segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Marrare de Cacilhas, casa de pasto e hotel da villa...

Á entrada da casa de pasto vulgarmente denominada do Marrare, estabelecida na rua da Oliveira em Cacilhas, se lê em gordos caracteres, lançados sobre enorme taboleta, o seguinte:

HOTEL DE VILLE.

E por baixo deste lettreiro

CASA DE PASTO!!

A traducção não pode ser mais elegante, nem mais fiel; porém, como seja novissima, julgamos fazer grande e relevante serviço ás pessoas que frequentão aquella villa, em as prevenir de que não obstante significar Hotel de ville, o que em língua Portugueza sempre significou — "Casa da Camara"; também hoje em idioma Cacilhense significa — "Casa de Pasto do Marrare".

Chapeo de castorinho. Sobrecasaca de panno. Calça de casimira.
Bonnet de setim. Sobrecasaca de estamenho. Calça de cassineta dobrada.
Capeo de castor. Colete de sarja de seda. Casaca de panno de senhora. Casaca de cotim.

E não será isto verdadeiro progresso? Sentimos em verdade, que o erudito Barboza [Diogo Barbosa Machado] não alcançasse o nosso tempo para mencionar na interessante Bibliotheca Lusitana [publicada entre 1741 e 1758], que nos deixou, a primorosa traducçâo acima referida, o nome do distincto traductor, o seu ninho paterno, idade e nascimento. (1)


(1) Progresso da lingua franceza, O Correio das Damas, agosto de 1839

Informação relacionada:
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume I
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume II
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume III
Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronologica... Volume IV

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Duas Uniões Victoriosas, de Jaime Ferreira Dias

"Duas Uniões Victoriosas" estreou-se, ainda manuscrita, no teatro Garrett, da Cova da Piedade, em 24 de Maio de 1931, de-sempenhada pelo grupo dramático "A Juventude', cujos papeis foram assim distribuidos: Mestre Macedo — Leonel Borges, Angela — Dorinda de Carvalho, D. Martinho — José Coelho, Mario — José da Cruz, Raul —João Miguel Pereira.

Duas Uniões Victoriosas, edição do autor, 1931.
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Sebastião Lopes e Artur Ramos, que representavam respectivamente "O Almadense" e "Republica Social" na primeira representação fizeram ao original e ao seu autor referências extremamente lisongeiras que agradecemos num sincero abraço.

Jaime Ferreira Dias.
InfoGestNet

DUAS  UNIÕES VICTORIOSAS

PERSONAGENS

Mestre Macedo, 60 anos, cego,
Angela, 19 anos, operária filha de Macêdo
D. Martinho, jovem rico.
Mario, jovem operario
Raul, 35 anos, ex-companheiro de Macédo.

Actualidade

ACTO ÚNICO

Num quarto andar. Sala pobremente mobilada: ladeada por algumas cadeiras, a desconjuntar-se, uma pequena mêsa coberta por um pano já desbotado, tendo em cima um candieiro acêso, costura e alguns jornais operarios. Uma cadeira de repouso e nas paredes alguns quadros alusivos á causa do proletariado. Dez horas da noite.

SCENA I

MARIO e ANGELA (que estão sentados á mesa conversando).

MARIO — (tomando as mãos de Angela que chorou) — Sim, minha Angela. Verás que havemos de ser felizes. Mas é preciso que afastes de ti esses pensamentos que te entristecem e acredites só, minha querida, no nosso amôr... Ainda duvidas da nossa felicidade?

ANGELA (Reanimada). — Duvidas... dizes-me tu. Como se eu não cresse cegamente no que tu me tens dito... Não és tu, Mário a minha unica esperança, todo o meu amôr?! Eu sei que não és como os outros, que cultivam o amôr como uma banalidade desta época. Nem eu seria também, como tantas das minhas pobres companheiras de oficina, um objecto de frivolidade perigosa. Compreendi desde o primeiro instante os teus sentimetos generosos. E tu, Mário, que és digno, que sofres com a dôr dos nossos irmãos de oficina, compreendes também todo o meu entristecimento. Bem vês. Não tenho mãe, uma irmã.... (Comovida). Resta-me apenas o meu velho pai, trôpego, e cego, a quem tenho que sustentar com o meu magro salario. E só tenho a proteção dele e o teu amor.

