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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)

O registro dos tipos sociais se tornará efetivamente um tema para artistas portugueses somente a partir de inícios do século XIX, difundindo-se pelo viés "pitoresco" da literatura de viagem. E, nesse sentido, mostra-se semelhante ao caso brasileiro. 

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Admite-se que a primeira publicação a trazer estampas de tipos portugueses seja Travels in Portugal, do irlandês James Murphy, publicado em Londres em 1795

A portuguese merchant and his wife and maid servant, Travels in Portugal... 1789, 1790, James Cavanagh Murphy.
Biblioteca Nacional de Portugal

Segue-se a esta publicação o surgimento de uma coletânea de gravuras de fatura portuguesa em 1806, atribuída a Manuel Godinho, abridor de registros de santos e “estampinhas” devotas. Era aluno de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), gravador especializado na Itália e criador da Aula de Gravura da Imprensa Régia.

Quer bote?
O barqueiro, Manuel Godinho, 1809.
O Mundo do Livro

As coleções de costumes de Lisboa  de Godinho totalizavam 70 estampas gravadas a buril que seriam republicadas com acréscimos em 1809, 1819 e 1826 com títulos como Ruas de Lisboa ou Povo de Lisboa.

Os demais exemplos relativos ao século XIX surgidos durante a pesquisa são prioritariamente estrangeiros.

De 1809, por exemplo, datam as têmperas do francês Félix Zacharie Doumet (1761-1818), atualmente no acervo do Museu da Cidade, que bem estariam por merecer um estudo comparativo com as aquarelas de Debret. 

La conversation portugaise ou le temps perdu, Zacharie Félix Doumet.
ComJeitoeArte

Do mesmo ano, data a publicação de Sketches of  the country, character and costume in Portugal and Spain de William Bradford, editado em Londres, que comporta quinze gravuras de tipos portugueses.

Aqueduct of Alcantara.
Sketches of the Country, character, and Costume, William Bradford, 1808/1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

O mais famoso desses conjuntos seria o de autoria do francês Henri L’Evêque (1769-1832), intitulado Costume  of   Portugal (Londres, 1814), publicação dedicada a Antonio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca (1754-1817).

L’Evêque era um típico viajante, que fazia render seu talento aplicando-o a novos assuntos destinados ao mercado internacional.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Biblioteca Nacional de Portugal

Foi responsável pelo desenho que deu origem à famosa gravura de Francesco Bartolozzi (1725-1815) que representa a partida do príncipe regente d.João para o Brasil. (1) 


(1) Valéria Piccoli, O tipo popular e o pitoresco

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Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800, apontamentos gráficos e notas descritivas comparadas com a publicação de Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Momento de cenário amplo do Tejo e Lisboa distante. Figuras, apresentação de tipos e costumes num mesmo espaço.

Distinguem-se parte da muralha e do parapeito da esplanada do forte de Santa Luzia. As construções estão sitas sobre um alfaque rochoso, o Pontaleto. Sentado junto à parede do armazém um mariola, espera um frete ou um recado.

À esquerda, um personagem de manto e sobrecapa, cobre a cabeça com um bicorne. Sentado num pequeno muro, está ligeiramente reclinado. Escreve ou desenha, talvez, num pequeno caderno que não mostra. Será um observador conhecido, um passante distinto, nós mesmos, ou L`Évêque, o autor.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Perto deste, os burriqueiros. O garoto e o asno teimoso que não se levanta. O outro, mais velho, acena aos clientes garantindo a albarda mais macia, a manta mais limpa, a cadeirinha para as senhoras... "Quer bote?! Quer bote?!" Ouvem-se os barqueiros. "Merca a laranja da china!" Apregoa a vendedeira, que negoceia com o homem vestido à moda, inglês, talvez, que não desmonta o burro para não se sujar no areal que crê imundo.

Em Lisboa e nos arredores usam-se muito os burros...

Ladies riding on asses, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... à voz sagrada da religião, o coração do rico abre-se sem cessar à piedade, e o do pobre ao reconhecimento.

A poor woman, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

A baía espaçosa que forma o Tejo junto a Lisboa, e as costas vizinhas à foz deste belo rio, são tão ricas em peixe...

The fishwoman, La marchande de poisson, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... os condutores destes barcos são, na maioria, originários da pequena província do Algarve, que é renomeada pelos excelentes homens de mar que fornece.

