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quinta-feira, 9 de março de 2023

Edmundo Castanheira (1924-2009)

Este livro (Construção de Pequenas Embarcações), agora na sua 2ª edição, é um trabalho para todos aqueles que possuam, construam ou necessitem de manter ou reparar pequenas embarcações, especialmente de madeira.

Edmundo Castanheira, capa do livro Construção de pequenas embarcações (detalhe).
Dinalivro


É escrito numa linguagem (Nomenclatura Naval) que é comum e interessa a todos os que de qualquer modo estejam ligados a navios de qualquer dimensão e construídos de quaisquer materiais. (1)

O autor publicou na Dinalivro Construção de Pequenas Embarcações (1977) e Manual de Construção de Navios de Madeira (1991).

Edmundo Castanheira,
capa do livro Manual de Construção do Navio de Madeira (1991).
Livraria Santiago



Com Auxiliar do Técnico Industrial (2002) Edmundo Castanheira vem pôr à disposição do leitor, no seguimento de uma linha que se caracteriza essencialmente pelo seu carácter prático, didáctico e técnico, todos os conhecimentos que adquiriu ao longo de muitos anos de estudo e de prática concreta na área da construção e reparações navais.

Edmundo Castanheira,
capa do livro Auxiliar do Técnico Industrial (2002).
Dinalivro


Neste sentido, poderá encontrar-se não só um manancial de bases teóricas e de conhecimentos práticos fundamentais, mas também as soluções para vários problemas ou ainda algumas informações particularmente úteis para estudantes, como é o caso das tabelas de conversão de unidades e de materiais ou das secções sobre desenho geométrico, projecções, planificações, entre outras, que integram, tal como os livros anteriores, um trabalho inestimável.

O autor, Edmundo Castanheira, nasceu em 1924. depois de obter o diploma do Curso Industrial dedicou quarenta anos da sua vida à arte da construção naval em madeira. Foi Contra-mestre de carpintaria e docas secas, bem como desenhador e traçador de navios de madeira na H. Parry & Son (v. artigo relacionado: H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas).

Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 16, década de 1960.
Delcampe

Mais tarde, trabalhou na Sociedade Geral de Comércio, Industria e Transportes (SG), exercendo as funções de chefe de trabalhos de carpintaria de bordo, oficinas, estofadores, polidores e calafates.

Lisnave, brochura promocional, junho de 1971.
A Lisnave...


Durante 12 anos esteve nos estaleiros da Lisnave como chefe de aprestamento de navios, dando assistência técnica às fragatas para a NATO Almirante Pereira da Silva, Gago Coutinho, navios para a pesca do bacalhau Ana Mafalda Santa Mafalda (o Ana Mafalda foi um navio misto de transporte de passageiros e carga da Sociedade Geral), petroleiro Larouco (80.000 toneladas), rebocadores, lanchas, batelões, dragas, etc... Ainda na Lisnave, foi encarregado geral das docas da Margueira. (2)


(1) Authentic livros
(2) Dinalivro

Tema:
Construção naval

Informação relacionada:
Alexandre Flores (fb)
As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013


domingo, 26 de junho de 2022

Fragateiros de Ovar

De acordo com a Monografia de Ovar de Alberto Sousa Lamy, terminadas até meados da Primavera as construções navais nos estaleiros da freguesia de Ovar, dos quais o principal era o do cais da Ribeira, onde anualmente se construíam dez fragatas, os calafates iam para Lisboa, onde se empregavam no serviço do conserto das embarcações antigas.

Estaleiros da Mutela, Carlos Pinto Ramos, aguarela, 1931
Museu José Malhoa

Na sua Monografia da Freguesia Rural de Ovar, de 1912, João Vasco de Carvalho refere-se à indústria da construção de fragatas e de outros barcos de menor tonelagem, a qual atingiu tal escala que a companhia dos caminhos de ferro mandou construir vagões especiais para o seu transporte para Lisboa e Porto.

Era também importante a indústria anexa, a dos fragateiros, empregando-se 2500 a 3000 ovarenses no serviço das fragatas em Lisboa. Rocha e Cunha escreveu a respeito desta indústria: “Os estaleiros de Ovar e Pardilhó, desde longa data e até há poucos anos, construíam fragatas e varinos para serviço de outros portos, principalmente Lisboa.

João Gomes Silvestre (João Marcela), mestre carpinteiro de machado, e mestre Bernardino Gomes Silvestre, calafate.
Artigos do jornal João Semana

Concluída a construção, estas embarcações, sumariamente aparelhadas e carregadas com madeira que servia de lastro e dava frete, tripuladas por três homens de boa têmpera, em geral ílhavos, aproveitavam a época dos ventos bonançosos do norte, e seguiam costa abaixo para o porto de destino.