MARIO. — E eu não te exijo outra fortuna. Dentro de bem poucas semanas as nossas existencias ter-se-hão ligado no mais enternecido sonho. Viveremos um para o outro e gosarêmos, querida, a felicidade sadia dos pobres. Que aspiras mais?...

ANGELA. — E como havemos de ser felizes!

MÁRIO. — Então não terás que preocupar-te tanto com a exploração de que és vitima nem com o trato grosseiro dos mandões [...]

*
*     *

D. MARTINHO (continuando cinicamente). — Mas, não teem que surpreender-se. Mário, esse fami-gerado socialista que anda a sublevar os meus operários com utopias subsersivas, êsse terá um passaporte para a África. E não me esquecerei de si, descance, sr. Raul.

RAUL. — Canalha! Tudo há a esperar do seu estofo moral. Mas nada receio de si, miserável. Eu tenho, tambem, uma recompensa para esta pobre gente que o sr. persegue. Ei-la: é o seu último recibo. (Entrega-o a Macedo). E agora, miserável, sáia! imponho eu. Sáia!

D. MARTINHO (Fixando o recibo). — E' falso esse recibo. Exijo-o. Você é um falsificador.

RAUL. — É assinado por seu pai e foi o sr. que o perdeu há instantes, colérico, por certo, com o insucesso das suas diligências donjuanêscas.

(já se tem houvido, da rua, o rumar da multidão que canta a Internacional e que passa sob a janela)
.

A pé, ó victimas da fóme!
A pé, famélicos da terra!
Da ideia a chama já consome
A crôsta bruta que a soterra!
Cortai o mal bem pelo fundo!
A pé! A pé! não mais senhores.
Se nada somos em tal mundo,
Sejamos tudo ó produtores!
Bem unidos façamos,
nesta luta final
duma terra sem amos
a Internacional! [...]

*
*     *

MACEDO (Voltado para a plateia). — É a inexoravel justiça da rua, meus filhos. Os burguêses e senhores inventaram-na com os pelourinhos e a igrêja com os autos de fé. E o povo não soube subtraír-se ainda a essa ferocidade, e quere ser tombem juiz. (Vai cessando o ruído e as personagens afastam-se da janela).

RAUL. — Passou, victoriosa, a união dos trabalhadores. E agora meu querido méstre, deixe que eu denuncie uma outra união não menos fervorosa e indivizível que existe há muito entre dois jovens que se amam: Mário e Angela. Graças ao amôr dêles, a virtude triunfou, como nos romances, tornando fortes e arreigadas as convicções emancipadoras d'este moço idealista.

Jaime Ferreira Dias.
InfoGestNet

MACEDO. — Mas, meus filhos. Eu sinto-me venturoso por vos saber amados. Sède pois muito felizes, mas com uma condição: não desampareis este velho cego como dois egoistas tontos de felicidade.

ANGELA e MÁRIO. (acercando-se mais dele e afagando-o). — Oh não, meu pai, nunca nos separaremos.

MÁRIO. — Sim. E de hoje em diante, consinta que, em vez de méstre vos chame pai. Seremos cada vez mais unidos.

RAUL. — Pois sim, mas não vão esquecer-se da bôda...

OS NOIVOS (Reconhecidos). — Pois não...

MACEDO (Contente). — Assisto, meus filhos, depois de tantas vicissitudes que tenho sofrido, a duas uniões que tornam felizes os meus últimos dias: — a victória d'ideia libertadora e o triunfo do vosso amôr. Elas viverão em meu coração de pai afectuoso e de velho idealista como duas uniões victoriosas... (Tem-se ouvido rumores da Internacional cantada pela multidão).

TODOS (Dirigindo-se para a janela). — Viva União dos Trabalhadores!... (O pano baixa lentamente, continuando a ouvir-se o cobro até este cair definitivamente).

