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sábado, 23 de abril de 2016

Pesca de dezembro

Os elegantes e esperançosos poetas da geração moderna, pouco depois da lucta civil de 1846, entregando-se quasi todos ás discussões áridas e rancorosas da politica militante, haviam desgraçadamente voltado as costas ao éden risonho da poesia; e apenas, de quando em quando, João de Lemos, Mendes Leal, Palmeirim, e poucos mais, davam signal de vida n'uma ou n'outra canção fugitiva.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Esta espécie de adormecimento litterario, em que vimos cair os primeiros engenhos, explica-se talvez pela influencia da epocha em que vivemos. A poesia respira-se no ar, como a fragrância das flores; e a atmosphera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das machinas de vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza [carta a Alexandre Herculano, 5 de maio de 1856]. (1)

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nunca tomou uma vereda por outra, nos numerosos pinhaes das nossas províncias do sul?

Quando, n'esses labyrinthos de columnas rugosas, percebemos que nem as ondulações do terreno, nem as curvas caprichosas das sendas, nem os verdes oásis dos brejos sâo nossos conhecidos, retrocedemos, sem hesitar, até atinarmos com o direito caminho. Este retroceder é progresso. O distraído, ou o que ignora d'onde vem ou para onde vae, é que continua a seguir avante. Só o insensato crê que caminhar sempre em frente é synonimo de progredir. A Paquita é o symbolo da poesia transviada, que retrocede da estrada por onde andava erradia.


A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Agradecida a offerta, permitta-me que lhe ralhe um pouco [...]

Pelo que dizem os entendidos, a ex-democracia temporária fomenta a democracia permanente. Os democratas barões, conselheiros, commendadores, chefes e sub-cbefes, de que se lembra, estão livres de ser Stilicons e Alarícos; mas imitam-n'os, como comportam as differenças do século XIX ao V: civilisam-se, apodrecem provisoriamente, aprendem a pisar com garbo as alfombras dos paços, reclinam-se com elegância nas poltronas das secretarias, penduram a heráldica ao pescoço do socialismo, cozinham nas fornalhas ministeríaes os curatos, as magistraturas, as escrivaninhas, as prebendas, as mitras, as comendas, as escolas; palmeiam nos theatros com luvas de irreprehensivel brancura; agitam-se nos bailes esplendidos, embriagam-se nas mesas opiparas, recuam com asco diante dos andrajos do plebeu, e retiram a mão afeminada da mão callosa do villão, que ousa estender-lh'a; — a erudição que mais os enleva é a genealogia. Sacrificam-se assim á democracia futura. De feito, Pedro, o obefe dos apóstolos, achou que havia conjuncturas em que se devia negar Christo. Esta gente é essencialmente evangelica.

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Se lhe repugna imital-os, meu amigo — espero em Deus que lhe repugne sempre — tome o conselho que lhe dou: guarde silencio. Tire o chapéu á dança judenga que passa: respeite a crença publica e o progresso que consistem em não crer e em não progredir seriamente em coisa nenhuma; respeite sobretudo os parvos e os velhacos, porque a doutrina da omnipotência das maiorias é ponto de fé constitucional.

A carta que me dirige tem um sabor acre, e não sei se revolucionário; queime-a, e queime esta. Não é por mim: é por si.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Publique a Paquita, mas sem prologo. Só assim lhe poderão perdoar ter a sua tentativa — poesia, naturalidade, e senso commum [resposta de Alexandre Herculano, 20 de maio de 1856]. (2)

A pesca de dezembro, a mais rendosa,
A força dos constantes agoaceiros
Falhou, e foi a quebra desastrosa!

Os mestres d'artes mais aventureiros
Não poderam romper de cara ao tempo
Que teve de peor os nevoeiros!

Costa da Caparica, pescadores, Furtado & Reis.
Imagem: Delcampe

Alar! Lá vem a rede salvadora:
As mulheres, nos médos, mãos erguidas,
Em prantos, a invocar Nossa Senhora.

Não tem de receiar perda de vidas;
Mas se o sacco não pode com o peixe,
Que enormes perdas se darão agora!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ganhou a praia a mole reluzente,
Sem ter nem leve sombra de avaria;
No rude vozear d'aquella gente,

Que expansão de enthusiastica alegria!
Viva, saltando sobre a areia flava.
Chega a todos a argêntea pescaria!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ao soar da buzina, dos casaes
Partem bestas de carga a toda a brida,
Guisalhando atravez d'esses juncaes.

Os cabazeiros, na afanosa lida,
Avergados e a passo de balança,
Jogam-se ao Monte, a governar a vida! (3)


(1) Bulhão Pato, Paquita, Poema em XVI cantos, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894
(2) Idem
(3) Idem, ibidem,

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Pescadores da Costa em 1900

A esperança, a esperança! ... O mar longe, movido
Solta, de quando em quando, um lúgubre gemido...

