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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Cova da Piedade (1873-1886)

1873

Logo ao nascer do sol embandeiraram quasi todas as cazas, e subiram ao ar muitos foguetes em signal de regosijo pelo anniversario da entrada das tropas liberaes. (1)

Almada, vista sul, Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

As casas da villa estavam illuminadas. No largo da Piedade tocavam, antes da chegada da commissão, tres philarmonicas.

Divisava-se em todos os semblantes o maior regosijo. Correu tudo com o maior enthusiasmo, o que se deve ao muito amor dos portuguezes á liberdade, e sem o mais pequeno incidente desagradavel, o que se deve á muita cordura dos cidadãos. (2)

Terreiro da Cova da Piedade, actual Largo 5 de Outubro.
ICMA cf. Fábrica de molienda António José Gomes

A direcção dos festejos por tão fausto acontecimento tinha sido confiada a uma grande commissão composta dos seguintes cavalheiros: — Presidente, Eduardo Tavares — Wenceslau Francisco da Silva — Jose Maria do Valle — Augusto Cesar de Lima — A. L. J. Quintella Emauz — João Antonio Xavier Carvalho Freirinha — Julio Cesar Coelho — Antonio Faria G. Zagallo — S. Duarte Ferreira — Rafael Fortunato Alves Cunha — Antonio Francisco Silva Junior — Manuel Francisco da Silva — Christovam de Mattos— Antonio Candido Lopes — João Alegro Pereira Ernesto — Alvaro Seabra — Barreiros (Delegado) e Guilherme Maria de Nogueira.

Esta commissão veiu de Almada para o largo da Piedade, ás 7 horas da tarde, acompanhada da philarmonica da villa, e de muitas senhoras que todas vestiam de azul e branco.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Restos de Colecção

Ahi, collocando-se na frente da egreja, o sr. Eduardo Tavares, presidente da mesma commissão e deputado por aquelle circulo, fez um brilhante improviso, commemorando os factos da batalha dada n'aquelle sitio; disse que os que o acompanhavam n'aquella occasião não estavam ali como vencedores, nem tão pouco revestidos de odios de partidos; e appellou para o patriotismo de todos os portuguezes para conservarem a independencia e a liberdade que ha quarenta annos desfrutámos.

Concluído o discurso, o sr. Tavares levantou vivas á liberdade, sendo correspondido pela grande multidão que o cercava. Então deram-se também vivas aos veteranos da liberdade e ao sr Eduardo Tavares.

Eduardo Tavares (1831-1875).
Biblioteca Nacional de Portugal

Em seguida foi distribuído a 50 pobres um bodo que se compunha de 230 grammas de carne, um pão, meio kilo de arroz e 100 réis em dinheiro.

Este bodo foi oflerecido por uma commissão especial composta dos srs. Eduardo Tavares — João Allegro Pereira — Padre João Netto — A. L. J. Quintella Emauz — Manuel Joaquim Motta e Lourenço Anastacio Ferreira de Aguiar.

Durante o bodo tocou uma philarmonica difíerentes peças de musica. Acabado o bodo, dirigiram-se todos ao largo onde se achava collocado o busto do duque da Terceira; e ahi foram levantados novos vivas á liberdade e entusiasticamente correspondidos.

Estátua do Duque da Terceira (detalhe).
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877.
Biblioteca Nacional de Portugal

Todas as senhoras, como dissemos, trajavam de azul e branco; e todos os cavalheiros traziam ao peito um ramo de perpetuas preso com fitilhos também azues e brancos. (3)

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1874

Damos hoje á estampa a fachada do elegante hotel que ha de inaugurar-se amanhã na Cova da Piedade.

Hotel Club na Cova da Piedade, inaugurado a 31 de maio de 1874.
Hemeroteca Digital

O sitio é realmente lindissimo. Não podia o seu proprietário escolher melhor local. Defronta com o jardim publico que servirá de recreio aos visitantes. 

O hotel tem excellentes accommodações para hospedes. Conhecemos o proprietario e podemos assegurar que o tratamento será excellente.

Deve ser muito concorrido no tempo dos banhos, principalmente porque está proximo de Lisboa e offerece grandes commodidades. (4)

HOTEL CLUB
NA PIEDADE, OUTRA BANDA

DOMINGO, 31 do corrente se imaugurará o novo Hotel Club, casa de café e bilhar, estabelecido em casa apropriada e acabada de construir; reunindo ao mais esmerado aceio todas as commodidades a desejar.
Serviço de almoço, lunch e jantar por lista, e nos domingos e dias santificados jantar de meza redonda. (5)
HOTEL CLUB
NA PIEDADE, OUTRA BANDA

CONTINUA servindo todos os dias por lista.
Aos domingos e dias santificados, ha tambem jantares de meza redonda. (6)

[...] propriedade de Pompeu Dias Torres, dono do "Hotel Club" e da maior parte dos terrenos da comunidade piedense. [...] (7)

Entrada do Jardim, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900

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Fez-se um jardim, que está povoado de arbustos ainda tenros. Ao meio d'elle, um coreto onde ás tardes dos domingos uma orchestra entretem os passeantes. 

Á roda do jardim edificações novas, alegres, e a poucos passos d'ali o hotel Club, que respira limpeza e aceio.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Á beira da estrada o Salão Veneziano, com os seus gelados e sorvetes e o seu champagne democrático, porque se serve aos copos, e cada copo a troco de um tostão [...] 

Os ranchos cruzam-se com vivacidade meridional; no hotel nota-se continuo fluxo o refluxo de hospedes; de toda a paisagem allumiada pelas scintillaçòes e pelos raios do nosso bello sol exhala-se um aroma de contentamento, e de bem estar; n'uma palavra, respira-se na margem de além Tejo o ar saudavel da civilisação, ar perfumado de um certo conforto, que até agora não era o distinctivo dos areiaes ardentes e das povoações tristonhas da outra banda.