Estas expedições, que por vezes tinham desfecho trágico, eram denominadas enviadas” (...)

Em 1890, todos os “barcos grandes” que se usavam na costa do Furadouro e nos restantes portos do concelho, bem como nas costas de Paramos, Espinho, Torreira e S. Jacinto, eram construídos em Ovar.

O mesmo sucedia com os “barcos pequenos”, do tipo bateira, usados nos portos deste concelho e nas costas de Paramos, Espinho, Torreira, S. Jacinto e Costa Nova do Prado, bem como em alguns dos que serviam os pescadores de Ouro, S. João da Foz e Afurada.


Cacilhas, Caes e Pharol, ed. desc., década de 1900.
Fundação Portimagem

No entanto, a indústria dos calafates e fragateiros, nos seus moldes tradicionais, estava já agonizante, prejudicada com as obras do porto de Lisboa e a construção de paredões, onde os grandes navios que vinham ao Tejo passaram a acostar, tornando dispensável a maior parte do serviço das fragatas. (1)

(...) tendo como certo que desde finais do século XIX, João Gomes Silvestre, conhecido por “João Marcela”, natural de Ovar, surge como proprietário do estaleiro da Mutela, partilhando a sua direcção com o irmão Bernardino Gomes Silvestre.

Doka velha, Leitão de Barros, 1916
[eventualmente trata-se da mesma aguarela referenciada como Estaleiro da Mutela (Mutelo) e Casas na Mutela].
Ilustração Portuguesa,n° 567, 1 de janeiro de 1917

Em 1917, ainda na posse dos mesmos industriais, o estaleiro mantinha as mesmas confrontações do aforamento primitivo, apenas acrescido da serventia, para arrecadação de ferramentas, de um moinho de maré que era propriedade dos herdeiros dos Condes de Mesquitela, e se encontrava desactivado.

Zona dos estaleiros da Mutela em 1941, Vitalino António
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

  1. Estaleiro e oficina do Peres
  2. Estaleiro do Pinhal, Zé dos ovos, Chico de Sezimbra
  3. Zona da represa para os toros de madeira estarem na água
  4. Muralha da Luíza da água
  5. Cais da fábrica Ramos (cortiça)
  6. Cais do Martins (vinhos)
  7. Cantinho da lapa onde os esgotos descarregavam na praia
  8. Fábrica da farinha
  9. Clínica António Elvas
  10. Estaleiro do João Marcelo (herdeiros), Manuel Lino, Cravidão (sócios)
  11. Moinho de maré (pertença da sociedade Manuel Lino) onde eram guardados os apetrechos náuticos
  12. Ferraria do João Vieira (João Ferreiro)
  13. Estaleiro da sociedade Manuel Caetano, Lázaro, Américo Cravidão
  14. Ferraria do Chouffer em brasa
  15. Zona de encalhe das embarcações para ficar em cima dos picadeiros (para raspar fundos e aplicar bréu)
  16. Estação de toros de madeira de Zé Cravidão (fornecimento dos estaleiros)
  17. Cavalariça do André
  18. Residência (barraca do Manel Preto) empregado do forno de cal
  19. Esplanada do liberdade
  20. Estaleiro do Chico Cavaco
  21. Estaleiro do Fialho (irmão do Chico Cavaco)
  22. Ferraria do Fialho
  23. Cais da fábrica Cabruja & Cabruja Lda. (cortiça)
  24. Estaleiro do Joaquim Picadeiro
  25. Estaleiro da sociedade Pedro, Serafim e Fernando
  26. Largo da Mutela
  27. Serração do Cereja (anteriormente Santo Amaro, Manuel Febrero)
  28. Taberna do Adelino Baeta
  29. Taberna da Emília da Praia 
O estaleiro dos “Silvestres” funcionou até 1947, ano em que teve lugar um processo de expropriações, tendo por objectivo a abertura do troço da Estrada Nacional n° 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade.Com este estaleiro naval desapareceram muitos outros que se situavam nas imediações, como os de Manuel Caetano, Américo Cravidão, Francisco Cavaco, João Fialho, Joaquim Maria da Silva, ou Pedro Lopes e Serafim Matos, transferindo-se alguns para o concelho do Seixal enquanto outros simplesmente deram por terminada a sua actividade. (2)

Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

"Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.

O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira. Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.

O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.

O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…

Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.

Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos."

