Mostrar mensagens com a etiqueta 1947. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1947. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de março de 2023

Almada Atlético Clube (1946)

a caminho de transformar-se em grande instituição

A vila de Almada procura, mercê de um esforço admirável, apoiado na dedicação e entusiasmo dos seus habitantes, impor-se não só na vida social como também na prática do desporto.

Banquete de homenagem ao Almada Atletico Club
(campeão nacional da II divisão na época 1946-1947).
Delcampe Bosspostcard

O inicio desse novo aspecto no desporto local principiou com a fusão dos dois clubes locais: o União Desportivo de Almada e o Pedreirense Futebol Clube.

Coroada de êxíto essa iniciativa, o aparecimento do Almada Atlético Clube marcou desde logo um programa valioso, não só em benefício do desporto e dos desportistas locais, como também do desporto nacional, pois que, dada a importância do projecto, o desporto português receberá um excelente reforço.

Estivemos em Almada e na sede do clube ouvimos alentamente a exposição que nos fizeram o seu presidente, sr. João Louro, acompanhado pelos srs. Valentim Henriques, secretário. Jeremias Barros, secretário adjunto, e Alfredo Cáceres Alves, capitão do grupo de futebol.

Frente à antiga sede do Almada Atlético Clube.
A Banda da Incrível ao Longo do Tempo vol. I. ign 1.° centenario, 1 de outubro de 1948.
InfoGestNet

— O Almada Allético Clube cumpre a ideia que foi a base da iniciativa da fusão dos dois clubes almadenses.

Pensámos que poderia surgir um clube grande, capaz de divulgar os bons princípios do desporto e interessar o povo de Almada pela cultura física e até cultural.

António Henriques, director desportivo do Almada Atlético Clube 1949/1950.
InfoGestNet


Verificamos hoje que assim é. E não devem estar arrependidos o sr. Direclor Geral de Desportos, que apadrinhou com interesse a fusão. e a Federação Portuguesa de Futebol, que nos tem acompanhado com as suas boas palavras de incitamento e o valioso auxílio de 50 contos, com que pudemos entrar na posse do nosso magnifico campo de desportos. Temos cumprido. Muito mais queremos e havemos de fazer.

Associativamente, como se encontra o Allélico de Almada?

Bem. Quando existiam dois clubes, as duas massas associativaa perfaziam um total de 500 sócios. O Atlético de Almada regista já 1.200 sócios e esperamos que dentro em pouco, com uma campanha que vamos iniciar, se chegue aos 3.000.

Quais os projectos?

A instalação da nossa sede, em edifício que esperamos brevemente alugar. Procuramos que a nossa casa desportiva tenha conforto e ambiente acolhedor. Nessa sede, além de todas as instalações para os sócios, poderemos montar um amplo ginásio.

Almada Atlético Clube (sede)  c. 2014.

Ao mesmo tempo continuaremos as obras do nosso campo de desportos.

Procuramos dotar Almada com um estádio!

O nosso terreno presta-se à maravilha para esse efeito. Siuado em local privilegiado, com linda vista e terrenos desafogados, o campo de jogos do Atlético de Almada receberá, logo que a época de futebol termine, obras para tal necessárias. Prolongaremos as bancadas, há pouco inauguradas, que chegarão até a circundar as balizas. Construiremos uma pista para atletismo, balnearios, posto médico e outras instalações subterrâneas e procederemos ao arrelvamento do campo.

Se todos nos ajudarem e se o auxílio das entidades desportivas vier, como esperamos, colaborar nesta nossa obra, Almada, na época de 1946-47, terá o seu estádio! Todos estes projectos estão já traçados no papel prontos a serem submetidos ás entidades oficiais que superintendem nestes assuntos.

Campo de jogos do Almada Atlético Clube no Pragal.
InfoGestNet

Depois, há a valorização dos nossos «teams» de futebol e o alargamento da nossa aclividade desportiva.

Qual é presentemente essa actividade?

Além do futebol, praticamos atletismo, modalidade em que conquistámos já vários recordes, nacionais e regionais; andebol, com duas categorias, e estão prestes a iniciar a sua aclividade as secções de basquetebol e de voleibol.

Neste momento, o Almada Atlético Clube tem ainda uma outra ambição: ingressar na 1.a divisão da A. F. de Setubal. Havemos de conseguir.

Como vê disseram-nos os dirigentes almadenses ao terminarem as suas in formações estamos animados dos maiores desejos de cumprir uma bela missão, a bem do desporto e de Almada.

As entidades dirigentes do desporto deram-nos um impulso. Nós procuramos corresponder, valorizando esse apoio.

Almada Atlético Clube (emblema).
Wikipédia


Como se depreende destas informações o Almada Atlético Clube está lançado no bom caminho. Há entusiasmo acertado, uma vontade forte de trabalhar e um desejo ainda maior de, no mais curto espaço de tempo, fazer surgir em Almada um grande clube de desporto. Por enquanto nada há que faça supor o contrário... (1)


(1) O Almada Atlético Clube a caminho de transformar-se em grande instituição, Stadium n° 167, 13 de fevereiro de 1946

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
Stadium n° 89, 16 de agosto de 1944

Artigos relacionados:
Almada Atlético Clube (1944)
Pedreirense Foot-Ball Club
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...
Grupo Desportivo da Casa dos Pescadores da Costa de Caparica

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Almada Atlético Clube (1944)

Apôs a fusão Pedreirense-União Almadense
O ALMADA ATLETICO CLUBE
Será em breve uma honrosa manifestação do desporto Almadense


A vila da Almada, anichada no alto dos montes da Outra Banda, desfruta de situaçãp previlegiada. Debruçada, sobre o Tejo, olhando desafogadamente Lisboa inteira, Almada bem merece as carinhosas dedicações que se lhe tem devotado, procurando engrandecê-la ajudando-a no aspecto de renovação e melhoramentos que a cada passo se encontram por toda a Vila.

Almada Atlético Clube (emblema).
Wikipédia


Terra de laboriosa, que tem orgulho naquele rincão arejado, onde de toda janela se espreita o lindo rio e os olhos se inundam da paisagem campesina. Almada vai tomar posição de relevo no desporto. Disto nos convencemos quando nestes últimos ditas lá estivemos, inquirindo ao certo o que significava a fusão dos dois antigos clubes de Almada, o Pedreirense Futebol Clube e o União Sport Clube Almadense, sensata solução que deu motivo à fundação do novo clube: o Almada Atlético Clube.

À interferéneía amivel de Francisco Valente — um nome que fito ligado à ideia — colocou-nos na presença do sr. José Braz, presidente da direcção do novo clube, ume figura de respeito em Almada, espirito ponderado, ideia sempre ligada a boas iniciativas. Por isso o seu nome apareceu — e foi bem recebido — nesta benéfica questão desportiva que é hoje em Almada assunto dc grande importância.

Comandante José Braz, albúm pessoal,
Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

— Esta ideia excedeu toda a expectativa — diz-nos o sr. José Braz com sincero entusiasmo.
— Como a receberam as duas massas associativas?
— De início, como é compreensível. formaram-se dois sectores, grupos que se opunham à fusão. Mas façamos-lhe justiça. Pata muitos, os clubes comtituiam um lar antigo. O amor clubista imperova. A saudade pelo grupo que lhes merecera tantas dedicações e esforços ajudara a não concordarem com a ideia, que era boa — para a terra e para a ideia desportiva.


