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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Almada por Barata Moura (1911-2011)

Para o diretor do Museu do Fundão, Pedro Salvado, "Barata Moura continua a ocupar uma assinalável presença no imaginário artístico regional como um pintor afetuoso da Beira e das suas gentes, como um peculiar artista emissor de afetos e detentor de uma pintura de registo de tempos, de rostos e de espaços vivenciais".

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Câmara Municipal de Almada

Realça ainda que "com um colorismo assumidamente imaginado, reproduzindo, por vezes, ingenuidades de captação, desenvolveu um entendimento muito pessoal do que era a arte e a função da sua pintura enquanto um arquivo-registo. 

Almada antiga, Paisagem com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Registos de ritmos temporais contrastantes da paisagem camponesa tradicional idealizada, onde se encontram ausentes angústias, negatividades ou interrogações e que confirmam os equilíbrios e o enraizamento das comunidades a uma arquitetura secular e a um calendário sazonal". (1)

 
O Último adeus a Barata Moura (2)

Na última 2ª feira, dia 3 de Março [de 2008], visitamos o pintor José Barata Moura. Depois de intensa pesquisa para localizar o Mestre, foi com a ajuda de amigos, que o conseguimos encontrar em Lisboa, numa casa de repouso no Restelo.

Almada antiga, Rua de Casario, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Uma casa calma, com amplos jardins, dedicada exclusivamente para receber e cuidar de grandes e talentosos artistas, como pintores, escritores, compositores... 

Almada antiga, Casario com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Era ansiosa esta visita, tanto para nós como para o Mestre, que nos recebeu com um contentamento muito próprio, pois desde o ano de 1989, quando foi convidado para estar presente nas comemorações dos 50 anos do Arsenal, nunca mais tinha recordado com Arsenalistas a sua vivência enquanto trabalhador do Arsenal do Alfeite.

Almada antiga, Casa com figuras, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Com a bonita idade de 97 anos, mantém ainda um estado de espirito muito forte e alegre, com um "poço" cheio de histórias acumuladas durante toda uma vida dedicada à arte, não só na pintura, mas também à música, ao teatro, à dança e à rádio.

Almada antiga, Casario, Barata Moura, 1957.
Oportunity leilões

Foi diferente aquela tarde de 2ª feira... conhecer pessoalmente o Mestre Barata Moura, é coisa que nunca mais se esquece...

O Tejo em Lisboa, Barata Moura, 1979.

Fica aqui o nosso registo e agradecimento à Adiministração da casa que acolhe o Mestre, à forma pronta e simpática como nos recebeu [...] (3)


(1) Gazeta do interior, 24 de agosto de 2016
(2) Rádio Cova da Beira, 20 de dezembro de 2011
(3) Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite, 8 de março de 2008

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Neo-realismos

Inspirado pelas teorias marxistas do materialismo histórico e dialéctico, divulgada nos meios políticos e intelectuais portugueses em meados dos anos 30, o movimento cultural do Neo-Realismo começa a desenhar-se a partir de importantes polémicas literárias então publicadas em periódicos como O Diabo, Sol Nascente e, alguns anos mais tarde, a revista Vértice, que afirmavam uma veemente oposição ao subjectivismo presencista, ao defenderem uma "arte útil" virada para os problemas reais da sociedade, fazendo assim a ruptura com o ideário romântico e positivista do século XIX.

Revista Vértice, 258, ilustração Manuel Ribeiro de Pavia, 1965.

Na verdade, as condições político-sociais de uma década marcada não só pela crescente oposição entre fascismo e comunismo, como pelos ecos de sofrimento da Guerra Civil Espanhola e o início da II Guerra Mundial, exigiam a uma nova geração de escritores maior intervenção cívica e cultural, solidarizando-se desde logo com os desígnios progressistas da esquerda europeia, desde a Revolução Russa à Front Populaire, em França, ou à defesa da ética republicana, em Espanha. (1)

Baseado no conto de João Rodrigues de Freitas "Os Meninos Milionários", Aniki-Bóbó [1942] foi um ousado tiro alegórico de Manuel de Olivieira a Salazar o ditador de Portugal. Ridicularizado no tempo do seu lançamento por descrever a infância como um difícil e assustador campo minado,  para ser negociado: pleno de enganos, crueldade e manipulação.