João Pinto Ramalhadeiro (cf. Artigos do jornal João Semana, Fragateiros de Ovar)

Apesar da sua exígua dimensão, foi nesses estaleiros das praias do estuário do Tejo que se apoiou, ao nível da construção e reparação naval, uma boa parte da actividade marítima desta área regional.As unidades instaladas na praia da Margueira, e também na de Mutela, situadas na zona ribeirinha do concelho de Almada, virada a nascente, caracterizavam-se, no início do século XX, por uma grande simplicidade.

Os estaleiros da Mutela ao centro da vista tomada do Arsenal do Alfeite po' Mário Novais na década de 1930.
flickr

Dispunham, normalmente, de uma ou duas carreiras, de um guincho destinado a puxar as embarcações para terra e de alguns barracões que funcionavam, simultaneamente, como oficina e depósito de ferramentas e materiais diversos.

Os restantes apetrechos ficavam espalhados pela praia onde assentavam as quilhas das embarcações em construção ou reparação.

A madeira mais utilizada nestes estaleiros era o pinho, proveniente das matas de Leiria e de Alcácer do Sal. Depois de cortados os troncos e transformados em pranchas, de comprimentos variáveis, estas eram enterradas no lodo, amarradas com correntes, e aí conservada, até que as mãos hábeis de um carpinteiro de machado lhes desse a forma necessária.Perto destas instalações havia sempre alguns ferreiros que, entre duas marteladas nos cascos das cavalgaduras, fabricavam as cintas, as cavilhas de entroncar e zincavam os pregos utilizados na construção das embarcações.

Na primeira década do século XX funcionavam na praia da Margueira, em permanente actividade, dois estaleiros: o do "Gouveia" e o do "Machado".

Logo ao lado, na praia de Mutela, estavam situados os da "Manga" e do "Zé da Lanchinha". Mas, a par destes, existiam outros, com carácter temporário, que duravam apenas o tempo suficiente para se construir uma embarcação.

Mais tarde, no início dos anos trinta, surgiu o estaleiro do "Durão", em Margueira, e os do "Chico Cavaco" e do "Cravidão", em Mutela.

Destas unidades saíram fragatas, varinos, canoas, batelões e, também, embarcações a motor destinadas ao transporte de passageiros entre as duas margens do Tejo, como o "Renascer" [LX-3107-TL, construído em 1917 em Olhão, como rebocador], o "Pacífico" e o "Pacato".

Cacilheiro Renascer no cais das colunas.
ALERNAVIOS

A mão-de-obra com carácter permanente, utilizada em cada um destes estaleiros, era constituída por calafates, carpinteiros de machado e carpinteiros de branco, não ultrapassando, de um modo geral, os vinte homens. 

Gente que, de um modo geral, cultivava um certo elitismo e a manutenção de uma escala hierárquica bastante rígida ao nível das suas profissões, indícios de um espírito corporativo com raízes na medievalidade. 

Por sinal, era ainda comum, nesse início do século XX, a passagem do ofício de carpinteiro de machado, de pais para filhos. 

Quando o trabalho a realizar requeria um maior número de operários, os patrões recorriam à contratação de pessoal eventual. A "Malta do Sol", como eram designados os trabalhadores não especializados, que, entre outras tarefas braçais, serravam os troncos chegados dos pinhais e cobriam os cascos dos navios com alcatrão.

O Sr. Aires, um carpinteiro de machado que começou como aprendiz no estaleiro do "Zé da Lanchinha", em 1909, com quem tivemos oportunidade de conversar em 1987, quando, pela primeira vez abordámos este tema, dizia-nos, com indisfarçável orgulho que: 

"...Naquela altura um mestre era um mestre. Os patrões até chegavam a mandar ir buscar um gajo a casa de carruagem. E não julgue que se andava vestido de qualquer maneira. Havia alguns que até andavam de fato preto, chapéu de coco e laço à anarquista. É claro que, para se chegar a oficial e depois a mestre era preciso ser-se bom e suar muito. Enquanto éramos aprendizes nunca ganhávamos nada. Os pais de alguns até ofereciam dinheiro e coisas ao mestre, para eles começarem a trabalhar. O meu pai é que nunca deu nada..."

Noutra passagem desta entrevista, quando perguntámos ao sr. Aires que recordações tinha do movimento grevista durante a primeira República, respondeu-nos peremptoriamente:

"... O que é que julga? – Não havia muitas greves. A malta do sindicato chegava à praia, dizia no primeiro estaleiro quanto é que queria e, quando chegava ao ultimo, os gajos (os patrões) já tinham aceite tudo..."

De facto o Sr. Aires tinha razão, porque, tanto quanto pudemos verificar, o numero de greves na construção naval, no período compreendido entre 1910 e 1926 foi incomparavelmente menor do que, por exemplo, na industria corticeira. Para esta situação contribuía – pensamos – o facto deste sector ser formado, sobretudo, por pequenas empresas.

