Mostrar mensagens com a etiqueta Marinha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marinha. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Bote Leão (o Rei dos Nordestes)

Sobre a origem desta embarcação pouco se sabe, mas Manuel Leitão, no seu livro "Barcos do Tejo", refere uma declaração, de 1965, do mestre António da Costa Cruz, proprietário de um estaleiro de construções e reparações navais, em Alcochete, referindo que (...) o "Leão. teria sido construído na Junqueira, em Lisboa, havia mais de 140 anos (...). No entanto a inscrição do ano 1781 na antepara da ré sugere que a construção é anterior e o mais provável é que tal tenha acontecido. (1)

Bote Leão de Alcochete.
aNOTÍCIA.pt

Pertencia ao Marquês de Soydos (D. António Pereira Coutinho). De acordo com o Mestre António da Costa Cruz, carpinteiro de machado em Alcochete, terá sido construído na Junqueira. Mantinha rivalidade intensa com o "Diana" (pertencente á viúva do Comendador Estêvão de Oliveira), conseguindo, por vezes, vencer a falua em bolina cercada (cf. o jornal A voz de Alcochete em 1950).

Ainda, de acordo com o Mestre António da Cruz, tinha inicialmente a popa em "rabo de peixe", como a das faluas. Foi este mestre que reconstruiu a popa, alargando a parte que fica fora de água, para evitar que se afundasse tanto, quando carregado.

A popa em rabo de peixe, Barcos de sal (Alcochete), Silva Porto, 1882.
Colecção particular em Braga

A cana do leme foi feita com o calcés do primitivo mastro de "riga" (pinho de Riga) que partiu quando se soltou o estai real num dia de nortada no rio.

Na Igreja de Nossa Senhora da Atalaia, a 7 kms de Alcochete, existe um "ex-voto" que se refere a um milagre que aconteceu no "Leão" numa ocasião de aflição.

Comprado pela Empresa Portuguesa de Navegação Fluvial (detentora do vapor "Alcochete", que fazia a carreira de Alcochete) para eliminar a concorrência ao vapor. Serviu para transportar mercadorias e pessoal de descarga do carvão de navios no cais de Lisboa.

Vapor Alcochete.
Desembarque no cais do Alfeite dos sócios da Associação Naval em 1911.
Hemeroteca Digital

Foi novamente vendido e acabou por ficar nas mãos de Manuel Brigue e, depois, de João Baptista Damiães. Após a morte de João Baptista Damiães, o bote conservou-se na praia de Alcochete, porque a viúva e os filhos lhe tinham muito amor e não tinham coragem de se desfazer dele.

Após receberem garantias de que o "Leão" não seria abatido, a família consentiu na transferência da propriedade do bote para a Sociedade que o mandou restaurar para ser oferecido ao Grupo de Amigos do Museu de Marinha.; Sociedade é formada por João Augusto Vieira, José Vieira Júnior, Manuel António de Castro e Luís Lopes Silveira.

Restaurado pelo Mestre António da Cruz antes do seu ingresso no Museu de Marinha. (2)

O bote Leão serviu a população de Alcochete até à década de 60 do século passado, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da vila, pois com as outras embarcações de Alcochete impulsionou uma intensa atividade fluvial, não só no abastecimento de mercadorias à capital, mas também no transporte de pessoas e no carrego e descarrego de navios fundeados no rio Tejo (...)

São três as emblemáticas embarcações que nesta altura faziam a ligação entre Alcochete e Lisboa: a falua Diana e o bote Leão, que em 1907 passaram a pertencer à empresa portuguesa de navegação fluvial, assim como o vapor de Alcochete, que assegurou a carreira entre as duas margens de 1904 a 1958.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Hemeroteca Digital

Só em outubro de 1917 é que o bote é registado em nome da empresa, por ter iniciado nesse ano a sua função no transporte de carga e passageiros. O bote Leão navegava à vela e a remos e tinha lotação para 26 passageiros.

