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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Hollanda

Scheveningue [Scheveningen] é uma das principaes estações da pesca riquíssima do harenque. Mas em Scheveningen, e nas demais aldeias marítimas na Hollanda, assim como na Povoa e na costa da Caparica em Portugal, são os proprietários dos barcos e das redes que empolgam o melhor dos lucros, e o pescador propriamente dito é vilmente explorado pelo empreiteiro.

Scheveningen, cromolitografia, c. 1900.
Imagem: Wikimedia

O bairro dos indígenas é quasi tão pobre, em Scheveningen, a duas milhas da Haya, como na Trafaria em frente de Lisboa. A população tem porém aqui um caracter mais grave, uma apparencia mais austera, porque os homens são verdadeiramente navegadores e não catraeiros como na bacia do Tejo.

Scheveningen. Secagem de solhas, aguarela, Vincent van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

Quando chega a estação da pesca, no principio de junho, os de Scheveningen partem para o largo, até os mares da Escossia, n'uma flotilha de solidas embarcações cobertas, largas, de um só mastro, com uma vela quadrada, protegidas por uma corveta de guerra, que as acompanha, representando o governo neerlandez na policia do mar.

Scheveningen. Despedida do pescador, pai e marido, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: paintings old masters blog

Os harenques pescados vêem em cada dia para Scheveningen, com o demais peixe da costa vendido na praia em leilão, mas a grande companha de pescadores do alto não regressa senão quando a faina termina aos vendavaes do outomno.

Scheveningen. Partida dos pescadores para o mar, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Esses homens tão valorosos, tão simples, tão despremiados, tão pobres, sabem todos ler e escrever. Levam comsigo, ao partir, uma biblia, que lêem em grupo no convez ás horas da folga, e não bebem senão agua emquanto permanecem a bordo.

Scheveningen. Barcos de peca nas vagas, Hendrik Willem Mesdag,  (1831-1915).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Quando a tempestade rebenta, e depois de grande luta elles se convencem de que não podem dominar a inclemência do mar, fecham as escotilhas, e immoveis na pequena camara, silenciosos, de mãos debaixo dos braços, esperam heroicamente a morte, ao mesmo tempo que em terra, ao abrigo das dunas em que escachôa o mar, como por traz das trincheiras de uma bateria bombardeada, nas cabanas sacudidas pelo tufão, junto do lar querido, n'um aceio religioso de altar, as mulheres pallidas de terror, cantam os psalmos.

Praia de Scheveningen durante um tempo tempestuoso, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikipedia

Em todo o tempo da pesca ninguém vê em terra um só homem valido.

As ruas da aldeia, bem differentemente das aldeias da beira-mar em Portugal, são tão escrupulosamente aceiadas como o tombadilho de um navio de recreio. Nem a pilha de estrume, nem o lixo esparso debicado pelas galinhas ao sol, nem a camada que sobeja do isco dos anzoes a fermentar na areia, nem as creanças sujas por vestir e por assoar, nem os peixes escalados presos com três pregos ás portas escancaradas.

A aldeia de Scheveningen, Hendrik Willem Mesdag, 1873.
Imagem: Geheugen van Nederland

Todas as casas de Scheveningen estão fechadas ê reluzem pintadas de novo. Atada ás janellas alveja a cortina de cassa, e poisa no peitoril um vaso de flores.

Os pequenos ou vão para a escola ou vêem da escola, e trazem debaixo do braço a sua lousa.

Branquear a roupa em Scheveningen, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

As casas de cada escola distinguem-se das demais pelo montão dos tamancos que os alumnos de um e de outro sexo descalçam á porta. Esta ceremonia não os arrefece consideravelmente porque a escola é confortavelmente aquecida nos mezes de inverno, e as grossas meias de lã dos alumnos teem a consistência de sapatos.

Praia de Scheveningen, Johannes Joseph Destrée, 1871.
Imagem: Wikimedia

As mulheres vendedoras de peixe usam a saia curta, uma romeira cinzenta e um amplo chapéu que as abriga do sol e da neve e que ellas carregam sobre os olhos quando no tempo da neve partem em patins sobre os canaes gelados, com uma velocidade vertiginosa, de quatro léguas por hora.

