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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Almada em 1760

Lançando hontem á noite os olhos, por acaso, sobre um livro portuguez, e vendo o frontispicio que fora impresso em Lisboa occidental, perguntei o que significava aquelle "occidental", e responderam-me que esta Lisboa aqui, situada na margem direita do Tejo, é assim chamada, para se distinguir de outra Lisboa, que está do outro lado do rio, à qual as escripiores portuguezes dão a denominação de oriental 

Vue de l’entrée d’un port animé, Alexandre Jean Noel (1752-1834).
Cappriccio Lisbonne, la tour de Belem.
De Baecque

[o erro em que, de certo, involuntariamente cahiu aqui o estimavel auctor das Cartas Familiares encontra facil correcção nas breves palavras que da Mappa de Portugal 5.ª parte, cap II, pag. 247 de João Baptista de Castro, transcrevemos em seguida: "Querendo o fidelissimo rei D. João V promover e exaltar com ardentissimo zelo o maior culto de Deus e o esplendor da sua egreja, impetrou do summo pontifice Clemente XI a bulla aurea, que começa: In supremo apostolatas solio, expedida nos 7 de novembro de 1716, pela qual fiz erigir na conllegial insigne da real capella uma cathedral metropolitana e patriarchal, dividindo para este effeito a cidade de Lisboa, e seu arcebispado em duas metropeles, com territorios distinctos, ficando os que pertencem à linha devisoria da parte do nascente sujeitos ao prelado de Lisboa Oriental, e os que olhavam para o poente ao patriarcha de Lisboa Occidental..."]

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Biblioteca Nacional de Portugal

e accrescentaram que "in dirbus illis" a cidade era toda para além do Tejo; mas que, com o decorrer dos annos, se descobriu ser mais commodo habitar da parte de cá, de sorte que a pouco e pouco se fez esta grande Lisboa, que antes de destruida pelo terremoto devia ser uma cousa estupenda, e a antiga Lisboa do lado de lá a pouco e pouco se reduziu a quasi nada.

Este "quasi" quiz eu ver logo; por isso esta manhã aluguei ás horas um bote de dois remos, e em menos de uma hora lá me achei. Ambas as margens deste rio são, pela maior parte, altas e penhascosas, mas a oriental ou esquerda especialmente, é toda ella uma collina mais alta que a nossa dos Capuchinos [colina próximo de Turim, assim chamada por causa de um convento de frades d'aquella ordem, que tem no cimo]; e a subida é tão difficil e aspera que faz suar a medulla dos ossos, quando o sol queima, como fez todo o dia de hoje.

Almada, brasão de armas no anno de 1760.

Mas, meus irmãos, bem sabeis que a curiosidade me faria andar descalço sobre espinhos, quanto mais ao sol. O certo é que, desta vez, a curiosidade teve pouco pasto, porque aquella Lisboasinha não contem senão dois logaritos de nenhuma importancia, um chamado Almada, outro Cacilhas [no texto vem "Castiglio"].

Em Cacilhas nada vi de notavel, a não serem os pouquissimos restos de um pequeno forte situado sobre urna eminencia bastante alta, e que de certo, não custou muito ao terremoto demolir.

Em Almada visitei um pequeno convento de dominicos, chamado de S. Pauto, cujas paredes interiores são forradas de azulejos muito luzentes, que só de os ver refrescam a gente. Este convento já não tem egreja, porque abateu de uma vez com o terremoto, ficando esmagado um frade que estava celebrando missa, e bem assim todas as pessoas que se achavam na egreja, sem escapar uma só.

E o padre que me acompanhava nesta visita disse me que debaixo das ruias foram depois tirados os cadaveres de mais de cincoenta mulheres, todos aos pedaços, sem contar os homens, que não chegavam a vinte, cousa digna de todo o credito. porque em toda a parte os homens são muito menos inclinados ã devoção, e cuidam muito menos da salvação da sua alma do que as mulheres. 