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O pescador da Costa abandona a cabana;
Deixa filhos, mulher!... Na carreira vesana
Vae perguntar trabalho, e sem poder lograr
Companha, que se afoite ao truculento mar!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No areal da Costa não rebenta a vaga;
Todo o mar sereno! Pobre pescador!...
Lança em vão os olhos... Da deserta plaga
Não descobre ao longe nem signal, que traga
Negra de sardinhas, ondulando á flor!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não seja o tempo fatal
Aos do mar, e ao pescador;
Que o mais este vendaval
É propicio ao lavrador!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar (inv.), década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Pesado estoira o mar, pelo areal da Costa;
Sibila, range, estrala, o pinheiral da encosta! (1)


(1) Raimundo António de Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

Alguns artigos relacionados:
Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901
A Costa romântica de Bulhão Pato
Os saveiros meia lua da Costa da Caparica
Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Nas arribas do mar

Na margem esquerda, encontra-se a modesta estação da Trafaria, ao mesmo tempo povoação de pescadores. Bulhão Pato, que habita perto d'ahi, em Caparica, dá-nos uma viva descrição de uma pesca de sardinha, cheia de pitoresco local. (1)

O poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Há dias, abrindo o jornal — "A Caça" — deparou-se-me um artigo intitulado: Législation sur la chasse. Dizia: ..."Je revois encore les dunes sauvages qui s’étendent de Trafaria à Costa, où j’ai fait ma première chasse avec Bulhão Pato; les rizières et les côtes boisées du vallon d’Apostiça, etc."

O artigo era de Sampayo Osborne, que esteve em Portugal cerca de 25 annos; rapaz muito intelligente, illustrado, da família do conde da Povoa e primo da casa Palmella.

Caçador de sangue. Um desastre varou-lhe com um tiro, em França, uma das mãos, não sei se a direita, se a esquerda. Continuou, apesar d'isso, a ser espingarda de primeira ordem e, o que é mais, ao piano primoroso artista.

Durante largo tempo bateu as tapadas e montados com os reis do throno e os reis da caça. É provável que não o torne mais a vêr. D'aqui lhe envio um cordial e saudoso aperto de mão.

Em 1859 José Augusto Sacotto Galache e eu principiámos as nossas caçadas no Juncal da Costa. Pelas arribas as perdizes saltavam aos bandos; na planura as codornizes, as narcejas e outra caça de arribação abundantíssima. Vivíamos em Buenos-Ayres [à Lapa, Lisboa].

Vista do Tejo e da Torre de Belém tomada da legação britânica,
George Lennard Lewis, 1880.
Imagem: Sotheby's

No inverno, noite ainda, Lourenço da Pinha estava no caes de José António Pereira [freg. de Santos-o-Velho, anterior ao aterro da Boavista, actual Beco da Galheta], com os seus três filhos: o mais velho José, o segundo João, o terceiro Francisco, este muito mocinho ainda para as fainas da travessia do Tejo, às vezes bravias. 

É piloto da Barra há já muitos annos. Lourenço da Pinha nascera em Olhão, terra de marítimos, que folgam com o esbravejar das ondas como as aves marinhas.

Moço, veio para Belem e, ora com a mão no leme e na escota, ora no punho do remo, sempre de ânimo folgazão, coartada pronta e verboso como algarvio, lá foi mareando o barco, sustentando a mulher e criando os filhos.

Torre de Belém,
Frank Dillon, 1850.
Imagem: BBC Your Paintings

Morreu há bastantes annos, mas por todo o bairro de Belem e por todo este almaraz lhe relembram o nome honrado e benquisto.

José Augusto Galache, sem jactâncias nem farroncas, era um rapaz que não tinha medo do diabo à meia-noite. Agora lá está na sua propriedade do Freixo, ao pé de Valle de Lobos, tratando da sua lavoira, beijando a terra para manter as forças, sempre jovial e gentil-homem. 

A bravura e galhardia do cabo de forcados nas toiradas de amadores no Campo de Sant'Anna foi tal que ainda hoje corre na lenda entre os novos.

Um dia, em Dezembro, véspera de Nossa Senhora da Conceição, embarcámos, noite cerrada ainda, com Lourenço e seus dois filhos mais velhos. 

Lisboa, Sol Nascente,
Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Tempo sêcco, sem vento, e intensamente frio; a geada caía em carambinas. Proa ao Torrão. Lourenço da Pinha, expansivo, animava os filhos:

— Vamos, rapazes, de voga arrancada, que é para aquecer.

Havia águas de monte e o barco, mal clareando, abicou defronte da Quinta do Miranda.

Os dois rapazes acompanharam-nos, e o pae ficou guardando o barco à nossa espera. Os terrenos planos e à beiramar do Juncal eram lenteiros, enchabocados, como dizem os homens do campo e os caçadores. 

Nós tínhamos dois cães soberbos: o Black de José Augusto e o meu Faliero. Ambos muito bem parados, cobrando de ferido, e trazendo à mão toda a espécie de caça.

Depois do ímpeto da primeira batida sentámo-nos num médão de areia, acudimos ao almoço, que vinha nas redes, e matámos a fome. Engolfámo-nos Juncal dentro. Quando demos por nós estávamos muito adiante das barracas da Costa.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O estômago não tinha a mais leve memória do almoço; a ambição de caçar no dia seguinte não nos mordia menos de que o apetite voraz. Resolvemos ficar; mas ficar aonde e comer o quê? À sorte.

Entrámos na povoação. Tudo choças de colmo; muitas levantadas sobre o arcaboiço de um velho barco. 

