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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto

A rua da Judiaria em Almada foi sempre, como ainda é, uma rua feia e immunda, com a diferença de que hoje varrem-na mais amiudo do que antigamente, e é illuminada de noite a azeite de peixe; mas apesar d'isso era ali, n'uma casinha de primeiro andar, que se reunia a rapaziada fina de Almada e dos logares próximos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

O dono da casa, Pedro Marques de Faria, era um velho folgasão, em cujo animo nunca entrou a tristeza, ainda mesmo nos momentos mais graves da vida. Dizidor e peteiro, sempre tinha alguma nova anecdota que contar, alguns versinhos que recitar, algum caso notavel de que ouvira fallar em Lisboa, ou as novidades politicas falsas e verdadeiras de que a epoca era abundante [ler mais...] (1)

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

Era magro [o mestre Damião], afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência as ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abalos e de conforto. aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. (2)
No "Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894", aparece a pequena pintura Rua da Judiaria (em Almada) (19x13 cm) como pertença do sr. Bernardo Pinheiro (Pindella), conde de Arnoso, secretário pessoal do Rei D. Carlos.

Trata-se, de uma anotação de formas, cores e luminosidade que Silva Porto eventualmente usaria numa composição maior e mais elaborada. A silhueta humana que o pintor esboça ao centro é voluvel e inacabada. Poderia ser o vendedor de peixe transportando no ombro as canastras enfiadas numa vara, ou, o aguadeiro e o burro transportando os barris com água, sugerido pelos meios-tons da sombra atrás. Os edifícios representados no primeiro plano à esquerda e no segundo à direita ainda existem.

Hoje, esta representação rápida , uma pochade, inclui-se na significativa colecção de obras de Silva Porto, adquiridas por José Relvas. Encontra-se exposta na Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça, cujo curador, Nuno Prates, teve a cortesia de nos ceder a imagem em vista deste apontamento.

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Assinalam-se a branco, na Rua da Judiaria, as fachadas de alguns edifícios viradas a poente.

Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da "gaiola pombalina" na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca [e Largo Boca de Vento] onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. (1)


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976
(3) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX

Informação relacionada:
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa...,, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

As meninas da Torre

À volta do leito do enfermo, não faltam os parentes — os sobrinhos o Rafael e o Nuno — ou os amigos que costumam acorrer ás alegres refeições. D. Maria Isabel Bernaud, que estivera de joelhos a chorar e orar, ergue-se cambaleante. Não pode mais. Aquela comédia da serenidade, quando o seu coração estala de dor, é mais forte do que as suas forças. 

A casa no Largo da Torre onde viveu Bulhão Pato, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

O médico, o dr. Pinto, empunha já a seringa. O doente, muito rouqueja. A injecção é por assim dizer um pró-forma ou destino de consciência. Mas, num subito clarão da sua portentosa natureza, o doente exclama, como se a sua voz viesse já de além tumulo:

— Ainda senti a picada!

Foram as suas ultimas palavras. D. Maria Isabel é empolgada pelos braços carinhosos dos amigos, principalmente os do afilhado, o António Maria Povas, a quem mais tarde deixará todos os bens do casal sem filhos.

D. Isabel Maria Bernaud.
Imagem: Hemeroteca Digital

Naquela madrugada de 24 de Agosto de 1912 já não se descerraram as janelas do prédio do lugar da Torre, a cerca de 200 ou 300 metros do Monte de Caparica. Também os olhos do autor de "O patilhão vermelho" ali escrito, e de "Sob os ciprestes", ali também gerado, não voltarão a abrir-se, a perscrutar a luz da vida. A da morte nunca lhe interessou. Não sendo religioso, nem acreditando na vida eterna, Bulhão Pato costumava comentar com ironia, ao apontar com a bengala a terra que o havia de comer:

—  O general Hugo de Lacerda julga que vai para o Céu. Mas eu tenho a certeza de que fico aqui.

O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Essa fraca ortodoxia não o impediria nunca de ser amigo do sr. prior do Monte. rev. padre José Joaquim Marques, que á hora a que hoje se almoça, lá ia jantar, bastantes vezes, muitas mais, tomar café, á sobremesa.

Discutiam religião? Se discutiam, não só nunca houve progresso no catolicismo de Bulhão Pato, que não ia á missa, mas, ainda as conversas não decorriam em termos de ser entendidas pelas pequenas.

As pequenas de então estão agora aqui na nossa frente, com a sua roda de anos bem puxados. Andam á volta dos 70 e Ramada Curto podia tê-las conhecido, quando escreveu "As meninas da Fonte da Bica".

São uma página de literatura já feita. A dificuldade estaria em pegar-lhes sem as destruir no que elas têm de vulnerávelmente espiritual e simples.