Nós, os homens, podemos dizer o que quizermos; mas, por bondade de animo e por virtude, reunidas, as mulheres approximam-se tanto do caracter dos anjos, quanto os homens se avisinham ao de certos senhores de pontas, de garras e de cauda, que por delicadeza, não quero aqui nomear.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII (detalhe).
Museu de Lisboa

Não é porque eu ignore que no mundo existem mulheres de caracter iniquissimo, as quaes por soberba, avareza ou luxuria poriam fogo por assim dizer a um sanctuario, e muitas hei conhecido que, para enganarem o proximo, ainda que sem grande proveito proprio, teriam deitado a barra adeante d'aquelle que entrou na serpente para enganar a mãe de genero humano; mas, pelo amor de Deus não me obrigueis, meus senhores, a entrar a dizer a verdade, e a pôr a calva á mostra aos homens, pois que, por um bom ou mediocre que me deis, eu vos apresentarei logo dez mulheres.

E notae que, por uma que corrompa a mente de um homem, cem mulheres são corrompidas por um só destes traidores, o qual, tingindo atfficção e desesperação mortal por amor invencivel, faz emfim tanto com o auxilio do diabo, que desperta immensa piedade no coração credulo e compassivo de uma innocente e digna creatura feminina, e d'ella se torna senhor absoluto primeiro que a misera e mesquinha caia em si de ter sido vencida pela sua natural bondade e ternura mais que pelo seu appetite e concupiscencia.

Por isso, minhas senhoras, podeis estar certas, e recordae-vos sempre de que o maior inimigo que tendes é a vossa mesma bondade, que vos faz obrar a maior parte dos despropositos que fazeis, os quaes despropositos, para vosso maior pesar, e para vossa maior vergonha, são quasi sempre praticados a favor de um ingratíssimo patife, que, quando de vós houve o que desejava, vos despreza, vitupera e aborrece, ou vos trata deshumana e cruelmente, apenas vos entregastes a elle sem nenhuma reserva.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Museu de Lisboa

— Mas, volte-mos a Lisboa oriental. O desmoronamento da egreja de Almada tornou aquelle logar pobrissimo de habitantes. O convento não fez companhia á egreja, pois ficou de pé, de maneira que nenhum dos frades morreu, excepto o que referi, e um leigo.

Das janellas desse pequeno convento se desfructam as mais bellas vistas do mundo, porque de uma parte se avista toda Lisboa, e Belem, o rio, o mar, infinitas embarcações, differentes castellos e fortalezas, que defendem a foz do Tejo, e da outra lindissimas collinas verdejantes e bem cultivadas; por maneira que este, quanto a mim. e um panorama muito superior ao famoso promontorioo, em que já vos fallei, o monte Edgecumbe, perto de Plymouth, em Inglaterra.

Satisfeita a minha curiosidade pelo que respeita a Lisboa oriental, desci a collina, voltei ao bote, e mandei aproar ao hospital dos inglezes, que tira do mesmo lado do rio, para baixo, para a banda do mar; mas não vi lá cousa nenhuma que parecesse extraordinario, excepto um medico já velho do hospital, um urso, que, tendo recebido aos setenta annos uma rapariga de dezoito, tornou-se, apesar de inglez, tão bestialmente ciumento, que se poz a olhar muito para mim de soslaio, quando viu que me dirigia para o jardim do hospital, porque sua mulher alli estava n'aquelle momento colhendo figos e uvas para o jantar.

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

Contudo, mesmo nas suas bochechas, fui entrando, sem lazer reparo na sua mulhersinha, porque não tenho prazer nenhum em causar aborrecimento a outra pessoa; e antes tenho dó dos velhos, que estão no caso d'aquelle senhor doutor, reflectindo que talvez haveria mister da compaixão dos outros n'aquella edade, se lá chegar, e se então perder o juizo, como succedeu ao pobre homem.

Não creio que a ternura do coração e o amor ao sexo feminino se apartem jámais dos homens educados, se Deus os não ajudar com uma graça especial, e lhes não apagar da fantasia a esperança do supremo contentamento que é produzida pela idéa incessante da posse completa da belleza feminil.