FIM (1)


(1) InfoGestNet

Artigos relacionados:
O pequeno operário
SFUAP, origens, teatro e escola

Leitura relacionada:
La cultura obrera en Portugal, TEATRO Y SOCIALISMO DURANTE LA PRIMERA REPÚBLICA (1910-1926)
Les mythes et les légendes bibliques dans le théâtre portugais à thématique ouvrière

sábado, 8 de dezembro de 2018

Panorama das Margens do Tejo: o Tramoceiro

Pequena rocha de forma curiosa sugerindo um tremoço, que ficava entre o extremo do Ginjal e a Fonte da Pipa, na margem do rio. Só era acessível a pé enxuto na maré vazia e era pesqueiro muito apreciado dos pescadores à linha.

Vistas Stereoscopicas de Lisboa, Panorama das Margens do Tejo.
Delcampe

Um aterro efectuado em 1981, encobriu-a por completo. A expressão pode derivar de tremoço através da forma antiga e popular "tramoço". (1)


 (1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003

Artigos relacionados:
O Tramoceiro

sábado, 1 de dezembro de 2018

Praia das Lavadeiras (de passagem...)

Quando o bom tempo e o ciclo das marés o permitiam, a praia era transformada num imenso estendal de roupa branca, tão imaculada como os castelos de espuma que, arrastados pelas ondas, se dispersavam na areia.

Lavadeiras junto ao Rio Tejo (detalhe), Garcia Nunes.
Arquivo Municipal de Lisboa

Tratava-se da "Praia das Lavadeiras", conhecida desde tempos muito recuados pelo povo de Almada e frequentada por gerações de mulhers que ali acorriam por falta de alternativas próximas e acessíveis... (1)


(1) António Neves Policarpo, Mulheres na história da água..., SMAS de Almada, 2003

Artigos relacionados:
A praia das lavadeiras no Ginjal
La Paloma
O sr. Moreira da fábrica de conservas A. Leão & Cia., Sucessores de Lino & Cia.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Egreja de S. Thiago em Almada

Mandou então construir no campanário da egreja de S. Thiago um cadafacens de madeira, d'onde podesse vêr toda a villa e assistir ao combate. Trepou-se a elle, e ordenou que o logar fosse atacado "com gente d'armas e de pé, e tiros e bestaria, e fundas de demogrillas e outras artilherias de combate!" Durou esse ataque desde a hora da terça até depois do meio dia.

Almada,  Igreja de S Tiago do Castelo, Fachada principal, ed. Sculparte 139.1.
Delcampe

A essa hora o Rei desceu á egreja para comer. Foi a sua salvação, porque os da villa — imaginando que elle ainda se achava sobre o cadafacens de madeira — resolveram atirar-lhe um tiro.

Almada, Igreja de S Tiago do Castelo, Interior, Sculparte 139.2.
Delcampe

Esse tiro, que, atirado horas antes, teria morto o Rei de Castella e adeantado, decerto, a victoria do Mestre de Aviz; que teria libertado Almada e Lisboa; que teria supprimido Aljubarrota e a continuação da epopéa do Mestre e do Condestavel... (1)

As paróquias e igrejas matrizes da vila de Almada existiam pelo menos desde a 2.ª metade do século XII, a mais antiga dedicada a St.ª  Maria terá sido fundada pelos cavaleiros ingleses após a conquista do Castelo em 1147, a de S. Tiago datará já do fim desse período pois acredita-se que foi obra dos cavaleiros de Santiago após terem recebido a vila e castelo em doação régia no ano de 1186.

Interior da Igreja de S. Tiago em Almada.

O primeiro registo documental destas paróquias aparece numa "Lista das Igrejas dos Bispados do Porto, Tui, Coimbra e Lisboa e do Arcebispado de Braga" datada de 1229. Cfr. Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gaveta XIX, maço 14, n." 7, folha 11 - "Sancta Maria de Almadana (Sanctus Jacobus de Almadana". (2)

Roque Gameiro.org
Na vila de Almada setecentista a principal festividade depois da procissão do Corpo de Deus (da responsabilidade da Câmara) era dedicada a S. João Baptista, promovida pela respectiva mordomia com festa anual nos dias 23 e 24 de Junho, percorrendo as ruas de Almada em procissão desde a Igreja de S. Tiago (ou alternadamente da Igreja do Castelo) até a Errnida da Ramalha passando pela Ermida de S. Sebastião.

