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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro

Este livro [Livro do Centenário da Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro, 1883-1983] escrito e ilustrado por António Henriques [v. Centenário de António Henriques (1915-2015)] em 1983, data da comemoração do centenário da Associação, debruça-se sobre a sua fundação e história; contém a lista dos sócios fundadores e principais beneméritos, exposição do processo da construção da sede da coletividade, descrição das comemorações e solenidades registadas por ocasião das festividades do dito centenário; listagem dos médicos que prestaram serviços para a associação, bem como as representações feitas por esta nos funerais dos sócios; relações dos corpos sociais no decorrer daquele século de história e uma sucinta narrativa da história do mutualismo em Portugal, com o registo dos montepios existentes no país. (1)

Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro
Imagem: InfoGestNet

Nos anos de 1861 a 1889 a Pátria Portuguesa esteve sob o reinado de. D. Luís, cognominado "O Popular", época assinalada por grandes melhoramentos e importantes reformas que muito contribuiram para o progresso material e moral da Nação, principalmente em 1883 que se distinguiu pelas explorações científicas que se efectuaram através do continente africano, em terras sertanejas de Moçamedes e Quelimane, num percurso de alguns milhares de quilómetros, que causaram, ao tempo, a admiração da Europa e glorificaram o nome de Portugal. 

António Henriques, notável associativista almadense.
Imagem: Centenário de António Henriques (1915-2015)

Ao mencionarmos aquele longínquo ano, Almada foi também palco do que pode-10 querer decisivo dos homens, na ideia concebidas em consistentes princípios de relevância social e humanitária, de protecção aos trabalhadores que esteve na origem da criação, a 22 de Novembro, da Associação dos Operários de Cortiça "1.° de Dezembro", acontecimento de muito orgulho para os almadenses, denominação que em Novembro de 1884, se transformou em Associação dos Operários de Cortiça e Artes Correlativas "1.° de Dezembro", até Fevereiro de 1885, passando a partir desta data, e até hoje, a chamar-se Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro.

Os notáveis fundadores todos operários da classe corticeira, em Margueira foram, com a concordância de todos os cidadãos: Francisco Borja de Almeida Ferreira, José Tavares Veloso, Norberto dos Santos Júnior, José Anastácio de Almeida e, muito provavelmente, José Custódio Gomes e José da Costa ou José da Costa Leal.

Cacilhas, Caes e Farol, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A Associação teve a sua primeira sede social em Cacilhas, na Rua Direita de Cacilhas (antiga denominação) com o número 30, de polícia, actualmente Rua Cândido dos Reis.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

O edifício ficava a direita de quem se dirige para Almada, localizado imediatamente a seguir a Igreja de N.ª S.ª do Bom Sucesso, em frente da que foi "Escola de Instrução Primária, da Professora D. Henriqueta" (foto assinalada com X).


Mas, segundo outra fonte (talvez menos verosímil) , a primeira sede ficaria no prédio situado no começo da Calçada da Pedreira, também em Cacilhas, actual Rua Elias Garcia, a direita de quem se encaminha para Almada, ligeiramente defronte do portão da já desaparecida "Quinta do Pinto" [...] mantendo-se a Associação em Cacilhas até fins do ano de 1887 [...]

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Comissão iniciou, de pronto, os seus trabalhos para a aquisição de um imóvel ao aparecer-lhe para venda uma casa abarracada e quintal, situada, segundo consta da respectiva acta, entre as Ruas do Forno e da Judiaria, em Almada [...]

A mesma Comissão, depois de, naturalmente, ter procedido a mais "démarches", optou pela compra da casa abarracada, situada em Almada, também na Rua Direita, ao Cabo da Vila (hoje Rua Capitão Leitão), pelo preço de 1.300.000 reis, que acrescida da quantia de 2.300.000 reis, importância calculada para a construção do 1.º andar e apropriar o r/chão, totalizava 3.600.000 reis. 

Apresentados os resultados das diligências efectuadas a Assembleia Geral, bem como a decisão da Comissão favorável a compra do dito imóvel, sito ao Cabo da Vila, foi aprovada por maioria a sua aquisição, atendendo, principalmente, a localização das que seriam as futuras instalações desta tão benemerente instituição [...]

Para o bom êxito desta transacção, bastante se ficou a dever, também, aos sócios Manuel Ferreira, José Francisco de Avelar e Silva, Eduardo Augusto Cristóvão, João Pedro Rodrigues de Paiva. 

Rapidamente, foram estudados e aprovados os planos das obras a efectuar para a construção da Sede, as quais começaram, ainda, no aludido ano de 1904, sob a orientação técnica do Mestre-de-obras, José Avelar.