Cova da Piedade, Mutela, aterro para construção da variante à Estrada Nacional 10.
Museu da Cidade de Almada

Os estaleiros da Margueira e da Mutela formaram muitos calafates e carpinteiros de machado que, mais tarde, foram trabalhar para a "Companhia Portuguesa de Pesca", para a "Sociedade de Reparação de Navios", para o "Grémio dos Armadores da Pesca do Bacalhau", para a "Parry & Son" e para o "Arsenal de Marinha".

Alguns trocaram o machado e a polaina pelo martelo de rebites, mas outros continuaram a sua arte, porque nestas empresas e, sobretudo, nos dois últimos estaleiros também se faziam trabalhos em madeira, tanto na manutenção como na construção de embarcações em ferro e, mais esporadicamente, num ou noutro iate ou batelão. 

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
IGeoE

Nos anos cinquenta, todos os estaleiros das praias da Margueira e Mutela foram encerrados em consequência do aterro de toda a frente ribeirinha que se estende de Cacilhas à Cova da Piedade, seguido da construção de uma muralha e da avenida que ainda hoje existe.  (3)


(1) Clara Sarmento, Práticas, discursos e representações da cultura popular portuguesa, 2007
(2) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005, 19 págs.
(3) O Farol, As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, J.F. de Cacilhas, 2013

Artigos relacionados:
Construção naval tradicional no lugar da Mutela
Estaleiros de praia

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Bote Leão (o Rei dos Nordestes)

Sobre a origem desta embarcação pouco se sabe, mas Manuel Leitão, no seu livro "Barcos do Tejo", refere uma declaração, de 1965, do mestre António da Costa Cruz, proprietário de um estaleiro de construções e reparações navais, em Alcochete, referindo que (...) o "Leão. teria sido construído na Junqueira, em Lisboa, havia mais de 140 anos (...). No entanto a inscrição do ano 1781 na antepara da ré sugere que a construção é anterior e o mais provável é que tal tenha acontecido. (1)

Bote Leão de Alcochete.
aNOTÍCIA.pt

Pertencia ao Marquês de Soydos (D. António Pereira Coutinho). De acordo com o Mestre António da Costa Cruz, carpinteiro de machado em Alcochete, terá sido construído na Junqueira. Mantinha rivalidade intensa com o "Diana" (pertencente á viúva do Comendador Estêvão de Oliveira), conseguindo, por vezes, vencer a falua em bolina cercada (cf. o jornal A voz de Alcochete em 1950).

Ainda, de acordo com o Mestre António da Cruz, tinha inicialmente a popa em "rabo de peixe", como a das faluas. Foi este mestre que reconstruiu a popa, alargando a parte que fica fora de água, para evitar que se afundasse tanto, quando carregado.

A popa em rabo de peixe, Barcos de sal (Alcochete), Silva Porto, 1882.
Colecção particular em Braga

A cana do leme foi feita com o calcés do primitivo mastro de "riga" (pinho de Riga) que partiu quando se soltou o estai real num dia de nortada no rio.

Na Igreja de Nossa Senhora da Atalaia, a 7 kms de Alcochete, existe um "ex-voto" que se refere a um milagre que aconteceu no "Leão" numa ocasião de aflição.

Comprado pela Empresa Portuguesa de Navegação Fluvial (detentora do vapor "Alcochete", que fazia a carreira de Alcochete) para eliminar a concorrência ao vapor. Serviu para transportar mercadorias e pessoal de descarga do carvão de navios no cais de Lisboa.

Vapor Alcochete.
Desembarque no cais do Alfeite dos sócios da Associação Naval em 1911.
Hemeroteca Digital

Foi novamente vendido e acabou por ficar nas mãos de Manuel Brigue e, depois, de João Baptista Damiães. Após a morte de João Baptista Damiães, o bote conservou-se na praia de Alcochete, porque a viúva e os filhos lhe tinham muito amor e não tinham coragem de se desfazer dele.

Após receberem garantias de que o "Leão" não seria abatido, a família consentiu na transferência da propriedade do bote para a Sociedade que o mandou restaurar para ser oferecido ao Grupo de Amigos do Museu de Marinha.; Sociedade é formada por João Augusto Vieira, José Vieira Júnior, Manuel António de Castro e Luís Lopes Silveira.

Restaurado pelo Mestre António da Cruz antes do seu ingresso no Museu de Marinha. (2)

O bote Leão serviu a população de Alcochete até à década de 60 do século passado, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da vila, pois com as outras embarcações de Alcochete impulsionou uma intensa atividade fluvial, não só no abastecimento de mercadorias à capital, mas também no transporte de pessoas e no carrego e descarrego de navios fundeados no rio Tejo (...)