Terreiro da Cova da Piedade, Rua das Salgadeiras.
ICMA cf. Fábrica de molienda António José Gomes

N'um paiz, em que o gosto pelas diversões marítimas fosse um sentimento popular, profundamente gravado na imaginação e nos hábitos communs, que admiravel theatro lhes estava aberto na vasta enseada do Tejo, a qual encurvando-se largamente diante da cidade, e bordando-se em suas margens ora de vinhedos, ora de praias arenosas, ora de pinhaes, ora de logares e de villas, que na brancura do seu cáio parecem lavradas de alabastro, aproxima-se de Lisboa pelo pontal de Cacilhas, que, n'este ponto, dá á margem fronteira, entalada entre a enseada e o rio, a apparencia de um isthmo  [...]

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Fábrica de molienda António José Gomes

Com o "fora da terra" paralysou-se de todo o movimento da sociedade elegante [...]

Do Commercio do Porto
Cartas Lisbonenses, Visconde de Benalcanfor [Ricardo Augusto Pereira Guimarães] (8)

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Cacilhas está se tornando um dos passeios mais lindos para a gente de Lisboa.

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
  Casario do Ginjal



A chamada Cova da Piedade acaba de ser elegantemente ajardinada com um coreto de música no centro.

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Fundação Portimagem

No último domingo abriu-se ali um Hotel Club magnífico.

O local é encantador. Todos os domingos há música no jardim e é grande a concorrência do povo.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
ICabral Moncada Leilões

Perto da Cova da Piedade há a magnífica quinta real do Alfeite, cujas portas el-rei deu ordem para estarem abertas para os visitantes passearem. (9)

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1886

Escrevo-lhes estas linhas de uma pequena, mas bem interessante povoação, aonde vim passar o verão.

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Wikipédia

A Cova da Piedade fica ao sul do Tejo, a vinte minutos da ponte dos vapores, na estrada de Cacilhas a Cezimbra.

Da bacia da Piedade faz parte a praia do Caramujo para léste, e para oeste o lindo e fértil valle de Mourellos, todo elle um pomar, em que a bella uva trincadeira, de bagos grossos e duros como cerejas, amadurece em enormes cachos, por entre as romanzeiras, as figueiras moscatel, as macieiras e os medronheiros cobertos de fructo.

É uma terra abençoada para a producção.

N'uma estreita nesga de quinta, uma familia habilidosa e diligente vive n'um confortável commodo burguez sem outra renda além da que resulta do cuidadoso amanho da sua vinha e da sua horta [...]

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Arquivo Municipal de Lisboa

Durante a mocidade de nossos paes, a Cova da Piedade foi celebre pela casa de pasto do antigo Escoveiro, theatro de memoráveis noitadas de amor e de batota.

O pretexto da concurrencia ao Escoveiro era a sua afamada sopa de camarões e os salmonetes, que elle preparava do um modo especial, mettendo-os no forno envoltos n'um papel com manteiga, e servindo-os em sumo de limão, polvilhados de pimenta. 

Botequim de Lisboa no século XIX, Alberto de Sousa, 1924.
Museu da Cidade de Lisboa

Uma belleza! Comidos os salmonetes, armava-se a mesa do monte e muitos dos estroinas celebres da terrível Lisboa de ha trinta annos abancavam ao jogo até o outro dia pela manhã [...] 

Ainda hoje, depois de tantos annos, o prédio respectivo, á entrada da estrada de Cezimbra, sempre fechado, de frontaria apalaçada, mas ennegrecida, tem como um ar de desgraça.

Extinto o Escoveiro, veio o José [Joaquim?] dos Melões, e as merendas populares suecederam-se aos jantares e ás ceias da burguezia romântica.

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hoje, o logar é um considerável centro industrial, com uma grande officina da moagem a vapor e quatro fabricas de rolhas, no sitio do Caramujo.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Ha abastados agricultores, intelligentes e instruidos, tomando a terra a serio como Pompeu Dias Torres, que amanhece a anoitece a cavallo, e percorre quotidianamente a área de toda a sua lavoura, dirigindo em pessoa as cavas, as mondas, os varejps, as podas, as vindimas, as lagaradas, as cortimentas, todos os serviços emflm da grande lavra; 

e como Paulo Plantier, que na sua quinta do Pombal fabrica o mais especial vinho branco da região e as mais bellas rosas de todo o paiz, em rosaes de dez mil pés, cingidos de sementeiras preciosas de morangos e de melões da mais fina e delicada selecção horticola.

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Arcadja

Além d'estes elementos de actividado o de riqueza local, quasi todas as pequenas casas da população indígena da Piedade são, mais ou menos, restaurantes campestres, com a taberninha á frente, o retiro bucólico ao fundo, com a mesa de jardim debaixo do parreiral ou do aboboreiro, e o terreno para o jogo da malha ou do chinquilho, a um lado da horta. 

Porque não ha dia lindo, com céu azul, quer de verão, quer de inverno, em que uma alegre burricada ou uma cavalgada impetuosa não passe com os respectivos cavalleiros aguçados de appetite pelo ar vivo do campo, uns ávidos de coelho guizado, de fritura d'ovos e chouriço, e de salada de pimentas, outros sequiosos da frescura de um melão maduro e da espuma vermelha do vinho palhete de Santa Martha ou do S. Simão, sugado pela chupéta ao batoque do casco e decilitrado ao pé da mãi.

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

Os estudantes e os caíxeiros preferem nas excursões equestres os esgalgados o escancellados cavallos de Cacilhas, aos quaes elles se impõem o dever sagrado de tirar em duas horas de gineta as manhas de uma vida intoira de mortificação e de jejum.