Em 1925 a embarcação foi transferida para a delegação marítima do Barreiro, e o seu registo ficou afeto ao cais de Alcochete, mantendo-se propriedade da empresa até 1939, ano em que foi vendida pela quantia de quantia de vinte mil escudos a Manuel Brigue, morador em Alcochete.

Em 1941 o barco foi adquirido por João Baptista Damiães, residente em Alcochete pela quantia de vinte e oito mil escudos. Após a sua morte a embarcação ficou durante mais de uma década parada na praia de Alcochete e só em 1967 foi comprada João Augusto Vieira, um dos elementos do Grupo de Amigos do Museu de Marinha, pela quantia de oito mil escudos, que depois a ofereceu ao referido museu.

Transporte do bote Leão de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso a 27 de junho de 1967.
Museu [digital] de Marinha

A última reparação do bote Leão foi da responsabilidade do mestre António da Costa Cruz e foi primorosamente pintado por Augusto Rodrigues.

A sua última viagem realizou-se a 27 de junho de 1967 de Alcochete para a Doca do Bom Sucesso, em Lisboa, onde ficou a aguardar a entrada no museu, de cujo património passou a fazer parte.

Mas a entrada tardou e o Leão apodreceu nas águas do rio em que sempre navegou. Contudo durante esse período o Museu de Marinha desenhou planos do bote que permitiram à câmara municipal recuperar a embarcação.

Cana do leme do bote Leão.
Museu de Marinha

Do bote Leão de 1781 apenas resta a cana do leme que está em exposição no Museu de Marinha. (3)


(1) In Alcochete n° 21, junho 2016
(2) Museu [digital] de Marinha
(3) In Alcochete, n° 21, idem

quarta-feira, 16 de março de 2022

Costa Almirante (o Nélson)

Agora ali, no rio, obedecendo às ordens do Almirante, logo nas primeiras remadas tive remorsos da minha leviandade. A pobre da Ermelinda à minha espera, cheia de problemas, e eu embarcado no escaler, remo entre mãos, a escutar as baboseiras do Costa, que ficava maluquinho quando se via no posto de comando.

Pequenas embarcações do Tejo junto a navio de guerra.
Arquivo Municipal de Lisboa

A sua farda de marinha, os gales dourados, o chapéu-armado, as duas medalhas de cobre a baloiçarem no peito. Mesmo sabendo que as condecorações as ganhara ele como sargento, na Primeira Guerra Mundial, tudo ali me parecia fora do tempo em que nos situávamos.

Os gritos de comando, os apitos histéricos, os ralhos quando não fazíamos o que ele queria, transformavam a tripulação do escaler num bote de doidos. Os quatro remadores eram tratados por "marujos" (...)

O Rainha Vitória singrava agora a direcção do navio-almirante, o couraçado Nélson, para lhe prestar as honras do estilo.

O Costa exigia disciplina na remada, cabeça e ombros direitos, pás dos remos bem metidos na água e puxadas ao peito. A maré estava a fazer carneirinhos, a voltar à vazante, vindo constantes borrifos refrescar a tripulação.

HMS Nelson
off Spithead for the 1937 Fleet Review
Wikipedia

— Marinheiros! Quando eu ordenar Ninguém rema! — avisou o Costa — a marinhagem prepara-se para a saudação a navio-almirante.

Já da outra vez que alinhei nestes trabalhos fora a mesma manobra diante da esquadra francesa. Que felicidade experimentava o meu vizinho nestas manhãs no Tejo! O rosto bolachudo, bigode e perinha, olhos pequenos e mortiços, enquadrados naquele fardamento carnavalesco, davam-Ihe um ar de ter fugido de um hospital de doidos (...)

Atenção! Ninguém rema! ordenou o nosso comandante. Suspendemos a remada e erguemos os remos. O escaler ainda navegou por momentos, sereno, deixando-se arrastar na maré. Diante de nós tínhamos a enorme montanha de aço, o casco do mastodôntico Nélson.

