quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

ver Artigo relacionado: H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
1893 — Promessa de venda do estaleiro do Sampaio na Praia da Lapa em Cacilhas à firma Parry & Son pela importância de 90.000$000 réis.

O farol e a doca de Cacilhas, colecção Henrique Seixas, Museu da Marinha, in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses...
Imagem: Livreiro Monasticon

1899 — Concretização da venda do estaleiro do Sampaio à Parry & Son.  

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

1903 — Lançamento à água da lancha-canhoeira Tete.

1904 — Lançamento à água da lancha-canhoeira Sena.

Publicidade à actividade da H. Parry & Son, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Alguns navios construídos:

Vapor Alcântara;
Vapor Progresso;
Vapor Lisbonense;
Vapor Belém;
Vapor Príncipe D. Carlos;
Vapor Setúbal;
Vapor n.º 1;
Vapor Alcácer do Sal;
Vapor Bom Sucesso;
Vapor Mercúrio; Vapor O'Neill;
Vapor Hugo Parry;
Vapor Lúcifer;
Vapor Trafaria;
Vapor n.º 9;
Vapor n.º 10;
Rebocador Voador;
Vapores Marianno de Carvalho, n.º 1 e n.º 2;
Vapor Girafa; Rebocador Leão;
Vapor Mineiro;
Vapor Juno;
Lancha-canhoneira Honório Barreto;
Lanchas-canhoneiras Diogo Cão e Pedro Annaya;
Rebocador Santa Maria;
Canhoneira Chaimite;
Vapor Neves Ferreira;
Vapores n.º 3 e n.º 7;
Vapor n.º 8;
Lanchas-canhoneiras Sena e Tete;
Escuna Três Macs;
Rebocador S. Thomé.;
Lancha Ginjal;
Rebocador António Serra.

in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses, Subsídios para a história da construção naval de ferro e aço em Portugal, Vol. II: H. Parry & Son, Lisboa, 1965
1938 — Fim d contrato de arrendamento dos estaleiros do Ginjal.

Estaleiros H Parry & Son em Cacilhas, antes da abertura da Estrada Nacional.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

O troço [viário e consequentes desaterros] entre a Cova da Piedade e Cacilhas foi construído entre 1948 e 1951,

Plano de arranjo e ampliação dos estaleiros em Cacilhas, 1949.
Imagem: Restos de Colecção


em grande parte sobre o rio, após o entulhamento das baías da Margueira e da Mutela.

Estaleiros H Parry & Son em Cacilhas, antes e depois da abertura da Estrada Nacional.

A ligação a Cacilhas fez-se à custa da ruptura do morro que, até então, isolara esta povoação da Margueira.

Plano de arranjo e ampliação dos estaleiros em Cacilhas, 1949.
Imagem: Restos de Colecção


in Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.

Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 16, década de 1960.
Imagem: Delcampe

1986 — Declaração de falência dos estaleiros Parry & Son.

A Parry foi o primeiro estaleiro privado a possuir docas e o primeiro construtor a planear inteiramente um navio de chapa de aço e a proceder à sua execução desde o casco às caldeiras [...] (1)


(1) Luzia, Angela, Esteves, Joana, Santos, Maria José E., A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs.

Artigos relacionados:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
O torreão e a Lapa


Leitura relacionada:
Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses, Subsídios para a história da construção naval de ferro e aço em Portugal, Vol. II: H. Parry & Son, Lisboa, 1965

Veiga, Luís Bayó, Boletim O Pharol, n° 22 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A escola da dona Assunção

A escola da dona Assunção ficava num primeiro andar, por cima do posto de enfermagem dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas. Da rua, viam-se as três janelas de guilhotina que iluminavam a aula durante o dia.

Escola da D. Assunção sobre o Posto de Socorros dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Largo do Poço em Cacilhas.
Ilustração de Anyana (Idalina Alves Rebelo), 1980.
Imagem: Boletim "O Pharol"

A escada estava a ser esfregada por uma rapariga magra e de cabelos pretos em desalinho. O pai pediu licença para passar e a mulherzinha colou-se à parede, arredando o balde com a água porca, a escova e o esfregão. Subimos até ao patamar e ele bateu à porta. Uma menina de tranças loiras com laçarotes azuis apareceu entre umbrais. 

— A dona Assunção está? — indagou o Rogério Correia.
A menina voltou-se para dentro, e disse: 

— Minha senhora, está aqui o senhor que esteve cá ontem. Traz o menino.

Apareceu então uma mulher gorda, cabelos brancos mal penteados , nariz saliente e vermelhusco. Trajava uma bata branca como o enfermeiro do rés-do-chão. Com voz de homem, perguntou:

— Este é que é o seu filho, senhor Rogério?