Os mestres d'officios com suas mulheres, os pequenos logistas com as suas famílias, as coristas do theatro do Recreio ou da Trindade com os músicos ou com os poetas seus amigos, as costureiras e as cocottes com os seus companheiros, optam pelos burrinhos, em cujos albardôes o guarda-pó do cavalleiro, enfunado ao sopro, da brisa, e as bamboloantes botinas da dama, descobertas até o ultimo botão, são logo dopois de montar um começo auspicioso de festança. 

Burricada, Veloso Salgado.
Cabral Moncada Leilões

E na minha qualidade de paizagista eu bemdigo os que continuam a ser pela velha tradição da burricada cacilheira, porque não ha cousa que mais avivente e alegre o macadam poeirento, faiscante de sol, entre os aloés e as oliveiras alvacentas da beira das estradas, do que essas luminosas manchas movediças de guardas-sol brancos, azues e vermelhos, trespassados de sol, por baixo das quaes tremeluz em leves e fugidias pulverisações de prata, a terra solta, ferida pelo choto miudinho dos jericos. (10)


(1) Diario Illustrado, 24 de julho de 1873
(2) Idem
(3) Idem, ibidem
(4) Diario Illustrado, 30 de maio de 1874
(5) Diario Illustrado, 30 e 31 de maio de 1874
(6) Diario Illustrado, 7 de junho de 1874
(7) Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 - 1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
(8) Diário Illustrado, 31 de julho de 1874
(9) Diário do Maranhão, sexta-feira, 26 de Junho de 1874
(10) Gazeta de Noticias, 7 de dezembro de 1886 

Artigos relacionados:
Os festejos de 24 de julho de 1874
Cova da Piedade elegante e encantadora em 1874
Hotel Club da Piedade

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Escoveiro (á Cova da Piedade)

No tempo de D. Miguel havia reuniões, a que se chamavam frescatas, termo favorito de um também engraçado, franco e generoso conviva, e que depois tomou por apellido Frescata, João Maria Frescata, cavalheiro de fino trato, que bem merecia ter um fim mais feliz do que teve (F. J. de Almeida, Apontamentos da vida de um homem obscuro, pag. 137).

Retrato de D. Miguel I, João Baptista Ribeiro, c. 1828.
Imagem: MNSR

Nas frescatas nas hortas dos arredores da Lisboa de 1833, guitarreavam-se modinhas. Assim acontecia na Gertrudes da Perna de Pau, no Manuel Jorge, ás portas de Sacavem, no Zé Gordo, na calçada de S. Sebastião da Pedreira, no Quintalinho, á Cruz do Taboado — onde se vendiam iscas de vitella espetadas em palitos — e no Calazans, á Cruz dos Quatro Caminhos.

Uma borga na horta das tripas, Raphael Bordallo Pinheiro, O António Maria n.° 305, 1891.
Imagem: Hemeroteca Digital

Nas suas succedaneas de 1846, já se guitarreava o fado, como succedia na Horta das Tripas, no Escoveiro (à Cova da Piedade), no Ezequiel ao Dafundo, no Miséria da estrada de Palhavã, na Vitelleira da travessa dos Carros, na Rabicha, no Campo Pequeno, no Arco do Cego, na Madre de Deus e no Beato António [...] (1)

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Durante a mocidade de nossos paes, a Cova da Piedade foi celebre pela casa de pasto do antigo Escoveiro, theatro de memoráveis noitadas de amor e de batota.

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

O pretexto da concurrencia ao Escoveiro era a sua afamada sopa de camarões e os salmonetes, que elle preparava do um modo especial, mettendo-os no forno envoltos n'um papel com manteiga, e servindo-os em sumo de limão, polvilhados de pimenta. 

Uma belleza! Comidos os salmonetes, armava-se a mesa do monte e muitos dos estroinas celebres da terrível Lisboa de ha trinta annos abancavam ao jogo até o outro dia pela manhã.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

N'uma noite que lhe deveria ter ficado de memória, o pobre Escoveiro deixou as caçarolas, para ver a jogatina, em que se faziam, paradas de cincoenta moedas, e arriscou de porta um cruzado novo. 

Cruzado novo foi elle, qua puxou atraz de si para o panno verde, dentro de pouco tempo, toda a linda fortuna que o Escoveiro accumulara om longos annos de sabia economia e de lucrativa gloria culinária. 

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O infortúnio do estalajadeiro destingiu lugubremente na estalagem, e toda clientella — noivados, que por vezes vinham aos sabbados com os padrinhos, os parentes e os convidados celebrar os bodas com um jantar; raparigas alegres, rapazes patuscos, simples burguezes, pacatos amantes da boa mesa, e os próprios batoteiros, — fugiu, como de um lugar sinistro, da assignalada casa do Escoveiro arruinado.

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Ainda hoje, depois de tantos annos, o prédio respectivo, á entrada da estrada de Cezimbra, sempre fechado, de frontaria apalaçada, mas ennegrecida, tem como um ar de desgraça. (2)


(1) Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa Empreza da História de Portugal, 1908
(2) Ramalho Ortigão, Gazeta de Noticias, 7 de dezembro de 1886

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

D. Bertha Ortigão na Cova da Piedade em 1886

Sabemos que D. Bertha Ortigão passara parte do outono de 1886 na Cova da Piedade em companhia de seu pai, Ramalho Ortigão.

D. Bertha Ortigão por Columbano, 7.ª Exp. do Grupo do Leão, 1887.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como referido, nas Cartas Portuguezas, pelo ilustre escritor, teria a familia nessas férias visitado amigos e descoberto lugares. Ramalho anotara as recentes novidades e, ao mesmo tempo, relembrara as memórias do tempo de seu pai a propósito da ainda bucólica e pitoresca Cova da Piedade.

D. Bertha, durante estas visitas e passeios,  registava em algumas "pochades" as imagens que, supomos, mais tarde apuraria em telas pintadas a óleo, ou talvez as aprimorasse mesmo "sur place".