O Costa retirou o chapéu da cabeça, no que foi imitado por todos nós, e rompeu com os hurras! — três vezes as nossas boinas se ergueram numa gritada saudação. Olhando para a parte superior do casco do couraçado não descortinámos um inglês sequer.

Eramos como uma pulga a saudar um elefante. O Costa tossiu, teve um esgar de decepção, e disfarçou, colocando o pomposo chapéu na cabeça. A marinhagem imitou-o sem palavras, mas ainda esperançada a aparição de gente do Nélson, que nos acenasse um leve adeus.

De súbito, lá do alto, dois vultos debruçaram-se na amurada e vazaram, sem a mínima cerimónia, um latão pejado de imundícies. Cordas líquidas de porcaria desceram na direcção do nosso escaler, borrando-nos, sem piedade.

HMS Nelson
Members of the South African Royal Naval Volunteer Reserve
Wikipedia

Cabrões! Filhos da puta! berrou o nosso Almirante, perdendo a compostura. Num instante ficámos irreconhecíveis, imundos de óleo e de outras coisas, que a nossa afição não permitia que avaliássemos. O Rainha Vitória bailou por momentos com o entulho e o nosso pânico, caindo o Alberto ao rio agarrado a um remo.

As nossas caras e vestes estavam nura lástima, havia borras sobre tudo o que era branco e colorido, parecíamos uma visão de pesadelo. Recolhido o nosso companheiro que fora pela borda fora, tentámos passar por água as partes mais atingidas pelas borras. As mãos, a cara, os punhos dos remos, foram chapinhados com água salgada. Não havia palavras para classificar aquele percalço naval, que nos atingira naquela hora.

Depois dos palavrões, enraivecidos, soltados pelo Costa Almirante e a retirada do filho do Tejo, blasfemou o Fernando, com lágrimas na garganta:

— Se tivesse um torpedo aqui afundava este sacana! Mas o Vitor, cheio de bom senso, aconselhou que talvez fosse melhor afastarmo-nos da vizinhança do Nélson, pois corríamos o risco de sermos bombardeados com outro despejo.


Todos, incluindo o comandante, anuímos na retirada. Remos ajustados nos toletes, pás metidas no rio, cada um fazia o derradeiro esforço de regresso ao Cais do Ginjal.

Cais do Ginjal, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Arquivo Municipal de Lisboa

A cara do Costa trazia estampado todo o estigma de malogro. Atirava com o chapéu-armado para o fundo do escaler, sacudia ainda pedaços de sujidade das orelhas, do bigode, do pescoço, cuspia, enojado, gostos estranhos que he apareciam no paladar. Pequenos barcos a remos ou à vela, que se cruzavam connosco, admiravam-se do nosso aspecto desastroso. E ouvimos alguns gritos trocistas, à laia de conselho:

— Declara guerra à Inglaterra, ó patriota!

Respeitado pela idade e a compostura cívica quando o viam em terra, aquela malta ao vê-lo agora sujo e maltratado no rio, vingava-se, cobarde e traiçoeira. Eram como punhaladas no Costa tais dichotes da canalha da praia. E, sem aparente reacção, rosnava para os nossos ouvidos:

A escumalha está como quer! Cavalo-marinho no lombo é o que vocês precisam! (...)

Cais do Ginjal, 1935.
Romeu Correia, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Aproximámo-nos do cais, onde os dois turcos de ferro esperavam o escaler para tê-lo içado durante os dias necessários. Alguns curiosos aguardavam a abordagem do Rainha Vitória, que sempre proporcionava um esper táculo fora do comum. Não pudemos evitar desta vez mais risos e chacota entre os que estavam na muralha.

Na varanda, a D. Preciosa gritava, aflita: Que vos aconteceu, ó Costa?

