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segunda-feira, 20 de março de 2023

Encerrado desde março de 2023

A praia do Alfeite junto à Quinta do Outeiro com o lugar do Caramujo e Almada em fundo, pintura do jovem Antóno Ramalho, encerra o ciclo de publicações deste blog.

Como resposta às lacunas de informação e objectividade apresentadas pelo Museu da Cidade de Almada, inaugurado em novembro de 2003, pretenderam os espaços Almada virtual museum (2014) e Mar da Costa (2016) promover o estudo, a investigação e o interesse pelas memórias e património de Almada e do seu termo, disponibilizando fontes, factos e eventos, ordenar, relacionar e contextualizar a informação, estabelecer uma plataforma de acesso a conteúdos externos, registar, indexar e cruzar informação e referências, atribuir palavras-chave de modo a agrupar e/ou filtrar expressões ou termos e optimizar o desempenho dos motores de busca online.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Atingidos esses objectivos resta dar por concluídas a edição e actualização deste blog dedicado a Almada e daquele dedicado a Caparica,  onde ontem se fez O último "lance"...). A plataforma associada de discussão no Facebook (Almada virtual) vai manter-se activa.

Com uma perspectiva mais abrangente,
atravessando margens, Eventualmente Lisboa e o Tejo (Arte e Memórias) irá incluir sempre que necessário as temáticas dos espaços agora encerrados.

Resta agradecer a vossa companhia nesta viagem.
Um grande bem-hajam!

Rui Granadeiro, março de 2023

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Bailarico em Cacilhas

O detalhe da pintura a óleo, 181? - Bailarico em Cacilhas da colecção do dr. José Coelho da Cunha, é primeiro referenciada pelo aguarelista Alberto de Souza e apresentada no livro que lhe é dedicado,  edição do filho Fernando Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente, Lisboa.

Bailarico em Cacilhas, possível original de A. E. Hoffman, c. 1835.
Alberto de Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente, Lisboa, edição de Fernando Souza.

O mesmo detalhe aparece mais tarde referenciado por Alexandre Flores em Almada antiga e moderna (roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas, Câmara Municipal de Almada, 1987) onde o autor identifica o começo da Rua Direita (actual Cândido dos Reis) e o Sítio da Lapa na imagem. Posteriormente, em Para uma História do Fado (edição Corda Seca e Público), Rui Vieira Nery recupera a mesma imagem e não adianta mais informação para além da avançada por Alberto de Souza.

Pela nossa parte, seria esclarecedor ter acesso ao quadro completo mas até hoje não nos foi possível encontrar mais referências sobre a pintura, então pertença do dr. José Coelho da Cunha.

Podemos adiantar com base na imagem que o festejo, o dito bailarico, tem lugar junto ao cruzeiro que existia no local mencionado por Alexandre Flores, e que a dança seria muito possivelmente do tipo Fandango ("teimas", como ainda hoje se diz em certa partes do Ribatejo).

Caza de Pasto, Bailarico em Cacilhas (detalhe), possível original de A. E. Hoffman, c. 1835.
Alberto de Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente, Lisboa, edição de Fernando Souza.

Os barretes vermelhos indicam com forte probabilidade a profissão de catraeiros dos intervenientes. As demais profissões populares seriam tanoeiros e calafates. O boné de pala, a cartola e os sapatos de polimento indicam uma data posterior à década de 1810 proposta por Alberto de Souza.

Em fundo vemos o detalhe do velho torreão/miradouro de Cacilhas e o velame das embarcações acostadas ao pontal. No largo e nas sacadas dos edifícios as famílias, demais moradores e visitantes assistem ao evento. Junto à entrada da Caza de Pasto uma mulher vende laranjas.

Não sabemos se se trata de uma feira, ou de um mercado, dos festejos de S. João, ou outros, relacionados com a procissão de Nossa Senhora do Bom Sucesso, ou mesmo da celebração da vitória das forças liberais sobre os miguelistas.