As meninas da Torre são três, e são solteiras (os homens empatam muito, dizem elas, que têm imenso que fazer, na sua qualidade de mestras das primeiras letras).

Des glaneuses dit aussi Les glaneuses, Jean-François Millet (1814-1875).
Imagem: profondeurdechamps

—  Hoje, somos aqui, as unicas que conhemos o sr. Pato! dizem com simplicidade e um tudo nada de saudade.

Saudade, e como não hão-de ter saudades as meninas da Torre, cada urna delas com o seu caracter, a sua maneira, de ser, a sua humilde e recatada pobreza?

Só duas delas, porém, se resolvem a fazer evocações. A mana mais velha, a D. Laura da Conceição, viveu trinta e tantos anos com uns parentes ricos em Lisboa. Quase não privou com o sr. Pato. Hoje é a "dona da casa", a que trata o seu governo, distante, hierática e silenciosa, ficando-se muda e impenetrável, enquanto as manas mais novas, D. Carolina de Jesus, miudinha, um pouco estonteada, fala ou ouve falar a outra mana, a Isaura Augusta, a mais desenvolta, talvez a mais intelectualmente vigorosa.

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

Filhas e um mestre de obras, o que construira a casa onde havia de morar Bulhão Pato, quando o escritor para ali foi em 1890, mesmo na casa ao lado, foram elas, com os pais, as únicas admitidas a sua convivência.

Bulhão Pato que era muito bondoso, muito, tinha os seus paradoxos: não gostava de crianças, porque eram barulhentas, mas, chamava as filhas do sr. Marques para a sua beira; amava o silêricio e tinha sempre á sua roda á barulho de uma alegre e palradora convivência, médicos e escritores, sobretudo.

Tudo, porém, finalizara naquele colapso cardiaco. Bulhão Pato acabava de morrer, faz hoje precisamente quarenta e quatro anos. Os seus restos mortais jazem num mausoleu do cemiteriozinho do Monte, esquecidos dos homens e da criada do afilhado Povas que, morrendo sem filhos, lhe deixou o que herdara do padrinho.

—  Estamos a vê-lo, ao sr. Pato, muito fino, muito educado, um pouco baixo e de barbas muito brancas, com uma manta alentejana pelos ombros: "vamos a ver se ainda deito este Janeiro fora!" Costumava passear por aí, com a sua bengalinha mas, sendo muito sociável, não admitia certas liberdades...

Só duas das meninas da Torre se deixaram fotografar, D. Carolina de Jesus e D. Isaura Augusta, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

Quem conta isto é a menina Carolina de Jesus que se ri:

—  Vinha muito por aí o dr. João Barreira. Ficava ás semanas e viamo-lo, através da janela, pendurado além, nas grades do jardim, a esticar-se, como se quisesse ficar mais alto. Tinha uns olhos de pássaro tonto que nos assustavam. Ali ao lado, havia um celeiro. Ás vezes, o caseiro da sr.a condessa dos Arcos ia para lá tocar harmónica. Como doido, o dr. João Barreira desatáva ás voltas, com as mãos nos ouvidos e aqueles olhos, a gritar, "que é isto, que é isto?" Este tocador de harmónio [?] era o mesmo que um dia, cumprimentando o sr. Pato, lhe estendeu a mão e a quem o escritor admoestou serenamente: "que é isso, rapaz, estende a mão só aos que forem teus iguais".

Professor João Barreira (1866-1961).
Imagem: ARTIS

— Apesar disso — acrescenta a mana Isaura Augusta —  o sr. Pato era muito bondoso, muito. Acudia pelas criadas, obrigava-as a ir cedo para a cama, que não queria excessos de trabalho lá em casa.

Depois, a propósito de criadas, vem a história da Elisa. Bulhão Pato. além da cozinheira e do criado, tinha sempre uma "criadinha fina", uma rapariga de serviços de fora que pudesse acompanhar D. Maria Isabel.

— O sr. Pato gostava de ter caras jovens e bonitas á sua roda. Mas a história da Elisa é muito triste. Um dia, vieram dizer ao escritor que ela andava de amores com uma visita da casa, o jornalista, sr. Urbano de Castro. Viam-nos juntos em Lisboa, nas folgas da Elisa...

O sr. Pato chamou-a, ralhou-lhe tanto, tanto, que ele, segundo diziam, era um trovão quando se zangava, que a rapariga, envergonhada, matou-se com um desinfectante com que andava a tratar-se...

O sr. Pato chorou e fez-lhe uns versos. Havia uma quadra que dizia assim:
Senti bater o caixão
Quando te foste enterrar
Era tarde de Verão
O Sol morria no mar.
Fora uma amiga da casa, a D. Elvira Bastos — elucida a outra mana — quem levara a novidade lá a casa. Nunca mais ali se pronunciou o seu nome.

