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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Rua da Barroquinha

Quem quizer comprar humas cazas com seus quintaes, em Almada, com frente para a rua da Barroquinha n.° 10, e para a Rua da Judiaria n.° 7, dirija-se á loja de relojoeiro na Rua Nova da Palma, aonde lhe darão as necessarias informações. (1)

Largo da Boca do Vento, José Artur Leitão Bárcia, antes de 1945.
Burros de aguadeiros a caminho da Fonte da Pipa frente ao edifício do departamento de Administração Geral e Finanças da Câmara de Almada.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. 

Almada, Calçada do Barroquinho (Rua da Barroquinha), década de 1950.
Imagem: Jorge Pires

Paralela à Rua da Judiaria localiza-se a antiga Rua do Açougue, actual Rua Henriques Nogueira, conhecida por albergar o antigo matadouro e a abegoaria municipal, que, a partir de 1913, serviu de sede aos Bombeiros de Almada. (2)

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada. Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da “gaiola pombalina” na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

J Incrível Almadense Biblioteca Escadinhas do Ginjal 01 (detalhe), ed. Manil, 3010 J.
Imagem: Delcampe
Estas ruas eram locais centrais de passagem para pessoas, mercadorias e animais desde o castelo à zona ribeirinha do Ginjal ou para o centro da vila onde se localizava o importante conjunto dos Paços do Concelho, a cadeia e o tribunal judicial (construção de 1795 a 1831). (3)


(1) Gazeta de Lisboa n° 212, segunda-feira 8 de setembro de 1823
(2) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX
(3) Idem

Artigos relacionados:
Sociedade de Pedro Marques de Faria
O Caramujo, romance histórico (7/18), Melampigo
Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto
Toponímias urbanas oitocentistas
Música velha, música nova

Tema:
Boca do Vento

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fonte da Pipa e sua água

LISBOA , em Lat. Ulissipo [phn, Tejo], de que vém a ser cor. voc. o significar "água bôa" em que nada esta Cidade (a maior das conhecidas na Europa, Capital do Reino de Portugal) que há mais pequena escavação, logo apparece: o t. he Árabe; e porque parte desta água apezar de em muitas partes ser minerál, e sulphúrica, como se vê dos banhos das "alcacerias" pertencentes ao Duque de Cadaval, abunda muito Lisboa, de que tóma o nome; mas porque as águas potáveis afóra o antigo chafariz chamado de Elrei na Ribeira Velha, que córre por nove bicas sem cessar, e que se concertou em o tempo da Regencia, que o Sr. D. João VI. retirado no Brazil, deixara em Portugal, óbra prima de hydraulica, sem que o chafariz parasse de correr, e cuja ruína já era espantoza; abasta a Cidade: foi da providencia do Rei D. João V. encanar do Cazal d'águas livres, que rebenta em grandes olhos a água em Bellas a duas léguas de Lisbôa, "Villa de Pedro Correia", assim chamada em outro tempo, por hum aqueducto, que he huma óbra perfeitamente Romana, que nunca cedêu de sua feitúra pelo terremoto, que abastece de água a Cidade, independente do poço chamado d'água sancta , rúa da Prata, que nunca seccou, e em que se recórre em occazião de sêccas graves, e da água da outra banda, de que se faz águáda para os navíos (chamada a da Fonte da Pipa), porque vinha, em pipas vender se ao Cáes do Sodré antes de feito o sobredicto aqueducto — Águas livres.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

— Desgraça he que sendo esta água tão bélla, e potavel esteja imprégnada com outras inferiôres em bondade pela concessão mal entendida de deixar tirar do aqueducto pénnas, e anéis d'água com a obrigação de lhe substituir porção igual, que nunca igualára sua primitiva bondade.

Fonte da Pipa, Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Hemeroteca Digital

"Quem não vío Lisbôa, não vío couza bôa." adag. (1)


(1) António Maria do Couto, Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza..., Lisboa, Typ. António José da Rocha, 1842


Artigo relacionado:
Fonte da Pipa e seu caminho

sábado, 6 de fevereiro de 2016

La Paloma

Mãe e filha vieram de Peniche e viviam ali num barracão, paredes meias com a fábrica, talvez uma dezena de operárias, encamadas naquele exíguo pardieiro, como sardinhas em lata [...] (1)

Cais do Ginjal (detalhe), Julio Diniz, década de 1960.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Agora, o apito da fábrica de conservas berrou duas, três vezes, e prolongou-se indefinidamente. Estão a chamar mulheres! exclamaram todos. No rio, aproximava-se um alegre cortejo fluvial. Um gasolina rebocava um buque na direcção do cais e o tombadilho da embarcação vinha berrante de varinas. Um tecto branco de gaivotas sobrevoava o barco, com estridentes pios de gula.

Cais do Ginjal. Embarcações na praia das lavadeiras, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

A miudagem pulou de gáudio. Vestiram-se os que a briga atrasara. Chico Trinta botou aviso: 
— Cada um par seu lado! Nada de ajuntamentos!

Outros rapazes, mais espigados surdiram da garganta da rocha. Chegavam também as primeiras mulheres ao chamamento sôfrego da fábrica. Próximo de terra, o gasolina singrou numa elegante curva e o homem do linguete soltou o cabo de reboque deixando vir o buque a navegar para o cais.

