sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Chafariz de Cacilhas

A camara municipal de Almada acaba de levar a effeito um grande melhoramento no logar de Cacilhas, qual o da construcção de um chafariz, cujo desenho apresenta hoje a nossa estampa.

Chafariz de Cacilhas, inaugurado em 1 novembro 1874.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Esta obra reclamada, havia muito, não só pelos moradores d'aquelle logar, mas tambem por innumeras familias, que frequentam Cacilhas na estação calmosa, tornava-so da maior necessidade, attendendo a difficuldade que havia, de obter agua n'aquella povoação.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Cabe ao illustre presidente da actual vereação d'aquelle concelho, o sr. Bernardo Francisco da Costa, homem de genio e acção, bem conhecido já, quer na imprensa pelas suas publicações litterarias, quer na tribuna como deputado a gloria da realisação de tão util trabalho, que constitue o maior brazão da administração municipal d'aquelle cavalheiro.

Chafariz de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Nao foram poucos os dissabores por que passou o sr. Costa, desde que planeou semelhante obra até que a levou ao fim, mas indo hoje inaugural-a, grande deve ser a sua satisfação.

Bernardo Francisco Henriques da Costa (1821 - 1896)

O fundador da mais antiga empresa industrial em Goa [Costa & Cia.] foi um intelectual notável, Bernardo Francisco da Costa, por sua vez, filho de outro famoso goês, Constâncio Roque da Costa, de Margão, representante eleito do Estado Português da Índia às Cortes de Lisboa.

Bernardo Francisco da Costa.
Imagem: GeneAll

Bernardo nasceu no dia 12 de fevereiro de 1821 em Margão, e de acordo com o estilo de vida dos pais cresceu num ambiente totalmente ocidental (português), concluindo os seus estudos portugueses, incluindo Direito, em Goa. Era um forte e talentoso orador, aclamado pelo povo de Goa como potencial defensor dos seus direitos, se fosse eleito para representar India portuguesa nas Cortes. Foi muito apreciado, não só pela sua mestria no discurso e oratória em português, mas também, pela profundidade do seu pensamento e aprendizagem.

Enquanto esteve em Portugal ele assumiu os estudos superiores de física e química e, depois de regressar a Goa, foi nomeado professor da Escola Médica de Panjim. Infelizmente, um desentendimento com o Governador Geral de Goa resultou em sua demissão, e Bernardo Francisco da Costa voltou a Portugal, onde, no concelho de Almada, exerceu por quatro anos as funções de presidente da Câmara Municipal, Administrador Distrital e Juiz.

Durante seu mandato, em Almada, foi o responsável por efetuar muitas melhorias tanto assim que o povo de Almada o queria para seu representante às Cortes. A homenagem que lhe foi feita em Almada, típica do pensamento da época, dizia: "Ele, um fruto da semente semeada em Goa por Afonso de Albuquerque no século XVI, está agora a oferecer benefícios à pátria." [...]


in Vaz, J. Clemente, Profiles of Eminent Goans Past and Present, New Delhi, Concept Publishing Co., 1997

O capital empregado n'este melhoramento é aproximadamente de 3:500$000 réis, comprehendendo-se n'esta verba o custo da agua, na importancia de 2:000$000 reis.

Foi engenheiro director de este trabalho o sr. Carlos Agostinho da Costa, moço estudioso e applicado, e que as suas boas qualidades tem grangeado as sym- thnas de todos que o conhecem. Cabe-lhe portanto a qlória de ter contribuido com o seu trabalho para o engrandecimento da terra que o viu nascer.

Cacilhas, Almada, Largo Costa Pinto, ed. José Pinto Gonçalves, década de 1920.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em 23 de maio foi o sr. engenheiro incumbido pela camara de Almada de delinear um projecto para o abastecimento de aguas em Cacilhas. Em 3 de junho apresentou o mesmo senhor nm projecto acompanhado de um excellente relatorio, documentos estes que foram presentes ao conselho e districto, o qual os approvou em julho seguinte.

Approvado o projecto, tratou-se de ajustar com o proprietario da nascente a compra da agua.

Chafariz de Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Em 10 de agosto ultimo deu-se o principio da obra, e logo no dia 13 se assentou a primeira pedra para os alicerces do chafariz. No dia 17 começaram as obras do encanamento, que ficou concluido no dia 12 de setembro, até ao reservatorlo, onde a agua chegou ás 6 horas da tarde do mesmo dia. No dia 28 de outubro experimentou-se todo o encanamento, e valvulas, conhecendo-so estar tudo nas melhores condições.

A agua é excellente como toda a do Ginjal. A sua quantidade é de 25,18 em 24 horas. A differença do nivel é de 2,33, o que dá uma inclinação do 0,00236 por metro corrente. Esta nascente provém de uma mina aberta em terreno de Theotonio Pereira, pertencente aos herdeiros de Raymundo José Caparica, que possuem a propriedade denominada Pateo da Parreirinha.

Chafariz de Cacilhas, Artur Leitão Bárcia, fotografia anterior a 1945.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Segundo as condições do contracto a camara cedeu ao proprietario 5,0 por dia. A nascente dista 574,0 do local do chafariz. O chafariz fornecerá 25m,0 em 24 horas a cada um dos mil habitantes de Cacilhas. Este povo tinha de ir buscar a agua á Fonte da Pipa, á distancia e 1500 metros.

Repetimos. O melhoramento é importantissimo. No dia em que todas as camaras do reino souberem e quizerem cuidar assim dos interesses e das necessidades mais imperiosas dos seus constituintes, o paiz se transformará como que por encanto. (1)


(1) Chafariz de Cacilhas, Diario Illustrado, 1 de novembro de 1874

1 comentário:

NINJA1200 disse...

Obrigado pela valiosa informação para todos nós e geração futura!

Se me fosse dada a possibilidade de concretizar um desejo, este seria que todos os Portugueses, e não só, tivesse gosto pela sua história e fizessem tudo para a valorizar, preservar e não a vandalizar.
Ah se houvesse um botão que eu pudesse premir e mudar as mentalidades... Quem me dera!