— E Urbano de Castro?

— Bem, continuou a ir lá a casa. Havia as relações das senhoras...

D. Carolina de Jesus suspende o "crochet" e dobra a folha impressa de onde o estava a copiar. Já não vê e não há luz eléctrica lá em casa. Uma das manas vai acender o candeeirinho de petróleo (desculpe, somos pobres... não repare, esta sala é a das aulas...).

A mana continua:

— O sr. Pato gostava da boa mesa e que lhe gabassem o "roast-beef" mas mal provava os petiscos. Dizia sempre: "não tenho que comer!" E a senhora protestava: "Oh! Raimundo, que cisma a tua!" D. Isabel tratava-o por tu. Ele, falando com a esposa, dizia sempre "você".

Mas, enfim, se o sr. Pato não comia muito, bebia bastante e sempre bebidas finas. Fumava muito e levantava-se cedo, para trabalhar cedo. Cedo também se deitava.

— Mesmo assim, tinha uma intensa vida de sociedade... Devia ser rico...

—  Não sabiamos de onde lhe vinham os rendimentos. Rico, rico, porém, não seria, porque lhe vinham duas vezes por semana, ás quintas e domingos, grandes cestas de fruta e legumes, oferecidos pela familia Pinto Basto, da sua quinta aqui de perto, que está hoje nas mãos dos Quintelas. Mas com o não ser rico não deixava de ser muito esmoler, o sr. Pato. A casa aqui ao lado. estava mais que modestamente mobilada.

O mais importante eram, no escritório, os livros, um retrato do escritor, pintado por Lupi e que está hoje no, Museu de Arte Contemporanea e um outro de Alexandre Herculano (1810-1877), a quem era muito dedicado, mas que não nos lembra ver por cá. Devia já ter morrido.

—  Em que passava o tempo o escritor?

—  Se não escrevia, conversava sobre as suas viagens, falava de livros, fazia "pic-nics" na Quinta da Estrela ou caçava nos juncais de Caparica. Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, saia para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.

O Joaquim da Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa. para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje. 

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aqui, do Porto Brandão, é que partiam os barquinhos movidos por meio de remos....

—  Não falava de política, em derrubar o Governo...

—  Fechava-se com os amigos no escritório; como podiamos nós, adivinhar do que falavam em voz baixa? Alegria naquela casa não faltava. O sr. Pato até gostava de armar as suas festas. Muitas vezes, porque não lhe chegavam os dois andares que ocupava, estendia-se por casa dos vizinhos. E era ver, no Santo António e S. João, as fogueiras, as festas e bailaricos que armavam no terreirinho fronteiro á casa do sr. Pato. O povo passava e juntava-se, saltando também a fogueira. E o sr. Pato gostava.

—  Deu o nome a muitos "pratos" e petiscos...

— Possivelmente, eram os amigos que lhos davam. Nunca demos conta de que o sr. Pato fosse á cozinha ensinar a fazer ameijoas, bacalhau, perdizes ou ostras — e o que ele gostava destas! — com o seu nome ou não...

As meninas da Torre leram Bulhão Pato. O escritor estimava-as e a uma delas quis ensinar francês, ao que o pai, o mestre de obras, patrióticamente se opôs. Hoje, no seu casarão desconfortável e antigo, vivem da saudade de tanta coisa vivida, da mágua de se terem debruçado á beira de um grande mundo espiritual, do qual não recolheram o melhor do seu sabor.

Timidas, fiéis a Deus e á memória dos que amaram, assim as fomos achar, perturbando-as com a ideia de falar para um jornal e deixar-se fotografar, assim de chitas vestidas.

— Que vergonha! — disseram, a tapar o rosto com as mãos.

Mas, daqui a pouco, as meninas da Torre dobrarão esta folha de jornal, irão juntá-la a mil ninharias do seu património espiritual, já esquecidas do seu amigo, sr. Pato, vinte e dois anos seu vizinho na Torre.

O poeta no seu gabinete de trabalho, segundo fotografia publicada em 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Depois, empunharão a cartilha e, nos seus bancos em fila, as meninas da Torre, as mestras e as alunas voltarão a dizer em coro: Um á e um i faz ai... Um d e um ó faz... dó! (1)


(1) Diário de Lisboa, 24 de agosto de 1956

Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato

A evocação de Bulhão Pato (1829-1912)

D. Francisco de Noronha (1863-1953), fidalgo de quatro costados — e dos quais não blasona — é um ancião de 85 anos, que vive no seu solar modesto de Cacilhas, contiguo aos terrenos que foram dos condes Assumar e dos marqueses de Alorna, integrados na casa Mascarenhas, e que há pouco passaram, e em boa hora, para a Camara Municipal de Almada.