Logo o Rui que, embrulhado num xaile, estava por detrás da mãe, comentou, divertido: Foram bombardeados, dona Preciosa! (1)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal

Tema:
Romeu Correia

segunda-feira, 14 de março de 2022

Costa Almirante (o Rainha Victória)

Costa Almirante, que, sendo caixa no Montepio geral, tinha a loucura da Marinha de Guerra, pois construira um escaler e fixara dois turcos de ferro na borda da muralha para arriar ou subir a embarcação. Aos domingos e dias santos, o "caixa" fardava-se de almirante e embarcava escoltado por quatro marujinhos, seus filhos.

Chegada a Lisboa de S. M. Maria Pia de Sabóia (detalhe), João Pedroso, PNA.
Google Arts & Culture

Ordens de comando, apitos de ordenança, remos ao alto em continência, tudo isto como num barco de guerra, o pai e os quatro rapazes exibiam nessa manhã um espectáculo no rio até a mulher por termo ás manobras, aparecendo, na varanda, a gritar:

— Ó Costa vem almoçar! A comida está na mesa!... (1)

Ao passar junto da casa do Sabino Costa parei para observar mais uma vez o escaler "Rainha Victória" suspenso nos dois turcos de ferro implantados å beira da muralha. Os quatro remos, o leme e o pequeno mastro, o Costa Almirante os havia recolhido, a recato de invejosos e ladrões.

Este vizinho era inconfundível no Cais do Ginjal, nenhum como ele animava as manhãs de domingo e alguns feriados, escaler descido nas águas do rio, ele fardado de almirante de opereta, marujinhos seus filhos aos remos, e toda a equipagem a navegar Tejo fora, cumprindo ordens do pequeno e ridículo comandante.

Chegada a Lisboa de S. M. Maria Pia de Sabóia (detalhe), João Pedroso, PNA.
Google Arts & Culture

Um filho-remador, obrigado pelo capricho paterno a cumprir a heróica tarefa matinal, mantinha-se casmurro não aprendendo a nadar. O menino Rui era a única ovelha ronhosa daquela família de marinheiros que, no caso de naufrágio, desceria às profundezas como um solitário prego.

Panorâmica dos armazéns da Sociedade Theotónio Pereira e conjunto habitacional privado (n.os 53 a 64).
Boletim O Pharol 40


O pai sofria, tentando na muralha e nas areias do Ginjal, com colete-de-cortiça, corda e outros apetrechos de protecção, que o rapaz se afoitasse sobre a massa líquida do rio. Mas tudo em vão. Era este falhanço, o maior, que maculava a carreira náutica do caixa do Montepio Geral. (2)


(1) Romeu Correia, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.
(2) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal

Tema:
Romeu Correia

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Conductor: rebocador (e cacilheiro) a vapor

Luís Ascêncio Tomasini (1823-1902) é o nome desse pintor, que foi, de profissão, capitão de navios e nos deixou uma obra notável. A tela que reproduzimos, está datada de 1887 e tem um interesse especial porque representa uma cena que não temos visto na pintura do século XIX.

Rebocador de vapor com o brigue entrando no Tejo (detalhe), Luís Ascêncio Tomasini, 1887.
Museu de Marinha

Como é sabido, a utilização do vapor na propulsão dos navios, constituiu um enorme salto tecnológico, em relação à navegação à vela, porque passou a ser possível fazer viagens cumprindo datas de largada e de chegada, independentemente de haver ou não vento e, mesmo, quando o houvesse, nem sempre era favorável.

Em Portugal tivemos o primeiro navio de passageiros em 1819 mas, na Marinha de Guerra, o vapor só entrou ao serviço em 1833. (1)

* * *

REGATA NO TEJO PROMOVIDA PELA REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

Realisou-se no dia 21 do mez que findou, a regata no Tejo promovida pela Real Associação Naval, conforme é costume nos mais annos, e á obsequiosa collaboraçáo do sr. José Pardal devemos o poder publicar hoje um desenho d'esta festa.