Uma casa de um só andar, com armas reais, bojudas como o abdómen do ladino e bondoso monarca D. João VI, que foi alli por mais de uma vez. De pedra a cal meia dúzia de casitas mais, quando muito. 

Íamos andando por aquele labyrintho de cubatas e à porta de um ferrador demos com uma rapariguinha dos seus dez annos, de cara insinuante, vestido de chita, meias muito brancas, socos, cabello em trança e bem tratado.

— Ó pequena, olha lá. Haverá aqui alguma casa onde se possa ficar e se coma alguma coisa?

— Pois não há, meus senhores!... É a tia Maria Rita do Adrião — acrescentou, dando à sua voz crystallina certa expressão que indicava a grandeza da personagem a quem se referia.

Levou-nos à tia Maria, e tal foi o agasalho que por mais de trinta annos frequentei aquela casa com o melhor dos meus amigos. 

A Claudina, a rapariguita que fora a nossa salvação e a nossa guia, passados tempos casou e, já mãe de filhos, depois de eu estar n'este Monte, morreu, coitada, de uma pneumonia. 

Maria Rita do Adrião vive ainda; há dois annos que veio visitar-me, na sua burrita, muito lépida, com os seus noventa e três. 

Costa da Caparica,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Teve sempre boa estrella; até na sua visita a minha casa o azar apenas lhe deu um rebate falso. Quando voltava para a Costa perdeu um objecto de certo valor, creio que um brinco, que mão piedosa achou e foi logo anunciar no Século.

Caparica, convento de Santo António,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

Depois de devorarmos o jantar e pelos barqueiros mandar aviso aos nossos, sol alto ainda, sahimos até à praia. Era véspera de Nossa Senhora da Conceição, a grande festa annual da terra. 

Os habitantes é que estavam descoroçoados e tristes; a sardinha, a famosa sardinha da salga, não tinha dado nada ou quase nada. Mais uns dias de escassez e lá se iam as esperanças... o pão por muito tempo! 

Mar calmo. Na crista dos médãos, homens, mulheres, rapazes, mudos, immoveis, olhos cravados na companha, que lá muito ao largo vinha regressando. 

De manhã os alcatrazes [gansos-patola], de aza fechada, cahindo do alto como raios, picavam a flor das águas, indício de  grandes negras de sardinha. Pelo cariz do tempo, o lanço devia de ter sido grande. Chegaria a salvamento ou rebentaria o sacco?!

Silêncio profundo nos de mar e nos de terra. O silêncio é signal certo de grande preoccupação de espírito nos moradores de povoações marítimas, tão vivos e loquazes.

Ao rés do mar grandes grupos moviam-se visivelmente inquietos. Com o sol, que já no ponente batia o areal, aquelas figuras pareciam tomar proporções gigantescas, cingidas de nimbos de oiro. 

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, as montanhas, o mar, as soberbas e solemnes paizagens, em vez de apoucarem o homem, engrandecem-no. 

Numa linha de fortificações ondulada de montes e crespa de píncaros, antes de romper o assalto, os ajudantes-de-ordens, cruzando-se na carreira, a dois exércitos podem afigurar-se hipogrifos phantasiados pela veia fecunda de Boiardo ou de Ariosto [in Orlando Innamorato e Orlando Furioso resp.].

A paizagem parece dar e receber, às vezes, commoções trágicas. O facto é que exerce nos espíritos acção profunda, embora ignota. Uma tempestade, nas serranias ou no oceano, improvisa heroes, como os relâmpagos das espadas e o trovão das baterias no campo da batalha.

À beira de água principiou a correr um torvelinho, levantando pyramides de areia. De repente uma lufada súbita correu violenta.

Os prodromos do furacão têm rugidos dolorosos como os do leão na entrada da febre. Daria numa tempestade? Quantos corações ficaram apavorados em tal momento!

Os barcos aproximaram-se de terra. A multidão silenciosa. A vaga alta como de mar movido ao longe, embora não arrebatada. Num ai tudo salvo ou tudo perdido!

O sacco... a montanha de prata, estava a salvamento na praia. Raros olhos ficariam enxutos vendo rebentar a alegria d'aquelle povo!

Costa da Caparica, Praia do Sol, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, disco de fogo, tocava a superfície das águas, que serenavam, passada a borrasca ephemera, permitindo que olhos humanos se cravassem no seu ocaso esplêndido.

Em breve a linha arenosa e já desmaiada, que segue até o Cabo, a bahia de Cascais, os picos de Cintra, os montes e povoações do norte, o Tejo dormente, desvaneciam-se no breve crepusculo das tardes de inverno.

O pharol do Espichel, girando as suas aspas de fogo intermittentes, parecia abrir sulcos luminosos pelo mar levemente enrugado. 

Bugio e São Julião accendiam-se. As estrellas estremeciam no firmamento límpido. Noite coroada de lumes.

Bugio e Forte de São Julião da Barra.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A aragem era um alento virgínio, e a vaga na praia um suspiro amoroso. As redes voltaram ao mar. A companha bradou a uma voz:

Bulhão Pato,
Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

— Avé, Maria puríssima! (2)



(1) Teixeira Judice, Antonio Arroyo, Notas sobre Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1894


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O Juncal

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial

A Arte-Xávega é uma técnica de pesca tradicional que consiste na utilização de uma rede de cerco envolvente que é lançada no mar e depois puxada para terra.