As classes populares estão no primeiro plano, os rostos têm expressão, trata-se de uma pintura de costumes, documental, do período romântico. Conhecemos outras da década de 1830, dentro da linha iniciada pelos artistas francófonos emigrantes da revolução francesa (Nöel, Delerive, L'Évêque) ou mesmo anterior (Pillement). Até obtermos melhor informação vamos atribui-la a A. E. Hoffman, soldado ao serviço do exército liberal, e datá-la c. 1835.

Com a mesma representatividade, Liberalismo/Romantismo (o anúncio do Setembrismo talvez), de A. E. Hoffman usámos Saltimbancos/Largo do Corpo Santo para ilustrar Almeida Garrett por Bulhão Pato: o jantar ao poeta.

Lisboa, Largo do Corpo Santo, A. E. Hoffman, c. 1833.
Museu de Lisboa

De igual modo, recorremos a A. E. Hoffman, Batalha de Ponte Ferreira (detalhes) de 1835, para compor a dinâmica num dos artigos sobre a Batalha da Cova da Piedade — 23 de julho de 1833. Poder-se-iam evocar outros quadros do mesmo autor, Feira das Bestas no Campo Grande (c. 1833, Museu de Lisboa) e Antigo Mercado da Praça da Figueira (EGEAC, Museu de Lisboa) este último também não claramente atribuído.

Caza de Pasto, Bailarico em Cacilhas (detalhe), possível original de A. E. Hoffman, c. 1835.
Alberto de Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente, Lisboa, edição de Fernando Souza.

Hoje, exceptuando o panorama de Luiz Gonzaga Pereira (se quisermos), o eco do tambor que se repete e uma quase imperceptível melodia da gaita de foles, do Bailarico em Cacilhas, nada resta.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 28.
Cacilhas, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


Rui Granadeiro, 1 de agosto de 2022


Artigos relacionados:
Almada e Val de Piedade no diário de Dorothy Quillinan
Batalha da Cova da Piedade — 23 de julho de 1833
Almeida Garrett por Bulhão Pato: o jantar ao poeta
etc.

Leitura relacionada:
O Pharol n° 25, A Lapa - Um recanto de Cacilhas, 2014
O Pharol, n° 27, Os Bailes em Cacilhas, 2015

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

À margem do rio, Manuel Tavares Junior

Manuel Tavares é uma figura algo lendária, porque pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, exceto que nasceu no Couto de Cucujães (concelho de Oliveira de Azeméis), no ano de 1911, e que faleceu no ano de 1974.

Vista do Tejo e de Lisboa a partir de Almada, Manuel Tavares Junior, 1963.

... distinguiu-se como paisagista, tema em que se destacam as marinhas e a ria, e também como retratista de trechos citadinos. Das muitas exposições que realizou individualmente há que realçar as que tiveram lugar em Lisboa, no ano de 1942, em Almada (1961), Coimbra (1936).

Cista de Cacilhas (Ginjal), Manuel Tavares, 1950.
Cabral Moncada Leilões

Das mostras coletivas em que participou, os destaques vão para as ocorridas na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa (1950 e 1952), a primeira Exposição dos Artistas de Aveiro (1970), a Grande Exposição dos Artistas Portugueses (1935) e ainda exposições realizadas em Lisboa (1952, 1966 e 1974), Almada (1961), Faro (1968), Matosinhos (1953 e 1963) e Porto (1935).


Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, 1960
Cabral Moncada Leilões

Manuel Tavares está representado em diversos museus, nomeadamente no Museu Soares dos Reis (Porto), de Aveiro, de Beja, de Faro e de Matosinhos, bem como em coleções privadas, portuguesas como estrangeiras. (1)


(1) Cardoso Ferreira, Aveirense ilustre – Manuel Tavares, aguarelista de renome internacional, 2017

Artigo relacionado:
À margem do mar, Manuel Tavares Junior

domingo, 5 de julho de 2020

Café Progresso, Largo do Costa Pinto

Quadro n.° 65. (Porphyrio Henriques da Fonseca) "Largo do Costa Pinto, Cacilhas" [décima quarta exposição da Sociedade Promotora das Bellas-Artes em Portugal, 1887].

