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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Quinta do Forte ou do Armeiro-Mor (ou do dito dito) no Pragal

Com o nome de Armeiro-Mor (...) compreendia a quinta que no século XIX se chamou do Forte (...) Nesta propriedade construiu-se em 1810-1811 o Forte que foi chamado de Armeiro-Mor (n.° 17 das linhas de defesa da margem Sul de Tejo, alt. 80 m) o qual está na origem do nome de Quinta do Forte.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813.
Instituto Geográfico do Exército

A quinta (...) pertencia no Século XVIII aos Costas, Armeiros-Mores do reino, que foram condes e viscondes de Mesquitela.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Internet Archive

Os Costas possuiram na Mutela um palácio que anda noje existe, muito degradado, e um moinno de maré (v. artigo dedicado: Moinho do Mesquitela), além de outras quintas no termo de Almada (...) a Quinta dos Costas à Mutela foi também conhecida por quinta do Armeiro-Mor. (1)


(1) Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Câmara Municipal de Almada, 2003

Artigos relacionados:
Defesa de Lisboa em 1810 (I)
Defesa de Lisboa em 1810 (II)
Defesa de Lisboa em 1810 (III)
Moinho do Mesquitela
Panorâmicas do Pragal
Quinta de São Pedro no Pragal
etc.

Leitura adicional:
Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engineers
Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, in Spain, during the years 1811 to 1814

Mais informação:
Friends of the Lines of Torres Vedras (Forts on the Fourth Line to the South of the River Tagus)

domingo, 29 de abril de 2018

Lisboa, vista de Almada (c. 1830)

Oposta a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, e dali para o mar. Desta elevada posição, temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o norte, toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas e formando um bordado brilhante para o Tejo. 

Lisbon from Almada (detalhe), Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o oeste, esse nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, fluindo para o Oceano Atlântico, entre as torres distantes de S. Julião e do Bugio. 

Para o leste, o rio espraia-se num vasto estuário, delimitado por um longo trecho de terras baixas. 

Para o sul, as alturas de Almada descem para um vale coberto de vinhas, atrás do qual há uma subida gradual de colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é delimitado pela cordilheira montanhosa da serra da Arrábida, tendo a notável rocha de Palmella, coroada pelo castelo em direcção ao leste, e o distante castelo mouro de Cezimbra em direção ao oeste.

Na vista que acompanha, o espectador é supostor olhar o rio, na direção nordeste. Parte de Lisboa ocupa a esquerda da cena. O Convento da Penha de França fica na colina mais distante desse lado. Um pouco à direita, na colina adjacente, fica a Capela de Nossa Senhora da Monte.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O castelo é visto a cobrir a colina ainda mais à direita; e as torres da Igreja de São Vicente, o lugar fúnebre dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto do extremo da cidade.

Em linha com as torres de São Vicente, mas mais perto do espectador, estão as velhas torres castanhas da catedral; e à sua frente, perto do Tejo, estão os edifícios que encerram a Praça do Comércio: estes, com a Alfândega, o Arsenal Naval e o Cais de Sodré formam um imponente conjunto de edifícios.

Numerosos navios estão espalhados na ampla bacia do Tejo; o todo, combinado com a ousada e precipitada altura de Almada no primeiro plano, formam uma impressionante e interessante paisagem. (1)


(1) Robert Batty, Select Views of some of the Principal Cities of Europe, London, ..., 1832

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX
Originais de Robert Batty

Mais informação:
Dictionary of painters and engravers, biographical and critical...
Robert Batty

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Defesa de Lisboa em 1810 (III)

O número de prisioneiros acumulou-se tanto que se tornou um sério inconveniente; porque, por alguma razão não aparente, o almirantado inglês não permitia que eles fossem transportados para Inglaterra nos navios de guerra, e os outros barcos não podiam ser dispensados.