O mar como patrimonio, exposicão: arte-xávega na Costa da Caparica, 2015.
Imagem: Francisco Silva

A Arte, como é designado o conjunto constituído por cordas, alares e saco, é lançada ao mar a partir de uma embarcação, deixando em terra a ponta da corda designada por banda panda. Depois de largar a rede, a embarcação regressa à praia trazendo a outra ponta de corda, designada por banda barca.

Logo que a segunda corda chega à praia inicia-se o processo de alagem em simultâneo de ambas as cordas, puxando para a praia a rede cuja boca do saco se mantém aberta através da utilização de boias e de pesos.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n
Imagem: Delcampe

Esta técnica de pesca, praticada também em outras regiões do país, foi trazida para a Costa da Caparica por comunidades piscatórias de Ílhavo e Olhão, responsáveis pelo povoamento do lugar. 

Adaptando-se às praias e ao mar da Costa da Caparica, a Arte-Xávega adquiriu características específicas que a distinguem de práticas semelhantes utilizadas em outras regiões do país.

Considerada como arte de cerco envolvente de puxar para terra a Arte-Xávega tem uma origem remota que segundo alguns autores remonta à pré-história, estando documentada em diversas regiões do Mediterrâneo mas também no Índico. 

Barco lua na praia de Cox's Bazar, baía de Bengala, Bangladesh.
Imagem: WATEVER

Em Portugal a utilização das redes da Arte-Xávega nos moldes que atualmente se conhecem remontam ao século XVIII e terão sido introduzidas por armadores andaluzes e catalães nas praias do Algarve e da Costa Nova, na sequência da proibição em 1725 da pesca de arrasto nas praias da Catalunha.

Na Costa da Caparica as condições naturais necessárias à utilização da Xávega: praia aberta e sem obstáculos, fundos de areia sem rocha e abundância de peixe, associada à proximidade da foz e estuário do Tejo, atraíram companhas de pescadores oriundos de Ílhavo e Olhão que aqui vinham pescar sazonalmente tirando partido do mar mais calmo e da proximidade do mercado da capital para o escoamento do pescado, principalmente sardinha.

Costa da Caparica, Entrando no mar, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins

A partir de 1770 ter-se-ão fixado definitivamente na Costa as primeiras companhas oriundas de Ílhavo dando início ao povoamento do lugar, até então despovoado e desprezado pelas populações locais, em parte devido à insalubridade derivada da existência de pântanos e juncais que dominavam a paisagem de areal da costa atlântica da freguesia de Caparica.

Como forma de dar resposta a algumas das necessidades da população que então passou a constituir a povoação da Costa os mestres das companhas organizaram o "Cofre dos Quinhões das Companhas", para o qual cada companha contribuía conforme o pescado vendido, com o rendimento do cofre se pagava anualmente ao “cirurgião”, ao padre e ao escrivão.

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O muro de cemitério e a sua pequena capela, assim como o poço que abastecia a população de água potável, foram igualmente pagos com dinheiro do "Cofre", que financiava as festas em honra da padroeira, Nossa Senhora do Rosário, a manutenção da capela e o apoio aos mais desvalidos da comunidade.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba.
Imagem: Delcampe

A organização social destas primeiras comunidades locais baseava-se em laços familiares e laborais, sendo que cada companha constituía como que uma família alargada, num segundo nível.

Os locais de origem marcavam de forma mais profunda a separação social entre ílhavos e algarvios, que ocupavam espaços territoriais diferenciados, cuja linha divisória (atual Rua dos Pescadores) separava os descendentes dos ilhavenses, a norte, dos algarvios, a sul.

Identificam-se entre alguns pescadores e pescadoras indivíduos oriundos do Alentejo que se fixaram na Costa da Caparica e desenvolveram a sua atividade em torno da pesca.

Costa da Caparica, Almada, Passaporte, 69, Pescadores transportando as redes.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Acerca da origem dos membros da comunidade piscatória importa ainda referir que a necessidade de força de trabalho utilizada na Arte-Xávega contribuiu para integrar na comunidade muitos indivíduos de origens desconhecidas que procuravam abrigo e trabalho nas companhas da Arte-Xávega.

Eram chamados barraqueiros por habitarem nas barracas da companha, utilizadas para guardar as redes e outros apetrechos de pesca. Esta realidade mantém-se atual, sendo que continuam a habitar nos alvéolos dos pescadores da Costa vários pescadores de origem africana.

A Praia do Sol, O transporte da rede e a faina, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 105.
Imagem: Delcampe

Contudo, na sua maioria, os membros da comunidade piscatória são naturais da Costa da Caparica, sendo a pesca uma atividade que se mantém no âmbito das famílias e um recurso perante a falta de outras oportunidades de ocupação profissional.

A Arte-Xávega seria então o principal método de pesca utilizado de entre outras artes tradicionais de cerco e alar para terra como o Chinchorro, a Rede-Pé, a Mugeira ou o Estremalho, artes que foram proibidas por terem malhagens reduzidas sendo por isso consideradas muito predatórias.

