Mostrar mensagens com a etiqueta Convento dos Capuchos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Convento dos Capuchos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de maio de 2017

Cronologia do Convento dos Capuchos (Caparica)

1558 - fundação e construção do convento com invocação a Nossa Senhora da Piedade, integrado na Ordem dos Franciscanos Arrábidos, ordenada por D. Lourenço Pires de Távora (1510-1573), da família nobre dos Távora, 4º senhor da Casa e Morgado da Caparica, nascido em Almada, homem de armas e diplomata ao serviço de Portugal, que passa a ser seu padroeiro; 

Mapa de Portugal, Mosteiro da deceda, Convento dos capuchos Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

a construção é de linhas simples, com as celas nos sobrados e as restantes dependências na parte inferior, nas traseiras da igreja; construção de uma ermida, na cerca do convento, de invocação ao Apóstolo São Pedro, para as orações particulares dos religiosos; a comunidade religiosa é protegida pelos padroeiros do convento, donos das quintas da região e pelo próprio rei D. Sebastião que concede aos freires o privilégio de se abastecerem de lenha dos seus pinhais de Caparica;

1560 - o papa Pio IV concede ao altar-mor as mesmas indulgências de que usufruíam as igrejas de São Gregório de Roma e de São Sebastião de extra-muros da mesma cidade;

1573 - falecimento do instituidor do convento que, cinco semanas antes da sua morte, se tinha recolhido nele; A lápide da sepultura da capela-mor tem a inscrição "SEPULTURA DE LOURENÇO PIRES DE / TAVORA DO CONSELHO DO ESTADO DEL- / REI D. SEBASTIAO O I DESTE NOME INS- / TITUIDOR E PADROEIRO DESTA CASA. / FALECEU DE IDADE DE 63 ANOS A / 15 DE FEVEREIRO NO ANO DE 1573 / AVENDO CINCO SEMANAS Q. DESCANSAVA / EM SUA CASA DE MUITOS SERVIÇOS Q. FEZ A ESTE REINO NA PAZ E NA GUER- / RA E NA ASIA AFRICA E EUROPA".

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

1618 - renovação dos dormitórios;

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

1630 - obras de ampliação e beneficiação com re-edificação do imóvel, provavelmente incluindo a fachada principal, com acrescento do coro-alto e do nártex com uma serliana e que, para além do símbolo dos Franciscanos e das armas dos Távoras, passa a ter duas janelas laterais e, ao centro, um nicho; revestimento do nártex com azulejos e feitura do púlpito da igreja, da responsabilidade do Provincial Frei Lourenço da Madre Deus;

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

1755, 01 novembro - terramoto causa grave destruição do convento, à exceção da frontaria;

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Séc. 18 - é padroeiro do convento José Menezes Távora;

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1778 - data inscrita no painel de azulejos do portal de acesso ao jardim sobrelevado da cerca;

1779 - os frades passam a assegurar uma "escola de ler, escrever e contar" onde afluem jovens das aldeias vizinhas;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

1834 - extinção das Ordens religiosas e sequente declínio do convento e desaparecimento dos azulejos do nártex; residem, então, no convento, apenas 9 frades, passando a tutela para a responsabilidade do Juiz do Povo da Freguesia; supressão do convento devido ao baixo número de frades residentes e a ter sido considerado inútil;

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1872 - nacionalização dos bens do convento;

Sécs. 19 - 20 - sofre longas vicissitudes que levam à ruína da ermida de São Pedro juntamente com o convento, ficando apenas alguns vestígios, que possibilitam o posterior levantamento das paredes deste, no mesmo local; é ocupado, ao longo dos anos, por pastores e agricultores da região com pastagens nas imediações, tendo passado por várias transmissões;

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1925 - desaparecimento dos azulejos da igreja;

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1950 - compra de toda a parte rústica e urbana da propriedade do antigo convento dos Capuchos, pela Câmara Municipal de Almada ao então proprietário Virgílio Alves Xavier;

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

1952 - data das imagens do interior da igreja e da talha dourada do altar, oferecidos pelo Dr. João Couto, então Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga;

Caparica,, Convento dos Capuchos, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1952, 18 outubro - regresso das ossadas do instituidor e padroeiro do convento e seu sepultamento à entrada da capela-mor;