Ms. Finster, Paul Germain and Joe Ansolabehere, Recess TV Series.
Imagem: Recess Wikia

— Aqui o tem: é uma bela prenda! — E o bruto do meu pai fez ainda esta recomendação:
— Eduque-o, minha senhora, faça dele um Homem! O rapazinho tem vivido à rédea solta, lá no cais! Não faça cerimónias, arreie para baixo quando for preciso! Basta que me apresente a pele dele lá em casa!...

Ao escutar estas terríveis palavras do autor dos meus dias, ericei de forças para fugir escada abaixo. Ainda consegui um passo atrás, mas várias mãos caíram sobre a minha fraqueza, atirando-me para dentro da aula. 

Gritei, esperneei, sem resultado: quando dei por mim já o meu pai havia abalado para o emprego e eu estava sentado num banco. À minha beira, a menina das tranças pedia-me para que não chorasse mais, pois ali na escola ninguém me faria mal. Ela era mais alta do que eu (que olhos bonitos!, que maminhas!, que pernocas!...),

Lou ! par Julien Neel, éditions Glénat.
Imagem: BDzoom

e a sua voz muito doce. Enxuguei as lágrimas e pude então observar quem assistia à aula. Talvez uns trinta rapazes e raparigas, havendo vários miúdos espalhados sobre pequenos bancos. Ao fundo, estava a secretária onde a professora dirigia as operações. Atrás dela, na parede, um quadro negro não sei quantas vezes maior do que a minha ardósia. Dois rapazes davam lição debruçados no tampo da mesa da dona Assunção.

Em dado momento, a professora pôs-se de pé e exigiu:
— Dá-me a tua mão, Daniel! 
Ao que o rapaz recuou, amedrontado. Então a velha saiu da cadeira, puxou de um pau com a ponta redonda, e começou a bater na palma das mãos. Seis palmatoadas em cada. O Daniel gritou de dor, aflito, escondendo as mãos sob os sovacos. Dançou por momentos diante de todos nós, pois as mãos ardiam-lhe como brasas.

A minha bonita companheira apercebeu-se do meu pânico e tentou sossegar-me:
— Ele nunca sabe as lições e a senhora bate-lhe para que ele estude. Dito isto, a menina retirou-me o boné da cabeça. Resisti, ao que ela esclareceu:
— O teu boné vai para o cabide, vai o boné e o cabaz do almoço. Ainda de pé, fiquei a vê-la afastar-se de mim. — Que ia guardar lá dentro as minhas coisas, dissera ainda para a professora. Pouco depois a rapariga voltou para a minha beira, baixando eu o rabo sobre o banco.

Observei melhor a sala e notei agora que havia mapas pelas paredes. Sobre terras, pesos e medidas. Mas nenhum me deixou tão surpreendido como o boneco de um homem, de pé, rodo feito com ossos...

— É um esqueleto! — esclareceu a menina. — Sabias que todos nós temos aqueles ossos cá dentro? — Saber, sabia... mas nunca tinha visto. Nesta altura a rapariga que esfregava a escada apareceu com o balde e a escova. 

A dona Assunção, ao vê-la atravessar a sala, gritou-lhe:
— Ó mulher, cada vez estás mais lesma! Por rua vontade gastavas roda a manhã na limpeza! A uma hora destas e ainda não tenho almoço em casa! A mulherzinha ficou araranrada com aqueles gritos e arriou o balde no chão, o que acabou por irritar ainda mais a dona da casa:
— Agora ficas aí armada em paspalhona?! Mexe-te! Mexe-te, Elvira! A Elvira então correu para a cozinha, aparecendo pouco depois com um cesto, indo de seguida pedir dinheiro à patroa para as compras. 

Cacilhas, Almada, Largo Costa Pinto, ed. José Pinto Gonçalves, década de 1920.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Junto de mim havia uma fila de banquinhos onde estavam sentados vários putos a fazer contas nas ardósias. De quando em quando, tocavam no braço da menina das tranças e perguntavam-lhe se a conta ia bem... Percebi ser ali, na última fila, o lugar dos mais atrasados, e que aquela malta miúda estava ao cuidado dela.