A pesca com a Arte-Xávega, mais precisamente a condução das redes, fazia-se com recurso a embarcações designadas Saveiros ou Barcos de Mar, trazidos pelos pescadores da Beira Litoral (Mira, Torreira, por exemplo onde ainda hoje são utilizados).

Barco de Mar, companha de S. José, praia de Mira.
Imagem: ahcravo's Blog

Eram movidos a remos por tripulações com cerca de vinte remadores a bordo, contudo as condições do mar da Costa da Caparica levaram à transformação dos Saveiros em embarcações mais pequenas e com um desenho ligeiramente diferente a que se chamou Meia-lua (por apresentarem as bicas simétricas enquanto o Saveiro apresenta a bica da proa mais elevada do que a da popa) ou Saveiro da Costa.


Em comum ambas as embarcações apresentavam o fundo plano, que permitia a manobra deslisando sobre a areia, bem como a popa e a proa elevadas para vencer a rebentação das ondas quer à vante quer à ré adaptando-se ao vale da onda.

O meia-lua, de dimensões variáveis consoante o número de remos que levava: dez, oito ou seis, embarcava uma tripulação composta pelo arrais, espadilheiro (manobrava o remo da espadilha colocado à popa que servia de leme), calador (responsável por "meter" e largar a rede), rapaz do pau da corda e os remadores, um por cada remo, conforme a dimensão da embarcação.

Pormenor da praia da Caparica, ed. Fotex, 144
Imagem: Delcampe

A partir de meados do século XX os meias-luas vão sendo substituídos por embarcações mais pequenas designados por "barco de duas bicas", que apresentavam ainda a popa e a proa levantadas mas com as bicas mais baixas, ainda movido a remos mas de mais fácil manobra e adaptado a outros tipos de pesca para além da Arte-Xávega.

Costa da Caparica, Saindo para o mar, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 173.
Imagem: Delcampe

Na Costa da Caparica a adaptação de motores aos barcos da Arte-Xávega iniciou-se na década de setenta do século XX. Fazia-se nos meia-lua através de um "poço" à popa, onde o motor era introduzido na vertical. Isso obrigava a que, na chegada à praia, o motor tivesse de ser levantado para não bater no fundo.

No sentido de aumentar a segurança e a estabilidade da embarcação, bem como torná-la mais versátil para outros tipos de pesca, foram sendo introduzidas as Lanchas ou Chatas.

Costa da Caparica, Puxando a barca para a pesca,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 613.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

A mecanização da alagem através da adaptação de aladores à tomada de força dos tratores, introduzidos na década de setenta do século XX para apoiar as manobras das embarcações e o transporte do peixe, resulta de várias experiências realizadas por alguns armadores locais e generaliza-se a partir de finais da década de oitenta do século XX.

Costa da Caparica, Companha São José, de volta à faina, 2015.
Imagem: Francisco Silva no Facebook

Segundo a opinião de alguns pescadores, recolhida em contexto de diálogo informal, a mecanização dos barcos, do transporte do peixe e da alagem da rede é condição determinante para a sobrevivência da Arte-Xávega na Costa da Caparica, pois já ninguém se sujeitaria ao esforço necessário para realizar manualmente e à força de músculos todas as tarefas necessárias durante uma jornada de pesca.

Costa da Caparica, Pôr do Sol, ed. Passaporte, s/n.
Imagem: Delcampe

A faina da pesca realizada através da Arte-Xávega na Costa da Caparica, sendo praticada no mar e na praia constitui uma atração turística que cativa muitos dos frequentadores da praia nomeadamente banhistas que principalmente durante os meses de verão acorrem em grande número para observar a chegada à praia da rede e a escolha do peixe.

Nesse sentido apesar da proibição desta prática da pesca nas áreas concessionadas entre 09:00 e 19:00 horas, imposta durante a época balnear, alguns concessionários viabilizam o acesso dos tratores através das concessões no sentido de possibilitar a prática da Arte-Xávega.

A possibilidade de comprar peixe na praia diretamente aos pescadores constitui outro atrativo que contribui para a valorização da Arte-Xávega na Costa da Caparica enquanto recurso turístico, para além de favorecer o rendimento das companhas.

Encontram-se jovens de ambos os sexos integrados nas companhas da Arte-Xávega, tendo como principal objetivo auferir de algum rendimento monetário. 

Apesar de se observar alguma falta de interesse por parte das novas gerações em dar continuidade à atividade piscatória na Costa da Caparica, observa-se uma renovação das companhas entre as quais se encontram atualmente três governadas por “donos” com idades na casa dos quarenta anos ou menos.

Nesse sentido considera-se que os conhecimentos e experiência necessária ao governo da Arte, principalmente no que diz respeito à construção e manutenção das redes imprescindíveis à continuidade da prática da Arte-Xávega e sem qualquer viabilidade de produção industrial, se encontram minimamente salvaguardados e com possibilidade de terem continuidade e viabilidade económica.

Costa da Caparica, As redes, aguarela de Manuel Tavares, 1965.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O património imóvel associado à comunidade piscatória da Costa da Caparica e por inerência à prática da Arte-Xávega relaciona-se com os locais de arrumação dos aparelhos e artes de pesca, bem como a habitação.