A inauguração da nova Sede, propriedade da Associação, dá-se a 12 de Março de 1905, com toda a solenidade e a presença das duas Bandas Musicais da terra, a Incrível e a Academia Almadense, que se faziam acompanhar de bastante público.


Em Novembro de 1933, foram feitas reparações interiores e exteriores no prédio, tendo sido colocada no cimo da fachada do edifício uma pedra com o nome da Associação e a data da sua fundação, num trabalho do técnico profissional, o almadense José Duarte Cordeiro. (2)

100 anos de amor ao próximo

Faltavam ainda dezassete anos para entrarmos no Século XX quando um grupo de trabalhadores de Almada tentou realizar mais um sonho incrível...  — a fundação de uma associação de socorros mútuos. De mãos calejadas e vazias de reais, cercados das carências mais elementares e vivendo numa época de atraso técnico e científico, estes cidadãos uniram-se num grande querer — e o milagre aconteceu.

A então vila de Almada comportava uns escassos milhares de almas que se consumiam em dez, doze e mais horas de trabalho diário, tendo na Sociedade Filarmónica Incrível Almadense (1848) e na Associação dos Artistas Almadenses (1856) os únicos oásis recreativos e culturais.

As ruas da freguesia deixaram por essa ocasião de ser alumiadas a óleo de peixe aparecendo a novidade dos candeeiros a petróleo. A escola Conde de Ferreira, no Campo de São Paulo, era a única fonte do saber oficial. Tardavam em aparecer a Cooperativa Almadense (1891) e a Piedense (1893), assim como as filarmónicas da SFUAP (1889) e da Academia (1895). Os bombeiros de Cacilhas (1891) e de Almada (1913) não passavam de desejos. Os grupos desportivos só no próximo século germinariam timidamente. Tabernas não faltavam e uma zona de prostituição era autorizada na Rua do registo Civil, na Boca do Vento. A praga do analfabetismo no reinado de el-Rei D.Luís I rondava os 80 por cento.

Romeu Correia, escritor almadense neorrealista.

Mas aquele punhado de operários e lojistas sabiam que na unidade residia a força que operava prodígios. Os ideais republicanos conquistavam os jovens mais esclarecidos e uma boa parcela de intelectuais da pequena burguesia. Faltavam oito anos para a primeira tentativa, aliás frustrada da revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891. Seria preciso esperar ainda até 1910 para que a Monarquia secular fosse derrubada. 

Os habitantes desta margem do Tejo orgulhavam-se de Almada ter sido berço do mais prestigioso vulto da propaganda republicana na sua primeira fase: José Elias Garcia (1830-1891). Cidadão nascido em Cacilhas, tinha dois anos quando seu pai condenado ao suplício da forca pelos miguelistas fora libertado pela vitória liberal de 23 de Julho de 1833. Mas cinquenta anos depois (a 22 de Novembro de 1883), quando nasce a Associação de Socorros Mútuos "1.° de Dezembro", o leque político dividia-se por anarco-sindicalistas, socialistas e republicanos liberais, além dos adeptos da monarquia vigente. 

Luís de Queiroz, almadense notável e dirigente da
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro

Recordando o mundo de então sob o ponto de vista sanitário e estabelecendo o confronto com o progresso actual, verificamos um atraso que causa espanto. A tuberculose e a sífilis pairavam no horizonte dos jovens como um mal fatalista. As crianças enfrentavam mil moléstias antes de dar os primeiros passos. As pestes periódicas ceifavam famílias inteiras. Do vocábulo "micróbio" até então ninguém tinha ouvido falar... 

Apelando para a paciência do leitor, talvez seja oportuno recordar algumas das principais criações do génio do Homem quando e depois da fundação da "1.° de Dezembro". Um pouco antes Alexandre G. Bell inventara o telefone (1876) e Thomas Edison o gramofone (1877). Pasteur descobre a vacina anti-rábica (1885). Construção da Torre Eiffel; Exposição Universal de Paris (1889). Os irmãos Lumière inventam o animatógrafo (1895). Marconi descobre a T.S.F. e Rontgen os raios X (1896); 1.a corrida de automóveis em 1896; 1.° voo de avião em 1897. Curie descobre o rádio (1898). Einstein formula as leis da relatividade (1905). Augusto Lumiére cria a fotografia a cores (1907). Travessia aérea da Mancha em 1908. Descoberta da vitamina Funk (1912). Advento do cinema sonoro; travessia aérea do Atlântico por Lindberg (1927). Alexandre Fleming descobre a penicilina (1928). Lançamento pelos americanos da primeira bomba atómica (1945). Experiencias com a bomba sobre Hiroshima e Nagasaki (1945). Apelo de Estocolmo para a interdição da bomba atómica (1950). Experiências com a bomba de hidrogénio (1956). Lançamento do primeiro satélite artificial pela União Soviética (1957). Os americanos pisam a Lua (1970).