Café Progresso.
almaDalmada

Ainda bem que os burros cacilheiros não estão no Largo, porque se pilham o Costa Pinto todo vestido de verde, como Porphyrio o pintou, chamam-lhe um figo, mesmo á porta do café "Progresso", n.° 79.

Café Progresso (fotomontagem).


(1) Pontos nos ii, 26 de maio de 1887

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Alfredo Keil e o vapor da carreira de Cacilhas

A boa fada que presidiu ao seu nascimento votara-o á Arte. Nasceu artista. Nas suas phantasias de creança, nos seus devaneios d’adolescente, apparecia-lhe sempre uma figura divina, que o chamava, sorrindo, mostrando-lhe coroas de louros.

Vapor no Tejo (detalhe), Alfredo Keil 1890.
Casario do Ginjal

Foram as artes plasticas que primeiro o attrahiram; a seducção da fórma, o deslumbramento da côr, levaram-n'o para a pintura. Consagrou-lhe com ardor Alfredo Keil os primeiros annos da sua juventude, e entre os moços pintores que, a esse tempo, procuravam uma vereda segura d'arte, elle era dos que seguiam impulsionados por mais orgulhoso enthusiasmo.

Natural de Lisboa, onde seu pae, Christiano Keil, era muito conhecido e estimado, partiu, em 1868, para a Baviera, com desasete annos, a encetar os seus estudos artisticos, e foi na patria d’Alberto Dürer, na velha e pittoresca Nuremberg, que começou a cultivar a arte.

O vapor da carreira de Cacilhas, Alfredo Keil.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A residência n'essa cidade, tão impregnada da attrahente poesia do passado, tão cheia de velhos monumentos, nao podia deixar d'influir no espirito juvenil d'Alfredo Keil e lançar n’elle a semente d’essa poética melancolia que o faz procurar asylo, para as suas horas de trabalho, junto ás penedias do oceano, que parecem desmoronamentos de velhas cathedraes, e em que as ondas vem quebrar-se entoando psalmos d’uma liturgia grandiosa. 

De Nuremberg, Keil passou a Munich, mas a sua delicada saude obrigou-o a deixar a Allemanha, e foi em Lisboa, com Joaquim Prieto, que continuou a estudar pintura.

Barcos no Tejo, Alfredo Keil.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Em 1876 expoz, pela primeira vez, trabalhos seus na Sociedade Promotora de Bellas-Artes. Em 1878 concorreu á Exposição Lniversal de Paris com o seu bello quadro "Melancolia".

Em 1886 á Exposição de Pintura de Madrid com o "Pateo do Prior" e "Boa lamina" que lhe obtiveram o ser condecorado com a ordem de Carlos III. Já em 1885 o governo portuguez o agraciara, pelo seu mérito artistico, com o habito de Christo.

Em 1890 abriu no seu atelier, na Avenida da Liberdade, uma exposição onde apresentava umas trezentas telas, na sua maior parte estudos de marinhas e de paysagem, que quasi todas foram adquiridas por diversos amadores, muitos d’elles estrangeiros.

Cacilhas, Alfredo Keil.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Este artista, que, sem ser impulsionado pela rigorosa exigencia d'attender ás necessidades da vida, se dedicava com tal ardor ao trabalho, era um espirito complexo e inquieto, a quem a pintura não bastava, e, ao mesmo tempo que lançava na tela, n’uma pâte delicada e fina com escrúpulos singulares de nitidez, as suas impressões visuaes de paysagista, ia coordenando a harmonia dos sons, as vozes do mar a que estudava os cambiantes da vaga, a variedade de cantos, que em maravilhosos accordes animam o campo e os bosques, as alvoradas festivaes da natureza, os hymnos religiosos da noite, para os traduzir também pela arte sublime de Palestrina e de Mozart. (1)