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Solar da quinta de S. José em Linda-a-Velha, demolido para a construção do Estádio Nacional.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Imagem: Arcadja

Não conhecemos estes quadros, pois no catálogo da mostra em que foram apresentados a público não consta a imagem de algum deles.

No entanto, com a esperança de que algum dia nos venham a ser revelados, aqui ficam as referências que dispomos tal como descritas no catálogo da 6.ª exposição d'arte moderna, realizada em 1887, pelo Grupo do Leão que, sem compromisso, complementamos com fotografias de nossa escolha, embora um pouco mais tardias.

ORTIGÃO (D. B.) C. dos Caetanos, n.° 30.

68 — Valle Mourellos no outomno.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

69 — O Lavadouro da quinta do Brejo.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

70 — Esquina da estrada do Pombal.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

71 — Taruca, Carocho e Farrusco.
72 — Rosas [da Quinta do Pombal de Paul Henri Plantier?] .
73 — Rosas.
74 — Arenques e vinho branco.
75 — Os moinhos do Pragal.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

76 — Mademoiselle.
77 — Prato decoratico.
...

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Ortigão, que escrevia sobre quase tudo, e que por este tempo era critico de arte já feito, espetava as suas "Farpas" por aqui e ali; não consta que alguma apreciação tenha feito aos quadros de D. Bertha. O que aumenta a nossa expectativa quanto aos mesmos.


Leitura relacionada: 
Sandra Leandro, Teoria e Crítica de Arte em Portugal no final do século XIX

Artigos Relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1882
Passagem pelo grupo do Leão

Referências internas:
Ramalho Ortigão, verão de 1886
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

terça-feira, 15 de março de 2016

Crianças a banhos na Trafaria em 1901

Bem empregada é essa esmola feita ás crianças escrofulosas, que por conta da assistência nacional aos tuberculosos, por que tanto se interessa a Rainha Sr.a D. Amelia, vão agora todas as manhãs tomar banho á praia da Trafaria.

Princesa D. Amélia d'Orléans e Príncipe D. Carlos de Bragança (detalhe), 1886.
Imagem: Observador

É quasi uma centemna de crianças já condenadas á morte e indultadas pela caridade, que difficilmente podia achar melhor occasião de exercer-se. Prometteram-lhes a saude e ellas lá vão arribando, já com melhores cores nas faces, com alegria maior nos olhos.

Foi a praia da Trafaria a escolhida, e á hora das crianças irem receber o abraço higyenico da aguas do mar, que contraste não ha entre aquelle extenso areal, que vê as tristinhas a sofrer e a as praias garridas da outra margem, e mais além as do Occeano, cheias de alegria, dando nota do que ha mais elegante em Portugal.

O banho ás creanças escrofulosas na Trafaria, J. Christino da Silva, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

De todas elas falam muito os jornaes e até alguns se batem para ver quem melhor consegue dar novas de sensação. São "pic-nics" que se realisaram, bailes em projecto, partida de "lawn-tennis", os que entram eos que sahem, columnas em prosa compacta descrevendo "cotillons". (1)


(1) João da Camara, O banho ás crianças escrofulosas..., O Occidente, n.° 818, dezembro, 1901

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

Cartas portuguezas*

Cova da Piedade, 23 de outubro [de 1886]

Sabe-se o que durante a noite de 23 para 24 se passou em Lisboa. 

Aqueduto das águas livres, ponte e ribeira de Alcântara, século XIX.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um dos meus vizinhos da Cova da Piedade é o Sr. Ahrends, presentemente engenheiro da companhia do gaz, e descendente de uma familia da Pomerania, que em 1833 habitava no alto de Campolide um predio de tres andares. A familia Ahrends ocupava o segundo andar. No primeiro morava uma familia de realistas. No terceiro viviam refugiados, quasi escondidos, tres malhados.

Os realistas do andar de baixo tinham perfeito conhecimento da heterodoxia dos principios vigentes no andar da cima. mas fingiam ignoral-o, por uma especie de tacito accordo de inquilinagem amiga e de hospitalidade sagrada sob o abrigo das mesmas telhas.

O Sr. Ahrands, que a esse tempo era uma criança, com seis ou oito annos de idade, nunca mais esqueceu e tem bem presentes os episodios caseiros d'essa noite memoravel, da qual ainda hontem o ouvi fallar, sentado ao luar n'um banco do jardim da Piedade, a que o anno passado a camara municipal de Almada deu o nomo de largo do Duque da Terceira.

Na casa dos Ahrands, que na sua qualidade de pacificos allemães mantinham uma absoluta neutralidade na questão debatida em Portugal pela guerra civil, ninguem dormiu na noite de 23 para 24 de Julho de 1833. 

O que quer que fosse de extraordinario parecia passar-se no predio de Campolide. No primeiro andar, onde de ordinario se recebiam visitas e se conversava até tarde. não se ouvia o minimo rumor. No terceiro andar, onde geralmente a familia se recolhia o immobilizava desde o cair da noite, estavam todos a pé, e havia um constante reboliço de passos que iam e vinham, e de janellas que sucessivamente se abriam e fechavam.

Pouco depois da meia-noite começou-se a ouvir na rua, sobre as pedras da calcada, o pesado rodar de carroças, que umas depois das outras sahiam as portas, na direcção de Bemfica.

Os Ahrands, que vieram olhar da janella, viram até de manhã passar carros cheios de moveis, de bagagens e de gente, famillias inteiras de burguezes, homens, mulheres, crianças e principalmente frades de varios habitos, uns encapuxados no alto da carga das carretas, outros eacarranchados em burros, outros a pé.

Um dos malhados do terceiro andar, antes de romper o dia, desceu ousadamente á rua, e tomou o caminho de Lisboa. 

Durante toda a noite, por cima de Cacilhas se viu o céu avermelhado, n'um rubor d'aurora, pelo clarão das fogueiras. 