O exemplo daquele sócio que compreendendo o benefício da fusão teve a sinceridede de me dizer: "Concordo com a fusão, mas quando ela for um facto quero reunir num jantar de despedida alguns eompanheiros e chorar o desaparecimento do meu clube!" Dedicaç6es destas vieram fortalecer o novo clube.

Pedreirense Foot Ball Club (emblema).

O sr. José Braz continuou expondo a finalidade que orientou este projecto:
— Almada é terra de gente boa, trabalhadora, honesta e sempre pronta a reunir-se em volta de uma bandeira para demonstrar o valor da sua actividade e das suas boas ideias.


O nosso meio recreativo impõe-se. As duas colectividades, a Academia Almadense e a Incrível Almadense, eonstituem motivo de orgulho. Por que haviam de continuar dispersos pordois clubes valores tão aproveitáveis? Por que haviam de continuar divididos os homens, em vez de os juntarmos num grende clube que marcasse posição de relevo no concelho e que conseguisse reunir todos os almadenses em volta de uma só entidade?


E tudo correu pelo melhor. Este nosso bom povo, humilde. mas amando muito o que pertence a Almada, é neste morneoto o melhor auxiliar para que a iniciativa tenho o exito que lhe antevemos. Registe-se que, expontâneamente, logo nos primeiros dias se inscreveram mais de 200 sócios, que até então não pertenciam a nenhum dos dois clubes.

União Sport Clube Almadense (emblema).

O sr. José Braz anima-se. As suas palavras são ajudadas por entusiasmo que, sendo comovido, deixa entretanto prever os beltssimos projectos que estão já em efectivação.

— O Almada Atlético Clube será um clube de todos e para todos. Preocupa-nos não fazermos uma coisa defeituosa, mas sim com bases sérias e que no futuro marque posição. Pretendemos, especialmente, fazer em Almada um clube em que se possa preparar a juventude,

Acarinhados e aconselhados pelo sr. capitão António Cardoso, contamos com o aplauso da Direcção Geral doa Desportos, além do apoio dos melhores valores da nossa terra.

E o sr. José Braz salienta-nos um nome, uma figura a quem o concelho deve: o banqueiro António Piano Jnr. Almada considera-o a sua "varinha de condão", sempre ao lado das boas iniciativas, desde que tenham por finalidade o engrandecimento da terra.

A generosidade do sr. Piano Junior tem-se feito sentir em tórias as obras de beneficèneia e de recreio espiritual que se têm organizado em Almada. E ao ser posto ao corrente do que se passava com a fundação do novo clube desportivo, o interesse e a magnífica ajuda de António Piano colocaram-se ao dispor da direcção do Almada Atlético Clube.

Mercê desse valiosíssimo apoio — countinua elucidando-nos o sr. José Braz — o novo clube, terá a sua sede própria. Neste momento ultimam-se as negociações para a compra, ou de um edifício e campo anexo, ou de terreno onde se edificará a sede. E qualquer destes elementos estão já escolhidos.

— Os seus projectos, quanto a instalações desportivas?
— A futura sede do Almada A. C. reunirá todas as instalações necessárias o um bom clube de desporto. Terá um amplo e apetrechado gimnásio e um campo de "basket ball".


Os campos dos dois clubes, o do Pedreirense e do União, pensamos depois aproveitá-los sob o seguinte projecto: o primeiro para futebol, introduzindo-lhe mais alguns melhoramentos e bancadas; o segundo para os pistas de atletismo, "rink" de patinagem, "courts" de ténis e piscina. (1)


(1) Stadium n° 89, 16 de agosto de 1944

Mais informação:
Joaquim Candeias, Efeméride do primeiro jogo
O Almada Atlético Clube a caminho de transformar-se em grande instituição, Stadium n° 167, 13 de fevereiro de 1946

Artigos relacionados:
Almada Atlético Clube (1946)
Pedreirense Foot-Ball Club
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Gregório, do Cacilhense...
Grupo Desportivo da Casa dos Pescadores da Costa de Caparica

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)

A "Stadium" não esquece nunca o labor desinteressado e valioso dos clubes que propagam os desportos na provincia. A sua acção, modesta em geral, e brilhante e valiosa muitos vezes, tem merecido palavras de elogio e provocado algumas iniciativas de estímulo para a sua actividade. Conhecer a sua existêna, auscultar as suas aspirações, é concorrer para aprecia-los melhor. Vários clubes da província tem passado pelas coluna, da Stadiurn, em referência mais ou menos ampla a uma obra que é sempre digna de realce.

Clube Desportivo da Cova da Piedade no acto da sua inauguração, em 1947.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Neste número, no de hoje, cabe a vez ao Clube Desportivo da Cova da Piedade. É, entre as agremiações mais novas, uma das que mais tem progredido. Em pouco mais de um ano, pôde levar atletas ao estrangeiro e colher aí uma vitória esplendida. Pois é desta colectividade que vamos falar, numa reportagem que tem muito de oportuna. E vamos dividir em très partes, que se completam — condições em que se fundou, a obra do um ano e projectos para o futuro.

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e a sua fundação

Cova da Piedade talvez seja mais conhecida como localidade de transito para o sul do pais. É o primeiro núcleo populacional que se encontra no caminho, depois da travessia dificil por Cacilhas. Considerada assim, de passagem, é de-cetro uma terra como outras... Para quem a visite é uma localidade em pleno desenvolvimento. A proximidade do novo Arsenal de Marinha, à volta do qual se está criando uma cidade moderna deu, à Cova da Piedade. melhores condições de vida e expansão.

Situada também perto de Almada, séde do seu concelho, e da movimentação de Cacilhas, recebeu delas influência desportiva. Formaram-se há, anos, dois clubes: Sporting Clube Pledense e União Piedense. Não merece a pena indicar com rigor a antiguidade de cada um dos clubes [v. artigo relacionado: Clube Desportivo da Cova da Piedade]...

Basta afirmar que a acção desportiva do lugar se dispersava por duas colectividades. E que, por serem modestas, alguns dos seus melhores atletas procuravam representar clubes da capital, com mais atractivos para quem tem aspirações de progresso e fama. 

Criou-se, assim, explicou-nos um director do Desportivo da Cova da Piedade. a ideia de uma concentração de estorço., numa só agremiação, com fundas raizes na região a que pertence — um clube que representasse dignamente a sua terra e agrupasse todos os valores dispersos. 

A menina Maria Gabriela Barbosa Álvaro conduz as chaves para a abertura da sede do Desportivo pelo Dr Salazar Carreira, no acto da inauguração.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

As pessoas que mais se distinguiram, nesta campanha, c que encaminharam os doia clubes para a fusão, foram os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, advogado; dr. Raúl Cerqueira Afonso, diplomado em Ciéncias Económicas e Financeiras; Domingos Cabrita. Júnior, todos sócios de ambas as agremiações locais, e Salvador Marques de Assunção, diretor do Sporting Clube Piedense. 