A regata no Tejo no dia 21 de agosto promovida pela Real Associação Naval
(Desenho do natural, pelo artista amador sr. José Pardal)
O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887

A regata effectuou-se no Dáfundo em presença de sua magestade el-rei D. Luiz, que de bordo do seu yacht de recreio Syrius assistiu ás corridas dos barcos. Muitos vapores, fragatas e barcos de recreio embandeirados conduzindo grande numero de espectadores assistiram á festa.

Viam-se alli o vapor Dragão de S. M. El-rei D. Luiz, os yachts Amelia de S. A. o Principe D. Carlos, o Aura de S. A. o Infante D. Alfonso, e o Gypsy, Surpreza, Gwendoline, Irene, Iris, Gavina, Relampago, Hilda, Ninni, e o escaler a vapor do yacht francez Velox que estava no Tejo com o seu proprietario barão E. Boissard de Bellet, do Havre, que representava o Yacht Club dc França.

Os socios da Real Associação Naval com suas familias iam a bordo do Conductor, onde tocava charanga da armada.  

Vapor de pás Conductor, festival náutico no Tejo 1888/1889.
Museu de Marinha (digital)

Pelas 3 horas principiaram as corridas por duas guigas de quatro remos tripuladas pelos alumnos do collegio Arriaga, sendo a primeira, a Sereia tripulada pelos srs. Raul Borges, Ignacio Avellar, Arthur Fortes e Voga José Gd, tendo por timoneiro a sr.a D. Maria da Camara Arriaga, e a segunda a Attempt, tripulada pelos srs. Alfredo Pereira, Raul Garcia, José de Freitas e Voga José de Sousa, tendo por timoneira a sr.a D. Maria da Gloria Loureiro... (2)

Conductor (1880).
Conductor National Maritime Museum, Greenwich, London

Name: CONDUCTOR
Launched: 1879
Completed: 01/1880
Builder: Joseph T Eltringham, South Shields
Yard Number: 87
Dimensions: 150grt, 31nrt, 117.6 x 19.6 x 10.3ft; (1892: 165grt, 10nrt); (1914: 165grt, 63nrt)
Engines: 2 x SL1cyl (30.5 x 54ins), 90nhp; (1892: 62nhp, 11.5knots)
Engines by: Hepple & Co, South Shields
Propulsion: Paddle
Construction: Iron
Reg Number: 81606


History:
17/01/1880 William Hepple, South Shields; registered at London
01/1880 John Mitchell, Gravesend
07/1880 Frederico G Burnay, Lisbon; registered at Lisbon
19/05/1892 Sunshine Steam Tug Co (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
19/05/1892 Registered at Liverpool
03/1901 The Steam Tug Conductor Ltd (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
03/1914 Joseph John King & Sons Ltd, Garston
06/1914 William Cooper & Sons Ltd, Widnes
1929 Broken up


Comments: 1881: Stationed at Lisbon, Portugal

29/12/1899: Beached at Egremont, Wallasey, on the Wirral, following a collision

02/01/1900: Refloated and placed in Clover’s Dry Dock at Birkenhead

01/1923: Converted to a dumb dredging barge (151grt, 131nrt) (3)



(1) Revista da Armada n.° 385, abril de 2005
(2) O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887
(3) Tyne tugs and tug builders

Mais informação:
ALERNAVIOS: «CONDUCTOR»

quinta-feira, 25 de março de 2021

Canhoneira Chaimite em construção

Na tarde luminosa e azul de domingo, após a entrega ao Estado do esbelto Adamastor, em o claro Tejo, sulcado ainda de mil embarcações em festa; bandeiras vibrando na porcelana do ar, a alegria dos hymnos, o clamor enthusiastico de milhares de vivas, realisou-se a visita aos estaleiros dos srs. Parry & Sons, no Ginjal, onde está a construir a canhoneira Chaimite, que, apenas prompta será pela Commissão de Subscripção Nacional entregue ao Estado, como o foram as duas lanchas d'aço e ferro, Diogo Cão e Pedro Annaya, por egual sahidas d'este magnifico estabelecimento que muito honra a industria nacional.