São três as emblemáticas embarcações que nesta altura faziam a ligação entre Alcochete e Lisboa: a falua Diana e o bote Leão, que em 1907 passaram a pertencer à empresa portuguesa de navegação fluvial, assim como o vapor de Alcochete, que assegurou a carreira entre as duas margens de 1904 a 1958.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Hemeroteca Digital

Só em outubro de 1917 é que o bote é registado em nome da empresa, por ter iniciado nesse ano a sua função no transporte de carga e passageiros. O bote Leão navegava à vela e a remos e tinha lotação para 26 passageiros.

Em 1925 a embarcação foi transferida para a delegação marítima do Barreiro, e o seu registo ficou afeto ao cais de Alcochete, mantendo-se propriedade da empresa até 1939, ano em que foi vendida pela quantia de quantia de vinte mil escudos a Manuel Brigue, morador em Alcochete.

Em 1941 o barco foi adquirido por João Baptista Damiães, residente em Alcochete pela quantia de vinte e oito mil escudos. Após a sua morte a embarcação ficou durante mais de uma década parada na praia de Alcochete e só em 1967 foi comprada João Augusto Vieira, um dos elementos do Grupo de Amigos do Museu de Marinha, pela quantia de oito mil escudos, que depois a ofereceu ao referido museu.

Transporte do bote Leão de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso a 27 de junho de 1967.
Museu [digital] de Marinha

A última reparação do bote Leão foi da responsabilidade do mestre António da Costa Cruz e foi primorosamente pintado por Augusto Rodrigues.

A sua última viagem realizou-se a 27 de junho de 1967 de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso, em Lisboa, onde ficou a aguardar a entrada no museu, de cujo património passou a fazer parte.

Mas a entrada tardou e o Leão apodreceu nas águas do rio em que sempre navegou. Contudo durante esse período o Museu de Marinha desenhou planos do bote que permitiram à câmara municipal recuperar a embarcação.

Cana do leme do bote Leão.
Museu de Marinha

Do bote Leão de 1781 apenas resta a cana do leme que está em exposição no Museu de Marinha. (3)


(1) In Alcochete n° 21, junho 2016
(2) Museu [digital] de Marinha
(3) In Alcochete, n° 21, idem

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Conductor: rebocador (e cacilheiro) a vapor

Luís Ascêncio Tomasini (1823-1902) é o nome desse pintor, que foi, de profissão, capitão de navios e nos deixou uma obra notável. A tela que reproduzimos, está datada de 1887 e tem um interesse especial porque representa uma cena que não temos visto na pintura do século XIX.

Rebocador de vapor com o brigue entrando no Tejo (detalhe), Luís Ascêncio Tomasini, 1887.
Museu de Marinha

Como é sabido, a utilização do vapor na propulsão dos navios, constituiu um enorme salto tecnológico, em relação à navegação à vela, porque passou a ser possível fazer viagens cumprindo datas de largada e de chegada, independentemente de haver ou não vento e, mesmo, quando o houvesse, nem sempre era favorável.

Em Portugal tivemos o primeiro navio de passageiros em 1819 mas, na Marinha de Guerra, o vapor só entrou ao serviço em 1833. (1)

* * *

REGATA NO TEJO PROMOVIDA PELA REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

Realisou-se no dia 21 do mez que findou, a regata no Tejo promovida pela Real Associação Naval, conforme é costume nos mais annos, e á obsequiosa collaboraçáo do sr. José Pardal devemos o poder publicar hoje um desenho d'esta festa.

A regata no Tejo no dia 21 de agosto promovida pela Real Associação Naval
(Desenho do natural, pelo artista amador sr. José Pardal)
O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887

A regata effectuou-se no Dáfundo em presença de sua magestade el-rei D. Luiz, que de bordo do seu yacht de recreio Syrius assistiu ás corridas dos barcos. Muitos vapores, fragatas e barcos de recreio embandeirados conduzindo grande numero de espectadores assistiram á festa.

Viam-se alli o vapor Dragão de S. M. El-rei D. Luiz, os yachts Amelia de S. A. o Principe D. Carlos, o Aura de S. A. o Infante D. Alfonso, e o Gypsy, Surpreza, Gwendoline, Irene, Iris, Gavina, Relampago, Hilda, Ninni, e o escaler a vapor do yacht francez Velox que estava no Tejo com o seu proprietario barão E. Boissard de Bellet, do Havre, que representava o Yacht Club dc França.

Os socios da Real Associação Naval com suas familias iam a bordo do Conductor, onde tocava charanga da armada.  