Em 28 do Janeiro de 1947, realizou-se uma reunião magna do povo da Cova da Piedade, para se pronunciar publicamente acerca do projecto de fusão dos dois clubes. A ideia foi bem aceite e a data citada figura como sendo a da fundação do Desportivo, visto que nela se resolveu organizar um novo clube, com raie título. 

Na mesma reunião, que a Cova da Piedade não esquecerá facilmente, resolveu-se ainda nomear uma comissão organizadora, que ficou sendo a ,primeira comissão administrativa do C. D. C. P. . Dela fizeram parte os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, dr. Raúl Cerqueira Afonso, Domingos Cabrita Júnior e Salvador Marques de Assunção, já apontados, com Augusto Baptista, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa, José Ribeiro de Sousa, Carlos Matos Peres. Pedro Lopes Rodrigues, António da Costa, Diogo da Silva Nunes e José da Fonseca.

Alguns dos convidedos à festa de inauguração da sede do Desportivo.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

A comissão organizadora resolveu aproveltar o edifício que estava destinado para a sede do União Piedade, a sede do Sporting para uma escola e o campo desportivo Silva Nunes, do União, perto do centro da localidade. O edifício da sede foi mobilado, não tão completamente conto era nosso desejo, mas por modo que não coloca mal o clube. 

Em 1 de Anril do mesmo ano, com pouco mais de três meses de fundação, o Cube Desportivo da Cova da Piedade pôde realizar o acto que marcou melhor, sob o ponto de vista representativo, o começo oficial da sua actividade. Referimo-nos à inauguração da séde social. Ao acto presidiu o sr. dr. Salazar Carreira, inspector de desporto, em representação do sr. tenente-coronel Sacramento Monteiro, Director Geral de Desportos. E estiveram também presentes, com muito prazer para o Desportivo, o sr. Comandante Sá Linhares, ilustre presidente da Camara Municipal de Almada, vários vereadores, Benvindo Cardoso, pela Federação Portuguesa de Ciclismo, e Jaime Franco, pelo Atlético Clube de Portugal.

A festa constou da inauguração oficial da sede e de uma escola privativa do Desportivo, para educação pré-escolar, e visita ao campo de jogos.

Surgira, pois, um novo clube.

A obra de um clube novo e o seu trabalho de um ano

O Desportivo começou a funcionar com 1.023 sócios e aproveitando as instalações já apontadas — sede no edifício destinado à sede do União Piedade; escola de preparação pré-escolar, para crianças de 5 a 7 anos de idade. na antiga sede do Sporting Piedense; e campo de jogos Silva Nunes. O nome do campo constitue homenagem ao antigo sócio n.° 1 do União Piedade, Silva Nunes, que ficou sendo também sócio n.° 1 do Desportivo. 

O numero de sócios subiu para 1.823. A escola tem 50 alunos. O campo de jogo, tem sido aproveitado para futebol e andebol. Para a prática do voleibol é utilizada a esplanada da União Artística Piedense, gentilmente oferecida pela respectiva direcção. 

Quando o Desportivo iniciou a sua acção desportiva, organizou e manteve secções para os seguintes desportos: futebol, ciclismo, andebol. voleibol, ténis de mesa e bilhar desportivo. Para poder disputar provas nestas modalidades, o Desportivo filiou-se nas respectivas Federações e Associações, filiando-se ainda na Associação de Atletismo, embora não constituisse logo secção especial para esse desporto. 

O edificio da sede tem dois andares. No primeiro, estão montados um bar, um salão de jogos com bilhar desportivo e ténis de mesa, e um posto de enfermagem. No pavimento superior, encontram-se instalados o gabinete da direcção. o gabinete das comissões, a biblioteca e sala dos trofeus. 

No campo há uma boa vedação e existe uma bancada com capacidade para 300 pessoas. Tem balneário. E comporta uma assistência de 4.000 espectadores.

Um resumo de actividades

O número de praticantes desdobra-se como segue:
Futebol — 4 categorias, com 83 inscrições. 
Ciclismo — 4 categorias e 14 corredores. 
Andebol — 15 jogadores.
Voleibol — 14. 
Ténis de mesa — 15. 
Cicloturismo — 27. 
Atletismo (intersócios) — 17. 
Bilhar desportivo — 6. 
Natação (populares) — 8.
A secção de andebol está ern reorganização. 
O Desportivo disputou campeonatos em futebol ciclismo e voleibol

Os primeiros resultados

Em Futebol, a categoria de honra classificou-se em primeiro lugar no campeonato distrital, ao qual não concorreram os clube. da 1.ª e 2.ª Divisão. Em reservas e em segundas categorias ficou no segundo poeto. Em juniores, terceiro. O Desportivo passou, depois, ao campeonato nacional da 3.ª Divisão. Chegou à final, batendo o outro finalista, Académico de Viseu, no Entroncamento. No fim do tempo regulamentar, oa dois clubes estavam empatados com 2-2. No prolongamento, o Cova da Piedade marcou trés pontos, sem resposta. Venceu, pois, por 5-2. A classificação obtida permitiu a entrada do Desportivo na fase final da Taça de Portugal. A prova é, porem, difícil. E o Desportivo não tem grandes aspirações. 

A primeira equipa de futebol do Desportivo da Cova da Piedade, vencedora do capeonato nacional de III Divisão e do campeonato distrital de Setubal.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Em voleibol, os jogadores do Desportivo ficaram campeões da sua série mas foram eliminados pelo Naval Setubalense, campeões da série de Setúbal. Fizeram dois desafios. Na Cova da Piedade, perderam por 5-3. A cidade do Sado a derrota não passou da tangente — 2-3.

A secção de ciclismo tem sido a mais brilhante e movimentada. Em independentes, a equipa do Desportivo classificou-se em 4.° lugar na "Volta a Portugal", a seguir ao Benfica, ao Sporting e ao Porto; e Baltazar Rocha foi o décimo, individualmente, na classificação geral. Manuel Pinto Ribeiro ganhou a Rampa do Vale de Santo António. Jorge Pereira e Baltazar Rocha conquistaram a Taça "Corpos", em Orense, Jorge Pereira ficou em primeiro, na classificação individual, e Baltazar em terceiro. João Joaquim Nunes desistiu. 

Os quatro corredores que representaram o Desportivo da Cova da Piedade na XII Volta a Portugal em bicicleta.
Jorge Pereira ganhou também uma prova em Orense.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Este ano, Jorge Pereira colocou-se em primeiro, nos 100 quilómetros em linha, ex-aequo com João Lourenço. Adoeceu, todavia, e não completou as provas do campeonato regional. Baltazar Rocha, Pinto Ribeiro e António Vieira deram ao Desportivo o segundo lugar no Grande Prémio Alfredo Piedade. E, no campeonato nacional de amadores juniores, um corredor da Cova da Piedade ficou em segundo.

Quanto ao ciclo turismo, a equipa do Desportivo, de principiantes, composta por Vítor Antunes, Alberto Sarty e Diamantino dos Santos, ganhou o título de campeão de Lisboa, em competência com os representantes do Benfica e do Casa Pia. E um grupo formado por António Dias, Sabino David e José Mourinha, realizou um raide ao centro do país, num total de 894 quilómetros.