Cais do Ginjal e fábrica La Paloma, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já o gasolina se afasta, veloz, ante as chalaças dos poucos tripulantes, que não poupam as varinas.
— Ó lindeza! Logo vou lá bater ao ferrolho, ouviste?
— Olha, bate com os cornos!...
Perde-se a réplica, mas há ainda novos gracejos.

A embarcação aborda a terra e saltam os tripulantes. As varinas trazem as canastras. Os marítimos encamisados de flanelas berrantes arrastam saveiros de borracha, de canos a roçagar pelas virilhas. Pessoal gingão, metediço e reinadio. Num voltar de braços, as mulheres estendem a lona na canastra e botam-nas à cabeça.

Ti Maria Lancha, capataza veterana, deu o primeiro berro — a primeira ordem:
— Ó gente, vamos ao sal!
Três estivadores despiram as calças e arregaçaram as ceroulas acima das coxas. Calças, casacos e saveiros foram unidos em froixa, que se acomodou num forro da vela.

Abre-se o porão duas portas pesadonas, que tombaram, uma para bombordo e outra para estibordo e a sardinha, um chão de prata, brilhou para o cais, atiçando a gula das gaivotas e do rapazio.

Alfredo ouviu que o chamavam. Na escadaria da fábrica, enxergou a mãe debruçada, com o braço a acenar.
— Senhora!?
— Vai pra Almada, não ouves!? Eu fico na fábrica a trabalhar! O teu pai larga às cinco e quer-te ver ao pé de casa!...
Já vou...

La Paloma, conservas de peixe, anúncio de 1947.
Imagem: Elisabete Gonçalves, Memórias do Ginjal.

As fabricantas, apressadas, iam entrando. E, quando alguma parava e impedia caminho, sofria empurrões e apupos:
— Sobe, Gracinda! Deixa, que o teu rapaz não entra em casa com as mãos a abanar!

A mulher de Leonel não gostou da piada... mas só lhes resmungou a resposta sob os tectos fabris.

Outras e outras se seguiram, escada acima: raparigada nova, de seios a tremelicarem sob as blusas; mulheres gastas, de mau passadio, roto e trajar sem cuidados; e ainda uma cauda molengona de velhas rugosas e ossudas.

Sumidas as últimas entre umbrais, o apito cessou de berrar, enfim. Sobre o cais, numa pressa, concluiu-se a moira, canastras de sal vazadas no porão, juntamente com baldes de água arrancados ao rio.

Depois, um dos homens veio para a muralha, outro ficou no tombadilho e o terceiro alojou-se no porão, mergulhando as pernas no peixe.

Ti Maria Lancha, a capataza, ainda não parou de berrar:
— Vamos a isto, ó gente! Ai, que estamos desgraçadas! Quem não pode, arreia!

Descarga e lavagem do peixe, ed. Martins/Martins & Silva, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É uma velha alta, seca, tez acobreada por muitos sóis, e a sua boca desdentada treme, sobre o queixo, ao peso de muitas pragas:
— Ó Rita, tu hoje andas na avenida ou quê? Por esse andar, temos buque inté à noite!

O Zé Lula, um apanhador de cabazes, de nariz arrebitado, olhos à china, tem as pernas mergulhadas no mar de peixe do porão. As suas mãos não param: mergulham os catitas de verga e retiram-nos pejados de sardinha, a escorrer de moira.

Arremessado o cesto, este viaja, num curto voo, até às mãos do camarada do tombadilho. É posse que só dura um novo balanço, pois o cesto logo sobe em voo mais longo, até que o terceiro apanhador, que mãos! o capta com perícia de malabarista.

A borda do cais está uma barrica de pé. Sobre o tampo, as varinas, uma a uma, assentam canastras, que recebem peixe. Canastra cheia canastra à cabeça. Outra varina toma a vez...
— Então, Emilia, o teu homem já voltou à estiva? Isso voltou ele... Aquilo foi trambolhão maldito, pancada ruim...

As mulheres sucedem-se. Num vaivém fatigante, o trajecto da muralha ao primeiro andar da fábrica é calcorriado com frenesi. Na lama do caminho ficam moldados os pés, muitos pés: largos, sapudos, dedos espalmados, quase primitivos.

A Varina, Ilustração Portugueza, 2.aSérie n.a 339, 19 de agosto de 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Canastra à cabeça, tronco vertical, um braço amparando a carga e o outro aos sacões balanceados da correria.

Quadris bailões, safam, em passadas curtas, as pernas raiadas de varizes. Escorre a moira pelas roupas — e o ar, ao secá-las, deixa manchas brancas de sal.

A boca, num ricto doloroso, cospe baba e dichotes aos metediços.
— Arreda, lingrinhas!...
Os olhos encovados da capataza não perdem as manobras do rapazio.

Ela bem os topa, sorrateiros, um aqui,outro acolá, gancheta de arame rapinando o peixe das canastras.
— Ó Irene, dá uma porrada nesse canalha!
Três, quatro sardinhas são apanhadas do chão, e o fedelho esgueira-se para novo couto.

O guarda-fiscal desafivela o cinturão e aguarda nova oportunidade...
— Arraúl, quantas?
— Quase um quarteirão! E tu, pá?
— Ela por ela...

Chico Trinta a todos ultrapassa na colheita. Para cima de um cento! E quase sem se ralar e expor...

Albaneco morde-se de inveja. Ele não pode ver a varina fazer o jeito ao companheiro... Barafusta, intromete-se, torna-se abelhudo e embirrante.