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

D. Francisco, de memória viva, metido entre os seus livros — que são alguns preciosos — as suas evocações, os seus constantes escritos literários que dispersa, generosamente — conheceu Bulhão Pato. Foi da sua privança.

— Como não ser? Meu tio, que foi juiz desembargador, legou-me esta minha pobre casa, que ele comprara aí por 1872. Por aqui tenho vivido.

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Quando Bulhão Pato veio para a Torre de Caparica em 1890 já eu por cá andava, á roda dos 33 de idade, e o poeta com os seus 60 já cumpridos em boa graça. Que homem! Que figura!

D. Francisco recorda que seu avô, D. José Maria Carlos de Noronha e Castilho, foi governador militar desta região.

"Eu pertenço um pouco a Almada, e aqui hei-de morrer, com a minha modestia e aquilo a que chamam a minha originalidade. A verdade é que vivo entre livros e recordações".

— Bulhão Pato...

— Naquele tempo convivia-se, e, fosse qual fosse a idade, fazia-se o possível para se ser rapaz. Bulhão Pato, que fora muito de Herculano, em cuja casa da Ajuda viveu ai por 1847-48, faz agora um século — imagine! — casa para onde depois foi viver Garrett, veio para a Torre já com a sua obra literária afamada.

 Palácio d'Ajuda, c. 1900. À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Ele principiara a "Paquita" em 1851 mas veio aqui acabá-la. A casa de Pato era maneirinha; o poeta pontificava em familia. Vinham — eu era mais novo do que eles — Urbano de Castro, que tinha uma casa em Costas de [do] Cão, o meu parente D. João da Camara, o Zacarias de Assa [d'Aça], o Henrique Lopes de Mendonça.

D. João da Câmara (1852-1908).
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi a estes que Bulhão Pato leu os ultimos versos da "Paquita"; eu não assisti. João Barreira, que era médico na freguesia, relacionou-se por essa época. Lembro-me destes homens. 

E apareciam também o grande João de Deus, Rangel de Lima e Marcelino Mesquita, ás vezes. Um grande companheiro de Bulhão Pato, foi o Eduardo Ferreira Pinto Basto, mas este era só para passear. Outro: o Teodoro Ferreira Pinto.

E volta ao poeta do "Livro do Monte".

— Era uma pessoa admirável. Trabalhava quando para tal sentia disposição. Não tinha horas formais. Passeava muito a pé por essas quintas, e imagino que, quando sózinho, compunha, a andar, versos ou tecia memórias.

Descendia dos Pereiras Patos Moniz, de Alcochete, e dos Alvares de Bulhão Eu tenho muitos anos de vida, corri algum mundo em Portugal e lá fora; dei-me com belos espiritos. Pois nunca encontrei melhor cavaqueador, mais fino e travesso. Era um gosto ouvi-lo. Nunca o ouvi falar de politica, e mesmo de polémicas literárias pouco dele discorria.

Lembra-se do "Lázaro Consul", resposta a uma suposta alusão do Eça, nos "Maias"? Eu nunca escutei nada da sua boca a este respeito... D. Francisco de Noronha lembra que Bulhão Pato tinha, apesar de romantico uma certa veia sarcástica. "De quem ele gostava muito era do Eduardo Schwalbach, que ás vezes aparecia, e pernoitava mesmo na casa da Torre. O Eduardo também vinha por minha casa. Era da minha idade, pouco mais, muito mais novo que o Pato. Tinha muita graça..."

Eduardo Schwalbach (1860-1946).
Imagem: Livreiro Monasticon

O fidalgo de Almada — que é ribatejano, da raia da Beira Baixa — esclarece-nos que Bulhão Pato nunca abandonou Lisboa, ao contrário do que se supõe. Ia lá quase todas as semanas. Almoçava então numa casa de pasto da Travessa dos Remolares, com o António Covas [Tovas], seu afilhado, deambulava pelo Rossio e Chiado, e regressava á tarde. E evoca:

— O poeta era muito de patuscadas inocentes e campestres, e de caçadas, mais inocentes ainda. Eu ás vezes aparecia. Ora uma vez...

— Mas o senhor deve saber...

— Diga... diga...

— Vem nos livros. O Bulhão Pato enviou urna vez ao Urbano de Castro um presente de urna pescada, com pimentos, que era de se lhes tirar o chapeu. Logo Urbano de Castro replicou por um bilhetinho:
Tem boa pinta a pescada,
são famosos, os pimentos...
A mana, muito obrigada,
envia os seus cumprimentos.

