Mostrar mensagens com a etiqueta 1950. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1950. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O novo autocarro da Piedense

Todos se lembram da miséria, há uma meia dúzia de anos atrás, dos transportes na região de Almada e Caparica. O problema dos transportes colectivos da nossa região foi resolvido pela Empresa de Camionetes Piedense, já antiga, mas que pela sua nova e generosa gerência tomou um rumo progressivo, que seria injustiça não pôr em destaque.


Volvo da Empresa de Camionetes Piedense, 4 de março de 1950.
Delcampe bosspostcard

Ele satisfez a população natural da Costa, os banhistas, os frequentadores habituais, os forasteiros, o comércio, o bom nome da região e de Almada. Horários encurtados, veículos cómodos, serviço primoroso, pessoal correcto.

Berliet PCR da Empresa de Camionetes Piedense, 1949.
Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1470, 1949

Agora pode cada um dirigir-se à Praia do Sol, pela Trafaria ou por Cacilhas, que nem tem que esperar nem tem que se preocupar com o regresso. E deste modo as edificações de moradias e a instalação de famílias no verão ou em todo o ano multiplicam-se, e o concelho de Almada conta com um seguro elemento no seu progresso; os transportes colectivos.

Não é, pois, por favor ou por simples contumélia, que o nosso boletim cumprimenta os srs. José de Sousa e Silva, gerente da Empresa de Camionetes Piedense, e o seu compreensivo sócio sr. Agostinho Linhares. 

E hoje, 1 de Janeiro, precisamente, foi inaugurado um novo autocarro, de modelo moderno, e que vai acrescentar a excelência dos serviços da Empresa. (1)


(1) O progresso dos transportes, O novo autocarro da Piedense

Artigos relacionados:

A Ideal de Carrocerias
Empresa de Camionetes Piedense
Uma empresa que se impõe

sábado, 28 de março de 2020

Na Lapa de Cacilhas em 4 de junho de 1950

Aspectos da parada dos Bombeiros Voluntários de Almada

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

Jeep n.°2 com moto-bomba n.°4 (Standard) e carro oficina com roulotte.

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada,.
InfoGestNet

Extra rápido n.° 1.

Cacilhas (Lapa), Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

Extra rápido n.° 1.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

Jeep n.°1 com moto-bomba n.° 5 (Denniz).

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

Carro oficina com roulotte.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

Início do desfile da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet

Desfile da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada à entrada da rua Cândido dos Reis.

Cacilhas, Parada dos Bombeiros Voluntários de Almada.
InfoGestNet


Artigos relacionados:
Grande Parada dos Bombeiros Portugueses
Bombeiros Voluntários do Caramujo
Museu de Bombeiros

Leitura relacionada:
Victor M. Neto, Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 120 Anos a servir, 1891-2011, Cacilhas, Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2011

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Recordação de Cacilhas

Em Cacilhas tudo é primitivo, rústico, muito à moda provinciana. E os garotos, de epiderme clara, limpa, fortes rosêtas nas faces, pés descalços e barretes, negros à cabeça, falam uma linguagem pitoresca e pedem um escudo, enquanto as mulheres, de lenço sarapintado e saia de chita arregaçada, põem a mão em concha, junto aos lábios, para gritar o nome dos filhos que jogam "às escondidas", no adro da igreja.

Rua Carvalho Freirinha em Cacilhas (detalhe), década de 1960.
Arquivo Municipal de Lisboa

Todo esse caleidoscópio, e o exame, desse precioso material humano, simples mas rico de colorido, forte de nuanças vivas, tem de ser apreciado com a celeridade de um átomo. As horas voam. 

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Casario do Ginjal

Os convites para novas excursões aumentam; e uma única certeza nos assalta: dentro de alguns dias, tudo isso será uma recordação. Grata e imorredoura, das mais felizes, mas apenas recordação. (1)


(1)  Celestino Silveira, De Lisboa e da província... Revista da Semana n.° 2, 1950

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Rua da Barroquinha

Quem quizer comprar humas cazas com seus quintaes, em Almada, com frente para a rua da Barroquinha n.° 10, e para a Rua da Judiaria n.° 7, dirija-se á loja de relojoeiro na Rua Nova da Palma, aonde lhe darão as necessarias informações. (1)

Largo da Boca do Vento, José Artur Leitão Bárcia, antes de 1945.
Burros de aguadeiros a caminho da Fonte da Pipa frente ao edifício do departamento de Administração Geral e Finanças da Câmara de Almada.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. 