Costa da Caparica, Almada, Miradouro dos Capuchos e Caparica
Ed. Passaporte, 30

1960 - 1970, décadas - construções nos jardins, época de imagens de santos e outras obras expostas, resultado de ofertas provenientes de monumentos demolidos de Almada e Lisboa, tendo algumas obras sido realizadas por mestre de obras e pedreiros;

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

1982 - data inscrita sobre um dos arcos do miradouro recente, possivelmente assinalando a sua construção;

1984 - elaboração de um convénio entre o Museu Municipal de Almada e o Centro de Arqueologia de Almada; início da fase de estruturação e instalação no convento do Museu Municipal de Almada;

2000, 13 maio - assinatura do auto de consignação que marca o início das obras de restauro, consolidação e ampliação do convento;

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

2000 - início da requalificação do convento pela Câmara Municipal de Almada. (1)


(1) Albertina Belo, SIPA, 2001

Artigos relacionados:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda
A Costa romântica de Bulhão Pato

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Costa romântica de Bulhão Pato

A viagem de Cacilhas até os Capuchos será de uns oito kilometros, pouco mais ou menos.

A paizagem soberba: Alfeite, Valle de Morellos, Espadeiros, Sant'Anna, Valle de Flôres, e o Medo enorme da lagoa d'Albufeira, montanha de oiro resaindo das massas de vinhedos e pinbeiraes.

Pena é que os muros, ás vezes como pannos de fortaleza medieva, hoje, na maior parte, completamente inuteis, privem o viajante das variadas e graciosas perspectivas.

Caparica abraça uma area grande.

Começa á entrada da barra. Do lado do norte é banhada pelo Tejo na extensão de doze kilometros: pelo oeste, põe-he termo o oceano; ao sul alarga-se até Valle de Cavalla.

Como portos de mar tem Banatica, Paulina, Porto-Brandão, Portinho da Costa e Trafaria. Quantos e quantos quadros, com recordações historicas, se não podem tirar d'estes accidentados e fertilissimos logares!

Agora, rapidamente e em toques impressionistas, falarei do convento dos Capuchos, ponto de vista dos mais bellos das cercanias, onde ha tantos. Poucos se encontrarão em todo o pais que lbe sobrelevem, principalmente na originalidade.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Sobre as escarpas que se precipitam ao fundo do Juncal, levanta-se o templosinbo dos capuchinboe arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Tavora, quarto senhor de Caparica, em 1564. D. Lourenço, quando nosso embaixador em Hespanha, foi quem deu a Carlos V a replica, que apesar de velha tem sempre um travo picante.

Um dia o monarcha, mal humorado, disse-lhe:

— Eu sei muito bem quantas pontes e rios tem Portugal.

— As mesmas, senhor, que tinha em 1385.

O destemido e brilhante antecessor dos desditosos que foram feitos a pedaços no pavoroso cadafalso de Belem atirava á cara do Cesar omnipotente, nem mais nem menos, a batalha de Aljubarrota.

O convento dos Capuchos domina, ao nascente, a serra da Arrabida, divisoria do Sado e Tejo, e o castello de Palmella; ao norte, Lisboa e a serra de Cintra; a sudoeste, o Cabo, perfil exacto da cabeça de um elephante fabuloso, menos o dente: ao oeste, a barra, as torres de S. Julião e do Bugio, a bahia de Cascaes, perdendo-se depois a vista na curva remota do mar. Em baixo o Juncal, que vae da Trafaria ao Cabo. Os casalitos, os quinchosos, as courellas de vinhas, rccortando-se no chão plano e vastissimo. e resaindo das grandes manchas da joina e do junco. 

Caparica, Alto da Chibata ao Outeiro dos Capuchos (?), década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os medos de areia loira, tomando diversas formas e opondo-se, como trincheiras, aos assaltos do mar em furia. Quando o sol de purpura e de fogo baqueia nas ondas, joga-lhe as frechas incendiadas e, por momentos, toda a planura parallela ao azul do oceano parece uma leziria em chammas.

