quinta-feira, 12 de maio de 2016

Costa de Caparica: notas cronológicas

Assim como a Trafaria, a Costa de Caparica era originalmente um aglomerado de pescadores, que no ano de 1770 se estabeleceram vindos de Ílhavo [e, mais tarde, do Algarve,] nas suas próprias embarcações.

Pescador (detalhe), Narciso Alfredo de Morais,  1923.
Imagem: ARCADJA

As suas habitações não passavam de pequenas cabanas de colmo dispostas no areal, onde os pescadores se abrigavam durante o Verão, queimando-as no fim da campanha e regressando às suas origens [...] (1)

1472Criação da freguesia da Caparica pelo Papa Sisto IV.
1558Edificação do Convento dos Capuchos por ordem de Lourenço Pires de Távora.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

1755Devido ao terramoto há registo de mortos e o Convento dos Capuchos é afetado.
1780Construção do cemitério da Costa (de facto o actual cemitéro data de 1848, o que não descarta  que a data de 1780 possa referio o antigo, v. O cruzeiro do lugar da Costa).
1800Edificação da primeira casa de alvenaria na Costa, a Casa da Coroa a partir de 1824.

Costa da Caparica, Casa da Coroa.
Imagem: Centro de Arqueologia de Almada

1834Camponeses instalam-se no Convento dos Capuchos.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1840Incêndio, fogo do Quinquilheira, que destrói 48 barracas.
1856Construído o primeiro caminho de ligação entre os Capuchos e a Costa.

Costa da Caparica, Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

1854Incêndio, o fogo Rosa do Ché-Ché que consome 50 barracas.
1876O Padre Hughes instala-se na Costa e dá início ao Colégio do Menino Jesus.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1878Abertura da vala da Costa, com a função de drenar os pântanos do Juncal.
1878Florestação das dunas da Costa e Trafaria, por iniciativa do deputado Costa Pinto.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1879Construção do Poço ou Fonte da Bomba.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba, Chafariz
Imagem: Delcampe

1880Reedificação da Igreja da Costa por João Ignácio Alfama da Costa.

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

1882Início das obras de drenagem do pântano do Juncal.
1882Construção de duas estradas de acesso à Trafaria e Costa.
1886Incêndio que destrói 60 barracas, o fogo do Costa Pinto.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

1888Construção da estrada que liga Almada, a Trafaria e a Costa, dirigida por Liberato Teles.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

1895Intensas cheias provocam o transbordo das valas e o alagamento dos terrenos.
1895Possível início da construção da duna artificial ou "escarpado".

Costa da Caparica, o "escarpado" junto à praia, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1925Classificação da Costa de Caparica como estância balnear, DR nº 11335, de 9 de Dezembro.
1926Criada a freguesia da Trafaria que abrange a Costa, DR nº 12432, 7 de Outubro.
1929Naufrágio do Pensativo a 12 de dezembro.
1930Apresentado o plano modernista para a Costa de Caparica pelo arquiteto Cassiano Branco.

Costa de Caparica, Praia Atlântico.
Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1930.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1931Construção da ligação entre a Trafaria e a Costa, denominada por estrada florestal.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

1934Primeira brochura turística a abordar exclusivamente a Costa de Caparica.

Praia do Sol, Caparica, ed. Guia de Portugal Artístico, M. Costa Ramalho, 1934.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1934Inaugurado o Hotel Praia do Sol, a primeira unidade hoteleira do distrito de Setúbal.

Costa da Caparica, Hotel Praia do Sol, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1938Inaugurada a Casa dos Pescadores da Costa de Caparica.

Costa da Caparica, Casa dos Pescadores, Comissão Municipal de Turismo, ed. Neogravura, Mario Novais, 1946.Imagem: Delcampe - Bosspostcard

1939Inaugurada a Colónia de Férias Um Lugar ao Sol da FNAT.

Costa da Caparica, FNAT, Colónia de férias Um Lugar ao Sol.
Imagem: Delcampe

1946Apresentado o Plano de Urbanização dos arquitetos Gröer e Faria da Costa.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

1949Criada a freguesia da Costa da Caparica, desanexada à Trafaria.
1952Concluídas as obras de restauro do Convento dos Capuchos.

Costa da Caparica, Almada, Convento dos Capuchos (após o restauro em 1952), Ed. Passaporte, 32
Imagem: Fundação Portimagem

1952Inaugurado o Parque de Campismo do Clube de Campismo de Lisboa.

Costa da Caparica, entrada do parque do Clube de Campismo de Lisboa.
Imagem: Delcampe

1957Construída a primeira estrutura de defesa costeira, o esporão da Cova do Vapor.
1960Inauguração do comboio turístico Transpraia.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

1960A área entre a Trafaria e a FNAT passa a designar-se por S. João da Caparica.
1962Galgamentos de mar e destruições na Costa de Caparica.
1964A Arriba Fóssil da Costa de Caparica é cortada em Brielas para a passagem Via Rápida.

