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terça-feira, 7 de julho de 2015

Os Almadas

O appellido Almada recorda os varões doutos, soldados valorosos, patriotas dedicados, que tantos tem havido em Portugal, porque todas estas qualidades prestigiosas se encontram nos que o teem usado. (1)

Armas de Almada chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

ABRANCHES — Trazem as armas dos ALMADAS de que são chefes. 

ALMADA (Port. e Esp.) — De oiro, banda de azul carregada de duas cruzes floridas do campo e vazias da banda, e esta acompanhada de duas águias de vermelho, armadas e membradas de negro (1). T. : uma das águias (2). E. de prata, aberto, guarnecido de oiro. P. [paquife] e V. [virol] de oiro e azul.

(1) A. M., fl.eOv. ; T. T., fl. 12 ; S. S., n.° 24; M. L. III, 174v.; B. P., fl. 46 ; T. N. P., a-22.— B. L., II, 463 e T. N., fl. 28, diferem apenas em não armarem nem membrarem as águias de negro.

(2) T. T., M. L., B. L., B. P. e T. N. P.
— Em S. S.  a águia é armada e membrada de oiro, e em T. N.  é toda vermelha.


O. B., com outros apelidos, em 1783 e 1797 (A. H., 887 e 156). — Conta-se que Henrique VII, Rei de Inglaterra, dera, em 2 de março de 1501, carta de acrescentamento de armas a Pedro Alvarez de Almada e o fizera cavaleiro da Jarreteira!
A verdade é que elle era em 1499 um modesto recebedor do almoxarifado e alfandega do Porto, a quem foi passada carta de quitação no anno de 1502 (Arch. Jiist. port, V, 73).
Vide também as judiciosas observações de Albano da Silveira Pinto na Resenha das famílias titulares I, 185, nota.


ALMADA, Condes de ABRANCHES — (Conde de Avranches, na Normandia, 4 de agosto de 1445, reconhecido em Port.; já em 1446, extincto em 1449 ; renovado em 1478, outra vez extincto já em abril de 1496.) As armas dos ALMADAS.

Brasões dos Grandes de Portugal, Conde de Abranches.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

ALMADA, Condes de ALMADA — (Conde, 4 de maio de 1793; extincto, 1874.) As armas dos ALMADAS.

Brasão d´armas de conde de Almada e Abranches.
Imagem: Wikipédia

ALMADA, Viscondes de VILA NOVA DE SOUTO DEL REI — (Visconde, 17 de maio de 1774; extincto, 1862.) As armas dos ALMADAS, e depois partido de LANCASTRE e ALMADA (2).

Em primeiro logar deve notar-se Antão Vasques de Almada (? - 1388), um dos heroes de Aljubarrota, citado por Luiz de Camões nos "Luziadas" e que muito contribuiu para o completo desbarato dos castelhanos n'aquella famosa batalha, sendo quem se apoderou do estandarte real de Castella, que lançou aos pés de D. João I, findo o combate.

Batalha de Aljubarrota, 14 de agosto de 1385.
Imagem: História de Portugal
E da outra ala, que a esta corresponde,
Antão Vasques de Almada é capitão,
Que depois foi de Abranches nobre Conde,*
Das gentes vai regendo a sestra mão.
Logo na retaguarda não se esconde
Das quinas e castelos o pendão,
Com Joane, Rei forte em toda parte,
Que escurecendo o preço vai de Alarte.


* Camões confunde-o com Álvaro, seu sobrinho.
Álvaro Vaz de Almada (1390 - 1449), da casa dos condes de Pombeiro, em torno do qual se condensa uma lenda poética de valor e lealdade incomparáveis. Foi irmão de armas do infante D. Pedro, duque de Coimbra, victima das intrigas palacianas.

Militou muito tempo em Inglaterra e nos exércitos do imperador Segismundo, de maneira que se falava d'este cavalleiro na Europa como n'um dos doze pares de França, que se mediam com gigantes e desbaratavam exércitos de muitos milhares de soldados. 


Cota d´armas de Álvaro Vaz de Almada, 1.º Conde de Avranches.
Imagem: Wikipédia

Sabedor das machinaçôes contra o infante D. Pedro, regressou logo a Portugal e nunca mais o deixou na vida nem na morte, pois que travada a batalha de Alfarrobeira, D. Álvaro Vaz de Almada pelejava como um leão, longe do infanfe, quando um pagem hie foi dizer, chorando: "Que fazeis, senhor o infante D. Pedro é morto". 

Dom Álvaro Vaz d'Almada.
Imagem: Wikipédia

D. Álvaro recebeu a noticia com semblante sereno, como se aquellas palavras, annunciando-lhe o passamento do amigo, não proferissem também a sua sentença. "Cala-te, e não o digas a ninguém", acudiu elle, e, sem mais demora, correu á sua tenda, tomou pão e vinho para cobrar esforço, que lhe prometesse morrer vingando-se.

