Mostrar mensagens com a etiqueta 1818. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1818. Mostrar todas as mensagens

sábado, 20 de agosto de 2016

Domingos Sequeira, Cartuxa de Laveiras, Real Quinta, Trafaria e Cabo Espichel

"Seria hum estimolo muito agradavel a Sua Magestade, o ver em toda a estenção a vista da Cidade de Lisboa athe a barra, e de toda a que ofrece a Costa desde Cacilhas athe ao riba Tejo" [...] (1)

Estudo para o Panorama de Lisboa, Domingos Sequeira. Em primeiro plano vê-se a ponte sobre a ribeira de Barcarena (dos Ossos) e a igreja da Cartuxa de Laveiras, seguidos da Quinta Real de Caxias. Em segundo plano, uma grande quantidade de navios e barcos sobem o Tejo sobre o cenário da Trafaria e do Cachopo sul ou Alpeidão. Ao fundo, na linha de horizonte, distingue-se o Cabo Espichel.
Imagem: Hemeroteca Digital

Por motivos ainda hoje algo obscuros, Sequeira ingressa na Cartuxa de Laveiras (Caxias) [1798-1801]. O seu recolhimento caracteriza-se por uma assinalável actividade artística, pintando uma série de cinco telas de grande dimensão com passos da vida de S. Bruno (fundador e patrono dos Cartuxos) e de outros santos eremitas (Santo Onofre, S. Paulo e Santo Antão). O conjunto encontra-se disperso por três museus (MNAA, Museu Nacional de Soares dos Reis e Museu de Évora). (2)

Planta da Real Quinta de Caxias, J. A. de Abreu, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O insigne pintor Sequeira foi encarregado, não sabemos, ao certo, em que data, nem para que fim , da execução de uma vista panorâmica da cidade de Lisboa. Este facto é comprovado por diversos autores e por alguns documentos inéditos que dizem respeito a este trabalho. A mais antiga referência encontra-se na "Lista de alguns artistas portugueses", por D. Fr. Francisco de S. Luís, Lisboa, 1839.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Nela se lê: "Vi em casa de Sequeira, no ano de 1821, o Panorama de Lisboa, em que andava trabalhando".

Posteriormente, em 1843, José Maria da Silva Leal na biografia de Domingos António Sequeira. publicada no jornal de Bellas-Artes, aludia a este trabalho artístico, de que fôra, segundo êle, encarregado em 1821 e l822, nos seguintes termos: "... o panorama de Lisboa, obra já muito adiantada, e cujos desenhos se conservam no archivo das Obras-publicas". 

O nosso saudoso amigo Dr. Xavier da Costa, no seu belo livro A morte de Camões, quadro do pintor Domingos António de Sequeira. Lisboa, 1922, transcreveu as duas mencionadas passagens, sem lhes acrescentar quaisquer outros elementos novos. 

Vista da Trafaria — Saída da barca Martinho de Mello, João Pedroso, gravura
Imagem: Archivo Pittoresco, vol. X, 1867

Com a ajuda de diversos documentos que encontramos no Arquivo Hlstórico Militar podemos acrescentar alguna coisa mais sobre este assunto. Logo, pelo primeiro documento que adiante [e no topo da página], reproduzimos, se conclui que, já em 16 de Setembro de 1818, Sequeira se propunha, auxiliado pelo gravador Benjamim Comte, executar a vista panorâmica de Lisboa até à barra e de toda a costa desde Cacilhas até ao Riba-Tejo.

"[...] tomei a deliberação de comvocar o Abridor Bejami Conte. empregado no Real servisso, para me ajudar ad.a empreza, e escolhendo o luçal da Vila de Almada para dali fiqçar os pontos que ofereção a melhor optica: sendo-me precizo para este fim hu.a Barraca de Campanha, de Coronel, por ser mais reparada, e algum soldado tanto para a conduzir ao d.° sitio de Almada, como para a armar nos pontos q.e convier, e guardala, bem como hua incinuação do Governo p.a o Juiz de Fora de Almada me prestar algum socorro sendo-me nescessario para o dito fim" [...]

Domingos António Sequeira (1768-1837), auto-retrato.
Imagem: Educación Holística

Na exposição sequeirense,  realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em 1939, figurou um album de desenhos de Sequeira, onde há dois relativos a este panorama de Lisboa. Por especial deferência do seu ilustre director o sr. Dr. João Couto, que, amávelmente, nos forneceu a respectiva fotografia, podemos. enriquecer este artiguelho com a reprodução de um daqueles desenhos.

Não é fácil determinar, com exactidão, o que, realmente, nele figura. Na margem esquerda parece avistar-se a Trafaria e o cabo Espichel. 

Na margem direita aparece uma elevação que não conseguimos identificar [n. do e. trata-se da elevação onde está instalado o Forte D. Luís I, ou Forte de Caxias ou Forte-prisão de Caxias].

O querido, amigo Dr. Xavier da Costa, a pág. 27, do seu trabalho Domingos António de Sequeira. Notas biográficas, Lisboa 1939, escreveu: Também D. Frei Francisco de S. Luiz viu em casa de Sequeira, no ano de 1821, o Panorama de Lisboa. em que andava trabalhando. 