Arrisquei uma pergunta: 
— Vossemecê é filha da dona Assunção? A rapariga riu-se e deu-me um piparore numa orelha: 
— Porquê? Por estar aqui a passar as contas aos miúdos? Então a menina fez-me um pedido: que a tratasse por Raquel, pois era uma aluna como qualquer outra. Andava na 4.a classe e esperava fazer o exame no próximo ano. Tinha doze anos. O pai era proprietário de uma leitaria em Cacilhas. 
— E tu onde moras? 
— No cais do Ginjal. O meu avô é dono daqueles grandes armazéns de vinhos. Esta mentira saíu-me pela boca fora sem eu dar por isso. Mas não me arrependi, pois a Raquel ficou muito admirada da importância do avô Zé Correia [...]

Cacilhas, cais e farol, ed. José Pinto Gonçalves,  década de 1920.

A menina Raquel fez-me uma pergunta: 
— Sabes contar? 
— Até vinte e nove... esclareci. 
— E daí para cima? Encolhi os ombros: 
— Não sou certo... 
— Eu passo-te uma continha para ver o que sabes, sim? — ofereceu-se a filha do dono da leitaria. Observando os números que ela escrevera na minha pedra, perguntei-lhe, a medo: 
— Estando errada... a professora bate-me? A minha companheira riu-se, despenteou-me numa carícia e... deu-me um beijo.

Tremi da cabeça aos pés, e alvitrei cheio de espanto e receio: 
— Veja lá, menina Raquel, se a dona Assunção nos vê...! 
Parando de rir, bruscamente, a rapariga dos laços azuis encarou-me admirada!... Mas a professora estava atenta ao que se passava entre nós, e indagou na sua voz de homem: 
— Que risos são esses, Raquel? Esse menino entrou a espernear e agora está tão divertido? 
— Fui eu que lhe passei uma conta, minha senhora. Uma pequena conta de somar. E a voz forte da dona Assunção voltou a ouvir-se com um terrível aviso: 
— Esse menino amanhã vem para o pé de mim. Vamos ouvi-lo chilrear... — E, erguendo a palmatória negra, provocou-me:
— Quem sabe se não vai apanhar uns beijinhos desta menina de cinco olhos!... (1)




(1) Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

Leitura adicional:
Boletim "O Pharol"
Farol, O, Associação de Cidadania de Cacilhas, As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013, 248 págs.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Foz do rio Tejo em 1800

Thomas Buttersworth (1768 – 1842)

Thomas Buttersworth nasceu na ilha de Wight, descendendo de uma família marítima, em 1795 alistou-se na Royal Navy e combateu nas Guerras Napoleonicas.

HMS Ville de Paris posto à capa ou ao través, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

Depois de servir com distinção no HMS Caroline foi dado como inválido em Minorca e deixa a Royal Navy em 1800.

H.M.S. Victory (?) na embocadura do Tejo, Thomas Buttersworth (1768 - 1842).
Imagem: Bonhams

A sua experiência de mar permite-lhe adaptar a sua carreira, tornando-se um célebre e importante pintor de marinhas do século XIX. (1)

Uma chalupa armada emergindo da foz do Tejo passado o Bugio, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

[...] o grande número de pinturas de Buttersworth, aquarelas e óleos, que existem desde o período 1797 - 1800 confirmam uma produção significativa, apesar de servir na marinha.

Uma fragata inglesa e uma chalupa armada calmamente no Tejo ao largo da Torre de Belém, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

Os seus multiplos pontos de vista da batalha do Cabo de São Vicente (14 de fevereiro de 1797), o bloqueio da esquadra britânica ao largo de Cadiz e a actividade naval britânica no Tejo sugerem que ele testemunhou pessoalmente esses eventos.

Foz do Tejo, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

Os seus anos com a frota marítima deram-lhe um entendimento gráfico do navios e da guerra no mar ao ponto de se tornar um artista profissional [...] (2)


(1) The dictionary of Nautical Literacy, McGraw Hill, 2003, mencionado em Jerome, Fine Arts
(2) Bonhams

Informação relacionada:
BBC YOUR PAINTINGS: Thomas Buttersworth 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Príncipe de Joinville

Em agosto de 1834, o Príncipe de Joinville (1818 -1900) passa novos exames em Brest, sob a direção de cavaleiro Préaux Locré. Recebido como aluno de primeira classe, embarca imediatamente em Lorient na fragata "La Syrene", vai a Lisboa, aos Açores, e regressa a França, após de três meses de navegação.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

Em 1840 [...] participa na transladação dos restos mortais do imperador Napoleão. 