(1)  Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898

Artigos relacionados:
Invocação
Palette de Alfredo Cristiano Keil (1850-1907)

Exposições:
Exposição de quadros de Alfredo Keil, O Occidente n.° 415, 1 de julho de 1890
Catalogo da exposição de pintura de quadros..., Lisboa, A Editora, 1910
Catalogo da exposição de pintura e desenhos de Alfredo Keil no salao da Ilustração Portuguesa . Abril 1912, Lisboa, Tip. A Editora Limitada, 1912 [IllustracaoPort n.° 322, 22 de abril de 1912]
Evocação da obra olisiponense do pintor Alfredo Keil [1953]
Exposição evocativa de Alfredo Keil, músico, pintor e poeta. Palácio Galveias de 3 a 18 de Julho de 1957

Leitura relacionada:
Alfredo Keil, Collecções e Museus de Arte em Lisboa, Lisboa, Livraria Ferreira e Oliveira, 1905
Alfredo Keil, Um independente, 1950
Olisipo n.° 63, julho de 1953
Rui Ramos, O Cidadão Keil, Publicações D. Quixote, 2010

Mais informação:
Delcampe
Alexandre Pomar, ALFREDO KEIL 1850-1907, Viagens artísticas, in EXPRESSO/Cartaz de 2/3/2002

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)

O registro dos tipos sociais se tornará efetivamente um tema para artistas portugueses somente a partir de inícios do século XIX, difundindo-se pelo viés "pitoresco" da literatura de viagem. E, nesse sentido, mostra-se semelhante ao caso brasileiro. 

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Admite-se que a primeira publicação a trazer estampas de tipos portugueses seja Travels in Portugal, do irlandês James Murphy, publicado em Londres em 1795

A portuguese merchant and his wife and maid servant, Travels in Portugal... 1789, 1790, James Cavanagh Murphy.
Biblioteca Nacional de Portugal

Segue-se a esta publicação o surgimento de uma coletânea de gravuras de fatura portuguesa em 1806, atribuída a Manuel Godinho, abridor de registros de santos e “estampinhas” devotas. Era aluno de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), gravador especializado na Itália e criador da Aula de Gravura da Imprensa Régia.

Quer bote?
O barqueiro, Manuel Godinho, 1809.
O Mundo do Livro

As coleções de costumes de Lisboa  de Godinho totalizavam 70 estampas gravadas a buril que seriam republicadas com acréscimos em 1809, 1819 e 1826 com títulos como Ruas de Lisboa ou Povo de Lisboa.

Os demais exemplos relativos ao século XIX surgidos durante a pesquisa são prioritariamente estrangeiros.

De 1809, por exemplo, datam as têmperas do francês Félix Zacharie Doumet (1761-1818), atualmente no acervo do Museu da Cidade, que bem estariam por merecer um estudo comparativo com as aquarelas de Debret. 

La conversation portugaise ou le temps perdu, Zacharie Félix Doumet.
ComJeitoeArte

Do mesmo ano, data a publicação de Sketches of  the country, character and costume in Portugal and Spain de William Bradford, editado em Londres, que comporta quinze gravuras de tipos portugueses.

Aqueduct of Alcantara.
Sketches of the Country, character, and Costume, William Bradford, 1808/1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

O mais famoso desses conjuntos seria o de autoria do francês Henri L’Evêque (1769-1832), intitulado Costume  of   Portugal (Londres, 1814), publicação dedicada a Antonio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca (1754-1817).

L’Evêque era um típico viajante, que fazia render seu talento aplicando-o a novos assuntos destinados ao mercado internacional.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Biblioteca Nacional de Portugal

Foi responsável pelo desenho que deu origem à famosa gravura de Francesco Bartolozzi (1725-1815) que representa a partida do príncipe regente d.João para o Brasil. (1) 


(1) Valéria Piccoli, O tipo popular e o pitoresco

*
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Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800, apontamentos gráficos e notas descritivas comparadas com a publicação de Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Momento de cenário amplo do Tejo e Lisboa distante. Figuras, apresentação de tipos e costumes num mesmo espaço.

