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terça-feira, 26 de maio de 2020

Emilia Pomar de Sousa Machado (1857-1944)

Oh! Noite, oh! Minha amiga! Sê bendita
No teu manto de brilhos estelares,
Bendita cá na terra e lá nos mares,
E na vasta amplidão, sempre infinita!

Emilia Pomar de Sousa Machado (1857-1944)
Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada...

Tua sombra é propícia a quem medita
E sente o coração livre nos ares,
Tendo sóis e planetas por altares
Onde existe a Verdade Eterna escrita.

Oiço a voz do silêncio que revela
A vida de outros mundos, e os mistérios
Ocultos na azulada transparência...

Há tesouros de amor em cada estrela
Que vai rolando em vagalhões sidéreos,
E tenho, e sinto, um Deus na consciência! (1)

Poetisa e educadora, nascida no lugar de Cacilhas pelo mês de Junho de 1857. 

Filha de Júlio Pomar, de origem galega, estabelecido com um armazém de azeite. Mais tarde casou com o comandante da marinha mercante José Severo de Sousa Machado [o filho deste casal foi o comandante Francisco pomar de Sousa Machado, sócio da Empresa Fluvial de cacilhas que teve na travessia do Tejo os "barcos pequenos" Popular, Pacífico e Portugal].

"Quando moça enfeitiçara-a a ópera no Teatro de S. Carlos, e lá ia, acompanhada do pai, atravessando o Tejo, de ida e volta em botes, nem sempre romançosa a corrente fluvial e nem sempre límpido céu estrelado. 

Quando em idade avançada, já no ocaso radiante, sentada ao piano, tocava e cantava algumas óperas do seu maior agrado, que a sua vizinhança escutava emocionada" [texto de D. Francisco de Melo e Noronha]. 

Emília Pomar de Sousa Machado conhecia Italiano, Francês, Inglês, Espanhol e Latim. Publicou o livro de poemas "As Pecadoras", deixando larga colaboração na Imprensa regional e foi correspondente da Revista Espírita Brasileira, "Luz e Caridade". 


Ablução [em "As Peccadoras" cf. Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016]

Toda à agua do Ceo caindo em baga,
Cotas de chuva brancas, erystallinas,
verdes aguas do mar, potentes vagas,
e toda a que beberam as campinas,
mesmo a que guarda o intimo das fragas,
e de Jesus as lagrimas divinas,
o próprio orvalho que a lua da alva chora
para lavar a pobre pecadora.

Cacilhas, 24-5-1921.

Traduziu do francês o romance de Ernesto Doudet, "O Crime de João Malory", publicado em folhetins no jornal O Sul do Tejo, em 1885. Há um poema da sua autoria, "Ignota Almada", enaltecendo a resistência dos almadenses contra os castelhanos, em 1384, musicado por Leonel Duarte Ferreira.

Possuindo uma seleccionada biblioteca, exerceu constante e profícua acção cultural junto das camadas mais jovens. Muitos lhe ficaram devendo o gosto pela leitura, o amor aos livros e os primeiros passos na aquisição de conhecimentos.

Tia-avó do pintor Júlio Pomar, faleceu em Cacilhas no dia 14 de Novembro de 1944. Tinha 87 anos de idade. (2)

Que vejo além? ruinas e destroços,
o incêndio, a miséria, e tanta dôr...
entre montões de entulho, sangue e ossos:
É Liege e Luvaina: que pavor!


A Rendição (estudo), Adriano Sousa Lopes.
Reactor

O que ouço alem? que voz me traz o vento
que vem do norte, e fere o coração?
É como o estertorar do último alento
e a voz atroadora do canhão.

Que emanações são estas que ora sinto
que a brisa em seu eterno giro espalha?
é um mixto de horror, cheiro indistinto...
É o cheiro dos campos de batalha.