The waterman, Le batelier, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Cães, sempre muitos destes animais, por toda a parte. A mulher, com a trouxa, ou cesta, debaixo do braço, recebe as ultimas recomendações da religiosa, sua ama. O tanoeiro sentado junto aos barris que o cliente há-de vir buscar, interrompe uma das jovens mulheres, talvez sua familiar. A outra conversa com o marido, ou irmão. Ao pedinte cego, o garoto que o acompanha desparasita-lhe os cabelos. Dois moços de fretes, galegos, aguardam. O barqueiro da pequena muleta impacienta-se.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... a grande afluência de estrangeiros que o comércio trouxe a Lisboa, desde há uma vintena de anos, produziu uma mudança muito sensível no vestuário das damas.

A young woman wrapped-up in her great coat, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Um elegante da classe do povo. Enverga um chapéu de três pontas, para se dar um ar de militar, tem um cigarro na boca, e embrulha-se num grande capote com mangas ["josésinho"], que traz durante todas as estações.

A petty beau, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... outros percorrem a cidade, conduzidos por uma criança, ou guiados por um cão inteligente e fiel.

The blind man, L'aveugle, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

... são, na sua maior parte, naturais da Galiza (galegos) que vêm para Lisboa para fazer o trabalho de carregadores e de moços de recados, aproximadamente do mesmo modo que fazem os irlandeses em Londres e os saboianos em Paris.

The street-porter, Le porte-faix, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

O moço de estribaria segura as rédeas dos equídeos que, talvez, virão a acasalar. Dois cavalheiros, um com botas de montar, burgueses, talvez nobres, estão junto ao cavalo malhado. Atrás deste, um soldado de cavalaria da recém creada, por decreto do príncipe regente de 10 de dezembro de 1801, Guarda Real de Polícia sob o comando do exilado francês Conde de Novion. À direita os calafates, impermeabilizam os botes com estopa e bréu que fervilha no caldeirão da imagem seguinte.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Duas mulheres na praia, uma delas com uma criança, se forem lavadeiras, interromperam o trabalho na charca próxima à passagem do frade mendicante. Um bote é arrastado pelo areal, vai sair para Lisboa com o comerciante à proa e o soldado de pé. Mais ao lado está uma falua, com o seu mastro frontal tirado a vante e a quilha reforçada por quebra-mar.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe).
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

... elas entregam-vos a roupa com uma brancura resplandecente, absolutamente desembaraçada de toda a espécie de nódoas, e perfumada com este odor suave que só a boa lavagem pode dar.

The washerwoman, La lavandière, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal

Os portugueses, sobretudo esses das últimas classes, têm uma veneração muito particular por Santo António, que nasceu em Lisboa, e que é conhecido pelo resto da catolicidade sob o nome de Santo António de Pádua.

The mendicant friar, Le frère queteur, Henri l'Évêque.
Costume of Portugal


Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (I de II)

Foi a recente publicação do professor Alexandre Flores, A via fluvial do Tejo entre Almada e Lisboa..., na qual a aguarela é parcialmente reproduzida, que nos chamou a atenção para a sua existência, e para a exposição de grata memória.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Reprodução fotográfica dos estúdios U. Antunes, colecção de Alexandre Flores

A aguarela, que descreveríamos como "Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque", foi apresentada ao público na exposição integrada nas Festas da Cidade de Lisboa de junho de 1978 e é referenciada, sem reprodução de imagem, no catálogo de 1979 dessa exposição, O povo de Lisboa", tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, da autoria de Irisalva Moita, então conservadora-chefe dos Museus Municipais de Lisboa.  

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*     *

O que se sabe então sobre Henry L'Évéque? Retenhamos o essencial da informação disponbilizada por Agostinho Araújo. Nascido em Genebra, no ano de 1768, debutou no desenho documental, como muitos outros aspirantes à arte da pintura, ilustrando a expedição de Horace-Bénédict de Saussure (1740-1799) ao Monte Branco.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Informa-nos o citado autor que L'Évéque "se especializou na pintura sobre esmalte", o que a nosso ver o aproximou da indústria relojoeira, de reconhecida tradição suíça, corporação da qual viria a receber apoios, nomeadamente através do relojoeiro Henrique de Sales, distribuidor das suas obras no Rio de Janeiro no período de fixação da corte portuguesa no Brasil.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A sua passagem a Portugal situa-se entre o inicio do século e meados de 1811, tendo presenciado momentos determinantes da história contemporânea, nomeadamente a partida da corte para o Brasil e o conflito peninsular, episódios a que dedicada espaço de relevo na obra produzida em território nacional.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