Transbordement des cendres de Napoléon, Morel-Fatio, 1841.
Imagem: L'HISTOIRE PAR L'IMAGE

Em maio de 1841, [...] embarcado na "Belle Poule", vai visitar Amesterdão e todos os portos ou instalações marítimas da Holanda. Seguidamente viaja para a América, visita o Cap-Rouge, Halifax, Filadélfia, Washington e regressa à Europa, por Lisboa, onde é recebido pela rainha Dona Maria, e regressa a França em janeiro 1842. (1)

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Após uma rápida travessia chegámos a Lisboa. É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém charma os olhos com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Nós descemos a terra na chalupa ( falua ) [sic, i.e. galeota] Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas com dossel de seda à ré, cuja tripulação se compunha de em homens do Algarve de tez morena , vestidos de calções curtos, jaqueta de veludo amaranto [vermelho escuro] e envergando boinas venezianas. Remavam em pé cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos. Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aguafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu final prematuro.

Vue de Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet


Regressei com frequência a Portugal; sempre aí recebi um acolhimento do qual guardo a recordação mais reconhecida. Aí encontrei homens distintos, mulhers amáveis, instruídas, charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de uma afeição sincera e desejo que todos os meus votos sejam por eles seguidos sobre a terra e sobre o mar, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

Na época da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e terceira, que serviam alternadamente de apoio à mudanças alternadas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista que fazia oposição à rainha Dona Maria, partid pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, bem que ele reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem.  Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se é na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o se décimo quinto filho, prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convida-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi explêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão com cocar [laço] português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e um bastão enorme na mão [...] (2)


No mês de junho seguinte, [o Príncipe de Joinville] voltou para o "Belle Poule" com a esquadra às ordens do vice-almirante Hugon. Acompanha então o seu irmão mais novo, o Duque de Aumale a Nápoles, depois, a Lisboa, e dirige-se ao Brasil fazendo escala em Saint Louis, Senegal [...]

Esta viagem tem por objetivo o pedido em casamento da Princesa Dona Francisca de Bragança (1824 - 1898), filha do imperador Dom Pedro I, e irmã do futuro imperador Dom Pedro II e da Rainha de Portugal Dona Maria. 

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

A união dos dois príncipes é celebrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de maio de 1843. Imediatamente após, o Príncipe leva a sua esposa para França, onde brevemente nascerão os seus dois filhos. No dia 31 de julho de 1843, Joinville é nomeado contra-almirante [...] (3)


(1) Wikipédia, François d'Orléans (1818-1900)
(2) Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Vieux souvenirs: 1818 - 1848, Paris, Calmann Lévi, 1894
(3) Wikipédia, idem

Versão inglesa:
Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Memoirs (Vieux souvenirs) of the Prince de Joinville, London, William Heinemann, 1895


Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans, príncipe de Joinville

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Romântico Porto Brandão

Ninguém me há de acreditar a história da quarta mulher. Quer creiam, quer não, ela ai vai com pouca arte, a ver se a sua mesma desnudez a faz menos incrível.

Lisbon from Porto Brandão, James Holland, 1845.
Imagem: BBC Your Paintings

Fui um dia de agosto a Porto Brandão, onde estava a banhos um meu amigo. Numa quinta para lá da encosta houve uma reunião de famílias de Lisboa, à qual fui convidado. O meu amigo apresentou-me a um cavalheiro, que me tomou o braço e me apresentou a algumas senhoras, todas galantes, palreiras e doutoras em Paulo de Kock. 

Pedi miúdos esclarecimentos acerca de todas, e particularmente da mais bonita e modesta. O cavalheiro de todas disse mal, mal, porém, que eu indultei cordialmente, defeitos que são enfeites, vícios que alindam as formosas e denigrem as feias. O crime de todas era a casquilhice, que o leitor pode, se quiser, traduzir para coquetterie. Amavam toda a gente, segundo o informador. Fiquei satisfeito, pensando que o amarem elas toda a gente era boa probabilidade para eu ser amado. Eu não queria mais nada.

Camilo Castelo Branco (1825 -1890).

Languiram em doce ternura meus olhos, fitos na mais amável das quatro. Algumas vezes nossas vistas se encontraram, e disseram profundos mistérios da alma. Fugi outras vezes da sala e fui a uma varanda, donde se ouvia o bramido do oceano, casar as melodias do meu amor com as dissonâncias formidolosas do estrugir das ondas. A lua prateava-me a testa, em que o sangue, aquecido no coração, subia em arquejos daquela poesia, que não sai em rimas, e enlouquece, se a paixão a não desafoga em suspiros. Aquilo é que era!

Ao romper de alva, vi que um rancho de meninas desciam ao jardim e colhiam flores. A minha amada ficou à janela conversando com senhoras idosas. "Tragam-me a mim uma rosa de musgo", disse ela às amigas. E as amigas voltaram sem a rosa. Desci ao jardim, colhi duas rosas aljofradas das lágrimas da aurora, pedi licença para lhes oferecer, e disse: "Não as enxuguei, para não privar as florinhas das carícias de um anjo."