No Monte de Caparica,
termo e concelho de Almada,
há um Pato — coisa rica —
um Pato que dá pescada.
— Isto são recordações de velho. Eu não era ainda deste mundo, mas sei: Uma das primeiras poesias de Bulhão Pato foi a famosa "Se coras, não conto...", mais tarde reunida num livro de poesias. E ele ás vezes repetia, com saudades dos seus dezoito anos. A poesia é de 1847! Isto é: há um século...

E continua:

— Outro que era muito de Bulhão Pato, posto que não intimo, era o Manuel de Arriaga. Um irmão, mais novo deste, chamado Miguel, tinha em Almada uma quinta no Vale das Flores, Bulhão Pato ia por lá. E Manuel de Arriaga, quando foi eleito presidente da Republica, logo foi visitar o poeta de "Sob [os] Ciprestes", à casa da Torre, onde; agora vamos, pôr uma lápide.

Olhe, por coincidência: o actual presidente da Camara de Almada, o Luís Arriaga [de Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada (1947-1951)], é sobrinho de Manuel de Arriaga, filho de uma irmã deste, D. Maria Adelaide Sofia, se bem me recordo. Isto é o meu tempo de rapaz a desfiar...

O Manuel de Arriaga a mim tratava-me por "Francisquinho". Está aqui nas dedicatórias dos livros.

E conclui:

— Por tudo isto eu associo-me á ideia da lápide, da qual tive a iniciativa em Setembro de 1912. Ainda bem que vocês, rapazes, com o Luís de Arriaga tomaram isto a peito. Eu não posso talvez lá ir. As minhas pernas vergam, e como a memória está fresca, receio emocionar-me.

D. Francisco de Noronha, com a sua barbicha, a sua mão em concha, porque o ouvido já o atraiçoa, a sua camisa gomada sem colarinho, o seu olhar azul pisco, a sua andaina de andar na horta, com uns "sobrinhítos" que tem em casa, o seu chapeu rustico cozido a cordeis, o seu abraço muito largo, "do tamanho do mundo" — mostra-nos os seus formosos e poeirentos livros de boa biblioteca clássica, a par de livros de Antero e de tomos de transcendente filosofia. Vai-nos conduzindo ao portal, onde uma cadela céguinha faz as honras de porteira.

Antiga residência de D. Francisco de Noronha, década de 1970.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas.

— Pois no domingo eu estarei com o Bulhão Pato. Aonde não sei. E se o virem — façam-lhe lembranças minhas... Há cem anos: "Se coras, não conto".

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: Pintar a Óleo

O descerramento da lápida

O descerramento da lápida efectua-se amanhã, ás 17 horas, no prédio onde morreu Bulhão Pato, faz agora 36 anos. O elogio literário do poeta será feito pelo professor dr. João Barreira, já octogenário, um dos raros sobreviventes do grupo que mais conviveu com o poeta na Torre da Caparica, de 1890 a 1912. 

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

Assistem representantes da familia de Bulhão Pato e de outras que foram do convivio do poeta os vereadores de Almada, um vereador da Camara Municipal de Lisboa, autoridades de Setubal e do concelho.

Norberto de Araújo discursa, tendo ao seu lado direito, a 11ª Condessa dos Arcos, D. Maria do Carmo Giraldes Barba Noronha e Brito, e ao seu lado esquerdo, o médico e historiador de Arte – Professor Dr. João Barreira, que fez o discurso evocativo, D. Margarida Bulhão Pato, sobrinha do Poeta, o Comandante Sá Linhares, Presidente da Câmara Municipal de Almada e o jornalista e director do jornal «A Voz», Pedro Correia Marques.
in Norberto Araújo (1889-1952)

Serão lidas palavras do dr. Julio Dantas, traçando o perfil de Bulhão Pato, e usará da palavra o presidente da Camara de Almada, comandante Arriaga de Sá Linhares.

Podem aproveitar-se camionetas de Cacilhas à Torre, das 15 e 40 e 16 e 25. (1)

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Diário de Lisboa, 28 de agosto de 1948

Artigo relacionado:
Largo Gil Vicente


Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

 

sábado, 15 de novembro de 2014

Salão das carochas

Também, como qualquer hagiotopónimo, desapareceram o Calváro, que é topónimo perdido, e esqueceram por completo o Largo e a Ermida do Espírito Santo.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), Largo e Ermida do Espírito Santo, 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Igreja de Espírito Santo. É uma das mais antigas de Almada, datando de pelo menos do século XVI.

Está agora totalmende despida interior e exteriormente, com delapidações e alterações absurdas.