De Portugal passaria a Inglaterra onde com os seus parceiros editores pode ampliar a difusão da sua obra gráfica. Evocando inadaptação ao clima londrino, que dizia "inconveniente para a sua saúde", solicita com persistência, apoio do Príncipe Regente para passar ao Rio de Janeiro, oferecendo-se para fazer "vistas do Brasil, retratos em miniatura, ou em esmalte, ou a aguarela, ou para gravura", numa síntese oportuna feita na primeira pessoa que ilustra os seus interesses e competências em fase já madura da vida.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Deste período britânico deve pertencer a sua ascensão a "esmaltista da corte da princesa Carlota de Gales", aspecto a ter em consideração sobre esta outra fase Igualmente pouco conhecida da sua carreira.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Gorada a oportunidade de uma aventura nos trópicos junto da corte portuguesa, que não lhe concederia o solicitado apoio, terminaria os seus dias em Roma como pintor de paisagens, onde viria a falecer em 1832. (1)


(1) Miguel de Faria, Henry L'Eveque e outros reporteres, III. Dados biográficos, 2015

Leitura relacionada:
Irisalva Moita, O povo de Lisboa, tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, 1979
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa Scribe, 2018

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Edições impressas de Henri l`Évêque:
Henri L`Évêque, Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B... dedicated by permission to his lordship, London, 1812
Henri l`Évêque, Costume of Portugal, London, 1814

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Corrida de laços

N'estes dias de verão o Tejo é lindo; o sol faisca nas suas aguas, as margens parecem reverdecer e toda essa encantadora bahia do Alfeite de areias de ouro abre-se maravilhosamente á nossa vista, deixando vêr o fundo magestoso dos pinhaes, os torcicolos dos canaes a scenographia dos montes, erguidos sob a limpidez do céo. 

A pitoresca entrada do Alfeite do lado do rio, 1913.
Imagem: Hemeroteca Digital

Pelas tardes a aragem é branda e apetece navegar no rio para ir descançar um pouco na quinta do Alfeite.

O desembarque no cais do Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi um passeio que a Associação Naval realisou com os seus magnificos barcos acompanhados pelo "Alcochete" onde iam as senhoras das familias dos socios emquanto os habeis remadores conduziam velozmente as suas embarcações.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Fizeram-se as provas do programma com os seguintes resultados: outriggers foi ganho pelo Douro; inriggers pelo Rio Minho. 

Na quinta do Alfeite. A partida para a corrida dos laços, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Na corrida de laços ganharam a sr.a D. Maria Madeira e o sr. Alberto Madeira na de velocidade D. Henriqueta Clinton, na mixta miss Shirely e o sr. Henrique d'Aragão.

Os divertimentos na quinta do Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O passeio ao Alfeite do sócios da Associação Naval, Illustração Portugueza n.° 280, Lisboa, 3 julho 1911

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O canto dos pescadores do Tejo

Pescalio, Marino, Alcam.

O Mês de Março, natureza morta com peixes e mariscos, Josefa d'Óbidos, 1668.
Imagem: Saberes cruzados

Pescalio.

Marino, he tempo já de hirmos alçando
A pezada fateixa, e as brancas vellas
Hirmos das pardas cordas dezatando.
Já do Ceo dezertarão as Estrellas,
Mas tremólão as ondas, pulão vivas
As bogas cor de prata á tona dellas.
Não ferão hoje as oras tão esquivas,
Que colhamos a rede apanhadora,
Toda prenhe de pedras só nocivas,
Empurra tu a Lancha para fora;
Que eu de huma, e outra banda o leme engasto.
Ajuda tu, Alcão: carrega agora.
Já lhe podes metter o leme gasto:
Vamos saindo, e lá em mais altura
Accenderemos fogo ao pé do masto.
Que manhã tão gentil! Tao fresca, e pura!
Ah! Em quanto não somos sobre a costa,
Vejamos quem melhor no canto atura.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Marino.

Pelo teu gosto estou, mas sem aposta;
Canta tu lá conforme o teu dezejo,
Que eu só canto de quem minha alma gosta.