Vista de Caparica tomada dos Capuchos, após os desaterros no vale cego de Brielas para a construção do IC 20.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

1970Construído o Bairro Campo da Bola, demolido durante Programa Costa Polis.
1971As dunas do topo da Arriba Fóssil integram a mata dos Medos, Reserva Botânica.
1971Concluído o Plano Geral de Urbanização da Trafaria-Vila Nova-Costa de Caparica.

Costa da Caparica, vista aérea, c. 1980.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1984A Arriba Fóssil é constituída Paisagem Protegida, DR n.º 168/84, 22 de maio.
1985A Costa da Caparica é elevada a vila, 9 de julho.
1995Início da cobertura da rede de esgotos de drenagem pluvial.
1998Demolida a Casa da Coroa, "por se encontrar em elevado estado de degradação".

Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa"
Imagem: caparica news

2000Obras de restauro do Convento dos Capuchos.
2003Reparação do paredão sob a tutela do INAG, após abatimento do mesmo.
2004Discussão pública dos Planos de Pormenor do Projeto Costa Polis.
2005A Costa de Caparica é elevada a cidade, DR nº 10/2005, 26 de janeiro.
2007Início das obras do Projeto Polis na Costa de Caparica.
2007Obras de alimentação artificial de praias.
2008Obras de alimentação artificial de praias.
2008Inaugurado o Jardim Urbano da Costa de Caparica, obra do Projeto Polis.
2009Obras de alimentação artificial de praias.
2010Término do Projeto Polis sem que todos os trabalhos tivessem sido concluídos. (2)

Costa da Caparica, praias urbanas Costa Polis, 2009.
Imagem: Programa Polis

No ano atual, 2014, assistiu-se a relatos de um inverno violento para a Costa de Caparica e Cova do Vapor, causando inúmeros estragos nos apoios de praia e infraestruturas mais próximas. 

Marítimo da Costa de Caparica, Narciso Afredo de Morais Moraes.
Imagem: Hemeroteca Digital

As investidas do mar nesse Inverno colocaram novamente a descoberto a obra de defesa costeira dos anos 60 do século XX, que consistia em blocos do Miocénico (material da Arriba) enterrados a fim de proteger a duna.

Costa da Caparica, A praia 35 K de comprida, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Fundação Portimagem

No Verão de 2014 recorreu-se novamente à alimentação artificial de praias, a fim de reconstituir o perfil de praia e deste modo tornar possível a sua utilização em época balnear. (3)


(1) Marta Oliveira, Evolução Natural e Antrópica Trafaria - Cova do Vapor - Costa de Caparica, Lisboa, UL, 2015
(2) ref.as cf. Marta Oliveira, op. cit.
(3) Idem

Tema:
Costa da Caparica

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Almeida Garrett

— Uma boa nova; o Garrett vem passar o resto da primavera e o verão comnosco [...]

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett mandou o seu saco de noite, uma pasta com manuscriptos, e o estojo de toilette, peça esta que, á primeira vista, podia parecer uma caixa de instrumentos cirúrgicos e juntamente uma botica portátil: tal era a quantidade de ferros cortantes em forma de canivetes, escalpellos e bisturis; as tesoiras de todas as dimensões, as pinças, as esponjas, de todos os tamanhos, e a enorme quantidade de frascos que encerravam finissimas essências combinadas pelos mais imaginosos e mais famosos perfumistas de Londres e Paris.

O dono da casa, vendo o estojo aberto diante do espelho, contemplou-o, como eu contemplava as notas, isto é, com os olhos arregalados de pasmo, e, passados alguns momentos, voltando-se para mim, disse com ar solemne:

— Ora veja o meu amigo de quantas cousas pôde precisar um homem n'este mundo!

Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do dolce far niente, que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçarle na graciosa grinalda das "Folhas Caídas".

Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.

Iconografia do Romantismo, O deambulador sobre o mar de névoa (detalhe), Caspar David Friedrich, 1818.
Imagem: Wikipedia

Sentia-se na força da inspiração. Os versos, com o ardor dos vinte annos, desatavam-se de dia a dia. Ao mesmo tempo gisava as scenas do seu grande romance "Helena", de que ha pouco sairam os primeiros capítulos, formosos quadros, que deixam o leitor suspenso em ardente curiosidade.

Ah! porque descaiu mortal a mão do artista!

Parece que o poeta presentia já a morte quando, com sorriso melancólico, me recitava estes lindos e apaixonados versos:

Bem o vés, o alaúde caía-me
D'estas mãos que não tem já poder;
E o som derradeiro fugiu-me

Do hymno eterno que ergui ao nascer.
Ai! por ti, por ti só, á memoria
Vem saudades do tempo da gloria !