Porto Brandão, à esquerda do Tejo.
Imagem: Ateneu Livros

Eu queria comunicar a exuberância da minha ventura, mas tive sempre para mim que a felicidade quer-se recatada para não suscitar invejas: é ela como a fina essência das flores destiladas, que perde o aroma, destapado o cristal que a encerra. Não contei nada ao meu amigo; simulei até desapego das mulheres mais belas do baile, e da preferida nem se quer falei.

Este meu dito foi celebrado em Porto Brandão [...] (1)


(1) Castelo Branco, Camilo, Coração, cabeça e estômago, Lisboa, Publicações Europa América, 1988 [1.a ed. 1862]

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Tramoceiro

Há nele [no Tejo] tanta abundância de peixe que os habitantes acreditam que dois terços da sua corrente são de água e outro terço são de peixe. É também rico de marisco como de área, e é principalmente de notar que os peixes desta água conservam a sua gordura e sabor natural sem os mudar ou corromper por qualquer circunstância [...] (1)

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

[...] gordos e saborosos linguados, salmonetes, cações, raias, corvinas, douradas, pampos, cabras, ruivos, cibas, chocos, choupos, salemas, charroco, peixe delicado que dão aos doentes, cavalas, sardas, sardinhas, safios, congros, amêijoa, berbigão, ostra, lingueirão, mexilhão, caramujo, muito camarão, grande número de lagostas em Porto Brandão muitas sapateiras, santola, lagostim, caranguejos [...] (2)

Os peixes grandes comem os pequenos, Pieter Bruegel o Velho,  gravura de Pieter van der Heyden, 1557.
Imagem: THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART

Os abismos insondáveis do rio, reino de animais marinhos e de riquezas esquecidas — tão perto e tão longe da cobiça dos homens! Que variedade de peixes a que os iscos atraíam e as linhas puxavam para a riba do cais. Safios, congros, polvos charrocos, robalos, tainhas eirozes, linguados, corvinas, cações ... Na baixa-mar, as rochas e as pedras ofereciam ostras, mexilhões, lapas e ainda camarões nas poças salgadas da areia. (3)

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), as praias da Fonte da Pipa, Tramoceiro e Ginjal, 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os habitantes da muralha viviam enamorados do rio e, de pais para filhos, conservavam os apetrechos da pesca. Todos os peixes lhes eram familiares e as manhas para os capturar pertenciam à sabedoria do lugar.

O Tramoceiro visto da rocha de Almada.
Imagem: Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Canas de pesca, linhas empatadas com anzóis de várias barbelas, camaroeiros de boca redonda ou rectangular, de malha larga ou a terminar com um saco de rede miúda.

A pedra do Tramoceiro, fotografia de Fernando Barão, década de 1950.
Imagem: Casario do Ginjal

Camarões capturados na vazante barrenta, camarão branco, com o linguadinho parasita junto da cabeça.

A pedra do Tramoceiro.
Imagem: Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Polvos, santolas, lagostas e lavagantes. Charrocos, tainhas, congros, safios, cações, robalos, corvinas, eirós e fanecas [...] (4)


(1) De expugnatione Lyxbonensi, excerto traduzido da carta escrita por um cruzado que participou no cerco e conquista de Lisboa em 1147

(2) Oliveira, Frei Nicolau de, Livro das Grandezas de Lisboa, 1620, citado em Porto Brandão, A Terra e o Tejo, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2007

(3) Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

(4) Correia, Romeu, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Leitura adicional:
Freitas, Joana Teresa Cruz Mimoso, Turismo Náutico: agentes dinamizadores do estuário do Tejo, Estoril, eshte, 2010
Gomes, Sandra Rute Fonseca, Territórios medievais do pescado do reino de Portugal, Coimbra, Universidade de Coimbra, 2011

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Margem esquerda

A Joseph Fortuné Séraphin Layraud (1834 – 1912)

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

D. Maria Pia de Sabóia, Palácio Nacional da Ajuda.
Image: Wikipédia

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.


Família real portuguesa em Queluz, Palácio Nacional da Ajuda, 1876.
Image: Wikipédia

E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.


A manhã seguinte, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1884.
Imagem: LAPHAM'S QUARTERLY

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.


O artista no seu estúdio, 1899.
Imagem: artnet

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. (1)



(1) Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos — Poema XX"

Informação relacionada:
Catalogue des tableaux exposés au Musée de Troyes fondé et dirigé par la Société académique de l'Aube (1907)