Maria do Carmo é a mais linda rapariga da descarga; mas, para todos, e só a Carmo. Carita oval, olhos negros, cintura de cabaça e perna airosa. Todo o rapazio a nota à chegada e à partida: "Ainda não está a Carmo..." ou: "A Carmo já abalou..."

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Quando calha também, Ti Maria Lancha não a poupa de responsos, o que faz a varinita perder a estribeira... Arremeda, resmunga — e vinga-se logo, inclinando a canastra...
— Apanha, Chico!...

Varinas e pessoal do cais namoravam-se sempre. O peixe os punha frente a frente, a meter braços à descarga, a enleá-los naquele clima franco e rude. 

Cedo os catraios volviam olhos de admiração para as mulheres da descarga: decoravam-lhes os nomes, ofereciam-lhes os seus préstimos e sorrisos.

Sophia Loren, Agnès Varda, 1956.
Imagem: Pinterest

Assim nasciam simpatias, amizades que o tempo arraigaria no sangue, ao calor de uma certeza:

Peixeira de Buarcos, Zé Penicheiro, 1954.
Imagem: almanaque silva

— "Não há mulher prà ajudar um homem como uma varina!" (2)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976

Artigo relacionado:
A praia das lavadeiras no Ginjal

Leitura adicional:
Les conserves de sardines à l’huile, ou le luxe français sur les grandes tables du monde

terça-feira, 2 de junho de 2015

Astúcias de namorada

Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada.

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos pendurados sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um pouco das polkas e das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo delicioso panorama do Tejo, em cujas aguas traçava a lua como que uma estrada argentea. De quando em quando enchia-se o jardim de risos, de segredinhos; a lua illuminava por entre as folhas roupas alvejantes, que passavam fluctuando como o véo dos sylphos; depois pelas janellas abertas da sala saía uma bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros compassos d'uns lanceiros, os grupos dispersavam-se e engolphavam-se em turbilhão pelas portas de vidraças, e o jardim ficava de novo solitario, mas não silencioso; porque n'elle se escutava o rumorejar da brisa, o echo da musica do baile, e o murmurio do rio que gemia docemente em baixo nas fragas.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo com os fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros, veio sentar-se n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade do jardim, mais proximo da orla do rochedo, e por conseguinte quasi suspenso, como um ninho de gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o que disse; não foram ambas as pessoas indispensaveis para formarem um par, não foram ambas as pessoas, que se sentaram; só o fez uma senhora de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante, morena e viva, de olhos rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o ébano á luz brilhante da lua cheia.

O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil companheira lhe ter visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se podia deduzir do modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o menos espaço possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o seu braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando esta o não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia de aproveitar o favor que se lhe queria conceder.

E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de ministro, estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando ao sopro das auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores aventurosos, mil perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma flor, uma palavra, na idade feliz em que se inveja Leandro só ao pensar quantas vezes se teria accendido o pharol de Hero antes da terrivel noite, em que a morte, envolta em horrendas vagas, segundo a admiravel expressão de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em que ainda não expirára o echo dos beijos da antecedente noite.

E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma palavra qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa senhora, cujos pés desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não seria a sua, se em vez de estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante d'ella, estivesse na outra margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a nado para cair offegante e exanime junto d'esse adorado vulto. Então não seria necessario fallar; a sua pallidez, os seus olhos cheios d'amor diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero, vendo-o ensopado por causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe desembaraçasse a lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a dois corações, que anciavam por se unir.

A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso meio despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva branca ainda não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com um gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras, e que espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão enluvada, e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico.

A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as envia aos paizes meridionaes. 

No céu d'um azul suavissimo, algumas nuvens, volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela brisa nocturna, embebidas todas no candido fulgor do astro da noite, pareciam as maravilhosas rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo firmamento, em noites assim languidas e serenas. O Tejo desenrolava a sua immensa toalha liquida, prateada no centro pelo luar, e negra junto do caes, ou á sombra dos mastros dos navios immoveis nos ancoradoiros. Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á beira do rio, e pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos seus candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas. Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando ao sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama, que só tem rivaes na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia fascinar quem o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do caramanchão d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos d'uma valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a voz tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez estremecer.

Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras:

— Que... linda... noite!

— Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para elle sem levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão voluptuosa, que encerra um encanto irresistivel, um magnetismo fascinador... Como que parecem fluctuar na atmosphera todos os sonhos dos poetas! Sabe no que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que resvala á flor das aguas, como um cysne da noite? Pensava se seria esse o barco de Lamartine, e se levaria tambem dois amantes, que fossem murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as doces palavras que tanto nos encantam, quando o auctor do Lago as traduz na melodiosa linguagem da sua poesia.

— Ah! bem sei, respondeu o desastrado:
"Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages..."
— Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe que me acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar á lua e ao Tejo as inspirações de Lamartine.

E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do seu interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada apostrophe, e que debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo.

Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos, d'uma gentileza verdadeiramente notavel, d'um espirito intelligente e cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na sala, podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o conversar desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu acanhamento não tivera motivo para se revelar. 