Vapor de pás Conductor, festival náutico no Tejo 1888/1889.
Museu de Marinha (digital)

Pelas 3 horas principiaram as corridas por duas guigas de quatro remos tripuladas pelos alumnos do collegio Arriaga, sendo a primeira, a Sereia tripulada pelos srs. Raul Borges, Ignacio Avellar, Arthur Fortes e Voga José Gd, tendo por timoneiro a sr.a D. Maria da Camara Arriaga, e a segunda a Attempt, tripulada pelos srs. Alfredo Pereira, Raul Garcia, José de Freitas e Voga José de Sousa, tendo por timoneira a sr.a D. Maria da Gloria Loureiro... (2)

Conductor (1880).
Conductor National Maritime Museum, Greenwich, London

Name: CONDUCTOR
Launched: 1879
Completed: 01/1880
Builder: Joseph T Eltringham, South Shields
Yard Number: 87
Dimensions: 150grt, 31nrt, 117.6 x 19.6 x 10.3ft; (1892: 165grt, 10nrt); (1914: 165grt, 63nrt)
Engines: 2 x SL1cyl (30.5 x 54ins), 90nhp; (1892: 62nhp, 11.5knots)
Engines by: Hepple & Co, South Shields
Propulsion: Paddle
Construction: Iron
Reg Number: 81606


History:
17/01/1880 William Hepple, South Shields; registered at London
01/1880 John Mitchell, Gravesend
07/1880 Frederico G Burnay, Lisbon; registered at Lisbon
19/05/1892 Sunshine Steam Tug Co (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
19/05/1892 Registered at Liverpool
03/1901 The Steam Tug Conductor Ltd (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
03/1914 Joseph John King & Sons Ltd, Garston
06/1914 William Cooper & Sons Ltd, Widnes
1929 Broken up


Comments: 1881: Stationed at Lisbon, Portugal

29/12/1899: Beached at Egremont, Wallasey, on the Wirral, following a collision

02/01/1900: Refloated and placed in Clover’s Dry Dock at Birkenhead

01/1923: Converted to a dumb dredging barge (151grt, 131nrt) (3)



(1) Revista da Armada n.° 385, abril de 2005
(2) O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887
(3) Tyne tugs and tug builders

Mais informação:
ALERNAVIOS: «CONDUCTOR»

quinta-feira, 25 de março de 2021

Canhoneira Chaimite em construção

Na tarde luminosa e azul de domingo, após a entrega ao Estado do esbelto Adamastor, em o claro Tejo, sulcado ainda de mil embarcações em festa; bandeiras vibrando na porcelana do ar, a alegria dos hymnos, o clamor enthusiastico de milhares de vivas, realisou-se a visita aos estaleiros dos srs. Parry & Sons, no Ginjal, onde está a construir a canhoneira Chaimite, que, apenas prompta será pela Commissão de Subscripção Nacional entregue ao Estado, como o foram as duas lanchas d'aço e ferro, Diogo Cão e Pedro Annaya, por egual sahidas d'este magnifico estabelecimento que muito honra a industria nacional.

Medalhão da fundição do hélice da canhoeira Chaimite em 1897
Museu de Marinha

O Branco e Negro publica alguns aspectos desta ceremonia, bem como da canhoneira, que é destinada á policia e fiscalisação na costa de Moçambique, e, sobretudo, a estabelecer communicações entre as esquadrilhas do serviço fluvial e as capitaes dos districtos de Lourenço Marques e da Zambezia.

As dimensões da canhoneira são as seguintes: comprimento entre as perpendiculares, 40m,84; bocca extrema, 8 metros; pontal do porão, 3m,15 ; immersor á ré, 2 metros. A velocidade é de 11 nós por hora.

O material empregado na construcção é o aço da melhor qualidade. O casco é dividido em compartimentos estanques por meio de anteparos solidamente construidos.

O tombadilho e castello são de fórma abahulada (tartle back). Nos paioes póde receber mantimentos para 20 praças durante 60 dias, aguada para 40 dias e combustivel para 12. Em dois paioes independentes póde transportar 25 tonelladas de carga.

A canhoneira é construida segundo os ultimos planos de construcção naval, em navios da sua categoria.

Oficiais da antiga canhoneira Chaimite que operou em Moçambique em 1915
Museu de Marinha

Avante terá um solido gaviete e um aparelho para fundear boias, movido pelo cabrestante a vapor, para serviço de balisagem dos portos. No alojamento á ré, além dos camarotes para o commandante, immediato e machinista, tem um camarote com dois beliches e sophás na camara.

Em tempo de guerra póde servir com grande vantagem como auxiliar das esquadrilhas fluviaes.