Logo se lançou onde mais revolta andava a peleja. Apenas os inimigos o conheceram, todos os seus esforços convergiram contra elle, mas Álvaro Vaz, immovel entre as ondas dos inimigos, traçando em torno de si com a larga espada um circulo relampejante, derribava a seus pés todos quantos lhe passavam ao alcance do braço destruidor. Cançado de vencer, deixou pender o braço e disse com tristeza: "Ó corpo, já sinto que não pódes mais: e tu, minha alma, já tardas". 


Infante D. Pedro (?), 1.° Duque de Coimbra.
Painel dos Cavaleiros, Paineis de S Vicente.
Imagem: Wikipédia

Depois, estendendo-se no chão e offerecendo o peito ás espadas ardentes de vingança, que anciavam por se cravar n'elle, exclamou: "Ora fartar rapazes" ou "ora vingar villanagem!" Não foi necessário repetil-o, vinte espadas e lanças se enterraram ao memo tempo n'aquelle heroico peito, onde pulsava tão nobre coração. O dia 20 de maio de 1449 viu assombrosa lealdade cahir victima da mais requintada má fé.

D. Antão de Almada (1573 - 1644), tronco da casa dos condes d'este titulo, é porém o mais popular de quantos usaram este appellido, que parece ter sido bemfadado; foi um dos fidalgos que mais contribuíram para o feliz resultado da conjuração promovida por João Pinto Ribeiro para restaurar, em 1640, a autonomia de Portugal.

D. Antão de Almada (1573 - 1644).
Imagem: Wikipédia

Arriscou a vida, porque Miguel de Vasconcellos certamente lhe teria feito pagar caro o trama se o houvera descoberto. Era em sua casa que se reuniam os conjurados; foi ahi que se planeou o arro jado golpe de mão; foi elle quem conseguiu resolver a duqueza de Mantua a assignar-lhe uma ordem para o governador do castello de S. Jorge entregar a fortaleza aos sublevados.

Coroada de tão feliz successo a patriótica revoluçAo, ainda D. Antão foi um dos emissários enviados a todas as cortes europeas para obterem o reconhecimento da nova situação politica do paiz, competindo-lhe a corte ingleza, onde foi bem acolhido por Carlos II, que mais tarde veiu a desposar uma filha do novo rei, a qual em dote lhe levou a chave das índias. Morreu em 1644.

Francisco de Almada e Mendonça (1757 - 1804), a quém o Porto deve a sua prosperidade e os seus mais preciosos monumentos. Foi classificado por um auctor o "Pombal do norte".

Francisco de Almada e Mendonça.
Imagem: Wikipédia
Leitura recomendada:
Os Planos para o Porto - dos Almadas aos nossos dias

Ferreira Alves, Joaquim Jaime B., O Porto na época dos Almadas, 3 vols, Porto, Câmara Municipal do Porto, 1988

E outros muitos.

Brasão de armas da Villa d'Almada.
Imagem: A Villa de Almada

Estes citámos por constituírem glorias nacionaes; não são filhos de Almada, mas ramos da familia que ali teve seu solar e que não podem ser esquecidos, tratando-se da historia local. (3)


(1) Archivo Histórico, História da fundação das cidades e villas do reino, seus brasões d'armas etc., n.° 7, 1889
(2) Braamcamp Freire, Anselmo, Armaria Portuguesa, Lisboa, 1908
(3)
Archivo Histórico, idem

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Costa romântica de Bulhão Pato

A viagem de Cacilhas até os Capuchos será de uns oito kilometros, pouco mais ou menos.

A paizagem soberba: Alfeite, Valle de Morellos, Espadeiros, Sant'Anna, Valle de Flôres, e o Medo enorme da lagoa d'Albufeira, montanha de oiro resaindo das massas de vinhedos e pinbeiraes.

Pena é que os muros, ás vezes como pannos de fortaleza medieva, hoje, na maior parte, completamente inuteis, privem o viajante das variadas e graciosas perspectivas.

Caparica abraça uma area grande.

Começa á entrada da barra. Do lado do norte é banhada pelo Tejo na extensão de doze kilometros: pelo oeste, põe-he termo o oceano; ao sul alarga-se até Valle de Cavalla.

Como portos de mar tem Banatica, Paulina, Porto-Brandão, Portinho da Costa e Trafaria. Quantos e quantos quadros, com recordações historicas, se não podem tirar d'estes accidentados e fertilissimos logares!

Agora, rapidamente e em toques impressionistas, falarei do convento dos Capuchos, ponto de vista dos mais bellos das cercanias, onde ha tantos. Poucos se encontrarão em todo o pais que lbe sobrelevem, principalmente na originalidade.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Sobre as escarpas que se precipitam ao fundo do Juncal, levanta-se o templosinbo dos capuchinboe arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Tavora, quarto senhor de Caparica, em 1564. D. Lourenço, quando nosso embaixador em Hespanha, foi quem deu a Carlos V a replica, que apesar de velha tem sempre um travo picante.