Deslumbrada por esse esplendido conjuncto de predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do gentil moço, e a "coquette" conseguira-o em breve, mas, quando se tratára de dar o passo decisivo, manifestára-se toda a timidez do espirito virginal de Frederico. Era o seu primeiro amor, e só os tolos conseguem atravessar affoitamente essas columnas d'Hercules. Lucinda, experimentada n'essas questões, comprehendera primeiramente o embaraço do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera tambem que o devia auxiliar.

Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda mais, se me permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda fosse uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como elle tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as palpebras mesmo, abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente, que afinal os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo idioma. 

Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com o receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa esplendida mulher?!

O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa, assustando Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando elle para lhe fugir retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido olhar, que lhe dizia: "Ávante." O pobre rapaz, vendo assim de subito desfeitos em pó os seus planos estrategicos, preferiria um abysmo abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as palavras friamente zombeteiras de Lucinda.

At the ball, Václav Brozík (1851 - 1901), 1898.
Imagem: Wikimédia

Entretanto o baile findára, e os lisbonenses preparavam-se para atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as unicas pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás delicias do whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se embrulhar em dez mantas e de ter perdido dez "rob" consecutivos, Frederico, depois da scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a mãe de Lucinda, sabendo que era elle o unico dos cavalheiros presentes que regressava a Lisboa, reclamou sem ceremonia o auxilio do seu braço para descer a ingreme calçada.

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim, Frederico viu-se obrigado a pegar no chapéu, e a seguir, supportando o peso da sua volumosa braceira, o pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe explicar durante o caminho as infernaes combinações que tinham dado em resultado a derrota memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes de jogador de whist.

As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao caes de Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da escadaria. Bradou-se pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando estes se levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente na dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao relento nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o seu bote.

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

Não era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o barco era vasto bastante para que todos coubessem. Frederico viu-se obrigado a entrar e a sentar-se defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem ousava levantar os olhos. Desfraldou-se a vela, e o barco resvalou silenciosamente á flor das aguas [...]

A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um lado. Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de Lucinda.

Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.

Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a sua placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da antiga Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas pela viração. Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma fragata immovel; um bote de remos passou rente do barco onde iam os nossos heroes. Os remos, sulcando a agua, erguendo-se e recaindo de novo, pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o matizava a lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. Um marinheiro, recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente embebidos no firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas cordas algumas d'essas melancholicas toadas das nossas canções populares [...] (1)




(1) Chagas, Manuel Pinheiro, Astúcias de namorada, Lisboa, Typographia Progresso, 1873

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Margem esquerda

A Joseph Fortuné Séraphin Layraud (1834 – 1912)

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

D. Maria Pia de Sabóia, Palácio Nacional da Ajuda.
Image: Wikipédia

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.


Família real portuguesa em Queluz, Palácio Nacional da Ajuda, 1876.
Image: Wikipédia

E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.


A manhã seguinte, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1884.
Imagem: LAPHAM'S QUARTERLY

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.


O artista no seu estúdio, 1899.
Imagem: artnet

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. (1)



(1) Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos — Poema XX"

Informação relacionada:
Catalogue des tableaux exposés au Musée de Troyes fondé et dirigé par la Société académique de l'Aube (1907)

sábado, 13 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (6/18), sapo e doninha


SAPO E DONINHA



Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior (gravura), 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Já lá vão bastantes annos depois d'essa tarde de abril, em que Antão Diniz, de sobrecasaca azul com botões amarellos, galões de major nos punhos, chapéo redondo, e guarda-sol ao hombro, levava pelo braço D. Francisca Rosa de Lima, sua mulher, a santa senhora, como lhe chamava a tia Libania; adiante sua filha Mathilde, linda mocinha de l6 annos, com seus sapatos de fitas traçadas, e vestido de seda cor de canella, toda peralta, como tambem dizia a tia Libania; e á esquerda de D. Francisca, o joven Luiz Franco, a cara mais sympathica de rapaz que eu tenho conhecido.

La se ía este ranchínho na direcção da Arealva, por aquella empoeirada estrada, para onde a brisa impellia os aromas de mil odoriferas plantas. Sobre elle o nosso bello sol meridional projectava a sua cor doirada d'entre o azul da abobada celeste. Ao longe ouvia-se a chiada dos carros e o saudoso ulular dos moinhos.

Ó cidades. que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda.

Lá vão pois estrada fóra; e para fazerem o passeio mais longo, ao chegarem ao poço de Cacilhas sobem a Almada, contemplam Lisboa, cidade que d'ali parece como feita de marfim, e a que só faltam os minaretes para se afigurar ao viajante uma cidade mahometana, tão branca e phantastica se apresenta á vista com seu hello porto, vasto, e ermo de navios n'esta época da decadencia de Portugal...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Depois descem á Bocca do Vento, dirigem-se a Olho de Boi, e percorrem o longo caes que conduz á entrada da Arealva. Eil-os na quinta d'este nome, nos bancos de pedra, junto ao portão, debaixo das velhas arvores.

— Pae! Se eu fôra rapaz, diz Mathilde, havia de vir muitas vezes deitar-me á sombra d'este arvoredo, a olhar para o céo, para o Tejo, e para as penedias que estão por cima de nossas cabeças.
— Para que filha? diz Antão Diniz.
— Ora para que... para que não sei... Gosto muito de estar aqui.
— É um optimo logar para pensar, para meditar, observa Luiz Franco.
— Para pensar! replica Mathilde. Pois póde-se pensar quando se está diante d`estas scenas?!... Eu por mim não posso senão contemplar, e acho pouco todo o meu coração para isso.
— Já senti o mesmo, filha, tornou Antão Diniz, se bem que não soubesse então, nem me atravesse a exprimir taes sensações, com medo de que ellas fossem grande defeito da minha alma, defeito que me cumpria occultar; mas hoje que aprecio melhor o juizo que então formava das minhas sensações, sei fazer justiça ao teu coração.