Costa da Caparica, arte xávega, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em pleno dia,se a povoação da Costa dá signal das negras de sardinha, de todos os casalitos do sope da rocha e disseminados pelo campo. partem cavallos e eguas beirõas acudindo a praia. Depois as recovas carregadas da pescaria, a travado largo, correm á venda, juncal abaixo. As raparigas trepam pela Fonte da Pipa e Villa Nova.

Lá vae aquella: [ver artigo relacionado: Viva da Costa]

Tudo isto se pode vêr e admirar do pobre convento hoje desmantelado, convento que ainda conheci forrado dos seus magníficos azulejos, vendidos de rastos ao primeiro que lhe deitou olhos mais ou menos entendedores.

Os arrabidos do conventinho ensinavam a lér os moços do Arieiro, de Villa Nova e da Costa. Pediam esmola uma vez por semana, e pedindo esmola fizeram a sua casa conventual. 

Caparica, Outeiro dos Capuchos, ed. desc., década de 1900. [A remover]
Colares, Subida vindo da estrada velha de Monserrate.
Imagem: Dias que Voam

Acudiam-lhes com bizarria os fidalgos de primeira grandeza, que em tempos isto foi a Cintra, o Estoril e o Cascaes de hoje, e tambem lhe valiam com mão profusa lavradores abastados d'estes contornos.

Assim se fez, com auxilio de uns e de outros, e não com a capa lendaria estofada de dobrões do pobre pedinte, o bello templo, dos finaes do seculo XVI, de Nossa Senhora do Monte, templo que ia a desabar em ruinas.

Hoje está em pé e restaurado, graças aos esforços do meu velho amigo José Dias Ferreira.

Terminarei este rapido bosquejo com uma anecdota, que apesar de impressa no "Portugal Antigo e Moderno", não será muito conhecida.

D. João VI foi um dia á Costa. O pacifico monarcha era bom garfo, bom dente, soberbo estomago e amador de pratos nacionaes.

Deram-lhe na Costa uma caldeirada. Pois, senhores, de tal modo ficou maravilhado o principe, cuja virtude suprema não era a generosidade, que rompeu n'este rasgo:

Fez "Mestre das Caldeiradas" o bemaventurado que lh'a preparou, estabelecendo-lhe 800 réis diarios emquanto fôsse vivo.

A casa onde D. Joao Vl se banqueteou lá está na Costa e com as armas reaes como recordação.

Costa da Caparica, Casa da Coroa, José Manuel Soares (detalhe).
Imagem: Notícias da Gandaia

Ali foi depois D. Maria II e D. Pedro V. Muita gente do sitio me tem contado, com grande admiração e estranheza, que D. Maria II comia as sardinhas como a gente do povo: em cima do pão e ás dentadas. Comeu n'aquelle dia, d'esta fórma, para mais d'uma duzia.

As nossas elegantes de hoje, que venham ver na primavera e verão a deslumbradora vista do convento dos Capuchos, sigam depois para a Costa, que lhes fica fronteira a dois passos, e comam as picantes sardinhas d'aquella praia como as comia a filha imperador D. Pedro IV, rainha portuguesa das mais pontuaes no seu officio, e das mais dignas na altivez da sua soberania.

Monte de Caparica, Torre
Fevereiro 1906
Bulhão Pato



(1) Bulhão Pato, Illustração Portugueza, Convento dos Capuchos, Lisboa, 29 outubro 1906

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Caparica, 1923

Do outro o mar azul metendo-se, num jorro enorme, pela ampla barra de Lisboa, deslumbrante e majestosa. De onde isto é esplêndido é acolá do alto do convento dos Capuchos. (1)

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

Da horrível Trafaria à Caparica gastam-se dezoito minutos num carrinho pela estrada através do pinheiral plantado há pouco. 

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112
Imagem: Delcampe

Os pinheiros são mansos, anainhos e inocentes: — os pinheiros novos são como bichos novos e têm o mesmo encanto. 

Ao lado esquerdo desdobra-se o grande morro vermelho a esboroar, e ao outro lado o terreno extenso e plano rasgado de valas encharcadas. De repente uma curva, algumas casotas cobertas de colmo — Caparica. 

Cabanas junto ao mar, Falcão Trigoso, óleo sobre madeira, 1925
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Primitivamente isto foi um grupo de barracas que os pescadores aqui ergueram neste esplêndido sítio de pesca, à boca da barra, a dois passos do grande consumidor. Têm um ar ainda mais humilde que os palheiros de Mira ou Costa Nova. 