Oh! os poetas, os poetas!... Só elles têm alma de pagar as volúveis carícias da mulher com a immortalidade! (1)

Assomava a primavera de 1849. — N'esse tempo, em Portugal, havia primavera. — Deixou bem gratas recordações áquelles, que são hoje açoitados, em abril e maio, com as granisadas aspérrimas de dezembro!

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

Os dias da estação vernal chegavam-nos sorridentes, azues, e illuminados. As roseiras nos jardins, o pomar na horta, o relvão nas chapadas, cobriam-se de botões e de flores.

O pardal nos beiraes dos telhados, as andorinhas nos ares, as tutinegras, os rouxinoes nos balsedos e nas faias sussurrantes e sombreiras, papeavam, alegres e enamorados [...]

Um dia Almeida Garrett escreveu uma longa carta a Alexandre Herculano. N'esse papel fazia-se uma confidencia amarga!

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência. Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.

Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.


Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Julie ou la Nouvelle Héloïse, o primeiro beijo.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

Pondo de parte o extraordinário Miguel Angelo, de quem se conta, que não amou em toda a sua vida senão a Victoria Colonna, e que, só depois de morta, lhe deu o primeiro beijo, os artistas são susceptíveis de diversas e desvairadas impressões.

É providencial, ás vezes! Se Garrett, já no declinar da vida, não fosse accommettido de nova leviandade, — se por tal a querem capitular — não teríamos esse livro delicioso, que se intitula "Folhas caídas" [...]

Depois da morte de Adelaide, succederam-se longos, inertes, e amargos dias para o poeta, que chorava sobre um tumulo, e velava sobre um berço! Uma vez, porém, embora [...]

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glorias esconder.


Revia-se a melancholia no rosto do consternado poeta:

Mas a orchestra bradou alta;
— Festa, festa! e salta, salta!

Os seus guizos delirantes
Sacode, louca, a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n'os ouvia?


D'alli a pouco, estava escripto que outra fascinação viria tomar-lhe a alma de assalto:

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira, sem cessar?
Como as roupas, leves, soltas,
Aerias leva a ondular,
Em torno á forma graciosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquilla se assentou.


Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha d'essa gente,
Como a levanta insolente !


Almeida Garrett, Pedro Augusto Guglielmi, 1844.
Imagem: Wikipédia

O risco é inevitável; a perdição está por um fio! (2)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Artigo relacionado:
Barca Bela


Referências externas:
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal
Obras de Almeida Garrett em archive.org
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

terça-feira, 3 de maio de 2016

A procissão de São João

Era costume antigo, supomos que remontando ao século XVI, organizar aquela confraria sediada na igreja de Sant'Iago, um solene procissão do santo da sua devoção que se dirigia à Ramalha (antiga Alvalade na tarde de 23 de Junho de cada ano, pernoitando a imagem alternadamente umas vezes no oratório de Santo Antão, outras vezes na Ermida de Nossa Senhora da Piedade, situada ali próximo na Quinta de Crastos, onde, segundo a tradição, está sepultada uma das filhas de El-Rei D. Dinis, regressando à vila de Almada na manhã do dia seguinte.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Já em 1730, a Mesa da Irmandade se recusara a organizar a procissão, alegando que o oratório ficava muito distante da vila. Esta atitude provocou insubordinação popular, argumentando João Vieira de Sã Ribeiro que a procissão de São João Baptista se realizava para a Ramalha desde tempos que não havia lembrança nos homens velhos do seu tempo, exigindo que se cumprisse o preceito religioso, pois desde que deixou de ter lugar, não deram as fazendas novidades, o que se reconhecia por castigo divino.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Apenas em 3 de Junho de 1734, o assunto fica parcialmente solucionado através de uma Provisão do Patriarca de Lisboa, D. Tomás I, na qual ordenava que "levem o santo à dita ermida na véspera do seu dia, e o tragam no dia, como de tempo imemorial se tem praticado, e mandamos que esta se cumpra como nela se contem".