Views in Spain and Portugal..., The Aqueduct (called os Arcos), with a distant view of Lisbon and the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ao mesmo tempo também o almirante Berkeley em cujo relatório, elaborado um ano antes, dizia que mesmo que o inimigo pudesse ocupar as alturas de Almada, não poderia provocar dano na frota no rio [v. Defesa de Lisboa em 1810 (II)], agora admitindo que estava errado, os engenheiros tiveram diretivas para construir linhas secundárias nesse lado.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

Outro mal formidável, proveniente da conduta da regência, era o estado do exército português. As tropas eram tão precariamente abastecidas que mais do que uma vez teriam desmobilizado, se não tivessem sido aliviadas pelos abastecimentos ingleses. 

Dez mil soldados de linha desertaram entre abril e dezembro, e as milícias e as ordenanças abandonaram as suas cores em números muito maiores; já que nenhum forte protesto poderia induzir a regência a pôr as leis em força contra os delinquentes, o que a princípio era por querer e que depois se tornou um hábito; então mesmo quando alimentados regularmente, pelos armazéns ingleses nas linhas, a deserção era alarmadamente grande.

Mesmo apesar desta má conduta que crescia de dia para dia, nem o patriarca nem o representante do príncipe regente deixaram de se opor.

A ordem para fortificar as alturas de Almada causou uma violenta altercação na regência, e lord Wellington, muito zangado, denunciou-a ao príncipe regente; e a sua carta produziu um tal ataque de ira no patriarca, que este insultou pessoalmente mr. Stuart, e ventilou a sua paixão na mais indecente linguagem contra o general.

Imediatamente após isto, o estado deplorável das finanças obrigou o governo a virar-se para o perigoso expediente das requisições em géneros para alimentar as tropas: e nesse momento crítico o patriarca, cuja influência era, por diversas causas, muito grande, tomou a ocasião para declarar que "não sofreria incómodos por concordar com pessoas que evidentemente não tinham algum outro propósito do que o de alimentar a guerra no coração do reino". [...]

No exército português, desde o mês de abril, as mortes foram 4.000, as desmobilizações 4.000, as deserções 10.000, os recrutas 30.000; os números foram a partir daí incrementados, mas a eficiência para grandes evoluções, apesar disso, decresceu. Os auxiliares espanhóis também, mal governados e turbulentos, estavam em desacordo aberto com os portugueses, e o seu general não era ele mesmo capaz na guerra nem capaz com aqueles que o eram.

Enquanto as alturas de Almada estivessem despidas, a margem esquerda do Tejo não poderia ser vigiada com menos de 12.000 homens [...]

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: Cesar Ojeda

Se Massena perdesse mesmo que fosse só um terço das suas forças, o 9e Corps d'Armée poderia substitui-las. Se lord Wellington falhasse, as linhas teriam ido, e com elas toda a península.

Ele julgou que seria melhor ficar na defensiva, para fortalecer as linhas, e avançar suficientemente com os trabalhos em Almada; entretanto, acalmando as perturbações causadas pelo patriarca, para aperfeiçoar a disciplina nas tropas portuguesas, e melhorar a organização da milícia na retaguarda do inimigo. [...]

Calculou-se que antes do fim de janeiro mais de 40.000 tropas frescas cooperariam com Massena; e os preparos foram feitos de acordo com isso. Uma linha externa de defesa, desde Aldea Gallega [Montijo] to Setuval, estava já em estado avançado; Abrantes, Palmella, and St. Felippe de Setuval foram finalmente aprovisionadas; e uma cadeia de fortes paralelos ao Tejo foi contruida nas colinas, alinhada na margem esquerda, de Almada até à Trafaria [v. Defesa de Lisboa em 1810 (I)] [...]

A estadia de Massena em Santarém mostra o que 30.000 homens adicionais agindo na margem esquerda do Tejo poderiam ter feito, se tivessem chegado às alturas de Almada antes da descoberta do erro do almirante Berkeley: o abastecimento das provisões vindas do Alemtejo e de Espanha teria então sido transferido de Lisboa para os exércitos franceses, e a esquadra teria sido forçada a sair do Tejo; quando a miséria dos habitantes, os medos do gabinete britânico, as maquinações do patriarca, e a pouca chance do sucesso final, teriam provalvelmente induzido o general inglês a embarcar [...]