Alcam.

Pois cantem ambos, que eu a escota rejo.

Marino.

Inda que eu sobre as ondas fui creado.
Que do fruto das ondas me sustento;
Suspiro pelo campo apaixonado
Qual nossa embarcação pelo bom vento:
Só fobre o campo verde, e matizado
Com alegria os olhos apascento:
Só sobre elle he que eu vi o rosto bello,
De Filiz, porquem tanto me disvello.

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Pescalio.

Eu do campo nao quero as alegrias:
Nao quero as faces ver de neve pura.
Só quero ver das nossas margens frias.
As almas todas cheias de candura:
São melhores no mar as calmarias;
Que as virações rizonhas na espessura:
Mais que o Xerne, ou Corvina á molle Arraia,
Excede em tudo ao campo a nossa praia.

Marino.

Apascentar n'hum dia de deleite
Os olhos por hum prado verdejante;
Ver mulgir no curral o branco leite,
Dentro do grosso tarro fumegante:
Ver urdir a Pastora sem emfeite
A grinalda purpúrea , e alvejante;
Nada, nada produz tamanho gosto,
Como de Filiz ver o bello rosto.

Ai credo!, José Malhoa, 1923.
Imagem: borboletanaflor

Pescalio.

Undilia, a minha Undilia he mais formoza,
Que a Lua, e os Salmonetes encarnados:
A viração travessa, e preguiçoza
Vence no doce rizo, e nos agrados:
Por sua trança de oiro bulliçoza
Se ição loucos dezejos namorados;
Mas Undilia tao meiga como altiva,
Só tem hum Pescador; e os mais esquiva.

Marino.

Quando Filiz dezata a voz do peito
Ao tom de sua lyra torneada,
Se obferva o Cordeirinho satisfeito
C'o a relva sobre a boca pendurada:
O negrume do Ceo foge desfeito:
Perde o Sul a braveza de nodada.
Que sentirá por ella quem a adora
Com todo o excesso d'alma, auzente a chora?

Pescalio.

Huma manhã, que o vento furiozo
As Lanchas todas destroçar queria;
Que o trovão rebentando estrepitozo,
As mesmas rochas abalar fazia;
N'hum canto rogativo, e ferverozo
Rompeo Undilia a santa melodia.
Eis que morre o temporal tão carrancudo:
Mostra-fe o Ceo rizonho, o vento mudo.

Marino.

Se eu fem lezão das pedras para fóra
Arranco os caranguejos esquinados:
Se encho de mixilhões a qualquer ora
Fundos cestos de vime acugulados:
He só porque me lembro, alva Pastora,
Do influxo de teus dons acryzolados.
Sobre mim elles pódem mais por certo,
Que as Eftrellas do Olympo defcoberto.

Pescalio.

Se sendo Arrais da Lancha, eu a governo
Sem perigo das ondas espumantes:
Se eu tanto no Verão, como no Inverno
Advinho as tempestades innundantes:
Tudo devo ao poder invicto, e terno
De teus volúveis olhos faiscantes.
Por teus olhos, e face pudibunda
Se adorna o dia, o campo se fecunda.

Marino.

He tal minha paixão, e meu extremo
Por tua voz, e angélico semblante.
Que na auzencia de ti ás vezes temo
Cahir dentro nas agoas delirante.
Saudozo os braços cruzo fobre o remo.
Sobre o Ceo fito os olhos palpitante:
A pésca me enfastia, e aos outros rogo,
Que buscamos sem mais o porto logo.

Cecília, Henrique Pousão, 1882.
Imagem: Wikiwand

Pescalio.

He tal o meu amor o meu dezejo
Por teu rosto, oh Undilia appetecida,
Que se ao levar do Cáis eu te naò vejo,
Me agoiro sorte má na nossa lida.
Sem alguma esperança arrojo ao Tejo
Apoz huma outra rede entertecida.
Sem fé as dezenvolvo, porque caia
O pobre, ou rico lanço sobre a praia.

Marino.

Os dons do nosso trafego, Pastora,
Nao são dignos da tua gentileza;
Por isso de te dar nao ouzo agora
Quantos da minha conta forem preza.
Como vives no campo, os dons de Flora
Para ti só escolho por fineza,
Nao te darei maryscos, Peixes muitos:
Más ricos ramalhetes, ricos fruitos.