Outros nomes — e outros factos

A direcção actual, a primeira que o clube elegeu, tem a seguinte composição: 

Presidente, Augusto José Baptista; vice-presidente, Domingos Cabrita Júnior; tesoureiro, Emílio dos Santos Ganhão; secretário-geral, José Ribeiro de Sousa; secretário-adjunto, António da Costa; vogais. Salvador Marques da Assunção, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa e José da Fonseca. 

A direcção tem sido auxiliada por uma comissão constituída pelos srs. António Reis, João Augusto dos Reis. Carlos Filipe, César Costa Figueiredo, António Pereira da Cruz. João Palmeiro Barbosa, Carlos Reis Duarte e outros. 

O Desportivo organizou apenas uma prova, no dia da inauguração da sede — o I "Circuito Piedense", em ciclismo, para Iniciados. Ganhou-a Edgard Marques, do Benflea, recentemente apurado campeão nacional de amadores seniores. Em segundo, ficou José Barroso, do Desportivo. 

E houve ainda uma outra festa, a marcar a posição do clube na sua região — uma festa de homenagem aos atletas da região que se destacaram e destacam no desporto nacional, pelas suas proezas e pelos seus títulos — Mário, Francisco e João da Silva Merques, très irmãos com carreiras gloriosas.

João da Silva Marques, campeão e recordista de natação,
um dos homenageados pelo Desportivo.
[Stadium 309, 1943]
[João Silva Marques – Rei e Senhor da Natação Ibérica nos Anos 30/40]

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e os seus projectos

Não quizemos fechar esta reportagem sem saber quais são os trabalhos que o novo clube tem em curso ou projecto.

Pouco nos disseram a tal respeito e por urna razão de certo modo simples — não existir maior preocupação que a de caminhar sem precipitações e sem grandes aspirações. Há porem um problema importante em estudo — o campo de jogos. E não é porque não disponha de um campo melhor que muitos da provincia. É porque não satisfaz, especialmente pelo defeito que revelou desde que começou a ser aproveitado: é amplo, está tratado com cuidado; apresenta aspecto regular; mas alaga com facilidade, quando sobre ele cai alguma chuvada forte. 

Seria fácil alarga-lo, para futebol e andebol, e tem terreno que podia permitir a prática de outros desportos. Seria, no entanto, dificil e dispendioso prepara-lo para não alagar. A direcção procura por isso resolver o problema com a aquisição de um novo campo. E, à volta da localidade, não faltam terrenos alguns deles dependentes de entidades oficiais, que bem podiam auxiliar um clube digno de simpatia, pela obre já realizada em prol do rejuvenescimento da mocidade e na valorização da região o que pertence. 

Entre as peasoas e entidades a que tem recorrido, o Desportivo da Cova da Piedade destaca o sr. comandante Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada, a quem o concelho deva já reunir alguns notaveis melhoramentos. Tem sido amável para com os representantes do clube, compreende as suas necessidades e procura diligentemente atende-las. Ha, pois, confiança nos  bons reoultados da intervenção do sr. comandante Sá Linhares, neste assunto palpitante do novo campo. E ja não é pouco.

A sede social do
Clube Desportivo da Cova da Piedade no acto da sua inauguração, em 1947.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Além do problema em referência, o desportivo da Cova da Piedade procura apenas de momento. assegurar melhor as suas instalaçóes, completando o mobiliario da sede, e alargar a sua acção desportiva a maior número de desportos, de modo a justificar o proposito de reunir, num só clube todos os atletas da Cova da Piedade, quando não houver necessidade de material especial. Não ha, porém, pressas e não ha demoras. Tudo a seu tempo e na devida altura.

A Direcção está reorgonizando a secção de andebol, vai alargar a pratica do atletismo e pensa dedicar-se também a basquete e à patinagem. Conta, para isso, com a boa vontade dos seus sócios e com a cooperação da Industria local e da Imprensa.

A industria piedense tem auxiliado o C. D. C. P. com varios donativos periodicos, distinguindo-se nesta colaboração oportuna e preciosa, as seguintes firmas: Henrique Bucknal & Sons, Limitada. Rankins, Limitada e Cabruja & Cabruja.

Pelo que o que se relaciona com a Imprensa, o novo clube confessou-nos estar muito reconhecido, principalmente aos jornais desportivos, pela publicidade dispensada a todas as suas iniciativas e pelo ambiente de simpatia e estimulo com que se tem referido à acção do clube. 

Casa Renner
(antiga alfaiataria Benjamim M. Oliveira)

Essa simpatia é, no entanto, merecida em absoluto, dizemos nós agora. É por isso mesmo que pensamos nesta reportagem à vida da nova agremiação. E é ainda por tal motivo que lhe apresentamos os nossos votos de largo progresso. (1)


(1)  Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Artigo relacionado:
Clube Desportivo da Cova da Piedade

Informação relacionada:
Casas que a "Stadium" recomenda (1) 
Casas que a "Stadium" recomenda (2)

sábado, 19 de março de 2016

Da Ramalhinha aos Crastos

A Ramalha situa-se na margem esquerda de uma antiga linha de água, sendo Miocénicos (22.5 milhões de anos a 5 milhões de anos) os terrenos do planalto e Plio-Plistocénicos (5 milhões de anos a 10 mil anos) os da zona mais próxima da linha de água.

Lugar da Ramalha, restauro da capela e edifício (infantário e creche), 2007.
Imagem: Guias de Arquitectura

As diversas estações arqueológicas existentes na zona, localizam-se desde o alto do planalto até à zona de planície e foram identificadas quer através de prospecção sistemática (que vimos fazendo de alguns anos a esta parte), quer pela observação de taludes junto a velhos caminhos ou novas vias, remoção de terrenos para obras diversas, etc.

As construções na Ramalha.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em 1976 Carlos Tavares da Silva escavou, de colaboração com o Centro de Arqueologia de Almada e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Assembleia Distrital de Setúbal, a estação Neolítica da Ramalha, trabalho que, contrariamente à vontade de todos, não foi ainda possível tornar público.

Aspecto da intervenção arqueológica na estação neolítica na Ramalha, 1976.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Já em 1983, a estação foi soterrada por algumas toneladas de terra sobre as quais se construiu um parque de estacionamento.

Pela mesma data (1976) e sob a orientação de elementos do Grupo para o Estudo do Paleolitico Portugués (GEPP). realizou-se uma sondagem em área onde se tinham recolhido à superfície alguns instrumentos líticos. 

Porém, as expectativas em relação a esta sondagem, cujos resultados publicaremos brevemente, foram também elas goradas pelas terraplanagens levadas a cabo em 1984 — a estação desapareceu na totalidade. 

Mas outros vestígios foi possível detectar. Assim, da Idade do Bronze encontraram-se alguns materiais num talude à beira da estrada, no local mais elevado do planalto. São na maioria fragmentos de cerâmica de formas carenadas e de grandes vasilhas de armazenamento. 

No mesmo talude eram visíveis restos de estruturas de habitat (fundo de cabana). O talude tem vindo a desmoronar-se por acção das intempéries. Do período Romano foram recolhidos materiais em dois taludes situados a meia encosta — sigillata cinzenta estampada, opus signinum, cerâmica comum, etc. 