A carta do almirante George Cranfield Berkeley (1753-1818).
Imagem: Berryhill & Sturgeon

as linhas de Almada estando inacabadas, a imprudência de deixar o Tejo sem guarda, perante um inimigo que possuia 80 barcos grandes, excluindo aqueles que formavam as pontes no Zêzere, é aparente [...]

Views in Spain and Portugal...,  Punhete, at the junction of the river Zezere with the Tejo, Estremadura.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sob a noção de que a vinda de Napoleão era provável, o general inglês, com a prudente característica, virou a sua atenção para a segurança deste antigo refugio dentro das linhas, e como tal, urgentemente pediu ao governo para pôr o forte em ordem, reparar as estradas, e restaurar as pontes destruídas durante a invasão de Massena.

Views in Spain and Portugal...,  View of the Duke of Wellington's Lines covering Lisbon.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Um número acrescentado de trabalhadores foram também postos nas linhas, já que os engenheiros nunca cessaram de melhorar as da margem norte do Tejo, e na margem sul, as linhas duplas de Almada, foram continuadas numa escala gigantesca. (1) 


(1) William Francis Patrick Napier, History of the War in the Peninsula and in the South of France, London, G. Routledge, 1882

Leitura relacionada:
Cardozo de Bethencourt, Catalogo das obras referentes á guerra da peninsula, Lisboa, Academia das Sciências, 1910
William Granville Eliot, A treatise on the defence of Portugal..., London, T. Egerton..., 1810
Papers on subjects connected with the duties of the Corps of Royal Engineers Vol. III, London, J. Weale, 1837

Leitura relacionada:
The dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington

Defesa de Lisboa em 1810 (II)

A única parte da província da Estremadura, situada a sul do Tejo, que pode ter alguma importância para a defesa geral do reino, é a margem do rio, de Almada até à Trafaria; mas mesmo isso não tem consequências materiais, já que os navios podem ser ancorados numa posição em que fiquem fora do alcance dos tiros de canhão; e Lisboa tem pouco a temer de um ataque a partir desse ponto.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

Deveria isso, contudo, ser minimizado o suficiente para conservar esta parte de terra oposta [a Lisboa] durante tanto tempo quanto possível; uma extensão de terra de cerca de quatro léguas deveria, em primeira instância, ser ocupada, desde Aldea Gallega [Montijo] até Setúbal.

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Este território é na sua maior parte florestal, com fortes charnecas ou arbustos e pequenas árvores.   Setuval, ou St. Ubes [Setúbal], um porto de mar de comércio considerável, está já fortificado, mas não é um lugar de alguma grande força.

Historical military picturesque..., George Landmann, Cidade e porto de Setúbal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Palmela é um posto forte, e poderá ainda ser mais fortificado. O sapal na estrada para Elvas, a cerca de uma légua e meia de Aldea Galega, pode vir a ser uma vantagem. Existe um caminho longo que o atravessa, no qual pode ser eregida uma bateria.

A linha pode, quando necessário, ser recuada à esquerda, para Coina, por detrás de um ribeiro que corre para o Tejo nesse ponto [rio Coina].

Historical military picturesque..., George Landmann, Palmela vista da estrada da Moita, Estremadura.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Finalmente, as alturas acima de Almada, podem ser fortificadas com redutos, ou outros trabalhos de campo. 

Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814, trabalhos de campo.
Imagem: Internet Archive

Eu mencionei estes postos, mas se me é permitido dar uma opinião, a menos que eles possam ser ocupados por uma força considerável, seria mais anconselhável evacuar esta parte da província "in toto", do que arriscar a perda de pequenos corpos na sua defesa; se confrontados a outros [corpos] mais numerosos;

Journals of sieges.., trabalhos de campo.
Imagem: Internet Archive

e penso que me posso aventurar a afirmar, que o perigo de serem interrompidos impediria qualquer inimigo de avançar com um pequeno [corpo] para este ponto, especialmente se a província da Beira e a parte oriental da Estremadura continuarem inconquistadas. (1)  