José Carlos de Melo, almadense notável e dirigente da
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro

Mas na pacata vila de Almada, hoje cidade, a nossa Associação de Socorros Mútuos manteve-se contra procelas sociais e politicas, numa prova indestrutível da obra mutualista dos generosos fundadores. Muito do seu historial se perdeu no correr dos anos. Mas sabemos que muito cedo adquirira edifício próprio para sede, da qual legitimamente se orgulhava. Como regalias dispensadas aos associados, a "1.° de Dezembro" tinha assistência médica e medicamentosa, enfermagem e, em anos melhores, parteira, subsídio para cura de água, carro funerário e enterro.

Pelas direcções passaram centenas de cidadãos dos melhores quadros do movimento associativo da vila, hoje cidade. Os antigos almadenses falam ainda, saudosos, da grande festa anual em beneficio da Associação no Teatro da Trindade, em Lisboa. Durante meses, os associados e seus familiares sonhavam com o deslumbrante passeio, os vestidos e as farpelas a estrear, o espectáculo, o baile — oh gentes daquele tempo como a solidariedade floria em amor e felicidade! 

Pelicano Eucarístico
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro
Imagem: InfoGestNet

Mas os anos e os homens são outros, Hoje resta-nos desejar que a árvore secular seja mais acarinhada, mais auxiliada, mais reconhecida por quem pode e manda neste País de milhões de pobres e de alguns milhares de senhores tão ricos, tão ricos.

São os nossos votos. Ámen

Romeu Correia (3)


(1) InfoGestNet
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Informação relacionada:
Centenário de António Henriques (1915-2015)
Almada em 1897
José Carlos de Melo

terça-feira, 20 de junho de 2017

Pancadaria

Uma senhora de Lisboa, tendo, de ir á Piedade, alugou em Cacilhas, um cavallo. Na volta, quando chegou a Mutella desequilibrou-se e deu uma grande queda, ficando bastante contusa.

Almada, vista sul, Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na occasião passavam dois actores do theatro do Principe Real em um trem, e apeando-se metteram a senhora no trem, montando em seguida os dois no cavallo.

Selo dos Templários mostrando dois cavaleiros num só cavalo.
Imagem: Wikipedia

Quando chegaram a Cacilhas apparece-lhes o dono do cavallo, que depois de pequena altercação puchou por uma perna de um dos cavalleiros que bateu com as costas na calçada arrastando o companheiro na queda.

Trens de aluguer em Cacilhas, c. 1907.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

Escusado é dizer que, levantando-se irados, saltaram no espinhaço do atrevido cacilheiro, desancando-o muito soffrivelmente.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Acode, porém, um bando de burriqueiros, cada um com seu cacete, que certamente teriam feito n'um feixe as costellas dos dois actores, se não apparece o official Vidigal que auxiliado por alguns soldados do destacamento de infanteria 2, apasiguou os desordeiros. 

Almada, Camara Municipal,
ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
Imagem: Delacampe

Os actores foram recolhidos na cadeia d'Almada, onde passaram a noite. De manhã foram soltos com fiança. (1)


(1) Diario Illustrado, 22 de abril de 1883

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Hollanda

Scheveningue [Scheveningen] é uma das principaes estações da pesca riquíssima do harenque. Mas em Scheveningen, e nas demais aldeias marítimas na Hollanda, assim como na Povoa e na costa da Caparica em Portugal, são os proprietários dos barcos e das redes que empolgam o melhor dos lucros, e o pescador propriamente dito é vilmente explorado pelo empreiteiro.

Scheveningen, cromolitografia, c. 1900.
Imagem: Wikimedia

O bairro dos indígenas é quasi tão pobre, em Scheveningen, a duas milhas da Haya, como na Trafaria em frente de Lisboa. A população tem porém aqui um caracter mais grave, uma apparencia mais austera, porque os homens são verdadeiramente navegadores e não catraeiros como na bacia do Tejo.

Scheveningen. Secagem de solhas, aguarela, Vincent van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

Quando chega a estação da pesca, no principio de junho, os de Scheveningen partem para o largo, até os mares da Escossia, n'uma flotilha de solidas embarcações cobertas, largas, de um só mastro, com uma vela quadrada, protegidas por uma corveta de guerra, que as acompanha, representando o governo neerlandez na policia do mar.

Scheveningen. Despedida do pescador, pai e marido, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: paintings old masters blog

Os harenques pescados vêem em cada dia para Scheveningen, com o demais peixe da costa vendido na praia em leilão, mas a grande companha de pescadores do alto não regressa senão quando a faina termina aos vendavaes do outomno.