Almada, Calçada do Barroquinho (Rua da Barroquinha), década de 1950.
Imagem: Jorge Pires

Paralela à Rua da Judiaria localiza-se a antiga Rua do Açougue, actual Rua Henriques Nogueira, conhecida por albergar o antigo matadouro e a abegoaria municipal, que, a partir de 1913, serviu de sede aos Bombeiros de Almada. (2)

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada. Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da “gaiola pombalina” na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

J Incrível Almadense Biblioteca Escadinhas do Ginjal 01 (detalhe), ed. Manil, 3010 J.
Imagem: Delcampe
Estas ruas eram locais centrais de passagem para pessoas, mercadorias e animais desde o castelo à zona ribeirinha do Ginjal ou para o centro da vila onde se localizava o importante conjunto dos Paços do Concelho, a cadeia e o tribunal judicial (construção de 1795 a 1831). (3)


(1) Gazeta de Lisboa n° 212, segunda-feira 8 de setembro de 1823
(2) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX
(3) Idem

Artigos relacionados:
Sociedade de Pedro Marques de Faria
O Caramujo, romance histórico (7/18), Melampigo
Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto
Toponímias urbanas oitocentistas
Música velha, música nova

Tema:
Boca do Vento

terça-feira, 13 de junho de 2017

Almada 1945-1965

Já não é difícil prognosticar o futuro da margem sul, sob os aspectos urbano, industrial, turístico, etc., porque se vé nitidamente a direcção do movimento, iniciado há cerca de 20 anos e que ultimamente se vem tornando cada vez mais firme.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

A vila de Almada teria em 1940 sete ou oito mil habitantes, praticamente na totalidade oriundos de almadenses. Lisboa saltou o Tejo e desenvolveu rapidamente Almada, que transformou em cidade sua satélite e sua zona residencial. 

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não tardará muito que Almada atinja o décuplo da sua população de há um quarto de século. Quem como nós, viveu em Almada a maior parte deste espaço de tempo, viu rasgar avenidas e alinhar prédios pelas quintas que alastravam pelas encostas do Vale Caramujo-Caparica; 

Paisagem rural. A caminho de Caparica, década de 1940. Pintura de José de Azevedo (1914-2000).
Imagem: Alexandre Flores no Facebook

viu deslocar-se o centro cívico de Almada e modificar-se radicalmente o aspecto de Cacilhas; 

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA) relativo à localização do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

viu regular-se a margem do rio entre Cacilhas e a Cova da Piedade;

Porto de Lisboa, vista aérea de Cacilhas e dos lugares de Ginjal e Margueira, década de 1950.
Imagem: Porto de Lisboa

viu surgir no Laranjeiro-Feijó um grande centro, que não tardará a ser freguesia independente; viu lançar as bases da fixação populacional com a criação de escolas médias particulares e oficiais e com o auspicioso início da construção de um dos maiores estaleiros do mundo.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Os últimos 20 anos abriram a Almada perspectivas inteiramente novas: — de pequeno burgo monolítico, constituído pelo aglomerado de algumas famílias conhecidas, passou a ser a cidade sem coesão, formada na maioria por emigrados imigrados provindos de todos os recantos do País.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Sob o ponto de vista urbano, Almada tornou-se grande; sob o ponto de vista social, não enriqueceu com o mesmo ritmo; e perdeu a unidade que tinha dantes. Almada deixou de ser um meio pequeno, para residência e trabalho de vizinhos; agora é uma cidade cujos habitantes mútuamente se desconhecem. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

É fácil de prever o progressivo encarecimento de rendas e a consequente fixação na zona de Almada de pessoas de um mais alto nível de vida. Em contrapartida, é fatal que mais longe venha a construir-se a zona habitacional de classes pobres, para a qual veremos partir, infelizmente, muito bons almadenses de hoje.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: O Pharol

Sob o ponto de vista industrial, Almada aproveitará principalmente a sua privilegiada situação sobre a margem do Tejo, em grande parte ainda por explorar. Aparecerão, por certo, novas instalações portuárias, para passagem de mercadorias destinadas ao "além-Tejo" ou dali provenientes. 

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

É natural que a política de fixação à terra não permita o estabelecimento de muitas indústrias de outra natureza tão próximo da capital. Mas é sob o ponto de vista turístico que Almada aguarda um grande futuro.

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Rica de praias e de matas, incomparáveis pela grandeza e pela beleza, c colocada como obrigatória porta de passagem para a extraordinária península de Setúbal, Almada poderá ter no turismo urna das suas grandes fontes de riqueza.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

É isto, em linhas muito rápidas, o que será o futuro próximo de Almada. — E o distante?