E é por isso que os homens de educação devem, especialmente quando são solteiros ou viuvos, arreceiar-se sempre de cair na rede em que o referido doutor cahiu; porque um quarto de hora de violenta agitação do pensamento é muitas vezes bastante para vencer toda a prudencia humana e todas as resoluções mais fortes de um homem considerado circumspecto, e leva-o a praticar um erro grande que precisa de ser sustentado depois com outros muitos erros; e talvez fosse este exactamente o caso do meu pobre velho doutor do hospital inglez donde voltei, rio acima, para casa de um irlandez que negoceia em vinhos por grosso, esperando induzil-o, com dinheiro ou com boas palavras, a dar-me algum por miudo, tendo com effeito tanta necessidade d'elle como os meus catraeiros.

E foi uma felicidade que aquele senhor negociante de vinhos que se chama O'Neal, usasse para commigo de tanta cortezia quanta vilania tinha praticado o velho doutor da tal mulher nova, o qual apenas quiz consentir que eu depenicasse um cacho das suas vinhas, que todavia estavam carregadíssimas d'elles.

Retrato de Giuseppe Baretti (1719-1789) por Joshua Reynolds.
Wikipedia

Deu-me com liberalidade o sr. O'Neal a beber quanto eu quiz, e fez-me provar mais qualidades de vinhos muito estimados, e aos meus suados barqueiros deu tambem um garrafão, pondo ainda dificuldade em deixar metter algum dinheiro no bolso de um seu pequeno.

Aquelle cavalheiro tem a sua casa protegida do rio por uma espécie de molhe construido de grossos penedos, e, tendo eu subido a esse molhe, recreei-me de ver dois escravos da Guiné, mais pretos do que pez nadarem no rio, e darem viravoltas e saltos na agua, e mergulhos, que era um regalo vel-os; e, a troco de alguns cobres que lhes dei, armaram uma dança sobre as ondas, cantando á sua moda, ora mergulhando, ora pulando de todo no ar. de modo tão assombroso, que seria mais facil agarrar uma enguia pelo rabo. 

Da canção do baile, que me cantaram em lingoa africana só comprehendi que era uma rima, nem mais nem menos do que a de Lourenço de Medicis e do Policiano.

Alguns modernos inimigos da rima teem dito e continuam a dizer que essa futilidade foi inventada pelos frades nos seculos barbaros, e em apoio da sua opinião citam os versos leoninos; mas eu achei que os americanos do Mexico e de outras partes do novo mundo usavam das rimas antes do nascimento de Christovam Colombo, e é claro que faziam uso d'ellas por serem proprias da poesia, fosse esta o que fosse, boa ou má.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

E pela mesma razão os mouros da Guiné, e provavelmente de toda a Africa. empregam a rima em todas as suas poesias, sem haverem tido por mestres os inventores do verso leonino. Custa-me bastante não saber musica para apanhar as poucas e solemnes notas d'aquella canção africana; e quando figuei satisfeito, voltei a prôa para Belem, e fui visitar o convento dos Jeronvmos. (1)

Lisboa, 5 de setembro de 1760

Cartas Familiares de José [Giuseppe] Baretti, traduzidas do italiano [por Alberto Telles], VII


(1) Occidente n.° 625, 5 de maio de 1896.

Artigos relacionados:
Mappa de Portugal antigo e moderno
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura relacionada:
Francisco de Almeida Mascarenhas, Codex titulorum S. patriarchalis ecclesiae Lisbonensis... 1746
Pe. João Baptista de Castro, Mappa de Portugal antigo e moderno, Lisboa, Off. de Francisco Luiz Ameno, 1762-1763

Informação relacionada:
Lugares de Almada: Da Fonte da Pipa à Arialva, passando pelo Olho de Boi

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (8.ª parte)

Na segunda metade do século XVIII quatro factos em Lisboa atraíram a atenção de artistas, para assunto das suas estampas. Foram eles:

Aqueduto das águas livres, vista a montante dos arcos, século XIX.
Imagem: Turismo Matemático

a) — "O Aqueduto das Águas Livres". Esta obra deu origem a uma gravura em cobre, de autor desconhecido, que representa a "Exzata Copia da formatura dos Arcos da Agua Livre", e a outras.