O brasão que decorava a fachada, simbolizando o  Espírito Santo foi instalado a despropósito na igreja da Misericórdia e o pórtico sineiro provavelmente na Igreja de Sant'Iago!... (1)

Largo do Espírito Santo (fotomontagem), ed. J.Lemos, década de 1940?
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia de Almada

A Ermida do Espírito Santo, templo de uma só nave, é um edifício baixo, fortemente contrafortado, apresentando-se bem apoiado nas respectivas paredes laterais autoportantes.

[...] a existência desta ermida remonta ao ano de 1478 [pelo menos], encontrando-se documentada no registo de uma visitação da Ordem de Santiago a Almada na qual, para além da enumeração dos seus ornamentos, é apontada a sua localização relativa: "Vesitaram os ditos vesitadores ha hermida de SSanto Espirito que he dentro na ditta vila d’almadaa".

Almada, Ermida do Espírito Santo, 1897.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
VESSITAÇAM DA IRMIDA DE SANTO ESPÍRITO SITUADA EM A DITA VILLA D’ALMADA [1488]

Vessitamos a dita Irmida de Santo Espírito a qual tem as paredes da capela moor de pedra e caall e o tepto de cima he forrado de bordos boons e o altar mor he d’alvenaria com huua lagea grande em çima e nelle estaa huum retavollo veelho de Espírito Santo quando veio sobre nosa senhora e os apóstolos e a imagem de santiago e de nosa senhora com ho minino Jhesus no colo e no meio da dita capela estaa huua alampada e tem de comprido cinquo varas e de largo tres varas e meia...

E o corpo da dita irmida o arco da capelamor he de pedraria e as paredes do corpo da igreija sam de pedra e barro cuberto de telha vãa e o portal da porta primcipal he de pedraria velho com huuas portas nelle velhas e rotas e na parede da parti de ponente estaa huua canpainha pequena antre duas pedras e tem de comprido oito varas e meia e de largo cinco varas E pegado na dita irrmida da banda do sul estaa uma casinha pequena de pedra e barro cuberta de telha vãa em que ora vive hua Maria Alvarez que tem a chave da irrmida.

ANTT. Ordem de Santiago e Convento de Palmela, Livro 177
[...]Ainda pertença da Igreja Católica, abandona a função religiosa em finais de século XIX, passando a funcionar, através de arrendamento, como sede da Academia Almadense entre 1919 e 1942. (2)

O antigo Salão de festas da Academia Almadense tem uma história curiosa: começou por ser a Ermida do Espírito Santo, construída no século XVII, famosa e de grande devoção, pois dela saía no Domingo de Ramos, uma faustosa procissão de onze andores.

Esta cerimónia veio a terminar, porém, em 1890.

Pouco depois, fechou ao culto, sendo o salão arrendado pela direcção da Academia para efectuar as suas festas.

Ermida do Espírito Santo, ed. J.Lemos, década de 1940?
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia de Almada

No início dos anos vinte [do século XX] esta colectividade explorava o espectáculo cinematográfico conhecido pelo Animatógrafo do Pratas. 

Este foi o segundo cinema que existiu em Almada. O primeiro foi um barracão próximo do Jardim do Castelo, nas traseiras do prédio Queimado.

Prédio Queimado, Tenda Moderna, Almada
Imagem: Delcampe, Oliveira

Durante 21 anos aqui se realizaram muitas e variadas festas, fruto do poder criativo e de muito trabalho dos associados.

Em 1942, após a inauguração da nova sede-teatro-esplanada (em Setembro), a Academia abandona o Salão das Carochas, como era depreciativamente conhecida pelos almadenses a velha ermida.

Ermida do Espírito Santo, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Após o 25 de Abril nasceu uma nova colectividade, o Centro Recreativo e Cultural de Almada, que ocupou o edifício, cuja data de fundação é de 1 de Julho de 1974. (3)


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

(2) Al-Madan Online IIª série, n.º 17, Tomo 1

(3) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

SFUAP, origens, teatro e escola

Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, desde 1889.

Cova da Piedade, piscina da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, c. 1970.
Dimensões, em metros: comp. máx., 25; larg. máx., 21; larg. mín., 16; prof. mín., 1,20; prof. máx., 5,40; alt. máx. das pranchas de salto, 15.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

A Sociedade Filarmónica União Artística Piedense é a segunda mais antiga do concelho, e foi fundada a 23 de outubro de 1889.

Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, 23-10-1889.
Imagem: AVM

Foram seu fundadores: Domingos da Saúde, Daniel Andrade, José António Gomes, António Pais Padrão, Manuel Tavares, António Xavier de Araújo, Carlos Ayrens [Ahrens], António Pedroso, Francisco Caramelo e Artur Ferreira Paiva.