Distinguem-se parte da muralha e do parapeito da esplanada do forte de Santa Luzia. As construções estão sitas sobre um alfaque rochoso, o Pontaleto. Sentado junto à parede do armazém um mariola, espera um frete ou um recado.

À esquerda, um personagem de manto e sobrecapa, cobre a cabeça com um bicorne. Sentado num pequeno muro, está ligeiramente reclinado. Escreve ou desenha, talvez, num pequeno caderno que não mostra. Será um observador conhecido, um passante distinto, nós mesmos, ou L`Évêque, o autor.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Perto deste, os burriqueiros. O garoto e o asno teimoso que não se levanta. O outro, mais velho, acena aos clientes garantindo a albarda mais macia, a manta mais limpa, a cadeirinha para as senhoras... "Quer bote?! Quer bote?!" Ouvem-se os barqueiros. "Merca a laranja da china!" Apregoa a vendedeira, que negoceia com o homem vestido à moda, inglês, talvez, que não desmonta o burro para não se sujar no areal que crê imundo.

Em Lisboa e nos arredores usam-se muito os burros...

Ladies riding on asses, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... à voz sagrada da religião, o coração do rico abre-se sem cessar à piedade, e o do pobre ao reconhecimento.

A poor woman, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

A baía espaçosa que forma o Tejo junto a Lisboa, e as costas vizinhas à foz deste belo rio, são tão ricas em peixe...

The fishwoman, La marchande de poisson, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... os condutores destes barcos são, na maioria, originários da pequena província do Algarve, que é renomeada pelos excelentes homens de mar que fornece.

The waterman, Le batelier, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Cães, sempre muitos destes animais, por toda a parte. A mulher, com a trouxa, ou cesta, debaixo do braço, recebe as ultimas recomendações da religiosa, sua ama. O tanoeiro sentado junto aos barris que o cliente há-de vir buscar, interrompe uma das jovens mulheres, talvez sua familiar. A outra conversa com o marido, ou irmão. Ao pedinte cego, o garoto que o acompanha desparasita-lhe os cabelos. Dois moços de fretes, galegos, aguardam. O barqueiro da pequena muleta impacienta-se.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... a grande afluência de estrangeiros que o comércio trouxe a Lisboa, desde há uma vintena de anos, produziu uma mudança muito sensível no vestuário das damas.

A young woman wrapped-up in her great coat, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Um elegante da classe do povo. Enverga um chapéu de três pontas, para se dar um ar de militar, tem um cigarro na boca, e embrulha-se num grande capote com mangas ["josésinho"], que traz durante todas as estações.

A petty beau, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... outros percorrem a cidade, conduzidos por uma criança, ou guiados por um cão inteligente e fiel.

The blind man, L'aveugle, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... são, na sua maior parte, naturais da Galiza (galegos) que vêm para Lisboa para fazer o trabalho de carregadores e de moços de recados, aproximadamente do mesmo modo que fazem os irlandeses em Londres e os saboianos em Paris.

The street-porter, Le porte-faix, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

O moço de estribaria segura as rédeas dos equídeos que, talvez, virão a acasalar. Dois cavalheiros, um com botas de montar, burgueses, talvez nobres, estão junto ao cavalo malhado. Atrás deste, um soldado de cavalaria da recém creada, por decreto do príncipe regente de 10 de dezembro de 1801, Guarda Real de Polícia sob o comando do exilado francês Conde de Novion. À direita os calafates, impermeabilizam os botes com estopa e bréu que fervilha no caldeirão da imagem seguinte.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Duas mulheres na praia, uma delas com uma criança, se forem lavadeiras, interromperam o trabalho na charca próxima à passagem do frade mendicante. Um bote é arrastado pelo areal, vai sair para Lisboa com o comerciante à proa e o soldado de pé. Mais ao lado está uma falua, com o seu mastro frontal tirado a vante e a quilha reforçada por quebra-mar.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... elas entregam-vos a roupa com uma brancura resplandecente, absolutamente desembaraçada de toda a espécie de nódoas, e perfumada com este odor suave que só a boa lavagem pode dar.

