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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cais da farinha

Estas fábricas estão situadas na rua Direita do Caramujo, occupando uma área de 800 metros quadrados, approximadamente, isto é, tomam o quarteirão inteiro que fica entre a travessa da Praia e o beco do Paiva.

A primeira foi fundada, em 1864, por Manuel José Gomes, e que hoje [1897] era aproveitada para depósito de trigos, escriptório e habitação do proprietário, morando ali actualmente sua irmã a Sr.a D. Magdalena Rita Gomes; casa das bombas e mais material estando tudo na melhor ordem, depósito de madeiras e casa de despejos.

A segunda foi fundada em 1872, e tinha dois pavimentos. No rez-do-cão estavam installadas as antigas machinas e promptas para entrarem em elaboração quando fosse necessário; no 1.° andar apenas trabalhava um par de mós, e no 2.° andar havia o depósito de trigo, que era levado para a fábrica nova por meio de elevador.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864 e 1872.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A terceira foi construída em 1889, e tinha seis pavimentos: no rez-do-chão era a casa das maquinas; no primeiro pavimento havia compressores e triruradores, no segundo parafuzos e nóras, no terceiro reformas e dois "sasseurs", no quarto planchistas de systema moderno e peneiros, no quinto peneiraçãoo e no sexto acabamento de noras. 

Almanach Commercial, Viúva de Manoel José Gomes & Filhos,1889.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

No segundo pavimento também havia reparação de trigo e espalhadora. no terceiro bandejas e despertadores. no quarto crivos de tirar semente, peneiros para trigo e duas taráras, no quinto peneiração de trigo e um quarto para receber o pó do mesmo trigo.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Imagem: Maria Conceição Toscano 
Nesta foto conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas a unidade fabril inicial num complexo moageiro: de sul para norte vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica primitiva; separado destes por um vão, alargamento posterior, de 1872 (onde em 1897 ainda funcionavam a máquina e as mós antigas); por último, o edifício principal, construído por volta de 1889 [...]

in Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Como acima dissemos, estas fábricas estao installadas na rua Direita do Caramujo, tendo trazeiras para o rio, onde está construída uma grande doca para recolher as embarcações que se empregam na carga e na descarga dos trigos, farinhas e mais materiaes.

Na mesma rua e em frente das fábricas está installada a casa das caldeiras, que por baixo da rua e por meio d'um cano, passa o vapor que faz funccionar todo o machinismo das fábricas; assim como também por baixo da mesma rua passa um outro cano que communica mm o rio, e d'onde é tirada a água por meio d'uma machina que tambem está ali installada.

Do lado da casa das caldeiras estão tambem as oocheiras e armazém de vinhos do Sr. António Cruz Paiva.

O edificio da nova fábrica foi construido (em 1889) junto ao da antiga, ficando muito superiora este, e em condições de muita segurança.

Tinha grande número de janellas que deitavam para a frente, para o beco do Paiva e para o lado da antiga fábrica, mas tanta estas como aquellas, eram resguardadas por portas de ferro, para assim, quando se desse qualquer sinistro, evitar que um ou outro edificio fosse atacado.

No beco do Paiva está installada a officina de serralheria e no primeiro andar era o deposito do pó que recebia da fábrica nova por umas calhas, zincadas exteriormente.

D'este andar para a fábrica. havia uma ponte para passagem do pessoal, tendo as competentes portas de ferro.

A nova fabrica tinha, do lado da frente, uma parede mestra, a altura de todo o edificio, para resguardo da casa da machina e mais dependencias.

Um violento incêndio, em 10 de Junho de 1897, destruiu grande parte daquelas instalações fabris da moagem, deixando apenas as fachadas e as paredes mestras.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca, Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

O acontecimento deplorável alarmara, logo de manhã, toda a população das terras da margem sul do Tejo. Um clarão rebentou subitamente, aiongou-se e cobriu o horizonte desde o Caramujo a Cacilhas, dando para quem estava em Lisboa a impressão de que tudo ali se encontrava em chammas.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca,
Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Felizmente a sinistro não attingiu tão grandes proporções, mas ainda assim há a registar-se um desastre enorme, pois o fogo destruiu duas importantes fabricas e sem a rapidez e energia dos soccorros muito maiores seriam os prejuizos.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca,
Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os prejuizos são calculados em 300 contos de réis. Dos edificios só ficaram as paredes, pois todo o machinismo está deteriorado, não só pelo fogo como também pela água. A casa da machina da nova fábrica, e que estava resguardada por uma parede mestra, sofireu enormes prejuizos occasionados pela água.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca,
Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Também soffreram bastantes perdas alguns moradores que, receando que o fogo se communicasse, começaram a deitar para a rua as mobilias, e foram elles: Manuel Mathias, com taberna na mesma rua, sem seguro; V. António dos Santos Mendes, idem, com seguro na Bonança; Guilhermina da Conceição, moradora no 1.° andar da mesma rua, n.° 19; D. Joaquina do Carmo, viúva, proprietária do prédio 21 e 22, que tem seguro na Fidelidade, mas não tem no seguro a mobília.

Os armazéns do sr. Paiva também soffreram prejuizos no telhado. (1)



(1) A Vanguarda, Lisboa, 11 de junho 1897, citado em Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs..

Leitura adicional:

Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.

domingo, 30 de março de 2014

Cova da Piedade em 1890, a ponte do Caramujo

Em princípios do século XIX o local [Caramujo] era uma larga restinga de areia que fechava um antigo esteiro, então já reduzido a um grupo de valas e uma caldeira de moinho de maré [dito da Mutela ou do Mesquitela] 

A sul da caldeira ficavam as valas alimentadas pelas águas do ribeiro da Mutela (o que corre pelo vale de Mourelos) e pelas águas de maré. A passagem entre as valas e a caldeira era "a ponte", nome que ainda hoje é lembrado. (1)

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

A ponte do Caramujo, na sua forma primitiva ligava a Mutela ao Caramujo nos finais do séc. XIX... A grande vala representada na ilustração [sic] era uma das valas provenientes do largo da Piedade, que mais tarde foi aproveitada para colocação do colector.

Em 1923, [o Dr. António Resende Elvas] montou o consultório na rua Capitão Leitão (Almada), depois na rua Manuel Febrero e, em 1935, mandou construir a "Clínica Dr. António Elvas" na Mutela, no lugar da ponte do Caramujo (2).

Clínica de Dr. António Elvas, 1935
Imagem: João Elvas 

É criada [em 1944] uma zona de protecção ao conjunto de instalações da marinha do Alfeite e, dentro dela, uma zona de expansão e influência dessas instalações.

A zona de protecção é demarcada, pelo lado do rio, pela linha de margem compreendida entre o limite SE das instalações do quartel do Corpo de Marinheiros e o ponto de encontro dessa linha com o prolongamento, até a rio, das fachadas do lado norte da rua que liga à estrada nacional n.° 19-1.° no local designado por Ponte do Caramujo. (3)

Zona de protecção das Instalações da Marinha no Alfeite
Imagem: Diário da República, I Série, n° 138, 28 de Junho de 1944


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

(2) Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

(3) Diário da República, I Série, n° 138, 28 de Junho de 1944, pág. 584
 
* Barrocas, António, Arte da luz dita, revistas e boletins teoria e prática da fotografia em Portugal (1880-1900), Vol. II, 2006