Lisbon from the Rua de San Miguel, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 7 horas da manhã do dia 24, o malhado de Campolide que fora de noite á cidade, voltava n'uma carruagem a galope, para levar os companheiros. A parelha da sege tinha adornadas as cabeçadas de topes de fita azul e branca, semelhantes ao que o boleeiro igualmente pregara na copa do chapéu. 

Os que leram a chronicas do tempo, ou que folhearam os cinco volumes da interessante Historia da guerra civil e do estabelecimento do regimen parlamentar em Portugal, dada ao prelo pelo Sr. Simão José da Luz Soriano, sabem que estranho effeito produziu no governo de Lisboa a noticia da jornada da Piedade.

Entre os realistas que conseguiram embarcar e atravessar o Tejo, contava-se o proprio filho de Telles Jordão, que acompanhava seu pai na qualidade de ajudante de ordens e o vira morrer aos seus proprios olhos, no caes de Cacilhas.

O duque do Cadaval, reunindo por volta da meia noite um conselho militar, resolveu desde logo desocupar Lisboa. Pouco tempo depois retiravam as guardas dos fortes das margens de Tejo e das estações de policia, e de madrugada, depois de reunidos no campo Grande, sob pretexto de uma revista, todos os regimentos da guarnição miguelista, oito a dez mil homens, partiam pela estrada de Loures, abandonando a capital.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 4 horas da manhã, um grupo de catraieiros do Caes do Sodré, provocados pelo alfaiate Antonio Joaquim Governo, e logo secundados por alguns operarios que se dirigiam para o arsenal, levantaram os primeiros vivas á rainha e á Carta. Animado pela impunidade da primeira berrata, o grupo de Antonio Joaquim, que desde logo se encarregou de capitanear, tomou as armas e as bagagens de alguns soldados realistas, que essa hora passavam no Corpo Santo, dirigindo-se á revista do Campo Grande. 

Pouco depois, o Antonio Joaquim e a sua gente desarmaram igualmente a guarda que ainda então se conservava no arsenal de marinha. Tendo percorrido varias ruas da Baixa, e augmentando progressivamente de numero, porque não havia policia nem tropa para fazer dispersar, os populares foram ao Limoeiro o abriram as portas aos presos que alli jaziam, e entre os quaes se encontravam muitos homen politicos, alem dos tres que estavam no oratorio para serem suppliciados nesse dia.

Foi com os populares a que me refiro, e com cerca de cinco mil homens saidos das cadeias de Lisboa e rapidamente armados no arsenal do exercito, que a revolução rebentou.

Os burguezes, logistas, funccionarios, proprietarios, capitalistas, commerciantes — então, como sempre, ticios, calculadores o medrosos, ficaram prudentemente em suas casas. Foi depois de divulgada a noticia de que o exercito de Cadaval desoccupara a cidade, foi depois de verem pelos seus olhos a bandeira azul e branca hasteada no castello de S. Jorge, como em todas as fortalezas da cidade, saudada pelos navios surtos no Tejo, que a população "sensata" de Lisboa, que essa illustre parte da população, a si mesmo chamada por excellencia a "sociedade", é tão util á salvaguarda e á manutenção da ordem, quanto remissa em arriscar a pele, se resolveu emfim a sahir á rua e a sancionar com o seu beneplacito o facto consumado pela canalha amotinada e pelo populacho infrene.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Então se encheram as ruas de muitos homens denodados e ardentes, caminhando em triumpho bellicoso, procurando por toda a parte o perigo, para terem a gloria de o arrostar com uma bravura immensa, á qual apenas se poderia oppor o leve defeito de chegar um pouco depois do momento em que era util.

O castello de Almada, bem guarnecido e bem artilhado, só na manhã do dia 24 cahiu em poder dos constitucionalistas. Na noite de 23, depois da occupação de Cacilhas, o duque da Terceira mandou ao castello um parlamentario, que os realistas mataram a tiro, antes de o deixar aproximar da fortaleza.

Tem-se geralmente escrito que esse parlamentario era o filho do general Schwalback. Não é exacto. O filho de Schwalback, João Pedro Schwalback, mais tarde general elle mesmo e commandante das guardas municipaes de Lisboa, era amigo intimo do jovem official assassinado, o qual, ao esperar em Cacilhas, lhe confiou o annel que traria no dedo, que João Pedro se encarregou de entregar á noiva do seu desditoso camarada. 

Quando, no dia 24, o duque da Terceira atacou o castello, o governador, que vira tremular a bandeira azul e branca em todas as eminencias te Lisboa, julgou inutil para a causa realista persistir na resistencia, e todos os homens da guarnição que ainda não tinham fugido com muitos outros para Trataria, se renderam ao vencedor.

Para se assenhorear de Almada, o duque da Terceira quasi não teve mais trabalho que o de arvorar a bandeira, em signal de que todo o resto do perigo desapparecera com o inimigo dos fortes da outra banda.

As pessoas mais gradas do partido constitucional em Lisboa partiram desde esse momento ousadamente para Cacilhas.

Innumeros botes empavezados com as córes da victoria começaram a sulcar o tejo rutilante de sol; por toda a parte se ouviam musicas marciaes, canticos patrioticos, vivas enthusiasticos, tiros de regosijo. 

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Das duas para as tres horas da tarde, o duque da Terceira com os 1500 bravos a sua heróica expedição partia em lanchas e em faluas, do pontão de Cacilhas para o caes do Sodré, entre a mais luzida flotilha de pequenas embarcações embandeiradas e floridas.

Conta-se que em todo o caes o illustre general não chegara a pôr os pés no solo, porque os habitantes o levaram nos hombros em triumpho, até aos paços municipaes.