Aniki-Bóbó, Manuel de Oliveira, 1942.
Imagem: El cine y otras catastrofes

Apenas em retrospectiva o valor do Aniki-Bóbó é devidamente apreciado e o seu lugar reconhecido como uma pedra de fundação do movimento italiano Neo-realista. Oliveira conseguiu com sucesso subverter a sua mensagem, em que as figuras de autoridade adulta são as não confiáveis​​, aquelas sem contato com os acontecimentos reais.

in filmuforia

Centremos agora em Romeu Correia duas escassas palavras sobre o teatro neo-realista.

Tendo ensaiado os primeiros passos nos tablados populares da nossa primeira região industrial — a margem sul do Tejo —, Romeu Correia conseguiu exprimir os conflitos sociais integrando-os no que há de ritual poético no melhor teatro. [...]

As suas peças inserem-se, quase letra a letra, na direcção que Ernst Fischer apontou assim: "É verdade que a função essencial da arte para os que estão destinados a transformar o mundo não é a de fazer mágica, e sim a de esclarecer e incitar à acção; mas é igualmente verdade que um resíduo mágico na arte não pode ser inteiramente eliminado, uma vez que sem este resíduo provindo da sua natureza original a arte deixa de ser arte." [...] (2)

Nos fins de Setembro de 1961 eu e o Romeu Correia estamos em Cacilhas, num tasco à beira-rio. Ali, no Cais do Ginjal. Ao longe, Lisboa entornada sobre todas as colinas da margem oposta. 

Romeu Correia no miradouro Luís de Queirós ou Boca do Vento.
Imagem: Wikipédia

Em 1982, no seu romance O Tritão, Romeu escreverá:

"Que imenso é o rio Tejo, essa massa de água de tantas e inesperadas cores e rebeldias, habitado por peixes e mistérios sem fim que maravilhara desde sempre o meu entendimento! Rio generoso, rio velhaco, ora a correr para a barra, ora a subir para a nascente, consoante o capricho das marés."

E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca.

— Romeu, para ti, na literatura portuguesa quais são as melhores obras de ficção?

— Para mim são As Novelas do Minho e o Amor de Perdição, do Camilo; o Primo Basílio e Os Maias, do Eça; a Maria Adelaide, do Teixeira Gomes; as Terras do Demo, do Aquilino; os Bichos e a Montanha, do Torga; A Curva da Estrada do Ferreira de Castro; a Fanga do Redol; Onde A Noite Se Acaba do Miguéis; os Retalhos da Vida de um Médico do Namora; a Prisão do Domingos Monteiro e a Sedução, do Marmelo e Silva.

Ferreira de Castro na Cooperativa de Consumo Piedense, 1964.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

— E o que há de comum entre todas essas obras? Ou seja: o que é que diferencia a ficção portuguesa das outras ficções?

— Na nossa literatura espalha-se a fibra romântica, a inclinação melancólica, saudosista, passadista, e a centelha irónica, sarcástica, inconforme e revoltada que caracterizam o homem português. 

Capa do livro de Romeu Correia, Gandaia.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

Subjectivismo lírico e realismo irónico ou irreverente, são as duas constantes da literatura nacional.

Capa do livro de Romeu Correia, Calamento.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

— Mas qual a corrente que melhor vingou nos nossos dias?

— A grande, impetuosa e invencível corrente que vem do naturalismo, que triunfa no realismo e dá o neo-realismo.

— Mas tu não achas que em Portugal o realismo e o neo-realismo estão em crise?

— Não há crise. Nunca houve um movimento assim pujante na ficção portuguesa. Apesar de tudo — e esse tudo é muito — os neo-realistas são a maioria e a maioria dos melhores. [...] (3)

Esta morte, assim sem mais nem menos, que um amigo me comunica, entala-se-me na garganta.

Manuel Ribeiro de Pavia (1910 - 1957).
Imagem: Poet'anarquista

"Morreu o Manuel Ribeiro de Pavia. Levou-o uma pneumonia que o foi encontrar depauperado por uma vida quase de miséria. Passava fome! Tinha uma única camisa! Não pagava o quarto há imenso tempo! E nós a falarmos-lhe de poesia..."