Quatro tábuas e um tecto de colmo negro com remendos deitados cada ano: alguns reluzem e conservam ainda as espigas debulhadas do painço.

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

No imenso areal o barco da duna, sempre o mesmo barco, maior ou mais pequeno, próprio para a arrebentação, de proa e popa erguidas para o céu. 

Praia do Sol, Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n
Imagem: Delcampe

Trabalham seis companhas em catorze barcos. Já trabalharam oito. Cada barco emprega vinte e um homens, contando dez que ficam em terra. 

Costa da Caparica, Entrando no mar, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins
Imagem: Delcampe

Usam quatro remos: um grande de cada lado e dois pequenos, servindo os maiores para aguentar o barco quando as águas puxam e se vai ao mar a risco. 

A cada remo grande agarram-se três homens e dois aos mais pequenos. O espadilheiro guia o barco com outro remo – a espadilha. Quando há muito peixe fazem-se três lanços cada dia, e trabalha-se todo o ano se o mar deixa. A rede é a de arrasto para a terra.

O barco sai ao mar deixando um cabo nas mãos dos dez homens que ficam no areal, e vai-o largando pouco e pouco — cinquenta e tantas cordas de dezoito braças cada uma. 

Quando o arrais acha que se deve largar a rede, diz: — Em nome da Senhora da Conceição, rede ao mar! – E larga-se o calão, em seguida o alar, depois o saco, e por fim o outro alar e o calão, trazendo-se a corda para a terra. Abica, salta a tripulação e com os homens de terra arrastam a rede. 

Apanha-se sardinha, carapau, e às vezes, em lanços de sorte, e quando menos se espera, a corvina, alguma raia, pargo e linguado. 

Costa da Caparica, Pescadores arrastando o seu barco, ed. Passaporte, 371
Imagem: Delcampe

Uma grande extensão de areal, só areia e mar, barcos como crescentes encalhados e alguns pescadores remendando as redes. 

Costa da Caparica, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n
Imagem: Delcampe

Nem um penedo. Areia e céu, mar e céu. Dum lado o formidável paredão vermelho, a pique, desmaiando pouco e pouco, até entrar pelo mar dentro todo roxo, no cabo Espichel. 

Assombro de luz e cor. Amplidão. As casotas da Caparica aos pés, o mar ilimitado em frente, ao fundo e à direita a linha recortada da serra de Sintra com as casinhas de Cascais e Oeiras no primeiro plano esparsas num verde-amarelado... 

E luz? E o prodígio da luz?... A gente está tão afeita à luz que não repara nela e trata como uma coisa conhecida e velha este azul que nos envolve e penetra e que desaba em torrentes sobre as águas verdes desmaiadas e sobre as terras amarelas e vermelhas até ao cabo Espichel... 

Mas fecho os olhos – abro os olhos... Imensa vida azul – jorros sobre jorros magnéticos. Todo o azul estremece e vem até mim em constante vibração.

Costa da Caparica, ed. desc.

Quem sai da obscuridade para a luz é que repara e estaca de assombro diante deste ser, tão vivo que estonteia... (2)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Raul Brandão, idem

sábado, 22 de março de 2014

Quinta Távora e Mosteiro da deceda

Mapa de Portugal
Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons
Quando D. Sebastião foi aclamado rei (1557), preparou-se uma embaixada a Roma, para tratar de importantes assuntos de Estado. O embaixador escolhido foi Lourenço Pires de Távora (1510-1573), que chegou a Roma em Junho de 1559. 

Guido Sforza, cardeal protector de Portugal, terá então recebido de Estaço um particular presente: um mapa de Portugal, preparado por Fernando Álvares Seco (fl. 1560), cartógrafo de quem pouco ou nada se sabe.

Dois pormenores foram introduzidos, que delatam o autor, como acontecia muitas vezes nas telas de mestres pintores: a “Quinta dos Secos”, perto de Tomar, e a “Quinta Távora”, morgadio da família do embaixador, na península de Setúbal. (1)

O mapa de Portugal de FERNANDO ALVARO SECO, publicado em Roma em 1561 é provavelmente o primeiro mapa de conjunto do território nacional, serviu de base a toda a cartografia do país que se imprimiu durante um século.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

Cem anos depois, em 1662, era dada a conhecer em Madrid a «descrição do reino de Portugal...» de PEDRO TEIXEIRA ALBERNAZ que durante outro século serviria de modelo às edições de mapas de Portugal que entretanto iam surgindo. 