Medalhão da fundição do hélice da canhoeira Chaimite em 1897
Museu de Marinha

O Branco e Negro publica alguns aspectos desta ceremonia, bem como da canhoneira, que é destinada á policia e fiscalisação na costa de Moçambique, e, sobretudo, a estabelecer communicações entre as esquadrilhas do serviço fluvial e as capitaes dos districtos de Lourenço Marques e da Zambezia.

As dimensões da canhoneira são as seguintes: comprimento entre as perpendiculares, 40m,84; bocca extrema, 8 metros; pontal do porão, 3m,15 ; immersor á ré, 2 metros. A velocidade é de 11 nós por hora.

O material empregado na construcção é o aço da melhor qualidade. O casco é dividido em compartimentos estanques por meio de anteparos solidamente construidos.

O tombadilho e castello são de fórma abahulada (tartle back). Nos paioes póde receber mantimentos para 20 praças durante 60 dias, aguada para 40 dias e combustivel para 12. Em dois paioes independentes póde transportar 25 tonelladas de carga.

A canhoneira é construida segundo os ultimos planos de construcção naval, em navios da sua categoria.

Oficiais da antiga canhoneira Chaimite que operou em Moçambique em 1915
Museu de Marinha

Avante terá um solido gaviete e um aparelho para fundear boias, movido pelo cabrestante a vapor, para serviço de balisagem dos portos. No alojamento á ré, além dos camarotes para o commandante, immediato e machinista, tem um camarote com dois beliches e sophás na camara.

Em tempo de guerra póde servir com grande vantagem como auxiliar das esquadrilhas fluviaes.

O armamento do navio é composto de duas peças de tiro rapido Hotchkiss de 47 millimetros, com escudo de protecção, montadas em reductos centraes, que em occasião de combate são fechados por chapas de abrigo, e de duas metralhadoras de Nordenfeldt de 11 millimetros, installadas no convez, mas que, em caso de necessidade, podem ser transportadas para os cestos de gavea dos mastros.

Tem dois jogos de machinas de alta e baixa pressão, de cylindros invertidos, de acção directa, verticaes, com condensador de superficie e dois helices, tendo uma caldeira multibular e sendo o condensador commum ás duas machinas. A força é de 480 cavallos. Cada jogo de machinas é constituido para trabalhar independente.

Canhoneira Chaimite na Ilustração Portugueza n° 539, 19 de junho de 1916
(note-se a bandeira republicana redesenhada na imagem)
Hemeroteca Digital

O seu deslocamento é de 340 toneladas e a velocidade de e 11 nós por hora. (1)


(1) Branco e Negro n° 73, 22 de agosto de 1897

Artigos relacionados:
Canhoneira Chaimite aumentada ao efectivo
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

Canhoneira Chaimite aumentada ao efectivo

Construída nos Estaleiros “Parry & Son”, em Cacilhas, a canhoneira Chaimite foi aumentada ao efetivo dos navios da Armada no dia 15 de novembro de 1898. Foi o primeiro navio de aço da Marinha Portuguesa construído em Portugal, através dos planos elaborados sob direção do Comandante Eugénio Andrea.

Lançamento à água da canhoneira Chaimite no estaleiro de Parry & Son em 3 de Agosto de 1898.
Museu de Marinha

O surgimento do Ultimato Britânico em 1890 levou a que fosse necessário garantir uma Marinha capaz de proteger os interesses de Portugal em terra e no mar. Com a assinatura da Grande Subscrição Nacional no mesmo ano, foi possível, através das verbas reunidas, adquirir parcialmente a canhoneira Chaimite e o cruzador Adamastor.

H. Parry & Son.
Restos de Colecção

Em janeiro de 1889 a Canhoneira Chaimite partiu rumo à província ultramarina de Moçambique onde chegou a 20 de abril. A sua atividade operacional iniciou-se quando serviu a Esquadrilha do Zambeze até agosto de 1900 e, após esse empenhamento, participou na missão de levantamento hidrográfico nas baías do Mossuril e de Lourenço Marques, na missão de balizagem do Chinde e Quelimane, e ainda esteve envolvida na repressão à escravatura na área de Angoche, em paralelo com outras operações militares na costa moçambicana.