— Muito bem, sr. Antão Diniz, observa Luiz Franco. Mas a longa contemplação das bellas paisagens costuma trazer no fim certa porção de tristeza, um sentimento que acabrunha o espirito, e como que lhe embota por momentos as faculdades; sentimento a que nos esforçâmos por subtrair-nos (tanto elle nos enleva!) transportando-nos a logares mais prosaicos.
— É, diz Antão Diniz, porque a contemplação não interrompida de tantas maravilhas cansa a alma, e ella precisa de descançar em outros objectos menos imponentes. Tudo no mundo tem e precisa ter verso e reverso, claro e escuro, e a sensibilidade da alma não é exceptuada da regra geral.

— Quem será que lé vem adiante? — diz D. Francisca, que principiava a aborrecer-se com a conversação.
— Parece marujo — observa Franco. Effectivamente da banda do Olho de Boi vinha um marinheiro alto, que ao chegar proximo do grupo de que fallamos, tirou o seu chapéo embreado, e deu as boas tardes, acrescentando:

— Acaso v. ex.as perderam alguma coisa?

Depois de alguns momentos, disse Mathilde — Perdi o meu lenço.

— É este? Aqui está, e por feliz me dou em ter achado este lencinho da sr.a D. Mathilde, filha do sr. Antão Diniz, de quem sou humildo criado.

Espanta-maridos disse tudo isto porque viu que o não tinham reconhecido; mas disse-o do um modo que á força de ser delicado degenerava em grotesco, o que fez sorrir Luiz Franco.

— Quem és tn que nos conheces? — perguntou Diniz com modo benevolente.
— Sou Joaquim de Jesus, o Espanta-maridos, alcunha que nunca pude saber quem foi o parceiro que m'a poz, mas que nunca mais pude tirar de cima do lombo.
— Ó Joaquim de Jesus! Tu por aqui! Então que é feito? Chega-te cá, meu rapaz, que te quero dar um abraço.

Espanta-maridos abriu os braços, e deu um passo para diante, mas parando de repente, disse:

— Não acceito. É demasiada honra para um engeitado e marinheiro.
— Será, será; mas não para homens como tu, que possuem um nobre coração. E abraçaram-se.

Depois recebeu Espanta-maridos outro cordial abraço de Franco, e fez os cumprimentos ás senhoras.

Ora ha em toda a gente da Outra Banda ricos e pobres, um certo ar de affabilidade e de agasalho mutuo, que diflicilmente se encontra nas cidades.

Ali o abastado trata o pobre e o miseravel com toda a urbanidade, conversa e mesmo ri com elle, mas isto de modo tal que não exclue o respeito entre as differentes classes; e a gente de Lisboa que lá vae passar o verão affaz-se sem custo a tão bella familiaridade.

Ás vezes de tarde em Cacilhas, no Caramujo, na Piedade e em Almada, parecem todos mais uma tribu, que uma reunião de familias estranhas e distinctas entre si em interesses e posição.

E tambem isto se encontra pouco nas outras terras do campo.

— Então está de marinheiro em algum navio mercante? perguntou D. Francisca.
— De contra-mestre, minha senhora. Vim ha pouco de Cabo Haytiano, foi a minha ultima viagem.

— Se me não engano, disse Luiz Franco, Cabo Haytiano e o antigo Cabo Francez, hoje capital de uma republica de pretos. Havia de ver por lá coisas bem curiosas.
— Muitas, respondeu Espanta-maridos. É a viagem mais divertida que tenho feito na minha carreira de marítimo, que ainda assim não e muito longa 18 — annos somente.

— Lá as mulheres são todas pretas: não é assim? — diz Mathilde.
— Pretas e mulatas; mas estas ultimas são bem poucas comparadas com as pretas. Ha algumas brancas, mas são de familias de ministros, cônsules e alguns poucos negociantes estrangeiros. Ha deputados pretos, generaes pretos, almirantes, juizes, marítimos, tudo é preto ou mulato, e as mulheres e filhos tambem.

— Se o sr. Joaquim de Jesus tivesse a bondade de nos contar algumas coisas do que por lá viu, muito estimaria ouvil-o disse D. Francisca.
— Com todo o gosto. Mas v. ex.as hão de achar mais interessante a leitura dos apontamentos que o piloto tomou do que observava quando ia a terra. Elle, como era muito meu amigo, deu-me o borrão depois de o ter passado a limpo. Trago-o aqui, e se v. ex.as quizerem lerei algumas folhas.