Pescalio.

Offertar-te nao posso os brandos véllos;
Os Cabritinhos tenros e balantes;
Nem os frutos rozados, e amarellos.
Os roxos cravos, os jafmins fragantes:
Mas posso-te offertar os peixes bellos,
Os Camarões, e as ostras gotejantes.
Os reconcavos búzios gritadores,
As conchinhas que brotao resplendores.

Marino.

Aviza-me, oh Pastora moça, e bella,
Quando a tua lavoira principia;
Quando a espiga desfolhas amarela,
Quando cuidas na cresta, e na tosquia;
Que eu hirei ajudar-te a toda ella
Sem mais premio, que a tua companhia.
Corresponde-me tu, qual te eu mereço,
Que eu do barco, e de tudo me despeço.

Cócegas, José Malhoa, 1904.
Imagem: Wikimédia

Pescalio.

Vem ver, loira Undilia, Mãe das graças,
Pular na area os peixes nadadores:
Comigo desprender as verdes naças;
Puxar pelos anzoes enganadores:
Vem alegre, não sejão tão escaças
Tuas feições c'os pobres Pescadores.
Tú mesma tirarás daquellas grutas,
Hum cestinho de amêijoas bem emxutas.

Marino.

Todo absorto de amor sincero, e grato,
Por, meu Bem tao honesto, e perigrino,
Eu juro fazer troca deste trato
Pelo trato Serrano, e Campuzino.
Antes viver com Filiz só n'hum mato,
Que com muitas no trafego marino.
Antes de Filiz huma graça pura
Que das bordas domar toda a ternura.

Pescalio.

Amar sempre esta vida Piscatoria
Por ti, oh meiga Undilia, eu firme juro.
Só c'o teu nome impresso na memoria
O norte crestador sem damno aturo.
Cantando encho os Tristões de assombro, e gloria
Em quanto corto o mar c'o remo duro.
E assim (sabe o Ceo!) talvez nao fora,
Se amara lá no campo huma Pastora.

Vista da Torre de Belém em LIsboa, Jean-Baptiste van Moer, 1868.
Imagem: Sotheby's.

Alcam.

Tendes ambos de amor mui bem cantado:
Mas vamos o aparelho já dispondo,
De forte que fiquemos pouco a nado.
Eu daqui c'o esta vara a rocha fondo:
Nelle o peixe se acolhe com o frio:


Armemos-lhe hum tresmalho de redondo.
Neste canto o bom Sável, o Safio,
O gordo Xerne abunda de maneira,
Que á mão mesmo se apanhão, muito a fio,
O ponto he, que ajudar-nos o Céo queira.


Disse. (1)


(1) Égloga [Écloga] piscatória, O canto dos pescadores do Tejo, Lisboa, na officina de António Gomes, 1811

Leitura complementar:

Francisco Pedro Busse, Poemas lyricos de hum natural de Lisboa, Égloga [Écloga] piscatória, Lisboa, officina de Simão Thadeo Ferreira, 1787
Francisco Pedro Busse, Poemas lyricos de hum natural de Lisboa TomoII, Lisboa, Regia Officina Typographica, 1789

Sobre Fr. Francisco Pedro Busse:
A parenética franciscana ao serviço da Monarquia por ocasião do nascimento de D. Maria Teresa de Bragança (1793)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Cartografias


Portugueses e Holandeses, séculos XVI e XVII

À excepção do mapa de Pedro Teixeira Albernaz, a configuração do litoral nas cartas terrestres é muito simplificada, quando comparada com as cartas nauticas. Isso não impediu Álvares Seco de marcar, aliás pouco criteriosamente, três cachopos arredondados a bloquear a entrada do Tejo, sem que o mesmo tivesse acontecido na barra de Setúbal. Privilegia-se, no entanto, a representação dos povoados, em número considerável e de importância expressivamente figurada nos originais, assim como dos cursos de água.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561.
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

Estranha-se, por isso, o pormenor com que Pedro Teixeira desenhou a costa portuguesa um século depois, o que levanta a suspeita de este mapa se ter baseado em levantamentos pormenorizados do litoral do País. Teria sido ele o responsável por estes levantamentos? Ter-se-ia servido de informações recolhidas por terceiros e, neste caso, quais?