Decorridas algumas semanas foi inaugurada a primeira sede instalada no sul do Jardim Público da Cova da Piedade, na chamada "Casa do Freitas". (1)

As origens desta colectividade remontam à velha colectividade "Sociedade Filarmónica União Artística do Caramujo" *  [...] com sede na Rua Direita do Caramujo.
* Sociedade Filarmónica 23 de Julho Caramujense, c. 1876, cf. Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.
Neste local funcionou também o antigo "Theatro do Caramujo".

Por volta de 1890, fundava-se o "Theatro Almeida Garrett", também conhecido por "Theatrinho na Cova da Piedade" [...]

Situado onde hoje está instalado o actual Cine-Teatro da "Sociedade União Piedense", tinha sido antes uma adega, propriedade de Pompeu Dias Torres, dono do "Hotel Club" e da maior parte dos terrenos da comunidade piedense. [...]


Hotel Club da Cova da Piedade
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, Freguesia da Cova da Piedade

José Joaquim Correia, ao instalar naquele local uma casa de pasto, que passou a ser conhecida pelo "75", teve a feliz ideia de aproveitar a retaguarda para montar o teatro.

Para isso foi constituída uma sociedade por acções populares, de que foram principais accionistas: António José Gomes. José Joaquim Correia, José Vicente Gomes Cardoso, Joaquim Caetano Veríssimo, José Figueiredo, Manuel Marques "das C"aeiras", Joaquim José Vieira, Sargento Paulo (dos torpedeiros), António Vicente Pais Padrão (industrial corticeiro), mestre António Maria Ribeiro, Carlos Ahrens, António Gonçalves, Joaquim Gonçalves e Alfredo Sandeman.

O primeiro espectáculo no "Theatro Garrett" foi composto pelo drama "O Gaspar Serralheiro" e a comédia "Por causa dum clarinete". [...]

Cova da Piedade, Cine-Teatro da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

António José Gomes comprou o referido edifício em 1898 e alugou-o à Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (desde 1901), com a renda mensal de 10$00 [sic] a troco de uma quota associativa daquele. Consta que a casa foi alugada por António José Gomes a um cunhado seu, Carlos Ahrens (também fundador da S.F.U.A.P.), na condição da colectividade manter a Banda Filarmónica. [...]

Alguns anos mais tarde, face às inúmeras carências de instrução que afligiam a população, a colectividade enveredou pela instrução, criando uma escola primária [na antiga Cardosa do Caramujo, actual rua Tenente Valadim,] com aulas diurnas para as crianças (na sua maioria, filhos de operários cortíceiros) e nocturnas para adultos. [...] (2)

Alunos da Escola União Piedense, inaugurada em outubro de 1904 na Cardosa.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

[...] Três semanas após a abertura desta escola, as aulas tinham uma frequência de 110 alunos, lecionados pelo saudoso professor José Martins Simões. Esta obra realizou-a o esforço de alguns ardorosos sócios. A escola possuiu um estandarte próprio, que era o enlevo da garotada, e um grande benemérito desta terra, que foi António José Gomes, de tal modo perƒilhou esta obra, que vestiu mais uma centena de alunos, dando-lhes um ƒardamento.

Os filhos da Piedade, que hoje são homens, devem a esta escola a instrução que disfrutam! António José Gomes patrocinou a escola que aquele punhado de homens criou, e sendo exígua já a capacidade das salas da Sociedade para a regular frequência escolar, edificou aquele benemérito a escola situada na Avenida que tem o seu nome e que é a melhor de todo o concelho!

António José Gomes, década de 1890.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

Este estabelecimento de ensino, foi. pois inspirado pela iniciativa que teve o seu campo de ensaio — e que profícuo ensaio! — na Sociedade Filarmónica União Artística Piedense. (3)

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

(2) Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.

(3) Dias, Jaime Ferreira, citado em Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Lisboa monumental em 1906

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Os governos que teem sempre a construir, por essas terras e vilórias, edifícios pequenos para escolas, créches, etc., deveriam fazer executar de quando em quando algum d'estes projectosinhos sahidos das provas escoláres, e que o respectivo jury, reforçado por elementos das letras, todos os annos levasse á atenção das obras publicas e municípios [...].(1)

Fialho de Almeida, 1857 — 1911.
Imagem: ciberduvidas

Mas se é certa a teimosia dos commerciantes, por bronca, faz suspeitar que por trás d'ella alguma tramoia a Companhia Real fomenta e move, não menos descabida parece a ancia que tem os engenheiros da Sul e Sueste em querer construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á alfandega, sem primeiro trazerem a linha de Cacilhas ou Almada, seu prolongamento logico ou natural.