Scheveningen. Partida dos pescadores para o mar, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Esses homens tão valorosos, tão simples, tão despremiados, tão pobres, sabem todos ler e escrever. Levam comsigo, ao partir, uma biblia, que lêem em grupo no convez ás horas da folga, e não bebem senão agua emquanto permanecem a bordo.

Scheveningen. Barcos de peca nas vagas, Hendrik Willem Mesdag,  (1831-1915).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Quando a tempestade rebenta, e depois de grande luta elles se convencem de que não podem dominar a inclemência do mar, fecham as escotilhas, e immoveis na pequena camara, silenciosos, de mãos debaixo dos braços, esperam heroicamente a morte, ao mesmo tempo que em terra, ao abrigo das dunas em que escachôa o mar, como por traz das trincheiras de uma bateria bombardeada, nas cabanas sacudidas pelo tufão, junto do lar querido, n'um aceio religioso de altar, as mulheres pallidas de terror, cantam os psalmos.

Praia de Scheveningen durante um tempo tempestuoso, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikipedia

Em todo o tempo da pesca ninguém vê em terra um só homem valido.

As ruas da aldeia, bem differentemente das aldeias da beira-mar em Portugal, são tão escrupulosamente aceiadas como o tombadilho de um navio de recreio. Nem a pilha de estrume, nem o lixo esparso debicado pelas galinhas ao sol, nem a camada que sobeja do isco dos anzoes a fermentar na areia, nem as creanças sujas por vestir e por assoar, nem os peixes escalados presos com três pregos ás portas escancaradas.

A aldeia de Scheveningen, Hendrik Willem Mesdag, 1873.
Imagem: Geheugen van Nederland

Todas as casas de Scheveningen estão fechadas ê reluzem pintadas de novo. Atada ás janellas alveja a cortina de cassa, e poisa no peitoril um vaso de flores.

Os pequenos ou vão para a escola ou vêem da escola, e trazem debaixo do braço a sua lousa.

Branquear a roupa em Scheveningen, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

As casas de cada escola distinguem-se das demais pelo montão dos tamancos que os alumnos de um e de outro sexo descalçam á porta. Esta ceremonia não os arrefece consideravelmente porque a escola é confortavelmente aquecida nos mezes de inverno, e as grossas meias de lã dos alumnos teem a consistência de sapatos.

Praia de Scheveningen, Johannes Joseph Destrée, 1871.
Imagem: Wikimedia

As mulheres vendedoras de peixe usam a saia curta, uma romeira cinzenta e um amplo chapéu que as abriga do sol e da neve e que ellas carregam sobre os olhos quando no tempo da neve partem em patins sobre os canaes gelados, com uma velocidade vertiginosa, de quatro léguas por hora.

Scheveningen. Pontão rainha Guilhermina, 1908.
Imagem: writer's block

A população dos banhistas habita quasi toda sobre as dunas, á beira d'água, no Hotel Belleville, no Hotel Ganil, no Hotel des Bains, ou em pequenas villas pittorescamente dispersas pela cordilheira em miniatura, formada pelas successivas serras de areia adhefida pela vegetação e plantada de urzes e de giestas salpicadas pelas escabiosas selvagens, conhecidas em Portugal pelo nome de saudades do campo.

Cavaleiros na praia de Scheveningen, Anton Mauve (primo de Vincent van Gogh), 1876.
Imagem: Rijksmuseum

Nada mais risonho nos dias de verão, sob a luz dourada do sol descoberto e do céu azul, do que o aspecto matinal, á hora do banho, d'esta immensa praia de areia finissima, sem pedras, sem conchas, semelhante á da costa portugueza no espaço que medeia entre o Cabo de Espichel e a Torre do Bugio. (1)


(1) Ramalho Ortigão, A Hollanda, Porto, Magalhães & Moniz, 1885

Imagens adicionais:
Scheveningen Toen en Nu

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O pântano

DESSECAÇÃO DO PÂNTANO DO JUNCAL, FIXAÇÃO DAS DUNAS E ARBORIZAÇÃO DOS TERRENOS DA TRAFARIA E COSTA DE CAPARICA

Em virtude dos esforços do sr. Jayme da Costa Pinto esclarecido e zeloso representante às cortes pelo círculo de Almada trata-se de realizar, como já dissemos, este importante melhoramento de há muito reclamado.

De um relatório do senhor Henrique de Mendia, com grande senso scientifico e profundo conhecimento do assumpto, vamos extrahir alguns dados interessantes relativos a esses trabalhos.


Os terrenos a que nos referimos, occupam uma superficie de 1,800 hectares e constituem as dunas ou areias, moventes de Caparica, Valle de Trafaria e pantano do Juncal, o beneficio projectado é orçado em pouco mais de 58 contos ds réis. 