Aqueduto das águas livres, ponte e ribeira de Alcântara, século XIX.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

b) — "A Catástrofe do Terremoto do Primeiro de Novembro de 1755" impressionou consideravelmente a imaginação de muitos artistas estrangeiros, que gravaram grande número de estampas, alegóricas umas, e outras representando a cidade durante o cataclismo, as quais foram decalcadas sobre vistas panorâmicas já conhecidas, em que os diferentes artistas representaram os edifícios a desconjuntarem-se e a desmoronarem-se, com o fogo a irromper por todos os lados.

Lisboa antes do terramoto de 1755 - exibido no Museu Nacional de Arte Antiga from Lisbon Pre 1755 Earthquake on Vimeo.

Todas essas vistas dão bem a medida da fecunda imaginação e fantasia dos seus autores!

Lisboa 1755, fantasia de antes e durante o terremoto, Mateus Sautter.
Imagem: Histórias com História

Apenas dois desenhadores franceses, Paris e Pedegache, vieram a esta cidade copiar "algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do anno 1755", que foram gravadas em Paris por Jac. Ph. Le Bas em 1757.

Ruínas da Torre de S Roque ou Torre do Patriarca, Sé de Lisboa e Igreja de S. Paulo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É uma colecção de 6 gravuras. Com o respectivo frontispício, que mostram bastante fantasiosamente o estado a que ficaram reduzidos seis edifícios da cidade por efeito daquele cataclismo.

Ruínas da Praça da Patriarcal, Igreja de S. Nicolau e Ópera do Tejo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões


Além desta colecção de Le Bas, um musico de Augsburgo, Johan Michael Roth, coligiu as matrizes de cobre, e editou uma obra: "Augsburgische Sammlung derer wegen des höchstbetrübten Untergangs der Stadt Lissabon", etc. que contém, além de varios mapas e vistas das cidades de Portugal, Espanha e outras, algumas gravuras que haviam sido publicadas sobre o terremoto de 1755, sucedido em Lisboa e noutras terras.

Lisboa, Terremoto de 1755, ex voto dedicado a Nossa Senhora da Estrela.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

A medalhística também foi enriquecida com algumas medalhas cunhadas com vistas em baixo relevo da cidade a desmoronar e a incendiar-se durante o terremoto.

Apenas um artista português é que, sobre o terremoto de Lisboa, produziu uma vista iconográfica: consiste ela num quadro a óleo, devido ao pincel de João Armando Glama Ströberle, e representa uma cena de desolação junto às ruinas da desaparecida Igreja de Santa Catarina. Está no Museu de Arte Antiga.

Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Imagem: Wikipédia

Quanto ao terremoto de 1755, e à descrição dos lugares e estragos por ele provocados, mencionaremos a Panorâmica de Lisboa em 1763 de Bernardo de Caula, conforme abordagem que fizemos em janeiro de 2015.

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

c) — "O atentado contra D. José e a Execução dos indigitados criminosos" foi objecto de várias gravuras em cobre, nacionais e estrangeiras.

"Desta forma morreram justiçados...", retrato simbólico do acto da execução dos Távoras.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

d) — O "Monumento de D. José e a Praça do Comércio", onde ele foi erigido, também desde antes da sua inauguração serviram de assunto para gravadores.

Alçado lateral do projecto da estátua equestre de D. José I.
Eugénio dos Santos e Carvalho.
Imagem: ComJeitoeArte

A primeira gravura do monumento foi aberta em cobre para uma estampa não assinada, que serviu de modelo para o desenho estampado nos aparelhos de louça que o Marquês de Pombal mandou fazer na China para servirem no banquete que se efectuou por ocasião da inauguração do monumento.

Pouco depois foram gravadas duas estampas da Praça com o Monumento, devidas ao buril de Gaspar Fróis Machado, que foram reproduzidas por artistas anónimos no mesmo século.