Contudo, em virtude do crescimento urbano da cidade da Costa da Caparica, observaram-se a partir da primeira metade do século XX transformações profundas que condicionaram a atual concentração habitacional da comunidade piscatória.

Os primeiros locais de fixação de população na Costa da Caparica dividiam-se em dois núcleos separados pelo traçado da atual Rua dos Pescadores — as famílias de pescadores oriundos do Algarve a norte, e as de Ílhavo a sul.

Costa da Caparica, Vista parcial e Rua dos Pescadores, ed. Passaporte, 72, década de 1960.
Imagem: Delcampe

As habitações primitivas da Costa eram construídas em tábuas e estorno (gramínea que se desenvolve nas dunas).

O primeiro bairro em alvenaria foi construído a norte da Rua dos Pescadores em 1884 por iniciativa do deputado Jaime Artur da Costa Pinto, com a finalidade de alojar as famílias de pescadores cujas habitações haviam sido destruídas por um incêndio.

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino
Imagem: Hemeroteca Digital

Contudo, a partir do primeiro quartel do século XX, com o desenvolvimento da Costa da Caparica enquanto estância balnear e subsequente urbanização da zona norte da povoação as famílias dos pescadores que se aí se haviam instalado foram de alguma forma "empurradas" para sul, onde surgiu o bairro de barracas designado por "Rua 15".

Aspecto do bairro piscatório da Costa da Caparica, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A partir da década de sessenta do século XX, com a construção do Bairro dos Pescadores, integrada nas medidas de fomento da pesca tradicional promovidas pelo Estado Novo através do almirante Henrique Tenreiro e da Junta Central da Casa dos Pescadores, sedeada na Costa da Caparica, a maioria dos pescadores da Costa da Caparica passa a dispor de habitação no bairro cuja construção se desenvolverá em três fases.

Acerca da habitação dos pescadores foi possível perceber que a proximidade da habitação ao mar é uma condição determinante para a viabilidade da atividade da pesca, pois a decisão acerca da saída para a faina depende da observação do estado do mar, pelo que a proximidade da praia é determinante na decisão dos mestres e na possibilidade de chamar os camaradas para a faina.

Importa referir que tradicionalmente um dos elementos da companha, geralmente uma criança, tinha a função de "chamador": percorria as habitações dos pescadores gritando "chama o arrais" convocando assim os pescadores para a faina.

Uma das zonas referidas pelos pescadores mais idosos, como local de referência para a comunidade piscatória da Costa da Caparica situa-se onde se encontra o Hotel Praia do Sol.

A Praia do Sol - O Hotel, década de 1930
ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia.
Imagem: Delcampe

Esse local era designado "o Alto" onde se concentrava um núcleo habitacional e onde se via o mar. Quando os alcatrazes caiam mergulhando no mar era sinal de sardinha.

Em data não determinada, quatro famílias da Costa da Caparica foram fundar a povoação da Fonte da Telha, onde se juntam também duas famílias da Charneca.

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
Imagem: Cruz Louro

A transformação determinante na história da Costa da Caparica e da sua comunidade piscatória opera-se a partir da década de vinte do século passado com a classificação de estância balnear.

As famílias de pescadores passam então a alugar as suas casas aos "banhistas" habitando durante o verão nas barracas de apoio à pesca, alguns pescadores durante esse período passam a trabalhar como banheiros nas praias concessionadas.

A Arte-Xávega, os seus pescadores e principalmente os barcos meia-lua, constitui uma atração turística, passando a imagem do pescador e do barco meia-lua a estar ligada à promoção turística da Costa como "imagem de marca".

Costa da Caparica, barco meia-lua, Adriano Sousa Lopes, década de 1930.
Imagem: Flickr

Diversos fotógrafos registaram imagens da faina piscatória na Costa da Caparica, sendo que algumas dessas imagens foram publicadas em postais e folhetos turísticos.

Artistas plásticos e fotógrafos, entre os quais se destacam José António Passaporte, João Martins e Júlio Dinis, registaram os métodos de pesca então utilizados na Arte-Xávega constituindo um acervo que permite documentar a Costa da Caparica e das suas gentes durante a primeira metade do século XX.

Importa ainda referir que não se realizou nenhum recenseamento da comunidade piscatória, havendo contudo indícios de que algumas pessoas que trabalham na pesca habitem em outras localidades do concelho, nomeadamente a Charneca e o Monte de Caparica, sem esquecer a Trafaria, povoação piscatória cuja ocupação antecede a Costa da Caparica e onde residem muitos pescadores que também pescam e integram as companhas da Costa.

As novas tecnologias de comunicação e a facilidade das deslocações com recurso a meios de transporte próprios terá introduzido algumas alterações ao nível dos locais de habitação dos pescadores, contudo o caracter familiar da atividade contribui para que na sua maioria a classe piscatória habite na Costa da Caparica.

As principais manifestações religiosas da comunidade piscatória da Costa da Caparica já não se realizam, contudo permanecem na memória coletiva das populações locais demonstrando a religiosidade própria dos pescadores que, não frequentando a igreja, possuem uma forte devoção associada à proteção que esperam receber.

As principais celebrações consistiam numa procissão em honra de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Costa da Caparica, durante a qual era transportada uma miniatura de meia-lua cuja tripulação é composta por Jesus Cristo e os apóstolos (imagem conservada na primitiva igreja paroquial).