Esta festa substituiu a de São Tiago, que no século XVI era a grande festividade da vila e do termo. (3)


A Igreja de Santiago, em Almada Velha, é de origem medieval e foi fundada durante o século XII. Remonta aos primeiros anos de reconquista cristã, presumindo-se que seja o templo mais antigo, anterior à consagrada a Santa Maria do Castelo, desaparecida após o Terramoto de 1755.

Ambas pertenciam à Ordem de Santiago.

Foi Igreja Matriz e, por isso, encabeçava a freguesia com o seu nome, a par com a de Santa Maria. 


Na frontaria ainda ostenta o escudo com a cruz de Santiago de Espada.

Realizaram-se alterações posteriores durante o século XVIII: em 1724, foi reerguida sob patrocínio do Infante D. António, irmão de D. João V. 

A fachada Neoclássica atesta a reconstrução (primeira metade do século XVIII). Da reedificação constavam, em especial, a abóbada Manuelina sobre o altar-mor, algumas lápides sepulcrais e os azulejos do século XVIII.

Igreja de S. Tiago.
Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1826.
  Wikimedia

Com o Terramoto de 1755, apenas resistiu a capela-mor e, talvez, parte das paredes laterais. A torre, parte da fachada e cobertura abateram. No último quartel do século XVIII, é reconstruída a capela colateral, localizada no lado do Evangelho.

O interior, de uma só nave, encontra-se integralmente revestido a azulejos de padrão datáveis de século XVII. Na capela-mor, evidencia-se a abóbada de nervuras em estilo pós-Manuelino, composto por pedras calcárias de várias tonalidades.

Apresenta painéis de azulejos, de autoria atribuída a Nicolau de Freitas, que ilustram momento da lenda de Santiago.

Em 1981 e 1993, escavações arqueológicas permitiram a identificação de um conjunto de sepulturas escavadas no substrato rochoso que testemunham a longa ocupação deste espaço entre os séculos XII e XVI. Possibilitaram, ainda, o reconhecimento do antigo perímetro do adro da igreja. (4)




(1) Conde de Sabugosa (cit. Fernão Lopes), Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911
(2) Rui Manuel Mesquita Mendes, Património Religioso de Almada e Seixal...
(3) Idem
(4) almadadigital

domingo, 18 de novembro de 2018

Clube Recreativo José Avelino

Foi por este portão do Clube Recreativo José Avelino que, há quarenta anos, entraram os primeiros espectadores dos "Bonecos de Luz", o mais humano e picaresco dos romances de Romeu Correia, história de uma simplicidade tão prodigiosa que roça a magia e pelo fantástico, tal como nos contos de Panait Istrati ou algumas novelas de Gogol. (1)

Cacilhas Clube Recreativo José Avelino Jornal de Letras e Artes 14 3 de janeiro 1962 01.jpg

O Clube Recreativo José Avelino foi oficialmente inaugurado em 6 de Maio de 1906.

Uma Festa de um aniversário do Clube José Avelino no principio do século passado.
"Aqui estão os meus antepassados, a família Silva, juntamente com a família Feio, antepassados do meu querido amigo Mario Feio e alguns membros da famíla Zagallo!"
cf. João Rafael

E para que conste, os seus primeiros Corpos Dirigentes eram constituídos pela maioria dos seus sócios fundadores, a saber. António Augusto Figueiredo Feio, Presidente; João Isidoro da Silva, vice-presidente; José Avelino Vieira da Silva, Tesoureiro; António Augusto Rodrigues, 1° Secretário; Manuel dos Santos Parada; 2° Secretário.

João Rafael
A inauguração do Clube José Avelino, foi feita com pompa e circunstancia, tendo a Direcção elaborado um extenso programa de festas a condizer com a solenidade do dia, no qual constavam, com inicio às 2 horas da tarde, urna sessão musical com o concurso das filarmónicas existentes na Villa de Almada, uma "troupe" de bandolinistas e uma Sessão de Arte Dramática com declamação de poesia. 