O armamento do navio é composto de duas peças de tiro rapido Hotchkiss de 47 millimetros, com escudo de protecção, montadas em reductos centraes, que em occasião de combate são fechados por chapas de abrigo, e de duas metralhadoras de Nordenfeldt de 11 millimetros, installadas no convez, mas que, em caso de necessidade, podem ser transportadas para os cestos de gavea dos mastros.

Tem dois jogos de machinas de alta e baixa pressão, de cylindros invertidos, de acção directa, verticaes, com condensador de superficie e dois helices, tendo uma caldeira multibular e sendo o condensador commum ás duas machinas. A força é de 480 cavallos. Cada jogo de machinas é constituido para trabalhar independente.

Canhoneira Chaimite na Ilustração Portugueza n° 539, 19 de junho de 1916
(note-se a bandeira republicana redesenhada na imagem)
Hemeroteca Digital

O seu deslocamento é de 340 toneladas e a velocidade de e 11 nós por hora. (1)


(1) Branco e Negro n° 73, 22 de agosto de 1897

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H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

Canhoneira Chaimite aumentada ao efectivo

Construída nos Estaleiros “Parry & Son”, em Cacilhas, a canhoneira Chaimite foi aumentada ao efetivo dos navios da Armada no dia 15 de novembro de 1898. Foi o primeiro navio de aço da Marinha Portuguesa construído em Portugal, através dos planos elaborados sob direção do Comandante Eugénio Andrea.

Lançamento à água da canhoneira Chaimite no estaleiro de Parry & Son em 3 de Agosto de 1898.
Museu de Marinha

O surgimento do Ultimato Britânico em 1890 levou a que fosse necessário garantir uma Marinha capaz de proteger os interesses de Portugal em terra e no mar. Com a assinatura da Grande Subscrição Nacional no mesmo ano, foi possível, através das verbas reunidas, adquirir parcialmente a canhoneira Chaimite e o cruzador Adamastor.

H. Parry & Son.
Restos de Colecção

Em janeiro de 1889 a Canhoneira Chaimite partiu rumo à província ultramarina de Moçambique onde chegou a 20 de abril. A sua atividade operacional iniciou-se quando serviu a Esquadrilha do Zambeze até agosto de 1900 e, após esse empenhamento, participou na missão de levantamento hidrográfico nas baías do Mossuril e de Lourenço Marques, na missão de balizagem do Chinde e Quelimane, e ainda esteve envolvida na repressão à escravatura na área de Angoche, em paralelo com outras operações militares na costa moçambicana.

Em 1915, durante os confrontos em África, serviu de apoio ao cruzador Adamastor nas operações do Rovuma, rio que separa Moçambique, antiga colónia portuguesa, da Tanzânia, antiga colónia alemã.


A canhoneira Chaimite marcou um avanço, não só na construção naval portuguesa, mas igualmente na introdução de novas tecnologias a bordo, com destaque para o gerador elétrico, para iluminação e alimentação de um projetor. A 20 de maio de 1920 foi abatida ao efetivo dos navios da Armada. (1)


(1) Comissão Cultural de Marinha

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quinta-feira, 5 de março de 2020

O perré!

Nos anos cinquenta, todos os estaleiros das praias da Margueira e Mutela foram encerrados em consequência do aterro de toda a frente ribeirinha que se estende de Cacilhas à Cova da Piedade, seguido da construção de uma muralha e da avenida que ainda hoje existe.

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos por meio da cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos de retenção por meio da cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(começo das obras)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(começo das obras do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos de retenção)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra (fb)

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(construção do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra (fb)

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(construção do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Na década de sessenta, como já antes referimos, foi construído nesse local o estaleiro da "Lisnave" também conhecido pelo "estaleiro da Margueira" [...]

Vista aérea do perré na variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
IGeoE

Para o rio, na Margueira
A muralha era um céu
Acabou-se a brincadeira
Quando a Lisnave apareceu (1)



(1) As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, J.F. de Cacilhas, 2013

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A banhos na Margueira com Romeu Correia
Ante-projecto do Arsenal de Marinha na margem sul do Tejo
Lisnave
Kong Haakon VII na Lisnave
Doca 13
História alternativa

Leitura relacionada:
Decreto-Lei n.º 44708 - Diário do Governo n.º 267/1962, Série I de 1962-11-20
Boletim do Porto de Lisboa n.° 179, abril, maio e junho de 1967
Salvaterra e eu (pesquisa: Lisnave)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Barca Isabel

Impedidos por negocios de momento, não podemos corresponder ao obsequioso convite do Sr. José Antonio Pereira Serzedello, distincto e mui estimado negociante desta praça, proprietario da barca Isabel, que da praia de Porto-Brandão, onde acabava de ser construido, devia correr para as aguas do Téjo no Domingo passado, 8 deste mez.