Capa do livro de Alexandre Cabral, Fonte da Telha.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

Assim é: passava realmente fome. Todos nós o sabíamos.

E ele a falar-nos de pintura, de poesia, da dignificação da vida. É justamente nisto que residia a sua grandeza. Não falava da sua fome — de que, feitas bem as contas, veio a morrer.

A fome não consta de nenhum epitáfio
.

Pescadores e Varinas, Manuel Ribeiro de Pavia.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

in Andrade, Eugénio de, Os Afluentes do Silêncio
A contribuição marxista para a deturpação da cultura portuguesa foi feita através de uma organização de escritores, jornalistas, professores e editores que recebeu a designação, primeiro, de "novo humanismo" (cujas manifestações foram coligidas num livro que se deixou esquecer, Por um Novo Humanismo, da autoria de Rodrigo Soares, pseudónimo de um professor da Universidade de Coimbra) e, depois, de "neo-realismo" [...]

Em 1938, aparecia nas livrarias um romance com o título de Marés. Era o primeiro romance de Alves Redol e, viria a saber-se mais tarde, a primeira manifestação do neo-realismo. A fotografia do autor, de perfil e de boina, passou a figurar em todos os jornais e em todas as montras [...]

Alves Redol (1911 - 1969).

Alves Redol era de Vila Franca de Xira e em Vila Franca de Xira escrevia sobre os rurais e os operários desse subúrbio lisboeta. Ali vivera seus anos de infância e adolescência, a admirar toureiros, touros e grandes lavradores. Dessa admiração, e também do ressentimento socializante que ele deixa nas pequenas almas, deixou os sinais no melhor romance que conseguiria escrever: Barranco de Cegos.

Alves Redol na biblioteca da Cooperativa de Consumo Piedense, década de 1960.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

De Alhandra, ao lado de Vila Franca, veio a segunda manifestação neo-realista: a de Soeiro Pereira Gomes, autor de Esteiros, romance da borda d'água inspirado pelo Jorge Amado dos Capitães da Areia e, sobretudo, pelo William Wyler de As Ruas de Nova Iorque. Pereira Gomes era cunhado de Casais Monteiro e, penetrado da atmosfera proletária, fabril e socialista dos ambientes onde estava empregado, adoptava, como Alves Redol, uma atitude humilde e simpática perante os altos valores literários que o seu cunhado, discípulo de Leonardo Coimbra, presencista e cosmopolista, então representava [...]

Capa do livro de Alves Redol, Gaibéus.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

O neo-realismo, entretanto, absorvido A. Redol no patronato industrial e fugido Pereira Gomes em Inglaterra, transferia-se de Vila Franca para Coimbra e caía nos braços de estudantes, bacharéis e doutores. 

Sem ainda terem feito coisa nenhuma, anunciavam, em sueltos que espalhavam por todas as folhas de imprensa da província, uma grandiosa e definitiva obra cultural, intelectual e artística, um "movimento cultural-político único na história do nosso país" [...]

Os literatos de Lisboa, mais "naturais" e urbanos, sem aquele arrebatamento que a província filtrada por Coimbra dá aos triunfadores, rendiam-se aos bárbaros já instalados na direcção das editoriais mais conspícuas e conservadoras e na presidência das colunas dos jornais mais reaccionários: ou se lhes entregavam logo arvorando o rótulo de socialistas, como Urbano Tavares Rodrigues; ou largavam a correr as salas da Mocidade Portuguesa para confessarem eternas fidelidades neo-realistas, como Luís Francisco Rebelo; ou identificavam, como Romeu Correia, o seu populismo cacilheiro e ingénuo com a segura doutrina dos novos doutores de Coimbra [...] (4)


(1) Museu do Neorrealismo

(2) Mário Sacramento: Há uma estética neo-realista?

(3) Vidas Lusófonas: Romeu Correia

(4) Orlando Vitorino: A Grande Deturpação (iii)


Informação relacionada:

Almanak Silva

Literatura neo-realista e ilustração

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Cacilhas 1957, cliché Passaporte

Farol de Cacilhas, ed. Passaporte, 20, 1957.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

António Passaporte (1901 - 1983)

António Pedro Passaporte nasceu em Évora em 24 de Fevereiro de 1901, tendo permanecido nesta cidade até à partida de seu pai para África, em 1911.