Alegoria às virtudes do Príncipe Regente D. João (detalhe), Domingos Sequeira, 1810.
Imagem: Google Cultural Institute

Dizem que era obra muito adiantada e que os esboços se conservavam, depois, no Ministério das Obras Públicas. No Museu das Janelas Verdes, existem vários desenhos, preparatórios para o referido trabalho, sabendo-se que um grande Panorama da cidade, da autoria do pintor, desapareceu no violento incêndio que, em 1863 consumiu o edificio dos Paços do Concelho da nossa capital e a parte primacial do seu conteudo.

Alegoria às virtudes do Príncipe Regente D. João (detalhe), Domingos Sequeira, 1810.
Imagem: Google Cultural Institute

Como o arquivo do Ministério das Obras Públicas foi, também, destruído por outro incêndio que devorou a instalação das encornendas postais no Terreiro do Paço, em 1919. Perderam-se lamentavelmente, não só os desenhos de Sequeira para o panorama da cidade de Lisboa, que ali se encontravam, em 1843, segundo informou o jomalista Silva Leal, como o mencionado "grande panorama". (3)

(1) Contar a vida de Sequeira através das cartas
(2) Contar a vida de Sequeira através das cartas
(3) Henrique de Campos Ferreira Lima, Uma vista panorâmica de Lisboa da autoria do pintor Domingos António de Sequeira, Lisboa, revista Municipal, 10, 1941

Leitura adicional:
O desenho em viagem: album, caderno ou diário gráfico, o album de Domingos António Sequeira
O desenho em viagem: album, caderno ou diário gráfico, o album de Domingos António Sequeira (anexos)
A obra gráfica de Domingos António de Sequeira no contexto da produção europeia do seu tempo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Príncipe de Joinville

Em agosto de 1834, o Príncipe de Joinville (1818 -1900) passa novos exames em Brest, sob a direção de cavaleiro Préaux Locré. Recebido como aluno de primeira classe, embarca imediatamente em Lorient na fragata "La Syrene", vai a Lisboa, aos Açores, e regressa a França, após de três meses de navegação.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

Em 1840 [...] participa na transladação dos restos mortais do imperador Napoleão. 

Transbordement des cendres de Napoléon, Morel-Fatio, 1841.
Imagem: L'HISTOIRE PAR L'IMAGE

Em maio de 1841, [...] embarcado na "Belle Poule", vai visitar Amesterdão e todos os portos ou instalações marítimas da Holanda. Seguidamente viaja para a América, visita o Cap-Rouge, Halifax, Filadélfia, Washington e regressa à Europa, por Lisboa, onde é recebido pela rainha Dona Maria, e regressa a França em janeiro 1842. (1)

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Após uma rápida travessia chegámos a Lisboa. É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém charma os olhos com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Nós descemos a terra na chalupa ( falua ) [sic, i.e. galeota] Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas com dossel de seda à ré, cuja tripulação se compunha de em homens do Algarve de tez morena , vestidos de calções curtos, jaqueta de veludo amaranto [vermelho escuro] e envergando boinas venezianas. Remavam em pé cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos. Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aguafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu final prematuro.

Vue de Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet


Regressei com frequência a Portugal; sempre aí recebi um acolhimento do qual guardo a recordação mais reconhecida. Aí encontrei homens distintos, mulhers amáveis, instruídas, charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de uma afeição sincera e desejo que todos os meus votos sejam por eles seguidos sobre a terra e sobre o mar, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

Na época da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e terceira, que serviam alternadamente de apoio à mudanças alternadas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista que fazia oposição à rainha Dona Maria, partid pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, bem que ele reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem.  Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se é na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o se décimo quinto filho, prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convida-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi explêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão com cocar [laço] português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e um bastão enorme na mão [...] (2)


No mês de junho seguinte, [o Príncipe de Joinville] voltou para o "Belle Poule" com a esquadra às ordens do vice-almirante Hugon. Acompanha então o seu irmão mais novo, o Duque de Aumale a Nápoles, depois, a Lisboa, e dirige-se ao Brasil fazendo escala em Saint Louis, Senegal [...]

Esta viagem tem por objetivo o pedido em casamento da Princesa Dona Francisca de Bragança (1824 - 1898), filha do imperador Dom Pedro I, e irmã do futuro imperador Dom Pedro II e da Rainha de Portugal Dona Maria. 

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

A união dos dois príncipes é celebrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de maio de 1843. Imediatamente após, o Príncipe leva a sua esposa para França, onde brevemente nascerão os seus dois filhos. No dia 31 de julho de 1843, Joinville é nomeado contra-almirante [...] (3)


(1) Wikipédia, François d'Orléans (1818-1900)
(2) Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Vieux souvenirs: 1818 - 1848, Paris, Calmann Lévi, 1894
(3) Wikipédia, idem

Versão inglesa:
Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Memoirs (Vieux souvenirs) of the Prince de Joinville, London, William Heinemann, 1895


Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans, príncipe de Joinville