No mesmo dia 24 chegava á barra a esquadra de Napier, que os ventos pauteiros do norte retardaram na costa do Algarve, impedindo-a de acompanhar a marcha do duque da Terceira. O almirante, acompanhado do duque de Palmela, subiu o Tejo num escaler, até ao arsenal de marinha, no meio de ovações pouco inferiores aquellas de que foi objecto o duque da Terceira. A não ser quatro dias depois, quando o imperador velo do Porto a bordo do Jorge IV, e, depois de haver chorado de commocão, na festa fluvial, arrojou a espada que trazia á cinta ao entrar em Lisboa, por entender que estava para sempre assegurada a paz e a concordia entre a familia portugueza, nunca anteriormente se vira, nem depois se tonou a ver um regosijo igual.

Tão sómente convêm notar, que no dia 25, horas depois da entrada triumphal do duque da Terceira, em Lisboa, uma festa analoga se fazia era Setubal, para o fim de celebrar, não a victoria da causa liberal, mas a da causa opposta.

As auctoridades, civis e militares, nomeadas dois dias antes por occasião da passagem do duque da Terceira, abandonaram velozmente a cidade, apenas presentirarn a approximação do exercito de Mollelos, e a entrada victoriosa do general realista produziu um enthusiasmo illimitado.

Setubal, Castello de S. Filippe, século XIX.
Imagem: In-Libris

Repicaram os sinos, estrondearam as salvas de artilharia, dadas pelos cidadãos no castello de S. Felippo, encheram-se da mais completa multidão as ruas, as janellas, os telhados das casas e por toda a parte se humedeciam os olhos, agitavam-se lenços, palpitavam desfraldadas as bandeiras encarnadas, e eram geraes e unissonos os vivas á religião, ao rei D. Miguel e ao bravo visconde de Mollelos.

Onde diremos que verdadeiramente estivesse a victoria das idéas? Ai de mim! Eu, francamente, creio que ella não estava em parte alguma. Na guerra de então, como na paz de hoje em dia, os principios eram para a grande maioria dos individuos um pretexto vago, abstracto, extremamente confuso.

Hoje concorda-se na politica por interesses combinados. Então discordava-se por interesses offendidos. E eis ahi a differença das praticas nas duas ultimas gerações da sociedade portugueza, cujo fundo philosophico é absolutamente identico. 

Quem fiar unicamente da importancia das idéas o exito do uma causa, está mal para chegar ao triumpho. O que preciso, é não collocar a opinião senão depois de preparado o facto.

Entre a batalha da Piedade e a chegada a Cacilhas, o duque da Terceira definiu bem as cousas por meio de uma simples phrase, que ainda se não escreveu, e que é preciso registar na historia do constitucionalismo.

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Na subida da Muttela,os moradores do sitio vieram á estrada e ás portas das casas saudar com vivas a triumphante expedição liberal. O duque, passando a custo por meio da multidão clamorosa e enthusiastica, inclinando-se sobre o arção da sella, estendendo a mão direita aberta n'um gesto de pacificação, observava com bonhomia:

— Não se compromettam, meus senhores não se compromettam por emquanto, porque ainda se não sabe quem venceu!


* Reservando-se o direito de reedição, o auctor d'este artigo roga aos seus confrades da imprensa portuguesa o obséquio de o não transcreverem.

Ramalho Ortigão (1)


(1) Gazeta de Noticias, 20 de dezembro de 1886

Artigos relacionados:
O Caramujo, romance histórico
Guerras Liberais

Leitura relacionada:
Zan, João Carlos, Ramalho Ortigão e o Brasil, São Paulo, Universidade de S. Paulo, 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)

Cartas portuguezas*

Cova da Piedade, 23 de outubro [de 1886]

As condições biologicas favorecem neste sitio, ao que parece, a longevidade humana, porque noto que, quase não ha familia que não tenha o seu macrobio. O cantoneiro da estrada, homem indigena do logar, conta cento e dous anos de idade.

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Imagem: Fundação Portimagem

Uma senhora minha vizinha conheceu pessoalmente, no tempo da invasão franceza, o general Junot, e embarcou para o Rio de Janeiro com o sequito de D. João VI, na memorável viagem em que muitas senhoras da corte, não levando outra roupa branca alem da que tinham no corpo, chegaram ao Brazil cobertas da "vermine" que se desenvolvera na imundice de bordo.

É sobre um conjunto de informações dadas pelo mais antigos habitantes, que eu pude aqui reconstituir, na maioria dos seus detalhes, a historia da famosa batalha da Piedade, que no dia 23 de Julho de 1833, na vespera da entrada em Lisboa do exercito libertador, decidiu da causa da revolução liberal portugueza.

O duque da Terceira, saindo do Porto por mar com uma expedição de 1,500 homens, desembarcara na praia da Cacella no principio de junho. A divisão realista, que a esse tempo ocupava o Algarve sob o comando do visconde de Molellos compunha-se de tropas de segunda linha, milicianos de Lagos, e de Beja, voluntarios de Tavira, Faro, Moura e Beja, e cavalaria de Ordenanças, de grandes plumas nas barretinas, sabres curvos e fortes eguas de andadura.

Batalha do Cabo de S. Vicente em 1833, Morel-Fatio.
Imagem: Wikipédia

Molellos, achando esta força insufficientemente disciplinada e extremamente dispersa para um encontro immediato com os guerrilheiros portuenses, retirara na direção de S. Bartholomeu de Messines, onde reuniu as tropas do seu commando, deliberando em seguida desoccupar o Algarve, vindo cobrir a estrada de Lisboa no Alemtejo, emquanto esperava na villa de Messejana que o duque de Cadaval lhe mandasse, de Lisboa, algum reforço, principalmente de officiaes, de estado-maior, para o fim de dar batalha.