Costa da Caparica, Procissão da Senhora do Rosário, Revista Ilustração, 1937.

A Nossa Senhora do Cabo Espichel constituiu outra das devoções da comunidade piscatória da Costa que, até às primeiras décadas do século XX participava regularmente no Círio do Cabo, percorrendo parte do percurso pela praia.

As práticas de pesca tradicional utilizadas na Costa da Caparica estão dependentes de um conjunto de fatores naturais que condicionam o sucesso da atividade e os riscos associados à navegação que podem colocar em perigo a integridade física dos pescadores.

Costa da Caparica, Almada, Passaporte, 60, Arribação dos pescadores após o lançamento das redes

Nesse sentido, embora seja difícil aferir as crenças e devoções particulares de cada pescador, alguns dos aspetos referidos no Anexo I em 19.3. [ver anexos], nomeadamente a pintura de um olho de cada lado da proa de algumas embarcações assim como os nomes que lhes são atribuídos, constituem no nosso entender aspetos que caraterizam as manifestações de Património Imaterial associadas à Arte-Xávega na Costa da Caparica. (1)



(1) MatrizPCI: Arte-Xávega na Costa da Caparica

Anexos:
MatrizPCI — Chata
MatrizPCI — Arte
MatrizPCI — Bibliografia
MatrizPCI — Multimédia

Temas:
Arte xávega
Saveiro meia Lua
Costa da Caparica

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Arte sineira

António Caliço abre os braços num amplexo frouxo de desalento e aponta o mar que nos beija os pés. "Isto está feio" — e com três palavras narra toda a vida da sua aldeia habitada por umas tantas dezenas de famílias de pescadores.

Fonte da telha, década de 1950.

Fonte da Telha. A dois passos de Lisboa, quatro ou cinco quilómetros da Costa da Caparica, perdeu agora, Verão fora, o cariz de estância balnear pobre, para ficar só o que realmente é durante todo o ano: uma pobre aldeia de pescadores.

"Mesmo isso da praia está-se a perder", lamenta António Caliço — "as pessoas estão a gostar mais de ir para a Lagoa, uns quilómetros mais abaixo." O homem aponta agora, num gesto enfadado de desalento, para a penosa ladeira de areia solta que constitui o único acesso à aldeia e à praia e conclui: "Só para não terem de subir isso as pessoas deixam de cá vir. Se não era para terem feito já uma estrada, caramba... são só cem metros..."

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

E é verdade. Nos últimos anos o único melhoramento de vulto conhecido pela aldeia da Fonte da Telha foi o posto da Guarda Fiscal, que serve para cobrar o imposto de pescado dos habitantes. O posto fica cá em cima, no alto do que deve ser o talude mais penoso de descer e, sobretudo, de subir. Quando o peixe arrastado para terra se estende na areia, com as famílias dos pescadores todas reunidas à sua volta, a Guarda Fiscal encarrega-se de proteger os legais direitos do Estado, cobrando o imposto devido pela pesca.

Um viver primitivo e sem perspectivas

António Caliço é um dos 19 membros da companha do arrais Noel Monteiro. "Se quiser mandar-me os retratos é só escrever: António Caliço, Arte Sineira, Fonte da Telha. Vem cá ter."

Arte Sineira é o tipo de pesca utilizado pelos pescadores da Fonte da Telha. Um ramo de arte xávega da Nazaré. Os barcos partem para o largo, para lançarem as redes em pontos determinados da costa. As artes ficam armadas durante todo o dia ou toda a noite, conforme o caso. Ao fim do tempo considerado necessário que é condicionado pelo conhecimento que os pescadores têm dos hábitos do peixe, as redes começam a ser puxadas para a praia através de umas enormes cordas que se encontram presas nas extremidades do aparelho. 

Costa da Caparica, arte xávega, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma arte pobre, embora difícil e tremendamente arriscada. Toda a faina decorre junto à costa, o que obriga as tripulações dos pequenos botes a suportarem a violência da rebentação. Na maior parte dos dias não se pesca nada. Mas fica sempre a esperança de que na noite seguinte as coisas corram melhor. A vida na aldeia reflecte em pleno toda a falta de perspectivas de única actividade produtora da população. Todos sentem que a pescar por este antigo e ultrapassado método nunca sairão da miséria em que se encontram, mas nem dispõem de meios para sair do impasse nem parecem estar decididos a tal. É uma pobreza que se aceita por determinismo.

Meses inteiros desligados do mundo

Fonte da Telha vive separada do mundo por uma ladeira com cem metros de areia solta. No Verão sempre aparecem uns banhistas. 

Fonte da Telha, 1964.
Imagem: Memória com História

No Inverno só o contacto irregular com os negociantes de peixe. Mas quando a violência das ondas impede que os homens vão para o mar, a aldeia fica cercada por todos os lados. De uma massa ameaçadora do líquido oceânico. Do outro a vertente incómoda da areia solta.

Os negociantes deixam de aparecer, a aldeia isola-se e fica ainda mais triste e mais pobre. É um dia destes que chegamos à Fonte da Telha. Lá em baixo, as casitas de tábuas velhas parecem agachadas ante a rudeza descomunal da ravina. Não se vê vivalma. Dir-se-ia deserta. Uma aldeia abandonada provoca arrepios.

