Battle of Toulouse (detail) engraved by T. Sutherland and D. Havell, 1814-1815.
Wikipedia

Das 4.714 baixas (599 mortos) entre os aliados os portugueses perderam 607 (78 mortos)61. Com estas últimas baixas somavam-se assim mais de 21.141 baixas as dos portugueses ao serviço do exército anglo-português em 6 anos de Guerra Peninsular. Para além destas baixas há os milhares que morreram no exército português territorial, nas milícias e nas ordenanças e ainda os 300.000 mortos da população de Portugal.

Terminara assim a Guerra Peninsular em que ficou confirmada “A constância dos espanhóis, a firmeza dos ingleses, e o valor dos portugueses” (cf. Cláudio de Chaby, Excertos Históricos e Coleção de Documentos relativos à Guerra denominada da Península, vol. V, 1881).

Enquanto o exército britânico embarcava em Bordéus para Inglaterra e América os portugueses regressaram a pé, através de Espanha, a Portugal. Entraram nos finais de julho e inícios de agosto, pela Beira e por Trás-os-Montes (cf. Luz Soriano, História da Guerra Civil... tomo iv, parte ii, 1876) (2)

guerr

(1) Gazeta de Lisboa, sexta-feira 9 de setembro de 1814
(2) Nuno Lemos Pires, O Exército Português na Libertação de Espanha em 1813-1814

Artigos relacionados:
Real Capella do Apostolo S. Simão (a festa annual)
S. Simão das Barrocas
Nossa Senhora da Piedade

Tema:
Guerra Peninsular

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815

domingo, 19 de julho de 2015

Defesa de Lisboa em 1810

No início de dezembro, alguns movimentos das tropas francesas no sul da Espanha levaram a crer que uma movimentação estava a ser intentada no Alentejo, em apoio da renovada operação contra as linhas [de defesa], [no caso,] o promontório de Almada à esquerda do Tejo, oposto a Lisboa, que comanda a navegação do rio, e de cujas proteções abrange uma grande parte da cidade,* foi reduzido sob a superintendência do Capitão Goldfinch.

* O Tejo, oposto ao Castelo de Almada, tem apenas 2,200 jardas [2.011 mts.] de largo.

A military sketch of the country between Lisbon and Vimeiro occupied by the British Army (detail), 1810.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A esquerda desta posição ficava sobre a ampla bacia do Tejo, no alto imediatamente acima de Mutella; o seu centro estava no Monte de Caparica, Lugar de Monte, e a sua direita sobre a falésia rochosa, chamada de Altos da Raposeira, elevando-se acima do mar, a toda a extensão da sua frente, cerca de 8.000 jardas [7.315 mts.].

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Uma cadeia de redutos, 17 em número [revisto posteriormente], flanqueando-se mutuamente, e tendo seteiras frontais, para permitir a observação nas ravinas, foi estabelecida sobre os outeiros mais proeminentes desta linha, estando a sua defesa unida com, e apoiada por, várias casas de campo na sua retaguarda, que, sendo construídas em pedra, com recintos de pedra, podem a qualquer momento ser formidáveis postos.
  • 01 Forte de Almada
  • 02 Forte do Pragal, perto do Pau de Bandeira, alt. 108 mts.
  • 03 Forte de Palença, 200 mts. a norte de Palença de Cima
  • 04 Forte do Raposo, na colina do marco trigonométrico
  • 05 Forte do Bicheiro, Quinta do Bicheiro, Caparica
  • 06 Forte do Prior, sítio de S. António na povoação de Caparica
  • 07 Forte da Granja, Quinta da Granja entre Formosinho e Vigia
  • 08 Forte de Castelo Picão, pequena povoação no monte de Caparica
  • 09 Forte de Montinhoso, no sítio do mesmo nome
  • 10 Forte do Guedes, atual Quinta da Conceição
  • 11 Forte de Murfacém, a oeste de igreja, alt. 105 mts.
  • 12 Forte da Raposeira Pequena, no atual sítio de Alpena
  • 13 Forte da Raposeira Grande, no lugar do novo reduto de Alpena
  • 14 Forte da Margueira, alt. 35 mts.
  • 15 Forte do Conde, atual rua Lourenço Pires de Távora
  • 16 Forte de S. Sebastião, 100 mts. a sul da ermida de S. Sebastião
  • 17 Forte do Armeiro Mor, Pragal, alt. 80 mts.
  • 18 Forte do Melo, Ginjal do Monte, Caparica
  • 19 Forte do Pombal, lado sul da estrada Caparica - Casas Velhas
  • 20 Forte de Possolos, onde hoje se encontra o cemitério de Caparica
  • 21 Forte de Pera de Cima, Quinta da Conceição, alt. 200 mts.
  •  
  • in PEREIRA DE SOUSA , R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.
Uma estrada afundada, que se estendia a quase toda a posição, na traseira dos redutos, formava uma comunicação segura entre eles e foi engenhosamente feita pelo oficial executivo para reforçar à sua defesa, cortada em banqueta, e protegendo fora do declive à sua frente, de modo a formar um caminho coberto normal, com locais armados nos pontos que davam os melhores flancos e que melhor poderiam ser apoiados pelos edifícios de pedra.