Às 8 horas e meia da noite tinha inicio a representação dc 3 peças teatrais respectivamente: "Escravos e Senhores" (em 3 actos), "Folies Bergéres" (musical) e a comédia em 1 acto, "Valentes a Fingir'.

Os actores que participaram nestas peças eram amadores e muitos deles faziam parte como sócios da colectividade. A titulo de curiosidade, o próprio José Avelino representou na peça "Escravos e Senhoras"...

Desde o seu inicio que o Clube José Avelino criou o seu próprio grupo cénico, constituído na sua maioria por gentes de Cacilhas com vocação para a Arte de Talma. Alguns deles, sem qualquer favor. destacaram-se pela sua vocação natural para a arte cénica podendo mesmo rivalizarem com alguns dos actores já consagra-dos que representavam nos teatros de Lisboa.

O Clube José Avelino ao longo das décadas seguintes tinha sempre um cuidadoso programa de festas calendarizado ao longo do ano, que passavam pelas representações do seu grupo cénico ou de grupos convidados. espectáculos musicais, sessões de fado, concursos e as famosas "soirées" dançantes, vulgo bailes, que aconteciam sempre por alturas do carnaval, da micaréme (no qual era eleita por um ano, a minha e as suas 2 damas de honor), da pinhata e da passagem de ano, sempre abrilhantados pelas melhores "Troupes" e Jazz Bands que havia na altura (como então eram denominados os conjuntos musicais que tocavam nos salões dc baile), e que eram muito frequentados (havendo sempre lotação esgotada), proporcionando noites inesqueciveis a todos os cacihenses e não só, que ali conviveram. lias ia ainda, ao longo de todo o ano, uma diversidade de festas dançantes. alusivas à temática da Primavera, da Flor, das Violetas das Vindimas e a outras, que tinham sempre a garantia dc "casa cheia"...

Clube Recreativo José Avelino.
Mario Feio

No que reporta às peças teatrais, foram muitas as que passaram pelo palco do "José Avelino" tendo entre tantas, ficado na memó-ria daqueles que connosco ainda convivem, títulos como "20.000 Dollares", "Rosa do Adro", "D. César Bazan", "As Duas Causas", "Renascer", "Intrigas do Bairro", "O Domador de Sogras", "O Tio Rafael", "Senhor Roubado", "Cama, Mesa e Roupa Lavada", "Vizinhos de Cima" e outras tantas...

Baile de Carnaval no Clube José Avelino, Fevereiro de 1933.
Alexandre Flores, Almada e as suas tradições: o carnaval

O Clube José Avelino. pela fama dos eventos e das festas que organizava, passou a ser conhecido e referenciado para além das "fronteiras" de Cacilhas atraindo cada vez mais forasteiros e curiosos provenientes de Lisboa para assistirem na "Outra Banda". aos espectáculos que eram previamente anunciados por folhetos e programas ou mesmo nos jornais. 

Bailes de máscaras no carnaval de 1934.
Luís Bayó Veiga, Boletim "O Pharol" n° 27, 2015

A fama adquirida pelos espectáculos sempre com lotação esgotada, que ocorriam no seu salão de festas, fez despertar a atenção dos empresários de Lisboa, que rapidamente, percebendo haver oportunidades dc lucro, acertavam as condições dos contratos para serem exibidas excelentes peças teatrais que já tinham sido êxito na capital. 

Equipa de futebol do Clube José Avelino no campo da Quinta das Farias do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
almaDalmada

E foi assim que ao longo de sucessivos anos da vida do clube. pisaram o palco do "José Avelino". alguns dos maiores nomes da cena teatral portuguesa da altura com destaque para: Chaby Pinheiro. Lucília Simões, Alves da Cunha. Maria Matos, Ilda Stichini. Adelina Fernandes. Palmira Bastos. Amélia Rey Colaço. Robles Monteiro e por último, Amália Rodrigues. os quais pelo facto da sua actuação naquele palco, tiveram direito cada um deles, a uma placa comemorativa que era colocada nas paredes do vestíbulo do Clube. 