Um acontecimento imprevisto veiu alterar o projecto do general realista. Uma guerrilha liberal, formada em Hespanha, cahe de repente sobre Beja e encurrala n'um convento toda a guarnição da praça. Molellos, obrigado a socorrer os voluntarios de Beja, dirige-se para esse ponto, abandonando Messejana e deixando a descoberto o caminho de Lisboa.

Emquanto a divisão de Molellos saqueava Beja, e, accrescentada com os contingentes recolhidos da provincia e chegados da capital, atingia uma força de 8,000 a 9,000 homens, com 400 cavallos e 10 boccas de fogo, o duque da Terceira, de accôrdo com Napéer [Napier], cuja esquadra sahira igualmente do Algarve para ir bloquear o porto do Lisboa, corria a marchas forçadas sobre Setubal, por uma estrada limpa, deixando atras de si o exercito realista conglobado em Beja e tendo na sua fronte o fosso do Tejo, poderosamente fortificado nas duas margens pelas tropas de Cadaval.

É difficil dizer qual fosse positivamente o plano do duque, no iniciar este arrojado movimento. Moço, valeste, audacioso, instigado pelo coronel José Jorge Loureiro e pelo capitão de engenheiros Luiz da Silva Martinho de Albuquerque, acompanhado de soldados perfeitamente disciplinados e aguerridos de uma bravura e de uma intrepidez a toda a prova, é natural que elle tivesse principalmente em vista bater-se, deixando o resto ao acaso.

Feliz no primeiro arranco, acclamado por sucessivas ovações populares em Villa Nova de Mil Pontes. em Cines, em Santiago do Cacem, em Alcacer do Sal, sabendo-se com dous dias de avanço sobre qualquer movimento que Molellos tentasse para o perseguir, o duque da Terceira, depois de tomar no dia 22 a praça de Setubal, cuja guarnição submeteu ou afugentou aos primeiros tiros, quasi que nem teve de commandar o movimento que se seguiu.

Os soldados impellidos pela abalada da victoria foram os primeiros a levantar o grito prophetico da campanha:
— Amanhã a Cacilhas, depois de amanhã a Lisboa!


Sobresaltado com as noticias desta marcha invasora e triumphante, o duque de Cadaval mandou reforçar com tres batalhões de infantaria e com tres esquadrões a guarnição de Cacilhas, que d'este modo atingiu a força do 3,000 homens sob o commando do brigadeiro Telles Jordão, o famigerado governador da fortaleza de S. Julião da Barra. 

Torre de S Julião da Barra, João Christino, c. 1855.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era entre esta força e a do duque da Terceira, composta de pouco mais de 1,500 homens, infantaria, caçadores, soldados do regimento academico e 16 homens de cavallaria montados em pequenos cavallos de lavoura, que tinha de se decidir a sorte da guerra civil.

Telles Jordão, cuja atrocidade com os prisioneiros da Torre se tornou lendaria, era tão bravo quanto era bronco. Ainda ha poucos dias eu vi em Azeitão, na colecção dos manuscriptos do Sr. Joaquim Rasteiro, dois requerimentos de um preso das masmorras de S. Julião, cujos despachos escriptos e assignados por Telles Jordão sao perfeitamente caracteristicos.

O supplicante em ambos a documentos é o padre Domingos Gonçalves Velloso, o qual n'um d'eles pede que lhe seja entregue una pequena caixa com pastilhas de altéa, que mandara vir de Lisboa para se tratar de uma bronchite, o que lhe não fora entregue. Telles Jordão pôz a esta petição o seguinte despacho, a que conservo fielmente a fôrma orthograhica:
"Com receita de facultativo tem Lugar aintrada deremedios. — Telles Jordão gov."


No segundo requerimento padre Domingos, tendo mudado de enxovia, requer que da masmorra de que sahiu lhe seja enviada a barra em que dormia, feita de dous bancos e tres taboas, sendo todas as peças marcadas com o nome de Velloso, e alega em justificação de seu pedido o ter comprado a barra por lhe não permittir o estado deterioradissimo da tua saude o dormir na humidade do chão. Eis o textual despacho:
"Indefrido. — Telles Jordão gov."

Em estratégia o brigadeiro não era consideravelmente mais forte do que em orthographia. Na escolha dos seus cabos de guerra, D. Miguel, n'este como em quasi todos os casos, confundia a arte de mover soldados em campanha com a arte de jogar o páu n'uma feira e era sobretudo a força physica individual que o captivava e o decidia.

Elle mesmo tinha pelo militarismo, na accepção scientifica e disciplinar d'esta palavra, um desdem de valentão paisano e nunca poz em si galões de uniforme. O seu trage durante a guerra era invariavelmente a sobrecasaca lisa do pano azul, as meias de lã acima do joelho, as botas de cava com tacões de prateleira e o chapéu de dois bicos atravessado na cabeça, á "Napoleão". A sua predilecta insignia de poder era o cacete argolado, suspenso do pulso pelo fiador de couro, ou entalado entre o selim e a perna.

N'um quarto, que o principe habitava nas casas do Infantado, em Queluz, que, ha poucos annos ainda, foi pela primeira vez aberto por El-Rei D. Luiz, encontrou-se, entre guizados de machos e petrechos de caça e de gineta, um volumoso mólho d'esses varapáus, — sceptros de marmeleiro, de sobro ou de carvalho cerquinho, eloquentes symbolos do poder soberano, tal como n'esse tempo geralmente o comprehendia a phliosophia politica, genuinamente portugueza, da aristocracia nacional.

Telles Jordão collocou os seus postos avançados nas cumeadas da Amora e nas collinas sobranceiras a Corroios, postou a cavalaria por traz dos armazens do Caramujo, e foi esperar a approximação do inimigo na quinta da Ordem do S. Domingos, ainda hoje chamada a Quinta dos Frades e situada em frente da casa em que eu habito.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

Eram cerca de duas horas da tarde quando Telles Jordão quasi consecutivamente ouviu os primeiros tiros na estrada da Amora e viu retirar em debandada pelas barroca de S. Simão as avançadas da infantaria, atraz das quaes descia em columna aceleradamente a divisão do duque da Terceira. Jordão deliberou destroçal-a com uma carga de cavallaria, que os regimentos liberais de bayoneta ralada repelliram com sucessivas descargas.