Na área atrás referida mas num outro talude. detectaram-se vestígios de construções, inúmeros fragmentos de cerâmica pintada e restos alimentares (cascas de bivalves e ossos de diversos animais), espólio que pensamos poder atribuir-se ao período de ocupação Muçulmana. 

Também os restos de algumas edificações da Quinta dos Castros poderão ter pertencido à antiga ermida de Sto. Antào (Séc. XIV) de que resta hoje, na capela de S. João, uma lápide, dedicatória de um nobre e sua mulher. 

Lápide na parede exterior da capela:
À honra de Deus e Santo Antão,
este Oratório mandou fazer Fernão Gomes
e Mexia Vasques Farinha, no ano de 1456

Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em face do exposto e porque passou já à fase de execução o plano de urbanização da Ramalha. parecem-nos pertinentes algumas considerações. A Ramalha foi até há pouco tempo uma área suburbana e agrícola, uma comunidade cheia de tradições, perfeitamente distinta de outros núcleos populacionais do Concelho.

Aí poderíamos encontrar, como em nenhum outro local, uma forte consciência do passado, uma consciência orgulhosa da ancestralidade da terra e das suas gentes; um passado em que a lenda e a História se confundem na memória colectiva, materializadas em tradições seculares de que são exemplo as festividades de S. João Batista, misto de paganismo e religiosidade.

Uma tarde na Ramalha.
Imagem: José Pereira

Hoje, porém, se a alguns interessa saber "quem fomos", destrinçar a lenda da História, conhecer essas "raízes" de que justamente se orgulham as populações, enfim enriquecer a nossa vivência pelo contacto com a experiência de outros homens que aqui viveram, a outros, pelo contrário, não só tal preocupação é alheia como parecem apostados na eliminação pura e simples de todos os vestígios materiais desse nosso passado, comprometendo assim irremediavelmente o seu conhecimento.

Discursos de gente importante (vinda do "senso comum" tal opinião seria compreensível), veiculam a ideia de que do Passado nada de importante (leia-se "monumental") sobreviveu em Almada [...]

No caso da Ramalha, o projecto de urbanização implica a sua destruição histórica. paisagística e ecológica! Mas este não é um caso isolado da alteração de fachadas pela utilização de materiais inadequados. corno o aluminio, à destruição de estações arqueológicas, vai acontecendo de tudo um pouco [...]

Vestígios de balneário romano na antiga Quinta da Ramalha, 1947.
Imagem: Fundação Mário Soares

A situação criada na Ramalha é já irreversível. Julgamo-nos. no entanto. na obrigação de. pelo menos, recuperar os vestígios do passado desta terra cada vez mais "sem rosto". Por esse motivo solicitámos uma reunião com responsáveis camarários e autorização de escavação ao organismo competente (IPPC). Aguardamos as respostas [...] (1)

Capela da Ramalha, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

--ooOoo--

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal [paródia ao castigo aplicado ao marido submisso] (ler mais...) (2)

A jornada de um heroi moderno para a ilha de Elba,, gravura de 1814.
Imagem: British Library


(1) Em Almada cf. Ana Luisa Duarte, Revista Al-Madan nº 3, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, maio/novembro de 1984
(2)  António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Informação relacionada:
Oratório de Santo Antão da Ramalha

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Plano de Urbanização da Costa da Caparica

Integrado no Plano Geral de Urbanização do Concelho de Almada, de cuja elaboração foram encarregados os arquitectos urbanistas de Gröer e Faria da Costa, estudou este último o arranjo urbanístico do agrupamento Costa da Caparíca-Trafaria-Cova do Vapor, que, embora de características distintas, ficarão articuladas entre si e constituirão um todo que se completa.

Planta de Conjunto do Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: FCG Biblioteca de Arte

O trabalho do arquitecto Faria da Costa é um estudo sério da urbanização daquela zona, em que se consideram todos os aspectos do problema. Começou o autor por examinar as características das populações de cada uma daquelas povoações, a fim de poder determinar as suas necessidades.

Verificado o facto de que, na Trafaria, predomina a população fixa ao passo que na Costa da Caparíca e na Cova do Vapor é a população flutuante de fim da semana que tem maior importância, logo seguida pela população flutuante estival, que na Costa sobe a 70% o e na Cova do Vapor anda por 250%, o arquitecto faz uma série de considerações sobre cada um daqueles núcleos urbanos.

Costa da Caparica, familia na praia e pescador.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Quanto à Cova do Vapor, acentuando que a sua existência não assenta noutras razões que não sejam uma espécie de moda — a do camping — sugere que não se vá mais além do que criar um acesso cómodo, que ficará assegurado com o estabelecimento da rede de grandes artérias propostas para a região, um abas-tecimento de água potável reduzido à sua expressão mais simples — a de um curto número de fontanários — e uma cabine telefónica.

No que se refere à Trafaria, tem-se em atenção que é apenas o ponto de passagem para a Costa da Caparica e que só uma reorganização completa da vida da povoação, pela sua articulação com aquela praia, poderia animar. A realização de uma obra de abrigo dará, por sua vez, novas condições à população da Trafaria, que poderá vir a ser um centro de trabalho activo.

Trafaria, Aspecto da Praia e bicha para as Camionetas da Caparica, ed. Passaporte, 06.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Faria da Costa considera, no seu estudo, a Trafaria como uma zona de habitação operária e artesanal, onde a população flutuante, praticamente, não conta, ao passo que a Costa da Caparíca, embora integrada no mesmo todo, será, principalmente, uma zona de habitação e recreio da população flutuante, cabendo-lhe também a sua população fixa.

Computando em 25.000 o número ideal de habitantes para um aglomerado com as características do núcleo constituído pelas duas povoações, salienta que uma tal população, dado o nível económico— predomínio de veraneantes — dará já vida a toda e qualquer iniciativa privada de interesse geral, permitindo, por isso, as condições de auto-abastecimento que se traduzem na comodidade e conforto que os pequenos aglomerados de baixo nível económico não podem ter.

Trafaria, Bairro dos pobres, Comissão Municipal de Turismo, ed. Neogravura.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Por outro lado, uma população de 25.000 habitantes daquele nível, com uma fraca densidade, reune as vantagens dos grandes centros, já possível e completo apetrechamento urbano, sem os inconvenientes das densas e fatigantes capitais.

Depois de analisar a conveniente distribuição populacional na Costa da Caparíca e na Trafaria, o autor explica que o problema da primeira consiste em alojar 10.831 habitantes, dos quais 3.250 de população fixa e 7.500 de população flutuante.

A população fixa distribuir-se-á pelos bairros piscatórios, pelas casas de habitação colectiva das zonas comerciais e, ainda, pelas moradias da classe média e abastada.

A população flutuante ficará distribuída pelas novas moradias, pelos blocos sobre a avenida marginal, pela extensão linear prevista e pelos hoteis, pensões, colónias de férias, etc., que o plano de urbanização prevê.

Um exemplo de desordem urbana

Entrando, em seguida, própriamente no estudo do problema da urbanização da Costa da Caparica, o arquitecto Faria da Costa afirma que se trata do exemplo mais frizante da desordem urbana do nosso país.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

"Este caso diz — pode considerar-se um fenómeno típico dos aglomerados cujo desenvolvimento se fez ràpidamente, sem plano pré-estabelecido, agravado pela falta de controle por parte do município e por uma ausência absoluta de espírito colectivo que levam ao abandono dos deveres de cada um para com a sociedade de que faz parte."