... numa data em que ainda não era possível o conhecimento exacto das longitudes, o país aparece distorcido, se bem que as posições das várias povoações na maioria não apresentem grandes desvios em relação às suas localizações reais. Contrariamente ao que era seguido nos mapas árabes (com o Sul para a parte superior) e na cartografia europeia a partir de meados do século XVI (com o Norte para cima), A. SECO orienta Portugal com o Ocidente para cima.

No mapa de 1662... desaparecem, na península da Arrábida, as representações gráficas bem destacadas de Sesimbra, Mosteiro da Deceda (não identificado) e Quinta Tauora (St.° António dos Capuchos — Caparica). (2)

Nas ruínas do convento de Santo António na Caparica
Alfredo Keil, óleo
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

Lourenço Pires de Távora mandou erguer, em 1558, o Convento dos Capuchos para alojar uma comunidade religiosa de frades arrábidos vinda da Quinta da Conceição, em Murfacém (Trafaria), onde ficaram durante mais de três séculos.

O crescimento da comunidade e a pobreza inicial do convento obrigaram a consecutivas obras de ampliação e beneficiação do edifício, com a reconstrução dos dormitórios (1618) e da própria capela, acrescida, em 1630, do coro alto e do alpendre.


Em março de 1834, o convento foi extinto por portaria do Duque de Bragança, possivelmente pelo alinhamento de parte da comunidade religiosa a favor dos absolutistas no contexto da guerra civil de 1832-34.

A extinção dos Capuchos marcou o início de uma etapa atribulada e ainda mal conhecida, que levou ao abandono do antigo Convento, à completa pilhagem do seu recheio e à gradual ruína do edifício.

Costa da Caparica - Convento dos Capuchos
Ed. Comissão Municipal de Turismo (fotografia original de Mário Novais)

Depois de passar pela posse de vários proprietários particulares, foi adquirido, em 1950, [e restaurado em 1952,] pela Câmara Municipal de Almada, que iniciou a sua requalificação em 2000. (3)

O declínio do convento coincide com a queda dos Távoras. A família Távora foi perseguida pelo Marquês de Pombal e os seus membros foram cruel e impiedosamente executados em 13 de Janeiro de 1759, sob a acusação de terem conspirado para assassinar o rei D. José I de Portugal.

Quando se procedeu ao seu restauro em 1952, foram colocados painéis de azulejo, que têm como tema os sermões de Santo António e o retábulo em talha oferecido pelo Director do Museu de Arte Antiga (Lisboa). (4)

Costa da Caparica, Almada, Convento dos Capuchos (após o restauro em 1952)
Ed. Passaporte, 32
Imagem: Fundação Portimagem


O alto dos Capuchos é o lugar no extremo poente da Vila Nova, muito perto perto da arriba da Costa de Caparica.

Costa da Caparica, Almada, Miradouro dos Capuchos e Caparica
Ed. Passaporte, 30

O lugar, que outrora era o "Outeiro do Funchal", colhe o seu nome dos franciscanos arrábidos conhecidos por "capuchos" para os quais foi construído o convento, em 1558 por Lourenço Pires de Távora, Senhor de Caparica, que reservou para si túmulo na igreja, em cripta agora vazia.

Contornando por Norte e Oeste o alto dos Capuchos passa o caminho que no Século XVIII é mencionado como "descida" e que era o acesso mais fácil às praias da Costa. (5) 

A Praia do Sol - Uma vista parcial. Subida para os "Capuchos".
Ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 110
Imagem: Fundação Portimagem


(1) BNP adquire exemplar do mais antigo mapa de Portugal (1561)

(2) O povoamento a sul do Tejo nos séculos XVI e XVII

(3) A história do Convento dos Capuchos em exposição, Câmara Municipal de Almada, Nota de imprensa, 19 de junho de 2013

(4) Convento dos Capuchos (Caparica), Wikipedia 

(5) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.