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Para esse, cumpre-nos lançar os alicerces, para que os futuros habitantes o construam. (1)


(1) Jornal de Almada 07 de agosto de 1966

Artigos relacionados:
Almada em 1960
O centro cívico

domingo, 14 de maio de 2017

Cronologia do Convento dos Capuchos (Caparica)

1558 - fundação e construção do convento com invocação a Nossa Senhora da Piedade, integrado na Ordem dos Franciscanos Arrábidos, ordenada por D. Lourenço Pires de Távora (1510-1573), da família nobre dos Távora, 4º senhor da Casa e Morgado da Caparica, nascido em Almada, homem de armas e diplomata ao serviço de Portugal, que passa a ser seu padroeiro; 

Mapa de Portugal, Mosteiro da deceda, Convento dos capuchos Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

a construção é de linhas simples, com as celas nos sobrados e as restantes dependências na parte inferior, nas traseiras da igreja; construção de uma ermida, na cerca do convento, de invocação ao Apóstolo São Pedro, para as orações particulares dos religiosos; a comunidade religiosa é protegida pelos padroeiros do convento, donos das quintas da região e pelo próprio rei D. Sebastião que concede aos freires o privilégio de se abastecerem de lenha dos seus pinhais de Caparica;

1560 - o papa Pio IV concede ao altar-mor as mesmas indulgências de que usufruíam as igrejas de São Gregório de Roma e de São Sebastião de extra-muros da mesma cidade;

1573 - falecimento do instituidor do convento que, cinco semanas antes da sua morte, se tinha recolhido nele; A lápide da sepultura da capela-mor tem a inscrição "SEPULTURA DE LOURENÇO PIRES DE / TAVORA DO CONSELHO DO ESTADO DEL- / REI D. SEBASTIAO O I DESTE NOME INS- / TITUIDOR E PADROEIRO DESTA CASA. / FALECEU DE IDADE DE 63 ANOS A / 15 DE FEVEREIRO NO ANO DE 1573 / AVENDO CINCO SEMANAS Q. DESCANSAVA / EM SUA CASA DE MUITOS SERVIÇOS Q. FEZ A ESTE REINO NA PAZ E NA GUER- / RA E NA ASIA AFRICA E EUROPA".

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

1618 - renovação dos dormitórios;

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

1630 - obras de ampliação e beneficiação com re-edificação do imóvel, provavelmente incluindo a fachada principal, com acrescento do coro-alto e do nártex com uma serliana e que, para além do símbolo dos Franciscanos e das armas dos Távoras, passa a ter duas janelas laterais e, ao centro, um nicho; revestimento do nártex com azulejos e feitura do púlpito da igreja, da responsabilidade do Provincial Frei Lourenço da Madre Deus;

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

1755, 01 novembro - terramoto causa grave destruição do convento, à exceção da frontaria;

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Séc. 18 - é padroeiro do convento José Menezes Távora;

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1778 - data inscrita no painel de azulejos do portal de acesso ao jardim sobrelevado da cerca;

1779 - os frades passam a assegurar uma "escola de ler, escrever e contar" onde afluem jovens das aldeias vizinhas;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

1834 - extinção das Ordens religiosas e sequente declínio do convento e desaparecimento dos azulejos do nártex; residem, então, no convento, apenas 9 frades, passando a tutela para a responsabilidade do Juiz do Povo da Freguesia; supressão do convento devido ao baixo número de frades residentes e a ter sido considerado inútil;

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1872 - nacionalização dos bens do convento;

Sécs. 19 - 20 - sofre longas vicissitudes que levam à ruína da ermida de São Pedro juntamente com o convento, ficando apenas alguns vestígios, que possibilitam o posterior levantamento das paredes deste, no mesmo local; é ocupado, ao longo dos anos, por pastores e agricultores da região com pastagens nas imediações, tendo passado por várias transmissões;

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1925 - desaparecimento dos azulejos da igreja;

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1950 - compra de toda a parte rústica e urbana da propriedade do antigo convento dos Capuchos, pela Câmara Municipal de Almada ao então proprietário Virgílio Alves Xavier;

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

1952 - data das imagens do interior da igreja e da talha dourada do altar, oferecidos pelo Dr. João Couto, então Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga;

Caparica,, Convento dos Capuchos, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1952, 18 outubro - regresso das ossadas do instituidor e padroeiro do convento e seu sepultamento à entrada da capela-mor;

Costa da Caparica, Almada, Miradouro dos Capuchos e Caparica
Ed. Passaporte, 30

1960 - 1970, décadas - construções nos jardins, época de imagens de santos e outras obras expostas, resultado de ofertas provenientes de monumentos demolidos de Almada e Lisboa, tendo algumas obras sido realizadas por mestre de obras e pedreiros;

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

1982 - data inscrita sobre um dos arcos do miradouro recente, possivelmente assinalando a sua construção;

1984 - elaboração de um convénio entre o Museu Municipal de Almada e o Centro de Arqueologia de Almada; início da fase de estruturação e instalação no convento do Museu Municipal de Almada;

2000, 13 maio - assinatura do auto de consignação que marca o início das obras de restauro, consolidação e ampliação do convento;

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

2000 - início da requalificação do convento pela Câmara Municipal de Almada. (1)