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

Ele teve com certeza acesso aos anteriores trabalhos cartográñcos do seu irmao, João Teixeira, sobre a costa portuguesa (e terá participado neles?). Mas, em certas características do litoral, as configurações da regiao de Lisboa dos irmãos Teixeira não se assemelham [...]

Descripcion del reyno de Portugal (detalhe), Pedro Teixeira, 1662
Imagem: Biblioteca Nacional de España

Os mapas que forneciam aos pilotos indicacões para a entrada nos principais portos portugueses ou, de um modo geral, as cartas da costa de Portugal são inicialmente, e do que hoje se conhece através dos roteiros dos nossos cosmógrafos-mores, cópias umas das outras.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642,
reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mais grosseiras (como as de Mariz Carneiro, 1642 e edições sucessivas) ou mais artísticas (como as de Luís Serrão Pimentel, 1673), elas nem por isso são mais rigorosas e substancialmente diferentes entre si, e das publicadas por Lucas Waghenaer em finais de Quinhentos (embora os roteiros não sejam coincidentes, como pudemos comprovar comparando os textos portugueses com a tradução por nós promovida destes dois atlas holandeses, ainda não divulgada).

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

Por várias razões, suspeita-se que tivessem existido cartas portuguesas manuscritas anteriores sobre as costas do País, não estando verdadeiramente provado que a proveniência das que perduraram até aos nossos dias se deva àquele holandês [...]

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

A Carta Pormenorízada da Costa de Portugal desde o Cabo Fínísterra até ao Cabo de S. Vicente (Pascaart Van de Kust Van Portugal, Van C. de Fmisterre tot aen C. de S. Vincente), incluída num atlas de 1680 de Jean Van Keulen, nada mais nos parece ser do que uma versão das duas cartas correspondentes de Waghenaer. (1)

Nieuwe Paskaart van de Kust van Portugal Beginnende 3 a 4 Myl Benoorde C Roxent tot aen C de S Vincente, Johannes Van Keulen, 1685.
Imagem: BLR


Franceses, Espanhóis e Portugueses, séculos XVIII e XIX

Jean Nicolas Bellin (1703-1772) foi o primeiro engenheiro hidrógrafo da marinha francesa, isto é, um especialista em cartas náuticas (por oposição a "geógrafo", que se ocupava das terrestres) e director, desde 1721, do Dépost des Cartes et Plans de la Marine, criado no ano anterior. Foi nessa qualidade que preparou a segunda edição de Le Neptune François, saída em 1753. A esta seguir-se-iam várias outras edições durante todo o século XVIII.

No Neptune foi também incluída uma carta da região de Lisboa, para além de uma carta geral da costa portuguesa com a espanhola adjacente, que são reproduzidas noutros atlas do século XVIII, franceses e ingleses.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Com o título Plan du Port de Lisbonne et des Costes Voisines. Dressée au Depost des Cartes Plans et Journaux de la Marine Par ordre de M. de Machault Garde des Sceaux de France Ministre et Secretaire d’Etat aiant le Departem.t de la Marine, Par M. Bellin Ingr. de la Marine 1756, esta carta é idêntica à incluída em edições posteriores de L’Hydrographie; na primeira edição do Petit Atlas Maritime existe um mapa apenas da barra de Lisboa.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Talvez se possa dizer que as imagens de Portugal apresentadas nestes atlas são as que circulavam por toda a Europa no século XVIII.

Nos meados do século XVIII nem Espanha nem Portugal dispunham ainda de cartas hidrográficas suficientemente rigorosas que permitissem a segurança da navegação costeira. Em 1783, o Ministro da Marinha [de Espanha], D. Antonio Valdés encarrega D. Vicente Tofiño de San Miguel de colmatar essa lacuna [...]
Em 1787 ficou concluído um atlas, conhecido pelo início do título da primeira das 15 cartas, Carta Esférica de las Costas de España (...), datada de 1786 [...]

O segundo volume da primeira edição do atlas, publicado em 1789, continha 30 cartas, tendo por título Atlas Maritimo de España. As cartas da costa portuguesa são a número 8, Costas de Galicia y Portugal, e a 9, Carta Esférica desde C.o S.N Vicente hasta C.o Ortegal, estando datadas de 1788.