Quem impele nações contra nações,
que assola tudo e todo o mundo aterra?
É um monstro gerado de ambições
e esse monstro cruel chama-se: a Guerra. (3)


(1) De noite, Alguns vultos do Movimento Espírita Português
(2) Romeu Correia, Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada..., 1978
(3) A guerra, O Domingo n.° 719, semanário republicano radical, 18 de abril de 1915

Mais informação:
Alexandre Flores (fb)
Boletim O Pharol n.° 30, setembro de 2016

Leitura adicional:
Os grandes homens, Revista Luz e Caridade, outubro de 1934

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Brigue Pedro Nunes

O cahimento de hum navio no mar, hé o acto mais solemne que tem a marinha, e sem entrarmos agora nessa demonstração, conhece-se desde logo a sua importância e belleza, pelo afan com que o publico em todos os paizes do mundo civilisado concorre a presencia-lo attrahido por quantas maravilhas o mesmo acto, e o navio comprehendem. 

Brigue Pedro Nunes, João Pedroso Gomes da Silva, 1857.
Palácio Nacional da Ajuda

Com effeito a scena da fuga, ou ausência daquelle volume inerte e pesadíssimo, que se move como animado de força própria, ou impellido por mãos de fadas, hé tão singular, e produz na alma sensações tão gratas e novas, apesar de esperadas, que nos extasiam. 

Por pequeno que hum navio seja, hé sempre grandíssimo em relação ao individuo (homem) que o ha de tripular, e fazer mover pelo mechanismo da roda do leme que o ajuda a dar-lhe direcção: duzentas toneladas, por exemplo que hé só a parte que hum pequeno navio immerge, corresponde ao volume e peso de dois mil e seiscentos homens; e hé hum homem só, nesse acto do lançamento ao mar, que parece dar-lhe o primeiro impulso, para a carreira que o leva a fender o fluido que o ha de sustentar na posição conveniente ao seu arriscadíssimo e aventuroso serviço.

Na sua carreira fumegante, como que se despede para sempre da terra que o vio levantar-sc pouco a pouco d'entre hum montão de madeiros dispersos a destacados, sem figura alguma regular, até ao admiravel aggregamento delles, que, á primeira vista nada tem de commiim entre si, e donde resulta a final aquelle composto das mais bellas formas, das mais graciosas linhas curvas em tão diversos planos, dos contornos mais elegantes e variados, que apresenta o lindo casco de hum navio bem construído; onde só ha de rectilinea a quilha, na construcção moderna, pois na antiga era esta também curva: 

"Que a morte intimam com fragor horrendo, 
De longe ás curvas quilhas." 

como descreve o nosso Diniz [Ode a Vasco da Gama].

Que esmero no calafeto do fundo, que segurança no cavilhame das cavernas e braços, na pregadura do costado, e do forro impermeável ao filtramento de qualquer gola d'agua; que união nas taboas do convés e cobertas, que meio engenhoso e solido de fixar os váus, dormentes, e trincanizes?!

Como de tantos milhares de partes disparatadas e heterogeneas, se compoz hum todo movel em todos os sentidos, invariavel na sua forma, qualquer que seja a posição que occupe, e resistindo ao choque poderosíssimo das ondas encapelladas sem se desconjunctar?! 

Admirável cousa na verdade, e tanto mais admirável, quanto mais se medita na perfeição e complexo desta machina chamada navio, onde todas as artes, e sciencias que a industria e intelligencia humanas imaginaram, são necessárias para o acabamento e desempenho a que se destina.

Navio de guerra disse o imaginativo creador da Revolução de Setembro, era em si "idéa, espada e caminho"! Sim, hé "idéa, espada e caminho"; e só a sua idéa podia compor esta definição que resume quanto o mesmo navio significa, tripulado e conimandado por quem entenda e falle correctamente a lingua do militar marítimo.

Brigue Pedro Nunes (detalhe), João Pedroso Gomes da Silva, 1857.
Palácio Nacional da Ajuda

Dois navios de guerra, pois, ainda que pequenos, cahiram no dia 21 de junho de 1850 ao mar, dos estaleiros do arsenal da marinha de Lisboa, em presença de milhares e milhares de espectadores!