As dunas da costa de Caparica são constituídas par um trato de areias moveis limitadas pela Torre do Bugio, onde tem a sua menor largura, margem esquerda o Tejo, até próximo da povoaço da Trafaria, recurvando-se com a linha da costa banhada pelo oceano, estende-se para sul até ás proximidades da lagoa de Albufeira, tendo por limite para o interior das terras a base da escarpa e uns terrenos mal cultivados denominados a Charneca.

Costa da Caparica, ponte de madeira sobre a vala, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Não nos podemos eximir á satisfação do desejo de transcrever aqui as palavras eloquentes com que o sr. Henrique de Mendia descreve as condições de existencia na povoação da Costa:

"Não se descreve, diz o illustrado agrônomo, porque difficilmente se imagina o árido e desolador aspecto d'estes incultos areaes formados por uma infinidade de dunas de mediana altura em extremo moveis nos logares mais desguarnecidos da pobre é dispersa vegetação rasteira, que n'outros pontos existe com proveito e castigados por um sol ardente que se reffecte e espelha de continuo na silica brilhante.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
(sondada e rectificada a margem sul em 1879)

É esta a paisagem que o viajante descobre á entrada do nosso primeiro porto e da nossa primeira cidade, e é n'este meio que existe uma povoação de muitas almas, acossada pelas areias que procuram de continuo atacar-lhe as trincheiras rudemente defendidas, sem uma estrada regular, que a ponha em eommunicação com os logares populosos, tendo no mar o seu quasi exclusivo sustento, procurado á custa de heroicos esforços tantas vezes impotentes e nas exhalações deletérias dos pantanos do Juncal o germen constante das febres paludosas de que annualmente enfermam familias inteiras.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Bem triste povoado e desgraçados habitantes que teem por unico abrigo a choupaqa de colmo, mais pobre do que  a cubata de negro, sem que ao menos encontrem na organisação d'este as forças indispensaveis para reagir e lutar contra os miasmas exhalados pelas águas estagnadas e putridas que os prostam ás vezes tão repentinamente como se um accidente os accommettera de imprevisto."

O sr. Henrique de Mendia considera a arborisação das dunas cuja supercie se avalia em cerca de 1,400 hectares como o unico meio de melhorar as más condições d'aquelle trato de terreno.

Trafaria — Valla e estrada da Costa.
Delcampe

Como a verba mais importante n'este revestimento dé terrenos é o transporte do matto para cobrir as sementeiras, lembrou-se o illustre agronomo de substituir o transporte do matto dos Pinhaes do Conde dos Arcos e Caparica cuja verba não seria inferior a 2$400 rs. por hectare de sementeira pelo transporte fluvial da Matta da Machada e de Valle de Zebro á Trafaria, ficando assim o custo médio da carrada por 630 rs. em vez de 2$400 réis e portanto o hectare por 50$400 réis, verba á qual adicionando-se outras despesas, guarda do terreno, etc se eleva apenas a 66$000 réis.

A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Calculando o terreno a cobrir êm 900 hectares em consequencia de se deixar 500 hectares para logradouro dá povoaçao, facha de resguardo, zona invadida pelo oceano, etc. a importancia total do revestimento das dunas, sem duvida um dos mais urgentes e uteis melhoramentos do nosso porto, fica em 52:800$000. Ao sr. Henrique de Mendia cabem bem merecidos encomios pelo modo intelligente e economico como indica a realisação d'esse melhoramento.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

O valle areiado da Trafaria passa próximo de Murfacem, toca na costa do Cão e estende-se além de Pera, mede 2 kilometros de extensão sobre 300 metros de largura media, o que dá 80 hectares de superficie. As obras indicadas são, além da sementeira, uma boa e bem construida sebe de defesa na linha de incidência dos ventos reinantes o alguns abrigos internos de mais ligeira construcção entrecrusadas de espaço a espaço, orçadas importancia de réis 3:600$000.

Uma superfície de 30 a 40 hectares, que rodeia a povoação da costa e fica encravada entre as dunas da costa de Caparica e a Charneca é constituida por terrenos alagados, conhecidos pelo nome de Juncal, denomipação proveniente da abundância de juncos, que ali crescem. 

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1940 (?).
Imagem: Delcampe - Oliveira

Esse pântano alimenta-se das águas pluviaes e do oceano; que por vezes irrompe atravez das areias, depositando ali as suas águas, que ali fjcam represadas por falta de escoantes, em consequencia do nivel do terreno ser inferior ao do oceano. Esta mistura e estagnação produzem miasmas deleterios, ainda mesmo no inverno.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Para combater estas condições são indicadas as vallas profundas e bem orientadas e uma plantação bem dirigida do encalyptus globolus, arvore de grande poder esgotante e de efficasissimas propriedades hygienicas, estas arvores serão no numero de 39,990 o as vallas occuparão 2,000 metros correnles. 