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

A partir desse dia foi a população da Ramalha e de mais lugares vizinhos, que se encarregavam dessa tarefa e a procissão jamais deixou de se realizar ao longo dos últimos 266 anos. (1)


(1) Caparica News cf. Jornal da Região — Almada, 15 de novembro de 2000

Artigo relacionado:
Da Ramalhinha aos Crastos

domingo, 24 de abril de 2016

Barca Bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Costa da Caparica, Meia Lua, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Costa da Caparica, Almada, Passaporte,  53, Pôr de Sol e barcos pesqueiros.
Imagem: Delcampe

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

No areal da Costa da Caparica.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Costa da Caparica, Meia Lua, Artur Pastor.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador! (1)


(1) Almeida Garrett, Folhas caídas, 1853

sábado, 23 de abril de 2016

Pesca de dezembro

Os elegantes e esperançosos poetas da geração moderna, pouco depois da lucta civil de 1846, entregando-se quasi todos ás discussões áridas e rancorosas da politica militante, haviam desgraçadamente voltado as costas ao éden risonho da poesia; e apenas, de quando em quando, João de Lemos, Mendes Leal, Palmeirim, e poucos mais, davam signal de vida n'uma ou n'outra canção fugitiva.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Esta espécie de adormecimento litterario, em que vimos cair os primeiros engenhos, explica-se talvez pela influencia da epocha em que vivemos. A poesia respira-se no ar, como a fragrância das flores; e a atmosphera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das machinas de vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza [carta a Alexandre Herculano, 5 de maio de 1856]. (1)

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nunca tomou uma vereda por outra, nos numerosos pinhaes das nossas províncias do sul?

Quando, n'esses labyrinthos de columnas rugosas, percebemos que nem as ondulações do terreno, nem as curvas caprichosas das sendas, nem os verdes oásis dos brejos sâo nossos conhecidos, retrocedemos, sem hesitar, até atinarmos com o direito caminho. Este retroceder é progresso. O distraído, ou o que ignora d'onde vem ou para onde vae, é que continua a seguir avante. Só o insensato crê que caminhar sempre em frente é synonimo de progredir. A Paquita é o symbolo da poesia transviada, que retrocede da estrada por onde andava erradia.


A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Agradecida a offerta, permitta-me que lhe ralhe um pouco [...]

Pelo que dizem os entendidos, a ex-democracia temporária fomenta a democracia permanente. Os democratas barões, conselheiros, commendadores, chefes e sub-cbefes, de que se lembra, estão livres de ser Stilicons e Alarícos; mas imitam-n'os, como comportam as differenças do século XIX ao V: civilisam-se, apodrecem provisoriamente, aprendem a pisar com garbo as alfombras dos paços, reclinam-se com elegância nas poltronas das secretarias, penduram a heráldica ao pescoço do socialismo, cozinham nas fornalhas ministeríaes os curatos, as magistraturas, as escrivaninhas, as prebendas, as mitras, as comendas, as escolas; palmeiam nos theatros com luvas de irreprehensivel brancura; agitam-se nos bailes esplendidos, embriagam-se nas mesas opiparas, recuam com asco diante dos andrajos do plebeu, e retiram a mão afeminada da mão callosa do villão, que ousa estender-lh'a; — a erudição que mais os enleva é a genealogia. Sacrificam-se assim á democracia futura. De feito, Pedro, o obefe dos apóstolos, achou que havia conjuncturas em que se devia negar Christo. Esta gente é essencialmente evangelica.

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Se lhe repugna imital-os, meu amigo — espero em Deus que lhe repugne sempre — tome o conselho que lhe dou: guarde silencio. Tire o chapéu á dança judenga que passa: respeite a crença publica e o progresso que consistem em não crer e em não progredir seriamente em coisa nenhuma; respeite sobretudo os parvos e os velhacos, porque a doutrina da omnipotência das maiorias é ponto de fé constitucional.

A carta que me dirige tem um sabor acre, e não sei se revolucionário; queime-a, e queime esta. Não é por mim: é por si.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Publique a Paquita, mas sem prologo. Só assim lhe poderão perdoar ter a sua tentativa — poesia, naturalidade, e senso commum [resposta de Alexandre Herculano, 20 de maio de 1856]. (2)

A pesca de dezembro, a mais rendosa,
A força dos constantes agoaceiros
Falhou, e foi a quebra desastrosa!

Os mestres d'artes mais aventureiros
Não poderam romper de cara ao tempo
Que teve de peor os nevoeiros!

Costa da Caparica, pescadores, Furtado & Reis.
Imagem: Delcampe

Alar! Lá vem a rede salvadora:
As mulheres, nos médos, mãos erguidas,
Em prantos, a invocar Nossa Senhora.

Não tem de receiar perda de vidas;
Mas se o sacco não pode com o peixe,
Que enormes perdas se darão agora!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ganhou a praia a mole reluzente,
Sem ter nem leve sombra de avaria;
No rude vozear d'aquella gente,

Que expansão de enthusiastica alegria!
Viva, saltando sobre a areia flava.
Chega a todos a argêntea pescaria!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ao soar da buzina, dos casaes
Partem bestas de carga a toda a brida,
Guisalhando atravez d'esses juncaes.

Os cabazeiros, na afanosa lida,
Avergados e a passo de balança,
Jogam-se ao Monte, a governar a vida! (3)


(1) Bulhão Pato, Paquita, Poema em XVI cantos, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894
(2) Idem
(3) Idem, ibidem,