Crescerá também no meio de máquinas, câmaras escuras, salas de retoque, fotografias e chapas de vidro, que muitas vezes retiveram a imagem de homens aventureiros que em África procuravam melhor sorte.

De regresso a Portugal e já aluno da Escola Ferreira Borges, em Lisboa, participa em todas as festas em que pudesse actuar como artista de teatro.

Em 1923 parte para Madrid à procura de aventura, porque a condição de guarda-livros da Livraria Férin não se adequava à sua personalidade viva e sonhadora.

É em Madrid que irá iniciar a sua carreira de fotógrafo, tendo trabalhado nos Laboratórios Cinemat ográficos da "MADRID-FILMS", onde se torna amigo íntimo do filho do patrão, Don Enrique Blanco, e através dele vem a conhecer a sua irmã Gregória Ascensión Calleja Blanco, com quem viria a casar em Fevereiro de 1927.

Posteriormente, ingressa na firma francesa de "CHARLES ALBERTI" como vendedor de papéis fotográficos e heliográficos, tendo oportunidade de viajar por Espanha e Argentina.

Aproveita as viagens que tem que fazer como vendedor para tirar fotografias de paisagens e monumentos de Espanha.

Estas imagens viriam a ser expostas e logo a dquiridas pelo então Ministro da Cultura e do Turismo espanhol, general Primo de Rivera, para propaganda turística.

António Passaporte lança-se na edição de postais, que assina com o nome Loty, designação que resulta da combinação das duas primeiras letras do nome Lopez e das duas últimas do nome Alberty, os nomes do casal para quem então trabalhava.

Durante a Guerra Civil de Espanha a firma fecha, e António Passaporte inscreve-se na U.G.T., sob influência de seu irmão Bernardo que, entretanto também se instalara em Madrid, e comungava os ideais comunistas.

Recebe então uma proposta para ingressar nas Brigadas Internacionais [...] 

É neste âmbito que acompanha as operações de defesa de Madrid, servindo de repórter fotográfico ao longo da Serra de Guadarrama e na campanha de Brunete, onde se deram grandes combates.

Terminada a guerra , António Passaporte regressa a Portugal [...] – 1 deSetembro de 1939 – e inicia a sua actividade de fotógrafo com trabalhos de publicidade e arquitectura, retratos de artistas, fotografias de montras, etc. Obtém então encomendas da Philips, da Fábrica Nacional, do SNI e da Câmara Municipal de Lisboa que, em 1944, lhe encomenda uma reportagem sobre as fardas dos seus funcionários e também de diversas vistas da capital.

A sua primeira grande produção começa com uma edição dedicada à Exposição do Mundo Português, cujo sucesso obriga a família a não se deitar durante sucessivos dias para dar resposta às inúmeras encomendas.

Acompanhado pela mulher e filhos, que imprimiam, cortavam e esmaltavam as provas fotográficas, produzia milhares de postais que eram postos à venda à consignação em papelarias, barbearias e casas turísticas.

Foi no estúdio da Rua Luciano Cordeiro [para onde se terá mudado em 1946] que se dedicou com maior profissionalismo aos postais, auxiliado já então por máquinas industriais de impressão e secagem e dispondo também já de empregados dedicados a esta actividade.

Face ao elevado número de encomendas que o prendiam longas horas ao laboratório, António Passaporte fotografava aos fins de semana, tendo percorrido todo o país, no seu carro [...] onde levava todo o material fotográfico necessário, nomeadamente um tripé-escada que tinha mandado fazer e que lhe permitia fotografar de qualquer ponto.

A sua capacidade inventiva levou-o também a adaptar o próprio carro por forma a poder subir para o tejadilho e ali montar o tripé normal.

António Passaporte.
Imagem: Delcampe

O seu filho Rodolfo, que o acompanhou com frequência, conta que o seu entusiasmo e empenho por encontrar sempre o melhor ângulo, ou a melhor composição, o levavam a trepar por beirais, telhados, torres de igreja, sem olhar a perigos, com a mala de clichés ao ombro e máquina pendurada ao pescoço. (1)


(1) Câmara Municipal de Évora: A família Passaporte e os primórdios da fotografia em Évora