Costa da Caparica, acesso à Via-Rápida,década de 1960.
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

A despeza total para a dessecação e plantação do pântano do Juncal, incluindo o ordenado do guarda no 1.° anno, está calculada em 2:586$900 réis.


(1) Artigo original de Gervásio Lobato publicado no Diário de Notícias e republicado em A Realeza, de Duarte Joaquim Vieira Júnior, edição 1 de de 2 de setembro de 1882, e no Diário de Belém, edição de 3 de outubro de 1882.

Artigos relacionados:
O Juncal
A costa no século XIX
Mata do Estado e Quinta de Santo António


Leitura relacionada:
Material vegetal da Margem Sul do Tejo: da Costa de Caparica até ao Seixal

terça-feira, 23 de junho de 2015

O incendio da fabrica da Margueira

A nossa gravura de hoje representa o incendio da fabrica da Margueira, visto de Lisboa, na noite de 18 [de março de 1883], e illuminando o Tejo com os seus clarões sinistros. (1)

Incendio na fábrica de cortiça Henry Bucknall & Sons, 17 de março 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

Hontem, pelas 11 horas da manhã, o vento soprava rijo do sul, espalhou pela cidade denso fumo, não tardando em cair uma chuva de cortiça carbonizada.

Correu logo a noticia de que havia na Outra Banda um incendio pavoroso. De facto os curiosos que correram a extensa cortina do Aterro viram elevando-se do lado do sul uma enorme columna de fumo, por entre a qual surgiam grandes labaredas. Parecia que se achava em chammas toda a casaria de Cacilhas.

A força do vento e a violencia do incendio eram taes que não só caiam grandes bocados de cortiça queimada no caes do Sodré, ruas do Alecrim e immediações, mas até muitos bocados foram a enormes distancias.

Na rua do Sol ao Rato, no Campo de Sant'Anna e até na estrada de Palhavã foram cair pedaços de Cortiça.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O sr. visconde de Coruche, voltando da Charneca, encontrou na estrada, muitos pedaços de cortiça que tinham sido lançados até ali.

Averiguou-se emfim que o fogo era na Margueira, na grande fábrica de cortiça dos srs. Henri Buchnal & Filhos [Henry Bucknall & Sons], de Londres. Sabe-se que era aquella uma das maiores fabrica porque havia ali mais cortiça do que toda a que ha em todas as outras fabricas do reino, e que empregava um pessoal de 400 pessoas. Ocupava uma area immensa, sendo a parte já incendiada de nada menos de 3:000 metros.

Além dos grandes armazens bem providos, existiam n'essa area grandes pilhas de cortiça em bruto, que se tornaram em outras tantas montanhas de fogo.

O fogo manifestara-se ás 10 horas e meia em uma das grandes pilhas, assumindo logos as mais assustadoras proporções.

Os primeiros socorros foram logo prestados pelas proprias gentes da fabrica, que pouco ou nada podia faser, em rasão dos seus esforços serem destruidos pela força do vento.

Quando chegou a primeira bomba, que foi a do Vasco da Gama, acompanhada por um contigente d'esse navio, já o fogo se comunicara a um grande numero de pilhas, ameaçando devorar toda a fabrica.

Couraçado Vasco da Gama, gravura, J. Pedroso, O Occidente, 1880.
Imagem: Hemeroteca Digital

Apóz essa bomba compareceram as das corvetas Rainha de Portugal, transporte de guerra África, bomba a vapor do arsenal de marinha, a dos voluntarios de Lisboa e Junqueira,  Almada, bombas municipaes de Lisboa 1 e 17, pessoal dos carros 21, 23 e 24, um piquete de 60 praças de sapadores etc.

Desenvolveu-se a maior actividade no ataque, funccionando todas as bombas e pessoal á proporção que iam chegando. Na inteira possibilidade, porém, de se salvar a fabrica, convergiram as atenções para a rua principal de Cacilhas, cujos predios do lado do nascente, desde o n° 91 até 150 se achavam em grande risco. Em alguns d'elles e na igreja chegou mesmo a pegar o fogo. Aos grandes esforços no entanto empregados pelo pessoal encarregado da defeza d'essas propriedas, e principalmente aos dos marinheiros da armada, deve-se a salvação, póde assim dizer-se, de toda a rua de Cacilhas.

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Era admiravel a coragem, a valentia desenvolvida por aquelles bravos, que por sobre os telhados, corriam a um e outro ponto a apagar o fogo que começava a lavrar.

Os marinheiros do Africa, sabendo que no predio n.° 107 existe um importante deposito de enxofre, correram ali, tratando de remover todo o conteúdo do deposito, que foi uma das casas onde primeiro se communicou o fogo.