Praça do Comércio, projecto Eugénio dos Santos, gravura de Fróis Machado (?), século XVIII, reprodução anacrónica.
Imagem: Bic Laranja

A Joaquim Carneiro da Silva se deve uma gravura da "Estátua Equestre de D. José", depois reproduzida, em menor escala, por Gaspar Fróis Machado, que também gravou uma "Vista da Torre de Belém, P.° Lx.a" em 1783.

Em 1767 foi pintado pelos pintores franceses L. Michel Vanloo e C. Joseph Vernet um quadro a óleo, comemorativo dos principais actos da administração do Marquês de Pombal, com o retrato do mesmo.

Marquês de Pombal, Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1767.
Imagem: Oeiras com História

Esta excelente pintura esteve no palácio dos Marqueses de Pombal em Oeiras, e acha-se hoje numa sala da Câmara Municipal da mesma vila.

Foi objecto de uma gravura de J. Beauvarlet, sobre desenho de A. J. Padrão e J. S. Carpinetti., em 1767, mais tarde reproduzida em vários formatos e por quase todos os processos conhecidos.

Nesta segunda metade do século ainda a maioria dos artistas que tomaram a cidade de Lisboa ou os seus edifícios para assunto dos seus trabalhos eram estrangeiros, e pouco mais de meia dúzia de nomes de nacionais se podem mencionar.

No último quartel do século XVIII, ainda como consequência do impulso dado pelo Marquês de Pombal a todos os ramos de ensino, originou-se em Portugal uma nova renascença artística.

Do estrangeiro vieram artistas arquitectos, escultores, gravadores; artistas portugueses foram estudar a Itália; e deste intercâmbio resultou uma maravilhosa criação de artistas nacionais.

Os pintores Domingos António de Sequeira (1768-1837), Francisco Vieira Portuense (1765-1805) e João Glama Ströberle (1708-1792) [v. acima], os gravadores Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), Gaspar Fróis Machado (1759-1796) e Francisco Vieira Lusitano, o arquitecto José da Costa e Silva, os escultores Joaquim Machado de Castro e João José de Aguiar, e tantos outros, podem pôr-se em confronto com os melhores que havia no estrangeiro.

Sopa de Arroios, população portuguesa deslocada durante a Guerra Peninsular, 1813,
des. Domingos António de Sequeira,  grav. Gregório Francisco de Queiroz.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A estes artistas devemos acrescentar o nome de Francesco Bartolozzi [1728-1815], que gravou em cobre uma estampa alusiva ao epicurismo, tendo ao fundo o Aqueduto das Águas Livres. No século XIX há outras estampas deste artista sobre assuntos olisiponenses.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No que respeita, porém, a estampas de Lisboa, poucas, mas excelentes, se produziram no final do referido século, tanto nacionais como estrangeiras. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Panorâmica de Lisboa em 1763

Esta panorâmica, representando a capital lusitana oito anos após o terramoto de 1755, é dedicada a Carlos Alberto Guilherme de Colson, conselheiro da corte do Conde de Lippe [...]

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa,  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A cidade aqui representada estende-se desde a Torre do Bugio até ao Palácio do Patriarca [Palácio da Mitra] e evidencia as marcas de destruição deixadas pelo terramoto [...]

O seu autor, Bernardo de Caula, de origem francesa, ingressou no exército português, como primeiro-tenente da Companhia de Mineiros e Sapadores do Regimento de Artilharia de Lagos, em 7 de Novembro de 1763. Nesse ano terminara a campanha militar — que decorreu de 30 de Abril de 1762 a 10 de Fevereiro de 1763 — como consequência do Pacto de Família (celebrado entre os soberanos de França, Espanha e Nápoles, todos pertencentes à família Bourbon) que pretendia forçar Portugal a fechar os seus portos a navios ingleses.