O menor delles que hé a escuna Angra riscada pelo sr. Moraes, parece-nos poder desde já affirmar que ha de servir bem e nobremente ao seu fim; quanto ao de maior lote, o brigue Pedro Nunes aguardaremos as provas que a experiência der, para fazermos juizo do seu mérito como navio de guerra. 

No entre tanto, mais doas flâmulas portuguezas tremularão nos seus topes por esses mares, e talvez vão ainda a remotas plagas mostrar de novo a intrepidez e sabedoria que n'outras eras tanto distinguiram os Vascos da Gama, os Joões de Castro, os Antonios Galvões, os Farias, e os Magalhães. 

Talvez, dizemos nós, porque não hé só nos grandes navios que se realisam navegações arriscadas, nem tão pouco só nas batalhas de muitas náos e fragatas que se mostra a valentia e audácia dos. homens de guerra, como bem o demonstrou o capitão Pevrieux na noite de 16 de agosto de 1801 a bordo da canhoneira Volcan contra Nelson no ataque de Boulonha, e o nosso destemido Quintella na curveta Andorinha contra a fragata franceza Chiffonne perto da Bahia no dia 19 de maio de 1801.

Cabimento do Pedro Nunes e da escuna Angra.

— Relatando porém o facto de hoje, diremos que ás duas e três quartos da tarde, que era a hora do preamar, deviam estes dois navios cahir na agua, mas como se esperasse por El-Rei até ás quatro, e a maré começasse a baixar, sem que o mesmo senhor apparecesse, permittio Sua Alteza o sr. Infante D. Luiz que o brigue Pedro Nunes partisse em quanto podia nadar; e com effeito elle escorregou admiravelmente pela carreira, deixando os milhares de espectadores maravilhados do modo por que fez aquelle trajecto, e fluctuou sobre as aguas do Tejo que tão fagueiras lhe lambiam o costado. 

Pouco depois chegaram Suas Magestades, El-Rei e seu augusto pai com toda a real familia que assistiram ao cahimento da escuna Angra, a qual ainda mais veloz que o Pedro Nunes levantou pelo attricto dos cachorros na carreira, hum fumo immenso, efendeo as aguas do mesmo Tejo, com huma velocidade de 10 a 12 milhas, cercando-se de cachões de espuma alvíssima que a rapidez do sulco produzio. 

O corpo de marinheiros da armada com a sua musica, achava-se postado entre os dois estaleiros com a frente para o mar, a companhia de guardas marinhas com correias, armas e bandeira fazia a guarda de honra a Suas Magestades, como em tão solemne acto sempre se praticou; o arsenal estava apinhado de curiosos de ambos os sexos e de todas as classes e jerarchias; o reducto da inspecção, era occupado pela corte e ministros estrangeiros com suas famílias; no cáes da mesma inspecção havia hum toldo e cadeiras para os altos funccionarios e membros das camaras legislativas; as janellas da sala do risco e da escola naval foram offerecidas e franqueadas a muitas senhoras que as adornaram com a sua presença e beldade, terminando a funcção ao aprazimento de todos, e sem o menor transtorno ou desgosto, o que hé de bom agouro para os navios que lhe deram causa, e aos quaes desejámos o melhor e mais patriótico futuro. (1)

Brigue Pedro Nunes (detalhe), João Pedroso Gomes da Silva, 1857.
Palácio Nacional da Ajuda

Nascido em 31 de outubro de 1838 [o infante D. Luiz], um anno depois do senhor D. Pedro V, e obedecendo á vocação precoce, assentou praça na armada aos oito annos de idade, e foi nomeado guarda marinha em 9 de outubro de 1846.