No ministerio do reino, recebeu-se, pouco depois de se ter manifestado o incendio, o primeiro telegramma, que, apesar do seu laconismo, não podia ser mais aterrador: "Acudam-nos, que morremos todos queimados."

É que já n'essa occasião, caiam sobre os telhados da rua Direita de Cacilhas montões de faulhas, começando a manifestar-se o incendio em diversos pontos. Quando nós desembarcamos em Cacilhas, vimos muitas familias, percorrendo as ruas por terem, receiosas abandonado as casas, e montes de mobília, roupas, etc. disseminados por diversos pontos. Parecia o dia do juízo.

Não nos foi possivel aproximar do local do incendio; era mesmo impossivel, não só para nós, como para a gente do trabalho qualquer aproximação d'aquella fornalha immensa.

Ás 2 horas da tarde ardiam os moinhos, vinhas, mattos, arvoredo, apresentando toda aquella enorme area incendiada, um espectaculo admiravelmente horrivel. Ás 4 horas começou funccionando a bomba de vapor, tendo por alvo o laboratorio de productos chimicos e as casas proximas. O laboratorio, não obstante todos os esforços empregados, ficou destruido.

Não se pôde fazer calculo exacto dos prejuisos. Ha porém quem os avalie em uns 900 contos. A fabrica e a cortiça estavam seguras em companhias inglezas com agencias em Londres, em 40:000 libras.

Compareceram no local os srs. ministro do reino e da marinha, commissario geral de golicia, admmistrador do concelho, grande numero de policias, e piquetes de infantaria 2, 5, 7 e guarda municipal.

E bom foi que houvesse essa providencia, porque além de se tomar precisa para que se  garantisse á gente de trabalho a completa liberdade de acção, a policia tinha de se haver com uma enorme quantidade de gatunos, que aproveitando-se do ensejo quizeram pôr em pratica as suas costumadas proesas.

As casas proximas do incendio, por exemplo, que foram abandonadas pelos seus proprietarios, foram saqneadas pela gatunagem, que roubou tudo o que pôde.

O sr. commissario, porém, tomando as suas medidas contra os gatunos, preparou-lhes uma armadilha na ponte dos vapores; foram ali agarrados todos os que são conhecidos, e que evidentemente deram um passeio á Outra Banda para exercerem as suas habilidades.

Ás 7 horas pda tarde o sr. inspector dos incendios mandou refeição para o seu pessoal, que se acha ali na força de cento e tantos homens, que desde que começaram trabalhando até á chegada o sr. Carlos Barreiros foram comandos pelo sr. ajudante Conceição.

Ha suspeitas de duas victimas. Á hora em que escrevemos prosegue a extincção do incendio, que ainda activo. (2)

Durante a noite de sabbado para domingo continuaram os trabalhos de extincção do incendio, trabalhando debaixo de chuva todo o pessoal tanto de Lisboa, como de Almada Belem, Junqueira etc.

O fogo achava-se localisado ás 10 horas da noite. De manhã, pelas 10 horas, chegou mais uma força de 40 bombeiros municipaes de Lisboa e 50 conductores de differentes bombas.

As propriedades das ruas Direita de Cacilhas e d'Oliveira soffreram muito nos telhados. Essas propriedades foram durante a noite refrescadas a cada momento.

Felizmentè o laboratorio chymico não foi destruído, soffrendo, contudo bastante nos madeiramemtos.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Á noite ja não havia chamma, mas apenas o enorme brazido. O trabalho do rescaldo deve terminar hoje. (3)

A nossa folha dos dias 18 e 19 do corrente deu jà, com todos os pormenores, que então podémos colher, a descripção d'este pavoroso incendio. É portanto, desnecessario relatar hoje novamente a catastrophe, com um cortejo de detalhes sabidos e de noticias que ninguem ignora.

Toda a gente viu de Lisboa, na manhã e noite do dia 17, aquelle espectaculo ao mesmo tempo magestoso e horrivel, desenrolando-se, como um panno de fundo de magica, na outra banda do Tejo. Não houve quem não presenciasse aterrorisado e cheio de curiosidade aquelle quadro sinitro, que um dia tristonho de inverno tornava ainda mais lugubre e pesado.

O incendio durou dois dias, tendo-se manifestado em uma das grandes pilhas de cortiça da importanfissima fabriea dos srs. Henri Buchnall & Filhos, na Margueira.

Fora impossivel atalhal-o, apesar de todas as diligeneias empregadas, porque o vento sul, soprando com desmedida furia, se encarregava de ateiar as chammas.

O primeiro telegramma recebido no ministerio do reino, dando parte do horrivel sinistro, e pedindo promptos soccorros, dizia assim: "Acudam-nos que morremos todos queimados!"

É que já n'essa occasião caiam sobre os telhados da rua Direita de Cacilhas, montões de faulhas, principiando o incendio a lavrar em diversos pontos.