Nesse conflito, o Exército português foi dirigido pelo Conde de Schaumbourg-Lippe, nomeado seu comandante-chefe com a patente de Marechal General, o qual permaneceria em Portugal até 20 de Setembro de 1764. (1) 

1 Torre de Bogio
2 Torre de sam Julian da Barra
3 Carcavellas
4 Forte S.to Amaro
105 Grande Caxope da Barra

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 1/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

  5 Forte S. João da Mayo
6 Villa e Condado de Oeyras
7 Paço d'Arcos
8 Forte de Caxias
9 Caxias e os Cartuchos

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 2/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 10 N.a S.a de Boa Viagem
11 Ponte de S.ta Catharina
12 Convento de S.ta Catharina
13 Forte arruinado de S. Jozé
14 Convento de Sam Jozé

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 3/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 15 Quinta de Dom Luiz de Portugal
16 Forte d'Argels
17 Gurita do Duque de Cadaval
18 Aldeia d'Argels
19 Quinta do Duque de Cadaval
20 Cazas do lettrado
21 Pedrooza
22 Cazas de Dona inés

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 4/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 23 Quinta velha do Conde S'Jago
— occupada pelo Conde R. de la Lippe
24 Caza da Saude
25 Torre de Belem
26 Ermida de S.o Jeronimo
27 Cazas do Marques de Tancos
28 Bom Socefso
29 Cazas do Conde Barão
30 Cazas do Marques de Marialva
31 Convento de Belem
32 Alculena
33 N.a S.ra do livramento
34 Paço Real de N.a S.ra da Ajuda
35 Calçada da Ajuda e Cazas do Conde D'oeyras

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 5/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 36 Cazas da Duqueza d'Abrantes
37 N.a S.ra da Boa Hora
38 Villa de Belem
39 quais de Belem e Paço Real
40 Quinta Real de Belem
41 Cazas de Descanfo da tapada
42 Cazas de Gaspar D de Saldanha
43 Cazas e Pateo D de Saldanha
44 Junqueira e q.ta da Condeça da Ega
45 Forte da Junqueira
46 Palacio do Cardeal Patriarcha
47 Sam Amaro
48 Quinta do Conde Daponte
49 N.a S.ra de Bona morte
50 Q.ta e Palacio das necefsidades

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 6/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 51 O Con.to do livramento
52 arrebaldo e Porta d'alcantara
53 Buenas Ayres
54 Pampouilla e S. F.a de Paula
55 Jannellas verdas
56 N.a S.ra da Lapaz
57 N.a S.ra dos Navegantes
58 As Tercenas B.ro do Mocambo
59 Fraiguezia de Santos
60 os Barbadinhos francezes
61 os apostolos Caza da aula
62 Bazilica Patriarchal
63 Bairro Alto e os Paulistas
64 Fraiguezia de Sta Catharina
65 Bairro da Bica Grande e as xagas
66 Cazas da India
67 quais de Boa vista
68 Fraiguezia de Sam Roque
69 N.a S.ra de Loretta dos italianos
70 Fraiguezia de N.a S.ra da anunciada
71 Palacio de Bragança
72 Fraiguezia do Corpus Satus
73 Convento da Trinidade

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 7/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 74 Convento S Francisco da Cidade
75 Convento dos Carmos
76 Ruinas e Convento do Spiritu Santo e do paço Real
77 Arcenal Novo
78 Rocio e Collegio S. Antão
79 Convento de N.a S.ra da Graça
80 Castel Sam George
81 Cazas do Marques de Tancos
82 Fraiguezia de Sta Moniqua
83 See velha e S antonio
84 Terreiro do Paço
85 Cazas da ribeira e Ruinas da misericodia
86 Ribeira do peixe
87 Convento de S. vicente De fora
88 Cazas do Marques de lavradio e Sta Ingracia
89 Alfandega
90 Aercenal da fondiçam
91 Campo Santa Clara
92 Quais dos Soldados
93 Convento dos barbadinhos italianos

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 8/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

94 Convento da S.ta appolonia
95 Convento de Santos novo
96 Porta do arrebaldo da madre de Deos
97 N.a S.ra da madre de Deos
98 Cazas do Conde de unhão
99 S Francisco de Xabregas
100 Convento dos Grelos
101 Convento do Beat antonio
102 Palacio do Patriarcha
103 Campo dos olivaes
104 Rio Tejo

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 9/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Biblioteca Nacional de Portugal