(1) William Granville Eliot, A treatise on the defence of Portugal..., London, T. Egerton..., 1810

Leitura relacionada:
Cardozo de Bethencourt, Catalogo das obras referentes á guerra da peninsula, Lisboa, Academia das Sciências, 1910
William Francis Patrick Napier, History of the War in the Peninsula and in the South of France, London, G. Routledge, 1882
Papers on subjects connected with the duties of the Corps of Royal Engineers Vol. III, London, J. Weale, 1837

Informação relacionada:
Biblioteca Digital do Exército

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A Arte da Guerra e o Castelo de Almada

No alto de um pittoresco monte sobranceiro ao Tejo, fica o castello, que foi construído no reinado de D. Manuel ampliado em 1666 por mandado de D. Affonso VI [...]

Fort d'Almade, 1685, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre, Alain Manesson Mallet, 1696.
Imagem: Columbia University

As principais obras aqui realizadas estavam associadas a períodos de instabilidade política, como por exemplo a Guerra da Restauração (1640-1668), quando o Castelo de Almada foi reparado entre 1658 e 1666; (1)

Painel de azulejos na rua da Quinta da Horta, no Pragal, em Almada.
Imagem: Rui Coutinho

Alain Manesson estuda matemática e geometria com o engenheiro militar Philippe Mallet, que ensina desde 1654 no colégio de Bourgogne. Manesson Mallet seguidamente torna-se mosqueteiro no regimento da guarda de Louis XIV. 

Em 1663, por instância de Pierre de Massiac, parte para Portugal, então empenhado na ultima fase da Guerra da Restauração (1640-1668) para entrar ao serviço de Afonso VI.

Método para fortificar as Cidades com uma nova Muralha, em aí encerrando a Antiga

Vista do castelo de Almada e de Lisboa, 1663 (detalhe).
Imagem: Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars, ou l'art de la guerre

Da Ortografia; Perfil ou Representação da Altura dos Terraços; e das Larguras e Profundidades dos Fossos

Fort d'Almade, 1685, Op. Cit.
Sob as ordens do marechal Schomberg, serve como engenheiro de campo e armas do rei e depois como sargento-mor de artilharia na província do Alentejo. Fortifica nomeadamente os castelos de Arronches (1666) et de Ferreira (1667) e estabelece reparações nos sistemas defensivos de Évora e Estremoz.

Após a assinatura do tratado de Lisboa (1668), Manesson Mallet regressa a França [...] (2)

Ruínas do castelo de Almada, Carta Geographica da Provincia da Estremadura (detalhe), c.1777 - 1780?
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] no fim do século XVIII, num período conturbado da política europeia, o Castelo de Almada (fig. 6), que fora severamente danificado com o terramoto de 1755, foi totalmente reedificado com o apoio da população almadense em 1797, segundo projecto de Francisco d’Alincourt, também responsável por um projecto de uma nova fortificação da Torre Velha da Caparíca e respectiva bateria baixa de 1794 e 1796, e só em parte construído, o qual fora ordenado pela rainha D. Maria I ao Marechal General Duque de Lafões, sendo inspector Guilherme Luís António de Valleret, no ano de 1794. (3)

Planta do castelo de Almada em 1772.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes.

O rio Tejo, abaixo e oposto a Lisboa, é ladeado por rochas íngremes e grotescas, particularmente no lado sul. Essas no arco sul, são geralmente mais altas e muito mais magníficas e pitorescas que os penhascos de Dover. Sobre uma das mais altas dessas rochas, e diretamente opostas a Lisboa, permanecem as ruínas planas do Castelo de Almada.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Em dezembro, 1779, como o Autor deambulava entre estas ruínas, foi atingido pela ideia, e formou o plano do seguinte poema; uma ideia que, pode permitir-se, foi natural para o Tradutor dos Lusíadas, e o plano pode, até certo grau, ser chamado como um suplemento a esse trabalho [...] (4)

Vista geral de Lisboa, tomada perto de Almada, século XVIII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa
Será contudo no período da Guerra Peninsular, que se verificará o conjunto mais vasto de obras de fortificação quer da Linha de Defesa da Margem Sul, quer do Castelo de Almada (1814, fig. 6), as quais foram decididas pelo Gen. Wellesley (futuro Duque de Wellington) e conduzidas por militares britânicos, nomeadamente o Eng.° Goldfich e o Tenente Coronel Richard Fletcher dos "Reaes Engenheiros Bretanicos", assim como pelo Major Neves Costa.