Pois verdadeiramente se antolha que a pressa grande deva ser completar quanto antes a linha ferrea entresonhada, vazar as mercadoria d'embarque em caes fonteiros a Lisboa, pôr n'esses caes navios acostáveis desembarcando artigos que se destinam ao interior das terras d'além rio — dar pretexto emfim a que a nossa capital real outra margem se desdobre, e uma nova cidade, abrangendo desde o pontal de Cacilhas á Trafaria, lentamente alastre á beira d'agua, primeiro em armazens e fabricas e officinas, logo com casarias e ruas moradias, trepando as lombas dos morros, pinchando aos cimos, quando a afluencia de gente que necessariamente o caminho de ferro trará consigo, se juntar ess'outra que a mudança do Arsenal de marinha e officinas subsidiares, e ainda a da Escola Naval, sua consequencia immediata num futuro mais ou menos proximo certo virão concentrar na margem esquerda, frente á capital.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

E tudo isto daria já para a nova cidade uma migração muito importante, que sommada com a vizinhança das villas e logares que enxameiam no aro d'entre Trafaria e Cacilhas póde determinar robustamento o inicio do faubúr novo, da outra grande Lisboa de forjas e martelos, a Lisboa fabril, erriçada de chaminés e fumos londrinos, mirando ameaçadoramente, dou outro lado da agua, a cidade-côrte, em seus volvos d'orgia, seus arquejos de gaz e de festanga — do outro lado d'agua, em cujo espelho o labyrintho dos steamers, ao mugir cavo das sereias, encheria de grandeza o porto formidavel.

Acumular portanto na outra margem a Lisboa commercial e fabril, de grande labuta e grande trafego; ir para essa margem empurrando, á formiga, muitas industrias que por Alcantara e Poço do Bispo funccionam no meio de bairros por ellas infectados; desobstruir por uma gradual e lenta transferencia, a beira-mar de Lisboa velha, dos hangares barracões e feios depositos de mercadorias que ali se ajuntam, vedando ao lisboeta de gemma a margem do seu Tejo: tudo isto significa um desiderato maravilhoso para a belleza da terra e methodisação hygienica da industria, ajudando o desenvolvimento rapido d'uma cidade que com pretensões a chave do Atlantico e paraiso de touristes, ainda não poude sahir das virtudes prohibitivas e velharias confusas de qualquer terra hespanhola ou brazileira.

Só quando a "Lisboa da outra banda" tomasse desenvolvimento uniforme de cidade, e as duas lisboas, direita e esquerda, desenroladas polas duas margens do rio, proclamassem a urgencia da sua homogenisação n'um todo idilico, é que a ideia da ponte ou pontes monumentais de 9:000 contos (que já começa a endoidar bestuntos da puericia mandante, amiga de exibicionismo) deveria ser posta a amadurar, conjunctamente coma do projecto de estação fluvial sul e sueste, cujas obras, a contrario do que oiço, não parecem por agora tão urgentes como a conclusão da via ferrea até Cacilhas ou Almada.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Varios, e em epocas differentes, desde 1880 para cá, teem sido os projectos de pontes sonhados para ligar a capital com amargem esquerda do Tejo.

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferro-viaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária. A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhasou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial.
Quanto mais présto essa via concluida, mais cedo começará, frente a Lisboa o centro de crystalização da nova cidade commercial e fabril que tanto urge.

D'ahi se o Arsenal de marinha sae, como pretendem, do seu forte edifício pombalino, deixará disponivel um cazarão enormissimo onde em qualquer canto os engenheiros do Sul e Sueste pódem talhar estação avóndo , e em ponto centrico, correndo-se por diante do edifício desde o Terreiro do Paço, cmo alguem ja propoz, uma arcada que alargue o transito da rua do Arsenal para peões, sem ser necessario recorrer a qualquer construcção moderna especial.

Fotografia aérea, destaca-se o Arsenal de Marinha, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não são das menos desagradaveis coisas da enseada maritima de Lisboa, essas montanha pardas da Outra Banda, sem arvores nem casas, e de cujas vertentes a cada passo esbarrondam terras contra o mar.

De ha muito, n'outro pais, essa margem sinistra estaria embelecida e arborizada, cortando-se nas gredas soltas, tratos de terra plana onde correr caes e fazer installações, cintando de muralhões o resto, e escalonando até ao cimo as terras altas, para as encher de zigue-zagues de estradas, entresachados de residencias de campo ou grandes fabricas.

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A cordilheira nua, com meia duzia de cazebres branquejando no amarello ruim das gredas soltas, tem uma apparencia de Africa maldita que ignobilisa o panorama, encarióca a cidade, dando dos instinctos paysagistas do luso uma ideia das mais frigidas para o conceito d'europeu civilizado que elle se dá ares de merecer. (2)


(1) Almeida, Fialho de, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental I, Lisboa, 29 outubro 1906

(2) Almeida, Fialho de, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906