Enseada da Glória, Ponta do Calabouço e Morro do Castelo, litografia de Benoist e Ciceri, 1852
Imagem: Especial Rio Antigo no Facebook

Desejando todos saber o contheudo do manuscripto, Espanta-maridos foi buscar um carrinho de mão, que estava proximo, voltou-o, sentou-se em cima, e disse:

— Antes de começar a leitura, devo dizer a v. ex.as que parti do Rio de Janeiro de contra-mestre a bordo do Conceição Flor de Maria [o bergantim, pequeno veleiro de transporte e comércio, ainda operava em 1885], da praça de Lisboa, com direcção a New-York; mas tendo-nos adoecido na altura das Grandes Antilhas alguns marinheiros e o capitão, este, que era dono do navio, quiz arribar a Cabo Haytiano, onde o ministro hespanhol era muito seu amigo e pessoa rica. Ancorámos com effeito em Cabo Haytiano, cidade de muito mesquinha apparencia, e transportados os doentes para casa do hespanhol, ficou o piloto, que era filho do capitão, encarregado do navio, e aqui está. o que elle nas horas vagas se entretinha a escrever:

— "Apenas cheguei a Cabo Haytiano, desembarquei, e ao sair da alfandega fui logo rodeado de gente esfarrapada, que com grande insistencia me pedia esmola. Contentei-os. Metti-me depois pela cidade, e breve deparei com um grande ajuntamento de pretalhada á porta da casa da misericordia. Estavam ali empilhadas perto de 2:000 pessoas de ambos os sexos.

Era a venda dos bilhetes da loteria. A todo o instante saiam d'aquelle immenso grupo gritos de soccorro e desesperação. Por vezes foram lá pequenas forças de infanteria e cavallaria para valerem aos desgraçados que succumbiam no apertão e fazerem com que elle diminuisse; mas nada remediavam. E como precederam no fim de tudo as auctoridades? Deixaram continuar aquelle horrivel espectaculo, e limitaram-se a mandar por macas no largo para levarem ao hospital ou ao cemiterio os que ficassem contusos ou mortos.

E effectivamente assim aconteceu, porque morreram duas pessoas, e ficaram bastantes gravemente pisadas. E não foi por falta de tropa, porque a guarnição da cidade era de muitos mil soldados de todas as armas. Fiquei logo por este facto entendendo que estava em terra de barbaros, e o mais que observei me confirmou n'esta opinião.

No dia seguinte passei outra vez pela casa da misericordia, e entrei na egreja. Estava á porta uma turba de mendigos fazendo lamuria. Havia grande funcção, o povo era immenso. Olhei em roda, e vi uma bancada, e n'elIa em cadeira dourada e de espaldar um preto gordo de argolas de ouro nas orelhas. Vi então chegar outro preto vestido exactamente como os chamados irmãos de azul da misericordia de Lisboa. Trazia na mão uma tenaz de prata com uma braza. Parou diante do preto gordo fazendo-lho grande venia. Este puchou de um charuto, accendeu-o, e poz-se a fumar. Interroguei a este respeito um mulato que me ficava ao pé, e respondeu-me que a ninguem era permittido fumar na egreja, mas que o fazia, com grande escandalo, o irmão do marquez de Branques, que era o tal preto das argolas, e ninguem lhe ia á mão por ser o provedor da misericordia e fidalgo de muita importancia.

Em outro dia passei pela casa das sessões legislativas e entrei. Ouvi por muito tempo questionar qual de dois deputados era o que devia fallar primeiro. Houve sobre isto discursos e votações. Acabada esta questão, approvou-se a despesa de alguns contos de réis com a compra de pós para matar pulgas e percevejos nos quarteis da tropa. Seguiu-se a approvacão de uma pensão para a mulher do presidente da camara, o que muito o contentou porque se estavaa rir e a rebolar na cadeira a cada momento. Seguidamente votou-se que se dessem a um engenheiro inglez 75 contos de réis por alguns estudos de portos e barras.

O homem estava na galeria, era meu conhecido, e fallava alguma coisa portuguez. Apenas se votou o seu negocio, veio logo ter comigo, e disse-me com a maior franqueza:

— Estes estudes, senhorre portugasio, valerre une bagatelle; mas no force, mim fique agora rique. Mim e otrres estrancheires combinarre com Ministres negrres; elles entreterre populache com politiques, e fazerre comigue e outrres aventureires contrrates ruinoses pârre Hayti. Nós dividirre com chefes de maiorie e opposicione, e assim mim e elles todes vae ficande riques. Nós e homes grrandes de Hayti, excepte poques cabeçudes, sérre todes come une companhie de cavalheires de industrie. Elles e nos tinhe sapates ha dois dies, e hoje temes carriges e cavalhes. Hayti fique arruinade; mas o proveito de quem é, senhorre portugasio? — dizia-me elle batendo-me palmadas nas costas, e dando grandes gargalhadas. Quande gate come frangues o proveite de quem é?

— É de gate, respondi eu com egual hilaridade. Depois approvou-se um emprestimo feito ao governo por um banqueiro alemão, em que este ganhou e o Hayti perdeu coisa de um milhão de cruzados.

E depois... saí pela-porta fóra farto de presenciar tantas miserias.

Quando fui a Leogane vi uma coisa extraordinaria.

N'uma grande casa, as grades de ferro das janellas, estavam muitos pretos que deitavam para fora paus de que pendiam atados em cordas cabazes, cestos e cabeçadas de burro, assim a modo de quem pesca ao candeio, e pediam com vozes lacrimosas que lhes deitassem ali alguns cobres.

Era a prisão da cidade. O espectaculo pareceu-me hediondo. E passava-se isto n'uma das principaes praças publicas.