Castelo de Almada após as reparações de 1810, gravura (detalhe), Pierre Eugène Aubert (Aubert pére),
cf. Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden,
Fieldmarshal The Duke of Wellington.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante a Guerra Civil realiza-se em 1833 uma nova campanha de obras no Castelo de Almada por iniciativa de D. Miguel, e presumivelmente conduzidas pelo Eng.° Louis Mounier, nas quais o castelo foi ampliado. (5)

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia


(1) Rui M. Mesquita Mendes, Obras Pública nos Concelhos de Almada e Seixal..., Centro de Arqueologia de Almada, 2015
(2) Wikipédia
(3) Rui M. Mesquita Mendes, idem
(4) William Julius Mickle, Almada hill: an epistle from Lisbon, Oxford, W. Jackson, 1781
(5) Rui M. Mesquita Mendes, idem, ibidem

Discussão aberta sobre o artigo:
A Arte da Guerra e o Castelo de Almada no Facebook

Gallica, Biblioteque nationale de France:
Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre
Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre
Alain Manesson Mallet, Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre

Artigos relacionados:
Defesa de Lisboa em 1810
Defesa de Lisboa em 1834

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Ilustrações de Finden à vida e obra de Byron

Pensou-se desejável fazer num volume, os primeiros oito números destas ilustrações de Lord Byron (1788-1824), em paisagem e retrato, para organizá-las de uma forma menos inconstante do que foi a ordem da sua publicação, e acompanhar as estampas com informação, de autores eminentes e de fontes originais, sobre os temas das gravuras.

Lord Byron (1788-1824) por Thomas Phillips, 1813.
Imagem: Wikipedia

O primeiro volume é assim apresentado ao público de uma forma completa; e os sucessivos oito números do trabalho serão, após a sua publicação, adaptados do mesmo modo,  formando assim um elegante acessório para a mesa de sala e para a biblioteca de obras ilustradas [...]

--ooOoo--

BELEM CASTLE, LISBON

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A.
[Associate of the Royal Academy]


Belem Castle, Drawn by C. Stanfield, Engraved by E. Finden.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
On, on the vessel flies, the land is gone,
And winds are rude in Biscay's sleepless bay.
Four days are sped, but with the fifth, anon,
New shores descried make every bosom gay;
And Cintra's mountain greets them on their way,
And Tagus dashing onwards to the deep,
His fabled golden tribute bent to pay;
And soon on board the Lusian pilots leap,
And steer 'twixt fertile shores, where yet few rustics reap.

Childe Harold, canto i. St. 14.
[...] Saímos agora da Torre de Belém, onde um escritório é mantido para o registo de todos os navios que entram e saem do Tejo; assim como num estabelecimento de oficiais de alfândega, oficiais de saúde, e um deepartamento de policia naval, para a proteção da propriedade, e a defesa da passagem.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Mr. Hobhouse, numa nota às linhas de Lord Byron "Escrito depois de nadar a partir Sestos a Abydos", diz, "Meu companheiro antes tinha feito uma travessia mais perigosa, mas menos célebre; lembro-me de que, quando estávamos em Portugal, ele nadou desde Lisboa velha até à Torre de Belém; e mesmo tendo que lutar com a maré,  a contra-corrente e o vento fresco, demorou pouco menos de duas horas a travessia".

LISBON, FROM FORT ALMADA

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A. a partir de um Esboço de W. Page.


Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: Cesar Ojeda
What beauties doth Lisboa first unfold!
Her image floating on that noble tide,
Which poets vainly pave with sands of gold,
But now whereon a thousand keels did ride
Of mighty strength, since Albion was allied,
And to the Lusians did her aid afford:
A nation swoln with ignorance and pride,
Who lick, yet loathe, the hand that waves the sword,
To save them from the wrath of Gaul's unsparing lord.

But whoso entereth within this town,
That sheening for celestial seems to be,
Disconsolate will wander up and down
'Mid many things unsightly to strange ee;
For hut and palace shew like filthily,
The dingy denizens are reared in dirt;
No personage of high or mean degree
Doth care for cleanness of surtout or shirt,
Though shent with Egypt's plague, unkempt, unwashed, unhurt.

Childe Harold, canto i. st. 16, 17.
É difícil encontrar um único autor que tenha escrito sobre Lisboa, sem perceber que, quando quase esgotou os termos de panegírico sobre a sua bela localização e gloriosa aparência, traz instantaneamente, em contraste com estes, a linguagem do desprezo e repugnância à imundície e abominações desta pior que pintada sepultura.

"Quando entrámos Lisboa no ano passado, após a convenção de Cintra, pelas estradas que a ela levam a partir do Vimeiro" diz o coronel Leach, no seu "Rough Sketches of the Life of an Old Soldier...", "não tinhamos, até agora, uma oportunidade de julgar de sua aparência a partir do Tejo. As casas de campo e conventos ao lado das mais pitorescas colinas, densamente plantadas com vinhas; a legião de moinhos de vento perto de Belém; e, finalmente, a cidade em si, formam juntos uma imagem encantadora, que qualquer tentativa minha para lhes fazer justiça deve inevitavelmente falhar por completo. Além disso, de Lisboa e o seu rio têm sido muitas vezes descritos por penas muito mais capazes [...]"

No meio de tudo isso, no entanto, Lord Byron mostra-se, por escrito ao Sr. Hodgson de Lisboa, num dos seus mais alegres estados de espírito, diz ele: 

"Estou aqui muito feliz, porque gosto de laranjas, e falar mau latim com os monges, que o compreendem, como se fosse o seu próprio; e vou para a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado no Tejo que atravesso de uma vez, e passeio de burro ou mula, e digo palavrões em português, e tive uma diarreia e picadas dos mosquitos; mas o que é isso? o conforto não deve ser esperado por pessoas que vão a prazeres."

Da cena específica, que constitui o objecto da estampa em anexo, a melhor descrição é encontrada a acompanhar a vista do coronel Batty tomada quase do mesmo local, na sua obra "Select Views of the Cities of Europe", — Lisbon, from Almada.

"Em frente a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias, que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, a partir daí para o mar. A partir desta posição elevada temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável."

"Para norte toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas, e formando uma borda brilhante para o Tejo. Para o oeste, o nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, e fluindo para o oceano Atlântico oceano, entre as torres distantes de St. Julian e de Bugio; e para este o rio espalha-se num vasto estuário, delimitada por uma longa extensão de terra."

"Para sul os outeiros de Almada inclinam-se para um vale coberto de vinhedos, atrás do qual há uma subida gradual com colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é limitado pela cadeia montanhosa da Serra d'Arrábida, tendo a notável montanha coroada com o castelo de Palmela para este, e o castelo mouro distante de Cezimbra em direção a oeste."

"Na vista em anexo, o espectador é suposto estar a olhar para montante do rio, na direção noroeste."

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

"Parte de Lisboa ocupa o lado esquerdo da cena. O convento da Penha de Franca fica na colina mais distante nesse lado. Um pouco à direita, na colina ao lado, é a capela de Nossa Senhora da Monte. O castelo é visto cobrindo o morro ainda mais para a direita; e as torres da igreja de São Vicente, o local de enterro dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto da extremidade da cidade." 