Estrada das Barrocas, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

Deu-se então no recinto plano da Piedade, hoje ocupado pelo jardim publico e pelas novas edificações do logar, um encontro rapido, sangrento, extremamente rebolido e confuso. Muitos soldados, desarçonados pela fuzilaria, cahiram mortos ou feridos na primeira investida.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Emquanto a cavallaria se retirava para se formar com esquadrões novos de reserva ao abrigo dos edificios do Caramujo, a infantaria realista debandava tumultuariamente, varejada pelas balas, de envolta com os cavallos espantados e soltos pelas estradas do Alfeite e de Pragal.

Entrada do Alfeite, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A segunda carga da cavallaria foi recebida á ponta da bayoneta pelo fogo, mais nutrido agora que da primeira vez, da infantaria do duque, formada por meio de uma rapida e precisa evolução em columnas contiguas de batalhões. Na retirada d'esta segunda e ultima carga a cavallaria realista debandou como debandara a infantaria.

Na fuga desordenada e panica os soldados largavam as armas e ou se acoitavam nas vinhas e por tras dos vallados do valle de Mourellos e da encosta do Pragal, ou tomavam as eminencias d'Almada para descer ao rio e embarcar para Lisboa.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Muitos se rendiam com armas e bagagens, mas o duque da Terceira, sem forças para guardar os prisioneiros mais numerosos que os soldados do seu commando, formou estes em columna e, passando por cima dos mortos que juncavam o campo, avançou impacientemente para Cacilhas pela estrada da Mutela, com as espingardas engatilhadas e os sabres em punho.

Plan de Lisbonne son port, ses rades et ses environs avec une petite carte routière du Portugal (detalhe), 1833.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em Cacilhas a confusão era enorme. Soldados, officiaes, frades, paisanos, procuravam embarcar á pressa, enchendo o largo em que se tinham amontoado bagagens, armas, munições. Os pelotões do duque da Terceira, procurando assenhorar-se do cáes, abriam caminho á bayoneta. Foi n'este conflicto que um soldado de caçadores 2, voltando-se para o coronel Romão José Soares, lhe disse:
— Meu commandante, vê V.S. aquelle homem, que está á esquina, voltado para o cáes! É o Telles Jordão, que o conheço eu!


O coronel Soares correu então de espada desembainhada para o homem que estava á esquina, voltado para o cáes, o deitou-o por terra com uma cutilada. Era, com effeito o Telles Jordão, que, achando-do-se já com seu filho a bordo da canoa que devia leval-o para Lisboa, desembarcava para ir buscar o cavallo.

Depois do primeiro e unico golpe, Soares, vendo o brigadeiro rolar n'uma onda de sangue, voltou costas, com a espada ao ar, dizendo a um dos caçadores:
— Acaba-me esse homem.


O soldado, fazendo um passo á retaguarda e pondo á cara a espingarda, matou o governador da Torro de S. Julião com um tiro á queima roupa. Foi no dia seguinte que o povo, descobrindo o cadaver, o mutilou e arrastou profanado pelas ruas. 

Era ao sol posto quando as falúas trazidas a remo de Lisboa, porque não havia ponta de vento, se aproximaram conduzindo o regimento de reforço mandado pelo duque de Cadaval. Uma descarga cerrada de fuzilaria fez-lhes saber que vinham tarde para socorrer a divisão desbaratada.

E as falúas retrocederam levando para a capital a noticia de que eram do vitorioso exercito do duque da Terceira as escorvas cujo clarão de lá teriam visto espelhar-se nas aguas mortas do Tejo a toda a extensão do caes de Cacilhas.

Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Segundo a versão oral que serve de base á minha narrativa, os regimentos auxiliares de Telles Jordão chegaram tarde pela razão de que, na mesma tarde do dia 23, se procedia a uma execução no patíbulo do caes do Sodré, e o duque de Cadaval, receiando que este acontecimento provocasse da parte do povo de Listoa uma manifestação hostil ao governo, não quis desfalcar a guarnição emquanto se não achasse concluida a lugubre cerimonia.

Na ocasião de subir á forca. o condemnado ouviu os tiros disparados na Outra banda, presentiu que esse era o começo da victoria para a causa liberal, e considerando a impassivel indifferença com que o povo o deixava morrer precisamente no momento em que a liberdade chegava.

— Já não ha portugueses em Lisboa! exclamou tristemente. E foi essa a derradeira palavra quo elle proferiu. 

Um minuto depois o seu corpo, suspenso verticalmente do baraço, oscillava no vacuo, voltado para a outra banda do rio, d'onde cada vez mais proximos estalavam os tiros, e na sombra crescente do cepusculo começavam a tremoluzir como fugidios pirilampos as chammas das escorvas, emquanto do outro lado da collina, na pequena igreja da Cova da Piedade, se accumulavam os cadaveres dos que haviam morrido na batalha d'esse dia em ultimo holocausto ao velho e expirante despotismo do throno e do altar.

Museu Militar, Sala das Campanhas da Liberdade.
Imagem: Delcampe


* Reservando-se o direito de reedição, o auctor d'este artigo roga aos seus confrades da imprensa portuguesa o obséquio de o não transcreverem.

Ramalho Ortigão (1)


(1) Gazeta de Noticias, 8 de dezembro de 1886

Artigos relacionados:
O Caramujo, romance histórico
Guerras Liberais

Leitura relacionada:
Zan, João Carlos, Ramalho Ortigão e o Brasil, São Paulo, Universidade de S. Paulo, 2009