Tendo eu comido em terra algum peixe temperado com vinagre, á noite a bordo fui acommettido de uma violenta colica. Era do vinagre, que estava adulterado. Tambem encontrei no fundo de uma chavena de chá alguma limalha de cobre. Era do assucar, que lá se retina em grandes bacias d'aquelle metal. Comprei um pouco do chá, e ao passal-o para um vidro notei que o papel ficava esverdeado. Disseram-me que não estranhasse isto, porque o governo d'aquelle paiz não se importa com a saude publica, e cada qual pode a seu salvo vender generos falsificados.

Quando percorri as margens do Artibonite, vi que o terreno era mui fertil, e que a maior parte estava por cultivar.

Vêem-se excellentes campos todos cobertos de matto e convertidos em charnecas, e aldeias miseraveis habitadas por gente rota e immunda."

— Basta, Espanta-maridos! — disse Antão Diniz. Muito prazer nos daria a continuação da leitura; mas vae-se fazendo tarde, e ainda estas senhoras não passearam na quinta. Apparece lá por casa com esses apontamentos, que muito nos teem divertido os costumes da pretalhada.
— E ainda v. ex.as não ouviram mais do que uma pequena parte, disse Espanta-maridos, guardando o ensebado manuscripto.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

Effectivamente entraram todos para a quinta, e passeando, ao chegarem perto do pequeno logar da Arealva, ouviram quasi aos pés um guinchar de afflicção, como de ratinho perseguido por gato.

— Olhe, mãe, para aquelle lado — exclama Mathilde. Está ali um sapo, e anda um ratinho a guinchar em frente d'elle. E o maldito sapo está de boca aberta.
— Paremos aqui, e sentem-se sem fazerem bulha, disse Antão Diniz. Vamos agora ver um dos phenomenos mais singulares que se dão na natureza.

É o sapo engulir uma doninha pela simples influencia da fascinação.

— Tinha ouvido fallar n'este phenomeno, disse Luiz Franco, mas até hoje ainda o não tinha presenciado. Estou com curiosidade de o ver.
— Então o sapo come a doninha? — disse Mathilde.
— Come sim, e vaes ver — respondeu Diniz.
— Se não fosse o sr. Antão Diniz querer ver o caso e mostral-o ás senhoras, já o sapo não estava com vida, observou Espanta-maridos.

Com effeito no meio do chão-estava o nojento reptil, muito grande, immovel, e sem tirar os olhos da pobre doninha.

Esta, parecida com um pequeno rato, porém mais bonita, e côr de castanha, corria de um lado para o outro formando meios círculos diante do sapo, o qual não desviava um momento a vista de sobre ella.

O animalzinho guinchava dolorosamente, levantava-se nos pés, corria e estremecia, mas olhando sempre para o sapo. Alguns instantes durou esta lucta, e a doninha ia estreitando a seu pezar os semicirculos que fazia, até que dando maiores guinchos, correu para diante, e metteu-se pela boca do sapo, que n'um instante a enguliu.

— Está acabado o phenomeno, já vimos: agora sô Joaquim de Jesus faça a sua vontade.

Espanta-maridos não se fez rogar, arrancou um tronquinbo do uma videira, e espetou o sapo, puchou da navalha, abriu-o, e tirou-lhe de dentro do bucho a doninha ainda estrebuchando.

Mas a coitada envolvida na baba immunda do reptil, acabou logo de espirar.

Quinta da Arealva, Margarida Bico.
Imagem: Panoramio

— Bem feito, sr. Joaquim de Jesus, bem feito. Mas a nossa curiosidade custou a vida á pobre doninha — disse D. Mathilde.
— No Brasil, observou Espanta-maridos, ha umas cobras que teem o mesmo poder de fascinação, e até sobre creaturas humanas as vezes o exercem.

Dito isto deitou fora a doninha e cravou no terreno a vara, ficando o sapo espetado na extremidade superior d'ella.

A este tempo appareceram Botelho e Gomes, e a sociedade continuou a passear separando-se um tanto adiante Mathilde, Franco, Botelho, e Gomes, e ficando mais atraz Diniz, sua mulher e Espanta-maridos.

— Não sabem, meus senhores, disse Mathilde, que vi ainda agora um sapo engulir uma doninha pelo poder da fascinação? Era uma coisa que ainda não tinha visto e mais sou filha da Outra Banda.
— E então: v. ex.a não afugentou o sapo? Bastava atirar-lhe com qualquer coisa para se quebrar o encantamento, disse Botelho.
— O marinheiro queria salvar a doninha, mas meu pai oppoz-se para nós vermos o caso.

— Ha paes que se dariam por muito felizes se em certas oocasiões tivessem podido evitar que as doninhas caissem na boca dos sapos; disse Gomes para Botelho gracejando.

— Mas nem todas as doninhas são engulidas pelos sapos, observou Luiz Franco: ou sabem desviar-se a tempo, ou apparece alguma alma caritativa que impede o effeito da fascinação.

Todos se riram muito d'esta observação de Franco. Fazia calor, e o caminho começava a ser ingreme.

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858. Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— Ah! como estou cançada, disse Mathilde, e doem-me os pés.
— Apoie-se v. ex.a no meu braço — apressou-se Gomes a dizer. Eu a ajudarei a subir até á Boca do Vento.

— Muito obrigada, sr. Gomes ; mas v. s.a é muito alto; e talvez, se não incommodasse o sr. Franco, fosse melbor-que elle me desse o braço, porque é mais baixo, è melhor para meu braceiro.