Promovido ao posto de segundo tenente em 19 de maio de 1851, ao de capitão tenente em 29 de outubro de 1854, e ao de capitão de fragata em 24 de março de 1858, encetou com menos de vinte annos a vida do mar, assumindo em 12 de setembro de 1857 o commando de brigue Pedro Nunes, e cruzando na costa de Portugal desde o dia 18 de janeiro do seguinte anno, sujeito em tudo como simples official ás obrigações e á responsabilidade do serviço naval. (2)


(1) Joaquim Pedro Celestino Soares, Quadros navaes, 1861
(2) Coroa poética no consorcio de suas magestades fidelissimas... 1862

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Courelas e Figueirinhas

Em 1695 o Conde de Assumar, D. João de Almeida Portugal, arrendou ao Capitão-Mor Álvaro Pereira de Carvalho, uma propriedade no sítio "aonde chamam as figueirinhas [à direita na imagem]" que contactava "da banda do Sul com a estrada pública que vem da Mutela para Cacilhas... e do Norte com a estrada que vem de S. Sebastião para Cacilhas". (1)

Almada, vista sul tomada do mirante da Quinta dos Bichos, posteriormente, Quinta da Alegria,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Conforme Pereira de Sousa (op. cit), [Azinhaga de Mata-Cães] uma designação popular para a Azinhaga das Courelas, do lugar que no século XIX e até à viragem do século XX começava na Rua José Fontana [ao centro na imagem].

Almada, vista em primeiro plano da Estrada da Mutela e, em segundo, da Azinhaga das Courelas,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Este nome surge relacionado com um proprietário conhecido por Mata-cães da Mutela, que terá vivido em Almada antes de 1682, "apodo" cuja atribuição seria mais tarde reconhecida a uma outra pessoa no século XIX, sem que qualquer relação se possa estabelecer em concreto.

Almada, vista em primeiro plano da Estrada da Mutela e, em segundo, da Azinhaga das Courelas,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Verifica-se no entanto que em 1857 esta designação aparece relacionada, com a compra de "uma Quinta chamada S. Luís, vulgo Matacães, próximo da Mutela", cuja localização seria correspondente à zona da Rua Luís de Queiróz.

Almada, vista em primeiro plano da Estrada da Mutela e, em segundo, da Azinhaga das Courelas,
Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Veja-se o esquema da estrutura de quintas [que consta na Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, de 1813, e aquela] elaborada por Atkins et, al. (2006, p. 46), cuja localização é indicada entre as quintas das Serras, Armeiro, Caranguejais e S. Sebastião de Baixo;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa (detalhe), 1813,
Estrutura de Quintas em Almada. Atkins, 2006.
Imagem: Praça da Liberdade, Almada - Apropriação e vida da praça no século XXI

ou o mapa de Almada em 1902, onde a zona correspondente a este lugar revela um enorme vazio delimitado por um polígono de quatro ruas ou caminhos, cuja configuração se manteve até à actualidade,

Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladasas quintas, a Estrada Distrital 156, a Estrada Real 79 etc., 1902.
Imagem: IGeoE

muito próxima daquela que representam o traçado da Av. Dom Nuno Álvares Pereira, com a Rua Luíz de Queiróz, a Av. Rainha D. Leonor e a Rua Padre António Vieria. (2)


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Luís Gonçalves, Praça da Liberdade, Almada - Apropriação e vida da praça no século XXI

Artigos relacionados:
Horizontes
O centro cívico
Praça da Renovação
Largo Gil Vicente

Outras leituras:
Revista pittoresca e descriptiva de Portugal com vistas photographicas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1861-63
Encyclopedia of Nineteenth-Century Photography

terça-feira, 12 de abril de 2016

Indústria química

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa


Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica. 

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (1)

Fábrica de Química Aplicada às Artes
Propriedade: Agostinho Joaquim Ferreira
Produtos: Cremor tártaro; tártaros vermelho e branco
Local: Porto Brandão
Referências: Estatística Industrial de 1852

Planta de uma instalação química em Portugal no início da segunda metade do século XIX. A planta pertence ao processo preliminar de licença de conservação de uma fábrica de produtos químicos situada no Porto Brandão, concelho de Almada, pedida por Agostinho Joaquim Ferreira, em 24 de Abril de 1857.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.

Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

No topo da imagem, o 1.º piso, parte reservada à habitação; no piso térreo, destinado à fábrica, destacam-se ao centro os espaços dos fornos, circundados inferiormente pelas áreas de fabricação, armazenagem e cais.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.
Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

A Fábrica de Química Aplicada às Artes produzia o cremor tártaro ou bitartarato de potássio, um produto utilizado na medicina e na tinturaria. (2)

Fábrica de dinamite da Trafaria
Propriedade: ... privilégio de Alfred Nobel
Produtos: Dinamite
Local: Trafaria
Referências: O Economista

Fábrica de dinamite na Trafaria, anúncio do Diário Illustrado, 1888.
Imagem: Biblioteca nacional de Portugal

Fábrica de guano artificial no forte da Trafaria
Propriedade: Jorge Croft & C.ª
Produtos: Guano químico; ácido sulfúrico
Local: Trafaria
Referências: MR - PPL, 1857

Fábrica de produtos químicos
Propriedade: Júlio César de Andrade & C.ª
Produtos: Essência de terebentina; breu e resina hidratada
Local: Almada
Referências: Exposição Internacional do Porto de 1865 (3)

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática..., Universidade de Évora, 2016
(2) Idem
(2) Idem, ibidem

Informação adicional:
Revista Universal Lisbonense, A Indústria Nacional e a Exposição de 1849

Artigo relacionado:
O laboratório químico da Margueira

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Passagem pelo grupo do Leão

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe [hoje 1° de Dezembro], onde ás noites iam cavaquear e beber cerveja, artistas n'elle incorporados, e o seu advento nas exposições do Commercio de Portugal é trepidação de um hausto novo na maneira portugueza de pintar.

Cervejaria Leão de Ouro, 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: Wikipédia

Annos depois de organisado o grupo do Leão, bolorencias inherentes à natureza pantanosa d'este género de sociedades, levaram alguns artistas a se separarem d'elle, e a incorporarem-se-lhe outros, e a nova confraria a alargar-se num programma mais íngreme de letras e artes, com saraus, banquetes, exposições e regalos, que, pela vida periclitante da nova milí­cia, intitulada Grémio Artístico, não chegaram a cabal execução, à parte as exposições, decaídas, que o profissional hoje evita, e que a invasão do furioso amador quasi tornou fastidiosas. (1)

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

[Manuel Henrique Pinto] Pintor do Naturalismo. Com Malhoa descobre o "Figueiró das Cores", com ele inicia a dita "odisseia rústica". Nascido em Cacilhas a 15 de Março de 1853. Cursou a Academia de Lisboa, onde foi discípulo de J. G. Prieto, Tomás da Anunciação e Simões de Almeida. Expõe pela primeira vez na 10ª Exposição da Sociedade Promotora (1874) três Paysagens tiradas da outra banda. (2)

Antelmo — Alfeite, Manuel Henrique Pinto, 1882.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook

Corroios, Manuel Henrique Pinto, finais do século XIX.

[João Vaz] Nasceu em Setúbal, a 9 de Março de 1859. De 1872 a 1878 frequentou a Real Academia de Belas Artes de Lisboa, onde foi aluno de Tomaz de Anunciação. Acabado o curso, e não tendo arranjado pensão para estudar no estrangeiro, fez uma viagem por França e Espanha, na companhia de António Ramalho. (3)

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

[José Malhoa] Nasceu nas Caldas da Rainha a 28 de Abril de 1855. Foi estudar para Lisboa aos 8 anos e aos 12 entrou na Real Academia de Belas Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Lupi, Prieto, Vítor Bastos e Anunciação. Obtendo no fim de todos os anos o 1º prémio, conclui o curso em 75. (4)

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat


(1) Arthur, Ribeiro, Arte e artistas contemporaneos, Illustrações de Casanova & Ramalho, Pref. de Fialho de Almeida, 1896, Livraria Ferin, Lisboa.
(2) MatrizNet
(3) Idem
(4) Idem, ibidem

Leitura relacionada:
do Porto e não só: Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (I parte)
Artistas e Espacos de Sociabilidade no século XIX — O Leão d'Ouro e a Génese do Naturalismo na Pintura Portuguesa 1885-1905
Aça, Zacarias d', Lisboa moderna , 1906, Tavares Cardoso, Lisboa.