"Na Costa da Caparíca tudo se esqueceu, desde a mais elementar regra de construção à mais simplória medida de higiene, tudo se autorizando, com desprezo completo das disposições do Código Administrativo."

Faz o autor notar que, se ao Município cabem responsabilidades graves, elas não são menores para os seus munícipes, isto porque considera que a função de um município não é mais do que a de coordenar a iniciativa e o trabalho de toda população de um aglomerado em que cabe a esta o dever de defender aquilo que é seu património.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Enumerando, depois, as deficiencías da povoação, começa por dizer que não existe rede de esgotos de qualquer natureza. O sistema geralmente adoptado é o do poço negro, aberto nas areias, alcançando o nível aquífero que, em grandes zonas, se encontra, apenas, a 1m50 abaixo da surerfície do terreno, inquinando-se com criminoso despreso pela saúde pública.

Tambem não existe colecta de lixos, os quais são despejados em buracos abertos nas areias, que so se tapam quando cheios. Falta, igualmente, uma rede de abastecimento de águas.

Este é feito por meio de buracos cómodamente abertos nas areias, junto dos esgotos, resultando, como é óbvio, águas de forte inquinação. Os arruamentos são caóticos, sem pavimentos capazes, na sua maioria. No que diz respeito à utilização dos terrenos, encontra-se, vulgarmente, uma percentagem de utilização à volta de 70, 80 e 90%.

A distância a manter do terreno do vizinho, no caso de haver janelas, chega a ter menos de 50 centímetros. A ânsia do negócio do arrendamento no Verão e a grande procura de alojamento por aqueles que necessitam de retemperar um pouco a saúde, levou certos proprietários a improvisar as habitações mais inverosímeis e em condições de higiene e promiscuidade inacreditáveis.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Os prédios, qualquer que seja o número dos seus andares, são construídos com blocos de betão do tipo 40x20x20 aplicados de forma a dar o maior rendimento.

Em conclusão, o arquitecto salienta que, se é certo que o Município não exigiu dos munícipes o cumprimento das mais elementares regras de higiene nem defendeu a colectividade de uma especulação desenfreada de mela duzia de negociantes de terrenos, não deixa também de ser verdade que não tem havido a mais leve reacção dos que vão para a Costa da Caparica, dos quais fazem parte, na época estival, nomes de primeiro plano em todas as camadas sociais.

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Só à existência de excepcionais factores climáticos, o autor atribuí a facilidade com que a população da Costa da Caparica, resiste aos efeitos das péssimas condições que oferecia a povoação.

A concepção do projecto

Ao expor a concepção do seu projecto, Faria da Costa começa por afirmar que um plano de urbanização deve, funda-mentalmente, determinar os limites definitivos do aglomerado e prever, para essas dimensões, todo o seu apetrechamento urbano.

Ao pretender resolver o problema da urbanização da Costa da Caparica, em função deste critério, admitiu, por isso, que, uma vez atingidos os limites pre-vistos, o excedente da população irá ocupar aglomerados satélites que se estenderão ao longo da praia, para sul.

Assim, no tempo, o imenso areal da Costa da Caparica será povoado por distintos núcleos urbanos. Como é natural, é o aglomerado existente aquele que, completo, constituirá o primeiro e mais importante núcleo urbano.

Tendo sempre presente um verdadeiro sentido das realidades, o arquitecto estudou o seu plano de forma a não fazer depender de expropriações das propriedades urbanas existentes qualquer dos problemas que se propôs resolver.

Deste modo, qualquer parcela do plano pode realizar-se com inteira independência do existente, deixando-se ao tempo o reajustamento sempre necessário quando se projecta novo sobre velho e, com mais forte razão, quando esse velho é aquilo que se vê na Costa da Caparica.

A análise do Plano de Urbanização da Costa da Caparica mostra que, se juntarmos aos 225 hectares urbanizados, os espaços livres que teríamos de considerar e representariam uma área aproximada de 40 hectares, ou seja, um total de 265 hectares, a densidade média para tecla a povoação seria de 60 habitantes por hectare.

Por outro lado, vemos também que os bairros operaríos previstos, cuja capacidade é de cerca de 2.000 habitantes, ocupam uma area de 15,5 hectares. Por seu turno, as novas moradias destinadas às classes médias e abastadas alcançam o número de 650.

Tomando em conta estes elementos, as areas medidas nas plantas e as populações atrás previstas, constrói o arquitecto o seguinte quadro, que traduz as diferentes densidades de habitantes por hectare nas várias zonas que constituem a futura Costa da Caparica:

Zona operária 15,5
hect.
125
h ha.
Zona de habitação colectiva 24,0
"
200
"
Zona de moradias 78,0
"
60
"
Zona central existente 14,0
"
130
"
Extensão linear 25,0
"
60
"
Extensão satélite 25,0
"
60
"

O aglomerado actual, designado Costa da Caparica, é constituido por três grupos distintos de habitações ligeiramente separados.

O primeiro é constituído pela velha povoação de pescadores. O segundo é o da Quinta de Santo António e o terceiro é formado pelo Bairro do Convento.

Costa da Caparica, uma moradia no Bairro do Convento.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Estes dois últimos, apesar de recentes, revelam uma absoluta falta de consciência na sua disposição e aproveitamento.

Em função destes três agrupamentos, o arquitecto Faria da Costa traçou a clássica "croisée" Norte-Sul-Nascente-Poente.

A primeira é constituída pela estrada da Trafaria, ampliada no seu perfil, com mais uma faixa de rolagem e alargada nos seus passeios (fig. 3).

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 3), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

A segunda é formada por um desvio da estrada de Cacílhas, que vem cruzar-se com a primeira e o seu prolongamento para poente constitui o principal acesso à praia.

É no cruzamento destas duas artérias que o autor projectou o novo bairro comercial.



Todas as restantes artérias têm apenas unia função de circulação local. Admite, no entanto, como excepções, a avenida marginal, de características especiais, junto da qual ficarão localizados edifícios de interesse público, tais como, casino, restaurantes, hoteis, piscina, etc., e os acessos do aglomerado à mata e à praia, feitos, no geral, por arruamentos de tipo de alamedas arborizadas.

Foi tendo presente a existência da Mata Nacional que o arquitecto desenvolveu parte do aglomerado ao longo dela, com a vantagem não só da sua máxima como também do encurtamento da distância que o separa de Lisboa, o que implicitamente estabelece uma mais ampla conjugação da Costa da Caparíca com a Trafaria.

No topo da artéria Norte-Sul, fica localizada a gare rodoviária, com a dupla finalidade de evitar a tendência natural para a prolongar indefenidamente e de fixar nesta zona a população de domingo, para o que contribuirá ainda a concentração nesta zona de restaurantes a preços populares e de cabines para banhos a preços acessíveis.

Como a zona terrestre imediata pertence ao Estado e as condições do solo são idênticas ás da actual Mata Nacional, é de preconizar a arborização do local.