Clube Recreativo José Avelino Rainha da Micarême ladeada pelas duas damas de honor e restantes acompanhantes,1953.
Luís Bayó Veiga, Boletim "O Pharol" n° 27, 2015

Sendo desde a sua origem um clube elitista e aristocrata (os seus sócios eram normalmente comerciantes, industriais, funcionários públicos e militares entre outros), a admissão de novos sócios era portanto muito selectiva.

Clube Recreativo José Avelino.
Mario Feio

Ao longo do correr do tempo, e das suas sucessivas Direcções, o Clube José Avelino fazia juz de procurar manter sempre uma exemplar organização e qualidade dos eventos que programava para cada ano e mostrar-se cumpridor dos seus compromissos assumidos.

Portão de acesso ao Clube José Avelino.

Mas o tempo passa e avança, os hábitos mudam. e a chama do associativismo foi empalidecendo com o desaparecimento dos seus mais nobres empreendedores cacilhenses... A partir do limiar da década de 50, o Clube José Avelino foi entrando em decadência. (2)


(1) Almada e o povo na obra de Romeu Correia, Jornal de Letras e Artes n° 14, 3 de janeiro 1962
cf. Almada na História, Boletim de Fontes Documentais, n° 30
(2) Luís Bayó Veiga, Boletim "O Pharol" n° 14, 2010

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Estaleiro de J. A. Sampaio

É este um dos principaes estabelecimentos da cidade de Lisboa, destinado a construcções marítimas, cujos créditos estão de ha muito solidamente conquistados por um trabalho ímprobo e insano.

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Bibliothèque nationale de France

As construcções navaes feitas na doca do sr. Sampaio em Cacilhas, teem merecido as melhores referencias por parte dos technicos d'aquellas especialidades.

O estaleiro tem vastos depósitos onde também se encontra um variado e completo sortimento de materiaes para construcções urbanas e ruraes.

Á frente d'este importantíssimo estabelecimento, encontra-se o nosso velho amigo sr. Eduardo Sampaio, um moço muito activo, intelligente e trabalhador. (1)

*
*     *

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Doka velha, Leitão de Barros, 1916
[eventualmente trata-se da mesma aguarela referenciada como Estaleiro da Mutela (Mutelo) e Casas na Mutela].
Ilustração Portuguesa,n° 567, 1 de janeiro de 1917

Desconhecem-se pormenores da actividade destes dois estaleiros, a não ser o facto de ambos se terem mantido na posse daquele industrial até Dezembro de 1892, altura em que o Governo, pretendendo proceder à reforma dos meios navais, consulta os industriais do ramo, procurando avaliar das condições de que dispunham os seus estaleiros para efectuarem a construção dos navios necessários.

Os documentos da época esclarecem que efectivamente nem o estaleiro de António José Sampaio se encontrava preparado para construir os navios metálicos, nem os orçamentos apresentados pelo seu proprietário mereceram a apreciação favorável das entidades responsáveis da Armada.

Duvida-se que António José Sampaio tenha concluído o projecto da construção das rampas de querenagem segundo o projecto de intenções subscrito em 1855, por duas razões objectivas: a primeira, porque o local aforado na Mutela era extremamente exíguo e em condições semelhantes já aquele industrial possuía o estaleiro da Praia do Outeiro, muito melhor abrigado.

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A segunda razão encontra-se relacionada com o facto de em 1865, Sampaio se preparar para dar início à construção de um grande estaleiro na Praia da Lapa, em Cacilhas, dotado de duas docas secas, sendo deste modo previsível que este último projecto o levasse a colocar em segundo plano das suas prioridades o investimento na Mutela [...]

Em 10 de Junho de 1865, António José Sampaio procede à escritura do aluguer de um pedaço de salgado na Praia da Lapa, em Cacilhas, para aí construir um estaleiro de maiores dimensões que aqueles que possuía nas proximidades da Quinta do Outeiro e no lugar da Mutela.

Em 17 de Dezembro de 1872, aquele industrial paga à Câmara Municipal de Almada, pelo foro do referido salgado situado em Cacilhas, a importância de vinte e dois mil e quinhentos réis. (2)


(1) O Defensor do Povo n.° 59, Coimbra, 9 de fevereiro de 1898
(2) Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes", Anexos

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H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

Mais informação:
Restos de Colecção

Tema:
Construção naval