Atlas Maritimo de España, Vincente Tofiño de San Miguel (1732 - 1795),
Lopez, ed. 1804 - 1818, 1787.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nas primeiras décadas do século XIX o atlas de Tofiño continuava a ser imprescindível. O seu reconhecimento está patente nas numerosas cópias realizadas em Inglaterra, Alemanha, França e mesmo nos Estados Unidos, embora o rigor das cartas relativas a Portugal seja muito menor do que o das restantes, por Tofiño ter sido impedido de realizar operações em terra. É isso que explica que, em Portugal, seja Franzini o verdadeiro precursor da moderna Cartografia náutica [...]

Quaisquer que sejam as mais antigas fontes de Franzini, escritas e cartográficas, a referência a Pimentel revela um olhar atento à evolução dos conhecimentos sobre a costa portuguesa que Francisco António de Ciera e Tofiño fizeram avançar no fim do século XVIII, após mais de um século de grande estagnação. Durante todo o século XVIII as imagens difundidas do litoral português foram estrangeiras, como as J. N. Bellin, a que fizemos referência [...]

A carta geral da costa portuguesa foi publicada em duas folhas numa escala próxima de 1:600 000. A sua parte norte, com o título em inglês, Chart of the Coast of Portugal from Cape Silleiro to Huelba Bar (...), chega até Peniche, um pouco a norte de Lisboa; a folha sul, a Carta Reduzida da Costa de Portugal Desde Cabo Silleiro athé Á Barra de Huelba (...), completa o resto da costa portuguesa. Desta carta geral, e do roteiro que a acompanha, conhecem-se versões em francês, datadas respectivamente de 1816 e 1822.

Plano hydrográfico do Porto de Lisboa e costa adjacente até ao cabo da Roca,
Marino Miguel Franzini, 1806.
Imagem: GEAEM Instituto Geográfico do Exército

Além desta carta, Franzini publicou 10 mapas de portos, incluídos na Carta Geral que Comprehende os Planos das Principaes Barras da Costa de Portugal Aqual se Refere a Carta Reduzida da Mesma Costa (...), de que se vão analisar os referentes à barra de Lisboa e de Setúbal, com os títulos Plano Que comprehende huma parte do Rio Tejo e a Barra de Lisboa [...]

Carta geral que comprehende os planos das principaes barras da costa de Portugal aqual se refere a carta reduzida da mesma costa,
Marino Miguel Franzini, 1811.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No que se refere aos antigos mapas de Portugal Continental esse inventário está provavelmente incompleto e os estudos, dispersos e escassos, contemplam também quase exclusivamente os séculos XVI e XVII [...]

Perante este panorama pareceu-nos útil proceder a uma pesquisa mais ou menos sistemática da produção cartográfica, disponível em arquivos portugueses (que, na realidade, está dispersa por arquivos desorganizados), sobre o litoral de Portugal Continental, em particular da região de Lisboa, tentando comparar as cartas portuguesas com as que circulavam noutros países.

Mapa de Portugal, Fernando Álvares Seco, 1561.
Imagem: Wikimedia Commons

Entre os autores nacionais inventariados, cujos mapas representam com algum pormenor as barras do Tejo e do Sado, são de citar os de A. Mariz Carneiro (Regimento de Pilotos, 1642), João Teixeira Albernaz (Atlas Universal, 1630, e Atlas das Costas de Portugal, 1648), Luís Serrão Pimentel (Prática da Arte de Navegar, 1673), e Marino Miguel Franzini (Carta Reduzida da Costa de Portugal e Planos das Principais Barras, 1811), para além de se destacarem as cartas terrestres de Fernando Álvaro Seco (Mapa de Portugal, edições de 1561 e 1565) e de Pedro Teixeira Albernaz (Descrição do Reino de Portugal, 1662). (2)




(1) Dias, Maria Helena; Alegria, Maria Fernanda, Lisboa na Produção Cartográfica Portuguesa e Holandesa dos Séculos XVII, 1994, Edições Cosmos e Cooperativa Penélope, Lisboa
(2) Dias, Maria Helena; Alegria, Maria Fernanda, Quatro séculos de imagens do litoral português..., 2000, Revista Stvdia

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Tema:
Cartografia


Informação adicional:
Waghenaer
, Lucas Janszoon, Thresoor der zeevaert...
Pimentel, Luis Serrão, A arte de navegar

Tofiño de San Miguel, Vincente, Atlas Maritimo de España