Nesta mesma zona fixou o arquitecto o bairro dos pescadores e os seus acessos ao mar, bem como, localizados mais a Sudeste, o bairro operário e a zona artesanal Estes dois bairros ficarão assim separados do restante aglomerado pelo núcleo desportivo, situado na melhor posição.

Prevê ainda o plano diferentes grupos escolares, um núcleo comercial, além do actual, no Bairro de Santo António e outro na Praça da Gare Rodoviária. Propõe-se também a deslocação do cemitério para fora do núcleo urbano.

Quinta de Santo Antonio e Costa de Caparica (detalhe), ed. desc.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Partindo da existência de um amplo terreno, com esplendida localização do lado do oceano e, tendo ainda em conta que a praia é constituída por um extenso areal, que torna incómodo o acesso ao mar, o autor projectou uma nova zona habitacional ao longo da avenida marginal, reduzindo a faixa da praia a pouco mais de 100 metros.

Nessa nova zona coloca uma série de blocos de habitações colectivas, do tipo de apartamentos, com poucas divisões, donde uma grande percentagem da população pode gozar a vista do mar, o que hoje não acontece com grande parte do aglomerado urbano, escondido a cota baixa, por detrás das dunas. Estes blocos, que disporiam de garagens colectivas, ficariam perpendiculares à avenida marginal, para terem melhor orientação e evitar uma autêntica muralha que separaria toda a povoação da praia.

Do lado da avenida, seriam os blocos limitados por uma galeria de um só piso, para utilização comercial. Admitindo que estes blocos atinjam a altura de 7 pisos, o arquitecto concebeu-os como verdadeiros hoteis, sem pensão, o que representa uma inovação no nosso meio, perfeitamente de acordo com as características do progresso da vida moderna.

Valorizando a praia, pelo encurtamento da incómoda faixa de areia e pela construção de balneários, duches, cabines e piscinas, o autor do projecto considera também a mata, verdadeiro complemento urbano que muito contribui para essa valorização.

Tirando o melhor partido desse belo elemento natural, o arquitecto considera igualmente a existência de um futuro apetrechamento urbano que transforme a mata num confortável centro de diversões, quer com pequenos campos de jogos, quer com os mais variados pavilhões de chá, restaurantes, etc., construídos em regime de concessão temporária, pois em caso algum é de admitir a alienação deste bem público.

Os acessos e a circulação

A Costa da Caparica ficará ligada por via ordinária a três pontos da margem esquerda do Tejo Cacilhas, Trafaria e Cova do Vapor onde acedem as carreiras fluviais vindas da capital. As obras projectadas pela Administração Geral do Porto de Lisboa para Cacílhas e Trafaría — docas de abrigo — e os melhoramentos a introduzir na ponte-cais da Cova do Vapor resolverão o actual grave problema de acostagens nestes três pontos, o que em muito virá aumentar a atracção que a Costa da Caparíca exerce sobre a população de Lisboa.

O arquitecto apresenta um esquema das grandes artérias, (fig. 2) em que indica as estradas existentes, as melhoradas e as que se projecta e que virão a permitir á população desembarcada uma fácil circulação em toda a região.

Plano de Urbanização do Concelho de Almada  (fig. 2),
Esquema da grandes artérias, 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

A circulação principal é constituída por um sistema de grandes artérias que, servindo a região e a Costa da Caparica, lhe asseguram uma ligação fácil á capi-tal. A rêde da circulação principal é formada pelas seguintes artérias:

1.° — Marginal Sul do Tejo, de Cacilhas à Trafaria — Estrada Nacional n.° 11 do Plano Rodoviário — prolongada até à Cova do Vapor.

2.° — Prolongamento do troço Norte-Sul da Estrada da Trafaría — Estrada Nacional n.° 377-1.° — para ambos os lados, até encontrar, a Norte, a Marginal Sul do Tejo e, a Sul, a projectada Praça da Gare Rodoviária.

3.° Via Nascente-Poente, que, partindo da Estrada Cacilhas-Costa da Caparíca na altura do cemitério dessa última povoação, cruza perpendicularmente a via Norte-Sul.

Costa da Caparica, Praia do Sol, Vista Parcial, ed. desc.
Imagem: Delcampe

4.° — Marginal Atlântica, que, partindo da Cova do Vapor, segue para Sul, ao longo da praia e entesta com a via Nascente-Poente.

O prolongamento para Sul desta Marginal Atlântica forma a grande Alameda Marginal, que, inflectindo para Nascente, se liga na Praça da Gare Rodoviária k via Norte-Sul.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Além destas artérias, que servirão a Costa da Caparica, prevê-se na região uma via de acesso á Lagoa de Albufeira. Desta via partirão os ramais que servirão os futuros aglomerados satélites.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 4), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

Todas estas artérias têm perfis transversais tipos de características especiais, adequados às funções que desempenham e às zonas que atravessam. Nelas as, faixas de rolagem e os passeios variam consoante as necessidades particulares ai cada um dos seus troços (figs. 3, 4 e 5).

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 4), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

No que respeita á circulação interior, que o arquitecto considera, práticamente, no seu todo, subsidiária do sistema de grande circulação que atrás se descreve, a solução é mais económica, pois destinando-se quáse apenas a servir o tráfego, local, as larguras das faixas de rolagem podem ser menores.

Espaços livres

À Mata Nacional, só por si, garante não só uma boa utilização do espaço livre, como faz descer a percentagem de habitante-hectare, muito abaixo daquele que se reputa óptimo.

Todavia, por se tratar de um aglomerado de características próprias, onde a vida ao ar livre é fundamental, foram criadas alamedas, passeios e jardins de bairros, numa distribuição de espaços livres que evitam grandes deslocamentos.

Numa simples vista sobre o Plano das zonas (fig. 6) verifica-se quanto a percentagem e distribuição dos espaços livres são boas, pelo que o arquitecto entende desnecessária qualquer operação de verificação de percentagens, pois ela ultrapassa, de largo, os 60m2 por habitante.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica (fig. 6), Faria da Costa, 1947.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Escolas e edifícios públicos

A experiência mostra que, no geral, os municípios não possuem locais bem situados para construir edifícios publicos, nomeadamente escolas, porque não souberam reservar, antecipadamente, os terrenos necessários.

Foí tendo em vista esta experiência que o arquitecto Faria da Costa estabeleceu no seu plano zonas especiais para tal efeito.

Assim, as escolas previstas pelo Plano dos Centenários foram localizadas no Bairro dos Pescadores, pois é aí a localização que mais convem ao núcleo actual da população fixa. No futuro, elas servirão também o Bairro Operário projectado.

Além daquelas escolas, foram previstas outras, porque o autor do projecto admite a possibilidade de, no futuro, uma grande parte da população flutuante se fixar na Costa da Caparíca, por largos períodos, já por motivos de saúde, já de ordem económica.

Costa da Caparica, Esplanada do Café Costa Nova, ed. Passaporte, 78.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Além do espaço destinado a escolas, previu também o arquitecto uma zona de edifícios públicos, junto ao mercado, a zona de reserva, quer no Bairro de Santo António, quer na Avenida n.° 1.

Gare rodoviária

Dada a posição particular do aglomerado urbano, o transporte colectivo ter-restre terá de ser resolvido pela camionagem.