(1) Albertina Belo, SIPA, 2001

Artigos relacionados:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda
A Costa romântica de Bulhão Pato

sábado, 23 de abril de 2016

Pesca de dezembro

Os elegantes e esperançosos poetas da geração moderna, pouco depois da lucta civil de 1846, entregando-se quasi todos ás discussões áridas e rancorosas da politica militante, haviam desgraçadamente voltado as costas ao éden risonho da poesia; e apenas, de quando em quando, João de Lemos, Mendes Leal, Palmeirim, e poucos mais, davam signal de vida n'uma ou n'outra canção fugitiva.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Esta espécie de adormecimento litterario, em que vimos cair os primeiros engenhos, explica-se talvez pela influencia da epocha em que vivemos. A poesia respira-se no ar, como a fragrância das flores; e a atmosphera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das machinas de vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza [carta a Alexandre Herculano, 5 de maio de 1856]. (1)

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nunca tomou uma vereda por outra, nos numerosos pinhaes das nossas províncias do sul?

Quando, n'esses labyrinthos de columnas rugosas, percebemos que nem as ondulações do terreno, nem as curvas caprichosas das sendas, nem os verdes oásis dos brejos sâo nossos conhecidos, retrocedemos, sem hesitar, até atinarmos com o direito caminho. Este retroceder é progresso. O distraído, ou o que ignora d'onde vem ou para onde vae, é que continua a seguir avante. Só o insensato crê que caminhar sempre em frente é synonimo de progredir. A Paquita é o symbolo da poesia transviada, que retrocede da estrada por onde andava erradia.


A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Agradecida a offerta, permitta-me que lhe ralhe um pouco [...]

Pelo que dizem os entendidos, a ex-democracia temporária fomenta a democracia permanente. Os democratas barões, conselheiros, commendadores, chefes e sub-cbefes, de que se lembra, estão livres de ser Stilicons e Alarícos; mas imitam-n'os, como comportam as differenças do século XIX ao V: civilisam-se, apodrecem provisoriamente, aprendem a pisar com garbo as alfombras dos paços, reclinam-se com elegância nas poltronas das secretarias, penduram a heráldica ao pescoço do socialismo, cozinham nas fornalhas ministeríaes os curatos, as magistraturas, as escrivaninhas, as prebendas, as mitras, as comendas, as escolas; palmeiam nos theatros com luvas de irreprehensivel brancura; agitam-se nos bailes esplendidos, embriagam-se nas mesas opiparas, recuam com asco diante dos andrajos do plebeu, e retiram a mão afeminada da mão callosa do villão, que ousa estender-lh'a; — a erudição que mais os enleva é a genealogia. Sacrificam-se assim á democracia futura. De feito, Pedro, o obefe dos apóstolos, achou que havia conjuncturas em que se devia negar Christo. Esta gente é essencialmente evangelica.

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Se lhe repugna imital-os, meu amigo — espero em Deus que lhe repugne sempre — tome o conselho que lhe dou: guarde silencio. Tire o chapéu á dança judenga que passa: respeite a crença publica e o progresso que consistem em não crer e em não progredir seriamente em coisa nenhuma; respeite sobretudo os parvos e os velhacos, porque a doutrina da omnipotência das maiorias é ponto de fé constitucional.

A carta que me dirige tem um sabor acre, e não sei se revolucionário; queime-a, e queime esta. Não é por mim: é por si.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Publique a Paquita, mas sem prologo. Só assim lhe poderão perdoar ter a sua tentativa — poesia, naturalidade, e senso commum [resposta de Alexandre Herculano, 20 de maio de 1856]. (2)

A pesca de dezembro, a mais rendosa,
A força dos constantes agoaceiros
Falhou, e foi a quebra desastrosa!

Os mestres d'artes mais aventureiros
Não poderam romper de cara ao tempo
Que teve de peor os nevoeiros!

Costa da Caparica, pescadores, Furtado & Reis.
Imagem: Delcampe

Alar! Lá vem a rede salvadora:
As mulheres, nos médos, mãos erguidas,
Em prantos, a invocar Nossa Senhora.

Não tem de receiar perda de vidas;
Mas se o sacco não pode com o peixe,
Que enormes perdas se darão agora!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ganhou a praia a mole reluzente,
Sem ter nem leve sombra de avaria;
No rude vozear d'aquella gente,

Que expansão de enthusiastica alegria!
Viva, saltando sobre a areia flava.
Chega a todos a argêntea pescaria!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ao soar da buzina, dos casaes
Partem bestas de carga a toda a brida,
Guisalhando atravez d'esses juncaes.

Os cabazeiros, na afanosa lida,
Avergados e a passo de balança,
Jogam-se ao Monte, a governar a vida! (3)


(1) Bulhão Pato, Paquita, Poema em XVI cantos, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894
(2) Idem
(3) Idem, ibidem,