"Em linha com as torres de São Vicente, mas mais próximo do espectador, são as velhas torres castanhas da catedral [sé]; e à sua frente, perto para o Tejo, são os edifícios que cercam a Praça do Commercio: estes, com a Alfandega, o arsenal naval, e o Caes de Sodré, formam juntos uma gama imponente de edifícios. Numeros navios estão espalhados sobre a ampla bacia do Tejo;"

"o todo, combinado com a alta e precipitada falésia de Almada, em primeiro plano, formam uma interessante e impressionante paisagem".

CINTRA

Desenhado por C. Stanfield, A.R.A. a partir de um Esboço de Capt. Elliot.


Cintra, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by Captain Elliot, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: ANTIQBOOK
Lo! Cintra's glorious Eden intervenes
In variegated maze of mount and glen.
Ah me ! what hand can pencil guide, or pen,
To follow half on which the eye dilates
Through views more dazzling unto mortal ken
Than those whereof such things the bard relates,
Who to the awe-struck world unlock'd Elysium's gates?

The horrid crags by toppling convent crown'd,
The cork-trees hoar that clothe the shaggy steep,
The mountain moss by scorching skies imbrown'd,
The sunken glen whose sunless shrubs must weep,
The tender azure of the unruffled deep,
The orange tints that gild the greenest bough,
The torrents that from cliff to valley leap,
The vine on high, the willow-branch below,
Mix'd in one mighty scene, with varied beauty glow.

Childe Harold, canto i. st. 18, 19.

MAFRA

Desenhado por D. Roberts a partir de um Esboço de C. Landseer.


Mafra, Drawn by D. Roberts from a Sketch by C. Landseer, Engraved by E. Finden.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Yet Mafra shall one moment claim delay,
Where dwelt of yore the Lusians' luckless queen;
And church and court did mingle their array,
And mass and revel were alternate seen
Lordlings and freres ill-sorted fry I ween!
But here the Babylonian whore hath built
A dome, where flaunts she in such glorious sheen,
That men forget the blood that she hath spilt,
And bow the knee to pomp that loves to varnish guilt.

Childe Harold, canto i. st. 29.


(1) William Brockedon (1787-1854), Edward Francis Finden (1791-1857), William Finden (1787-1852), Finden's illustrations of the life and works of Lord Byron, Vol. I, London, J. Murray, 1833

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX

Castelo de imagens e fantasia

Informação adicional:
D. G. Dalgado, Lord Byron's Childe Harold's pilgrimage to Portugal, Lisboa, Imprensa nacional, 1919
Flickr

domingo, 30 de agosto de 2015

Originais de Robert Batty

Para o Museu da Cidade [de Lisboa] ofereceu Fernando Rau, coleccionador de arte, em especial de gravuras, de que era conhecedor profundo, pouco antes de morrer, uma valiosa colecçõo de nove pequenas aguarelas, a sépia, originais do tenente-coronel do exército inglês, Robert Batty (1789 - 1849), que estivera na Península, integrado no exército de Wellington, durante a Guerra Peninsular.

Robert Batty (pai) por W. Daniell (detalhe), 1810,
segundo G. Dance, 1799.
Imagem: Wellcome Library

Estes originais, que se vieram juntar a outros que aquele museu já possuia, fazem parte dos estudos daquele militar-artista, quando da sua estadia em Lisboa e que mais tarde foram reproduzidos em gravura no álbum "Select Views of some of the principal cities of Europe", publicado em Londres, em 1832.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Entre os originais agora oferecidos figuram os estudos das gravuras reprodudas naquele álbum, sob os titulos Praça do Pelourinho; Lisboa vista de Almada; e Lisboa vista da capela de N.a Senhora do Monte.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os restantes, que representam o Convento de N.a Senhora da Graça (três versões), a Torre do Bugio e uma paisagem ribeirinha não identificada, não foram reproduzidas naquele álbum.

Agumas gravuras de Robert Batty doadas por Fernando Rau.
Imagem: Hemeroteca Digital

Todos os aguarelas, cujas dimensões variam entre 0,028x0,037 e 0,072x0,123, estão assinadas. (1)


(1) Lisboa, Revista Municipal, II série, n.° 1, 1979

Mais informação:
Dictionary of painters and engravers, biographical and critical...
Robert Batty


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