Fortificação típica das linhas de defesa de Lisboa, 1810.
Imagem: Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engnieers

O castelo de Almada, em ruínas, foi reparado e armado para defesa, de modo a formar uma espécie de cidadela interior, que deve garantir a comunicação com Lisboa até ao último momento; e como meio pronto de comunicação entre a esquadra e as várias partes da posição, foram contruídas estradas em várias pontos do penhasco,* formando a sua garganta.

* Após uma parte desta estrada ter sido construída, o acabamento do remanescente foi suspenso; em consequência dos inconvenientes ocasionados aos ocupantes de habitações privadas, e o conhecimento de que a estrada poderia, com a devida atenção, ser acabada quando requerido num tempo inferior ao necessário ao inimigo para reunir forças, e marchar através do Alentejo.

Ruínas do castelo de Almada, Carta Geographica da Provincia da Estremadura (detalhe), c.1777 - 1780?
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Foi proposto confiar a defesa desta posição aos marinheiros e fuzileiros navais da esquadra, juntamente com as milícias [ordenanças] e os corpos cívicos de Lisboa [voluntários], os redutos foram construídos com uma magnitude fora do comum, muitos sendo capazes de conter 400, 500, ou 600 homens, e desde 6 a 10 peças de artilharia; a guarnição calculada para o conjunto quando concluído será 7.500 homens e 86 peças de artilharia.

Soldado de Caçadores n° 6, 1811,
Organização de Beresford,
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Qualquer ataque de Almada neste momento só poderia ter sido uma operação secundária; mesmo se bem sucedida, o Tejo ter-se-ia interposto como um obstáculo intransponível entre os vencedores e Lisboa, e ocupação do promontório deveria ter sido completamente dependente do sucesso na frente. 

Portanto, qualquer modo de ocupação de Almada, que devesse prejudicar a defesa das linhas, dificilmente poderia ter sido justificado; mas era objeto de um grande valor, assim, por meio de profundos trabalhos e um esforço que de outra maneira não poderia ter sido tornado útil, por ter eliminado a possibilidade de pequenas forças inimigas perturbarem a esquadra, criando alarme e confusão na capital, e, talvez, espalhando o pânico através do país na retaguarda do exército, no momento em que as linhas [de Torres, a norte de Lisboa,] fossem atacadas [...]

Castelo de Almada após as reparações de 1810, gravura (detalhe), Pierre Eugène Aubert (Aubert pére),
cf. Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden,
Fieldmarshal The Duke of Wellington.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Nenhuma das objecções às linhas contínuas, no entanto, se aplicam aos postos fechados e isolados, cada um deles capaz de uma boa resistência, já que os intervalos entre eles não exigem uma linha de tropas de apoio, e após o fornecimento de guarnições para o trabalho, o exército pode permanecer em grupos abrigados, dos bombardeamentos, por algumas irregularidades do terreno perto do cume da elevações; 

Cabo do Regimento de Infantaria n° 24, 1813.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

ou se isso não se encontrar, no reverso, imediatamente abaixo da crista, pronto para se mover em grupos compactos e formidáveis sobre qualquer ponto ameaçado, ou formar em linha ou manobrar sobre os postos tomados, de maneira a melhor deter os esforços do assaltantes; um bom exemplo, cuja natureza da posição pode ser estudada nas defesas de Almada [...]

Soldado de Infantaria n° 8, 1810.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Não se dá plano sobre as posições de Almada, Oeiras e Setúbal, já que é possível que, ao correr dos anos, sejam novamente ocupadas; uma referência aos planos pode ser feita por quem o deseje no escritório em Londres [...] (1)


(1) Jones, John Thomas, Memoranda relative to the lines thrown up to cover Lisbon in 1810, Londres, 1829

Leitura adicional:
Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engineers
Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, in Spain, during the years 1811 to 1814