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Imagem: Delcampe

Quando nós desembarcamos em Cacilhas, vimos muitas familias, percorrendo as ruas, por terem, cheios de pavor, abandonado as casas. Aqui e alí, divisavam-se montões de mobilias, roupas, etc, espalhados ao acaso. Tristissima e pungitiva scena!

A fabrica, e a cortiça estavam seguras em companhias inglezas com agencias em Londres, na somma de 40.000 libras. Os prejuizos ascendem a mais de 400 contos.

Felizmente, ninguem morreu victima do incendio, havendo apenas leves ferimentos entre a gente de trabalho, que prestou serviços relevantissimos.

O sr. Bucknall, proprietario da fabrica incendiada, mandou abonar, no dia immediato ao do sinistro, 300 réis diaríos aos trabalhadores casados, e 200 réis aos solteiros.

Dos 454 operaríos desempregados em consequencia do fogo, metade foi já admittida a trabalho, contando o honrado proprietario da fabrica empregar novamente o resto, dentro de poucos dias.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Vê-se, por isto, que o sr. Bucknall, apesar da naturalissima preocupação do seu espirito, em horas de tamanha angustia como aquellas, não esqueceu, nem um momento, os interesses dos pobres operarios. (4)


(1) Diário Illustrado, 31 de março 1883
(2) Diário Illustrado, 18 de março 1883

(3) Diário Illustrado, 19 de março 1883

(4) Diário Illustrado, 31 de março 1883

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Moinho do Mesquitela

Designava-se por Mesquitela o moinho de maré e respectiva caldeira, situados entre a Mutela e o Caramujo.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso (editada), 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Mais precisamente, a caldeira ocupava o espaço hoje tomado pelo ultimo quarteirão do lado nascente da rua Manuel Febrero, ficando o Moinho sobre a actual avenida Aliança Povo M.F.A..

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército


A sul da caldeira ficavam as valas alimentadas pelas águas do ribeiro da Mutela (o que corre pelo vale de Mourelos) e pelas águas de maré. 

A passagem entre as valas e a caldeira era "a ponte", nome que ainda hoje é lembrado.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

Desde o século XVII, e até fins do século XVII, moinho e caldeira diziam-se dos Costas, por pertencerem aos Costas, armeiros mores do reino.
O moinho de maré só funcionava na vazante. Nas enchentes os três rodízios estavam parados, e a comporta abria com a força da água que entrava na caldeira.
A água da caldeira mantinha-se represada, aguardando o período da vazante para que os rodízios se colocassem em movimento. Abertos os acessos aos rodízios, estes giravam produzindo energia para as mós triturarem os cereais.

in Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

O moinho de maré da Mutela já existia pelo menos no século XV, com base numa carta de venda datada de 1497, de umas casas e marinhas na praia da Mutela [...]

in Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.


5
Barcos dos Moinhos
Barques elles transportent des molins de l'autre côté
de l'eau les farines pour la Ville
Imagem: Souza, João de, Caderno de Todos os Barcos do Tejo, Sociedade de José Fonseca, 1785
Passaram a designar-se por Mesquitela após a atribuição em 1787 do Título de Visconde de Mesquitela ao Armeiro-Mor D. José Francisco da Costa e Sousa, que casara coma filha primogénita e herdeira do 1.° Visconde de Mesquitela.

Em 1883 o inglês Jorge Taylor, maquinista da moagem do caramujo, aforou aos Mesquitela a caldeira e terrenos vizinhos. 

Este mesmo Jorge Taylor, em 1907, fez doação de parte da propriedade ao seu patrão, António José Gomes, o industrial da moagem do Caramujo, recebendo em troca uma pensão de 10.000 réis por mês.
Quando em 1907 Jorge Taylor fez doação da propriedade, declarou na escritura que trabalhava na moagem havia mais de quarenta anos.
Sendo ele o conductor da máquina a vapor da moagem muito provávelmente desde a instalação, conclui-se que a moagem dispunha da máquina desde cerca de 1866.
A propriedade, cedida a António José Gomes, destinava-se, em parte, à construção da escola primária.

 A escola, a primeira que teve a Cova da Piedade, foi inaugura da em 1911, e tem o nome de António José Gomes, então já falecido.

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

A caldeira e o moinho estavam em 1910 na posse de Manuel de Jesus Silva que pagava 50.000 réis de foro aos herdeiros do conde de Vila Franca; depois, cerca de 1911, foram arrendados ao industrial José Alves da Silva, por nove anos.

A caldeira desapareceu, por entulhamento, cerca de 1920 e o moinho foi demolido quando se abriu a estrada de Cacilhas à Cova da Piedade [a partir de 1947]. (1)

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes



(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional:

Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.


Fernandes
, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.