Mas vê-se agora uma rapariga que vai da barraquita de madeira para ir estender roupa no arame esticado em frente da habitação. Um pouco mais ao lado surge, de sob um barco voltado de boca para baixo, em sinal de paralisia que a fúria do mar impõe, um pescador de camisa axadrezada e calça de ganga arregaçada até aos joelhos.

Capa do livro de Alexandre Cabral, Fonte da Telha.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

É o António Caliço. Olha-nos com certa reserva. Não é para menos. Estranhos lá em baixo, no dia pegado de chuva, é para espantar. As pessoas, as mulheres, as crianças e os pescadores, assomam-se às portas para nos espreitarem, roídas de curiosidade.

O mais pequeno rendimento per capita do país

"Pescador tem muitos filhos. Não pode ter mais nada, tem muitos filhos. Eu por acaso não tenho nenhum, sou solteiro. Mas há-os aí com sete e oito fedelhos e comê-los pelas pernas." António Caliço fala calmamente, dominado pelo fatalismo próprio do pescador isolado. Vê que está mal, que a aldeia está mal, que as coisas vão mal, mas não sabe como resolver a situação. Está convencido de que as coisas acontecem como têm de acontecer, sem remédio que o homem possa engenhar. "Umas vezes o peixe aparece e outras não. É tudo. Que pode um homem fazer? Quando o mar se zanga e quer meter-nos os barcos no fundo, como havemos de o sossegar, como?"

Festa infantil na Costa da Caparica, 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

António Caliço bem vê os barcos grandes de pesca que passam ao largo, movidos por fortes motores, mas para ele constituem uma possibilidade tão remota que prefere não pensar nela. Falamo-lhe das modernas técnicas de pescar, das sondas electrónicas para detectar os cardumes, das descargas eléctricas com que alguns navios russos e norte-americanos aprisionam o peixe às toneladas, mas deixamo-lo hirto como um penedo. Vive tão intensamente a sua realidade de Fonte da Telha que prefere não agravar ainda mais o seu sofrimento a sonhar sonhos impossíveis.

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
Imagem: Cruz Louro

Fonte da Telha possui três artes sineiras

São três as artes de Fonte da Telha. Cada uma compreende 19 homens que se associaram em sistema cooperativo. Para o mar, na operação sempre arriscada do lançamento das redes, vão oito. Seis encarregam-se dos remos, um toma conta da corda que prende as extremidades do aparelho e que o puxará no final da faina para terra, o oitavo vai à espadilha. Os onze restantes ficam em terra para colaborarem na penosa operação do puxamento da rede.

As contas são feitas, ao fim de cada faina, segundo normas tradicionais estabelecidas há dezenas, senão centenas de anos. O produto total da pesca é dividido em 14 partes. Os homens que foram ao mar recebem uma destas catorze partes. Os que ficaram em terra para puxar as redes recebem meia parte. Nos últimos meses os que foram ao mar saíram-se com "uns 800$00 por mês, enquanto os que ficaram em terra, não ganharam mais do que uns 500$00".


Claro que os pescadores e as suas famílias não ganham só dinheiro: também comem peixe, o peixe que pescam. "Na maior parte dos dias" — diz-nos António Caliço — "o que pescamos é distribuído quase inteiramente por todos, para que haja de comer nas casas dos pescadores".

Muitos dias nem para se comer se apanha. Por cima dos telhados vêem-se ainda restos de peixe exposto ao sol para secar, que constituirá nos dias mais negros do inverno que se aproxima o alimento base do povo de Fonte da Telha. É peixe de manhã à noite. Peixe ao pequeno almoço; peixe ao almoço; peixe ao jantar; e só não é peixe à ceia por que o pescador da Fonte da Telha mal suporta os encargos das três parcas refeições a que está habituado.

As crianças vão a uma escola das redondezas, mas quase todas ficam pela terceira classe. As raparigas ficam em casa para ajudarem as mães na lida da casa; os rapazes ou ensaiam os primeiros puxões na corda da velha arte sineira, ou sobem a ravina de areia, para irem trabalhar na serventia para o Alto do Grilo, Costa da Caparica ou outra terra das proximidades.

Todos desejam afastar os filhos da miséria do pescador

São, contudo, muito poucas as crianças da Fonte da Telha que hoje se iniciam na arte sineira que apaixonou os seus descendentes nos últimos séculos. São os próprios pais e ainda mais as mães que tudo fazem para os afastar do fascínio do mar. Só os que de todo em todo não podem é que não mandam os filhos aprender outro ofício sobretudo na construção civil.

Festa infantil na Costa da Caparica, 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

É o esboçar de um movimento de fuga que é incutido nos mais novos pelos mais velhos, que conduzirá fatalmente à extinção das aldeias de pescadores que guarnecem a orla marítima portuguesa e de que Fonte da Telha, a dois passos de Lisboa, é um caso típico. (1)


(1) António dos Santos, Notícias da Amadora, n° 348, 21 de dezembro 1968
Enviada a Censura em 1968-12-16, Decisão: Cortado Nº de linguados: 4


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Arte xávega descrita por Romeu Correia