Scheveningen. Pontão rainha Guilhermina, 1908.
Imagem: writer's block

A população dos banhistas habita quasi toda sobre as dunas, á beira d'água, no Hotel Belleville, no Hotel Ganil, no Hotel des Bains, ou em pequenas villas pittorescamente dispersas pela cordilheira em miniatura, formada pelas successivas serras de areia adhefida pela vegetação e plantada de urzes e de giestas salpicadas pelas escabiosas selvagens, conhecidas em Portugal pelo nome de saudades do campo.

Cavaleiros na praia de Scheveningen, Anton Mauve (primo de Vincent van Gogh), 1876.
Imagem: Rijksmuseum

Nada mais risonho nos dias de verão, sob a luz dourada do sol descoberto e do céu azul, do que o aspecto matinal, á hora do banho, d'esta immensa praia de areia finissima, sem pedras, sem conchas, semelhante á da costa portugueza no espaço que medeia entre o Cabo de Espichel e a Torre do Bugio. (1)


(1) Ramalho Ortigão, A Hollanda, Porto, Magalhães & Moniz, 1885

Imagens adicionais:
Scheveningen Toen en Nu

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Passagem pelo grupo do Leão

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe [hoje 1° de Dezembro], onde ás noites iam cavaquear e beber cerveja, artistas n'elle incorporados, e o seu advento nas exposições do Commercio de Portugal é trepidação de um hausto novo na maneira portugueza de pintar.

Cervejaria Leão de Ouro, 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: Wikipédia

Annos depois de organisado o grupo do Leão, bolorencias inherentes à natureza pantanosa d'este género de sociedades, levaram alguns artistas a se separarem d'elle, e a incorporarem-se-lhe outros, e a nova confraria a alargar-se num programma mais íngreme de letras e artes, com saraus, banquetes, exposições e regalos, que, pela vida periclitante da nova milí­cia, intitulada Grémio Artístico, não chegaram a cabal execução, à parte as exposições, decaídas, que o profissional hoje evita, e que a invasão do furioso amador quasi tornou fastidiosas. (1)

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

[Manuel Henrique Pinto] Pintor do Naturalismo. Com Malhoa descobre o "Figueiró das Cores", com ele inicia a dita "odisseia rústica". Nascido em Cacilhas a 15 de Março de 1853. Cursou a Academia de Lisboa, onde foi discípulo de J. G. Prieto, Tomás da Anunciação e Simões de Almeida. Expõe pela primeira vez na 10ª Exposição da Sociedade Promotora (1874) três Paysagens tiradas da outra banda. (2)

Antelmo — Alfeite, Manuel Henrique Pinto, 1882.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook

Corroios, Manuel Henrique Pinto, finais do século XIX.

[João Vaz] Nasceu em Setúbal, a 9 de Março de 1859. De 1872 a 1878 frequentou a Real Academia de Belas Artes de Lisboa, onde foi aluno de Tomaz de Anunciação. Acabado o curso, e não tendo arranjado pensão para estudar no estrangeiro, fez uma viagem por França e Espanha, na companhia de António Ramalho. (3)

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

[José Malhoa] Nasceu nas Caldas da Rainha a 28 de Abril de 1855. Foi estudar para Lisboa aos 8 anos e aos 12 entrou na Real Academia de Belas Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Lupi, Prieto, Vítor Bastos e Anunciação. Obtendo no fim de todos os anos o 1º prémio, conclui o curso em 75. (4)

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat


(1) Arthur, Ribeiro, Arte e artistas contemporaneos, Illustrações de Casanova & Ramalho, Pref. de Fialho de Almeida, 1896, Livraria Ferin, Lisboa.
(2) MatrizNet
(3) Idem
(4) Idem, ibidem

Leitura relacionada:
do Porto e não só: Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (I parte)
Artistas e Espacos de Sociabilidade no século XIX — O Leão d'Ouro e a Génese do Naturalismo na Pintura Portuguesa 1885-1905
Aça, Zacarias d', Lisboa moderna , 1906, Tavares Cardoso, Lisboa.