Assim, utilizando as redes das grandes artérias como linhas de circulação de autocarros, toda a população será cbmodamente servida e os percursos má-ximos que terá de percorrer até á. linha das carreiras está muito águem dos 500 metros admitidos.

Dado que a população flutuante dos domingos é igual á soma das populações fixa e estival e que, por motivos óbvios, as suas horas de ponto são mais acentuadas, foi especialmente em função desta população que o arquitecto localizou a Gare Rodoviária, muito embora se reconheça que as outras populações em nada são prejudicadas, antes pelo contrário.

À Gare Rodoviária dá sobre uma ampla praça com largas placas de estacionamento para passageiros que aguardam embarque.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Se o transporte por via aérea um dia for realidade ou se se fizer sentir essa necessidade, aliás provável, a ela será dada ampla satisfação, visto que para Sul da Gare Rodoviária existem amplas planícies, fàcilmente adaptáveis a aeródromos.

Outros aspectos do plano

O plano de Faria da Costa considera ainda a criação de centros de diversão, piscina e praia infantil, centro de desportos, colonias de férias e hoteis populares.

O centro de diversões foi localizado sobre a grande alameda que dá para a praia e junto á praça da confluência das grandes artérias — Marginal e via Nascente-Poente vinda de Cacilhas.

O autor previu este centro como o grande ponto de concentração da população de todo o aglomerado e dos turistas atraídos pela admirável praia da Costa da Caparica.

É neste centro que ficam localizados casino, hotéis, restaurantes, cafés, bars, piscina, grandes estabelecimentos, etc.

A localização e o partido adoptado obedecem á preocupação de defender o centro de diversões dos ventos Norte que, no Verão, são os que mais incomodam. A construção de zonas reentrantes e a construção dos blocos no sentido Nascente-Poente têm essa finalidade.

Como entende que a praia, com todas as suas qualidades, estaria incompleta se não existissem uma piscina e uma praia infantil, já porque ali se poderá exercer á vontade a prática e a aprendizagem da natação, já porque servirá para festas náuticas, o arquitecto Faria da Costa contou igualmente com esses elementos.

O centro de desportos, considerado como um dos pontos essenciais do plano de urbanização, compreende campo de foot-ball, pistas de atletismo, rínk de patinagem e campos de tennis.

Foram ainda previstas, fora deste centro, locais para campos de "tennis'', os quais, com os existentes, completam urna boa rede. No que respeita a colónias de férias, diz o arquitecto Faria da. Costa que se traia de uma iniciativa do maior interesse, desde que obedeça a um critério diferente daquele que se seguiu até esta altura.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica, planta de utilização do solo (fig. 7), 1946.
Imagem: Arquitectura, março de 1947

Enquanto estudava o Plano de Urbanização da Costa da Caparica, sustou a realização de muitas pretensões para a construção de colonias de férias, porque sistemáticamente elas se localizavam na Mata Nacional.

Ora, o autor entende que, em caso algum, se deve consentir na alienação de parcelas na mata para esse fim, constituindo zonas privilegiadas para uns e que a todos preconiza que essas colónias de férias se instalem na periferia da mata, isto é, ao longo da extensão linear.

Como situação, esta é maravilhosa, pois entre a praia e a mata ela reune em sí os dois principais elementos naturais, que são a razão de ser da Costa da Caparica.

Vejamos, finalmente, como resolveu o arquitecto o problema dos hoteis populares.

Ao localizá-los, teve em vista criar a reserva para. uma iniciativa que, entre nós, não tem ainda uma expressão verdadeira.

Num país como o nosso, com um tão baixo nível de vida, — áparte um pequeno número de bafejados pela sorte, que podem dispor de hoteis de criados agaloados e diárias incomportáveis para a maioria — á classe média só restam as pensões, que, na verdade, são baratas, em relação ao nível da grande maioria, mas que não possuem as indispensáveis condições de conforto e higiene.

Na praia da Costa da Caparica, uma família que ali vai passar o dia.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Entende o arquitecto que seria fácil, uma vez que se reservem terrenos bem localizados e que só a esse fim se destinem — de modo a evitar especulações — construir simples pavilhões, claros e arejados, sómente com quartos, caiados e servidos por uma galeria que os ligaria a um pavilhão central, onde seriam os serviços, salas de jantar, "hall", etc.

Extensão linear

A marginal Atlântica, criada para um melhor acesso a toda a zona da praia, que se estende desde a Caparíca actual até à Cova do Vapor, teve também em mira criar uma zona de habitações onde seriam localizadas não só as colónias de férias, como tambem construções particulares e hoteis.

A faixa de utilização, assim criada, teria não só a vantagem de ter vista do mar — qualidade que grande parte do aglomerado não possuí, por estar ou atrás da mata ou atrás das dunas como ainda a de criar um fundo de receita que ultrapassará certamente o custo da própria estrada.

É óbvio que a ligação entre a praia e a mata não deixará manter-se, devendo prever-se frequentes e amplas passagens para peões, de ligação entre elas e, principalmente, na direcção de veredas, a criar dentro da mata.

Execução do plano

O plano de urbanização da Costa da Caparíca implica a execução de obras de grande vulto, tais como a defesa da margem e a terraplanagem das dunas, cuja realização deve competir ao Estado, única entidade com as condições técnicas e financeiras necessárias a podê-las executar.

Estas obras de custo elevado serão, porém, compensadoras, dado o alto preço porque o município poderá vender os terrenos assim conquistados e pagando ao Estado o custo das obras realizadas.

O arquitecto estudou cuidadosamente todos os aspectos da execução do plano da urbanização, por forma a torná-lo viável e a evitar todas as dificuldades capazes de obstarem à sua realização.

Assim, estudou a execução das avenidas, tendo em conta as cotas do terreno, dedicou também atenção ao problema dos esgotos que considera difícil, devido ao baixo nível de toda a zona da Costa da Caparíca.

No entanto, qualquer que seja o processo que venha a adoptar-se, ele deverá levar os produtos de esgotos para sul, os quais, depois de elevados e tratados, deverão ser utilizados como fertilizante na criação de hortas necessárias ao abastecimento da Costa da Caparíca, no Verão.

Não esqueceu igualmente o abastecimento de águas, que considera, em parte, já resolvido com a execução do projecto do abastecimento ao concelho de Almada.

Quanto ao fornecimento de energia e luz eléctrica, trata-se de um problema corrente, que está enquadrado no plano geral em estudo para todo o concelho.

Observa, ainda, o arquitecto que a zona da Costa da Caparíca está sujeita a servidão militar, moldada nas concepções guerreiras dos fins do século passado, o que representa um grande entrave, mais de ordem moral que material, no desenvolvimento normal da povoação. 

João Guilherme Faria da Costa (1906-1971).
Imagem: Picasa

Acha o autor indispensável que a servidão, a manter-se, seja revista pelas entidades competentes, crente como está de que, na época da aviação e da bomba atómica, as preocupações que levaram a estabelecer aquela servidão, em grande parte desapareceram.


(1) Plano de Urbanização da Costa da Caparica, revista Arquitectura, março de 1947

Artigos relacionados:
Costa da Caparica — urbanismos
Trafaria e Cova do Vapor em 1946


Mais informação:
João Guilherme Faria da Costa
Jornal Arquitectos, 227, abril-junho 2007