Um dia o monarcha, mal humorado, disse-lhe:

— Eu sei muito bem quantas pontes e rios tem Portugal.

— As mesmas, senhor, que tinha em 1385.

O destemido e brilhante antecessor dos desditosos que foram feitos a pedaços no pavoroso cadafalso de Belem atirava á cara do Cesar omnipotente, nem mais nem menos, a batalha de Aljubarrota.

O convento dos Capuchos domina, ao nascente, a serra da Arrabida, divisoria do Sado e Tejo, e o castello de Palmella; ao norte, Lisboa e a serra de Cintra; a sudoeste, o Cabo, perfil exacto da cabeça de um elephante fabuloso, menos o dente: ao oeste, a barra, as torres de S. Julião e do Bugio, a bahia de Cascaes, perdendo-se depois a vista na curva remota do mar. Em baixo o Juncal, que vae da Trafaria ao Cabo. Os casalitos, os quinchosos, as courellas de vinhas, rccortando-se no chão plano e vastissimo. e resaindo das grandes manchas da joina e do junco. 

Caparica, Alto da Chibata ao Outeiro dos Capuchos (?), década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os medos de areia loira, tomando diversas formas e opondo-se, como trincheiras, aos assaltos do mar em furia. Quando o sol de purpura e de fogo baqueia nas ondas, joga-lhe as frechas incendiadas e, por momentos, toda a planura parallela ao azul do oceano parece uma leziria em chammas.

Costa da Caparica, arte xávega, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em pleno dia,se a povoação da Costa dá signal das negras de sardinha, de todos os casalitos do sope da rocha e disseminados pelo campo. partem cavallos e eguas beirõas acudindo a praia. Depois as recovas carregadas da pescaria, a travado largo, correm á venda, juncal abaixo. As raparigas trepam pela Fonte da Pipa e Villa Nova.

Lá vae aquella: [ver artigo relacionado: Viva da Costa]

Tudo isto se pode vêr e admirar do pobre convento hoje desmantelado, convento que ainda conheci forrado dos seus magníficos azulejos, vendidos de rastos ao primeiro que lhe deitou olhos mais ou menos entendedores.

Os arrabidos do conventinho ensinavam a lér os moços do Arieiro, de Villa Nova e da Costa. Pediam esmola uma vez por semana, e pedindo esmola fizeram a sua casa conventual. 

Caparica, Outeiro dos Capuchos, ed. desc., década de 1900. [A remover]
Colares, Subida vindo da estrada velha de Monserrate.
Imagem: Dias que Voam

Acudiam-lhes com bizarria os fidalgos de primeira grandeza, que em tempos isto foi a Cintra, o Estoril e o Cascaes de hoje, e tambem lhe valiam com mão profusa lavradores abastados d'estes contornos.

Assim se fez, com auxilio de uns e de outros, e não com a capa lendaria estofada de dobrões do pobre pedinte, o bello templo, dos finaes do seculo XVI, de Nossa Senhora do Monte, templo que ia a desabar em ruinas.

Hoje está em pé e restaurado, graças aos esforços do meu velho amigo José Dias Ferreira.

Terminarei este rapido bosquejo com uma anecdota, que apesar de impressa no "Portugal Antigo e Moderno", não será muito conhecida.

D. João VI foi um dia á Costa. O pacifico monarcha era bom garfo, bom dente, soberbo estomago e amador de pratos nacionaes.

Deram-lhe na Costa uma caldeirada. Pois, senhores, de tal modo ficou maravilhado o principe, cuja virtude suprema não era a generosidade, que rompeu n'este rasgo:

Fez "Mestre das Caldeiradas" o bemaventurado que lh'a preparou, estabelecendo-lhe 800 réis diarios emquanto fôsse vivo.

A casa onde D. Joao Vl se banqueteou lá está na Costa e com as armas reaes como recordação.

Costa da Caparica, Casa da Coroa, José Manuel Soares (detalhe).
Imagem: Notícias da Gandaia

Ali foi depois D. Maria II e D. Pedro V. Muita gente do sitio me tem contado, com grande admiração e estranheza, que D. Maria II comia as sardinhas como a gente do povo: em cima do pão e ás dentadas. Comeu n'aquelle dia, d'esta fórma, para mais d'uma duzia.

As nossas elegantes de hoje, que venham ver na primavera e verão a deslumbradora vista do convento dos Capuchos, sigam depois para a Costa, que lhes fica fronteira a dois passos, e comam as picantes sardinhas d'aquella praia como as comia a filha imperador D. Pedro IV, rainha portuguesa das mais pontuaes no seu officio, e das mais dignas na altivez da sua soberania.

Monte de Caparica, Torre
Fevereiro 1906
Bulhão Pato



(1) Bulhão Pato, Illustração Portugueza, Convento dos Capuchos, Lisboa, 29 outubro 1906