Gomes fez-se pallido, e Luiz Franco, apressou-se com toda a delicadeza a dar o braço a Mathilde.

Quanto a Botelho fez um movimento, mas não se resolveu a offerecer-se.

— Fiquei com tanto nojo do reptil, que me parece que o estou vendo apparecer debaixo dos pés.
— Socegue v. ex.a, diz Franco, que por aqui não se encontram sapos.
— Quem sabe, respondeu Matbilde rindo, talvez algum saísse da quinta, e ande por aqui mesmo ao pé de nós.

— Eu o que vejo são flores, e aqui está uma bem singela e bonita, disse Gomes, apanhando um malmequer. Eu gosto muito d'estas flores do campo. Digne-se v. ex.a acceital-a. — Oh! não, sr. Gomes, respondeu Mathilde, e não é pela pessoa que m'a offerece que muito considero e estimo, mas pelo nome da flor... malmequer!
— Quer v. ex.a esta cravina? Disse Franco, tirando uma cravina da abotoadura da casaca.
— Acceito antes a cravina. É uma flor mais delicada e menos commum, ao passo que o malmequer é de nome e côr desagradavel, e nasce por toda a parte. E que bello aroma que tem a cravina!

— Perdoe v. ex.a; quer ver como a flor vae desmentir o nome? E Gomes, dizendo isto, começou com uma curiosidade infantil a dizer "bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer" á medida que ia passando pelos dedos as folhas da flor sem comtudo a deteriorar, ate á ultima, a que correspondiam as palavras " mal me quer" Fiquei logrado, continuou elle, a flor deixou-me ficar mal; mas quando a offereci a v. ex.a era na idéa de que a final desmentisse o seu nome.
— Pois bem, disse Mathilde, acceito-a para não parecer impertinente. Mas vamos a tanta distancia. Esperemos aqui pelos nossos companheiros.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

E sentaram-se todos tres no alto da Boca do Vento. Entretanto chegaram Antão Diniz e sua mulher acompanhados de Espanta-maridos, e todos seguiram o caminho do Caramujo, indo Botelho ficar n'essa noite a casa de Gomes.

Quando Mathilde se recolheu ao seu quarto, Felizarda disse-lhe:

— O sr. Gomes pediu-me encarecidamente que entregasse esta carta á menina. Elle pediu-me tanto, que eu não pude recusar-me, mesmo porque me disse que se não a entregasse me intrigaria com Espanta-maridos, que, como a menina sabe, é o meu namorado.
— Ah ! com que elle deu-te a carta e disse-te isso! respondeu Mathilde abrindo-a. Vamos a ver.

Lida a carta, que era uma protestação amorosa, Mathilde dictou e Felizarda escreveu os seguinte — Sr. Gomes — Escusa de se cançar: digo-lhe uma vez por todas que perde o seu tempo.

No dia seguinte, ao alvorecer, foi Gomes ao Caramujo, recebeu de Felizarda a resposta á sua carta, e cheio de despeito partiu pouco depois a reunir-se ao seu regimento.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Tarde de abril

Panorama de Cacilhas (Ginjal, Fonte da Pipa, Olho de Boi, Quinta da Arealva), 1967.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já lá vão bastantes annos depois d'essa tarde de abril, em que Antão Diniz, de sobrecasaca azul com botões amarellos, galões de major nos punhos, chapèo redondo, e guarda-sol ao hombro, levava pelo braço D. Francisca Rosa de Lima, sua mulher, a santa senhora, como lhe chamava a tia Libania;

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

adiante sua filha Mathilde, linda mocinha de l6 annos, com seus sapatos de fitas traçadas, e vestido de seda cor de canella, toda peralta, como tambem dizia a tia Libania;

e á esquerda de D. Francisca, o joven Luiz Franco, a cara mais sympathica de rapaz que eu tenho conhecido.

La se ía este ranchínho na direcção da Arealva, por aquella empoeirada estrada, para onde a brisa impellia os aromas de mil odoriferas plantas.

La Merveilleuse odyssée d'Olivier Rameau et de Colombe Tiredaile,
Dany et Greg, éd. Le Lombard, 1970.
Imagem: Anita Blake

Sobre elle o nosso bello sol meridional projectava a sua cor doirada d'entre o azul da abobada celeste.

O Passeio ou A Mulher da Sombrinha, Oscar-Claude Monet, 1875.
Imagem: Wikipédia

Ao longe ouvia-se a chiada dos carros e o saudoso ulular dos moinhos.

Ó cidades que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros!

Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda.

Lá vão pois estrada fóra; e para fazerem o passeio mais longo, ao chegarem ao poço de Cacilhas sobem a Almada, 

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, reprodução alemã.

contemplam Lisboa, cidade que d'ali parece como feita de marfim, e a que só faltam os minaretes para se afigurar ao viajante uma cidade mahometana, tão branca e phantastica se apresenta á vista com seu hello porto, vasto, e ermo de navios n'esta época da decadencia de Portugal...

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

Depois descem á Bocca do Vento, dirigem-se a Olho de Boi, e percorrem o longo caes que conduz á entrada da Arealva.

Quinta da Arealva, Margarida Bico.
Imagem: Panoramio

Eil-os na quinta d'este nome, nos bancos de pedra, junto ao portão, debaixo das velhas arvores. (1)


(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.