Em 1915, durante os confrontos em África, serviu de apoio ao cruzador Adamastor nas operações do Rovuma, rio que separa Moçambique, antiga colónia portuguesa, da Tanzânia, antiga colónia alemã.


A canhoneira Chaimite marcou um avanço, não só na construção naval portuguesa, mas igualmente na introdução de novas tecnologias a bordo, com destaque para o gerador elétrico, para iluminação e alimentação de um projetor. A 20 de maio de 1920 foi abatida ao efetivo dos navios da Armada. (1)


(1) Comissão Cultural de Marinha

Artigos relacionados:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)

O registro dos tipos sociais se tornará efetivamente um tema para artistas portugueses somente a partir de inícios do século XIX, difundindo-se pelo viés "pitoresco" da literatura de viagem. E, nesse sentido, mostra-se semelhante ao caso brasileiro. 

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Admite-se que a primeira publicação a trazer estampas de tipos portugueses seja Travels in Portugal, do irlandês James Murphy, publicado em Londres em 1795

A portuguese merchant and his wife and maid servant, Travels in Portugal... 1789, 1790, James Cavanagh Murphy.
Biblioteca Nacional de Portugal

Segue-se a esta publicação o surgimento de uma coletânea de gravuras de fatura portuguesa em 1806, atribuída a Manuel Godinho, abridor de registros de santos e “estampinhas” devotas. Era aluno de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), gravador especializado na Itália e criador da Aula de Gravura da Imprensa Régia.

Quer bote?
O barqueiro, Manuel Godinho, 1809.
O Mundo do Livro

As coleções de costumes de Lisboa  de Godinho totalizavam 70 estampas gravadas a buril que seriam republicadas com acréscimos em 1809, 1819 e 1826 com títulos como Ruas de Lisboa ou Povo de Lisboa.

Os demais exemplos relativos ao século XIX surgidos durante a pesquisa são prioritariamente estrangeiros.

De 1809, por exemplo, datam as têmperas do francês Félix Zacharie Doumet (1761-1818), atualmente no acervo do Museu da Cidade, que bem estariam por merecer um estudo comparativo com as aquarelas de Debret. 

La conversation portugaise ou le temps perdu, Zacharie Félix Doumet.
ComJeitoeArte

Do mesmo ano, data a publicação de Sketches of  the country, character and costume in Portugal and Spain de William Bradford, editado em Londres, que comporta quinze gravuras de tipos portugueses.

Aqueduct of Alcantara.
Sketches of the Country, character, and Costume, William Bradford, 1808/1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

O mais famoso desses conjuntos seria o de autoria do francês Henri L’Evêque (1769-1832), intitulado Costume  of   Portugal (Londres, 1814), publicação dedicada a Antonio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca (1754-1817).

L’Evêque era um típico viajante, que fazia render seu talento aplicando-o a novos assuntos destinados ao mercado internacional.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Biblioteca Nacional de Portugal

Foi responsável pelo desenho que deu origem à famosa gravura de Francesco Bartolozzi (1725-1815) que representa a partida do príncipe regente d.João para o Brasil. (1) 


(1) Valéria Piccoli, O tipo popular e o pitoresco

*
*     *

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800, apontamentos gráficos e notas descritivas comparadas com a publicação de Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Momento de cenário amplo do Tejo e Lisboa distante. Figuras, apresentação de tipos e costumes num mesmo espaço.

Distinguem-se parte da muralha e do parapeito da esplanada do forte de Santa Luzia. As construções estão sitas sobre um alfaque rochoso, o Pontaleto. Sentado junto à parede do armazém um mariola, espera um frete ou um recado.