The washerwoman, La lavandière, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Os portugueses, sobretudo esses das últimas classes, têm uma veneração muito particular por Santo António, que nasceu em Lisboa, e que é conhecido pelo resto da catolicidade sob o nome de Santo António de Pádua.

The mendicant friar, Le frère queteur, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal


Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (I de II)

Foi a recente publicação do professor Alexandre Flores, A via fluvial do Tejo entre Almada e Lisboa..., na qual a aguarela é parcialmente reproduzida, que nos chamou a atenção para a sua existência, e para a exposição de grata memória.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Reprodução fotográfica dos estúdios U. Antunes, colecção de Alexandre Flores

A aguarela, que descreveríamos como "Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque", foi apresentada ao público na exposição integrada nas Festas da Cidade de Lisboa de junho de 1978 e é referenciada, sem reprodução de imagem, no catálogo de 1979 dessa exposição, O povo de Lisboa", tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, da autoria de Irisalva Moita, então conservadora-chefe dos Museus Municipais de Lisboa.  

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*     *

O que se sabe então sobre Henry L'Évéque? Retenhamos o essencial da informação disponbilizada por Agostinho Araújo. Nascido em Genebra, no ano de 1768, debutou no desenho documental, como muitos outros aspirantes à arte da pintura, ilustrando a expedição de Horace-Bénédict de Saussure (1740-1799) ao Monte Branco.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Informa-nos o citado autor que L'Évéque "se especializou na pintura sobre esmalte", o que a nosso ver o aproximou da indústria relojoeira, de reconhecida tradição suíça, corporação da qual viria a receber apoios, nomeadamente através do relojoeiro Henrique de Sales, distribuidor das suas obras no Rio de Janeiro no período de fixação da corte portuguesa no Brasil.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A sua passagem a Portugal situa-se entre o inicio do século e meados de 1811, tendo presenciado momentos determinantes da história contemporânea, nomeadamente a partida da corte para o Brasil e o conflito peninsular, episódios a que dedicada espaço de relevo na obra produzida em território nacional.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

De Portugal passaria a Inglaterra onde com os seus parceiros editores pode ampliar a difusão da sua obra gráfica. Evocando inadaptação ao clima londrino, que dizia "inconveniente para a sua saúde", solicita com persistência, apoio do Príncipe Regente para passar ao Rio de Janeiro, oferecendo-se para fazer "vistas do Brasil, retratos em miniatura, ou em esmalte, ou a aguarela, ou para gravura", numa síntese oportuna feita na primeira pessoa que ilustra os seus interesses e competências em fase já madura da vida.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Deste período britânico deve pertencer a sua ascensão a "esmaltista da corte da princesa Carlota de Gales", aspecto a ter em consideração sobre esta outra fase Igualmente pouco conhecida da sua carreira.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Gorada a oportunidade de uma aventura nos trópicos junto da corte portuguesa, que não lhe concederia o solicitado apoio, terminaria os seus dias em Roma como pintor de paisagens, onde viria a falecer em 1832. (1)


(1) Miguel de Faria, Henry L'Eveque e outros reporteres, III. Dados biográficos, 2015

Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

As praias obscuras

Junto de Lisboa, na margem esquerda do Tejo, encontram-se ainda alguns logares de banhos onde a vida é mais barata que na margem de cá. Taes são:

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposta do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Arquivo Nacional Torre do Tombo


A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. 

Não obstante, o auetor d' estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. 

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro v matava-os na carreira, á bala, com notável perícia.

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Cabral Moncada Leilões

O Alfeite, perto da quinta real do mesmo nome, junto de Cacilhas e da Cova da Piedade. É o mais pittoresco sitio da margem do sul do Tejo.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

A Fonte da Pipa. Logar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços. (1)


(1) Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal..., Porto, Magalhães & Moniz, 1876

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