Barca Isabel, 1851.
"Janêllos" da História: Os Serzedello

Não presenceámos, portanto, o luzido espectaculo, a numerosa concorrencia, que appresentou nesse dia aquella parte da margem do sul do rio , e de que fizeram individuada relação alguns jornaes da capital, como a Lei e a Nação.

Constou-nos que não faltára coisa alguma ao esplendido da funcção, realçada pela afabilidade do proprietario do navio, que fez servir uma copiosa e variada collação aos seus amigos e convidados , não obstante o desgosto causado pela suspensão da barca na carreira, contra toda a expectativa.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Museu de Lisboa

Oxalá que fosse este o unico dissabor! Porém, somos informados de que no dia immediato, tentando-se dar impulso ao navio por meio da força braçal, rebentou o aparelho, ficando tão maltratados quatro homens, que ainda se acham em perigo de vida.

Porto Brandão, à esquerda do Tejo.
Ateneu Livros

O Sr. Serzedello sentiu-se tão commovido, que perdeu os sentidos, mas, tanto elle, como pessoas de sua familia, desveladamente se empenharam em prestar os auxilios ao seu alcance neste desastroso successo.

Barca [Brigue] Viajante (João Pedroso, atrib.).
Invaluable

Por conta do Sr. Serzedello se está construindo, no mesmo local de Porto-Brandão, um brigue, que será denominado Viajante. (1)


(1) Revista Universal Lisbonense, 12 de setembro de 1850

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Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

Mais informação:
"Janêllos" da História: Os Serzedello

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Estaleiro de J. A. Sampaio

É este um dos principaes estabelecimentos da cidade de Lisboa, destinado a construcções marítimas, cujos créditos estão de ha muito solidamente conquistados por um trabalho ímprobo e insano.

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Bibliothèque nationale de France

As construcções navaes feitas na doca do sr. Sampaio em Cacilhas, teem merecido as melhores referencias por parte dos technicos d'aquellas especialidades.

O estaleiro tem vastos depósitos onde também se encontra um variado e completo sortimento de materiaes para construcções urbanas e ruraes.

Á frente d'este importantíssimo estabelecimento, encontra-se o nosso velho amigo sr. Eduardo Sampaio, um moço muito activo, intelligente e trabalhador. (1)

*
*     *

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Doka velha, Leitão de Barros, 1916
[eventualmente trata-se da mesma aguarela referenciada como Estaleiro da Mutela (Mutelo) e Casas na Mutela].
Ilustração Portuguesa,n° 567, 1 de janeiro de 1917

Desconhecem-se pormenores da actividade destes dois estaleiros, a não ser o facto de ambos se terem mantido na posse daquele industrial até Dezembro de 1892, altura em que o Governo, pretendendo proceder à reforma dos meios navais, consulta os industriais do ramo, procurando avaliar das condições de que dispunham os seus estaleiros para efectuarem a construção dos navios necessários.

Os documentos da época esclarecem que efectivamente nem o estaleiro de António José Sampaio se encontrava preparado para construir os navios metálicos, nem os orçamentos apresentados pelo seu proprietário mereceram a apreciação favorável das entidades responsáveis da Armada.

Duvida-se que António José Sampaio tenha concluído o projecto da construção das rampas de querenagem segundo o projecto de intenções subscrito em 1855, por duas razões objectivas: a primeira, porque o local aforado na Mutela era extremamente exíguo e em condições semelhantes já aquele industrial possuía o estaleiro da Praia do Outeiro, muito melhor abrigado.

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A segunda razão encontra-se relacionada com o facto de em 1865, Sampaio se preparar para dar início à construção de um grande estaleiro na Praia da Lapa, em Cacilhas, dotado de duas docas secas, sendo deste modo previsível que este último projecto o levasse a colocar em segundo plano das suas prioridades o investimento na Mutela [...]

Em 10 de Junho de 1865, António José Sampaio procede à escritura do aluguer de um pedaço de salgado na Praia da Lapa, em Cacilhas, para aí construir um estaleiro de maiores dimensões que aqueles que possuía nas proximidades da Quinta do Outeiro e no lugar da Mutela.

Em 17 de Dezembro de 1872, aquele industrial paga à Câmara Municipal de Almada, pelo foro do referido salgado situado em Cacilhas, a importância de vinte e dois mil e quinhentos réis. (2)


(1) O Defensor do Povo n.° 59, Coimbra, 9 de fevereiro de 1898
(2) Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes", Anexos

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Mais informação:
Restos de Colecção

Tema:
Construção naval