À esquerda, um personagem de manto e sobrecapa, cobre a cabeça com um bicorne. Sentado num pequeno muro, está ligeiramente reclinado. Escreve ou desenha, talvez, num pequeno caderno que não mostra. Será um observador conhecido, um passante distinto, nós mesmos, ou L`Évêque, o autor.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Perto deste, os burriqueiros. O garoto e o asno teimoso que não se levanta. O outro, mais velho, acena aos clientes garantindo a albarda mais macia, a manta mais limpa, a cadeirinha para as senhoras... "Quer bote?! Quer bote?!" Ouvem-se os barqueiros. "Merca a laranja da china!" Apregoa a vendedeira, que negoceia com o homem vestido à moda, inglês, talvez, que não desmonta o burro para não se sujar no areal que crê imundo.

Em Lisboa e nos arredores usam-se muito os burros...

Ladies riding on asses, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... à voz sagrada da religião, o coração do rico abre-se sem cessar à piedade, e o do pobre ao reconhecimento.

A poor woman, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

A baía espaçosa que forma o Tejo junto a Lisboa, e as costas vizinhas à foz deste belo rio, são tão ricas em peixe...

The fishwoman, La marchande de poisson, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... os condutores destes barcos são, na maioria, originários da pequena província do Algarve, que é renomeada pelos excelentes homens de mar que fornece.

The waterman, Le batelier, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Cães, sempre muitos destes animais, por toda a parte. A mulher, com a trouxa, ou cesta, debaixo do braço, recebe as ultimas recomendações da religiosa, sua ama. O tanoeiro sentado junto aos barris que o cliente há-de vir buscar, interrompe uma das jovens mulheres, talvez sua familiar. A outra conversa com o marido, ou irmão. Ao pedinte cego, o garoto que o acompanha desparasita-lhe os cabelos. Dois moços de fretes, galegos, aguardam. O barqueiro da pequena muleta impacienta-se.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... a grande afluência de estrangeiros que o comércio trouxe a Lisboa, desde há uma vintena de anos, produziu uma mudança muito sensível no vestuário das damas.

A young woman wrapped-up in her great coat, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Um elegante da classe do povo. Enverga um chapéu de três pontas, para se dar um ar de militar, tem um cigarro na boca, e embrulha-se num grande capote com mangas ["josésinho"], que traz durante todas as estações.

A petty beau, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... outros percorrem a cidade, conduzidos por uma criança, ou guiados por um cão inteligente e fiel.

The blind man, L'aveugle, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... são, na sua maior parte, naturais da Galiza (galegos) que vêm para Lisboa para fazer o trabalho de carregadores e de moços de recados, aproximadamente do mesmo modo que fazem os irlandeses em Londres e os saboianos em Paris.

The street-porter, Le porte-faix, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

O moço de estribaria segura as rédeas dos equídeos que, talvez, virão a acasalar. Dois cavalheiros, um com botas de montar, burgueses, talvez nobres, estão junto ao cavalo malhado. Atrás deste, um soldado de cavalaria da recém creada, por decreto do príncipe regente de 10 de dezembro de 1801, Guarda Real de Polícia sob o comando do exilado francês Conde de Novion. À direita os calafates, impermeabilizam os botes com estopa e bréu que fervilha no caldeirão da imagem seguinte.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Duas mulheres na praia, uma delas com uma criança, se forem lavadeiras, interromperam o trabalho na charca próxima à passagem do frade mendicante. Um bote é arrastado pelo areal, vai sair para Lisboa com o comerciante à proa e o soldado de pé. Mais ao lado está uma falua, com o seu mastro frontal tirado a vante e a quilha reforçada por quebra-mar.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... elas entregam-vos a roupa com uma brancura resplandecente, absolutamente desembaraçada de toda a espécie de nódoas, e perfumada com este odor suave que só a boa lavagem pode dar.

The washerwoman, La lavandière, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Os portugueses, sobretudo esses das últimas classes, têm uma veneração muito particular por Santo António, que nasceu em Lisboa, e que é conhecido pelo resto da catolicidade sob o nome de Santo António de Pádua.

The mendicant friar, Le frère queteur, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal


Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.